sábado, setembro 18, 2010

A aposta errada do presidente do PT.

Adelson Elias Vasconcellos

No discurso que fez  no Pará, no meio da semana, Lula já tinha dado o tom sobre um tema que, lamentavelmente, para ele - Lula -, muitos brasileiros estão vivos para relembrar e contestá-lo.

Sempre que se vê acuado, e os episódios recentes de escândalos na Casa Civil, quando a ministra era ainda Dilma Rousseff, ante-sala de Luiz Inácio, e tiveram o dom de demonstrar seu total desequilibrio, Lula saca de uma poderosa arma a seu favor: apostar na falta de memória do povo brasileiro, para aplicar mentiras e praticar terrorismo eleitoral. Em 2006, vocês hão de lembrar, no segundo turno, aplicou a mentira de que, se eleito, Alckmin iria privatizar Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica, e inclusive os Correios (sobre isso falarei em outro post, porque se dá justamente ao contrário, quem quer privatizar os Correios é exatamente o governo Lula e muita gente sabe disso, até os funcionários).

Neste discurso em Belém, o senhor Luiz Inácio jogou uma espécie de isca para ver se alguém reagia. Como muitos não demonstraram reação alguma, ele achou que poderia avançar, e até instruiu sua tropa de choque para bater na mesma tecla.

Hoje, tanto o presidente do PT quanto Dilma Rousseff, resolveram seguir o receituário do chefe, e desceram a lenha na recente história brasileira, para tentar reescrevê-la ao seu modo, contando uma mentira sobre a atuação do PT e a da atual oposição, no processo de redemocratização do país.

Nesta época, não apenas minha memória era muito boa, mas tanto ouvia como lia muito bem. E, de lá para cá, tenho perfeita lembrança de fatos e pessoas que participaram diretamente daquele processo de luta, bem como aquelas que estiveram e estavam do outro lado e para quem o regime militar era muito conveniente. Dois exemplos. José Sarney, o oligarca da família, no Maranhão construiu sua carreira política apoiado pelos militares. Depois, vendo a mudança dos ventos, se bandeou para oposição para, oportunista como sempre foi, aproveitar-se e conservar seu pelo intacto.

Outro exemplo foi Paulo Maluff. Apenas para que vocês tenham em mente a participação deste cidadão,  no Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves, selando ali o fim da era da ditadura militar, concorria como candidato da situação, ou seja, do regime militar, exatamente o cidadão... Paulo Salim Maluff. Pois é, agora  ambos são aliados de Lula.

Hoje, o presidente do PT, se saiu com esta pérola: “[são] falsos defensores da liberdade que acusam o senhor [Lula] de governar em cima de palanques, mas eles sentem falta dos que governavam em cima de tanques”.

Ocorre que, no Colégio Eleitoral que pôs fim ao regime militar, o PT votou contra Tancredo Neves, e ainda expulsou os três deputados do partido que votaram a favor. Ou seja, dependesse desses democratas de araque, Tancredo não seria eleito, e é bem provável que o regime militar ainda tivesse reinado por mais tempo no Brasil. Tentem achar fotos da campanha “Diretas Já” e vejam quantos petistas graúdos aparecem nelas!!! Tentem.

Vale lembrar que foi a campanha das Diretas Já que pôs o povo brasileiro nas ruas e impulsionou a candidatura de resistência de Tancredo contra o candidato do regime, Paulo Maluff.

Mais tarde, o senhor Lula, eleito deputado federal, compôs a Assembleia que iria votar uma nova constituição para o país, o que foi conseguido em 1988, e que vem a ser a nossa Carta Magna atualmente em vigor. Pois bem, perguntem aos petistas que participaram da Constituinte, entre eles o próprio Lula, quantos deles assinaram a nova constituição do Brasil? Resposta: NENHUM. E ninguém assinou não por uma questão, sei lá, de consciência, mas porque Lula mandou que ninguém assinasse. Ou seja, nem a Constituição que restabelecia no país o regime democrático, foi assinada pelos petistas sob ordem expressa de Lula para que não assinassem. Provem o contrário!!!!

Portanto, o presidente do PT precisa lavar a boca e desinfetar a língua quando quiser se referir ao processo de redemocratização do Brasil, para o qual o PT não deu um passo sequer à frente. Quer mentir, quer reescrever a história do país com farsas e inverdades, faça-o mas para o seu clube privado, mas não para quem viveu com intensidade aquele período, e tem registrado e muito vivo na lembrança tudo o que se passou. Quem fez o quê, e quem nada fez e, simplesmente, cruzou os braços.

Foi, sim, a oposição de hoje quem fez a redemocratização do Brasil, foi ela quem devolveu os militares para os quartéis, foi ela quem votou, aprovou e assinou a Constituição. E, em todos estes episódios o PT se escondeu, cruzou os braços, nada fez, e ainda puniu alguns de seus militantes com expulsão por terem atuado para a restauração da democracia no Brasil, talvez apostando que os tanques de guerra permanecessem nas ruas acuando o povo brasileiro. Esquerdista adora tirania, tem compulsão à mentira. Parece que o presidente petista é que anda com saudades daqueles tempos em que se estacionavam os tanques em frente aos prédios dos veículos de comunicação, para impedi-los de publicarem matérias que versavam sobre os fatos reais do regime, como prisões e torturas.

Aposta errada, senhor Dutra. E nos governos democráticos que se seguiram a 1985, em TODOS o PT sempre boicotou todas as tentativas de reformas para tirar o Brasil da estagnação. Quer comparar governo Lula com FHC, então diga lá, verme, quanto de inflação tinha o Brasil em 1994 e quanto tinha quando o PT assumiu? Quanto havia de divida externa entre um governo e outro? Só isso (mas tem muitíssimo mais) já serviria para fazê-lo ficar quieto e parar de bancar o cretino, tentando agora posar com o chapéu alheio. Repito, quero e faço questão de dizer; o PT boicotou tanto o processo de redemocratização do país como todos os governos democráticos a partir de 1985, principalmente o de Fernando Henrique, de quem herdou um país com as finanças saneadas e pronto para crescer, porque atingira a estabilidade econômica.

