Sob o título de BLINDANDO DILMA, Merval Pereira, em artigo para O Globo, expõe de forma bastante clara, que a ex-ministra Erenice Guerra, da Casa Civil, não teria tido tamanha desenvoltura sobre os casos já conhecidos de tráfico de influência - fora outras "cositas mas" - não houvesse apoio de Dilma Rousseff que, na época, era quem comandava o Gabinete.
A estreita proximidade entre ambas não pode conviver com a ideia de que houve, em dado instante, aliás em diversos intantes, uma espécie de divórcio no relacionamento, para que uma, Erenice, atuasse sem que a outra, Dilma, tomasse conhecimento ou ao menos percebesse de algo estranho no ar. Para todos quanto acompanham o dia-a-dia do Palácio Planalto, tal hipótese fica difícil, quase impossível de ser aceita.
Sendo assim, não pode Dilma vir a público e achar que com truculência e deboche, ou zombaria, pode aplicar qualquer justificativa para se desligar dos episódios. Inadmissível para uma candidata à Presidência esquivar-se da sua própria responsabilidade, sob pena e risco de, se eleita, iniciar seu governo sob forte suspeita de incompetência, além da pecha de irresponsável.
Na reportagem da Revista Veja, que reproduzimos abaixo, tal desconhecimento chega a ser patético, porque tanto dinheiro vivo circulando dentro do Gabinete seria motivo de reboliço e alvoroço enormes e a tal ponto que despertaria atenção até do mais alienado funcionário que por ali circulasse. Quanto mais de um comando que se jacta de tão onipotente e eficaz. Inadmissível tamanho cinismo e hipocrisia.
Claro que sempre o rol de desculpas esfarrapadas, fajutas, inveromissíveis serão esparramadas no sentido de desqualificar a gravidade do caso. Contudo, e como bem lembrei aqui, a Polícia Federal não precisa ir tão longe para apanhar corruptos. Bastaria fazer uma devassa nos negócios nebulosos que são feitos à mãos cheias nos subterrâneos do poder em Brasília. O país não pode continuar assistindo inerte, passivo, tanta desfaçatez e tanta lama rolando solta sem que se dê um BASTA e se puna, INDEPENDENTEMENTE do cargo que ocuparem os culpados, se não quiser ser atropelado pelo vale-tudo das quadrilhas que atuam livremente para se apropriarem de recursos que deveriam ser aplicados em favor da mesma sociedade que os recolhe para tal fim, e vão sendo espalhados de bolso em bolso, em malas, cuecas, bolsas, sapatos e meias da ratasana que corroe o poder com sua imoralidade.
Não pode nem o senhor Lula, tampouco sua criatura, continuarem a fazer o país de palhaço, agredindo a verdade e permitindo que se opere livremente bem próximo de si, esquemas fradulentos de desvios de dinheiro público. Está mais do que na hora de ambos sairem do discurso para a ação, sob pena de despertarem suspeitas de que participam do mesmo banquete indecente que envergonha e enxovalha a nação.
Segue o artigo do Merval Pereira.
Blindando Dilma
O Palácio do Planalto está agindo rápido para se livrar de todos os traços do esquema de tráfico de influência que a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra implantara no principal gabinete do palácio do Planalto, ao lado do presidente da República.
Desta vez o presidente Lula pode até mesmo dizer, como costuma, que de nada sabia, já que sua ligação com Erenice era apenas administrativa.
Se tivesse colocado, como queria, Miriam Belchior no lugar de Dilma, teria sido uma indicação pessoal baseada numa relação histórica de luta partidária com o próprio presidente.
Miriam seria uma personagem na política palaciana menos importante do que foi José Dirceu, mas, assim como é difícil imaginar que Dirceu montou o esquema do mensalão sem que Lula fizesse a menor idéia do que estava acontecendo, ficaria também difícil a ele se dissociar das ações de Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito assassinado Celso Daniel, a quem Lula reservara papel de destaque no seu primeiro mandato.
