sexta-feira, agosto 16, 2013

Mídia Ninja e o futuro desfocado

Fernando Gabeira 
O Estado de S.Paulo

As manifestações de junho revelaram ao País a Mídia Ninja, grupo de jovens que usa smartphones para divulgar ao vivo os protestos de rua e eventuais confrontos com a polícia. Tive a oportunidade de entrevistar um deles, Bruno Torturra, e na ocasião tentei quebrar um pouco a rígida dicotomia entre imprensa profissional e jovens amadores com uma visão excludente do processo.

Creio que grande parte dos temas agitados nas ruas do Brasil foi divulgada pela imprensa profissional. O que as redes sociais fizeram foi metabolizar os escândalos e deslizes amplamente registrados nos grandes veículos de comunicação. É inegável que existe mão dupla. A grande imprensa é muita atenta às redes sociais e procura pescar todos os temas que lhe parecem dignos de publicação. É assim que ela trabalha - ou deveria -, com antenas sempre ligadas no que acontece em qualquer lugar, o mundo virtual incluído.

Na cobertura das manifestações a Mídia Ninja conseguiu ficar bem próxima dos jovens que protestavam e dos policiais que, eventualmente, os reprimiam. Isso era melhor que as tomadas de helicóptero, embora a visão de cima dê também boa ideia da magnitude do protesto e de como evolui espacialmente. Mas, como dizia Robert Capa, se a imagem não é tão boa, é porque não chegamos perto o bastante do objetivo. É a visão de um fotógrafo de guerra que se pode estender a outros campos.

Em nova entrevista de TV, os jovens da Mídia Ninja deram a entender que há uma crise na imprensa clássica e eles representam uma verdadeira alternativa a ela, no futuro. Isso se choca com meio século de experiência no ofício e o exame de outras tentativas, mundo afora, de achar um caminho para as limitações da imprensa, sobretudo as que se revelaram com o impacto da revolução digital.

A Mídia Ninja dá a entender que pretende financiar seu trabalho com o apoio dos próprios leitores. É o que tentam fazer algumas agências de fotógrafos, via crowdfunding. Na verdade, a iniciativa é uma extensão de algo que já deu certo no mundo musical, projetando inúmeros grupos independentes. Mas as experiências de financiamento entre os fotógrafos partem de um portfólio mostrando a capacidade específica do profissional e do detalhamento do projeto a ser financiado. É uma tentativa de reinserir no fluxo de informações um material de alta qualidade que as circunstâncias econômicas das revistas já não permitem financiar. Impossível buscar informação em vários cantos do País e do mundo sem recursos para passagens, hotel e aluguel de carro, para ficar só nas despesas mais rotineiras.

A primeira condição de crowdfunding, em jornalismo, é a alta qualidade do material produzido, o que a Mídia Ninja não pode oferecer, pelas circunstâncias da cobertura e pelo precário domínio técnico. Viver disso significa preocupar-se com detalhes: ângulo, luminosidade, enquadramento, composição - enfim, as técnicas que permitem transmitir a informação com nitidez. Se tudo isso é considerado secundário, o que é o principal? Estar presente e tomar o partido dos oprimidos, ainda que a mensagem seja um lixo técnico.

Isso me remete às discussões que tive com Glauber Rocha pelas ruas de Havana e me valeram um mal-entendido. O sonho de Glauber era associar-se aos grupos de guerrilha e ser o cineasta de suas ações armadas contra as ditaduras militares do continente. Disse-lhe francamente que achava a ideia problemática. Glauber teria de morrer como um grande cineasta e se tornaria um documentarista precário dos fatos, sempre escravizado pela segurança da ação e pela obediência ao comando da guerrilha. Ele entendeu que estava propondo seu suicídio e por muitos anos não falou comigo.

O problema que discutíamos em Havana ainda é válido hoje. É impossível expressar o talento pessoal, amplamente, tendo de se submeter aos interesses de um grupo, que decide o que e como publicar. Os jovens da Mídia Ninja acham que a grande imprensa é parcial. E, em vez de defender a imparcialidade, tomam partido e afirmam que a verdade surgirá do intercâmbio de múltiplas parcialidades. Essa discussão é uma das mais antigas e, diria, entediantes, depois de tantas madrugadas nos bares de Ipanema. Apontar a câmera para um lado, e não para o outro, já significa uma escolha pessoal. Imagens, verbos, adjetivos, tudo isso expressa uma tomada de posição. Em certos fatos jornalísticos, que envolvem também a concepção democrática de cada um, fica visível onde está e o que quer o narrador.

Mas existem certos princípios na informação de qualidade. Um é a importância de ouvir os dois lados. Outro é a humildade do repórter, que mesmo tendo uma posição sobre determinado tema não tenta conformar a realidade à sua tese. É preciso estar aberto para o que realmente está acontecendo e jogar para o alto as ideias que não correspondam aos fatos.

Quando alguém da Mídia Ninja é preso, a grande imprensa relata em detalhes e busca explicações da polícia. Quando carros das emissoras de TV são queimados por manifestantes, é de esperar que a Mídia Ninja também combata esse tipo de violência e todas as outras formas de agressão. Se o nome do jogo é informação, a liberdade de imprensa é um bem comum. Quem vai sobreviver ao tsunami da revolução digital, quem vai naufragar, tudo é uma questão de talento e capacidade de adaptação aos tempos revoltos. Não creio em profissionais especializados em manifestações, muito menos sustentados por grupos em fusão, que se desfazem e recompõem indefinidamente.

Ao ver na TV a história de coletivos com casas próprias e líderes que combinam picaretagem política com certo tom religioso, pressinto os descaminhos que se impõem, com dinheiro oficial, à cultura brasileira. Descaminhos que, no fundo, desprezam a cultura e a substituem pelo militante fanático. Quem não se lembra da Revolução Cultural chinesa? Foi um dos momentos mais indignos da História humana. É preciso ler um pouco sobre isso para evitar algumas novidades que, no fundo, são apenas o retorno da barbárie.

Broche, chicote e cipó

Nelson Motta
O Globo

O senador Suplicy protestou: chicote não, é medieval

Com o encarceramento do deputado federal Natan Donadon, condenado pelo STF a 13 anos e 4 meses por corrupção, quebrou-se o tabu centenário de o Supremo não condenar um parlamentar à prisão, e abriu-se a temporada de caça a políticos corruptos, de todos os partidos. Um detalhe fofo: quando se entregou à polícia e deu entrada no presídio, Donadon fez questão de manter na lapela o broche da Câmara dos Deputados, que agora deve estar usando no seu macacão laranja.

Em seguida, o senador Ivo Cassol foi condenado pelo Supremo, por unanimidade, a 4 anos e 8 meses de prisão por fraudar licitações para empresas de parentes e amigos quando era prefeito de Rolim de Moura. Mas, assim que o Senado cassar seu mandato e o elemento começar a cumprir sua pena no regime semiaberto, dormindo na cadeia, a sua cadeira será ocupada, como se fosse hereditária, por Reditário Cassol, seu suplente e pai.

Em outubro de 2011, quando o filho se licenciou para lhe permitir desfrutar de três meses como senador da República, Reditário subiu à tribuna para defender que os presos sejam obrigados a trabalhar nos presídios para ajudar o Estado a pagar a sua manutenção, e, caso se recusem, devem ser chicoteados.

O senador Suplicy protestou: chicote não, é medieval.

Talvez Reditário nunca tenha ouvido a música “Cipó de aroeira”, de Geraldo Vandré, um clássico petista, e nunca imaginou que, se dependesse dele, um dia seu filho teria que pegar no pesado na cadeia ou receber “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.

Darcy Ribeiro dizia que o Senado era o céu, com a vantagem de não se precisar morrer para chegar lá. Mas, ainda melhor do que ser senador, é ser suplente, sem precisar fazer campanha, sem votos, sem nenhum compromisso, a não ser os financeiros — muitos suplentes financiam a campanha e recebem em troca alguns meses ou até anos de mandato do titular —, sem qualquer qualificação ou legitimidade, e cobertos pela legalidade indecente que eles mesmos criaram, e que só agora, como medida marqueteira da “agenda positiva” do Senado, começa a acabar.

Mais espantoso que acabar é ter durado tanto.

Trator avariado

Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Assim como aconteceu no caso da sofrida vitória com gosto de derrota da MP dos Portos, em maio, o revés imposto ao governo com a aprovação do Orçamento impositivo na Câmara dos Deputados não foi obra da oposição, mas da mais ampla aliança já montada para defender os interesses governistas no Parlamento.

Impressionou o resultado: 378 votos a favor, 48 contra e 13 abstenções. Um desastre político que o Planalto tentará minimizar negociando com o Senado a regra de destinação de 50% das emendas parlamentares para a área da Saúde.

Pode ser que consiga, mas é pouco para quem tratava a questão nos termos da frase da ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann: "Somos contra de cara", disse ela quando o presidente da Câmara, Henrique Alves, reafirmou a disposição de pôr em prática a mudança que torna obrigatório o pagamento das emendas. Ou seja, fora de cogitação abrir mão da prerrogativa do Executivo de liberar ou não as verbas de acordo com critérios políticos ou administrativos.

A ministra propunha levar o assunto a "debate na sociedade sobre as consequências que isso terá". Ela falava ainda no clima da repercussão da batalha dos Portos. MP que, a despeito da existência de uma base aliada em tese composta por 70% a 80% do Legislativo, levou quatro dias e três noites para obter o quórum necessário à aprovação.