E, em relação a neopetista, que hoje concorre à presidência da República, até seria interessante o país saber por onde ela andava naquele tempo. Com toda a certeza não era nas passeatas das "diretas já", porque a fotografia em que quis provar sua participação, na verdade, era Norma Benguel quem nela aparecia, provando que o PT adora reescrever a história com mentiras, usurpação e trucagens. Que o país de seus sonhos é uma tirania ao melhor estilo cubano de Fidel ou na zorra total de Chavez, na Venezuela. Aposta errada, meu caro. Se alguém neste país sempre lutou contra a democracia foram justamente os petistas. A memória brasileira não é tão curta assim, para você tenta aplicar esta farsa. Não mesmo! E é justamente por isso que vocês nutrem verdadeiro ódio à liberdade de imprensa: a verdade lhes causa profunda repugnância. Se sentes saudades de regimes de exceção, amordaçando a liberdade de imprensa, e sufocando a verdade, vá para Cuba, senhor José Eduardo Dutra. Talvez lá você se sinta bem melhor, num ambiente que lhe diga mais respeito e mais de acordo com sua ideologia, porque aqui você não conseguirá emplacar sua mentira tão sórdida e descarada. Ainda há brasileiros que não se curvaram à mistificação petista, e que são verdadeiros democratas, e cuja memória não se apagou.

Prá que serve a ABIN, afinal?

Comentando a Notícia

Afinal, prá que serve a ABIN, hein? Será que é só para escarafunchar a vida da turma da oposição? Será que antes de alguém ser investido numa função pública, não conviria levantar a ficha do mancebo ou manceba, e descobrir alguma mancha no seu passado?

Santo Deus, tanto araponga dando sopa, com todos os privilégios que desfrutam, com tantas modernas técnicas de investigação, não poderiam evitar este constrangimento ao país, e ao menos advertirem para o que se passa na ante-sala da presidência da república, onde se pratica todo o tipo de ação não recomendável, como tráfico de influência, nepotismo, maracutaias envolvendo milhões de reais que são desviados, etc, etc, etc?

Se não servem nem para proteger a presidência da república de ficar toda a hora demitindo gente de seu staff mais próximo, por atos ou comportamento pouco republicanos, então fechem esta joça logo e parem de torrarem, inutilmente, dinheiro público, que ele está fazendo muita falta em áreas bem mais nobres e de interesse direto da população!!!

Passa da hora de se reavaliar o verdadeiro e necessário papel da ABIN e medir sua real relevância na estrutura do Estado brasileiro.

Que Lula olhe embaixo debaixo de seu próprio tapete.

Adelson Elias Vasconcellos

"Eu estou sabendo que tem gente nervosa e não somos nós"

Este frase, pode-se imaginar, foi dita por Lula em Minas Gerais, precisamente em Juiz de Fora, onde foi inaugurar mais uma obra que já existia e na qual se fez alguns puxadinhos para lá e para cá. Lula é assim mesmo: em tempo de campanha, inventa qualquer pretexto para subir no palanque. E se não houver algum, ainda assim ele vai lá e manda ver. 

Interessante notar que, diante de escândalos que explodem dentro do seu governo, Lula, regra geral, sobe o tom do discurso e, ao invés de defender-se, passa para o ataque, com incrível truculência e destilando um ódio feroz. Vê inimigos imaginários, quando deveria olhar o que se esconde debaixo do seu próprio tapete.

Agora, até em função das pesquisas serem favoráveis à sua criatura, passou a acusar o outro lado de desespero, quando, ao que me parece, as acusações passaram longe da oposição. Quem traficou influência, quem violou ilegalmente sigilos fiscais, quem montou dossiês, quem praticou um nepotismo imoral não foi o “meu adversário” (diz isso como se o candidato governista fosse ele e não Dilma).

O desespero, senhor Luiz Inácio, não é porque Serra possa perder eleição, já que, perder ou ganhar, faz parte do jogo político. Aliás, quem está desesperado para não perder, é vossa excelência, que transformou a Presidência da República num imenso comitê eleitoral, utilizando-se absurda, ilegal e imoralmente da máquina pública e dos recursos do Estado para fazer campanha eleitoral. Que o TSE não enxergue isto e deixe de cumprir a função para a qual foi criado, isto é problema do TSE. Mas que está caracterizado o abuso do poder político e econômico, isto é inegável.

O desespero de Serra, se houver, é o mesmo de uma parte deste país também.  A de que face, aos inúmeros escândalos que já pipocaram em seu governo, alguns na ante-sala da presidência, e sempre contando com a presteza em manter os seus companheiros impunes, o que de mais bandalheira ainda possa existir, ainda não descobertas ou denunciadas.  Podemos até ser 1% apenas da população, mas é, certamente, a parte que pensa e que se informa,  gente não dependente de bolsas cala boca,  e que não admite ver o país atolado em maracutais de toda a sorte acobertadas por quem deveria, antes de qualquer outro, mandar apurar com seriedade.  

O desespero, senhor Luiz Inácio, se dá no sentido de que se tenta impedir não que dona Dilma seja eleita, mas que o país continue a ser governado por quadrilhas que desviam dinheiro público, e que, por fazerem parte de sua roda,  ao invés de serem punidos, tem seu silêncio cúmplice comprado com promoções e mais privilégios para continuarem a delinquir.

É disto que se trata. Portanto, não inverta a lógica dos fatos. Não adianta enrolar, dizendo-se perseguido, tentando culpar as vítimas, acusando sem nenhum fundamento que a imprensa inventa – o pecado da imprensa independente é informar, é isso? – subir para cima do palanque feito cachorro louco e esbravejar como se estivesse endiabrado. Não é truculência que responde acusações, por sinal, acusações muito bem fundamentadas em fatos, provas, documentos e testemunhos. Este método de defender-se acusando o lado contrário, já é bem conhecido e não cola mais. Não adianta fazer-se de vítima e jogar a responsabilidade que é sua no colo de terceiros. Este teatro já não dá mais ibope, presidente.