Os erros de Erenice, amplamente divulgados e comprovados a cada dia, têm apenas uma ligação política possível, e é com Dilma Rousseff.
Já escrevi aqui que a relação de Dilma com Erenice é a mesma de Lula com Dilma: criador e criatura.
A família de Erenice não atuaria com tamanha desenvoltura em diversas áreas do governo se não tivesse a certeza de que estavam seguros por laços políticos e, sobretudo, de amizade.
Fica difícil acreditar que, tendo feito tudo o que está relatado nos últimos dias quando era o braço direito de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra não deixou rastros de sua movimentação e nem dava à sua chefe imediata e amiga informações sobre o que estava fazendo.
Quanto às alegações de que o consultor Rubnei Quícoli, por sua ficha corrida nada exemplar, não teria credibilidade para sustentar as denúncias, é bom lembrar que em todos os casos em que surgiram, os escândalos dos últimos anos, foram justamente pessoas envolvidas nas negociatas que denunciaram seus “cúmplices”.
Pedro Collor não se entendeu com o irmão presidente sobre a partilha do butim e denunciou Fernando Collor. Roberto Jefferson sentiu-se traído em seu esquema montado nos Correios e abriu o bico, denunciando o mensalão.
Quando o empresário e consultor Rubnei Quícoli, diz que parte da propina que lhe pediram seria alegadamente para financiar a campanha da Ministra Dilma Rousseff à presidência da República, surge um indício de uso de caixa dois na campanha eleitoral que precisa ser investigado e esclarecido.
Ainda mais por que as demais denúncias feitas acabaram mostrando-se verdadeiras, provocando a saída não apenas da ministra como de vários parentes seus de diversos cargos espalhados pela República.
Ontem, mais um servidor do Palácio do Planalto foi demitido rapidamente. O consultor Rubnei Quícoli apontara em entrevista um tal de Stevan, que descreveu assim: “Ele é um avião, tem uma porta aberta na Casa Civil e outra no BNDES”.
Em meio às negociações para aprovação de projeto de energia solar no Nordeste – avaliado em R$ 9 bilhões que não saiu do papel - surgiu Stevan, que seria a ligação do governo com a Capital Consultoria.
Pois não é que existe mesmo o tal de Stevan? Seu sobrenome é Knezevic e ele trabalhava no Centro Gestor e Operacional do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), órgão subordinado à Casa Civil. Ele regressou ao seu órgão de origem, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que, diga-se de passagem, está transformada em um enorme cabide de empregos para os apaniguados do governo, assim como os Correios, a Receita Federal e outras estatais.
O “aparelhamento” do Estado, que tem um caráter político de controle das atividades por membros dos partidos e sindicatos que apóiam o governo, tem também, ou sobretudo, o seu lado mercantilista.
Vários parentes de Erenice passaram por lá, inclusive o filho Israel Guerra. Não é difícil imaginar que os dois, Stevan e Israel, conheceram-se na Anac e de lá partiram para as ações de lobby no Palácio do Planalto.
Há outro detalhe interessante no episódio da demissão da ministra Erenice Guerra: ao obrigá-la a sair do Gabinete Civil, o presidente Lula está retirando, pelo menos simbolicamente, seu aval às decisões da candidata Dilma Rousseff.
Se, eleita presidente, Dilma pretendia colocar Erenice no Gabinete Civil, contra a vontade de Lula, que quer naquele lugar o ex-ministro Antonio Palocci, que outras escolhas Dilma fará?
Sua capacidade de nomear os principais assessores sai do episódio bastante arranhada, além do que persiste uma estranha sensação de que seu eventual futuro governo, pois a eleição para o Palácio do Planalto e seu entorno é tida como uma fatura já liquidada, começou em clima de crise.
O que a família Guerra não poderia fazer num governo da “madrinha” Dilma?