segunda-feira, março 17, 2008

As contradições de um governo confuso.

Adelson Elias Vasconcellos

Preocupados com a valorização do real e, diante da rápida queda do superávit da balança comercial, nossas autoridades econômicas resolveram agir. Como não se pode acabar com o câmbio flutuante, já que ele é um dos pilares de sustentabilidade da atual prosperidade econômica, e como o Banco Central vem comprando dólar e, pelo que se vê, só faz aumentar o prejuízo, resolveram aplicar três medidas que, dizem, é para favorecer e incentivar as exportações e manter o dólar no estado em que se encontra. Não será preciso depreciar nossa moeda, o que importa é manter o atual nível.

Pois bem, aplicaram um imposto, IOF, sobre a entrada de dólares de investidores estrangeiros, a razão de 1,5%. Quanto ao período de permanência nada se disse, mas a tributação vem de encontro ao que aqui afirmamos, que a enxurrada de dólares no país se dava, não por obra e graça das exportações, mas sim porque se ela somava ao expressivo montante de capital-motel atraído pelos juros mais altos do planeta.

Imediatamente após o anúncio do tal pacote, divulgou-se a ata da reunião do COPOM, da semana anterior, em que, apesar da manutenção dos juros no patamar de 11,25%, prenunciava-se a disposição de se aumentar os juros para contenção da inflação, que ameaça despontar no horizonte, tendo em vista o aquecimento da economia pela elevação do consumo interno e esgotamento da capacidade de produção em vários segmentos da indústria. O próprio Lula fez discurso neste sentido, vocês estão lembrados, não é mesmo ?

Analisando-se as duas notícias, separadamente, pode não significar nada. Porém, pode uma embutir um recado para outra. Nossos investidores “estrangeiros” deveriam preocupar-se com o IOF incidente sobre as aplicações em títulos do governo ? O próprio governo, ao anunciar a possibilidade de elevaros juros, dá o recado de quem eles não precisarão perder noites de sono. Pode a elevação dos juros simplesmente anular o imposto que se passou a cobrar. Uma pela outra, ficaria tudo como está atualmente.

Mas há um detalhe que entendo deva ser destacado: o governo brasileiro ainda não aprendeu que aumento de consumo, quando sustentado no aumento e expansão da massa salarial em razão da expansão dos níveis de produção por aumentos de produtividade ou criação de novas plantas, dificilmente produz inflação. Este sim é um crescimento do tipo sustentado. As empresas ganham mais, investem mais em aumento de produção (porque sabem que o mercado absorverá este aumento de oferta), contrata-se mais e, porque se procura mais mão de obra, os salários tendem a crescer mais.

No caso brasileiro, o aumento de consumo não se deu desta forma. De um lado, houve aumento de gastos públicos, como também houve contratação de mais funcionários. Contudo, o crescimento do gasto público, os aumentos reais do salário mínimo, e até os aumentos concedidos ao funcionalismo, não obedeceu a lógica do crescimento econômico. Explico: se o país cresce a razão de 4% ao ano, e desde que o governo faça sua lição de casa, é justo que ele acabe arrecadando em torno de 4% a mais do que no ano anterior, isto condicionado a não elevação da carga tributária em relação ao PIB.

Saindo para a iniciativa privada, o grande volume de pessoas que passaram a consumir são, em grande número, as beneficiadas pelos programas sociais. Ou seja, pessoas que passaram a ter uma renda não oriunda da produção, e sim do Tesouro Nacional. Outra parte considerável deste aumento de consumo se explica pela oferta de crédito que, mesmo subsidiado, e considerando-se a média da inflação anual, tem juros ainda elevados. Ou seja, o grande volume deste crescimento do consumo não se deu por aumento de produção, como no caso acima referido, nem por crescimento do PIB. Tivemos, e ainda temos, uma espécie de bolha, repartição de dinheiro público que, ao invés de ser direcionado para investimentos e serviços, foi direcionado para benefícios sociais.

Tanto é que, na revista VEJA desta semana, há um quadro interessante que merece reflexão. Sob o título “As mudanças no gasto social do governo”, lá se diz que “(...) Os gastos sociais do governo cresceram 74 % entre 1995 e 2005. A maior parte desses recursos engrossou os orçamentos da Previdência e da Assistência Sócia. Saúde e educação perderam participação nos gastos públicos. A mudança foi provocada pelo Bolsa Família e pro aumento do salário mínimo. O economista Raul Velloso diz que a nova distribuição é nociva porque pretere os mais jovens, não os qualifica para o mercado de trabalho e, assim, contribui para perenizar a pobreza no país(...)”.

Assim, a Previdência e Assistência Social cresceram em participação de 44 para 51% e de 1 para 6%, respectivamente, enquanto a Saúde e a Educação desceram de 16 para 11% e de 8 para 6%, respectivamente.

Como a massa salarial não se expandiu, e o volume maior de consumo cresceu muito nos extratos de menor renda da população, este crescimento fica delimitado ou pela capacidade do governo em expandir os programas sociais, com menor investimento em educação, saúde, segurança, infra-estrutura, ou limita-se, no caso do crédito, à própria capacidade financeira baixa dos tomadores de empréstimos consignados, já que há um limite em sua capacidade de pagamento. E, aí, temos caracterizada a bolha.