Este comportamento desequilibrado não apaga mais os incêndios da corrupção que está  varando seu governo desde Waldomiro Diniz, lembra?

Trate de governar com mais seriedade e pare de passar a mão na cabeça de seus bandidos. Ou será que estão apenas a mando de alguém mais graúdo do que eles? Cuidado: de repente, tanta impunidade e tanto desvario, pode ser sintoma de quem está escondendo muita coisa debaixo do tapete em que pisa. Aliás, diga-nos, quando foi que a imprensa inventou alguma coisa que não tenha ficado comprovado, desde 2003? E esta arrogância de achar que, por ter 80% de aprovação apesar das acusações, é uma soberba prova de que a grande maioria da população não tem acesso à informação, o que deveria envergonhá-lo na qualidade de presidente há oito anos. Mesmo porque, boa parte destes 80% a gente sabe como foi conseguido e de onde provém tanto triunfo, não é mesmo?

Como lembrei aqui, o macaco senta no próprio rabo que é prá ninguém reparar no dele, enquanto ele mesmo só olha o dos outros. Mas tantas faz que um dia deixa rastros...Esta falta de limites, este sentimento arrogante de que está acima do bem e, principalmente, do mal, este absolutismo canalha de achar que a presidência e a aprovação elevada lhe confere salvo conduto para atropelar as leis e agredir as instituições, pode um dia custar-lhe caro! Ainda mais, para quem já tem um tapete com tantos remendos quanto o seu...

Sei não, senhor Lula, mas este desespero para eleger Dilma, e no primeiro turno, é temor de perder, não a boca rica que o senhor vive desde 2003, mas medo de que, quem sucedê-lo, acabe descobrindo o que senhor andou fazendo nos verões passados.

A publicação do pecado

Ruy Fabiano, blog do Noblat

O governo Lula, diante dos escândalos, maneja a seu modo uma máxima de “Quincas Borba”, de Machado de Assis, segundo quem “o maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado”.

No caso Erenice Guerra, cujo desfecho ainda está longe – sua demissão é apenas o ponto de partida para as investigações -, o pecado, a julgar pelas declarações governistas, está tão somente na sua publicação. Ele, em si, é secundário. Segundo Dilma Roussef, não passa de um “factoide” eleitoral.

Lula repele as denúncias como “jogo baixo, rasteiro”, protagonizado por uma “elite política rabugenta” – a oposição, claro. A própria Erenice responsabilizou “o candidato aético e já derrotado”, em busca desesperada de um “fato novo”, que de novo não tem nada; é, aliás, bem velho. E as denúncias, na verdade, não vieram do comitê do PSDB, mas de empresários, achacados por lobistas em nome da Casa Civil, entre os quais o filho da ministra.

Todas as manifestações referem-se à publicação do pecado: quem está por trás e com que objetivos. Em segundo (ou mesmo em décimo) plano, o pecado propriamente dito: crime contra o Estado. Mais um. Para ele, há promessas de “rigorosas investigações”, feitas também em outras ocasiões, sem consequências.

Para o delito da publicação, há o diagnóstico definitivo de José Dirceu: excesso de liberdade de imprensa, já detectado nas conferências do PT, que recomendam como terapêutica o “controle social da mídia”, inscrito no primeiro programa de governo de Dilma, registrado no TSE, posteriormente suprimido.

O ponto central é a blindagem da candidata Dilma, mentora da ex-ministra Erenice e titular da pasta ao tempo em que os delitos ocorreram. Lula reuniu ministros para que cuidassem das declarações que fariam à imprensa, com a recomendação de desvincular Dilma de Erenice, tarefa tão difícil quanto desvincular Dilma de Lula.

Nesse caso, como no que o precedeu – o vazamento de dados de tucanos na Receita Federal -, importa a repercussão eleitoral. Parte da imprensa embarca na onda, destacando, na mais recente pesquisa do Datafolha, a preservação dos índices de Dilma, sinal de que aquele escândalo do vazamento de dados fiscais sigilosos não teve reflexo sobre os eleitores. Se não teve, perdeu importância.

O PT já fizera essa previsão. Assessores da campanha de Dilma, alheios à gravidade do delito, afirmavam que, como a maioria do povo nem ganha o suficiente para declarar imposto de renda, não estaria nem aí para questões triviais como quebra de sigilo.

Questões burguesas. O mesmo, porém, não ocorre agora. Intermediação de negócios, pagamento de comissão são coisas de assimilação mais fácil. E é isso que preocupa o governo: um delito autoexplicativo, que pode gerar desgaste perante o eleitor.

Resta então pôr em cena a estranha jurisprudência que se estabelece, já testada no caso da Receita Federal: os escândalos devem ser relativizados, pois podem servir eleitoralmente às vítimas.

Estas são criminalizadas porque, ao protestar, tornam-se beneficiárias de seus agressores. Os delitos, argumenta-se, podem ter o efeito colateral de agregar votos ao agredido (caso de Serra, no vazamento dos dados fiscais de sua filha) – e isso é suficiente para inverter a equação. Vítima vira réu – e réu vira vítima.

Protestar contra o agravo torna-se estratégia eleitoral indecente, como se a vítima o tivesse desejado – ou mesmo planejado. Ou como se não tivesse simplesmente ocorrido.

O argumento eleitoral – nos dois sucessivos escândalos - virou uma espécie de biombo, a legitimar a mágica dissolução do pecado. Delito, porém, independe de datas ou agendas. Tem vida própria. Nenhum código o relativiza em virtude de eleições ou outras efemérides. Descoberto, tem de ser apurado e punido, “doa a quem doer”, como costumam repetir Lula e Dilma.

Se vier à tona no curso da campanha e envolver uma das partes, tanto pior para ela – e tanto melhor para o eleitor, que saberá a tempo com quem está lidando. O argumento eleitoral não é atenuante; é agravante – e como tal deve ser visto e tratado.

Relações perigosas

Sob o título de BLINDANDO DILMA, Merval Pereira, em artigo para O Globo, expõe de forma bastante clara, que a ex-ministra Erenice Guerra, da Casa Civil, não teria tido tamanha desenvoltura sobre os casos já conhecidos de tráfico de influência - fora outras "cositas mas" - não houvesse apoio de Dilma Rousseff que, na época, era quem comandava o Gabinete.