Na época, o assunto foi tratado como uma exceção devido aos interesses econômicos (legítimos e ilegítimos) envolvidos.

No caso do Orçamento impositivo o governo poderá adotar a mesma lógica de "ponto fora da curva" para justificar o resultado adverso, já que os parlamentares estariam votando em causa própria. De fato, votaram em prol deles mesmos, mas seria uma ilusão o Planalto continuar interpretando o quadro pelo viés da exceção.

Cumpre lembrar que essa questão vem sendo objeto de projetos desde o início dos anos 90 e todos os governos de lá para cá conseguiram que nenhum deles prosperasse. Portanto, o tamanho da derrota da terça-feira à noite tem um significado maior, sendo o mais evidente o da perda de eficácia (a conferir se temporária) do rolo compressor - instrumento habitualmente usado para expressar a força dos "donos" da maioria.

Segunda época. 
Os primeiros embargos de declaração à condenação dos réus do mensalão examinados pelo Supremo Tribunal Federal referiam-se a questões amplamente discutidas e claramente resolvidas durante o julgamento.

De onde, meramente protelatórios. É papel dos advogados apresentá-los. Mas, a julgar pelos votos dos ministros, a Corte cumprirá o papel de rejeitar a toada da postergação.

Isso não quer dizer que o plenário adote o ritmo de celeridade máxima pretendida pelo relator e presidente do STF, Joaquim Barbosa. As divergências surgirão, as escaramuças dialéticas que permearam o julgamento da ação propriamente dita vão se repetir e o debate jurídico será levado ao detalhamento necessário para não dar margem à apresentação de uma segunda leva de embargos ao acórdão resultante da fase agora em discussão.

Força-tarefa.
 Os 13 senadores autodenominados "independentes" e pertencentes a vários partidos que se declararam em estado de confronto explícito com o presidente da Casa, Renan Calheiros, não estão sozinhos.

Contam com apoio tácito na bancada do PT. A oposição não é só a Calheiros, mas ao domínio do processo legislativo por um grupo integrado pelos senadores Eunício Oliveira, Gim Argello, Romero Jucá, Vital do Rego e Eduardo Braga, líder do governo.

A ideia é contestar decisões e denunciar atos vistos como produtos dessa concentração de poder nas mãos de poucos em detrimento da vontade do colegiado.

Congresso retoma autonomia e não precisa mais mendigar liberação das emendas

Políbio Braga
Tribuna da Imprensa

O Congresso se fortalece perante o Executivo. O texto do relator da PEC, deputado Édio Lopes (PMDB-RR), obriga a aplicação das emendas, limitadas a 1 por cento da receita corrente líquida do ano anterior. Levando em conta a receita corrente líquida de 2012, este ano deputados e senadores teriam direito à liberação de cerca de 11 milhões de reais em emendas individuais, que o governo seria obrigado a pagar. Até agora, a liberação depende da boa vontade do presidente, que barganha cada centavo que concede, embora os valores estejam no orçamento.

A Câmara dos Deputados aprovou terça-feira, em primeiro turno, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Orçamento Impositivo, que obriga o pagamento de emendas parlamentares individuais, sem a vinculação de parte desses recursos à saúde, como era defendido pelo governo.

Aprovada por 378 a 48 votos e 13 abstenções, a PEC ainda precisa ser votada numa segunda rodada, que deverá ocorrer após um intervalo de cinco sessões entre os dois turnos, como manda o regimento interno da Casa, para só depois ir ao Senado.

Após uma série de reuniões  com as ministras do Planejamento, Miriam Belchior, e das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e os líderes partidários, os deputados chegaram perto de um consenso para a apresentação de uma emenda aglutinativa que englobaria uma série de mudanças negociadas durante o dia.

Um dos pontos que fez parte das conversas e possibilitou que fossem alcançados “99 por cento” de um acordo, nas palavras do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), dizia respeito justamente à fixação de um percentual das emendas destinado à saúde. Apesar dos esforços, os deputados decidiram levar à votação o texto aprovado em comissão especial da Câmara na semana passada, que não incluía esse percentual.

Dilma e o ET de Varginha

Roberto Macedo 
O Estado de SPaulo

Na quinta-feira passada surpreendi-me com a notícia de que a presidente Dilma Rousseff, ao passar por Varginha (MG), declarou seu respeito pelo extraterrestre (ET) que teria surgido na cidade em 1996. Textualmente: "(...) tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E eu sei que aqui quem não viu conhece alguém que viu". Ele teria aparecido e depois sido apreendido por militares. Mas o que aconteceu - se é que aconteceu mesmo - nunca foi esclarecido. O certo é que a cidade ficou conhecida também pelo "seu" ET. E o fato de a própria presidente ter-lhe dedicado atenção mostra que se firmou no imaginário popular.

Não é a primeira vez que isso acontece. Um caso com muito espaço no debate sobre objetos voadores não identificados (óvnis ou, em inglês, UFOs) teria ocorrido perto em Roswell, nos EUA, em 1947. O jornal local chegou a anunciar que militares da Força Aérea americana haviam resgatado o que restara de um disco voador e de seus ocupantes ao cair. A informação veio de um porta-voz militar. Mas ainda no mesmo dia veio outro comunicado militar, dizendo que o que caiu foi um balão usado para previsões climáticas.

Mas perdurou a crença no óvni e nos seus ETs, realimentada em 1978 quando um oficial que participou da operação de resgate em Roswell confirmou ter sido mesmo um óvni e que o governo acobertou o caso. O assunto voltou à tona noutra entrevista do mesmo oficial e foi parar no Congresso do país. Surgiu até uma testemunha de que autópsias nos ETs teriam sido realizadas na base aérea local. O governo manteve sua versão e ainda em 1997 voltou a se pronunciar sobre o tema. Quem quiser saber mais pode começar buscando "Roswell UFO incident" na internet.

Por causa desse caso a cidade atrai visitantes e tem até um museu sobre o assunto (www.roswellufomuseum.com). Note-se que é uma organização "ponto com", ou seja, não é do governo.

De qualquer forma, na minha breve incursão no assunto, não vi ninguém a declarar respeito por ETs, o que seria mais típico de um diálogo entre eles. A presidente Dilma estava falando a uma rádio e presumo que se dirigia apenas à audiência terrestre. Mas, como se diz lá em Minas, nunca se sabe, né? Vou tomar a declaração como de respeito à crença local sobre o tema, o que é cabível. Afinal, o universo é infinito. Se ainda não veio uma prova segura da existência dos ETs, também não se provou que não existem.

Como também não existem limites para o imaginário das pessoas, há muitas interessadas no assunto e, com razão, Varginha procura tirar proveito disso. Vem tentando e, como é típico do Brasil e de seus terrestres, há um projeto estatal, da prefeitura local, de criar um museu centrado na temática extraterrestre. Como também é típico do País, o projeto local tem recursos federais, já gastou uma nota (R$ 1,1 milhão só dessa fonte) e a obra está parada, no caso, há três anos.

Isso já é falta de respeito tanto a ETs como a todos nós, terrestres nacionais que pagamos mais uma conta sem resultados. A matéria sobre o museu foi publicada na Folha de S.Paulo de sexta-feira passada, ilustrada por foto da enferrujada estrutura metálica dele, em formato de disco voador. Enquanto não vem, refiro-me ao museu, habitantes e visitantes da cidade terão de se contentar com uma caixa d'água local no mesmo formato.

Aliás, quanto a atrasos de obras, comemora-se nos círculos da procrastinação nacional o primeiro aniversário do anúncio de um grande programa federal de concessão de rodovias e ferrovias federais. Neste estágio, a licitação e a concessão já deveriam estar concluídas e o projeto, andando. Cheguei a me entusiasmar com ele, mas sobreveio essa frustração. Em compensação, comemoro mais um adiamento do projeto do trem-bala.

Ainda em Varginha a presidente, falando de economia, voltou a se referir a outro mundo. Como ao dizer que "a inflação está sob controle". De novo, sua afirmação requer interpretação, mas não consigo encontrar uma que a deixe bem na foto. Medida pelo IPCA de julho, a inflação foi próxima de zero. Mas não quer dizer que esteja controlada, pois aqui, na Terra, é um processo que requer avaliação pelo menos em base anual. Olhando à frente, as previsões do mercado financeiro são de que voltará a subir daqui para o fim do ano, chegando a taxas mensais superiores às que garantem o alcance do centro da meta de inflação, fixado pelo Banco Central em 4,5% ao ano. E alcançando até taxas que exigiriam a manutenção de medidas em contrário, como o aumento da taxa básica de juros.

Talvez a presidente se tenha referido a outra forma de controle que adota, como a estampada em manchete da Folha de ontem: Dilma segura reajustes de preços sob controle do governo federal. É, porém, um controle que não funciona neste mundo, pois a inflação diz respeito ao conjunto de preços dos bens e serviços de toda a economia e não se resolve segurando este ou aquele preço. Ao contrário, isso cria distorções como a enfrentada atualmente pela Petrobrás, que com esse controle tem seus planos de investimentos prejudicados por carência de recursos próprios.