Para que as empresas possam investir mais em aumentos de produção e na construção de novas plantas é indispensável que se tenha não apenas mercado consumidor, mas também menor tributação e investimentos públicos maciços nas áreas de responsabilidade do Estado, o que não aconteceu. Ou seja, voltamos ao círculos pernicioso de crescer limitada e velozmente num certo período, e depois sermos obrigados a pisar no freio no período subseqüente.

E seria oportuno lembrar ao governo que, o anunciado crescimento de 5,4 % não teve o devido desconto da inflação, ou seja, ele é uma falsa referência. Se a inflação foi de 4,46%, o crescimento real se deu em 1%, tão somente.

Talvez por isso mesmo, o presidente Luiz Inácio tenha pedido uma comemoração moderada pelo crescimento do PIB em 5,4%.

Deveria, deste modo, o próprio governo rever algumas de suas prioridades. Primeiro, que não existe crescimento sustentado a partir de programas sociais e maior oferta de crédito para camadas de baixa renda. A depender apenas disso, o crescimento não se sustenta. Segundo, é indispensável que o custo Brasil diminua o suficiente para redução da carga tributária das empresas, o que permitirá sobra de recursos para investimentos em aumento de produção e novas fábricas. Terceiro, é preciso que a mão danosa do Estado sobre a classe média pese menos. Como vimos, a classe média brasileira é que paga os impostos mais altos do mundo, e sem a correlação de serviços públicos minimamente decentes, o que obriga que esta fatia da população tenha um custo extra em escolas, em segurança, em serviços de saúde, etc. Isto lhes rouba a capacidade de consumir mais, investir e poupar mais, o que tira do país o cenário de “crescimento sustentado”. E quarto, o governo precisa rever seu gasto corrente, porque conforme é possível concluir pelo cenário descrito no Orçamento da União, para 2008, apesar da elevação da arrecadação de impostos estar muito acima do crescimento do PIB, a capacidade de investimento reduziu-se em áreas estratégicas, como educação e saúde, e se mantém quase estagnada na infra-estrutura, talvez aí o grande gargalo para um crescimento de fato robusto da economia.

Da forma como está posto, o crescimento do país tende a se estabilizar, e como vimos em post anterior, dentre os 38 emergentes listados, estamos ainda na 36° colocação. Ou seja, estamos crescendo sim, porém, menos do que poderíamos e necessitamos pelas oportunidades e potenciais que desfrutamos, e menos ainda do que outros países com muito menos riquezas da que possuímos.

Ah, e quanto a questão do pacote “cambial, a situação fica confusa: se, como diz o governo, a dívida externa não é mais problema, por que ainda mantemos no mesmo patamar o superávit primário ? É porque trocamos a dívida externa mais barata, pela dívida interna mais cara. Golpe de marketing. Só isso? Não, é porque vocês não sabem o tamanho do prejuízo que esta troca provocou. E mais: quando o dólar ainda estava na casa dos R$, 2,90, o Banco Central já comprava milhões da moeda americana para tentar conter a valorização do real. E enquanto foi caindo até bater em torno de R$ 1,70, 0 BC continuou comprando. Como o produto comprado foi se deteriorando, imaginem agora o tamanho do prejuízo!!! Mas a necessidade de elevar os juros não se dá apenas “por ameaça do retorno da inflação”. É para que, apesar do IOF, os títulos públicos não percam atrativo, e o governo possa, deste modo, continuar captando recursos no mercado financeiro. E sabem por quê ? Porque o governo não aprendeu ainda que, a melhor forma do país efetivamente atingir um grau de crescimento permanente e sustentado, é ele gastando menos, e ainda assim, gastando com sobriedade. E não vou aqui atacar “programas sociais”, eles são irrelevantes dentro do orçamento geral, a exceção dos repasses para ONG’s picaretas. São aqueles gastos que o governo insiste em manter sob sigilo por causa da “segurança nacional”. Como exemplo, vale a informação dada pelo Cláudio Humberto em sua página:

Tesouro, a maior caixa-preta do País
Despesa com cartão corporativo é lanche de criança, diante dos gastos da Coordenação-Geral da Dívida Pública, da Secretaria do Tesouro Nacional. Foram R$ 602 bilhões em amortização e juros da dívida em 2007 - seis mil vezes superior aos gastos dos cartões - que o ex-Portal da Transparência esconde com o aviso "detalhamento de informações não disponível".


E a oposição ainda fica perdendo tempo com CPI’s dos cartões e das ONG’s !!! Como o governo tem maioria em ambas as comissões de investigações, alguém aí acredita que ele deixará vasculhará estas caixas-pretas para se complicar ? E ainda mais em ano de eleição ? Esqueçam !!! Mas que o caminho das pedras é este, não há dúvidas: juntando-se os esqueletos todos, cartões corporativos, ONG's e os gastos da Secretaria do Tesouro Nacional, o monstro que salta daí justifica a precariedade dos serviços públicos diante da carga de impostos que nos é cobrada.

