segunda-feira, janeiro 29, 2007

A 'quarentena' remunerada

O Estado São Paulo

Sob a justificativa de que o Brasil precisa se adequar a acordos internacionais que assinou, entre os quais as Convenções Interamericana e a das Nações Unidas contra a Corrupção, o governo quer mudar as regras da “quarentena”. Inspirada em regras moralizadoras adotadas com sucesso nos EUA e na Europa, a medida foi posta em prática no País há alguns anos com o objetivo de impedir que funcionários públicos de primeiro escalão, como ministros e secretários de Estado, façam uso de informações privilegiadas ao deixarem seus cargos.
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Pelo Código de Conduta da Alta Administração Federal, que entrou em vigor em 2000 e foi concebido para evitar conflitos de interesses, os ocupantes de cargos de primeiro escalão ficam proibidos de, durante os quatro meses seguintes à sua exoneração, atuar na iniciativa privada ou como consultores em áreas relacionadas com as funções que exerceram na administração pública. Em compensação, continuam a receber o salário do governo. Atualmente, há apenas 92 cargos cujos ocupantes são obrigados a se submeter à “quarentena”, a um custo total de R$ 770 mil mensais para a União.
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O projeto do governo muda radicalmente a legislação vigente. Além de elevar de quatro meses para um ano a duração da “quarentena”, ele aumenta o leque de funções públicas abrangidas, incluindo dirigentes de autarquias, de fundações públicas, empresas estatais e sociedades de economia mista, assessores do governo, ocupantes de “cargos de natureza especial” e até burocratas de segundo e terceiro escalões. Estimativas da Controladoria-Geral da União, responsável pela proposta de mudança, indicam que, se o projeto for aprovado como foi enviado para o Legislativo, será ampliado para 2,5 mil o número de ex-dirigentes potencialmente enquadrados na “quarentena”. Eles continuariam recebendo salários entre R$ 6,3 mil e R$ 8,3 mil durante um ano, o que oneraria a folha de pagamento da União em mais R$ 15 milhões por mês.
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A proposta não poderia ser mais absurda. Como o PT “aparelhou” grande parte da máquina estatal, o projeto foi recebido como uma estratégia pouco sutil de criar um generoso seguro-desemprego para os “companheiros” que hoje estão no governo. Defendendo o projeto, o ministro do Controle e da Transparência, Jorge Hage, afirmou que a indicação dos dirigentes a serem beneficiados pela “quarentena” remunerada ficará a cargo da Comissão de Ética Pública e que eles terão de comprovar o recebimento de uma proposta de trabalho conflitante com as funções que exerceram. O problema é que a comissão é ligada diretamente ao Palácio do Planalto e seus integrantes são pessoas de confiança do presidente Lula. Em outras palavras, carece de isenção para fazer a triagem e evitar abusos.
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Além disso, o projeto tem outra grave falha. Para dirigentes competentes, que aceitaram sair da iniciativa privada para ocupar um cargo público ganhando bem menos do que recebiam, o prazo de um ano estabelecido para a “quarentena” é excessivamente longo. Ao contrário dos “companheiros”, cuja maioria não tem formação nem currículo para obter uma boa colocação em alguma empresa privada, os profissionais de alto nível, ao se exonerarem de uma função pública, só perderão dinheiro se forem obrigados a permanecer 12 meses sem poder retornar ao mercado de trabalho. Em outras palavras, o projeto desestimula profissionais de alto nível a aceitarem convites para ocupar postos no governo, o que impede os governantes de contar com colaboradores competentes e compromete a eficiência de sua gestão.
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Na realidade, a “quarentena” é uma medida moralizadora cujo alcance deveria ficar circunscrito somente à área econômica e às agências reguladoras. Como lembra o deputado eleito Paulo Renato Souza (PSDB-SP), que durante 15 anos ocupou cargos de primeiro escalão nos governos estadual e federal, até no caso de áreas aparentemente estratégicas, como a de licitações, o risco de utilização de informações confidenciais é pequeno. “O administrador que sai não tem controle sobre a decisão que seu sucessor tomará”, diz ele. Vamos esperar que o Legislativo rejeite o projeto.

TOQUEDEPRIMA...

PAC Social
Da coluna Painel da Folha de S.Paulo

"Deve sair no final de março a "versão social" do PAC, que terá três vertentes: a ampliação do valor e do alcance do Bolsa-Família, a unificação de todos os programas sociais do governo e o acréscimo de recursos para a Educação. O principal foco serão os jovens das periferias das grandes cidades.

Em conversas internas, Lula demonstrou preocupação com o tom excessivamente econômico do lançamento do PAC e pediu à área social que acelere as medidas para o segundo mandato.

Segundo o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), medidas como a ampliação da idade-limite para recebimento do Bolsa-Família para 18 anos terão impacto na redução da violência."

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Discurso no ar
Por Leila Suwwan, na Folha

Hoje em dia, após apertar o cinto e colocar a cadeira na posição vertical, passageiros de avião podem estar sujeitos a discursos sobre "greve" de controladores aéreos e "riscos de acidente" nas pistas de aeroportos. Vindo não de um vizinho de poltrona, mas do próprio piloto da aeronave.É o que aconteceu em um vôo da TAM, segundo relatório do Comando da Aeronáutica. Um militar testemunhou e registrou um comunicado do comandante do vôo 8023 para justificar um atraso de cerca de 30 minutos no embarque para o último trecho da rota Buenos Aires-Guarulhos-Brasília.A fala improvisada, ao que indica o documento, causou mal-estar nos passageiros e uma mulher precisou de atendimento de paramédicos.Procurada, a assessoria de imprensa da TAM informou que a gravação de voz da cabine foi solicitada para verificar o ocorrido. Afirmou que não é política da empresa permitir a prática improvisos no "speech" do comandante.Segundo o documento, o comandante disse em três idiomas que o atraso foi causado pela "greve de três meses dos controladores" e da "situação caótica de aeroportos".Depois, disse a passageiros que embarcaram em Guarulhos que havia "risco de acidente" e caos em Cumbica pois a pista de taxiamento estava em obras.Teria dito ainda que em Congonhas a situação é de insegurança e que deveria ser fechada porque causará um acidente.