Noutra afirmação não cabível aqui, na Terra, Dilma declarou que no primeiro semestre deste ano "... criamos 826 mil empregos com carteira assinada". Exceto pelos empregos criados na área estatal pelo governo, quem cria empregos aqui, na Terra, é a economia na sua dinâmica, na qual o governo tem algum papel, mas nem sempre o melhor deles e não de todo determinante, exceto ao gerar crises. No momento, por exemplo, fossem outras a política e a gestão econômica governamental, de tal forma que, entre outros aspectos, não houvesse espaço para atrasos de projetos que vão do museu de Varginha ao citado programa de rodovias e ferrovias, ainda mais empregos seriam criados pela economia, em particular e como sempre pelo setor privado.

A falsa boa ideia.

Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

Hemingway dizia que, para escrever um livro, levava determinado tempo; e, para cortar o texto até chegar à versão definitiva, um tempo muito maior. Uma reportagem não é um apanhado de fatos que se passam por realidade; uma reportagem é algo trabalhado, pensado, articulado, hierarquizado, com mais espaço para o que é mais importante, tudo dentro do panorama geral dos acontecimentos. Como ensinava o Jornal do Brasil dos bons tempos, o fato mais importante vinha no lead, o segundo no sub-lead, e a história se seguia no restante da matéria. Fazer uma reportagem não é amontoar fatos, mas dar-lhes sentido.

E os ninjas? Os ninjas são um fenômeno relativamente novo (os repórteres-abelha, lançados por Fernando Meirelles no TV-Mix, da TV Gazeta, faziam algo semelhante, embora mais bem trabalhado, mesmo não dispondo dos equipamentos hoje existentes). Foram importantíssimos para mostrar as imagens das manifestações de rua, num momento em que as principais tevês, por motivos diversos, não conseguiam cobri-las; levaram grandes emissoras a trabalhar mais ou menos da mesma maneira, com repórteres utilizando câmeras leves e links nas mochilas; mas, excetuando-se os maníacos da telinha, que ficavam horas assistindo às passeatas, era difícil encontrar muita gente com disposição para assistir à movimentação constante, aos ruídos, à gritaria - e, especialmente, à quantidade de informações partidárias com rótulo de apartidárias. 

Nada contra os ninjas: que busquem seu lugar ao sol, abrindo possivelmente uma nova fórmula, que ainda será preciso desenvolver, de telejornalismo. Mas tudo a favor da reportagem que, feita por profissionais talentosos e bem equipados, possam mostrar não apenas as imagens da correria, mas o que está de fato acontecendo. A cobertura ninja não mostrou, por exemplo, nem poderia mostrar, quais correntes políticas apoiavam cada uma das manifestações, e com que interesses. Mostrou, o que foi ótimo, várias tentativas de policiais de incriminar manifestantes; mostrou, o que foi ainda melhor, pelo menos um manifestante que, depois de jogar coquetéis Molotov e provocar incêndios, correu em direção aos policiais, foi recebido por eles, que lhe deram um uniforme para cobrir as roupas civis, e misturou-se ao grupo que reprimia a manifestação. Ficou claro, ali, algo que parecia evidente, mas que ainda não havia sido comprovado: a presença de agentes provocadores, sabe-se lá com que objetivos. Mas, muitas vezes, a cobertura ninja lembrou um famoso juiz de futebol, Alcebíades de Magalhães Dias, que virou uma lenda no nosso futebol. 

Num jogo há muitos e muitos anos entre o Botafogo do Rio e seu time de coração, o Atlético Mineiro, o botafoguense Santo Cristo e o atleticano Afonso discutiam quem tinha direito a repor a bola que saíra pela lateral. O juiz decidiu: "Bola nossa! Afonso, é bola nossa". Ficou conhecido como Cidinho Bola Nossa. 

No caso dos ninjas, não há dúvida sobre o partido que apoiam, embora insistam (tanto eles quanto seus financiadores, o grupo Fora do Eixo) em garantir que não têm qualquer ligação com partido algum.

Mas não desviemos o assunto: independentemente de quem apoiem ou não, o problema é que a exibição desordenada de imagens e fatos pode até representar uma franja do jornalismo, mas definitivamente não é nem revolução nem tendência a ser seguida. 

Da mesma forma que dicionário, embora contenha milhares de palavras, mais palavras do que qualquer outro livro, não é literatura.

A força da marca
A família Graham, que nos tempos da matriarca Katherine desafiava o The New York Times e oWall Street Journal com seus Washington Post e Newsweek, chegou à conclusão de que não tem condições de manter-se na luta dos jornais impressos. "Depois de anos de desafios como indústria familiar de jornais, imaginamos que um novo proprietário seria melhor para o Post", disse Donald Graham, supremo dirigente da empresa, da quarta geração de donos do jornal. "A tecnologia e o talento para negócios do sr. Bezos, sua visão de longo prazo e sua honradez pessoal o tornam um proprietário ideal para o Washington Post" .

Mas, se a coisa está tão complicada, por que Jeff Bezos, criador e comandante da Amazon, a rede virtual de livrarias que revolucionou o mercado, decidiu entrar no negócio? Para perder dinheiro, mesmo em nome da preservação de um patrimônio do jornalismo mundial, do jornal que revelou o caso Watergate e foi o principal responsável por Richard Nixon ter deixado a Presidência americana, é que não é. E por que justo ele, que mostrou que é possível vender livros que não usam papel, investe num jornal impresso, cuja circulação caiu 7% neste primeiro semestre, cuja receita operacional caiu 44% nos últimos sete anos?

Ao que tudo indica, Bezos pensa em manter e fortalecer ao máximo a edição impressa doWashington Post - menos pelo potencial de gerar receita do jornal, mais pela utilização de uma das marcas mais valiosas do mercado jornalístico internacional. E como irá ele utilizar essa marca? Excelente pergunta - e, se este colunista soubesse respondê-la, certamente estaria em situação financeira bem melhor que a atual (e não esqueceria nenhum de seus amigos, claro). Mas, com certeza, ao remar na direção oposta à que quase todos dizem ser uma tendência de mercado, Bezos acredita na sobrevivência do jornal de papel por tempo suficiente para, pelo menos, recuperar o investimento e ganhar alguma coisa.

A propósito, esta é a segunda vez em que o Washington Post enfrenta uma crise que o obriga a trocar de donos. A última ocorreu em 1933, quando o jornal, falido após a grande crise de 1929, foi a leilão. O financista Eugene Meyer o comprou por pouco mais de US$ 800,00. Não dá nem dois mil reais.

Batendo duro
O jornalista e professor Cláudio Tognolli, observador atento do panorama jornalístico, acha que empresários como Jeff Bezos vão cada vez mais comprar jornais. "Vão ser a garantia de imparcialidade contra a compra de blogs por governos".

Conflito nas ruas: como equilibrar o direito de ir e vir e o de se manifestar

Antônio Werneck e Vera Araújo 
O Globo

Especialistas defendem importância de chegar a um acordo entre as manifestações e o cotidiano dos cariocas

Gabriel de Paiva 
Manifestante sobe em um carro preso 
em meio ao engarrafamento na Avenida Rio Branco

RIO - Um protesto que começou nesta quinta-feira, por volta das 10h, perto da Câmara dos Vereadores, na Cinelândia, reunindo cerca de 200 pessoas, segundo a Polícia Militar, provocou o fechamento da Avenida Rio Branco e, num efeito cascata, deu um nó no trânsito no Centro da cidade. O transtorno vivido pela população fez com que uma pergunta ficasse no ar: como equilibrar o direito constitucional de ir e vir e o de se manifestar? Especialistas nas áreas de Direito Constitucional e Penal, e um antropólogo, ressaltam que ambos têm o mesmo peso e que tanto o poder público como os manifestantes precisam encontrar um ponto de equilíbrio, a fim de evitar prejuízos à população.

O tráfego na Rio Branco ficou interditado por quase sete horas. Somente às 16h46m, segundo a Prefeitura, a avenida foi totalmente liberada. À noite, ela voltou a ser fechada por outro protesto. Os reflexos da interdição foram imediatos. Vias importantes como Presidente Vargas e Radial Oeste, na Praça da Bandeira, ficaram paradas, o que ainda atingiu bairros como Glória, Flamengo, Botafogo e Copacabana, na Zona Sul, além de Maracanã, Vila Isabel, Tijuca e São Cristóvão, na Zona Norte. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, pelo menos uma ambulância ficou presa no trânsito do Centro, com uma paciente da Colônia Juliano Moreira, que precisava fazer uma ultrassonografia. A equipe se comunicou com a Central de Ambulâncias para garantir o horário do exame no Hospital Rocha Maia, em Botafogo.

 ‘As pessoas têm que se locomover’
Para o professor de Direito Penal da PUC Breno Melaragno, os direitos de ir e vir e de se manifestar são sagrados. Ele lembra que a Constituição garante o direito de manifestação com um prévio aviso ao poder público, justamente para evitar dois protestos no mesmo horário e lugar:

— Tanto o poder público quanto os próprio manifestantes têm de equilibrar essa situação. As pessoas querem e têm de se locomover para produzir, para trabalhar, ao mesmo tempo que se deve garantir o direito de se manifestar. A questão é o fato de ser diário. Se as manifestações cerceiam ostensivamente o direito de ir e vir, algo está errado. O poder público fica numa situação muito difícil, porque ele não tem canal de comunicação com os manifestantes.

