quinta-feira, junho 07, 2012

Por que o investidor da Petrobras perdeu três vezes em 5 anos


Julia Wiltgen 
Exame.com

Nos últimos 5 anos, ações preferenciais desvalorizaram 5,5%, frente a uma alta de mais de 60% do CDI

Divulgação
Investidor da Petrobras precisa ser bem 
paciente para retornos de longo prazo

São Paulo – A partir deste mês, EXAME.com vai fazer o balanço do desempenho de algumas ações no longo prazo, avaliando a rentabilidade do investidor que comprou determinado papel há cinco anos. O primeiro balanço será o da ação preferencial da Petrobras (PETR4), uma das mais negociadas do Ibovespa, que desde 4 de junho de 2007 acumulou ligeira queda de 5,5%, fortemente afetada pela crise econômica mundial iniciada naquele ano. No mesmo período, o Ibovespa permaneceu praticamente no zero a zero.

Já nos últimos quatro anos – de 4 de junho de 2008 a 4 de junho de 2012 – o tombo foi ainda maior. Desde o pior ano da crise, fortemente abalado pela quebra do Lehman Brothers, a ação já teve perdas de quase 51%. A aversão global a risco desde aquele ano impactou as ações da Petrobras, cuja queda mais forte no período que se deu do meio para o fim de 2008. Em 2009, com a forte recuperação das bolsas, o papel voltou a subir. Mas do início de 2010 para cá, houve apenas quedas.

Em compensação, o CDI nos últimos cinco anos teve alta de 67,25%, enquanto que nos últimos quatro anos o acumulado foi de 50,46%. Ou seja, quem investiu em renda fixa conservadora, pós-fixada ao CDI ou Selic obteve ganhos maiores de rentabilidade. “O acionista da Petrobras perdeu três vezes no período: na rentabilidade nominal, na rentabilidade real e no custo de oportunidade, pois podia estar no CDI”, diz Luiz Francisco Caetano, analista de investimentos da corretora Planner.

A crise mundial foi um dos principais motivos para esse mau desempenho, uma vez que os resultados da empresa se relacionam diretamente aos preços mundiais do barril do petróleo e à atividade econômica. “Desde a crise do Lehmann Brother, o mercado nunca mais conseguiu se estabilizar, e a crise se espalhou para a Europa e um pouco para a China”, diz Erick Scott, analista de Petróleo e Gás da corretora SLW.

Como exportadora, a estatal sofre com a queda na atividade econômica mundial, e vem se voltando para países emergentes, como China, Índia e Rússia; mas se em 2008 e 2009 a China foi o motor do mundo, de 2010 para cá, os primeiros sinais de desaceleração no crescimento estrondoso de sua economia, bem como sua luta contra a inflação, vêm se tornando preocupantes.

Demanda chinesa arrefecendo e demanda mundial reduzida prejudicam as empresas exportadoras de commodities. Além disso, por sua tamanha liquidez, a Petrobras é um dos papéis mais prejudicados quando os investidores estrangeiros decidem fugir dos mercados mais arriscados em tempos mais críticos, em busca de portos seguros ao redor do mundo.

Preço do petróleo
Mas se alta no preço do petróleo desde 2007 beneficia o lado exportador da Petrobras, o lado importador de combustível sofre, e o controle governamental do preço interno dos combustíveis só agrava a situação. Em momentos de queda no preço da commodity, como foi observado do início do ano até agora, essa pressão sobre os preços internos dos combustíveis diminui. Mas em momentos de alta, a diferença entre o preço do barril e os preços dos combustíveis que são mantidos baixos no mercado interno prejudica os resultados da empresa.

“Mesmo depois dessa queda recente nos preços do petróleo, ainda há considerável diferença entre os preços dos combustíveis no Brasil e nos Estados Unidos: de 23% para os preços da gasolina e de 19% nos preços do diesel, considerando os valores antes de impostos. No caso da gasolina, a Petrobras deixa de ganhar dinheiro, mas no caso do diesel chega a ter prejuízo, pois parte do combustível é importado. Então, quanto maior essa diferença de preços, pior”, explica Luiz Francisco Caetano.

Capitalização e interferência do governo
A manutenção dos preços baixos dos combustíveis se dá por conta de outro fator importante no impacto negativo nos preços das ações da Petrobras: a interferência do governo como seu principal acionista para guiar os negócios de forma a atender ao chamado interesse público. Essa interferência não é de hoje, nem dos últimos cinco anos, e faz parte do jogo das estatais. Mas Caetano acredita que o sentimento de interferência governamental aumentou após um dos mais importantes acontecimentos ligados a empresa destes últimos cinco anos: a capitalização ocorrida em setembro de 2010.

A gigantesca capitalização de 120 bilhões de reais para projetos do pré-sal, contudo, também acabou trazendo impactos negativos às ações da companhia. O governo aumentou sua participação, diluindo os minoritários, numa operação voltada para um projeto de prazo realmente longo, cercado de incertezas e, portanto, bastante arriscado. “Aumentou essa sensação de que, com uma participação maior, o governo interviria mais na gestão da empresa”, diz Caetano. “A interferência política na gestão tem pesado”, completa Erick Scott.

Um ano depois da capitalização, as ações da estatal acumulavam queda de mais de 25%; até agora, a retração foi de 23%. “A recuperação do investimento para quem entrou naquela época ainda é difícil prever, pois agora também depende muito de uma recuperação do mercado, das economias globais, da tranquilidade dos investidores, de um acordo na Europa, de uma maior aceleração da China e dos Estados Unidos”, diz Scott.