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Próximo apagão aéreo
Por Leila Suwwan, na Folha:

A três semanas do feriado de Carnaval, considerado a nova prova de fogo da crise aérea, Aeronáutica, controladores e empresas aéreas prevêem caos nos aeroportos e já trocam acusações veladas entre si sobre quem serão os culpados.A própria Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que promete a "normalização" após cada auge da crise, agora não quer surpresa: deve anunciar amanhã a criação de uma força-tarefa para atuar em todos os feriados e fins de semana.Na Aeronáutica, a ordem é reforçar as escalas dos controladores e manter de plantão técnicos especializados nos equipamentos, para evitar o constrangimento da pane de 5 de dezembro, que paralisou o espaço aéreo. E ela aponta problemas de gestão nas empresas.Estas, por sua vez, estão contratando mais funcionários e fazendo uma "readequação" da malha de vôos como precaução contra o efeito TAM, empresa que precisou alugar aviões da FAB e da concorrência para resgatar passageiros nos aeroportos nas vésperas do Natal.Segundo o Snea (Sindicato Nacional das Empresas Aéreas), porém, não há como se preparar para um problema de controle de tráfego aéreo.E, para fechar a equação, os controladores de tráfego aéreo estão na berlinda. Após iniciar a operação-padrão no fim de outubro e obter apoio do governo para desmilitarizar o setor em dezembro, sentem agora um revés de força política.Está na mão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva há mais de um mês a proposta de desmilitarização, mas, entre férias e prioridades de agenda, ainda não há decisão oficial.


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Governo reverá auxílio-doença e aposentadorias por invalidez
Isabel Sobral, Estadão Online

BRASÍLIA - O ministro da Previdência Social, Nelson Machado, anunciou nesta quarta-feira, 25, que o governo fará esse ano uma reavaliação de aposentadorias por invalidez e auxílios-doença pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Essa será mais uma medida de gestão na tentativa de melhorar as contas da Previdência.

O ministro não quis revelar detalhes do plano de reavaliação das aposentadorias por invalidez, mas disse que é preocupante o fato do número deste tipo de benefício equivaler a 14% do total de contribuintes pessoas físicas do INSS, quando o padrão internacional está na faixa de 7% a 8%.

Machado rebateu, no entanto, qualquer comparação com o censo previdenciário que está em andamento para detectar pagamentos indevidos entre 17 milhões de aposentados e pensionistas. A idéia não é tratar o problema como casos de irregularidades, mas como uma "disfunção" do sistema brasileiro.

O plano deverá incluir ações integradas de reabilitação dos trabalhadores, análise da capacidade laboral de cada um e recolocação no mercado de trabalho. "Não se trata de apenas chamar as pessoas para verificar se continuam ou não incapazes", afirmou, acrescentando que o plano ainda está sendo desenhado. Ele garantiu, no entanto, que a base para sua execução já existe: o aumento do número de médicos peritos.

No próximo dia 12 de fevereiro, disse Machado, será instalado o Fórum Nacional de Previdência Social, criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma das medidas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Fórum, destacou, terá a missão de discutir um novo modelo previdenciário para o País para ser implementado gradualmente ao longo dos próximos anos. Segundo ele, no curto prazo, a idéia é focar a administração da Previdência na melhoria de gestão.

ENQUANTO ISSO...

O vai e vem de Furlan
Cristiana Lobo, G1

No começo de dezembro passado, Luis Fernando Furlan admitiu que poderia ficar no cargo neste segundo mandato. Mas, no fim do mês, a conversa era diferente: iria mesmo sair. Agora, dizem os principais auxiliares, isso não está muito bem certo.

A conversa com o presidente Lula ainda está pendente. Mas Furlan, que acompanha Lula na viagem a Davos, já está com um pé fora do governo. É o que dizem seus amigos mais próximos.

Isso fez voltar ao presidente Lula a idéia de transferir para o Ministério do Desenvolvimento o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia. Um dos mais elogiados por Lula, Walfrido já teve uma conversa com o presidente e o acerto é que ele continuaria no Turismo. Mas, com a saída de Furlan, ele poderia ir para o Desenvolvimento.

De olho nesta vaga estava - dizem assessores do presidente - o deputado eleito do Ceará, Ciro Gomes.


ENQUANTO ISSO...

"É melhor Furlan ficar", diz presidente

DAVOS - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de empregar um tom de brincadeira, deixou claro ontem desejar que o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, permaneça no governo. "O Furlan fará mais bem para a iniciativa privada continuando como ministro do que voltando para a iniciativa privada", disse Lula ao ser questionado sobre o tema por jornalistas.

"No setor privado ele vai fazer mal para o governo, vai lá no governo pedir financiamento para as empresas. É melhor ele ficar no governo." Furlan, que estava ao lado de Lula, limitou-se a sorrir. Na quarta-feira, Furlan havia sinalizado que teria pedido ao presidente sua saída do ministério. "Apresentei todas as justificativas, de ordem familiar, ao presidente", havia dito o ministro.

O Mercosul de Lula e a União Européia

Mailson da Nóbrega, Blog do Noblat

Hugo Chávez não foi o único a fazer declarações extravagantes na recente reunião de cúpula do Mercosul. O mesmo ocorreu com o presidente Lula e seu chanceler.

Lula falou que “nunca existiu um clima político tão favorável para a nossa integração”, mas pode ocorrer exatamente o oposto do que ele disse: o Mercosul se tornar irrelevante. O chanceler condenou o “economicismo” e invocou a União Européia (UE) para justificar o ingresso da Venezuela por critérios políticos, afirmando que a geopolítica deu o tom na UE, uma meia-verdade.

O projeto de criação da UE amadureceu longamente. O pacifista Victor Hugo foi um dos primeiros a defendê-lo, em 1851. Ao fim da Primeira Guerra, a idéia já era proposta por governantes europeus. Depois da catástrofe da Segunda Guerra, a integração européia começou a vingar.

Em maio de 1948, líderes políticos reunidos em Haia no Congresso da Europa, incluindo Winston Churchill, resolveram que seus países deveriam ceder parte de sua soberania para viabilizar a integração. Anteviam a criação de organizações supranacionais para estabelecer normas aplicáveis a todos. Chávez provavelmente rejeitaria tal decisão.

A integração visava ao crescimento econômico, à segurança militar e à reconciliação duradoura entre a França e a Alemanha, que se haviam enfrentando em três guerras sangrentas nos séculos 19 e 20. O primeiro passo foi o Tratado de Paris (1951), pelo qual seis países - Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo - formaram a Comunidade Européia do Carvão e do Aço.