Professora do Centro de Justiça e Sociedade da Fundação Getulio Vargas, Tânia Rangel ressalta que nenhum dos dois direitos é mais importante que o outro. Além disso, ela sugere que o poder público se antecipe e organize o trânsito antes do início dos protestos:

— Quando os dois preceitos constitucionais se chocam, não se pode escolher um em detrimento do outro. Eles têm o mesmo peso. Quando se fecha uma via, há outras rotas alternativas, há a possibilidade de se chegar a um local por outro caminho. O poder público tem que ser ousado, pró-ativo, prever que a via será interditada e dar soluções, porque ele tem que garantir a ordem pública com a máxima eficácia. Mesmo que os manifestantes não avisem, como prevê a Constituição, isso deve ser feito. Países desenvolvidos agem desta maneira.

Para o secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osorio, a sociedade precisa discutir a questão. Já o coronel reformado da PM Milton Corrêa da Costa afirmou que o direito de manifestação não pode se sobrepor ao de ir e vir.

A Prefeitura disse ter colocado em prática seu plano de contingência, reforçando o controle dos cruzamentos e informando os motoristas nos painéis eletrônicos.

Manifestantes, agora, mandam nos vereadores do Rio

Cecília Ritto
Veja online

Grupo que acampou na Câmara Municipal impede trabalhos do Legislativo, determina quem pode entrar no prédio e limita a cobertura dos jornalistas

 (VEJA) 
Rio: Manifestantes tomam o plenário 
da Câmara de Vereadores na sexta-feira (9/8) 

Apelidada de “Gaiola de Ouro”, dada a fama de leniência e pouca produtividade angariada ao longo dos anos, a Câmara Municipal do Rio não chega a ser um exemplo de competência no Legislativo, sendo notada mais por escândalos do que por contribuições à população da cidade. Desde a última sexta-feira, no entanto, o Palácio Pedro Ernesto está no centro das atenções – também não por méritos próprios. Ocupada por 200, 100, 80 e, agora, 11 manifestantes, a casa dos vereadores do Rio tornou-se um exemplo extremo do que o radicalismo pode fazer com as instituições. O grupo, que se rebelou contra a forma como foi montada a CPI dos Ônibus – dominada por integrantes do PMDB, aliados do prefeito Eduardo Paes – passou a mandar no funcionamento da Casa, e agora quer impor sua vontade aos parlamentares. Querem – e conseguem – também determinar como e quando a imprensa pode cobrir o que acontece dentro e fora do prédio.

Na tarde desta quarta-feira, o que acontecia do lado de fora do prédio era, curiosamente, coerente com a situação absurda que se via no plenário. Manifestantes arremessavam pedras e ovos, fazendo entre as vítimas o vereador Luiz Carlos Ramos (PSDC) e uma senhora que passava pelo local. Quem tentava sair tornava-se alvo dos ataques, sem que se entendesse exatamente o motivo do protesto violento. Dentro da casa, acuados, os vereadores, liderados pelo presidente da Câmara, Jorge Felippe (PMDB) tentavam negociar com os manifestantes alguma forma de poder, enfim, iniciar os trabalhos da CPI. Um dos pedidos dos manifestantes, e que os vereadores tendem a aprovar, é a realização da reunião da comissão no plenário, com acesso liberado ao público – ou seja, a ocupação pode voltar a crescer, pelo que indica o comportamento dos lá acampados.

Os últimos acontecimentos servem para reforçar alguns conceitos sobre as manifestações. A democracia, para quem está ocupando a Câmara, consiste em barrar todo tipo de opinião contrária. Pode circular tranquilamente quem é identificado como partidário do PSOL – e só. O mesmo acontece ao redor do prédio, na Cinelândia. O cerco ao longo desta quarta-feira incluiu intimidação de jornalistas e ameaças a um profissional do jornal O Globo. Os jornalistas de outros veículos foram xingados e chamados de fascistas. Para o grupo instalado à força no Palácio Pedro Ernesto, a Mídia Ninja é a verdadeira imprensa.

Os vereadores têm dado sua contribuição para a situação bizarra. As exigências dos manifestantes de que “só a Mídia Ninja” pode entrar e acompanhar algumas reuniões são sempre atendidas. A exceção foi, na terça-feira, quando Felippe ameaçou chamar a polícia caso os jornalistas de outros veículos não pudessem ter acesso ao encontro. Na quarta, no entanto, a reunião entre os vereadores e os manifestantes pôde ser transmitida somente pelos ninjas. “Houve uma pequena discussão entre nós porque perguntei se eles, manifestantes, permitiriam o acesso da imprensa. Acho que a transparência se faz com a participação dos meios de comunicação. Eles insistiram em não receber porque queriam na reunião apenas a Mídia Ninja”, afirmou Felippe.

Armando Paiva/Fotoarena 
Manifestantes se reúnem na frente
 da Câmara Municipal do Rio na segunda-feira, 13 de agosto  

Desde sexta-feira, os diálogos não avançam e prevalece a vontade dos acampados. “Parece cachorro correndo atrás do rabo. É sempre a mesma coisa”, reclamou o presidente da Casa, sobre os manifestantes. O grupo que ocupa a Câmara disse no começo da tarde de quarta-feira que não falaria com a imprensa. Depois da reunião com Felippe, os manifestantes quiseram dar a sua versão. “Poderíamos ter permitido a entrada de vocês (imprensa), mas precisaríamos de uma deliberação”, disse um dos acampados. Atualmente, todos se apresentam como "Amarildo" - uma forma de não revelar os nomes verdadeiros e de lembrar o caso do pedreiro desaparecido há um mês na Rocinha, depois de ser levado pela Polícia Militar para a sede da UPP daquela favela.

Na reunião de quarta, pouco se definiu. Nesta quinta-feira, está marcada para as 10 horas a segunda reunião da CPI dos Ônibus, quando os integrantes da comissão terão acesso aos documentos do Tribunal de Contas do Município relativos à licitação dos ônibus e farão uma lista de quem deve ser ouvido. Se confirmada a realização da reunião no plenário da Casa, haverá espaço para 140 pessoas – 70 em cada galeria. Para as outras reuniões da CPI, serão instalados telões do lado de fora da Câmara para que os manifestantes que não conseguirão entrar na Casa acompanhem as decisões.

A câmera que filmava as galerias do plenário, onde os manifestantes ficam durante as tardes, foi quebrada na ocupação. O grupo que protesta dentro da Câmara usa pulseiras verdes para que, depois das sessões, possa retornar ao plenário.

‘Financial Times’ defende aproximação de Brasil com UE

Fernando Nakagawa
Agência Estado

Para a publicação, o Mercosul fracassou na tentativa de ser uma resposta da América do Sul à integração europeia

LONDRES - O jornal britânico Financial Times defende em editorial, nesta quinta-feira, 15, a aproximação entre Brasília e Bruxelas para um eventual novo acordo comercial entre o Brasil e a União Europeia. Para a publicação, o Mercosul fracassou na tentativa de ser uma resposta da América do Sul à integração europeia e, diante de medidas protecionistas, alguns classificam o grupo apenas como um fórum "anti-gringo".

"Em 1991, quando o Brasil se juntou a três de seus vizinhos para fundar o Mercosul, o pacto foi saudado como uma resposta da América do Sul para a integração europeia. É uma marca do fracasso que, 20 anos após o bloco começar a negociar com a UE, Brasília está agora tentando fazer o seu próprio acordo com Bruxelas", diz o editorial.

Para o FT, o Mercosul tem sido "vítima de circunstâncias". Quando o bloco foi criado, diz o texto, as instituições da região "ainda estavam na infância" e a crise econômica na Argentina acabou por deflagrar um "ciclo vicioso de protecionismo e retaliação". "Sem surpresa, esta aliança rebelde assinou alguns acordos com estranhos", diz o editorial, sem citar os parceiros comerciais.

Outra crítica ao bloco é em relação ao aspecto político. "No ano passado, o Paraguai foi expulso aparentemente em reação à queda abrupta do presidente do país. O objetivo real, no entanto, pode ter sido contornar a oposição paraguaia à entrada da socialista Venezuela. Para muitos, o grupo tornou-se um pouco mais do que um fórum anti-gringo", diz o texto.

O FT reconhece, porém, que a sinalização de que Brasília estaria disposta a conversar com Bruxelas sugere que o "quadro está mudando". "Em parte, isso ocorre porque os exportadores do Brasil - como em outros países que alcançaram o status de renda média - deixarão de se qualificar para o acesso automático ao mercado europeu em condições privilegiadas. Ao mesmo tempo, economias ocidentais estão procurando alternativas ao comércio internacional estagnado", diz. Diante do quadro, se não reagir, diz o FT, "o Brasil corre o risco de ser deixado para trás".

Voo solo do Brasil com a UE ameaça gerar turbulência no Mercosul

Fernando Caulyt
Deutsche Welle

Com conversas entre os dois blocos emperradas, possível acordo direto com europeus surge como saída para o Brasil, mas pode acirrar atritos entre sul-americanos, que há anos já convivem com desgaste político e comercial.


O atraso nas negociações para um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia – que se arrastam há mais de uma década sem perspectivas de se concretizarem – fez com que o Brasil, pela primeira vez, acenasse com a intenção de deixar de lado os parceiros sul-americanos e buscar um acordo individual com os europeus.

A intenção teria sido transmitida pelo chanceler Antonio Patriota em entrevista ao Financial Times. Segundo o jornal, o ministro disse que há expectativa de que cada país possa negociar em "velocidades distintas" com a UE. O Itamaraty atribuiu a polêmica a um erro de interpretação do diário. Mas nos círculos diplomáticos a possibilidade já é, há tempos, discutida.