A estreita proximidade entre ambas não pode conviver com a ideia de que houve, em dado instante, aliás em diversos intantes,  uma espécie de divórcio no relacionamento, para que uma, Erenice, atuasse sem que a outra, Dilma, tomasse conhecimento ou ao menos percebesse de algo estranho no ar. Para todos quanto acompanham o dia-a-dia do Palácio Planalto, tal hipótese fica difícil, quase impossível de ser aceita.

Sendo assim, não pode Dilma vir a público e achar que com truculência e deboche, ou zombaria, pode aplicar qualquer justificativa para se desligar dos episódios. Inadmissível para uma candidata à Presidência esquivar-se da sua própria responsabilidade, sob pena e risco de, se eleita, iniciar seu governo sob forte suspeita de incompetência, além da pecha de irresponsável. 

Na reportagem da Revista Veja, que reproduzimos abaixo, tal desconhecimento chega a ser patético, porque tanto dinheiro vivo circulando dentro do Gabinete seria motivo de reboliço e alvoroço enormes e a tal ponto que despertaria atenção até do mais alienado funcionário que por ali circulasse. Quanto mais de um comando que se jacta de tão onipotente e eficaz. Inadmissível tamanho cinismo e hipocrisia. 

Claro que sempre o rol de desculpas esfarrapadas, fajutas, inveromissíveis serão esparramadas no sentido de desqualificar a gravidade do caso. Contudo, e como bem lembrei aqui, a Polícia Federal não precisa ir tão longe para apanhar corruptos. Bastaria fazer uma devassa nos negócios nebulosos que são feitos à  mãos cheias nos subterrâneos do poder em Brasília. O país não pode continuar assistindo inerte, passivo, tanta desfaçatez e tanta lama rolando solta sem que se dê um BASTA e se puna, INDEPENDENTEMENTE do cargo que ocuparem os culpados, se não quiser ser  atropelado pelo vale-tudo das quadrilhas que atuam livremente para se apropriarem de recursos que deveriam ser aplicados em favor da mesma sociedade que os recolhe para tal fim, e vão sendo espalhados de bolso em bolso, em malas, cuecas, bolsas, sapatos e meias da ratasana que corroe o poder com sua imoralidade. 

Não pode nem o senhor Lula, tampouco sua criatura, continuarem a fazer o país de palhaço, agredindo a verdade e permitindo  que se opere livremente bem próximo de si, esquemas fradulentos de desvios de dinheiro público. Está mais do que na hora de ambos sairem do discurso para a ação, sob pena de despertarem suspeitas de que participam do mesmo banquete indecente que envergonha e enxovalha a nação.    

Segue o artigo do Merval Pereira.

Blindando Dilma

O Palácio do Planalto está agindo rápido para se livrar de todos os traços do esquema de tráfico de influência que a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra implantara no principal gabinete do palácio do Planalto, ao lado do presidente da República.

Desta vez o presidente Lula pode até mesmo dizer, como costuma, que de nada sabia, já que sua ligação com Erenice era apenas administrativa.

Se tivesse colocado, como queria, Miriam Belchior no lugar de Dilma, teria sido uma indicação pessoal baseada numa relação histórica de luta partidária com o próprio presidente.

Miriam seria uma personagem na política palaciana menos importante do que foi José Dirceu, mas, assim como é difícil imaginar que Dirceu montou o esquema do mensalão sem que Lula fizesse a menor idéia do que estava acontecendo, ficaria também difícil a ele se dissociar das ações de Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito assassinado Celso Daniel, a quem Lula reservara papel de destaque no seu primeiro mandato.

Os erros de Erenice, amplamente divulgados e comprovados a cada dia, têm apenas uma ligação política possível, e é com Dilma Rousseff.

Já escrevi aqui que a relação de Dilma com Erenice é a mesma de Lula com Dilma: criador e criatura.

A família de Erenice não atuaria com tamanha desenvoltura em diversas áreas do governo se não tivesse a certeza de que estavam seguros por laços políticos e, sobretudo, de amizade.

Fica difícil acreditar que, tendo feito tudo o que está relatado nos últimos dias quando era o braço direito de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra não deixou rastros de sua movimentação e nem dava à sua chefe imediata e amiga informações sobre o que estava fazendo.

Quanto às alegações de que o consultor Rubnei Quícoli, por sua ficha corrida nada exemplar, não teria credibilidade para sustentar as denúncias, é bom lembrar que em todos os casos em que surgiram, os escândalos dos últimos anos, foram justamente pessoas envolvidas nas negociatas que denunciaram seus “cúmplices”.

Pedro Collor não se entendeu com o irmão presidente sobre a partilha do butim e denunciou Fernando Collor. Roberto Jefferson sentiu-se traído em seu esquema montado nos Correios e abriu o bico, denunciando o mensalão.

Quando o empresário e consultor Rubnei Quícoli, diz que parte da propina que lhe pediram seria alegadamente para financiar a campanha da Ministra Dilma Rousseff à presidência da República, surge um indício de uso de caixa dois na campanha eleitoral que precisa ser investigado e esclarecido.

Ainda mais por que as demais denúncias feitas acabaram mostrando-se verdadeiras, provocando a saída não apenas da ministra como de vários parentes seus de diversos cargos espalhados pela República.

Ontem, mais um servidor do Palácio do Planalto foi demitido rapidamente. O consultor Rubnei Quícoli apontara em entrevista um tal de Stevan, que descreveu assim: “Ele é um avião, tem uma porta aberta na Casa Civil e outra no BNDES”.

Em meio às negociações para aprovação de projeto de energia solar no Nordeste – avaliado em R$ 9 bilhões que não saiu do papel - surgiu Stevan, que seria a ligação do governo com a Capital Consultoria.

Pois não é que existe mesmo o tal de Stevan? Seu sobrenome é Knezevic e ele trabalhava no Centro Gestor e Operacional do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), órgão subordinado à Casa Civil. Ele regressou ao seu órgão de origem, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que, diga-se de passagem, está transformada em um enorme cabide de empregos para os apaniguados do governo, assim como os Correios, a Receita Federal e outras estatais.

