Adelson Elias Vasconcellos
Procurei acompanhar atentamente toda a encrenca que se desenrolou no Rio de Janeiro acerca das ações de protestos dos bombeiros cariocas.
Em quase tudo, a categoria tem razão. Veremos mais abaixo, na comparação com os demais estados da federação, a grande maioria bem mais pobres do que o Rio, que o salário que é pago chega a ser vergonhoso. Pelo trabalho que realizam, pela sua importância para a sociedade, deveria ao menos ser o dobro do que é, e ainda assim, seria pouco.
Mas, durante as negociações iniciais, não apenas Sérgio Cabral apresentou uma proposta grotesca, como ainda tentou enrolar com um papo furado em que a matemática foi chutada prá escanteio. Não fecham as contas naquilo que Cabral canta marra. Deveria o governador ter aprofundado as negociações sem dúvida, mas preferiu aplicar uma conversa em que a categoria se sentiu humilhada e taxada de idiota.
A partir daí, os bombeiros partiram para um extremo que não se justifica. Invadir o quartel sob o pretexto de que ali é sua casa, é um argumento falso. Mais falso se nesta invasão eles se fizeram acompanhar por familiares, destantes e crianças inclusive, e ainda impediram que algumas unidades saíssem para prestar socorro à comunidade.
Quem é ou já foi militar, sabe que este tipo de protesto é inadmissível. O motim é um ato de indisciplina e, sendo assim, é passível de punição. A entrada em cena do BOPE está perfeitamente enquadrada nas regras do jogo. O prédio é público e se foi invadido deve ser desocupado pelas forças de segurança. Não tem nada de violência, até porque violência foi a da categoria em invadi-lo. Restabelecida a ordem, a partir daí, ao invés das autoridades mudarem a estratégia, por ficar claro que extremismos não resultariam em nada, passaram a agir de forma estúpida. Negaram-se em enxergar o óbvio que é a baixíssima remuneração e a falta de condições de trabalho com que estes verdadeiros heróis se submetem ou são submetidos no exercício de seu ofício. Faltou sensibilidade para negociar? Por certo, mas faltou, sobretudo, consideração e respeito para com uma das profissões mais nobres e de quem todos, políticos ou não, ricos ou pobres, precisamos e dependemos. Quantas tragédias são evitadas sob o risco de suas próprias vidas? Recordem-se, leitores de dois eventos bem recentes, que foram os deslizamentos da região Serrana fluminense e a do morro do Bumba, e se terá dito tudo sobre a nobreza do trabalho que os bombeiros realizam.
Assim, é preciso haver, neste momento, um pouco de senso de justiça e de sensatez para não se julgar toda uma categoria como reles bandidos. As reivindicações são mais do que justas, e a rebelião foi consequência de um governo indisposto em reconhecer isto, além de sua má vontade em remunerar melhor servidores mal pagos e tratados como trabalhadores de quinta categoria.
As declarações dadas pelo governador logo após a invasão, ao invés de seguir pelo caminho da serenidade, do entendimento, serviram para acirrar uma disputa que não precisava acontecer.
Tenho, por princípio, que greve de servidores é um absurdo. Por quê? Porque, geralmente, são os cidadãos que acabam sendo vítimas, prejudicados no seu direito de ter serviços básicos a sua disposição, dado que pagam – e muito! – para tê-los. Quando professores entram em greve, são as crianças que ficam sem aulas, interrompem sua crescimento e os prejuízos só serão sentidos mais adiante. Quando policiais entram em greve, são todas as consequências da insegurança que nos afligem.
Na questão dos bombeiros cariocas fosse o que alega o governador, o soldo (piso salarial) seria R$ 1.114 e o aumento concedido por Cabral seria de R$ 62.
No entanto, os bombeiros alegam que o piso da categoria é de R$ 950 e sobre este valor o aumento seria de R$ 53,01 nos contracheques. O movimento iniciado pela categoriareivindica um salário líquido de R$ 2 mil, vale transporte e melhores condições de trabalho.
