O Globo
Com Agências Internacionais
Governo admite mais de 500 mortes no massacre de quarta-feira
‘Continuamos fortes, desafiadores e determinados’, afirma porta-voz
Twitter (@Almogaz)
Prédio do governo é incendiado em Gizé
CAIRO - A Irmandade Muçulmana do Egito afirmou que vai derrubar o golpe militar com uma luta pacífica, mas o massacre de mais de 500 pessoas na véspera levou à revolta de seus integrantes, deixando-os “além do controle” do comando central do grupo, de acordo com seu porta-voz. Na manhã desta quinta-feira, manifestantes incendiaram um prédio do governo em Gizé, cidade próxima ao Cairo onde estão os principais pontos turísticos do país, como a Esfinge e as Pirâmides. Na capital, cerca de três mil pessoas atenderam à convocação da Irmandade para a realização de protestos nacionais, se reunindo na mesquita de al-Iman - agora uma mistura de hospital, necrotério, abrigo e acampamento de manifestantes.
Segundo o último balanço do governo, 525 pessoas morreram durante a violenta remoção dos acampamentos na véspera, a maioria delas civis, e mais de 2 mil ficaram feridas em confrontos em Cairo, Alexandria e outras cidades. Mas acredita-se que o número seja ainda maior, com a Irmandade estimando em mais de 2 mil as mortes. É impossível verificar os valores apresentados independentemente da extensão da violência.
“Nós sempre seremos contra a violência e pacíficos. Continuamos fortes, desafiadores e determinados”, disse o porta-voz da Irmandade Gehad El-Haddad em seu Twitter. “Vamos avançar até derrubar esse golpe militar”, acrescentou. O porta-voz Gehad al-Haddad, no entanto, tuitou: “Após os ataques e prisões e assassinatos que enfrentamos, as emoções estão muito exaltadas para serem guiadas por qualquer um.”
A Irmandade convocou para esta quinta-feira passeata em todo o país, um dia depois da violenta repressão sobre os seus membros. No Cairo, ela sairá da Mesquita de al-Iman.
A repressão na quarta-feira provocou apelos ocidentais para uma contenção e uma solução pacífica negociada para a crise política do Egito, após a derrubada o presidente Mohamed Mursi pelos militares, no mês passado.
Em Ancara, o primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan pediu nesta quinta-feira ao Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunir rapidamente e agir depois do que ele descreveu como um massacre no Egito.
- Aqueles que permanecem em silêncio diante deste massacre são tão culpados quanto aqueles que o realizaram. O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve se reunir rapidamente - afirmou Erdogan.
Os Estados Unidos, a União Europeia, as Nações Unidas e a Turquia condenaram a violência e pediram a suspensão do estado de emergência e uma solução política abrangente para a crise do Egito.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, chamou o derramamento de sangue no Egito de deplorável, uma palavra que diplomatas americanos raramente usam, mas evitou culpar qualquer lado e exortou todas as partes a buscar uma solução política.
EUA cogita cancelar exercício militar com o Egito
Uma autoridade dos EUA disse que Washington estava considerando cancelar um grande exercício militar conjunto com o Egito, após a recente onda de violência, no que seria uma afronta direta às forças armadas egípcias.
O exercício “Bright Star” começou em 1981, após os acordos de paz de Camp David entre Egito e Israel. Os Estados Unidos já suspenderam a entrega de quatro F-16 caças em um sinal de seu descontentamento.
Depois do pior derramamento de sangue em todo o país nas últimas décadas, o governo militar instalado declarou um mês de estado de emergência e impôs o toque de recolher do anoitecer ao amanhecer no Cairo e em outras dez províncias, restaurando os poderes do Exército de prisão e detenção por tempo indeterminado.
O Exército insiste que não busca o poder e agiu no mês passado em resposta às manifestações que pediam o afastamento de Mursi.
O vice-presidente Mohamed ElBaradei, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, que emprestou seu apoio político liberal para a destituição do primeiro presidente eleito livremente no Egito, renunciou ao cargo consternado pelo uso da força em vez de um fim negociado para seis semanas de impasse.
Outros liberais e tecnocratas do governo interino não seguiram o exemplo. O primeiro-ministro interino Hazem el-Beblawi disse em um discurso transmitido pela televisão que o governo não tinha escolha a não ser pedir a repressão para evitar que a anarquia se espalhasse.
- A situação chegou a um ponto que nenhum Estado que se preze poderia aceitar - afirmou.
Muçulmanos realizaram ataques de vingança contra alvos cristãos em diversas áreas, incendiando igrejas, casas e estabelecimentos comerciais, informaram fontes de segurança e a imprensa estatal.
Igrejas foram atacadas no vale do Nilo nas cidades de Minya, Sohag e Assiut, onde os cristãos escaparam pelo telhado em um prédio vizinho depois que uma multidão cercou e atirou tijolos em seu lugar de culto, informou a agência de notícias estatal Mena.