Para Luiz Caetano, outro fator – que não é preponderante – é o fato de a companhia paulatinamente não alcançar as metas de produção, o que já ocorre há três anos consecutivos. Segundo ele, porém, as metas são elevadas. “O investidor fica sempre com esse sentimento de frustração. Ano passado a meta era 2,1 milhões de barris, mas só foram produzidos 2,021 milhões, o que é uma diferença pequena. Mas para o mercado, é muito importante essa diferença da produção prevista contra a produção real”, diz o analista.

Pré-sal
Mas nem tudo foi tão mal nestes cinco anos para a Petrobras. Em novembro de 2007, a companhia fez a descoberta do enorme campo de Tupi, na Bacia de Santos, com potencial de produção de 5 bilhões de barris de petróleo e 8 bilhões de barris de óleo e gás natural. Já em outubro de 2010 começou oficialmente a exploração comercial da camada do pré-sal.

Como o retorno financeiro da exploração do pré-sal não é para já, os analistas consideram que a Petrobras é, de fato, um papel para o longo prazo. “Se a companhia atingir as metas de crescimento e o cronograma de produção, as perspectivas são boas. Está previsto que em 2020 o tamanho da produção dobre, o que deve trazer valor para a empresa, elevando-a a outro patamar”, lembra Erick Scott, da SLW.

Segundo Luiz Francisco Caetano, a soma de todos os investimentos da Petrobras nos últimos cinco anos equivale hoje a 95% do seu valor de mercado. “É como se tudo que existia antes desse período valesse apenas 5% do valor de mercado, o que é um absurdo”, observa. “A projeção da companhia é um crescimento da produção de 50% até 2015. Mesmo que ela não chegue a tanto – atingindo, digamos, 40% - seu lucro deverá ser proporcional, com valorização das ações no longo prazo”, diz o analista. Nesta terça-feira, a presidente da Petrobras, Graça Foster, reafirmou sua confiança na melhora do desempenho dos papéis da empresa.

Quem comprou ações da Petrobras em 4 de junho de 2002 teve uma rentabilidade de 225%, mas ainda foi um desempenho inferior ao do CDI, que acumulou alta de 282%. “Mas essa é a valorização real da ação. Se considerar o pagamento de dividendos, por exemplo, a alta pode ter superado o CDI”, observa Erick Scott, da SLW. Com a atual perspectiva de taxas de juros mais baixas para os próximos anos, porém, o investimento em ações para o longo prazo vai fatalmente se transformar na alternativa para quem busca aumentar o patrimônio.

Brasileiro quer poupar mais água, gás e energia


Leticia Muniz 
Mundo do Marketing.com 

Pesquisa apontou que mais de 90% da população considera possível reduzir o consumo de recursos para preservar o meio ambiente

Divulgação
Cresceu o número de consumidores propensos 
a comprar produtos orgânicos, diz estudo

Rio de Janeiro - O brasileiro está cada vez mais propenso a tomar atitudes voltadas à proteção do meio ambiente. Essa foi a conclusão de uma pesquisa divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, em parceria com a Unilever, PepsiCo e Walmart, que apontou que mais de 90% da população já realizou ou considera possível reduzir o consumo de água, gás e energia elétrica em suas casas.

Segundo o estudo, as principais atitudes que os brasileiros estariam dispostos a tomar estão relacionadas à economia doméstica, como separação do lixo (86%), redução do gasto de energia (61%), menor desperdício de água (58%) e diminuição no uso de gás (22%).

Quando questionados sobre a prática de hábitos voltados à preservação do meio ambiente, no entanto, a maioria ainda não demonstra exercitá-los de maneira intensa e cotidiana.

Na pesquisa, o tema meio ambiente já aparece como o sexto maior problema do Brasil, com 13%, ultrapassando outros que se destacavam anteriormente como moradia, falta de fé, distribuição de renda, custo de vida e inflação.

Também cresceu o número de consumidores propensos a comprar produtos orgânicos (85%), enquanto 12% consideram que essa característica não faz diferença. Na última edição do levantamento, realizada em 2006, estes índices eram de 76% e 17%, respectivamente.

Sobre o sentimento que possuem em relação ao Brasil, 43% declararam sentirem-se muito orgulhosos com o país, contra 48% que afirmaram ter pouco orgulho. Destes, 9% dizem não possuir nenhum orgulho. Entre os problemas enfrentados, saúde aparece como o mais citado, seguido pela violência e o desemprego.

78% dos brasileiros não sabem o que é a Rio+20


Exame.com
Com informações Agência Estado

O levantamento também indicou que o meio ambiente é apenas o sexto principal problema do Brasil, apontado por 13% dos entrevistados

Reprodução
Além da percepção sobre a Rio+20, a pesquisa também questionou
 os hábitos dos brasileiros em relação às questões ambientais

São Paulo - Um estudo divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente na manhã desta quarta-feira revelou que 78% da população brasileira desconhece a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A pesquisa "O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável" ouviu mais de 2 mil pessoas de todo o País. O levantamento também indicou que o meio ambiente é apenas o sexto principal problema do Brasil, apontado por 13% dos entrevistados. A situação da saúde (81%) é a maior preocupação, seguida da violência (65%) e do desemprego (34%).