A paralisia que trava um país

Editorial do Jornal do Brasil

No momento em que o Brasil clama por reformas urgentes no arcabouço legal que o rege, parece especialmente triste constatar, em números, a baixíssima produtividade do Congresso. A edição do Jornal do Brasil confirma as análises desabonadoras que costumam prevalecer quando o assunto é a eficiência do Legislativo. Conforme quantifica reportagem de Márcio Falcão, quase 1.290 projetos de lei repousam esquecidos nas gavetas do Congresso. Na Câmara, 1.125 propostas estão prontos para serem votados em plenário. No Senado, o volume fica em 165 proposições. O mais impressionante é que grande parte dessas matérias tramitam há mais de duas décadas pelas Casas legislativas. Se outrora já foram tratadas como prioridades, hoje são todas reféns da boa vontade de deputados e senadores para aprová-las.

Entre as propostas que aguardam na fila de votação há temas polêmicos, como mudanças nas leis trabalhistas, regularização do jogo de bicho, implementação do parlamentarismo e o fim do voto obrigatório. E, claro, outras tantas que servem apenas para engrossar o anedotário político ou para fazer valer o incansável trabalho de lobistas - como o projeto que sugere medidas para a desoneração da maçã e a criação de incentivos tributários para o setor de console de videogames.

Parlamentares esquivam-se da acusação de ineficiência e baixa produção. Alegam que a paralisia dessas matérias é resultado do regimento e do jogo político. O número de comissões por onde passam os projetos, analisando, por exemplo, a constitucionalidade e as inúmeras brechas para modificações no teor das propostas acabam por dificultar a inclusão na ordem do dia. Além disso, os parlamentares apontam que as intensas negociações e a falta de consenso sobre os temais polêmicos inviabilizam as votações.

O presidente do Senado, Garibaldi Alves, sustenta que o Executivo também tem sua parcela de culpa nesta situação. De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), 75% das propostas aprovadas no ano passado na Câmara tiveram origem no Poder Executivo. Das 72 matérias enviadas pelo governo federal à Câmara, 61 foram medidas provisórias. As matérias apresentadas pelos próprios deputados somam apenas 25% do total discutido na Casa.

Quando a Câmara aprovou a nova regulamentação das medidas provisórias, em 2004, os parlamentares garantiram que as votações ganhariam ritmo mais dinâmico. A ameaça de obstrução da pauta faria com que os temas fossem examinados em regime de urgência urgentíssima. Assim seria na teoria. A emenda mostrou-se pior do que o soneto e tornou-se perversamente comum encontrar o plenário com a pauta trancada.

Não é de hoje que o Executivo se sobrepõe ao Legislativo na condução da agenda nacional. Em parte pelo centralismo governamental, em parte pela inércia do Congresso. Muitas das vezes o vácuo de poder é preenchido pelo Judiciário, mediante julgamentos de constitucionalidade. Exemplo mais recente foi a Lei de Imprensa - resquício do entulho autoritário, aprovado pelo Congresso em plena ditadura militar, duas décadas antes da Constituição de 88. Por intermédio do Supremo Tribunal Federal, suspenderam-se os efeitos de 20 dos 77 artigos da Lei. O Parlamento, nesse caso, apenas aplaudiu.

Enquanto interesses menores avançarem sobre os interesses nacionais, projetos relevantes para o destino do país, entre os quais reformas modernizadoras, continuarão aguardando a hora de se tornarem prioridade dos parlamentares. A sociedade está farta de pagar pela inércia do Legislativo.

1.290 projetos esperam aprovação

Márcio Falcão, Jornal do Brasil

O número impressiona. São quase 1.290 projetos de lei que estão esquecidos nas gavetas do Congresso. Na Câmara, 1.125 propostas estão prontas para serem votadas em plenário. No Senado, o volume é mais modesto, com 165 proposições. O que chama atenção é que boa parte dessas matérias - algumas que já fizeram parte da agenda de prioridades do Executivo - tramitam há mais de 20 anos nas duas Casas legislativas. Todas, agora, reféns da boa vontade de deputados e senadores para aprová-las.

Algumas das propostas que estão na fila de votação trazem temas polêmicos, como mudanças na leis trabalhistas, implementação do parlamentarismo, reformulação da composição do tribunal do júri, regulamentação do jogo do bicho e fim do voto obrigatório. Outros transitam entre o inusitado e o curioso, propondo medidas como a desoneração da maçã e a criação de incentivos tributários para o setor de console de videogames.

O projeto de lei número 602 é o mais antigo do Congresso e foi apresentado em 1983 pelo então deputado Gastone Righi (PTB-SP). A matéria, que levou 10 anos para passar por quatro comissões da Câmara, estabelece como crime de usura a cobrança de juros e comissões superiores à taxa de 12% ao ano. A última vez em que o projeto andou na Câmara foi em maio de 1994, quando a Mesa Diretora encaminhou o projeto à Comissão Especial do Sistema Financeiro Nacional. Em 60 dias a comissão, apresentou seu parecer, mas o projeto não retornou ao plenário.