O “aparelhamento” do Estado, que tem um caráter político de controle das atividades por membros dos partidos e sindicatos que apóiam o governo, tem também, ou sobretudo, o seu lado mercantilista.

Vários parentes de Erenice passaram por lá, inclusive o filho Israel Guerra. Não é difícil imaginar que os dois, Stevan e Israel, conheceram-se na Anac e de lá partiram para as ações de lobby no Palácio do Planalto.

Há outro detalhe interessante no episódio da demissão da ministra Erenice Guerra: ao obrigá-la a sair do Gabinete Civil, o presidente Lula está retirando, pelo menos simbolicamente, seu aval às decisões da candidata Dilma Rousseff.

Se, eleita presidente, Dilma pretendia colocar Erenice no Gabinete Civil, contra a vontade de Lula, que quer naquele lugar o ex-ministro Antonio Palocci, que outras escolhas Dilma fará?

Sua capacidade de nomear os principais assessores sai do episódio bastante arranhada, além do que persiste uma estranha sensação de que seu eventual futuro governo, pois a eleição para o Palácio do Planalto e seu entorno é tida como uma fatura já liquidada, começou em clima de crise.

O que a família Guerra não poderia fazer num governo da “madrinha” Dilma?

E agora, Luiz Inácio, quem vai pagar?



'Caraca! Que dinheiro é esse?'
Funcionário da Casa Civil recebeu propina dentro da Presidência da República, perto do gabinete da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a um andar do presidente Lula

Diego Escosteguy e Otávio Cabral, Revista Veja

Numa manhã de julho do ano passado, o jovem advogado Vinícius de Oliveira Castro chegou à Presidência da República para mais um dia de trabalho. Entrou em sua sala, onde despachava a poucos metros do gabinete da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e de sua principal assessora, Erenice Guerra Vinícius se sentou, acomodou sua pasta preta em cima da mesa e abriu a gaveta.

O advogado tomou um susto: havia ali um envelope pardo. Dentro, 200 mil reais em dinheiro vivo – um “presentinho” da turma responsável pela usina de corrupção que operava no coração do governo Lula.

Vinícius, que flanava na Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, começara a dar expediente na Casa Civil semanas antes, apadrinhado por Erenice Guerra e o filho-lobista dela, Israel Guerra, de quem logo virou compadre.

Apavorado com o pacotaço de propina, o assessor neófito, coitado, resolveu interpelar um colega: “Caraca! Que dinheiro é esse? Isso aqui é meu mesmo?”. O colega tratou de tranquilizá-lo: “É a ‘PP’ do Tamiflu, é a sua cota. Chegou para todo mundo”.

PP, no caso, era um recado – falado em português, mas dito em cifrão. Trata-se da sigla para os pagamentos oficiais do governo. Consta de qualquer despacho público envolvendo contratos ou ordens bancárias. Adaptada ao linguajar da cleptocracia, significa propina. Tamiflu, por sua vez, é o nome do remédio usado para tratar pacientes com a gripe H1N1, conhecida popularmente como gripe suína.

Dias antes, em 23 de junho, o governo, diante da ameaça de uma pandemia, acabara de fechar uma compra emergencial desse medicamento – um contrato de 34,7 milhões de reais. A “PP” entregue ao assessor referia-se à comissão obtida pela turma da Casa Civil ao azeitar o negócio Segundo o assessor, o governo comprara mais Tamiflu do que o necessário, de modo a obter uma generosa comissão pelo negócio.

Até a semana passada, Vinícius era assessor da Casa Civil e sócio de Israel Guerra, filho de Erenice Guerra, ex-ministra da pasta, numa empresa que intermediava contratos com o governo usando a influência da petista. Naturalmente, cobravam comissão pelos serviços.

Depois que VEJA revelou a existência do esquema em sua última edição, Vinícius e outro funcionário do Planalto, Stevan Knezevic, pediram demissão, a ministra Erenice caiu – e o governo adernou na mais grave crise política desde o escândalo do mensalão, e que ronda perigosamente a campanha presidencial da petista Dilma Rousseff.

Lançado ao centro do turbilhão de denúncias que varre a Casa Civil, Vinícius Castro confidenciou o episódio da propina a pelo menos duas pessoas: seu tio e à época diretor de Operações dos Correios, Marco Antonio de Oliveira, e a um amigo que trabalhava no governo. Ambos, em depoimentos gravados, confirmaram a VEJA o teor da confissão.

Antes de cair em desgraça, o assessor palaciano procurou o tio e admitiu estar intrigado com a incrível despreocupação demonstrada pela família Guerra no trato do balcão de negócios instalado na Casa Civil. Disse o assessor: “Foi um dinheiro para o Palácio. Lá tem muito negócio, é uma coisa. Me ofereceram 200 000 por causa do Tamiflu”.

Vinícius explicou ao tio que não precisou fazer nada para receber a PP. “Era o ‘cala-boca". O assessor disse ainda ao tio que outros três funcionários da Casa Civil receberam os tais pacotes com 200 000 reais; porém não declinou os nomes nem a identidade de quem distribuiu a propina. Diz o ex-diretor dos Correios: “Ele ficou espantado com aquela coisa. Eu avisei que, se continuasse desse jeito, ele iria sair algemado do Palácio”.

O cândido ex-assessor tem razão: dinheiro sujo dentro de um gabinete da Presidência da República é um fato espantoso. Nos últimos anos, sobretudo desde que o presidente Lula relativizou os crimes cometidos durante o mensalão, sempre que se apresenta um caso de corrupção à opinião pública surgem três certezas no imaginário popular.

* Primeiro, nunca se viu um escândalo tão escabroso

* Ninguém será punido

* O escândalo que vier a sucedê-lo reforçará as duas certezas anteriores.