Mesmo com os baixos índices, a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira destacou que houve crescimento em relação às últimas pesquisas. Na Eco 92, quando foi realizada a primeira pesquisa, apenas 6% dos brasileiros conheciam o evento. Hoje, são 22%. "Em 1992, o meio ambiente sequer aparecia na lista de prioridades. Considerando que estamos falando de todo o Brasil, este índice não é baixo. Ele representa 40 milhões de pessoas", afirmou.

De acordo com o novo levantamento do Ministério, os brasileiros também desconhecem os principais conceitos discutidos no evento. A noção de consumo sustentável é ignorada por 66% do público, e o desenvolvimento sustentável por 55% da população. Os pesquisadores percorreram casas em áreas urbanas e rurais de todas as regiões e entrevistaram pessoas maiores de 16 anos. "É muito preocupante que a população não esteja alertada. Se ela não assume sua responsabilidade cidadã, nós efetivamente não vamos conseguir alterar o padrão em que a gente vive", afirmou Moema Miranda, uma das organizadoras da Cúpula dos Povos. "É como se isso não afetasse as pessoas no cotidiano".

Além da percepção sobre a Rio+20, a pesquisa também questionou os hábitos dos brasileiros em relação às questões ambientais, ao consumo, a separação e reciclagem do lixo. O estudo indicou que 51% da população disse que aceitaria pagar pela preservação da floresta Amazônica e que as belezas naturais são apontadas como o principal motivo de orgulho do brasileiro, com 28%.

Por outro lado, mais da metade (52%) dos entrevistados não separam o lixo em suas casas e 58% não têm costume de levar sacolas retornáveis ao supermercado. Dentre os problemas identificados pelo público, o desmatamento é considerado o mais grave (67%). A poluição dos rios e lagoas (47%) e do ar (36%), o volume do lixo (28%) e o desperdício de água (10%) também foram citados.

A responsabilidade sobre os problemas, segundo os entrevistados, é dos governos estadual, municipal e federal, respectivamente. A responsabilidade individual ocupa apenas a quarta colocação, indicada por 46% do público. "Em 20 anos, o brasileiro deixou de desconhecer o ambiente. Agora é hora de olhar pra os deveres e não só para os direitos", afirmou a ministra Izabella Teixeira.

Sangue e órgãos femininos armazenam células do feto por muito tempo depois do parto


O Globo

Estudo pode ajudar a entender aparecimento de algumas doenças relacionadas à gestação

SIMONE MARINHO
Mulheres carregam células dos fetos durante muito tempo depois do parto

RIO - Algumas mães literalmente carregam partes de seus filhos dentro de si. Uma pesquisa publicada nesta quarta-feira mostrou que o sangue de uma mulher grávida contém não apenas suas próprias células, mas um pequeno número das de seu bebê, e algumas delas permanecem no interior de seus órgãos muito tempo depois que a criança nasce. Entender a origem e a identidade desses tecidos é vital para compreender seus efeitos potenciais para a saúde feminina a longo prazo. Isso porque células do feto foram encontradas em locais onde se desenvolvem tumores, mas ainda não se sabe se elas estão ajudando a destruir ou a acelerar seu crescimento.

Três tipos de células do feto agora foram identificadas nos pulmões de camundongos gestantes mais velhas pela equipe de pesquisa liderada por Diana Bianchi do Tufts Medical Center, nos Estados Unidos. A pesquisa, publicada no Biology of Reproduction's Papers-in-Press, usou dados disponíveis para consulta pública para extrair informação genética importante. Uma combinação de duas técnicas de análise para caracterizar células fetais raras revelou uma população mista de trofoblastos (células da placenta que fornecem nutrientes para o feto), células estaminais mesenquimais (células que mais tarde se transformam em gordura, cartilagem, ou células ósseas), e células do sistema imunológico.

Os cientistas suspeitam que as células do feto no fluxo sanguíneo da mãe ajudam seu sistema imunológico a tolerar e a não atacar o feto. A detecção de trofoblastos e células imunológicas no pulmão materno deve auxiliar estudos futuros sobre este tema, bem como pesquisas em complicações relacionadas à gravidez, como pré-eclâmpsia. A presença de células-tronco mesenquimais fetais resgata estudos anteriores que relataram a existência de células fetais e da placenta se diferenciando para reparar órgãos maternos lesionados, tanto em camundongos quanto em humanos.

Usando técnicas de análise de expressão gênica, os pesquisadores agora devem ser mais capazes de identificar os tipos de células presentes em órgãos maternos e assim determinar seus possíveis efeitos a curto e a longo prazo sobre os sistemas internos de uma mãe.

O que é preciso para ter um SUS de qualidade?


Marco Prates
Exame.com

Pouca verba e má gestão estão entre os problemas que precisam ser resolvidos para que a saúde pública atinja um patamar mínimo de qualidade, dizem especialistas

Egberto Nogueira
O que temos:
 pacientes esperando no corredor no Hospital Mandaqui, em São Paulo

São Paulo - Não faltam críticas ao Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Quem não se cansou de ver na televisão - ou pior, ao vivo - cenas de longas filas de espera, pacientes amontoados em corredores e hospitais mal equipados?

Em uma escala de 0 a 10, o brasileiro dá nota 5,4 à saúde pública, de acordo com o Índice de Desempenho do SUS (IDSUS), elaborado pelo Ministério da Saúde.