Um segundo projeto perto de caducar que não chegou à ordem do dia completa nas próximas semanas 24 anos, sendo que análise nas comissões durou 14 anos. De autoria do ex-deputado Nelson Carneiro (PTB-RJ), o texto está pronto para ser votado em plenário há dez anos e estabelece mudanças nas leis trabalhistas, garantindo estabilidade provisória aos empregados em situações especiais. Segundo o regimento da Câmara, se as matérias forem aprovadas em alguma comissão, elas nunca serão arquivadas. No Senado, por outro lado, a validade é de oito anos após a saída do autor do projeto.

Valem ou não?

- O mais difícil nestas situações é saber se estas propostas ainda valem. Defendo que o melhor seria criar algum órgão para avaliar se estas propostas ainda cabem nos dias de hoje e, em seguida, propor um mutirão de votações - destaca o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO).

Nem mesmo o prestígio de ex-presidentes, governadores e ministros foi capaz de fazer andar algumas de suas propostas apresentadas na época em que eram parlamentares. Desde 2000, um texto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, elaborado em 1989, que prevê taxar grandes fortunas está congelado. O projeto levou 11 anos nas comissões do Senado e perde a validade no final do ano.

A paralisia destas matérias, apontam deputados e senadores, é resultado do regimento e do jogo político. O número de comissões por onde passam os projetos, analisando, por exemplo, a constitucionalidade e as inúmeras brechas para modificações no teor das propostas acabam dificultam a inclusão na ordem do dia. Além disso, senadores e deputados apontam que as intensas negociações e a falta de consenso sobre os temais polêmicos inviabilizam as votações.

"Ajuda do Executivo"
Para o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), se surpreende com o tamanho da gaveta do Senado e sustenta que o Executivo também tem sua parcela de culpa nesta situação.

- É muita coisa, é isto mesmo? Olha, isso aí só reforça esta nossa luta para mudarmos os trâmites das medidas provisórias. Essas dificuldades não são exclusivas do Congresso - afirma Garibaldi.

Para se ter uma idéia, a maioria das matérias aprovadas pelo Congresso em 2007 foi elaborada pelo Executivo. De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), na Câmara, 75% das propostas aprovadas tiveram origem no Poder Executivo. Das 72 matérias enviadas pelo governo federal à Câmara, 61 foram medidas provisórias. As matérias apresentadas pelos próprios deputados - como projetos de lei, decretos legislativos, projetos de lei complementar e emendas à Constituição - representaram somente 25% do total discutido na Casa.

- É preciso realmente repensar este instrumento (medida provisória). O Congresso precisa de autonomia - diz o líder do DEM na Câmara, Antônio Carlos Magalhães Neto (BA).

Para o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), a situação destes projetos, aos poucos, tem melhorado. O líder lembra que no ano passado foram aprovados algumas destas eternas matérias, como a Emenda 29, que fixa os percentuais mínimos que municípios, estados e União devem investir em saúde. Na avaliação do petista é preciso ter cautela, porque nem sempre um grande número de projetos aprovados representa eficiência.

- Elaborar uma lei não é brincadeira. Por isso, é melhor que se tenha poucos projetos aprovados, mas que sejam eficientes - declara o petista.

Peleguismo redivivo

Estadão

É natural que as lideranças sindicais comemorem a decisão da Câmara dos Deputados de legalizar as centrais sindicais e de, revendo decisão anterior, restabelecer a obrigatoriedade do recolhimento do Imposto Sindical. Parte da arrecadação irá para as centrais. Depois de sancionado o texto pelo presidente Lula, as centrais terão existência legalmente reconhecida na estrutura sindical brasileira e, mais ainda, disporão de uma renda que não lhes exigirá nenhum esforço: o dinheiro cairá automaticamente no seu caixa, transferido pelo governo.Têm motivos, portanto, os dirigentes das centrais sindicais para estarem eufóricos. Mas alguns, como o presidente da Força Sindical, deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (PDT-SP), exageraram ao pretender que todos os trabalhadores têm motivo para estarem eufóricos. "Foi uma vitória dos trabalhadores", disse Paulinho, aplaudindo a decisão de seus pares (a proposta foi aprovada pela Câmara por 234 votos a favor, 171 contrários e 6 abstenções).A decisão da Câmara está longe de poder ser considerada uma "vitória dos trabalhadores". Estes são, na verdade, os grandes perdedores, financeira e politicamente. Os trabalhadores, sindicalizados ou não, continuarão obrigados - como estão desde 1937, em plena ditadura Vargas - a recolher para o governo o equivalente a um dia de salário.

Esse dinheiro, o Imposto Sindical (em 1967, no tempo do regime militar, seu nome foi modificado para "contribuição sindical"), é recolhido compulsoriamente de empregadores e trabalhadores. Depois, o governo redistribui a maior parte do produto pelas organizações sindicais, na base de 60% para os sindicatos, 15% para as federações e 5% para as confederações, apropriando-se dos 20% restantes. Do dinheiro que retém, o governo destinava a maior parte à formação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Com as novas regras, as centrais sindicais terão direito à metade da fatia que cabia ao governo, ou 10% do produto total do Imposto Sindical. Receberão, portanto, cerca de R$ 130 milhões "de mão beijada".