A anestesiada sociedade brasileira já soube de dinheiro na cueca, dinheiro na meia, dinheiro na bolsa, dinheiro em caixa de uísque, dinheiro prometido por padre ligado a guerrilheiros colombianos. Mas nada se compara em ousadia ao que se passava na Casa Civil. Ficará consolidado no inverno moral da era Lula se, mais uma vez, esses eventos forem varridos para debaixo do tapete.

Já se soube de malfeitorias produzidas na Presidência, mas talvez nunca de um modo tão organizado e sistemático como agora – e, ao mesmo tempo, tão bisonhamente rudimentar, com contratos, taxas de sucesso e depósitos de propina em conta bancária.

Por fim, o que pode ser mais escabroso do que um grupo de funcionários públicos, ao que tudo indica com a participação de um ministro da Casa Civil, cobrar pedágio em negócios do governo? O mais assustador, convenha-se, é repartir o butim ali mesmo, nas nobres dependências da cúpula do Poder Executivo, perto do presidente da República e ao lado da então ministra e hoje candidata petista Dilma Rousseff.

Na semana passada, quando o caso veio a público, a candidata do PT ao Planalto, Dilma Rousseff, tentou se afastar o quanto pôde do escândalo. Apesar de o esquema ter começado quando Dilma era ministra e Erenice sua escudeira, a candidata disse que não poderia ser responsabilizada por “algo que o filho de uma ex-assessora fez”. Dilma candidata não tinha mesmo outra alternativa. As eleições estão aí e o assunto em questão é por demais explosivo.

Erenice Guerra ganhou vida em razão do oxigênio que Dilma lhe forneceu durante sete anos de governo. Erenice trabalhou com a candidata quando esta comandava a pasta de Minas e Energia e na Casa Civil transformou-se na assessora-mor da petista, assumindo o cargo de secretária-executiva. É possível que em todos esses anos de intenso trabalho conjunto Dilma não tenha percebido o que se passava ao seu redor. É possível que Dilma seja uma péssima leitora de caráter. Mas, em algum momento, ela vai ter que enfrentar publicamente esse enorme contencioso passado.

Obedecendo à consagrada estratégia política estabelecida pelo PT, Dilma não só tentou se distanciar do caso como buscou desqualificar os fatos apresentados por VEJA. “É um factoide”, afirmou a candidata, dois dias antes de Erenice ser demitida pelo presidente Lula. (O governo divulgou que a ministra pediu demissão, o que é parolagem.)

A chefe da numerosa família Guerra caiu na manhã da última quinta-feira, vítima dos vícios da sua turma. Além dos fatos apontados por VEJA, veio a público o atávico hábito da ex-ministra em empregar parentes no governo, que, desde já, dá um novo significado ao programa Bolsa Família. Também se descobriram contratos feitos sem licitação favorecendo parentes da ministra.

Em um dos episódios, o filhote de Erenice cobrou propina até de um corredor de Motocross, que descolara um patrocínio de 200 000 reais com a Eletrobrás, estatal sob a influência de Erenice. Taxa de sucesso paga: 40 000 reais. “Israel chamava a Dilma de tia”, contou o motoqueiro Luís Corsini, o desportista que pagou a taxa de sucesso.

Antes de capitular aos irretorquíveis fatos apresentados por VEJA, o governo fez de tudo para desqualificar o empresário Fábio Baracat, uma das fontes dos jornalistas na revelação do esquema de arrecadação de propina na Casa Civil. Baracat, um empresário do setor aéreo, narrara, em conversas gravadas, as minúcias de suas tratativas com a família Guerra, que tinham por objetivo facilitar a obtenção de contratos da empresa MTA nos Correios.

No sábado, depois de, como disse, sofrer “fortes pressões”, Baracat divulgou uma nota confusa, na qual “rechaçava oficialmente informações" da reportagem, mas, em seguida, confirmava os fatos relatados. Com medo de retaliações por parte do governo, o empresário refugiou-se no interior de São Paulo. Ele aceitou voltar à capital paulista na última quinta-feira, para mais uma entrevista. Disse ele na semana passada: “Temo pela minha vida. Vou passar um tempo fora do país”. O empresário aceitou ser fotografado e corroborou, diante de um gravador, as informações antes prestadas à revista.

Baracat não quis explicar de onde partiram as pressões que sofreu, mas, em uma hora e meia de entrevista gravada, ratificou integralmente o conteúdo da reportagem. O empresário confirmou que, levado por Israel e Vinícius, encontrou-se várias vezes com Erenice Guerra, quando ela era secretária-executiva e, por fim, quando a petista virou ministra.

As primeiras conversas, narra Baracat, serviram para consolidar a convicção de que Israel não vendia falsamente a influência da mãe. Na última conversa que eles tiveram, em abril deste ano, o tom mudou. Israel cobrava dinheiro do empresário por um problema resolvido para ele na Infraero.

Diz Baracat: “Ele dizia que havia pagado na Infraero para resolver”. Na reunião, disse Erenice, de acordo com o relato do empresário: “’Olha, você sabe que a gente está aqui na política, e a gente tem que cumprir compromissos’. (...) Ficou subentendido (que se tratava da propina). (Ela) foi sempre genérica (nesse sentido). (...) Ela disse: ‘A gente é político, não pode deixar de ter alguns parceiros’”. Baracat diz que não sabe o que a família Guerra fez com o dinheiro.

O misterioso caso da comissão do Tamiflu também merece atenção das investigações iniciadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. O Ministério da Saúde, que já gastou 400 milhões de reais com a aquisição do remédio desde o ano passado, afirma que não houve qualquer ingerência da Casa Civil – e que a quantidade de Tamiflu comprada foi definida somente por critérios técnicos.

A seguir, mais uma história edificante
Em outros episódios, a participação da Casa Civil aparece de forma mais clara. VEJA apurou mais um caso no qual o poder da Casa Civil dentro do governo misturou-se aos interesses comerciais da ex-ministra, resultando numa negociata de 100 milhões de reais. Desta vez, o lobista central da traficância não é o filho, mas o atual marido de Erenice Guerra, o engenheiro elétrico José Roberto Camargo Campos.

