Adelson Elias Vasconcellos
Lula e Dirceu parecem que combinaram. Ao comentarem a vitória do esquerdista Humala, no Peru, aplaudiram a tendência latino americana de escolherem mandatários de esquerda, ao contrário da Europa que enveredou pelo caminho contrário. Sai da esquerda para a direita.
Mas os dois parecem não ter lá muita sensibilidade para entenderem a História. O que se passa no continente americano é a tendência que um dia também contaminou a Europa. Como por lá a esquerda foi incompetente para dar respostas às crises derivadas de seus arroubos e abusos, os europeus se voltam para a doutrina que colocou a Europa em pé logo após a Segunda Guerra.
Acreditem, um dia, não muito distante, os latinos também mudaram de lado pelas mesmas razões.
Onde se buscam as causas? Na própria ideologia que cada lado defende. A recuperação econômica após a segunda guerra era vital e estratégica ao interesse norte-americano. Serviria como escudo protetor ao avanço do imperialismo soviético. Porém, como primeiro era preciso recuperar as economias da Europa Ocidental arrasadas pelo conflito mundial, isto foi feito à custa de um certo sacrifício social, do qual as esquerdas se valeram para vingar seu ideário. Porém, é preciso reparar que este “ideário” só consagra, e assim mesmo apenas num primeiro momento, depois da casa arrumada e sem crises rondando o horizonte.
A reviravolta na Europa se deu a partir do momento em que o ideário de esquerda foi insuficiente para responder às crises econômicas recentes, justamente porque as soluções dependem de que se rasguem alguns dos benefícios do outro mundo possível que apregoam.
Atualmente, não são poucos os países que precisarão retomar o passado e abrir mão de alguns dos benefícios que as esquerdas largamente difundiram em economias crescentes sem dificuldades. E este trabalho “sujo” somente é possível com governos de direita.
A América Latina segue o mesmo caminho, com a diferença de que estamos atrasados uns cinquenta anos em relação à Europa. Como o trabalho sujo já foi feito e são muitos os países com suas economias estabilizadas, muitas das quais se valendo também da explosão chinesa, as esquerdas prosperam em discursos semelhantes aos que a Europa se cansou de se enganar. Porém, este “outro mundo possível” tem prazo de validade restrito e haverá, um dia, de cobrar seu preço.
Além disto, é preciso ter certo cuidado com este tipo de afirmação imbecil: na Europa, nem os governos ditos de “direita” tem sido poupados. A crise de 2008 tem obrigado a maioria dos principais países a reverem suas políticas de gastos, o que produz retração no emprego, na qualidade de vida e nos benefícios garantidos à população. E aí o que conta é o pragmatismo: ninguém quer pagar o preço que a recuperação econômica impõem.
Se a América Latina, de alguma forma, tem sido poupada, é porque os estoques de recursos ainda não se esgotaram. É recente o arranjo de suas economias segundo a cartilha liberal, o que permite a alguns países (e governos), espaço para deitarem e rolarem no desperdício de dinheiro público em favor de projetos de poder. Mas como afirmo acima, esta “fórmula mágica” tem prazo de validade restrito e a cartilha das esquerdas não traz a receita de correção dos rumos e do esgotamento de recursos. Pelo contrário. Distribui-se pequenas bolsas de auxilio, sem que tais bolsas permitam aos indivíduos irem muito além do paternalismo estatal. A partir daí, quem quiser ir além, vai encontrar governos autoritários que sufocam seus povos em nome de seu poder arbitrário.
E é nesta singela comparação, entre o que acontece na Europa e na América Latina que se pode constatar o ainda imenso abismo de atraso que nos separa do mundo civilizado. Eles, enfrentam as dificuldades de povos que não abrem mão de sua riqueza, e nós nos contentamos com o pouco ou que nada que o atraso nos permite ter.