O caráter compulsório da contribuição sindical está na raiz do peleguismo - o sindicalismo comandado pelo Ministério do Trabalho, no qual o poder sindical confunde-se com o poder político. Aquele sindicalismo que o líder sindical autêntico Lula da Silva parecia ter liquidado nos anos 70, até que chegou à Presidência da República. Ainda há sindicalistas sérios, preocupados exclusivamente com as condições de trabalho e de vida dos sindicalizados e dos trabalhadores de suas bases. Mas são minoria. Hoje predominam na estrutura sindical brasileira sindicatos cuja preocupação principal é satisfazer os projetos políticos e pessoais dos seus dirigentes.

As centrais sindicais surgiram na década de 1980 para mudar essa estrutura, para acabar - como diziam dirigentes na época - com a correia de transmissão por meio da qual o governo mandava nos sindicatos. Essa correia é justamente o Imposto Sindical. Agora, gostosamente, as centrais sindicais aceitam que essa correia impulsione também suas finanças.

Se as entidades sindicais querem uma organização de nível mais alto que articule suas ações, papel que teoricamente está reservado às centrais, elas que a sustentem com contribuições voluntárias dos seus filiados. Acrescentar mais uma instância, bem mais poderosa do que as demais, à lista das que já se beneficiavam com o Imposto Sindical é tornar ainda mais difícil a tão prometida extinção desse tributo que retira parcela da renda do trabalhador para sustentar uma estrutura sindical que, na maioria dos casos, não usa esses recursos exclusivamente na defesa dos que os fornecem.

Em outubro, a Câmara acabou com o caráter compulsório da contribuição sindical. O Senado derrubou a decisão e o projeto voltou para a Câmara, que reviu sua decisão anterior. Continua-se falando, no governo, de um projeto que acabará com o imposto compulsório, criando uma certa "contribuição negocial". É esperar para ver.

Há um dispositivo no projeto aprovado pela Câmara que reduz o espaço para o mau uso do Imposto Sindical. As organizações sindicais terão de justificar ao Tribunal de Contas da União (TCU) o uso do dinheiro que receberem do governo. Espera-se que o ex-líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva não vete esse dispositivo.

Imposto sindical pode ser opcional

Luiz Orlando Carneiro , Jornal do Brasil

Mesmo sancionado pelo presidente da República, o dispositivo do projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados que - ao reconhecer as centrais sindicais como entidades representativas dos trabalhadores - manteve o desconto obrigatório do chamado imposto sindical em folha, sem necessidade de autorização do trabalhador, está ameaçado. Por via indireta, corre o risco de ser derrubado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A questão vai gerar tanta polêmica como a sobrevivência ou não da Lei de Imprensa.

O deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) - que foi ativo líder sindical dos bancários de Brasília, na década de 1980, quando era do PCB - aposta que o STF vai decidir, finalmente, que os artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada pordecreto-lei de 1943, que instituíram e regulamentaram a "cobrança impositiva" da contribuição sindical não foram "recepcionados" pela Constituição vigente.

Era Vargas
No dia 10 de dezembro do ano passado, o PPS, representado pelo presidente do partido, Roberto Freire, ajuizou no Supremo uma Ação de Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF). Seu objetivo é que seja declarada inconstitucional a cobrança obrigatória do imposto sindical, criado há 64 anos, pelo então ditador Getúlio Vargas. A ação - com pedido de liminar, que não foi concedido - tem como relator o ministro Celso de Mello.

- Não posso ser obrigado a custear uma entidade à qual não quero me filiar, e isso está claro na atual Carta - afirma Carvalho, que foi constituinte em 1987-88. - Tínhamos pedido uma medida liminar porque estamos, agora em março, diante de uma tungada que significou, para os trabalhadores, R$ 750 milhões, no ano passado. O aspecto compulsório da contribuição sindical representa a mais nítida violação da liberdade de associação.

A ação do PPS tem como base para o "descumprimento de preceito fundamental" os incisos 20 do Artigo 5º e 5 do Artigo 8º da Constituição, que dispõem, respectivamente: "ninguém poderá ser compelido a associar-se ou permanecer associado" e "ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato".

Em outubro do ano passado, na primeira votação do projeto de iniciativa do Executivo, na Câmara, a emenda apresentada pelo deputado, que exigia autorização do empregado para o desconto do imposto sindical foi aprovada por 215 a 161 votos. Na terça-feira, na segunda rodada, depois de sofrer modificações no Senado, a mesma emenda foi derrubada na Câmara pelo placar de 234 a 171.

Muita pressão
- Houve uma pressão muito grande dos profissionais do sindicalismo, sobretudo em cima de parlamentares que são candidatos às eleições municipais de outubro - diz. Sem falar do inusitado apoio do PT (10 deputados do partido mudaram de posição), que já teve mensagem renovadora e agora rasga de vez o seu ideário, aliando-se ao que há de mais reacionário no movimento sindical brasileiro.