Com a ministra Dilma Rousseff na Casa Civil e a esposa Erenice Guerra como seu braço direito, Camargo convenceu dois amigos donos de uma minúscula empresa de comunicações a disputar o milionário mercado da telefonia móvel. Negócio arriscado, que exige muito capital e experiência num ramo cobiçado e disputado por multinacionais. Isso não era problema para Camargo e seus sócios. Eles não tinham dinheiro nem experiência, mas sim o que efetivamente importa em negócios com o governo: os contatos certos – e poderosos.

Em 2005, a empresa Unicel, tendo Camargo como diretor comercial, conseguiu uma concessão da Anatel para operar telefonia celular em São Paulo. Por decisão pessoal do então presidente da agência, Elifas Gurgel, a empresa do marido ganhou o direto de entrar no mercado. De tão exótica, a decisão foi contestada pelos setores técnicos da Anatel, que alegaram que a empresa sequer havia apresentado garantias sobre sua capacidade técnica e financeira para tocar o negócio.

O recurso levou dois anos para ser julgado pela Anatel. Nesse período, Erenice e seu marido conversaram pessoalmente com o presidente da agência, conselheiros e técnicos, defendendo a legalidade da operação. “A Erenice fazia pressão para que os técnicos revissem seus parecereres e os conselheiros mudassem seu voto”, conta um dos membros do conselho, também alvo da pressão da ex-ministra.

A pressão deu certo. O técnico que questionou a legalidade da concessão, Jarbas Valente, voltou atrás e mudou seu parecer, admitindo os “argumentos” da Casa Civil. Logo depois, Valente foi promovido a conselheiro da Anatel. Um segundo conselheiro, Pedro Jaime Ziller, também referendou a concessão a Unicel. Não se entende bem a relação entre uma coisa e a outra, mas dois assessores de Ziller, logo depois, trocaram a Anatel por cargos bem remunerados na Unicel.

Talvez tenham sido seduzidos pelos altos salários pagos pela empresa, algo em torno de 30 000 reais – muito, mas muito mais do que se paga no serviço público. O presidente Elifas foi pressionado diretamente pelo Ministro das Comunicações, mas nem precisava: ele foi colega de Exéricito de um dos sócios da Unicel. Tudo certo? Não. Havia ainda um problema a ser sanado.

A legislação obriga as concessionárias a pagar 10% do valor do contrato como entrada para sacramentar o negócio. A concessão foi fixada em 93 milhões de reais. A empresa, portanto, deveria pagar 9,3 milhões de reais. A Unicel não tinha dinheiro.

Novamente com Erenice à frente, a Unicel conseguiu uma façanha. O conselho da Anatel acatou o pedido para que o sinal fosse reduzido para 1% do valor do negócio, ou seja, pouco mais de 900 000 reais. A insólita decisão foi contestada pelo Ministério Público e, há duas semanas, considerada ilegal pela Justiça.

Com a ajuda estatal, a empresa anunciou o início da operação em outubro de 2008, com o nome fantasia de AEIOU, prometendo tarifas mais baixas para atrair o público jovem, com o compromisso de chegar a um milhão de clientes em dois anos. Como foi previsto pelos técnicos, nada disso aconteceu.

Hoje, a empresa tem 20 000 assinantes, sua única loja foi fechada por falta de pagamento de aluguel e responde a mais de 30 processos por dívidas, que ultrapassam 20 milhões de reais. Mau negócio? Apesar da aparência, não. A grande tacada ainda está por vir.

O alvo do marido de Erenice é o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) – uma invenção que vai consumir 14 bilhões de reais para universalizar o acesso a internet no Brasil. O grupo trabalha para “convencer” o governo a considerar que a concessão da Unicel é de utilidade pública para o projeto. Com isso, espera receber uma indenização. Valor calculado por técnicos do setor: se tudo der certo, a empresa sairá com 100 milhões de reais no bolso, limpinhos.

Dinheiro dos brasileiros honestos que trabalham e pagam impostos.
A participação da Casa Civil no episódio ultrapassa a intolerável fronteira das facilidades e da pressão política. Aqui, aparecem diretamente as promíscuas relações entre os negócios da família Guerra e os funcionários que, dentro da Presidência da República, deveriam zelar pelo bem público.

A Unicel contou, em especial, com os favores de Gabriel Boavista Lainder, assessor da Presidência da República e dirigente do Comitê Gestor dos Programas de Inclusão Digital, que comanda o PNBL. Antes de ocupar o cargo, Gabriel trabalhou por oito anos com os donos da Unicel. Mas isso é, como de costume, apenas uma coincidência – como também é coincidência o fato de ele ter sido indicado ao cargo pelo marido de Erenice.

“O marido da Erenice é um cara que admirava meu trabalho. Ela me disse que precisava de alguém para coordenar o PNBL”, diz Laender. E completa: “O PNBL não contempla o uso da faixa da Unicel, mas ela pode operar a banda larga do governo se fizer adaptações técnicas” É um escárnio.

Camargo indicou o homem que pode resolver os problemas de sua empresa. Procurado, o marido de Erenice não quis se pronunciar. Na Junta Comercial, o nome de Camargo aparece como sócio de uma empresa de mineração, que funciona em modesto escritório em Brasília. Um probleminha que pode chamar a atenção dos investigadores: a Unicel está registrada no mesmo endereço, que também era usado para receber empresários interessados em negócios com o governo. Certamente mais uma coincidência.

As explicações factóides de Dilma precisam chegar na rede

Adelson Elias Vasconcellos

Se você é um daqueles brasileiros que amam de verdade seu país, deseja vê-lo desenvolvido, com um povo bem educado, trabalhando honestamente, sem depender do caldo de galinha do Tesouro, deve ler a revista Veja deste final de semana. Compre, arranje emprestado, mas, LEIA.

Não, não sou ligado à revista, tampouco escrevo prá ela, sou mero assinante. Assim, como da revista Epoca, dentre outras revistas e jornais. Gosto de estar informado, até porque, para manter um blog no ar há mais de 4 anos, sem informação não dá. Como não escrevo abobrinhas, e faço desta página leitura crítica sobre o meu país e sobre as coisas que nele acontecem, preciso estar digamos, assim...ligado, ômeu, sacou?  