Realidade ou não, a intenção brasileira reflete um enfado de longa data com as negociações entre UE e Mercosul. E pode criar novos atritos entre os parceiros sul-americanos, ameaçando fragilizar um bloco já minado por disputas comerciais – como entre Brasil e Argentina – e políticas – como a crise em torno do Paraguai.

"A conversa entre Brasil e União Europeia sinaliza que as negociações entre os blocos Mercosul e União Europeia não vão prosperar", analisa Ana Soliz Landivar, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo. "Apesar dos esforços diplomáticos para manter essas negociações vigentes, o que é realizado de fato tem levado a necessidade de o Brasil de se abrir."

Protecionismo como obstáculo
As conversas entre o Mercosul e UE foram lançadas em 1999, mas interrompidas em 2004. Em 2010, as negociações voltaram à pauta dos dois blocos, mas sofreram reveses devido a obstáculos criados pelos dois lados. Há anos os europeus não escondem sua discordância com as medidas adotadas em algumas economias sul-americanas, sobretudo na Argentina, e já deixaram claro que, enquanto houver protecionismo, um acordo não sairá do papel.

 Líderes sul-americanos em cúpula do Mercosul: série de atritos

Segundo a reportagem do Financial Times, a intenção do governo Dilma Rousseff estaria relacionada não só ao atraso de um possível acordo entre Mercosul e UE, mas também devido ao crescimento econômico do Brasil, que poderia perder o benefício tarifário a partir de janeiro de 2014 para suas exportações ao bloco europeu.

No ano passado, a Comissão Europeia aprovou uma nova legislação que excluirá o Brasil do Sistema Geral de Preferências (SGP), já que ele foi reclassificado como país de renda média alta pelo Banco Mundial – a classificação compreende Estados com renda per capita entre 3.976 dólares e 12. 275 dólares. O Brasil é responsável por cerca de 37% do comércio entre América Latina e União Europeia.

Para economistas, a possibilidade de o Brasil realizar “voo solo” sem o Mercosul estaria de acordo com os interesses de um país que, por sua economia mais diversificada e seus interesses específicos, se difere de seus parceiros sul-americanos.

“A Argentina, por exemplo, há anos está com a sua indústria destruída e tem uma base industrial pequena e não competitiva”, diz Celso Grisi, economista da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Tudo isso faz com que o Brasil seja um player isolado nesses interesses e leva, sem dúvida nenhuma, à necessidade de manter negociações específicas e pontuais, e não em bloco.”

Acordo, só com consenso
Além de refletir o início de uma mudança de postura Brasil, que sempre, ao menos publicamente, apostou no Mercosul, a opção de um acordo individual pode levar o bloco sul-americano a passar por sérias turbulências. As regras do Mercosul proíbem países de assinar unilateralmente, sem o consentimento dos demais parceiros sul-americanos, acordos que envolvem comércio de mercadorias.

 Dilma com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso: mais próximos

"O modelo do Mercosul é como se fosse uma área de livre comércio imperfeita. Por isso que existe este mecanismo de consulta, que tem um peso maior do que deveria ter", diz Virgílio Arraes, professor de História Contemporânea da UnB. "Uma questão hipotética: se o Brasil importasse remédio da Índia para vender no Mercosul, os laboratórios farmacêuticos não teriam condições de competir."

Na semana passada, o comissário europeu do Comércio, Karel de Gucht, se mostrou interessado por um acordo individual com o Brasil, o que faria com que as exportações europeias se beneficiassem com a queda das tarifas para entrar no mercado brasileiro – principalmente pelo fato de a demanda interna europeia estar enfraquecida por causa da crise.

Apesar das intrigas internas no Mercosul, da resistência europeia e dos sucessivos retrocessos nas negociações na última década, o discurso oficial brasileiro, como repetido por Patriota na semana passada, é de que o acordo entre os dois blocos sairá do papel em até um ano. Ao que tudo indica, no entanto, o Brasil teria outra carta na manga caso não der certo.

Edição Rafael Plaisant

Tarifas represadas

Celso Ming
O Estado de S.Paulo

Todas as decisões de política econômica são tautologicamente políticas. Quando se tornam puramente eleitoreiras e atentam contra a racionalidade econômica, produzem distorções que, mais cedo ou mais tarde, se voltam contra quem as tomou.

Na edição de ontem esta Coluna concentrou seu foco sobre as distorções provocadas por uma dessas decisões eleitoreiras, o do represamento dos preços dos combustíveis, especialmente da gasolina. As duas principais distorções, entre as inúmeras que daí decorrem, são a deterioração da capacidade de investimento da Petrobrás e o aumento artificial do consumo de gasolina que, por sua vez, desestimula a produção de etanol, ajuda a travar o trânsito das grandes cidades e pressiona a balança comercial porque aumenta as importações infladas pela chamada conta petróleo. Mas esses não são os únicos preços represados pelo governo. O gráfico mostra como os preços administrados vêm sendo contidos em relação aos outros.

Apenas para tirar a poeira da memória, tarifas e preços administrados ou monitorados são aqueles cujos reajustes dependem de regras prefixadas ou de decisão do governo. Contrapõem-se aos preços livres, que são determinados pela lei da oferta e da procura. Os principais preços administrados são os do gás encanado, transporte coletivo, água e esgoto, planos de saúde, combustíveis, pedágio, remédios e energia elétrica. Pelos cálculos do Banco Central, têm um peso de 23,3% na cesta do custo de vida (IPCA).

No ano passado, sob alegação de que era preciso reduzir custos de produção e conter a inflação, a presidente Dilma determinou a redução de 20% dos preços da energia elétrica. Em princípio, as concessionárias teriam de absorver a diferença. Depois se viu que sobrariam R$ 6,7 bilhões sem cobertura nos próximos quatro anos. A primeira decisão foi descarregar essa conta sobre receitas a receber da Itaipu Binacional. Depois se viu que a medida produziria complicações jurídicas. Agora, imagina-se que o Tesouro tenha de engolir o prejuízo. Ou seja, o governo inventou mais um subsídio a ser descarregado sobre o contribuinte.

Outro subsídio apareceu nas contas do transporte coletivo. No início deste ano, para evitar mais uma tacada da inflação, o governo negociou com alguns governadores e os prefeitos das principais capitais o adiamento para maio do reajuste do transporte coletivo. Quando saiu, em maio, foi o choque que mobilizou as manifestações de junho. Pressionado, o governo decidiu desistir dos reajustes. Governos estaduais e prefeituras tiveram de absorver a diferença. De cambulhada, foram também removidos reajustes de alguns pedágios. E, assim, a conta dos subsídios cresceu e, com ela, criaram-se distorções de todo tipo.

Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner elevou ao paroxismo a prática do represamento dos preços administrados, que lá são quase todos. A conta política veio domingo passado, com a paulada das urnas.

Mais cedo ou mais tarde, esses desvios populistas da presidente Dilma produzidos com o desrespeito às regras da economia também lhe serão cobrados. Falta saber como e quanto.

PIB pode ser negativo no 3º trimestre

Exame.com
Fábio Alves, Estadão Conteúdo

Segundo economista, a chance saltou de 10% para 80%

Paulo Whitaker/Reuters 
Comércio em mercado de São Paulo: segundo analistas, uma possível contração
 refletirá da queda nos índices de confiança de consumidores e empresários

São Paulo - É grande o risco de um Produto Interno Bruto (PIB) negativo no 3.º trimestre. Segundo analistas, uma possível contração da economia entre julho e setembro será reflexo da queda nos índices de confiança de consumidores e empresários, desempenho pior da indústria em razão de níveis mais elevados dos estoques e do impacto da recente alta na taxa de juros.

Nos cálculos de Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, o PIB do 2.º trimestre deve ter uma expansão de 1,1% sobre o trimestre anterior, mas no 3.º trimestre deverá recuar 0,2%. "A probabilidade (de PIB negativo no terceiro trimestre) antes de junho, com dólar e manifestações, era de 10%. Saltou agora para 80%. O maior impacto negativo é nas expectativas, especialmente para consumo das famílias e investimento."

Indagado sobre quais os fatores que podem pressionar o PIB para baixo, Vale disse que "especialmente o consumo e o investimento", do lado da demanda. Já do lado da oferta, ele disse que a indústria deve reverter os bons ganhos no 2.º trimestre. "O (setor) de serviços deve continuar a tendência de crescimento muito lento. Assim, diria que, novamente, quem vai travar no 3.º trimestre será a indústria, especialmente porque tivemos um 2.º trimestre bastante forte na produção industrial."

Já o economista-chefe da MCM Consultores, Fernando Genta, acredita que a probabilidade de um PIB negativo no terceiro trimestre é "razoável", por volta de 40%. "Dentre os fatores, podemos mencionar o início ruim da indústria, o tombo de todos os indicadores de confiança e os impactos iniciais do aperto da política monetária." Ele estima que a economia brasileira vai crescer 1% no 2.º trimestre ante o período anterior, mas para o 3.º trimestre sua estimativa é de crescimento zero sobre o 2.º trimestre.