O ministro-relator da ADPF no STF já recebeu as informações solicitadas das presidências da República, da Câmara e do Senado. Falta, ainda, o parecer do procurador-geral da República para que Celso de Mello dê o seu voto.

A situação na fronteira

Editorial do Estadão

No início desta década, quando indagadas sobre as providências que estavam sendo tomadas para proteger a fronteira com a Colômbia do tráfico de drogas e da eventual infiltração de guerrilheiros das Farc, as autoridades brasileiras invariavelmente respondiam que essas ameaças não existiam. As distâncias e o ambiente inóspito da floresta amazônica, diziam, se encarregavam de neutralizar qualquer risco. Afinal, algumas das principais bases das Farc e centros de produção de coca estavam situados nas cabeceiras do Rio Putumayo, a pelo menos 200 quilômetros de distância, em linha reta, do ponto mais próximo da fronteira brasileira, e isso bastava para desencorajar o comércio e as infiltrações ilegais. Mas acontece que o Rio Putumayo não começa e termina na Colômbia. Ele cruza a fronteira e, no Brasil, passa a se chamar Rio Içá - uma excelente via de transporte que desemboca no Solimões, poupando a quem queira atingir o território brasileiro as agruras de uma viagem através da selva fechada.

Muita pasta de coca e cocaína refinada têm entrado no Brasil por essa via. O traficante Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, usava o rio para escoar parte das drogas que comprava das Farc. A zona fronteiriça também tem servido de centro de abastecimento de alimentos, remédios, armas e munições para os homens das Farc. Era com esse tipo de suprimentos, aliás, que Fernandinho Beira-Mar pagava parte dos carregamentos que recebia do comandante da Frente 16, o Negro Acácio, morto no ano passado.

Até o incidente do Rio Traíra, os narcoguerrilheiros freqüentavam a região uniformizados e armados. Depois, passaram a guardar prudente distância da fronteira e a utilizar prepostos com roupas civis nas operações de reabastecimento. Nos últimos meses, narcoguerrilheiros uniformizados voltaram a ser vistos nas proximidades da fronteira.

Essa situação deve começar a mudar a partir das próximas semanas, quando a Polícia Federal abrirá uma base de operações na confluência do Içá com o Solimões. A base será dotada de câmeras de longo alcance com capacidade de visão noturna, radar de superfície e equipamentos de vigilância eletrônica. Com esses meios - especialmente se associados aos recursos do Sivam/Sipam - espera-se controlar uma via fluvial que tem sido usada para transportar grande volume de entorpecentes para o Brasil. Nos últimos anos, em operações esparsas, a Polícia Federal tem apreendido cerca de 1,5 tonelada de cocaína por ano, na região da foz do Içá. E isso não passa de uma pequena fração da droga contrabandeada.

O reforço do lado brasileiro da fronteira será feito em hora oportuna. É que, recentemente, foram localizados no lado colombiano dois acampamentos das Farc. A ofensiva militar desencadeada pelo Exército da Colômbia desbaratou várias das "frentes" em que se dividem as Farc e seus membros se dispersaram em pequenas frações - os acampamentos localizados não têm mais de 80 homens -, que se internaram em áreas da floresta de difícil acesso, como é o caso daquele trecho da fronteira com o Brasil.

E não é apenas a Polícia Federal que amplia a vigilância na região. Também o Exército brasileiro está atento aos problemas de segurança criados pelas Farc e tem instalado, ao longo da fronteira, postos militares guarnecidos por soldados especializados na guerra na selva. A Força Aérea, por sua vez, está se preparando tanto para dar apoio logístico às tropas do Exército e aos policiais federais como para atender a eventuais crises de natureza militar.

Mas esse esforço não basta. O Exército tem na Amazônia inteira não mais de 25 mil homens para cobrir um arco de fronteira com mais de 7 mil quilômetros de terreno inóspito. Também são insuficientes os contingentes da Polícia Federal. O posto do Rio Içá, por exemplo, será guarnecido por apenas 12 policiais federais, que serão substituídos a cada dois meses. As forças das polícias estaduais também são precárias. O policiamento de Letícia, na Colômbia, é feito, por exemplo, por 420 homens da Guarda Nacional, enquanto a cidade gêmea de Tabatinga conta com 40 homens da PM e 8 policiais civis.

As Forças Armadas e a Polícia Federal precisam receber maiores recursos para que possam aumentar sua presença na região. Pela fronteira amazônica passam pelo menos 80 toneladas de cocaína por ano e metade dessa droga é consumida no Brasil.

Cantareira: 180 Morumbis desmatados

Gabriela Carelli e Diego Zanchetta, Estadão

Devastação voltou a atingir a Serra nos últimos três anos; só para casas e condomínios foram dados 865 alvarás

Em um dos pontos mais altos da Serra da Cantareira, em Caieiras, o grupo católico Arautos do Evangelho construiu uma espécie de paraíso na Terra. Quaresmeiras e manacás moldam uma clareira de concreto de 12 mil metros quadrados, base de sustentação para prédios, casas, quadra esportiva e estacionamentos do empreendimento. O "castelo" - apelido dado pelos moradores da região ao complexo - chama a atenção pelas dimensões avantajadas e suspeitas de irregularidades, mas a obra é apenas uma entre muitas que têm contribuído para a devastação da área. Nos últimos três anos, a Serra da Cantareira, uma das maiores florestas urbanas do mundo, perdeu 1,4 milhão de metros quadrados de área verde - o equivalente a 180 campos de futebol iguais aos do Morumbi.

