Adelson Elias Vasconcellos
No início da semana, já havia me manifestado sobre o ponto final de Luiz Sérgio como Ministro das Relações Institucionais por considerá-lo um zero em qualquer direção. Já o considerava assim, uma nulidade, antes mesmo de assumir, logo após sua nomeação. Sua queda não me surpreende, o que assombra é ele sair de um ministério de certa relevância para um “ministério de arranjo” como é o da Pesca, para onde vão gente como Ideli, consolo pela perda da eleição, ou outras múmias que nunca acrescentaram coisa alguma mas que o governante de plantão tratou de arrumar para contentar aos companheiros.
Ideli não tinha a menor qualificação para o cargo em que se encontrava, mas era um pouco mais do que lidar com a articulação política da base aliada de Dilma. E, em menos de 24 horas, a presidente resolveu mostrar que, quem manda no seu governo é ela. As escolhas, a começar pela Casa Civil, foram de sua lavra exclusiva. E mostra o caráter do seu governo. Alçou em importância duas mulheres, como se sexo fosse fator determinante de competência. Ambas têm temperamentos semelhantes à da Presidente, não sei se indicando algo de identificação no estilo de atuar no governo.
Dentre os vários testemunhos dados por políticos sobre a promoção de Ideli, se diz ser ela uma guerreira, uma lutadora. Tudo bem, só que a função de articulação política requer algo do tipo equilíbrio emocional, algo que Ideli jamais, por mais que tente e treine, conseguirá ter como virtude. Sua agressividade e intempestividade são aspectos que não se recomenda a quem deverá agir como bombeiro e diplomata para convencer mais pelo argumento do que pelo grito. O temperamento sanguíneo de Ideli se choca com o perfil que o cargo exige e, é de se ter esperança, que sua presença não seja motivo para mais insatisfações e rebeliões da base de apoio à Presidente.
Ideli, quando esteve no Senado, sempre se portou de modo truculento nas CPIs para evitar ou que as mesmas conseguissem avançar e aprofundara investigações sobre os crimes do governo, ou agia de forma acintoso para criar um clima de animosidade buscando o mesmo propósito. Aquela foi Ideli. Aquela é Ideli. E dizer, como afirmou no seu primeiro discurso que será diferente, só para os que gostam de se enganar. Ninguém muda por decreto e da noite para o dia. Logo, o temperamento impulsivo da agora ministra de Relações Institucionais vai falar mais alto e Dilma se dará conta do seu erro. Para apagar os incêndios ao invés de um bombeiro ela convidou uma piromaníaca.
Claro que torço para não aconteçam novas crises no seio do governo capazes de produzir o engarrafamento que o caso Palocci, por exemplo, produziu. Tudo bem que Dilma ainda não começou a governar o país que segue a mesma ladainha deixada por Lula, não se apresentou um miserável plano de reforma que tanto precisamos para crescer com sustentabilidade. As questões econômicas, por seu turno, continuam travadas e deteriorando-se de forma contínua. Mas ao menos o país andava. A partir do escândalo Palocci, o governo simplesmente parou de funcionar e isto não é bom para ninguém, nem para oposição, se é que ainda existe alguma por aí.
Mas a escolha de Ideli para o lugar de Luiz Sérgio revela um sintoma mais danoso ainda, a de que o governo parece querer, através de nomeações de mulheres para funções chaves, dar uma resposta do tipo recuperar o tempo perdido. E isto é ruim, não pelo fato de se nomear mulheres para o primeiro escalão. Nada contra desde que sejam competentes, tenham qualificação desejada para os cargos para os quais estão sendo nomeadas. É ruim porque demonstra uma certa cisma de dona Dilma, algo do tipo ressentimento ou do tipo de querer mostrar que as mulheres são melhores do que os homens. Isto é estupidez casada com ignorância. Na função pública, independente de sua natureza, a pedra de toque que deve guiar as nomeações em qualquer nível deve ser o da competência. Se houver bem mais mulheres qualificadas para ocupar o lugar numero um de cada ministério, que então sejam os 40 ministério atuais ocupados por mulheres. Sempre devemos nos precaver contra estas “políticas de cotas”, porque embutem injustiças de um lado, e o que é pior, com uma injustiça se tenta corrigir outra; e, de outro lado, ficam valendo mais os rótulos do que os conteúdos e, em termos de boa governança, são os conteúdos, isto é, competência, a qualificação, a experiência, que devem ter maior peso e importância.
Portanto, apesar de torcer para que as escolhas de Gleisi para a Casa Civil, e de Ideli Salvati para as Relações Institucionais, no devido tempo, darem as respostas positivas que Dilma delas espera, creio que esta ação de “aqui quem manda sou eu, e não o ex”, está fazendo mal para Dilma. Ela deveria se preocupar em FAZER o seu governo, em REALIZAR suas promessas de campanhas, em IMPLEMENTAR os programas que se dispôs a criar, sem se preocupar se o Lula vai gostar, se o partido vai aprovar, se o Dirceu não vai continuar mandando fogo amigo contra seu governo. Dilma foi eleita pelo POVO BRASILEIRO, e não pelo PT ou por José Dirceu. Ela sabe que, ao entregar o governo, sua carreira política estará encerrada, com ou sem reeleição em 2014. Assim, deveria cuidar de fazer o que precisa ser feito pelo país, para o país, e não para agradar aos companheiros. O PT já ocupa considerável espaço no poder, Lula já se prepara para voltar depois dela, o projeto do partido vai continuar sendo tocado pelos companheiros.
A única forma de se entender a escolha de Ideli Salvati para trocar de ministério com Luiz Sérgio, foi sua atuação truculenta no Senado para salvar as cabeças de Renan Calheiros e José Sarney, ambos ameaçados de guilhotina, cuja sobrevivência era fundamental naquele momento ao interesse de Lula. Assim, Ideli teria capital político suficiente para chantagear o PMDB rebelado com o governo Dilma, cobrando a fatura da fidelidade.
Visto isto, deveria a presidente se preocupar muito mais com um projeto de país do que com um de poder. Se fizer isto terá justificada a confiança que a maioria do povo lhe depositou. Como também para ser governante eficaz não precisa andar com cara fechada, mal humorada na relação com ministros e assessores e ter atitudes de menor beligerância na cobrança de resultados. Não é preciso humilhar subordinados para provar sua autoridade. E, com um pouco mais de “bons modos” ela pode obter muito mais do que pela política do medo. Um líder não se impõem por constranger, destratar e humilhar quem lhe está à volta, até pelo contrário. Este clima de terror além de assustar, faz com que as pessoas cometam erros grosseiros, não porque queiram cometê-los, mas porque a pressão lhes tira o brilho e a espontaneidade que um ambiente amistoso, de naturalidade, de espontaneidade é capaz de produzire proporcionar.
Assim, a troca feita com certa irritação pela pressão da base e fruto do ressentimento nascido do passado em que as mulheres não tinham espaços relevantes na atividade pública, que é o que transparece, tem tudo para dar errado.