Em relatório enviado a clientes na sexta-feira, 9, os economistas do Itaú Unibanco revisaram para baixo as estimativas de crescimento em 2013 e 2014 para, respectivamente, 2,1% e 1,7%. Um das razões é o desempenho esperado para o crescimento no 3.º trimestre. "A expectativa de um crescimento mais baixo no 3.º trimestre deste ano (de 0,5% para zero) reduziu em 0,3 ponto porcentual o efeito estatístico que estimamos que o PIB deste ano deixará para o PIB de 2014. Além disso, estimamos que o crescimento mais baixo no 2.º semestre elevará a taxa de desemprego, desacelerando o ritmo de aumento da massa salarial real e do consumo", diz o relatório do Itaú Unibanco. Para o 2.º trimestre, o banco estima expansão de 1%.

E qual o impacto de um PIB negativo no 3.º trimestre? "Poderia agravar a confiança dos investidores, em especial os investidores internacionais", respondeu Genta. "Isso consolidaria a percepção cada vez maior de baixo PIB potencial ao redor de 2%, podendo prejudicar inclusive o programa de concessões do governo federal."

Na opinião de Sergio Vale, o impacto é relevante, embora não altere a sua projeção de crescimento de 2,1% no ano. Para isso acontecer, ressaltou ele, o 4.º trimestre terá de fechar com 0,5% sobre o trimestre anterior. "Aliás, esses números baixos, se arrastando próximo de zero, parecem cada vez mais prováveis ao longo dos próximos trimestres. 2014 deve ser ainda pior, dada a convicção do governo de que está tudo bem."

A perspectiva pior para o crescimento da economia não será sem custo para as contas fiscais, segundo os economistas do Itaú Unibanco: "Dada a nossa revisão para baixo no crescimento econômico projetado para 2013 e 2014, reduzimos nossa estimativa para a arrecadação tributária em R$ 4 bilhões (0,1% do PIB) para 2013, e em R$ 11 bilhões (0,2% do PIB) para 2014", afirma o relatório. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Tri legal

Míriam Leitão 
O Globo

Haverá um oásis de notícia boa para o governo na área onde ele mais tem se aborrecido: o crescimento econômico. Nada que resolva o problema que aprisionou o governo Dilma no baixo PIB, mas pelo menos vai ser possível comemoração. No dia 30 de agosto, quando sair o PIB do segundo trimestre, o número será melhor do que o do primeiro e maior do que o esperado.

Alguns economistas estão prevendo um número perto de 1% para o crescimento do trimestre, mais forte que o 0,6% do primeiro período. Segundo Monica de Bolle, há dois destaques nesse resultado.

— Pelo lado da demanda, a melhora do investimento; pelo lado da oferta, a melhora da indústria. O que decepcionou no primeiro trimestre virá melhor no segundo.

A MB Associados acha que pode ser de 1,1% o crescimento do segundo trimestre em relação ao primeiro. “A grata surpresa deve ter vindo da indústria, que deu sinais de recuperação”, escreveu o economista Sergio Vale, no boletim da consultoria.

A FGV está mais pessimista e calcula que o primeiro trimestre será revisto para 0,7% e o segundo ficará em 0,6%. Mas a economista Silvia Matos diz que a “qualidade” do crescimento foi melhor do que no primeiro período. No começo do ano, tinha sido muito puxado pela agricultura. No segundo trimestre, o desempenho tanto da agricultura quanto da economia foram bons.

Seja qual for o número, a expectativa é boa em relação ao período de abril, maio e junho. Mas a mesma unanimidade é a de que esse crescimento não é ainda o início da retomada. Os primeiros sinais do terceiro tri são de que será o pior período do ano. Ninguém duvida que o governo vai comemorar como prova de que todos os alertas e críticas foram equivocados.

“A sensação do ‘agora vai’ está pronta para tomar Brasília de assalto novamente”, escreveu Sergio Vale. Há razões políticas e econômicas para cautela. “Na política, o foco tem sido aumentar os gastos. Os desencontros constantes da presidente com a política paralisam qualquer decisão que poderia ser relevante. Nota-se que a agenda das concessões está cada vez mais atrasada”, diz a MB Associados.

Monica de Bolle não acredita que o crescimento se sustentará, mas já espera para ouvir a comemoração.

— Se a projeção se confirmar, o PIB anualizado ficaria em 4%. O governo vai fazer um enorme estardalhaço com esse número, marketing, mas o problema é que a situação piorou no terceiro trimestre, o cenário já é outro: a economia parou, e a tendência é de piora.

O terceiro trimestre está pelo meio, mas já saíram alguns números negativos.

— O terceiro trimestre não está bom, os números são fracos, as conversas com empresários confirmam isso. O consumo está se retraindo, o mercado de trabalho não tão bom, a renda crescendo menos e os consumidores continuam endividados. A tendência para a consumo é perder fôlego e, com o investimento baixo, a situação fica mais difícil — disse.

Para Silvia Matos, da FGV, o segundo trimestre pode ser o da indústria. Ela prevê que o setor terá um “expressivo crescimento”, de 1,6% em relação ao trimestre anterior, quando havia encolhido 0,3%. Já a agropecuária teria crescimento de 1,9% no segundo trimestre (contra o tri anterior), e serviços, de 0,4%. Pelo lado da demanda, ela vê alta de 0,8% no consumo das famílias, de 1,2% no consumo do governo, de 1,6% nos investimentos, exportações crescendo 6% e importações, 3,2%.

O governo aposta que esse segundo trimestre ajudará a inverter o clima de pessimismo dos empresários. E que as concessões vão consolidar um novo nível de confiança. Por isso, o governo prepara para bater bumbo no dia 30 de agosto..

O desequilíbrio federativo e a crise nos municípios

Marcus Pestana, O Tempo
Tribuna da Imprensa

Em julho, foi realizada a 16ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios. Milhares de prefeitos levaram sua voz firme e unificada ao Congresso Nacional e ao governo federal. Há muito a maioria dos municípios vive uma situação crônica de estrangulamento fiscal, na qual a rotina do prefeito é pagar estritamente os gastos correntes de custeio da máquina, sem nenhuma capacidade de investimento autônomo. A rigidez dos orçamentos transfere a possibilidade de melhorias na infraestrutura das cidades unicamente para as transferências voluntárias dos governos federal e estaduais. Os prefeitos se transformam em caixeiros viajantes em busca de convênios para poder introduzir mudanças qualitativas na vida de suas populações.

Excetuando os municípios que atingiram alto grau de industrialização ou têm setor de serviços e imobiliário sofisticados ou usufruem de royalties de produção mineral, petrolífera ou energética, os demais 5.000 municípios dependem exclusivamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Portanto, não só há uma enorme concentração de recursos na União (70%), como a distribuição dos impostos entre os próprios municípios é muito injusta no Brasil. Alguns prefeitos têm que fazer mágica com cerca de R$ 100 per capita/ano de transferências constitucionais obrigatórias. Outros prefeitos privilegiados chegam a dispor de R$ 4.500 até R$ 10 mil por habitante/ano.

AGRAVAMENTO
Em 2013, a questão se agravou pelo baixo desempenho da economia (PIB de apenas 0,9% em 2012) e pelas desonerações feitas unilateralmente pelo governo federal no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), um dos componentes do FPM. O desempenho ruim da economia também afeta o lucro das empresas, impactando no Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas. O IR é o outro componente do FPM.

A discussão sobre um novo pacto federativo é agenda central no Brasil dos nossos dias. Fica cada vez mais claro que é impossível abraçar o país a partir de Brasília. Vivemos em um país continental impregnado por enormes desigualdades econômica, sociais e culturais. A centralização afasta os centros decisórios do cotidiano da população, encarece as ações de políticas públicas e tenta padronizar autoritariamente o que é diverso. Esse foi em grande parte o sentido da vaia colhida pela presidente Dilma. Ao anunciar verbas federais em programas de ações induzidas pelo governo federal, não entendeu que os gestores municipais querem autonomia financeira e orçamentária para implementar seus programas de governo.

Não faz sentido prefeitos dos quatro cantos de um país continental ficarem de pires na mão nos corredores da burocracia em busca de recursos para comprar uma patrulha mecanizada, uma ambulância, uma ponte que a chuva levou ou um ônibus para o transporte escolar.

É preciso coragem para abrir mão de poder, entender a complexidade do Brasil e descentralizar as ações. Ganhará nossa população com um governo mais ágil e eficiente.  

Um teste para Dilma

O Estado de S.Paulo

Bastou a presidente Dilma Rousseff anunciar seu compromisso de destinar R$ 50 bilhões para melhorar a mobilidade urbana - na esteira das grandes manifestações de junho, que tiveram as deficiências do transporte público como um de seus pontos principais - para que os governos estaduais e municipais se apressassem a apresentar projetos para esse setor. Eles preveem gastos de R$ 75,4 bilhões, bem superiores, portanto, aos recursos prometidos, que virão do Orçamento da União e de financiamentos da Caixa Econômica Federal, por meio de repasses do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a juros subsidiados.

Mas esse não parece ser o principal problema para a execução do ambicioso programa da presidente. Ao contrário. Segundo o secretário do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Maurício Muniz, que coordena os entendimentos da União com governadores e prefeitos de grandes cidades, em declarações ao jornal Valor, esse é mesmo "um bom problema", querendo certamente dizer com isso que ele mostra forte adesão ao programa e vontade de atingir o objetivo da presidente. Os R$ 50 bilhões anunciados não são o valor máximo, a ser respeitado a todo custo. Por isso, "se houver mais propostas, bem estruturadas, o volume de recursos pode ir além".