Mesmo sendo contrário a qualquer greve de servidores públicos e em qualquer nível da esfera pública, no caso dos bombeiros é possível compreender que eles foram levados ao extremismo dada a má vontade de parte do governo estadual em negociar melhores condições de trabalho, dentre as quais o baixo salário é apenas um dos quesitos. Não deveriam é ter invadido o quartel, porém, e neste caso, mesmo sendo passivos de punição, ainda assim deveria o governador ter tomado a frente para por um fim imediato aos protestos. E o que se viu foi um governador covarde, omisso e irresponsável que se escondeu em coletivas à imprensa, quando deveria sentar-se com os líderes dos grevistas para por um basta ao episódio. E somente quando viu que PMs, professores e outras categorias começaram a apoiar os bombeiros e a situação poderia fugir ao controle, resolveu recuar e autorizou negociações.
Lá no alto, prometi informar o salário bruto dos bombeiros nos estados. Ei-los:
1: Brasília, R$ 4.129
2: Sergipe, R$ 3.012
3: Goiás, R$ 2.722
4: Mato Grosso do Sul , R$ 2.176
5: São Paulo, R$ 2.170
6: Paraná, R$ 2.128
7: Amapá, R$ 2.070
8: Minas Gerais, R$ 2.041
9: Maranhão, R$ 2.037,39
10: Bahia, R$ 1.927
11: Alagoas, R$ 1.818,56
12: Rio Grande do Norte, R$ 1.815
13: Espírito Santo, R$ 1.801,14
14: Mato Grosso, R$ 1.779
15: Santa Catarina, R$ 1.600
16: Tocantins, R$ 1.572
17: Amazonas, R$ 1.546
18: Ceará, R$ 1.529
19: Roraima, R$ 1.526,91
20: Piauí, R$ 1.372
21: Pernambuco, R$ 1.331
22: Acre, R$ 1.299,81
23: Paraíba, R$ 1.297,88
24: Rondônia, R$ 1.251
25: Pará, R$ 1.215
26: Rio Grande do Sul, R$ 1.172
27: Rio de Janeiro, R$ 1.031,38, sem direito ao vale-transporte.
O quadro acima é revelador de muita coisa e, por certo, uma delas é a de que não há um piso nacional coerente. Não tem lógica alguma que, em Brasília, os bombeiros ganhem quatro vezes mais do que no Rio de Janeiro. Como também nada justifica que, no Sergipe, os bombeiros recebam cerca de 50% a mais do que São Paulo que vem a ser o estado mais rico da federação. E, ainda, que o Rio de Janeiro, bem mais rico do que a maioria de muitos estados, tenha a pior remuneração de todas.
Portanto, que o governador carioca deixe a demagogia , a enrolação e a covardia de lado e assuma a frente das negociações e encaminhe a quem de direito, uma anistia aos bombeiros rebelados, que acabaram presos e responderão, por iniciativa do Ministério Público, a ações judiciais. Atitudes extremadas só acarretarão dificuldades de entendimento e, no fundo o que se quer, é que a população tenha à disposição serviços públicos de qualidade. E, o primeiro passo para tanto, é que aqueles a quem compete prestar tais serviços, tenham uma remuneração condizente. Injustificável é o governador abarrotar gabinetes luxuosos com assessores de porra nenhuma que não prestam um mísero favor à sociedade que os remunera.
Ou ter, ainda, precisar suportar autoridades que, diante de qualquer crise nas quais deveriam ter tranquilidade e equilíbrio emocional, único modo de contorná-las, se comportarem como moleques irresponsáveis com mentiras e agressões de toda ordem. Outra questão que preocupa, e particularmente, no Rio de Janeiro, é que o senhor Sérgio Cabral cumpre seu primeiro ano de um segundo mandato. Portanto, não tem lógica afirmar e transferir responsabilidade pelos baixíssimos vencimentos dos bombeiros para os governantes que o antecederam. Talvez se ele fizesse turismo internacional de menos, sobrassem mais recursos para pagar melhor aqueles que realmente prestam serviços, às vezes até em condições indignas, à sociedade.
Portanto, governador Sérgio Cabral, comporte-se como os bombeiros na sua missão principal: apague “incêndios” de qualquer natureza, porque foi para isto que o povo o elegeu !!!!