Em seguida veio o Tratado de Roma (1957), assinado pelos mesmos países. Criou-se a Comunidade Econômica Européia (CEE), a qual se ampliou ao longo dos anos. No início dos anos 90 eram 15 os seus membros. O processo se intensificou com a harmonização crescente das instituições européias. Todos adotaram o mesmo sistema tributário. Nos anos 70 passaram a coordenar suas políticas macroeconômicas, incluindo mecanismos de sincronização das taxas de câmbio.

A construção do espaço econômico comum se acelerou com a padronização de políticas públicas. Regras comuns se aplicaram aos múltiplos aspectos da vida econômica e social, de transportes a pesos e medidas. Nasceram o Parlamento Europeu e a Corte Européia de Justiça. A defesa da concorrência foi atribuída a um órgão supranacional.

Esse processo culminou no Tratado de Maastricht (1992), que estabeleceu a UE. A integração econômica atingiu o ápice com a criação da moeda única, o euro, e o Banco Central Europeu, supranacional e independente. Em 2002, deu-se o passo mais ousado, rumo à possível união política: o estabelecimento da Convenção sobre o Futuro da Europa com o encargo de elaborar uma constituição (ainda não aprovada) para a UE, então ampliada para 25 membros (hoje 27) com a entrada de países ex-comunistas.

Como se vê, na União Européia prevaleceram visões geopolíticas muito fortes, enquanto no Mercosul as razões econômicas parecem estar mais presentes. Na Europa, seus líderes fundadores estavam determinados a criar um bloco para se contrapor à ameaça que vinha da União Soviética e a eliminar o risco de outra guerra mundial. Apesar disso, ao contrário do que disse o chanceler, nenhum país se tornou membro da forma como a Venezuela entrou no Mercosul.

De fato, todos os novos membros se submeteram a complexas negociações e a um longo processo de convergência para compatibilizar suas instituições aos requerimentos econômicos, sociais e políticos da comunidade. Esse processo contribuiu para que a Espanha, Portugal e a Grécia acelerassem o caminho para a democracia.

Diferentemente do que disse Lula, a ideologia de Chávez e seu “socialismo do século 21” são incompatíveis com o Mercosul. Como ocorre na UE, a integração exige a combinação de economia de mercado e democracia.

A Venezuela não tem uma nem outra. Entre os retrocessos institucionais de Chávez está a futura eliminação da independência do banco central venezuelano, o que impediria eventual criação da moeda única na região.

Na verdade, não há ginástica retórica que justifique a maneira como a Venezuela se integrou ao Mercosul. Foi um erro crasso. Muito provavelmente, Chavez bloqueará acordos comerciais com os EUA e a Europa. Era importante integrar a Venezuela, mas não assim.

*Mailson da Nóbrega é ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria Integrada

Recurso do FGTS é patrimônio do trabalhador

Roberto Monteiro Pinho, na Tribuna da Imprensa

Em que pese as centrais sindicais, pilotadas pela Força Sindical (com exceção da CUT, governista), entrarem em nome da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM) com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a medida provisória (MP/349) na qual o governo Lula da Silva propõe o saque do FGTS, para investimentos em obras de infra-estrutura, do denominado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), data maxima venia, o governo não vai abandonar a idéia deste esbulho oficial, que não deveria sequer ter sido anunciado.

O governo quer investir R$ 503,9 bilhões até 2010, mas a conta do resultado dos investimentos só poderá ser cobrada em 2011, ou seja, um ano após Lula sair do governo, o que dá para entender que o próprio presidente já estaria fora do governo, e com isso planejou o término do programa, porque não tem certeza do seu êxito.

Ocorre ainda que um "passarinho" confidenciou a esta coluna que o governo federal quer a todo custo o "milagre do crescimento" prometido, não importa quem pague a conta, até porque convém lembrar o malogro do BNH, que, mal gerenciado, acabou sepultado e com isso bilhões do FGTS foram para o ralo. O PAC vem através de MP, fruto de um pacote de MPs que Lula da Silva está despejando no Congresso, mas a legislatura nacional precisa estar atenta e não permitir o abuso do poder presidenciável, até porque, "quae contra legem jint nullius sunt momenti", é o que a sociedade civil quer e deseja.

Anamatra e centrais estão contra
Além das centrais sindicais, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) insurgiu-se e, brilhante, condenou através de nota publicada no seu site o uso de recursos dos trabalhadores em investimentos de risco, qualificando de imprudente a atitude governista. Mais à frente a entidade alerta para o fato de que "em caso de prejuízo no investimento (...) todo risco da aplicação ficará a cargo do investidor"..., diz a nota.

Da mesma forma que as centrais sindicais, argumenta que o dinheiro do FGTS só pode ser aplicado por força da Lei n° 8.036/90 em projetos de saneamento e habitação. Acontece que o governo federal não tinha para onde ir, o saldo da balança brasileira é pífia, a taxa de crescimento é baixa (das menores do mundo) e o dinheiro do INSS, que poderia ser alternativa para o governo, porque estaria utilizando verba por sua conta e risco, também não existe, foi dilapidado por todos os governos, inclusive o de Lula da Silva.

Alguns setores da economia estão sugerindo a adoção de captação de investimentos através de bônus, mas o problema e o formato deste novo processo teriam que sobrepujar o PAC. Por outro lado, Lula da Silva já conversou com as lideranças partidárias que dão apoio ao seu governo, e para articulação da aprovação do PAC (MP/349) desenha-se um quadro novo, que passa pela escolha do presidente da Câmara dos Deputados, e um embate entre situação e oposição certamente ocorrerá no Congresso nos próximos dias.