Estudo inédito do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação SOS Mata Atlântica detectou 16 polígonos de desmatamento no entorno do Parque Estadual da Serra da Cantareira, área de preservação. A pesquisa não só revela aceleração do desmatamento, estagnado entre 2000 e 2005, como mostra uma mudança no processo de devastação. "Nos anos 90, a causa principal era a profusão de lotes clandestinos. Hoje, quem rouba o verde é a ocupação regular", diz Márcia Hirota, da SOS Mata Atlântica.

Na Estrada de Santa Inês, altura do km 10, entre Caieiras e São Paulo, placas de "vende-se" e "proibido construir" disputam o mesmo espaço. É um reflexo do avanço da urbanização na serra que tanto preocupa os ambientalistas. Em três anos, foram expedidos 865 alvarás para casas e condomínios na bacia do Juqueri-Cantareira, que compreende Mairiporã, Caieiras, Franco da Rocha e São Paulo. De todos, Mairiporã é o que tem maior movimento imobiliário. Nos últimos dez anos, a área urbana do município cresceu 41,5%. "A ocupação danificou mais de 12% de mata atlântica", diz Pilar Cunha, do Instituto Socioambiental (ISA).

A maioria das casas e condomínios erguidos na Serra da Cantareira está dentro da lei. Licenças ambientais são concedidas mediante laudos de flora e fauna. As análises determinam o quanto pode ser construído, o total a ser mantido intacto e o reflorestamento posterior à obra. Há dois problemas, segundo especialistas. O primeiro é o cumprimento pelos proprietários de contrapartidas ambientais impostas pelo governo - com a fiscalização precária, ele dificilmente ocorre. Só na Promotoria de Caieiras, há 16 inquéritos de irregularidades em condomínio.

O segundo é mais complexo: as leis brasileiras sobre ocupação de áreas verdes estão ultrapassadas, datam de 1977 e não levam em conta a atual situação ambiental. Quem arca com o prejuízo é a população. A serra é fundamental ao abastecimento de água da Grande São Paulo, tem enorme influência na regulação climática e ameniza a poluição.

Amazônia: desmatamento é alucinante

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
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Na edição de 12 de março da "Folha de S. Paulo", a repórter Marta Salomon, com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), colhidos por satélite, revelou que só no mês de janeiro deste ano foram desmatados na região amazônica nada menos que 639 quilômetros quadrados, área quase igual à metade do Rio de Janeiro. A capital carioca possui aproximadamente 1.300 quilômetros quadrados.

Como é possível que a sanha devastadora tenha chegado a esta altura. Quais as providências tomadas? Não há resposta para a pergunta, nem de parte do Ibama, tampouco do Ministério do Meio Ambiente. Nem do Ministério da Agricultura, neste caso porque a expansão da cultura da soja é apontada como uma das causas dominantes num processo cada vez mais estranho. Muito estranho. Sobretudo porque janeiro de 2008 não é um fenômeno isolado.

Pelo contrário. O Inpe assinala que em setembro de 2007 foram devastados 611 quilômetros quadrados, em outubro, 457, em novembro, 974, em dezembro, 948 quilômetros quadrados. Uma verdadeira calamidade. Isso sem necessidade de recuar mais no tempo. A Amazônia está sendo desmatada. Derrubada. O presidente Lula precisa agir com urgência, já que ministérios de seu governo se omitem. Claro a região é enorme. Engloba mais de 55 por cento do território nacional.

Abrange assim aproximadamente 5 milhões de quilômetros quadrados. Mas suas florestas, pulmão do Brasil e até do mundo, não são inesgotáveis. Para o desmatamento alucinante e alucinado, qual o índice de reflorestamento? Provavelmente são será dos maiores. Nem dos melhores, portanto.Onde se corta e não se repõe, a tendência no futuro é terminar.

A responsabilidade brasileira é muito grande. Inclusive, a prosseguir a derrubada da floresta, setores internacionais, e sobretudo internacionalistas, começam a encontrar argumentos para ações progressivas na vasta região. A título de preservar, missões vão aparecendo, através de ONGs, e ocupando espaços que deveriam obrigatoriamente ser preenchidos pelos poderes públicos. Não é pelo governo federal, mas estadual e municipal. Afinal, a União, estados e municípios são todos atingidos pelo atentado ecológico ligado à vida humana e à sobrevivência do planeta.

Citei a dimensão da cidade do Rio de Janeiro para acentuar que num só trimestre uma área maior do que a dela foi derrubada. Derrubar florestas não é tarefa fácil. Tampouco improvisada. Ao contrário. Exige toda uma operação coordenada, projetada, esquematizada, orquestrada. É indispensável o deslocamento de trabalhadores com noção da tarefa, máquinas, motosserras, caminhões para transportar o produto dos assaltos, enfim, toda uma logística que não pode se inspirar em comportamentos rudimentares, mas sim em ações sofisticadas.