Mas o jovem SUS – são 24 anos desde a Constituição de 88, que o criou, contra 66 do sistema de saúde britânico, uma de suas "inspirações" – tem ainda uma longa jornada pela frente. EXAME.com ouviu especialistas sobre os principais entraves que precisam ser combatidos para que a saúde pública tome o rumo certo no Brasil.

Mais dinheiro

Não é que o investimento no SUS não tenha melhorado nada nos últimos anos – a parcela do orçamento dedicado a ele passou de 2,89% do PIB para 4% entre 2000 e 2009 – mas é que, sob qualquer ângulo, o Brasil gasta muito, muito pouco para quem se propõe a ter um sistema universal de cobertura.

A titulo de comparação, o governo do Reino Unido gasta mais que o dobro, 8,2% do PIB, enquanto Canadá reserva 8%, segundo a Organização Mundial de Saúde. Na prática, o gasto per capita aqui ainda é uma fração de nações desenvolvidas com sistema universal, diferença que aumenta quando se compara o setor público e o privado.

Em 2009, o SUS pagou 909 reais por episódio de internação, enquanto as santas casas e cooperativas gastaram 2.798 reais e os planos de saúde 8.337, segundo o professor da Fundação Oswaldo Cruz e diretor-executivo do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (Cebes), José Noronha. “Você acha que com o SUS pagando isso é possível dar o mesmo cuidado que um plano ou uma santa casa? Por mais gerente que se seja, com esse preço médio, não”, avalia o professor.

Melhor gestão


Uma das críticas frequentes ao SUS é a má gestão. Não se trata de conversa fiada. Um dos gargalos é a falta de sistemas de informação eficazes para gerenciar a rede.

“O Brasil tem sete mil hospitais. Cerca de 70% são privados. Apenas algo em torno de 300 a 500 são informatizados. Como é que você consegue fazer gestão no século 21 sem tecnologia da informação?”, questiona o professor do Departamento de Prática de Saúde Pública da FSP/USP, Gonzalo Vecina. Na avaliação do especialista, é impossível desta maneira fazer estatísticas rápidas e confiáveis que permitam o remanejamento inteligente dos recursos físicos e humanos dos hospitais.

 Um exemplo do quanto ter as informações corretas – e utilizá-las sabiamente – gera bons resultados é o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), considerado de excelência em tratamento oncológico na rede pública. As filas de espera para início de quimioterapia e radioterapia raramente passam de um mês, enquanto no restante do SUS chegam a 3 meses, segundo um relatório do Tribunal de Contas da União do ano passado.

 “Você tem problemas em prontos-socorros e as pessoas se perguntam por que. É preciso ver se o pronto-socorro tem infra-estrutura para aquele local. É preciso avaliar a demanda e a adequação. O ICESP, 100% informatizado, vem crescendo dentro de um planejamento em que o número de atendimento é proporcional a estrutura apresentada”, afirma o diretor geral do ICESP, Paulo Hoff.

Outra questão relacionada a gestão é a autonomia das unidades de saúde. Você associa o SUS com falta de materiais básicos para atender a população e médicos e funcionários desmotivados? Esses problemas não existem ou são atenuados em hospitais considerados modelos do SUS, como o INCA, no Rio de Janeiro, e o Incor, em São Paulo.

Ambos são geridos por fundações ou OSCIPS, instituições da iniciativa privada. No que se refere aos hospitais públicos, este modelo tem sido bem sucedido no Brasil, destravando a burocracia estatal. 

“Elas compram, contratam e demitem, sem licitar, sem concurso e sem um expediente demorado”, afirma Gonzalo Vecina, da USP.

“É um modelo que dá mais liberdade de contratação e inclusão de exigência de metas”, acredita Paulo Hoff, do ICESP.

Além disso, ao não tabelar os honorários de todos os médicos e demais profissionais, esse modelo impulsiona a motivação. “Pela legislação em vigor, se eu sou um neurocirurgião, com oito anos de capacitação e passo o dia operando em pé, recebo tanto quanto um clínico geral que fica oito horas por dia sentado em um consultório. No SUS é tudo médico”, opina Vecina.

A adoção deste modelo, no entanto, tem limites, inclusive orçamentários, por isso funciona bem para atendimentos de alta complexidade, como a oncologia. Mesmo assim, há poucas iniciativas no restante do país. Alguns especialistas defendem que o modelo de Vancouver, no Canadá, ou Nova York, poderiam ser copiados. Nesses locais, uma empresa pública controla os hospitais, o que ainda permite certa autonomia administrativa. “E ainda garante o poder de negociação, já que as compras são feitas em grandes quantidades”, opina Noronha, do CEBES.

Saúde Básica

Já diz o ditado que prevenir é melhor que remediar. A máxima vale para a saúde individual e para a saúde financeira do governo, que sabe disso e tem investido na saúde básica. É preciso, porém, ampliar ainda mais o acesso da população à atenção básica, evitando que pessoas procurem e lotem prontos-socorros por motivos desnecessários ou, pior, somente quando o problema já está em estágio avançado e o tratamento é, portanto, mais caro.

O maior exemplo no Brasil hoje é o Saúde na Família, do Ministério da Saúde. “O programa é barato e tem boa resolutividade para casos menos complexos. Se eu ajo precocemente, eu diminuo gastos lá na frente”, afirma Gonzalo Vecina, do Departamento de Saúde Pública da USP.

