sábado, setembro 18, 2010

Que Lula olhe embaixo debaixo de seu próprio tapete.

Adelson Elias Vasconcellos

"Eu estou sabendo que tem gente nervosa e não somos nós"

Este frase, pode-se imaginar, foi dita por Lula em Minas Gerais, precisamente em Juiz de Fora, onde foi inaugurar mais uma obra que já existia e na qual se fez alguns puxadinhos para lá e para cá. Lula é assim mesmo: em tempo de campanha, inventa qualquer pretexto para subir no palanque. E se não houver algum, ainda assim ele vai lá e manda ver. 

Interessante notar que, diante de escândalos que explodem dentro do seu governo, Lula, regra geral, sobe o tom do discurso e, ao invés de defender-se, passa para o ataque, com incrível truculência e destilando um ódio feroz. Vê inimigos imaginários, quando deveria olhar o que se esconde debaixo do seu próprio tapete.

Agora, até em função das pesquisas serem favoráveis à sua criatura, passou a acusar o outro lado de desespero, quando, ao que me parece, as acusações passaram longe da oposição. Quem traficou influência, quem violou ilegalmente sigilos fiscais, quem montou dossiês, quem praticou um nepotismo imoral não foi o “meu adversário” (diz isso como se o candidato governista fosse ele e não Dilma).

O desespero, senhor Luiz Inácio, não é porque Serra possa perder eleição, já que, perder ou ganhar, faz parte do jogo político. Aliás, quem está desesperado para não perder, é vossa excelência, que transformou a Presidência da República num imenso comitê eleitoral, utilizando-se absurda, ilegal e imoralmente da máquina pública e dos recursos do Estado para fazer campanha eleitoral. Que o TSE não enxergue isto e deixe de cumprir a função para a qual foi criado, isto é problema do TSE. Mas que está caracterizado o abuso do poder político e econômico, isto é inegável.

O desespero de Serra, se houver, é o mesmo de uma parte deste país também.  A de que face, aos inúmeros escândalos que já pipocaram em seu governo, alguns na ante-sala da presidência, e sempre contando com a presteza em manter os seus companheiros impunes, o que de mais bandalheira ainda possa existir, ainda não descobertas ou denunciadas.  Podemos até ser 1% apenas da população, mas é, certamente, a parte que pensa e que se informa,  gente não dependente de bolsas cala boca,  e que não admite ver o país atolado em maracutais de toda a sorte acobertadas por quem deveria, antes de qualquer outro, mandar apurar com seriedade.  

O desespero, senhor Luiz Inácio, se dá no sentido de que se tenta impedir não que dona Dilma seja eleita, mas que o país continue a ser governado por quadrilhas que desviam dinheiro público, e que, por fazerem parte de sua roda,  ao invés de serem punidos, tem seu silêncio cúmplice comprado com promoções e mais privilégios para continuarem a delinquir.

É disto que se trata. Portanto, não inverta a lógica dos fatos. Não adianta enrolar, dizendo-se perseguido, tentando culpar as vítimas, acusando sem nenhum fundamento que a imprensa inventa – o pecado da imprensa independente é informar, é isso? – subir para cima do palanque feito cachorro louco e esbravejar como se estivesse endiabrado. Não é truculência que responde acusações, por sinal, acusações muito bem fundamentadas em fatos, provas, documentos e testemunhos. Este método de defender-se acusando o lado contrário, já é bem conhecido e não cola mais. Não adianta fazer-se de vítima e jogar a responsabilidade que é sua no colo de terceiros. Este teatro já não dá mais ibope, presidente.

Este comportamento desequilibrado não apaga mais os incêndios da corrupção que está  varando seu governo desde Waldomiro Diniz, lembra?

Trate de governar com mais seriedade e pare de passar a mão na cabeça de seus bandidos. Ou será que estão apenas a mando de alguém mais graúdo do que eles? Cuidado: de repente, tanta impunidade e tanto desvario, pode ser sintoma de quem está escondendo muita coisa debaixo do tapete em que pisa. Aliás, diga-nos, quando foi que a imprensa inventou alguma coisa que não tenha ficado comprovado, desde 2003? E esta arrogância de achar que, por ter 80% de aprovação apesar das acusações, é uma soberba prova de que a grande maioria da população não tem acesso à informação, o que deveria envergonhá-lo na qualidade de presidente há oito anos. Mesmo porque, boa parte destes 80% a gente sabe como foi conseguido e de onde provém tanto triunfo, não é mesmo?

Como lembrei aqui, o macaco senta no próprio rabo que é prá ninguém reparar no dele, enquanto ele mesmo só olha o dos outros. Mas tantas faz que um dia deixa rastros...Esta falta de limites, este sentimento arrogante de que está acima do bem e, principalmente, do mal, este absolutismo canalha de achar que a presidência e a aprovação elevada lhe confere salvo conduto para atropelar as leis e agredir as instituições, pode um dia custar-lhe caro! Ainda mais, para quem já tem um tapete com tantos remendos quanto o seu...

Sei não, senhor Lula, mas este desespero para eleger Dilma, e no primeiro turno, é temor de perder, não a boca rica que o senhor vive desde 2003, mas medo de que, quem sucedê-lo, acabe descobrindo o que senhor andou fazendo nos verões passados.