O Ministério do Meio Ambiente não percebeu nada. Sendo assim, transformou-se na personagem da canção de Chico Buarque. Só ele não viu. Só ele, não. O Ministério da Agricultura é também responsável. A reportagem da FSP foi excelente. Sobretudo porque, ao apresentar dados comparativos, como se deve fazer sempre, forneceu a dimensão do drama que se desenrola em meio à selva cada vez mais penetrada pela ganância e pelo descritério. Sim. Porque não está existindo critério técnico algum. Só a ganância, a voracidade, o impulso predatório na busca do lucro imediato e inconseqüente em termos de interesse público e coletivo.

Aliás, como está acontecendo simultaneamente em vários setores da economia brasileira e da administração pública. Esta, a cada dia, torna-se cada vez mais vulnerável aos interesses particulares, entre eles os interesses ilegítimos. A devastação veloz da Amazônia encontra-se neste caso. Francamente, gostaria de ouvir a opinião de um especialista no assunto ecologia, o jornalista Washington Novaes, que mantém uma atuação habitual no jornal "O Estado de S. Paulo". Afinal de contas, o meio ambiente não se destina apenas ao lazer e sim ao mais amplo conceito da vida humana.

A poluição não é causada somente por fábricas ou usinas. Tem sua origem também na favelização dos centros urbanos, caso da cidade do Rio de Janeiro, tem sua origem igualmente no desemprego e na miséria. Claro. Pois o déficit de habitações minimamente dignas acarreta uma queda progressiva nos padrões sanitários e de higiene. Cada grupo de pessoas que dorme nas ruas, e são muitos estes grupos, produz uma série de reflexos contrários à saúde humana. Os poderes públicos estão encolhidos, omitindo-se diante de tudo isso. Por causa disso, a poluição inclusive cresce acentuadamente.

É um fenômeno negativo e inegável. Que só a administração pública pode enfrentar. Mas neste caso enfrentar não é só bloquear as conseqüências. É, sobretudo, eliminar as causas de todo este descalabro. Na Amazônia, o problema que está ocorrendo é gravíssimo. E a impressão que se tem é que os órgãos encarregados da questão encontram-se desaparelhados para uma atuação concreta. Medidas no papel são muitas e muito amplas, mas só na aparência. Submergem nas páginas do Diário Oficial. Não se transportam para a realidade. Um desastre.

Justiça suspende licitação para aluguel de floresta pública

Claudio Angelo, Editor de Ciência da Folha

A Justiça Federal determinou na sexta-feira (14) a suspensão da primeira licitação para o aluguel de uma floresta pública no Brasil. A decisão fez o SFB (Serviço Florestal Brasileiro) paralisar o processo de concessão da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, à exploração sustentável de madeira.

O SFB disse que recorrerá da decisão assim que for oficialmente notificado, na terça-feira que vem. Para o órgão, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, a concessão de florestas públicas é estratégica para empurrar a economia da Amazônia rumo a atividades que não derrubem a mata.

"É justamente neste momento que precisamos de alternativas econômicas funcionando e não temos alternativas", diz Tasso Azevedo, diretor do SFB. Ele se refere à ação emergencial do governo para conter o desmatamento, que voltou a subir no fim do ano passado após três anos de queda.

O governo avalia que, sem as concessões, será muito difícil tirar o setor madeireiro da ilegalidade em que ele se encontra hoje -e que resultou no conflito visto no mês passado em Tailândia, Pará, cidade que vive da exploração ilegal de madeira.

O processo para conceder parte da Flona (Floresta Nacional) o Jamari à indústria madeireira seria o primeiro teste prático desse modelo de exploração, no qual o governo entra com a mata e recebe royalties pelo manejo florestal, que deve seguir critérios ambientais.

Oito empresas se inscreveram para disputar a concessão de 90 mil hectares da Flona.

Congresso Nacional
Os envelopes seriam abertos na semana que vem, mas o processo foi interrompido por decisão da desembargadora Selene Maria de Almeida, do Tribunal Regional Federal.

Ela determinou que o processo seja suspenso até que o SFB obtenha autorização do Congresso para conceder a área. No entendimento de Almeida, as concessões florestais equivalem à concessão de terras públicas. E, para este caso, a Constituição determina que toda transferência de domínio acima de 2.500 hectares seja autorizada pelo parlamento.

O governo acha que não. Quando sancionou a Lei de Florestas Públicas, em 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o artigo que fazia essa exigência. "Floresta pública é diferente de terra pública", diz Azevedo. "Nós não estamos concedendo a terra, mas sim o direito de manejar a floresta que está sobre aquela terra. O acesso à área continuará garantido a qualquer cidadão."

Segundo Azevedo, outros tipos de concessão em terra pública são feitos cotidianamente sem autorização do Congresso. "Teriam de fazer o mesmo com mineração, hidrelétricas e linhas de transmissão", afirma o diretor do serviço florestal. "Imagine se toda mineração em áreas maiores que 2.500 hectares tiver de passar pelo Congresso. O país pára."