Mas vamos lá. Nesta semana, em que a república foi sacudida por alguns terremotos dentro da Casa Civil, que vem a ser nada menos do que o centro nervoso do governo, onde tudo se passa e tudo acontece, vimos o governo Lula despachar a ministra Erenice Guerra, por conta do tráfico de influência, dela e dos filhos - se ela não participou diretamente, deu aval e se omitiu, depois - e, vimos também, como se comporta o PT no poder, quando flagrado com a mão na massa ...ilegal. Lula não demora em mandar embora gente que possa atrapalhar seus planos de poder. Punir, ele não pune, até pelo contrário: o digamos assim, defenestrado, regra geral, acaba sempre melhor do que antes. É a "taxa de sucesso" como prêmio pelo silêncio, uma espécie de "cala a boca" às antigas. Ou seja, muda-se o nome, mas a merda é a mesma.  O que não faltam são mensaleiros, sanguessugas e aloprados, dentre outros vilões, para corroborar a tese, não é mesmo? 

Sempre que perguntada, antes da queda de Erenice, sobre os recentes episódios, Dilma, candidata inventada por Lula para transferir-lhe "o povo" de dono, ou de mãos, o que dá na mesma, a ex saiu-se com a cretina e cínica expressão de repúdio, "não passa de factóide do meu adversário". Vimos que factóide eram as desculpas de Dilma. Erenice precisou sair rapidinho, para não atrapalhar a campanha da amiga.

Os jornalistas continuaram a cobrar de Dilma alguma explicação. Ela, por muito esperta, precisou mudar o tom do discurso. Invertendo a lógica dos fatos, cobrou uma prova de seu envolvimento. Aqui, se disse - e renovo a mesma afirmação - de que ela devia ao menos explicações convincentec, sim, porque a Casa Civil estava sob seu comando quando os fatos aconteceram. O mínimo dos mínimos é que tivesse sido traída pela melhor amiga sobre quem, a propósito, não quis por a mão no fogo, quando foi perguntada a respeito.

Pois bem, na edição que chega às bancas neste final de semana, a Revista Veja revela que, em julho do ano passado, quando a Dilma era a ministra, o advogado Vinicius de Oliveira Castro, lotado na Casa Civil, que, lembramos, foi o primeiro a cair fora,  na lambança de agora, reagiu com extrema excitação, ao se deparar com um pacotaço contendo um presentinho:  “Caraca! Que dinheiro é esse? Isso aqui é meu mesmo?”. Um colega tratou de tranqüilizá-lo: “É o ‘PP’ do Tamiflu, é a sua cota. Chegou para todo mundo”.

Dias antes, em 23 de junho, o governo, diante da ameaça de uma pandemia, acabara de fechar uma compra emergencial desse medicamento — um contrato de 34,7 milhões de reais. O “PP” entregue ao assessor referia-se à comissão obtida pela turma da Casa Civil ao azeitar o negócio.

ATENÇÃO: a ministra era Dilma, a secretaria Executiva era a Erenice Guerra, que viria assumir seu posto apenas em abril de 2010.

Mas, peraí: Que história é essa de "chegou prá todo mundo", e sem que ninguém, nem Dilma  tampouco Erenice, percebessem o movimento estranho, com grana viva rolando solta dentro do Gabinete?  Gente, "caramba!!!!" dizemos nós, agora!

Bem, há outros segmentos desta história amarga e macabra, para ser um tanto quanto gentil com a patifaria. A revista narra os fatos em todos os seus pormenores. Porém, se antes a gente até poderia admitir as lambanças da Erenice & Família, feitas com desconhecimento da Dilma, agora já não dá. E mais: aquele empresário de Campinas, na época em fazia intensa pressão para a obtenção do empréstimode R$ 9,0 bilhões junto ao BNDES, exibiu e-mail remetido para meio mundo na Casa Civil, e a ministra ainda era dona Dilma, em que cobrava providências. E, ainda assim, ela até agora não deu a menor explicação.

Senhores, representa dizer o seguinte: até aqui, ninguém, nem os envolvidos, acusaram Dilma de qualquer coisa, certo? O que se pede a candidata do Lula, que receberá o povo brasileiro como herança das mãos dele, é que ela esclareça como pode tudo isso acontecer sem que ela conhecesse absolutamente nada? E coisas feitas, não por meros assessores, mas coordenado, ou em conluio, ou só conivência de sua melhor amiga e sucessora no comando do Gabinete. Coisas que ocorreram a poucos passos de sua própria sala e da sala do poderoso chefão. 

Mais: como pode circular montanha de dinheiro vivo, sem chamar a atenção de quem quer que seja? Lembrando que o presente deixado para o advogado Vinicius não fora merreca, não!  Duzentos mil reais, em espécie, gente, é muita grana viva e com considerável volume para não ser comentada em um ambiente onde as pessoas circulam muito próximas! E, se o presentinho que o advogado recebeu, também foi distribuído para todo mundo, IMPOSSÍVEL  ninguém perceber nada. Se Dilma é tão eficiente quanto Lula quer fazer o país inteiro crer,  não poderia deixar o caso barato, não!  Não se trata mais de "factóide", mas de muitos "factóides" em espécie, para serem ignorados e passarem despercebidos.

Sendo assim, ela deve, queira ou não, dar explicações - ônus do cargo - para todo o país, porque é inadmissível que o Gabinete da Casa Civil seja transformado num puteiro, numa casa de tolerância - e bota tolerância nisso - onde se pratica todo e qualquer ato escuso e lesivo ao país. Da mesma forma, o país não pode continuar sendo comandado com tamanho desatino e por chefes de quadrilhas, labusando-se no dinheiro que não lhes pertence e que, ao invés de serem direcionados para setores nos quais a população mais precisa como a saúde, por exemplo, estão sendo  desviados para fazerem a fortuna ilegal de uns poucos que, valendo-se de seus cargos públicos, parecem não terem limites para abocanhar o que não lhes pertence.

Está na hora da dona Dilma dar as explicações a que está obrigada. Mas sem factóides nem faniquitos!!!