O superchefe da Casa Civil é um megaperigo

Elio Gaspari, Jornal O Povo (Fortaleza)

Desde a semana passada há dois tipos de ministros: Dilma Rousseff e os demais. A concentração de tantos poderes nas mãos do chefe da Casa Civil é uma experiência comprovadamente perigosa. O colapso do comissariado de José Dirceu, ungido "técnico do time" por Nosso Guia, não é apenas uma má lembrança. É a sinalização de um erro. A Casa Civil é a última instância do acesso de pessoas e de problemas ao presidente. Faltam-lhe quadros e estrutura para tocar planos de governo. FFHH foi um mestre na arte de simular a outorga de coordenações ao ministro Clóvis Carvalho. Em setembro de 1999, quando o tucanato lançou a opereta "Avança Brasil", o doutor cumpriu o mesmo papel dado a Dilma na segunda-feira. Resultou em quase nada.
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A idéia de expandir a autoridade e a exposição do chefe da Casa Civil nunca deu certo. Foram quatro os seus titulares com grande visibilidade, todos desastrosos para si e para os presidentes: Lourival Fontes, no segundo governo de Getúlio Vargas; Quintanilha Ribeiro, com Jânio Quadros; Darcy Ribeiro, com João Goulart; e José Dirceu. Se a exibição associou-se ao fracasso, a discrição ligou-se ao êxito. João Leitão de Abreu, o mais poderoso de todos os chefes da Casa Civil, senhor de baraço e cutelo da administração no governo do general Médici (1969-1974), não falava e só aparecia em reuniões oficiais. Não tem verbete na Wikipedia. (O general Golbery do Couto e Silva, que ocupou o cargo de 1974 a 1981, não teve o poder de Leitão e sua notoriedade tinha mais a ver com maquinações de bastidores e lendas construídas a partir do seu silêncio público.)
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Os grandes chefes da Casa Civil tiveram mais uma característica: não alimentavam projeto político individual. De uma lista de 30 pessoas que ocuparam o cargo desde 1936, a maioria perdeu-se no pó dos tempos.
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Quatro foram para o Supremo Tribunal e dois para os de Contas. Nenhum foi levado por voto popular a qualquer cargo executivo. (Marco Maciel, duas vezes vice-presidente, não conta.)
Ainda está para nascer quem queira impor a Dilma Rousseff limites para seu projeto político. Ela chegou à chefia do Gabinete Civil com mais de 30 anos de militância, alguns deles vividos na cadeia. Estava na faculdade quando seu nome entrou numa lista de 61 pessoas da organização em que atuava, todas procuradas pela ditadura. Onze morreram, com a idade média de 25 anos.
Em benefício do arranjo atual, deve-se registrar que Dilma Rousseff não acumula funções ostensivas de articulação política. Em prejuízo desse mesmo arranjo, pela primeira vez um projeto de desenvolvimento foi anunciado sem a presença do ministro do Planejamento. O doutor Paulo Bernardo, titular da pasta, estava em Amsterdam, num compromisso oficial. Não fez falta, pois esteve ao largo da concepção do pacote.
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Dilma Rousseff corre um risco adicional. Torna-se superministra de um presidente que, biograficamente, comporta-se como um urso que come seus donos. Assim aconteceu com Frei Chico, o irmão que o levou para o movimento sindical, e com Paulo Vidal, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo que o alavancou na diretoria da entidade.
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(Lula chegou a ecoar publicamente a insinuação pérfida de que ele fosse um agente policial: "Eu, sinceramente, não acredito nisso. (...) Mas estas dúvidas persistem.") O urso comeu José Dirceu, mordeu a perna direita de Antonio Palocci e a mão esquerda de Frei Betto. O apetite de Lula explica-se também pela gastronomia do Planalto. Lá os ursos adoram donos. O general João Figueiredo, que chamava Golbery de "senhor", devorou-o, mas não conseguiu digeri-lo. O surgimento de uma Super-Dilma (ou um super-seja-quem-for) na Casa Civil é um risco para a estrutura do governo, para os programas que venha a coordenar e para ela mesma. Faria muito mais sentido que recebesse o dobro dos poderes que tem e fosse nomeada ministra do Desenvolvimento, mandando como mandaram Delfim Netto e Fernando Henrique Cardoso enquanto estiveram na Fazenda. Mas, como diz Nosso Guia, "as soluções óbvias nem sempre são as mais fáceis."
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A Coalition
Baixou o caboclo George Bush no comissário Tarso Genro. Ele acaba de criar uma entidade chamada “Conselho Político da Coalizão”. Bush se refere às tropas que ocupam o Iraque como a “Coalition”. O conselho de Tarso será formado pelos presidentes dos partidos que apóiam Nosso Guia.
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Fez mais. Na sexta-feira, dia 26, distribuiu o texto de uma nota do Conselho, para ser divulgada depois da reunião de terça-feira, dia 30. A nota diz exatamente nada. Pode-se presumir que a reunião dirá a mesma coisa.
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Anjos urbanos
Na noite do dia 12, a cratera da obra da Linha 4 do Metrô de São Paulo ameaçava derrubar uma grua de 120 toneladas e 40 metros de altura, pondo em risco um edifício vizinho. Uma das soluções técnicas para a emergência era o imediato aterro do buraco, para estabilizar o guindaste. Acreditava-se que todos os operários haviam abandonado o local e não havia vítimas.
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A iniciativa foi abortada diante da informação de que uma van emitira sinais de rádio ao satélite da empresa de transportes, avisando que ela estava naquele buraco, a 26 metros de profundidade.
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Algum anjo da guarda protegeu os responsáveis pela obra. De fato, havia uma van na cratera, mas a história do sinal de satélite era falsa. O veículo não tinha esse tipo de equipamento.
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Também foi a sorte que permitiu a certeza de que o entregador, cujo corpo foi resgatado na quinta-feira, estava nas cercanias do acidente.
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Ele tinha dois celulares, com o registro das solicitações que recebia e dos clientes que atendia.
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Saudade do poder
Márcio Thomaz Bastos já confessa que terá saudades do poder. Não da cadeira de ministro da Justiça, mas do serviço das telefonistas do Palácio do Planalto, que acham qualquer um, a qualquer hora.
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O Paco
Nunca na história deste país brasileiros investiram mais no exterior (US$ 27,25 bilhões) do que estrangeiros investiram no Brasil (US$ 18,78 bilhões). É o Programa de Aceleração do Crescimento dos Outros.
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Aos mensaleiros
O deputado Arlindo Chinaglia informa: desautoriza e dispõe-se a denunciar publicamente, para que a lei cuide do caso, qualquer gestão destinada a amparar sua candidatura à presidência da Câmara que envolva negociações com órgãos públicos ou empresas estatais.
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Lula III
Fica registrado que no dia 22 de janeiro de 2007, numa entrevista ao repórter Gabriel Manzano Filho, o professor Leôncio Martins Rodrigues disse o seguinte: Há “no âmago” da estratégia de Lula a busca de condições “para que, no devido tempo, (se) comece a trabalhar por um terceiro mandato. Não é fácil acreditar que, dispondo de uma aprovação, digamos, de 60% ou 65% no seu último ano (…), ele mande parar as campanhas em favor de sua permanência. E ainda o discurso de movimentos populares e sindicais, de que se ele sair o neoliberalismo volta e estraga todo o progresso obtido... Volto a dizer: não estou prevendo que isso acontecerá. Estou advertindo para que os analistas e os eleitores pensem nisso com seriedade”. O aviso foi dado.