Hoje, são mais de 30 mil equipes do Saúde na Família atendendo metade da população brasileira, segundo o Ministério da Saúde. Não só a rede de atenção básica – conceito presente também nas Unidades Básicas de Saúde – pode ser reforçada, como o caminho que os pacientes passam para ir da base até o atendimentos de maior complexidade precisa ser aperfeiçoado, acredita quem conhece o dia a dia do SUS.

Planos X SUS

O Brasil tem um sistema de saúde universal, mas quem pode foge dele. Pesquisas já apontaram os planos de saúde como sonho de consumo da chamada nova classe C brasileira. Hoje, 46 milhões de brasileiros, um quarto da população, tem o seu.

Mas esse conforto não significa independência completa do sistema público. É relativamente comum as operadoras terceirizarem algumas despesas para o SUS. Ou os cidadãos recorrerem a ele quando não conseguem cobertura da rede privada.

“O que é de alto custo os planos não fazem. A grande maioria dos transplantes de rim, pagamentos de medicamentos de alto custo e das hemodiálises no Brasil sai da conta do SUS”, afirma Gonzalo Vecina, da USP.

O especialista defende que esta dinâmica prejudica a formulação de políticas públicas e desperdiça recursos. “Os dois não podem ser suplementares, tem que ser complementares”, avalia o professor.

Riscos da maconha são 'subestimados', dizem especialistas


BBC Brasil

Chance de câncer para usuário diário seria a mesma de quem fuma um maço de cigarros por dia.

(Foto: AFP/BBC)
Médicos britânicos fazem alerta contra a maconha

Especialistas alertam que o público perigosamente subestima os riscos de saúde ligados a fumar maconha.

A Fundação Britânica do Pulmão (BLF, na sigla em inglês) realizou um levantamento com mil adultos e constatou que um terço erroneamente acredita que a cannabis não prejudica a saúde.

E 88% pensavam incorretamente que cigarros de tabaco seriam mais prejudiciais do que os de maconha -- quando um cigarro de maconha traz os mesmos riscos de um maço de cigarros.

A BLF afirma quer a falta de consciência é "alarmante".

Amplamente utilizado
Os números mais recentes mostram que 30% das pessoas entre 16 e 59 anos de idade na Inglaterra e no País de Gales usaram cannabis em suas vidas.

Um novo relatório do BLF diz que há ligações científicas entre fumar maconha e a ocorrência de tuberculose, bronquite aguda e câncer de pulmão.

O uso de cannabis também tem sido associado ao aumento da possibilidade de o usuário desenvolver problemas de saúde mental, como a esquizofrenia.

Parte da razão para isso, dizem os especialistas, é que as pessoas, ao fumar maconha, fazem inalações mais profundas e mantêm a fumaça por mais tempo do que quando fumam cigarros de tabaco.

Isso significa que alguém fumando um cigarro de maconha traga quatro vezes mais alcatrão do que com um cigarro de tabaco, e cinco vezes mais monóxido de carbono, diz a BLF.

A pesquisa descobriu que particularmente os jovens desconhecem os riscos.

'Campanha pública'
Quase 40% dos entrevistados com até 35 anos de idade -- a faixa etária mais propensa a ter fumado cannabis -- acreditam que maconha não é prejudicial.

No entanto, cada cigarro de cannabis aumenta suas chances de desenvolver câncer de pulmão para o equivalente aos riscos de quem fuma um pacote inteiro de 20 cigarros de tabaco, a BLF advertiu.

A chefe-executiva da BLF, Helena Shovelton, disse: "É alarmante que, enquanto pesquisas continuam a revelar as múltiplas consequências para a saúde do uso de maconha, ainda há uma perigosa falta de sensibilização do público sobre o quão prejudicial esta droga pode ser".

"Este não é um problema de nicho -- a cannabis é uma das drogas recreativas mais utilizadas no Reino Unido, já que quase um terço da população afirma ter provado".

"Precisamos, portanto, de uma campanha de saúde pública -- à semelhança das que têm ajudado a aumentar a conscientização sobre os perigos de se comer alimentos gordurosos ou fumar tabaco -- para finalmente acabar com o mito de que fumar maconha é de algum modo um passatempo seguro.'

O relatório do BLF recomenda a adoção de um programa de educação pública para aumentar a conscientização do impacto de fumar maconha e um maior investimento na pesquisa sobre as consequências para a saúde de seu uso.

OMS alerta para casos de gonorreia resistente


Veja online

Sete países já relataram casos da doença em que o antibiótico cefalosporina, última opção de tratamento, não foi eficaz

 (Thinkstock)
Bactéria 'Neisseria gonorreae': 
Austrália, França, Japão, Noruega, Suécia e Grã-Bretanha registraram casos
 de resistência ao antibiótico cefalosporina, última opção de tratamento disponível

Milhares de pacientes com gonorreia podem ficar sem opções de tratamento. De acordo com um alerta publicado nesta quarta-feira pela Organização Mundial de Saúde (OMS), sete países já relataram casos de resistência ao antibiótico cefalosporina – a última opção de terapia disponível hoje. Estima-se que anualmente 106 milhões de pessoas se infectem com gonorreia, uma doença transmitida sexualmente.

Até o momento, os países que registraram os casos de resistência são Austrália, França, Japão, Noruega, Suécia e Grã-Bretanha. "A gonorreia está se tornando um grave desafio de saúde pública, devido à alta incidência de infecções e redução nas opções de tratamento", diz Manjula Lusti-Narasimhan, do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da OMS. "Os dados disponíveis mostram apenas a ponta do iceberg. Sem um monitoramento adequado, não saberemos a extensão da resistência da gonorreia. Sem pesquisa de novos agentes antibacterianos, pode não haver tratamento eficaz em um curto prazo."

