Adelson Elias Vasconcellos
Dilma Rousseff assumiu a presidência em 01 de janeiro passado. E, por mais que se diga de suas qualidades e defeitos, ela conhecia bem os meandros do governo anterior, como também, e mais do que qualquer outro, conhece o projeto de poder do seu partido e os apetites de seu antecessor.
Ainda se pode acrescentar à safra de conhecimentos e experiências, que a atual presidente conhecia nas profundezas, a dificuldade de se governar tendo o PMDB como aliado, não apenas pelo fisiologismo que alimenta o partido, mas a sua presença marcante no quadro político brasileiro.
Assim, Dilma conhece desde o primeiro segundo de mandato as dificuldades políticas que encontraria pela frente. Dificuldades estas que se somariam as do campo econômico, cujo quadro, tanto interno quanto externo, tinham mudado muito na metade final do segundo mandato de Lula.
Se a gente fizer um retrospecto do que Dilma disse sobre a presença de Lula em um futuro governo seu, fosse na campanha ou mesmo logo depois de eleita, verá que Lula sempre foi tido e havido como uma espécie de consultor. E Dilma se orgulhava de poder contar com a presença – e os conselhos – que poderia pedir a Lula em momentos difíceis. Mas deveria ter em mente, também, o quanto Lula significa de peso político: por onde passa, existe apenas ele como figura central, o resto é comitiva.
Pergunto: quantas foram as vezes que Dilma, nestes pouco mais de cinco meses de mandato, ligou ou falou com Lula de forma um tanto confidencial e em segredo? E, apenas para ilustrar o que vem a seguir, quem chamou Lula a Brasília para apagar o incêndio chamado Antonio Palocci?
Portanto, dizer-se que Dilma sentiu-se constrangida pela presença de Lula e da imagem que esta presença causou perante as pessoas, creio ser um pouco demais.
Assim, não tem sentido agora que alguns analistas e comentaristas políticos fiquem comemorando que o governo Dilma, a partir do troca-troca de ministros da semana passada, começa, de fato, a partir destas mudanças. Quem escolheu o estilo de comando foi a própria Dilma e, no retrospecto proposto acima, a gente logo percebe que ela passou a maior parte do seu tempo administrando os apetites de seu partido e do aliado PMDB. Ambos se confundem na sede de poder, e um não aceita que o outro ganhe mais espaço e projeção. Ou seja, Dilma tratou primeiro de amansar a manada de sua base aliada, e esqueceu o fundamental: governar o Brasil.
A presidente, pela presença que teve no governo de Lula, não tinha a desculpa de que, primeiro, precisava apurar a situação do país para impor programas, projetos e ações. Ela sabia bem o que era preciso fazer porque estivera presente no comando destas ações, projetos e programas por mais de um mandato. Conhecia bem o estado das finanças, até porque teve um período de transição em que, naquilo que não conhecia de perto, teve oportunidade de tomar ciência antes mesmo de assumir.
Ora, a estratégia de “política interna” adotada pelo estilo Dilma, já se vê, gastou precioso tempo em que o país ficou a espera de uma voz de comando para dar sequência ao que estava em curso e para se discutir o que se desejava reformar.
Esta espécie de “soco na mesa” para mostrar que quem manda é ela é pura conversa mole. Poderia ter socado a mesa no tempo em que Lula interferiu em demasia na formatação de seu ministério, por exemplo. Se não o fez, errou a estratégia.
Num presidencialismo forte como o nosso, Dilma poderia ter dado as cartas ao seu gosto desde o primeiro dia e quem estivesse abaixo da hierarquia tinha mais que se submeter. Acontece que fica mais fácil agora dizer que os erros derivaram de outros agentes, quando no fundo o que se tem é que Dilma escolheu o caminho errado. O governo que falta começar não é o governo Dilma, e sim o governo do Brasil, e pelo visto, estamos um pouco distante deste momento. Quando se tem um projeto de governo já devidamente delineado, dado as dimensões que este tal projeto pode ter no caso específico de um país chamado Brasil, acreditem, ele, pela sua própria força e dimensão, acaba empurrando as crises para fora do poder, ou, pelo menos, reduzem-nos em si mesmo.
Como o Brasil não é ditadura, ou seja, o Executivo precisava negociar com os demais poderes, escolher um estilo fechado entre as quatro paredes do gabinete presidencial, resulta em vácuo, e é neste vácuo que as crises vão ocupar espaço. E, seja como for, isto é precisamente o que está acontecendo no GOVERNO Dilma: há um espaço vazio que deveria ter sido ocupado com ações para o país, o que faria com que tudo em volta tivesse com que se ocupar e que, agora, por estar sem a presença destas ações, tem dado campo para que as intrigas partidárias de ocupação e disputa por espaço no poder vão tomando forma.
As dificuldades que o país tem assistido são produto sabem do quê? Da falta de um projeto de país. O governo petista, sempre é bom lembrar, entra em seu nono ano, tempo mais do que suficiente para que o país não seja campo de experiências de toda a sorte. O que vemos é que, ora o governo lança programas a esmo como resposta para pequenas reduções nos índices de popularidade, ora responde apenas para produzir fatos novos diante de dificuldades que a mídia divulga, como é o caso recente das reportagens do Jornal Nacional sobre o abandono das nossas fronteiras e o lançamento, quase imediato, de um programa específico na área de segurança. Em outro momento, o problema que a todos preocupa em relação ao atraso das obras dos aeroportos para a Copa do Mundo em 2014, parte-se para a divulgação subsequente de um plano de privatização de aeroportos, mas sem regras, sem definições, sem nada além do anúncio em si.
E o que se dizer do lançamento de um programa de erradicação da miséria, lançado às pressas, na base do improviso, como forma de abafar a crise Palocci?
Não vamos nos enganar: o governo Dilma por enquanto tem sido isto que se vê, um governo voltado para dentro de si mesmo, sem se ocupar, contudo, com o essencial que é um governo harmonizado e bem planejado em favor do país. Se a gente for ainda se ocupar das reformas tão indispensáveis que ainda aguardam uma pequena sinalização para tomarem forma e jeito, e que insistentemente teimam em ficar no discurso, é fácil perceber que Dilma chegou ao poder sem projeto algum. E este tem sido, até aqui ao menos, o “seu” governo. Questões como saúde, educação, saneamento, infraestrutura, segurança pública, por enquanto, continuam aguardando alguma resposta. E é precisamente nestes campos que o governo Dilma ainda não começou. O resto é pura marquetagem para abafar crises internas e falta de governo. Mas tudo junto, não dá para dizer que não é o governo da Dilma, porque o não fazer o que precisa e deve ser feito tem sido a tônica de sua ação principal na presidência.
Deste modo, ao invés de se cobrar pelo começo do governo Dilma, que tal se a gente começar a pedir que o governo do Brasil, presidido por Dilma, saia do ponto de partida?