Lula advertiu Chávez

Denise Chrispim Marin, Lourival Sant’Anna e Vera Rosa

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva externou na segunda-feira, de forma indireta, a sua preocupação com o destino da democracia venezuelana, não pegou de surpresa o presidente Hugo Chávez. Quatro dias antes, Lula já havia feito, com tato, a advertência ao próprio Chávez.
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Foi na tarde do dia 18, numa reunião a portas fechadas de oito presidentes sul-americanos, numa sala do Hotel Copacabana Palace, no Rio, durante a 32ª Reunião de Cúpula do Mercosul. Num tom cauteloso, Lula indicou a Chávez a necessidade de evitar medidas que pudessem enfraquecer as instituições democráticas da Venezuela.
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Em seguida, falou o presidente da Argentina, Néstor Kirchner. Mas não para vir em socorro de Chávez, como o venezuelano fizera em duas ocasiões, em maio de 2005 e de 2006, comprando um total de US$ 2,74 bilhões em desacreditados bônus da dívida argentina. Kirchner foi ainda mais direto que Lula. Ele questionou Chávez sobre suas decisões, anunciadas dias antes, de nacionalizar o setor de energia elétrica e a CANTV, a maior empresa de telefonia da Venezuela. As medidas deixaram os investidores estrangeiros tão nervosos a ponto de a Argentina ter sido obrigada a suspender a emissão de US$ 500 milhões em bônus de sua dívida soberana.
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Na manhã seguinte, Lula e Kirchner se reuniram, a sós, na suíte do presidente brasileiro, no sexto andar do hotel. Boa parte da conversa foi dedicada à necessidade de conter os ímpetos de Chávez - não só suas atitudes nas cúpulas do Mercosul e da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), mas também seus ataques às instituições democráticas e à economia de mercado, com seus reflexos negativos sobre a imagem da vizinhança.
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Lula saiu da conversa convencido da necessidade de afastar o risco da contaminação. E decidiu marcar a diferença entre o Brasil e a Venezuela. Foi o que fez na primeira oportunidade: o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), na segunda-feira, a poucos dias do Fórum Econômico Mundial de Davos.
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“Crescer de forma correta é crescer mantendo e ampliando as liberdades civis e os direitos democráticos”, disse o presidente. E, mais adiante: “Aqui não se cresce sacrificando a democracia.” Um parágrafo depois, o presidente voltou ao tema: “A democracia é um ambiente mais saudável para o crescimento. Pouco me interessaria um aumento expressivo do PIB se isso implicasse, o mínimo que fosse, redução das liberdades democráticas. Assim como não adianta crescer sem distribuir, não adianta crescer sem democratizar.”
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O discurso foi redigido pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, e pelo publicitário João Santana. Mas o tema da democracia foi incluído a pedido de Lula.
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A repercussão do discurso - imediatamente associado à Venezuela, cujo Congresso se encontrava entre o primeiro e o segundo turnos da votação da Lei Habilitante, pela qual Chávez governará por decreto durante 18 meses - preocupou alguns ministros. “O presidente falou aquilo porque acha importante reafirmar os valores democráticos em todos os momentos”, diz a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. “O presidente não tem hábito de mandar recados”, descartou Marco Aurélio Garcia, seu assessor especial para assuntos internacionais.
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Em seu círculo íntimo, Lula queixa-se freqüentemente de Chávez. O presidente venezuelano cruza facilmente a fronteira entre o divertido e o incoveniente, entre o informal e o desrespeitoso. E cultiva o hábito de se convidar, com o agravante de que tem um avião à disposição. Numa ocasião, deixou Lula quatro horas esperando na Granja do Torto. Noutra, chegou com seu provador de comida, e ouviu de Lula: “Em minha casa, não.”
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Em 1.º de maio do ano passado, Lula identificou incentivo chavista na abrupta decisão do presidente Evo Morales de ocupar militarmente a refinaria da Petrobrás, na Bolívia. Três dias depois, os três se encontraram em Puerto Iguazú, no lado argentino da fronteira com o Brasil. Irritado, Lula cobrou de Chávez retribuição ao seu apoio à Bolívia e à Venezuela. E fez ver ao presidente venezuelano que a expropriação de facto boliviana prejudicaria o processo de integração sul-americana. Chávez e Morales recuaram.
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As tensões amainaram depressa e abriu-se o caminho para a Venezuela ingressar no Mercosul. Agradecido, Lula escolheu a Venezuela como destino de sua primeira viagem internacional depois de eleito, no fim do ano passado. E apoiou explicitamente a reeleição de Chávez, causando perplexidade na Venezuela e no Brasil.
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Uma semana depois, na 2.ª reunião de cúpula da Casa, em Cochabamba, Chávez conseguiria tirar Lula do sério novamente. No seu estilo inflamado, o presidente venezuelano proclamou a morte do Mercosul - ao qual acaba de chegar. De quebra, atacou duramente o esboço institucional da Casa - uma sigla que, para ele, “não significa nada”. Em resposta, Lula pediu, com outras palavras, mais respeito: “O fato de querermos mais, em termos de integração, não nos obriga a negar os avanços que já conseguimos obter.”
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Desde sua primeira eleição, em 2002, Lula tem-se servido de Chávez - ídolo da esquerda - para compensar sua guinada ao “neoliberalismo” no campo da economia. Até aqui, conseguiu sustentar a ambivalência entre discurso e realidade, gesto e sentimento. Mas está ficando cansado de Chávez.

TOQUEDEPRIMA...