As dificuldades para o êxito do programa são de outras naturezas. Uma delas, técnica, refere-se ao cumprimento das exigências para o recebimento de recursos federais, por falta da apresentação de projetos detalhados de engenharia. Exemplo disso é que a maior parte do dinheiro do PAC Mobilidade não pôde ser repassada aos interessados, porque apenas 5 das 44 propostas respeitaram inteiramente as normas. Para suprir essa deficiência de planejamento de Estados e municípios, Muniz afirma que o programa dará apoio financeiro para a elaboração de projetos básicos e executivos.

A preferência no exame das propostas e na liberação de recursos, porém, será dada aos governos estaduais e municipais que têm projetos prontos ou com elaboração adiantada. Assim, sairá na frente quem apresentar ao menos um estudo de viabilidade ou um anteprojeto.

O maior pedido de recursos foi de longe o feito por São Paulo - pelo governo do Estado e a Prefeitura da capital -, de R$ 17,3 bilhões. Em segundo lugar, está surpreendentemente o Maranhão, com R$ 7,7 bilhões, somadas as propostas do Estado e de São Luís. Em seguida, pouco abaixo, vem Minas Gerais, com R$ 4,4 bilhões pedidos pelo governo do Estado para o metrô de Belo Horizonte, e R$ 2,9 bilhões pedidos pela prefeitura da capital para corredores de ônibus, num total de R$ 7,3 bilhões.

É de natureza política a outra dificuldade para levar a bom termo o programa de mobilidade urbana. Terá o governo federal a necessária isenção para distribuir os recursos estritamente de acordo com a qualidade técnica dos projetos e o tamanho da população que eles beneficiam, e não segundo as conveniências partidárias e eleitorais?

É de esperar que sim, pois trata-se de recursos públicos, que portanto pertencem a todos e não apenas aos grupos momentaneamente no poder.

Mas, como acontece sempre, a tentação de se deixar influenciar pelo critério político-partidário certamente não será pequena. Em especial porque boa parte dos recursos foi pedida por governadores da oposição - de São Paulo e Minas Gerais. A presidente Dilma Rousseff já se comprometeu a liberar para o prefeito Fernando Haddad R$ 3,1 bilhões dos R$ 6,5 bilhões que ele pediu para obras destinadas a melhorar o serviço de ônibus. Isso é bom para a população da capital paulista.

Mas ela ganhará tanto ou mais se a presidente agir da mesma forma com relação ao pedido de R$ 10,8 bilhões do governador Geraldo Alckmin, destinados principalmente à expansão do Metrô e à reforma da CPTM. E ganhará a população de Belo Horizonte se ela fizer o mesmo com relação ao pedido de R$ 4,4 bilhões do governador Antônio Anastasia para o metrô da capital mineira. Este será o teste decisivo para o programa da presidente.

Com crescimento baixo, dólar e inflação, lucro de 20 grandes companhias fica estagnado

Bruno Villas Bôas  e Daniel Haidar  
O Globo

No 1º semestre, ganhos somam R$ 30 bilhões
Resultado representa queda de 0,44% em relação a igual período de 2012

RIO - Pressionadas por uma economia que cresce em ritmo mais lento do que o previsto, por uma inflação persistentemente elevada e um câmbio que mais atrapalhou do que ajudou até aqui, o lucro líquido das 20 maiores empresas brasileiras de capital aberto somou R$ 30 bilhões no primeiro semestre deste ano, revelando uma estagnação em comparação aos R$ 30,1 bilhões do mesmo período do ano passado, ou uma pequena queda de 0,44%, segundo levantamento do GLOBO a partir da base de dados da agência Bloomberg News.

São empresas como a varejista Pão de Açúcar, que viu seu lucro encolher 33,85% no primeiro semestre deste ano, frente a igual período, para R$ 278 milhões, em meio ao que os executivos chamaram de cenário desafiador de “inflação alta, juros maiores e perspectivas mais modestas de crescimento da economia”. Ou da fabricante de aviões Embraer, que registrou ganhos 83% menores no semestre, de R$ 51,7 milhões, afetada pela alta de 10% do dólar.

O levantamento desconsidera três gigantes brasileiras: Petrobras, Banco do Brasil e Vale, companhias que distorcem as estatísticas por causa de impactos atípicos em seus resultados. A Petrobras mudou a regra de contabilidade, o que evitou um impacto de R$ 8 bilhões do câmbio no segundo trimestre. Com crescimento baixo, dólar e inflação, lucro de 20 grandes companhias fica estagnado.

O BB teve uma receita atípica com venda de ações da BB Seguridade, que fez a maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) do país no ano. E a Vale sofreu forte impacto do câmbio. Se as três empresas tivessem sido incluídas no cálculo, o lucro das 20 maiores companhias brasileiras teria crescido 10,26%, de R$ 54,4 bilhões no primeiro semestre de 2012 para R$ 60 bilhões no primeiro semestre deste ano.

Segundo Alex Agostini, economista-chefe da agência Austin Ratings, o ano parece “praticamente perdido” para o crescimento do país e das empresas brasileiras. Ele lembra que a expectativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens de serviços produzidos pelo país) está agora em 2,21% para 2013, segundo a média das expectativas do mercado no boletim Focus, do Banco Central (BC). Essa expectativa era de 4% um ano atrás.

— Muitas empresas pegaram financiamento para investir e crescer. Mas o que vamos ver é o dinheiro ficar empoçado, ou seja, aplicado em títulos públicos, em vez de direcionado para a atividade produtiva. E isso tem a ver com a inflação elevada, com desonerações pontuais do governo. É uma pena, porque o que precisamos é justamento de investimentos — diz Agostini.

Em 300 empresas, queda foi ainda maior: 2,6%
Para Eduardo Velho, economista-chefe da Invx Global Partners, o mau resultado das empresas não revela apenas a frustração com um crescimento que não se materializou, mas o impacto efetivo dos indicadores desfavoráveis para as empresas. Ele cita o câmbio, que pode ajudar exportadores no médio e no longo prazo, mas que até agora contribuiu para elevar em reais a dívida das empresas em moeda estrangeira.

— No segundo semestre podemos ver uma recuperação de algumas empresas exportadoras, desta vez ajudadas pelo câmbio e pela recuperação de preços de commodities — acredita.

Num levantamento mais amplo, com 300 companhias de capital aberto, o lucro das empresas brasileiras apresentou queda ainda maior, de 2,6%, também realizado a partir de dados da agência Bloomberg News.

Alexandre Póvoa, sócio-diretor da Canepa Asset Brasil, destacou que, neste primeiro semestre, embora a média dos lucros tenha caído, o desemprego permaneceu praticamente estável e encerrou junho em 6%, segundo o IBGE. Isso pressionou os custos das empresas sem crescimento das receitas.

— É um cenário de vendas menores com o mesmo número de pessoas empregadas — destacou Póvoa.

Estagnação no varejo tende a persistir

O Estado de S.Paulo

Os resultados pouco expressivos do comércio varejista em junho - crescimento de apenas 0,5%, em relação a maio, e de 1,7%, em relação a junho de 2012, segundo o IBGE - confirmam a diminuição do poder aquisitivo dos consumidores e sugerem que as famílias evitam até os gastos em itens essenciais. É o caso da diminuição de despesas nos híper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, com queda de 0,4%, em relação a maio, e de 0,8%, comparativamente a junho do ano passado. Com reduções de vendas em abril e junho, pode-se dizer que o varejo está estagnado.

O que evitou o recuo no volume de vendas foi o crescimento de itens como combustíveis e lubrificantes, veículos, motos, partes e peças (com peso de 48% nos dados de junho), móveis e eletrodomésticos, livros, jornais, revistas, papelaria, artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos e material de construção.

Segundo a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), o consumo de combustíveis camuflou o comportamento insatisfatório do comércio.

O comércio restrito, que exclui veículos e material de construção, teve comportamento pior do que o do comércio ampliado (que agrega esses itens e cresceu 1%, no mês, e 6,4%, em relação a junho de 2012).
Mas mesmo o consumo de produtos de maior valor dá sinais de desaceleração, mostrando que a disposição de compra do consumidor não se restringe às famílias de menor renda, alcançando, aos poucos, também a classe média.

A comprovação do enfraquecimento do comércio é mais evidente no longo prazo: o crescimento de 8,4%, no ano passado, foi reduzido para apenas 5,5%, nos últimos 12 meses, até junho, e é projetado em 4,5% neste ano, pela consultoria LCA. No início de 2011, o ritmo anual de crescimento do varejo chegou a superar os 12%.

Entre as análises divulgadas ontem, as áreas econômicas do Bradesco e do Itaú ressaltaram que o comportamento do segundo trimestre foi melhor que o do primeiro trimestre, em que houve queda de vendas. Para 2014, a LCA revisou para baixo as estimativas de recuperação do comércio, de 5,5% para 5%. Porcentual inexpressivo num ano em que a presidente deverá tentar a reeleição.

Para se recuperar, o comércio depende de hipóteses improváveis: que o consumidor se endivide mais ou que a inflação decline muito, apesar da desvalorização do real.