Medicação – 
Entre as novas orientações publicadas nesta quarta-feira pela OMS está a necessidade de um monitoramento mais apurado de quais antibióticos são usados no tratamento da doença. O órgão pede ainda que sejam realizadas mais pesquisas sobre possíveis tratamentos alternativos para infecções pela bactéria gonococo – causadora da gonorreia.

"Estamos muito preocupados com relatos recentes de falha no tratamento com a última opção disponível, a classe de antibióticos cefalosporina. Isso porque não existe nenhuma outra nova terapia em desenvolvimento", diz Lusti-Narasimhan. "Se as infecções por gonococo se tornarem não tratáveis, as implicações para a saúde serão significativas."

O especialista responde
David Uip
Infectologista e diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

"O alerta da OMS é preocupante. No Brasil não existe o hábito de se fazer rotineiramente a cultura, pesquisa direta e o antibiograma em casos de gonorreia. Assim, o paciente é medicado apenas com o diagnóstico clínico, o que nos impede de saber qual o tipo de antibiótico que, de fato, vai ser sensível ou eficaz em cada caso. Acredito que, a partir de agora, isso venha a se tornar algo obrigatório, para que se faça um rastreamento mais condizente desses casos de resistência. É importante lembrar ainda que no Brasil os casos de gonorreia e outras DSTs vêm aumentando a cada ano."



Saiba mais

GONORREIA

Doença sexualmente transmissível causada pela bactéria Neisseria gonorreae, organismo que infecta o revestimento mucoso da uretra, do colo uterino, do reto e da garganta ou da membrana ocular. Ela pode causar infertilidade tanto no homem como na mulher, aumentar o risco de infecção pelo HIV, aborto espontâneo. Casos de infecção severa no olho ocorrem de 30% a 50% dos recém-nascidos de mulheres com gonorreia não tratada, problema que pode levar à cegueira. O tratamento é feito com o uso de antibióticos.

Braquiossauro 'emagrece' mais de 50 toneladas em novo estudo


Veja online
Com Agência France-Presse

Estudo propõe novo método para calcular peso de dinossauros e aponta: muitas espécies tiveram sua massa corporal superestimada

(Divulgação / Universidade de Manchester)
Reprodução do escaneamento de esqueleto de braquiossauro 

Com cerca de 35 metros de comprimento, o braquiossauro já teve seu peso estimado em até 80 toneladas. Em novo estudo, o gigantesco dinossauro 'emagrece' mais de 50 toneladas: de acordo com artigo publicado nesta quarta-feira na revista Biology Letters, o animal pesava em torno de 23 toneladas.

Cientistas geralmente usam dados como tamanho e densidade dos ossos para chegar a conclusões sobre a massa corpórea do animal estudado. Esse tipo de cálculo inclui aproximações para as partes moles do animal – que não são preservadas junto com os ossos.

Para esse novo estudo, pesquisadores de duas universidades britânicas (Liverpool e Manchester) e uma americana (Brown) desenvolveram um modelo diferente para calcular o peso de animais a partir de fósseis: eles escanearam o esqueleto do animal e então aplicaram os dados obtidos em um modelo matemático.

Surpreendentemente difícil – 
Bill Sellers, pesquisador da Universidade de Manchester e autor principal do estudo, explica: "Uma das coisas mais importantes que os paleontólogos precisam saber sobre animais fossilizados é quanto eles pesam. Isso é surpreendentemente difícil, então nós estamos testando uma nova aproximação. Nós escaneamos com laser esqueletos de grandes mamíferos como urso polar, girafa e elefante, e calculamos o volume mínimo que envolve as principais seções do esqueleto".

Após testar o modelo com esqueletos de 14 grandes mamíferos, os cientistas descobriram que os animais têm em média 21% mais massa corpórea que volume de pele e osso. Aplicaram então esse modelo a um esqueleto de um braquiossauro que pertence ao Museu Natural de Berlim e chegaram à nova estimativa.

Para Sellers, a vantagem nesse tipo de modelo é que ele é mais rápido e objetivo. "O nosso método fornece uma medição mais precisa e mostra que dinossauros continuam sendo gigantes, mas não tanto quanto se pensava anteriormente", conclui Seller.

Opinião do especialista

Luiz Eduardo Anelli
Paleontólogo da USP e autor dos livros O guia completo dos dinossauros do Brasil e Dinos do Brasil

"Uma vez confirmada a eficácia deste novo método, a maioria dos grandes dinossauros, herbívoros e carnívoros, terá a massa corporal redefinida. Métodos anteriores estimaram a massa do Giraffatitan brancai (espécie do braquiossauro) em até 80 toneladas. Neste novo estudo, supostamente mais confiável, este gigante herbívoro de 35 metros de comprimento emagreceu mais de 50 toneladas"



"Se os paleontólogos reduzirem pela metade a massa de todos os grandes dinossauros, incluindo os predadores, teremos que reavaliar o quanto de alimento cada animal ingeria diariamente, redefinir seu hábitos, seu impacto sobre as florestas, a velocidade com que se deslocavam para perseguir presas ou fugir de predadores, o tempo de deslocamento durante as longas migrações e até mesmo como regulavam a temperatura corporal, isto é, se eram ou não homeotermos (animais cujos corpos mantêm uma temperatura constante, como os seres humanos), um dos maiores mistérios que cerca a vida destes animais."