Deputados torraram R$ 81 milhões de verba extra em 2006

Os gastos com pagamento de verbas extras aos parlamentares chegaram a R$ 81,330 milhões no ano passado, segundo reportagem publicada neste domingo (28.01) pelo jornal O Globo. O valor é suficiente para construir 2,9 mil casas populares ou pagar benefícios do programa Bolsa Família a 113 mil famílias durante um ano.
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As verbas indenizatórias têm que ser comprovadas com notas e podem ser usadas para pagar despesas com locomoção, hospedagem, combustível, contratação de consultores, aluguel, divulgação da atividade parlamentar e segurança e até compra de material de escritório. Por ano, cada deputado pode gastar até R$ 180 mil.
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Segundo levantamento feito pelo jornal nas prestações de contas apresentadas por 625 deputados, 74 deles gastaram o máximo possível, fazendo de tudo para usar o dinheiro. Quando foi estabelecido, em abril, o limite de R$ 4,5 mil para as despesas com combustíveis, até então consideradas excessivas, os deputados migraram seus gastos e passaram a apresentar notas de despesas com locomoção, hospedagem, alimentação e contratação de consultorias, pesquisas e assessorias técnicas. Ou seja, mudaram o tipo de despesa, mas continuaram gastando o máximo.
O deputado Severiano Alves (PDT-BA) é exemplo de migração de gastos depois do limite para despesa com combustível. Gastou até abril, quando foi criado o teto, R$ 36.549 com combustível e R$ 32.028 nos oito meses seguintes. Já com consultoria, o deputado gastou R$ 107.597.

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COMENTANDO A NOTÍCIA: A questão é a seguinte: enquanto no Brasil a Justiça não colocar sua mão pesada sobre este tipo de cafajeste, acreditem, vai ser difícil esperar desta gentalha mais dignidade. E mais: este é apenas um dentre centenas de desperdício de dinheiro público, que acaba ocasionando a incapacidade de Estado em investir em educação, saúde, estradas, etc. Por tal razão, não se concebe mais o manto protetor para os parlamentares da tal imunidade, que, de tão distorcida, tornou-se em sinônimo de impunidade para os canalhas.

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Justiça sem aparelho
Editorial da Folha de S.Paulo
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Dão margem a certa inquietude as especulações de que Tarso Genro, hoje titular das Relações Institucionais, seria deslocado para a Justiça na reforma ministerial a ser promovida pelo presidente Lula. Tal mudança, a julgar pela trajetória política de Genro, colocaria em questão a continuidade de avanços institucionais a duras penas obtidos nos últimos anos.
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A escolha de Márcio Thomaz Bastos para ocupar a pasta a partir de 2003 preservou algumas linhas de continuidade em relação ao perfil de alguns de seus antecessores imediatos. Como José Carlos Dias e Miguel Reale Jr., Bastos é um advogado de prestígio com afinidades partidárias, e não um político profissional com afinidades jurídicas - caso de Tarso Genro.
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À diferença de Bastos, o ex-prefeito de Porto Alegre é um quadro que provém diretamente da máquina partidária. Em plena crise do PT, vale lembrar, Lula despachou Genro para presidir a sigla em emergência. Este cumpriu com denodo a tarefa de acenar com mudanças - o termo era “refundação” - apenas até que passasse a fase aguda do mensalão. Depois que tudo se acomodou ao arranjo de sempre, Genro foi readmitido no governo.
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Márcio Thomaz Bastos saiu algo arranhado de episódios como a violação do sigilo do caseiro Francenildo Costa e a investigação do escândalo do dossiê (o que teria ocorrido se o ministério estivesse conectado diretamente à máquina petista?). Essas interrogações, no entanto, não invalidam seus méritos na modernização da Polícia Federal e na condução da reforma do Judiciário, que só foram à frente porque Bastos manteve certa distância do petismo militante.
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Seria um retrocesso se o Ministério da Justiça na segunda gestão Lula ficasse sujeito a aparelhamento político-partidário.

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Funcionários pagam "pedágio" no Congresso
Da Folha de S.Paulo

"Apesar da visibilidade de questões éticas, na esteira da sucessão de escândalos de maior ou menor impacto dos últimos anos, é possível encontrar todo tipo de pequenos desvios no cotidiano do Congresso.

Um dos mais comentados, e raramente documentado, é o chamado "pedágio".

Para engordar suas receitas, deputados e senadores contratam funcionários que têm de devolver parte do salários.

Geralmente, o esquema é feito com pessoas de extrema confiança que aceitam ser utilizadas como "laranjas", ou ainda com parentes."

E o orçamento?

por Ralph J. Hofmann, Blog Diego Casagrande
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Felizmente não vejo ninguém muito convicto das qualidades revigoradoras do PAC. Não muito sutilmente, o Grande Timoneiro está com cara de vendedor de óleo de cobra. Aliás, sempre foi vendedor de óleo de cobra. Óleo de cobra serve para tudo, raquitismo, arca caída, joanete, falta de vigor sexual, extração de corno.
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Inclusive não exige cobra nem óleo para fazê-lo. Iodo, álcool, água, chá preto, suco de zimbro e um pouco de autoconfiança do vendedor resolvem. Uma garrafinha que caiba no bolso e um belo rótulo também ajudam.
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Então, o governo vai dispor de uns 300 bilhões de dinheiro (do governo) para fazer o PAC? Vai prestar contas como? E vai provar que não está aumentando os impostos como? E como vamos saber que a execução das obras está sendo feita corretamente? Olha, nessa altura, melhor deixar como está e fiscalizar o bom e velho orçamento da nação.
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Ante o desempenho dos órgãos de fiscalização até a data, acho que estão nos vendendo o Viaduto do Chá. Ou um bondinho de Santa Teresa, no Rio. O problema é o seguinte: eu não compraria nem o óleo de cobra nem o Viaduto do Chá nem o bondinho de Santa Teresa. Nenhum amigo meu compraria. Nenhum dos mineiros do interior que eu conheço compraria!
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Mas, até o momento, sempre que surgiu uma dessas maravilhas, o Congresso tem comprado. Será que os últimos caipiras do Brasil acabam todos no Congresso? Mais precisamente, os últimos caipiras que compram bonde. Pois os caipiras que eu conheço operam o trator orientando os sulcos por GPM, analisam leite com espectrômetro de massa ou similar e controlam o peso do frango por computador.
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O que mais me deixa entristecido é que esses 300 e poucos bilhões serão gastos, mas o orçamento de verdade, aquele que precisa ser executado para evitar apagão, aftosa, falta de merenda escolar, falta de remédio, falta de filme radiográfico e salário de médico enfermeira e operador de radar, claro, esse orçamento, o da nação, vai acabar sendo contingenciado. E Deus nos livre do Lula precisar de um helicóptero novo ou a Gamecorp precisar aumentar o capital para que nossos jovens tenham acesso a dicas de jogos novos.
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Vou sugerir a heresia máxima: só vendendo mais umas estatais dá para enfrentar parte dessa PAC, e, talvez, o orçamento. Podemos até dar a Dilma Rousseff de prêmio a quem comprar mais estatais.