Participação de importados na indústria brasileira bate recorde, informa CNI

Eliane Oliveira 
O Globo

A trajetória de alta é verificada há 13 trimestres

BRASÍLIA - Nem mesmo a alta do dólar nos últimos meses impediu que as compras no exterior continuassem se expandindo. Segundo informou nesta quinta-feira a Confederação Nacional da Indústria (CNI), ao divulgar a pesquisa Coeficientes de Abertura Comercial. A participação de bens importados na indústria brasileira, no acumulado em 12 meses até junho deste ano, foi de 21,1%, valor recorde na série trimestral. Em relação ao primeiro trimestre deste ano, houve um aumento de 0,1 ponto percentual. A trajetória de alta é verificada há 13 trimestres.

A pesquisa é realizada desde o segundo trimestre de 2007 e leva em conta os valores de exportações, importações e produção industrial acumulados. De acordo com o levantamento, feito em conjunto com a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), entre os setores mais afetados pela penetração das compras externas estão o farmacêutico, o químico, de informática e eletroeletrônico. Uma das conclusões dos técnicos é que a alta do câmbio poderá reduzir as importações nos próximos meses, o que favoreceria a recuperação da produção industrial interna, podendo reverter essa tendência.

— A valorização do câmbio nos últimos meses amenizou o ímpeto importador, mas o contínuo aumento do coeficiente de importação reflete a perda da competitividade da industrial nacional frente a seu concorrente estrangeiro — disse o economista da CNI Marcelo Azevedo.

Outro dado é que, além do aumento das importações no consumo doméstico de bens industriais, a participação das exportações no faturamento das empresas caiu. O coeficiente de exportação registrou 19,2% no segundo trimestre de 2013, uma queda de 0,3 ponto percentual em relação ao primeiro trimestre deste ano. Essa é a segunda baixa consecutiva. A fraca demanda externa pelas manufaturas brasileiras e a queda dos preços internacionais explicam esse cenário.

Houve queda no coeficiente de exportação em nove setores produtivos da indústria de transformação. Os mais afetados foram metalurgia, (-1,1p.p.), máquinas e equipamentos (-0,9 p.p.), têxteis (-0,9 p.p.), derivados de petróleo e biocombustível (-0,5 p.p.) e máquinas e materiais elétricos (-0,4 p.p.).

Proibir doação de empresas deve aumentar caixa dois, diz ONG

Exame.com
Ivan Richard, Agência Brasil

Diretor da ONG Transparência Brasil, Cláudio Abramo, afirma que população não está preparada para plebiscito sobre voto distrital

Marcos Santos/usp imagens 
Doação de dinheiro: de acordo com a ONG Transparência Brasil, 
atuais regras eleitorais já preveem mecanismos para coibir fraudes, no entanto, 
a Justiça eleitoral não tem condições de fiscalizar todos os candidatos do país

Brasília - Proibir a doação de empresas às campanhas eleitorais não vai reduzir a influência do poder econômico nas eleições e ainda terá como consequência o aumento do chamado caixa dois, disse hoje (15) o diretor executivo da organização não governamental Transparência Brasil, Cláudio Abramo. Durante debate no grupo de trabalho da Câmara que discute a reforma política, ele também rechaçou a ideia de plebiscito para promover a mudança.

Segundo ele, a eventual adoção do financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais teria como consequência o aumento das doações ilegais. “As empresas vão querer financiar e os candidatos vão querer pegar a grana e não tem como fiscalizar. Vai haver a migração do caixa um [doação legal] para o caixa dois”, disse Abramo.

Apesar de reconhecer o efeito “deletério” (nocivo) da influência do capital no processo político, o diretor executivo da Transparência Brasil disse que não há uma fórmula pronta para resolver o problema. “O grande eleitor no Brasil é o dinheiro. Isso causa muita preocupação. Você tem compradores de um lado e vendedores de outro. Tem algo altamente valorizado que são as decisões futuras. Os vendedores são os políticos e os compradores são as empresas. O que a empresa compra: promessa de decisão futura. E isso não tem como proibir”, destacou.

Ele enfatizou que as regras eleitorais já preveem mecanismos para coibir fraudes, mas a Justiça eleitoral não tem condições de fiscalizar todas as prestações de contas de todos os candidatos do país. “Você pode tentar reduzir a influência das empresas, que é deletéria. Mas não se tem uma fórmula mágica. É um mecanismo muito difícil que vários países enfrentam. Não tem solução. Depende de uma evolução, que depende de vários fatores.”

Um dos fatores, segundo Abramo, passa por uma maior participação do cidadão no processo político. Mas isso, no entanto, não teria eficácia em um plebiscito para tratar de pontos da reforma política. “Plebiscito é uma maluquice. As questões são complicadas demais. Faz sentido as pessoas dizerem que querem que o transporte público funcione melhor. Agora, quero voto distrital? As pessoas não fazem nenhuma ideia do que seja. Não é posição elitista. As pessoas não são capazes de votar naquilo que elas não compreendem.”

Criado em julho, o grupo de trabalho da Câmara para discutir a reforma política tem prazo e três meses para apresentar uma proposta de reforma a ser votada posteriormente pela Casa.

Siemens e Alstom já participaram de cartel no setor de energia

Dyelle Menezes e Marina Dutra
Do Contas Abertas


A Siemens e a Alstom já estiveram envolvidas em cartel no setor de energia. Em 2006, as duas empresas foram incluídas em um processo instaurado pela Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça. As suspeitas são de que as entidades participaram de cartel internacional no mercado de aparelhos eletro-eletrônicos de direcionamento de fluxo de energia elétrica com isolamento a gás (gas-insulated switchgear – GIS) e a ar (AIS), entre 1998 e 2006.

A investigação sobre o cartel começou após uma das empresas envolvidas  ter celebrado um acordo de leniência, em troca da redução ou anulação da pena prevista, assim como acontece com a Siemens em relação ao suposto cartel dos trens. Na época, o jornal Folha de S.Paulo afirmou, com base em documentos cedidos pela SDE, que a ABB foi a responsável pela entrega do esquema, cujas primeiras reuniões teriam ocorrido em 1985.

 De acordo com a SDE, a empresa delatora apresentou à Secretaria uma série de documentos, como a cópia do chamado Acordo GQ (para o mercado de aparelhos insuflados a gás – GIS) e indícios do Acordo A5 (para o mercado de sistemas insuflados a ar – AIS). Segundo a ABB, as negociações tinham o objetivo de preservar as participações de mercado das empresas e a manutenção de um determinado nível de preços.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica informou ao Contas Abertas que o processo de cartel referente ao mercado de GIS, que foi instaurado em 2006,  encontra-se atualmente em fase de análise das defesas apresentadas pelas partes. Já o processo de investigação do mercado de AIS, só foi instaurado no ano passado e está em fase de notificação.

Além da Siemens e da Alstom, o processo que investiga para o mercado GIS inclui também as empresas Japan AE Power Systems Corporation, Toshiba Corporation, Toshiba do Brasil, Mitsubishi Corporation e Mitsubishi Corporation do Brasil. O processo para o mercado AIS foi instaurado contra as empresas ABB Power Technologies Ltd, ABB Switzerland Ltd, ABB Ltda, Areva T & D, Areva T & D Brasil, Siemens AG, Siemens Ltda, VA Tech e VA Tech Transmissão e Distribuição Ltda.

A suspeita é de que os projetos disponíveis eram alocados a uma determinada empresa definida pelo grupo, que determinaria o preço de venda do equipamento e o comunicaria aos demais participantes da disputa, que apresentavam propostas de 5% a 7% maiores do que o preço apresentado pela empresa ganhadora do projeto. A intenção seria a de dar uma aparência de competitividade ao processo de compra.

Os acordos seriam definidos pelas matrizes e teriam validade mundial exceto para os Estados Unidos, Canadá, Rússia e China. O suposto cartel teria atuado diretamente no Brasil definindo níveis de preços ou alocando para determinada companhia compras realizadas por empresas públicas e privadas. Na época, a Folha de S.Paulo informou que o suposto cartel teria provocado prejuízo de pelo menos R$ 1,7 bilhão a empresas do setor entre 1988 e 2004.

Segundo fonte consultada pelo Contas Abertas, é tradição que grandes empresas como essas realizem cartel para dominar o mercado. “Elas agem dessa maneira há muito tempo e atuam em todos os setores de investimentos públicos”, ressaltou a fonte, que preferiu não se identificar.

Cartel nos trens
A Siemens ganhou novamente as páginas dos jornais ao entregar ao CADE um novo esquema de cartel, do qual faria parte. As denúncias são de que desta vez a o esquema atingiu as licitações dos trens de São Paulo e do metrô de Brasília. A empresa alemã  entregou ao Conselho documentos em que afirma que o governo de São Paulo sabia e deu aval à formação do cartel que envolveria 18 entidades ao todo. Além da Siemens, participariam do esquema ainda a francesa Alstom, a canadense Bombardier, da espanhola CAF e da japonese Mitisui. De acordo com a empresa o cartel funcionou entre 2000 e 2007.

Guerra política
O suposto cartel do metrô tem gerado conflito entre PT e PSDB. De um lado, o PSDB, partido do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, critica um vazamento seletivo das informações sobre o cartel. Para os tucanos, o caso é generalizado, pois além de contratos com o governo paulista, a Siemens firmou contratos com a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), órgão vinculado ao Ministério das Cidades. O ex-governador do Estado de São Paulo, José Serra, negou que tenha dado aval para o cartel. Já os petistas, lutam para instalar CPIs na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa de São Paulo, para investigar o envolvimento do governo paulista no cartel.