Saiba mais

BRAQUIOSSAURO
Animais que habitaram a África e a América do Norte no final do período Jurássico. Eles pertencem ao grupo dos saurópodes, grandes dinossauros herbívoros e quadrúpedes que viveram há 150 milhões de anos. Eles tinham pescoço longo, cabeça e cérebros pequenos, dentes achatados e uma longa cauda.

JURÁSSICO
Período que pertence à era Mesozoica compreendido entre 199 e 145 milhões de anos atrás.

Política argentina 'exportar para importar' atinge até show de Madonna


Marcia Carmo
BBC Brasil

Restrições ao dólar faz produtora de Madonna 
ter problemas para pagar outros estrangeiros

Além de barrar produtos na fronteira, a política "exportar para importar" do governo Kirchner fez mais um alvo nos últimos dias: Madonna. Para garantir a apresentação da cantora no país, a produtora da turnê deve promover a artistas argentinos no exterior, segundo declarações à imprensa local.

A política do governo da Argentina visa impulsionar a produção local, ao controlar a entrada de importados, e conter a saída de dólares do país. Nas últimas semanas, o governo anunciou uma série de medidas para controlar a compra e venda da moeda americana.

Madonna deve se apresentar em Buenos Aires e Córdoba em dezembro deste ano. Para poder expatriar os dólares do cachê da artista, a produtora Time For Fan (T4F) teve de prometer à Casa Rosada um plano para exportar espetáculos de artistas argentinos para os países da América Latina, segundo a imprensa local.

"(O governo) nos pediu um esforço para aumentar a presença de artistas argentinos no exterior, para aumentar a exportação de artistas nacionais para se ter uma balança comercial mais equilibrada", disse Fernando Moya, diretor da T4F, ao jornal La Nación.

Segundo a reportagem, a produtora pediu audiência com o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, porque estariam tendo dificuldades para pagar em dólares os cachês de artistas internacionais que se apresentam no país, dada à rigidez para a compra da moeda.

A medida foi ironizada por jornais locais como La Voz del Interior, cuja reportagem foi intitulada "Madonna por Andrés Calamaro", em referência a um cantor argentino.

Procurada pela BBC Brasil, a produtora não respondeu às ligações e aos emails.

'Distorções'
Com a determinação de importar para exportar, o governo espera evitar a maior saída de dólares do país e equilibrar a balança comercial.

A ordem de exportar para importar provocou outros casos inusitados como o do campeão de ciclismo e medalha de ouro olímpico Juan Curuchet, que não conseguia importar seus equipamentos necessários para treinar para os Jogos Olímpicos de Londres.

Segundo a imprensa local, Curuchet contou que teria ouvido das autoridades locais a regra "para importar é preciso exportar". Ele então reagiu: "Somos um grupo de esportistas olímpicos. O que podemos exportar além do nosso esforço físico?".

Economistas ouvidos pela BBC Brasil disseram que a medida da Secretaria de Comércio Interior gera “distorções” ao setor comercial argentino.

Governo argentino vem agindo para controlar a venda de dólares

"O caso da Madonna é emblemático e o primeiro que vai gerar de fato mais exportação. A produtora vai exportar shows de artistas locais para a América Latina, num plano que inclui 2012 e 2013", disse o economista Abel Viglione, da consultoria Fiel.

Segundo ele, o mesmo fluxo não é observado nos outros setores da economia que tiveram que se adaptar para atender a exigência do governo.

Recentemente, chegou-se a especular que shows de artistas como Roger Waters e Eric Clapton corriam risco de não acontecerem porque não se sabia como atender à medida do governo.

Carros por vinhos
Segundo Viglione, os demais importadores precisam fazer uma engenharia sofisticada para atender as exigências do governo. Ele diz que há importadores de automóveis de luxo que passaram a exportar vinhos. Outros importam tecnologia e exportam, afirmou, alimentos balanceados para cachorros.

O economista Mauricio Claveri, da consultoria Abeceb, disse que o governo começou a aplicar a exigência em 2010 e que no ano passado as empresas passaram a buscar alternativas para manter o fluxo de seus negócios com o exterior.

"Mas as barreiras de importação e essa medida geraram distorções. Uma empresa que importa vidros deve comprar no mercado local. O governo diz que o país produz vidro e deve ser dada prioridade à empresa nacional. O problema é que às vezes o produto específico ainda não é fabricado no país ou a quantidade é limitada", afirmou Claveri.

Ele lembrou que o governo quer manter o superávit comercial de dez bilhões de dólares, como registrado no ano passado, e os números indicam que a meta será alcançada, mas com menos comércio com outros países, como o Brasil, por exemplo.

Em maio deste ano, a União Europeia (UE) denunciou a Argentina na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as travas do país ao comércio exterior. Nesta semana, o Ministério das Relações Exteriores disse que atenderá pedido de consultas da UE.

Inconsistência política prejudica Argentina, dizem analistas


Marcia Carmo
BBC Brasil

A inconsistência na condução da política econômica da Argentina prejudica o desenvolvimento do país no longo prazo, no entendimento de analistas, diplomatas e políticos ouvidos pela BBC Brasil.


Cristina nacionalizou empresas que
haviam sido privatizadas anteriormente

''A Argentina é um país ciclotímico, um país com zigue-zague que não aprende com o passado. Repete os mesmos erros em outros contextos'', disse o ex-embaixador do Brasil na Argentina, Marcos de Azambuja.