O Olho do Dono

Alessandro Garcia (*), Blog Cláudio Humberto

Há um conhecido ditado nosso que diz “O que engorda o boi é o olho do dono”, e claro, há uma verdade incontestável nisto. Mas vamos saber o que vem a ser “o olho do dono”.

Nos Estados Unidos, a produção média de leite por vaca por ano é de 8.881 lts/vaca/ano – segundo Food and Agriculture Organization, FAO. No Brasil, esta média é de 1.219 lts/vaca/ano, mais de sete vezes menor. Nossa produtividade por animal é pior de que na França, Alemanha, Itália, Argentina, México, Chile e outros dez países. Nosso rebanho leiteiro tem o dobro do tamanho do rebanho leiteiro dos Estados Unidos, 20,5 milhões de cabeças contra 9 milhões nos EUA, mas nossa produtividade é três vezes menor que no país norte-americano – 80 bilhões de toneladas de leite nos EUA contra 25 bilhões no Brasil. Ou seja, eles têm muito menos animais, mas sua produtividade é muito maior que a nossa.

Na Argentina, a produção de carne por cabeça de bovinos no país é 50% maior que no Brasil. Produzem proporcionalmente muito mais carne que aqui, mais rápido, mais profissionalmente e com mais lucro.

A média da produtividade animal no Brasil é de 5 arrobas por hectare anuais e 1.000 litros de leite por hectare ao ano, e com melhor gerenciamento, estes índices poderiam chegar a 57 arrobas e 43 mil litros de leite, respectivamente.
Mas por que o Brasil, apesar da grande quantidade de animais, tem uma produtividade tão fraca e tão ruim? Por que somos tão pouco produtivos e lutamos contra o caixa para manter nossas fazendas no saldo positivo, quando não levamos prejuízos consecutivos? O que há de errado com o “olho do dono” no Brasil?

“Dono” é a pessoa que mais se importa com o negócio, é quem vai desfrutar do lucro ou assumir a responsabilidade pelo prejuízo. É quem se expõe ao risco e quem gerencia o negócio, decidindo sobre compra, venda, contratações, demissões, etc.

O “Olho” é o controle e a supervisão do negócio.

Gerenciar uma fazenda é o mesmo que gerenciar uma empresa. Há produção, há gestão de recursos humanos, investimentos, salários, balanços, contabilidade, etc...

O que aconteceria em uma fábrica se alguns funcionários produzissem pouco e mal? O bom Dono que protege o negócio os identificaria e trataria ou de ajudá-los em seu problema ou demiti-los.

Quem produz o produto de uma fazenda? Os animais, bois e vacas.No Brasil, o que acontece com os bois e vacas que produzem pouco e mal? Nada.

Isto mesmo, não acontece nada. Por isto a produtividade aqui é tão baixa.Os Donos não identificam os animais ruins, os que só comem ração e não produzem carne nem leite satisfatoriamente. Não fazemos descarte dos animais certos ou mudamos sua alimentação.

Sim, aqui o “olho do dono” se limita somente ao seu alcance visual. Não acompanhamos a produtividade de cada animal, não registramos isto em um software, não reciclamos o rebanho de nossa fazenda para torná-lo mais produtivo. Achamos caro um software de R$300,00 que nos ajudará a aumentar a lucratividade da fazenda e de nosso negócio. Também achamos caro R$200,00 em uma visita de um técnico que identificará problemas e encontrará soluções, isso é absurdo demais para compreendermos. Uma ração um pouco mais cara que dobrará a velocidade de abate é demasiada custosa. Não fazemos as contas de o quanto isto vai impactar no aumento da produtividade e lucratividade.

O que nos falta é controle, é supervisão. Nossos olhos não estão engordando nossos animais a contento porque falhamos em agir profissionalmente, investindo na hora que devemos e em ferramentas adequadas. Temos excelente terra, volume gigantesco de animais, e grande capacidade para tornar nossas fazendas cada vez mais lucrativas; precisamos apenas controlar e profissionalizar.

Seu rebanho pode dar mais lucro, tenha certeza disto.

(*) Alessandro Garcia - é Estatístico formado pela UFMG, atua na área de Informática para a Pecuária há 13 anos.

Investidor quer reformas no País

João Caminoto e Fernando Dantas

Reformas macro e microeconômicas, menos regulamentação e mais combate à corrupção, esses são os requisitos essenciais para a economia brasileira crescer mais nos próximos anos, segundo a avaliação de cerca de 30 empresários, analistas e investidores que se reuniram ontem, num almoço durante o Fórum Econômico Mundial para avaliar as perspectivas do País.
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Apesar da presença do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o evento não atraiu muito a atenção dos delegados em Davos. Apenas metade das cadeiras do restaurante do Hotel Central estavam ocupadas.
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Durante o almoço, cada mesa discutiu um tema relacionado ao crescimento brasileiro. Curiosamente, Meirelles foi o coordenador do grupo que discutiu as reformas. “A nossa discussão apontou que a reforma tributária é a mais urgente”, disse Meirelles. “E o governo já está empenhado em aprová-la o quanto antes.”
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Furlan não perdeu a oportunidade para destacar os números positivos da balança comercial e o aumento da competitividade externa do Brasil no governo Lula.
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Kristin Forbes, professora associada de economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), disse que as reformas macroeconômicas e uma redução da informalidade no mercado de trabalho são prioritários. “O Brasil apresentou progressos importantes nos últimos anos, mas precisa avançar com mais rapidez no campo das reformas macro para crescer a taxas mais elevadas.”
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Apesar do clima descontraído, Meirelles não deixou de ser cobrado pelos elevados juros no Brasil. Antes do almoço, um dos participantes lhe disse: “Com pode o Brasil ter inflação de 4% e juros de 14%? Nunca vi isso em lugar nenhum.” Meirelles respondeu que a tendência de longo prazo dos juros é de queda. “Estamos no caminho certo”, disse.
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‘Sábio Lula’
O presidente Lula e os ministros que o acompanharam ao Fórum encontraram-se ontem de manhã com algumas dezenas de empresários e altos executivos de empresas multinacionais, no hotel Morosani Schweizerhof, em Davos, para uma exposição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e dos planos para o segundo mandato. Estavam presentes dirigentes de empresas como Motorola, Nestlé, Munich Re, Merrill Lynch, Shell e Lloyds Bank.Paul Bulcke, vice-presidente da Nestlé para as Américas, revelou que Lula defendeu a trajetória de queda da taxa básica de juros, a Selic. “O presidente explicou que não se pode baixar muito rápido, para não ter desequilíbrio, o que achei sábio”, disse. “Ele é muito equilibrado, acho superbacana esse equilíbrio que ele conseguiu entre o econômico e social, disse Alberto Weisser, presidente da trading agrícola Bunge, que tem extensa ligação com o Brasil e fala perfeitamente português.
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Alguns dos temas abordados no encontro foram o populismo na América Latina, o nível de poupança do País, a pirataria e o mercado de resseguros. Também fizeram rápidas apresentações os ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores; Guido Mantega, da Fazenda; Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento; e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
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Presente à reunião de Davos, o presidente do grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, também esteve no encontro no Morosani. Gerdau elogiou o PAC dizendo que “o mais importante é que a consciência de que não podemos crescer menos que 5% saiu da esfera tecnocrática para entrar na opinião pública como um todo”.
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Reiterando mais uma vez que não participaria do governo por questões de princípio, Gerdau disse acreditar que, “na área de contenção de despesas, o PAC ainda tem que ser ampliado”.

A ameaça do apagão elétrico é real

Relatório do governo prevê risco de apagão com PIB de 4%
Fonte INVERTIA

Relatório confidencial da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) do Ministério da Fazenda afirma que, caso o Brasil alcance taxas de crescimento anual superior a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como pretende o recém lançado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o risco de novo apagão no País será bastante alto. O PAC projeta PIB de 4,5% já neste ano, e alta de 5% em 2008.

De acordo com o relatório, ao qual o jornal O Estado de S.Paulo teve acesso, o Brasil poderá crescer 4% do PIB a cada ano, entre 2007 e 2010, somente se todas as usinas hidrelétricas em construção ficarem prontas no prazo e o abastecimento de gás natural das termeléticas se mantiver nos patamares atuais. Caso essas premissas não sejam garantidas, diz o documento, o consumo de energia ficará acima dos níveis considerados seguros. A despeito desses riscos, o próprio PAC já contempla medidas para ampliar a oferta de energia do Brasil, como uso de fontes alternativas e a aceleração da construção de novas hidrelétricas.

Segundo o relatório, o crescimento econômico de até 5% planejado pelo governo federal levará o sistema elétrico brasileiro a operar no limite, ficando sujeito a problemas externos como um período mais prolongado de chuvas fracas, desabastecimento de gás ou novas complicações na obtenção de licença ambiental para erguer novas usinas de geração de energia. A ocorrência de qualquer desses problemas levaria à necessidade de racionamento.

"Esse déficit (entre o consumo e a chamada energia assegurada) não significa a necessidade de decretar um racionamento, mas que seu risco é elevado", afirma o documento, o qual acrescenta que é "necessário que as autoridades competentes atentem para o aumento do risco sistêmico".

O relatório, no entanto, não especifica a partir de qual momento o risco de um novo apagão se tornaria maior. O mesmo documento cita dois outros estudos, realizados pela consultoria PSR e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sobre o mesmo tema. Segundo a UFRJ, por exemplo, o risco de apagão será superior a 5% já em 2009 caso a economia passe a crescer 4,75% ao ano.

Aumento dos preços
Para atrair investimentos privados que ampliem a oferta de energia, o relatório da Seae sugere a elevação da tarifa em parte das novas geradoras de energia planejadas pelo governo federal, afim de garantir maior rentabilidade para possíveis investidores. Em outrubro do ano passado, pelo menos duas de sete futuras usinas hidrelétricas - Cambuci e Barra do Pomba, no Rio de Janeiro - não tiveram interessados em leilão realizado pela União, a fim de autorizar a construção dessas unidades.

PAC prevê medidas para evitar apagão
O Programa de Aceleração do Crescimento anunciado pelo presidente Lula prevê cinco frentes de trabalho para minimizar os riscos de um possível apagão. A primeira é a criação de um projeto de lei que desburocratize a concessão de licenças ambientais que têm emperrado a constrção de novas usinas hidrelétricas; a segunda prevê a antecipação da produção de gás natural no País, que hoje depende sobretudo da Bolívia; nessa linha, o programa prevê a construção de gasodutos que permitam a compra do gás de outros países; a quarta medida seria o investimento no uso de mais fontes alternativas de energia, como a biomassa; a última iniciativa é melhorar as condições de financiamento do setor elétrico no BNDES.

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COMENTANDO A NOTICIA: Esta é uma das inconsistência que se fala sobre o PAC. Quando se diz isso, não é para fazer pouco caso do plano, e sim, para alertar o próprio governo a não cometer um erro de avaliação e de percepção. E em razão disto, já nos referimos ao plano como uma listagem de obras de médio e longo prazo. Jamais de aceleração de crescimento. Para tanto, precisaria o governo Lula ter brindado relacionamos reformas indispensáveis, e que sinalizariam maior segurança para investidores. E que investidor se sentirá seguro diante de agentes reguladores que, antes deveriam ser técnicos,e sob a égide do PT tornaram-se políticos. E esta é apenas uma das muitas razões para o PAC não passar de uma proposta de realização de obras, que poderão realizar-se ou não. Sendo assim, para o crescimento acelerar-se certamente precisará o governo elaborar algo melhor. E no campo da energia, pode-se dizer que o governo Federal não terá refresco não ! De um lado ambientalistas cvontinuar5ão infernizando qualquer projeto de construção de hidrelétricas. De outro, até os vizinhos poderão por empecilhos, conforme o Cláudio Humberto noticiou:

Sr. Encrenca ataca de novo
Lá vem a Bolívia de novo: Evo Morales não gostou da construção de hidrelétrica brasileira no fronteiriço rio Madeira, diz o jornal El Mundo. Diz não ter sido informado, teme danos ambientais e quer “participação”.


Muy amigo, não ?