Para ele, a alma do país vizinho é ''complexa'' e entre uma decisão ''sensata'' e outra ''abrupta'', os argentinos preferem sempre a ''abrupta e traumática''. Na sua opinião, a forma como foi realizada, no mês passado, a estatização da petroleira YPF de capitais espanhóis e argentinos, confirma este perfil.
''Um país pode ter o direito de optar pela nacionalização, mas de uma forma negociada, conversada, e não da forma abrupta como foi feita'', afirmou. Azambuja entende que as ''guinadas abruptas'' marcam a história do país que costuma pensar ''no curto prazo'' sem planejar os efeitos das medidas no longo prazo.

Para ele, a trajetória da política e da economia brasileiras é diferente, já que no Brasil, entende, costuma-se optar por transições paulatinas e sem a tendência ao ''extremismo'' como ocorre com a Argentina.

Aerolíneas Argentinas
Como exemplo de ''zigue-zague'', Azambuja citou a companhia aérea de bandeira nacional Aerolíneas Argentinas – que, como a YPF e empresas de outros setores, foi privatizada nos anos 90 e estatizada na gestão da presidente Cristina Kirchner.

''Eu já vi a Aerolíneas ser privatizada, ser vendida para a Ibéria e de novo estatizada. É um país que vai mudando suas medidas com frequência'', disse.

Ex-privatista, Menem aprova estatizações realizadas por Cristina

O ex-embaixador da Argentina no Brasil, Alieto Guadagni, também entende que a raiz das incertezas sobre o futuro econômico da Argentina está na ''mania de não se pensar no longo prazo''. Para ele, o ''imediatismo'' e a ''imprevisibilidade'' são responsabilidade dos ''políticos'' que governam o país.

''Cada novo governo entende que é hora de recomeçar tudo de novo, e não há continuidade das medidas. Esse é um problema que afeta o desenvolvimento do país e afasta os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED)'', disse Guadagni.

Dados da Cepal revelaram que o Brasil recebeu 43,8% do IED em 2011 e a Argentina cerca de 7% do total. O país perdeu posição para países que antes indicavam menor potencial econômico, como Colômbia e Peru, por exemplo. ''Difícil investir em um país que não estabelece regras de longo prazo'', afirmou o ex-secretário de Energia, Daniel Montamat.

Nos quase 20 anos de seu período democrático (iniciado em 1983), a Argentina defendeu as estatizações, na década de 80, as privatizações, nos anos 90, e novamente as estatizações nesta década, do século 21.

Além da YPF e da Aerolíneas Argentinas, o governo de Cristina Kirchner estatizou os fundos de pensão e de aposentadorias e seu marido e antecessor, Nestor Kirchner (2003-2007) e empresas como a de Correios e de Águas.

Petrobras 


A falta de continuidade e eficácia das agências públicas de controle dos setores privatizados é outro problema detectado por observadores atentos da Argentina.

Um integrante do governo da presidente Dilma Rousseff recordou que a petroleira YPF, fundada em 1922, foi modelo para a Petrobras, criada em 1953 - mas ao anunciar a estatização da YPF neste ano, Cristina citou a Petrobras como modelo a ser copiado.

''Os argentinos tiveram a grande ideia da YPF e nós, brasileiros, nos inspiramos nela para criar a Petrobras. A diferença é que levamos a ideia adiante e cuidando do desenvolvimento da empresa enquanto a Argentina foi obrigada a privatizá-la porque mal administrada tornou-se impossível para o caixa do governo. A privatização não foi então questão ideológica, mas financeira'', afirmou o integrante do governo brasileiro, que não quis ser identificado.

A senadora de oposição Norma Morandini disse que foi contra a privatização da YPF e que era a favor da estatização, mas não da forma como foi feita. Por isso optou pela abstenção na votação da lei que nacionalizou a companhia. ''Acho que um país deve controlar seus recursos naturais, como o petróleo, mas eu não poderia apoiar uma estatização mal feita. A Argentina passou de exportar a importar petróleo (neste século) não só pela Repsol-YPF, mas pela má administração das atuais autoridades'', afirmou.

Num debate no Senado argentino, o historiador econômico Nicolas Gadano, ex-empregado da YPF, recordou que a companhia foi uma empresa ''moderna'', mas que pecou pela falta de ''cuidados e de continuidade''. ''Foi uma empresa moderna que chegou a ter 50 mil empregados. Mas com uma presença forte demais dos sindicatos e com péssima administração e quase quebrou no fim dos anos 80'', disse Gadano.

Nacionalização da YPF recebeu forte apoio popular


O economista Orlando Ferreres também entende que a Argentina inicia, mas não conclui seus projetos. ''Antigamente, quando alguém começava a obra de uma casa aqui na Argentina primeiro plantava uma palmeira, mas quando não podia concluir a obra, lá deixava a palmeira. Daí surgiu a expressão, 'estar na palmeira'. E é como há muito tempo estamos na Argentina'', disse Ferreres.

Como Guadagni, ele acredita que os políticos do país costumam defender o ''relançamento'' da Argentina, a partir de suas próprias ideias, mas sem pensar no conjunto do país e em seu futuro. Ele disse que a Argentina acaba ''improvisando'' suas medidas e afugentando os investimentos e projetos de longo prazo.

Na opinião de Ferreres, os argentinos precisam de uma ''mudança moral'' para gerar um ''projeto de longo prazo''.