sexta-feira, abril 10, 2020

Ampliado, seletivo ou bloqueio total: qual a melhor forma de distanciamento social?

Marina WentzelDe Basiléia (Suíça) 
Para a BBC News Brasil


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A BBC News Brasil solicitou à OPAS que elencasse de forma pragmática 
as condições fundamentais ao relaxamento seguro do isolamento;
 confira que pontos são esses

O relaxamento das medidas de distanciamento social tem dividido governo e especialistas, colocando de um lado aqueles que buscam evitar uma recessão econômica, de outro os que priorizam salvar vidas em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em discurso em rede nacional na noite de quarta-feira (08/04), o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, reconheceu que deve ser "responsabilidade exclusiva" dos governadores determinar a severidade das medidas adotadas, dando uma trégua em uma polêmica explosiva que já se arrastava desde a chegada do vírus ao país.

A declaração é uma concessão após longa queda de braço, que quase resultou na demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e chegou a envolver o Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Na segunda-feira, o Ministério da Saúde chegou a informar que a partir de 13 de abril seria possível fazer Distanciamento Social Seletivo (DSS).

A condição para o relaxamento era que o número de casos confirmados nas cidades não tivesse impactado em mais de 50% da capacidade hospitalar existente antes da epidemia. No dia seguinte, porém, o governo recuou e disse não haver uma data fixa para afrouxar a quarentena.

Uma decisão anterior do STF já confirmou que caberá aos Estados e municípios decidir a intensidade do distanciamento social praticado.

Segundo o Ministério da Saúde, o distanciamento pode ser "seletivo", afetando somente grupos de risco; "ampliado", abarcando toda a população; ou até um "bloqueio total", o que requer um perímetro de controle ao redor das áreas afetadas.

Para compreender qual dessas é a melhor abordagem, a BBC News Brasil solicitou à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) que elencasse de forma pragmática as condições fundamentais para o relaxamento seguro do isolamento. Veja abaixo os pontos a serem observados:

1. Testar a população

 Direito de imagem ANDRE COELHO/GETTY IMAGES Image caption
Amostras de coronavírus em laboratório da UFRJ; testagem ampla
 da população é condição fundamental para monitorar a doença

Conseguir diagnosticar de forma rápida e eficiente como a epidemia está se alastrando em uma região é o primeiro passo para poder delinear uma estratégia de resposta adequada.

Há que se observar localmente o tipo de transmissão que está ocorrendo. Se é "comunitária", onde toda a população fica doente e já não há distinção na origem dos novos contágios; se é "importada", onde os casos vêm de fora; ou se é em "clusters", pontual em determinadas regiões.

Dependendo de quão contida estiver a situação, é possível flexibilizar a quarentena, mas isso somente após a região ter sido mapeada. Testar a população é fundamental nesse sentido.

Realizar muitos testes foi a estratégia adotada pela Coreia do Sul e também vem sendo promovida pela Alemanha. O país europeu realiza na média mais de 350 mil testes por semana. O Brasil inicialmente executava sete mil testes semanalmente, mas tem evoluído para mais de 17 mil.

2. Garantir capacidade do sistema

As medidas de distanciamento social têm por objetivo evitar que o sistema de saúde fique sobrecarregado e chegue ao colapso.

É preciso ter capacidade técnica para acolher um aumento súbito no número de pacientes, caso aconteça uma imprevista segunda onda de contágio.

Um maior contato e mobilidade entre as pessoas só pode ser permitido em localidades onde o pico da epidemia já passou e onde há como absorver um choque de demanda repentina nos serviços de saúde.
A Opas estima que o Brasil como um todo ainda não tenha superado o momento do auge da epidemia e prefere não fazer projeções específicas sobre quando isso deverá ocorrer no país.

A organização avalia que a tendência em todo o continente americano é de aumento no número de mortes nas próximas três a seis semanas.

É necessário que, além de leitos, existam respiradores, equipe médica e material de proteção de uso pessoal. Luvas, máscaras, aventais e óculos não podem faltar.

3. Dar respostas locais

A Opas estima que não há como estabelecer uma solução única para todo o Brasil e reforça o conselho do Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, de que a "abordagem seja sob medida", pois cada localidade está vivendo um momento diferente no ciclo da epidemia.

Esse último ponto foi justamente a questão de divergência entre o presidente, governadores e especialistas em Saúde.

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Há vários componentes e particularidades locais para se
 considerar na hora de decidir 'qual distanciamento' adotar

Polêmica perigosa

Até o pronunciamento na noite de quarta-feira, Bolsonaro dizia que pretendia encerrar as medidas de distanciamento social por decreto. Uma ação da OAB junto ao STF buscou impedir que o presidente decidisse nacionalmente estratégias que precisam ser avaliadas em nível local.

Coube ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes decidir, em caráter liminar (temporário), em favor da autonomia dos Estados e municípios para decretar ordens restritivas durante a pandemia - como suspensão das aulas e fechamento do comércio - ainda que o governo federal adote depois medidas contrárias.

Até o momento, no Brasil, já foram constatados oficialmente 17.857 casos e 941 mortos, uma taxa de letalidade de 5,3%. Na China, país onde a epidemia teve início e que já retorna aos poucos à vida normal, a taxa de letalidade é de 4%, com 83.157 casos e 3.342 óbitos.

União

Em coletiva de imprensa em Genebra na quarta-feira, o diretor-geral da OMS reforçou que os líderes nacionais abandonem as rivalidades para enfrentarem unidos a ameaça em seus países.

Tedros Adhanom alertou que a falta de unidade dentro das nações dá ao vírus maior oportunidade de se propagar e pediu que os líderes se controlem, evitando usar a epidemia como desculpa para inflamar diferenças políticas ou ideológicas.

"Se vocês querem ter mais sacos com corpos dentro, então façam isso (continuem brigando entre si)", disse. "Vamos ter muitos sacos com cadáveres à nossa frente se não nos comportarmos", frisou.

Há poucos dias, a contrariedade entre as opiniões do presidente Bolsonaro e do ministro da Saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta, quase levou à substituição de Mandetta. Um dos cotados para o posto seria o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que advoga o fim da quarentena ampliada.

Além de não estarem alinhados quanto à forma de distanciamento social, o presidente e o ministro também discordam quanto ao uso experimental da substância hidroxicloroquina no tratamento do vírus. Bolsonaro promove a popularização da substância e afirmou isso em rede nacional.

O truncado anúncio do Distanciamento Social Seletivo (DSS) feito pelo Ministério da Saúde na segunda-feira teria sido fruto da negociação política que salvou Mandetta. A flexibilização da quarentena fora uma concessão à ala bolsonarista para que Mandetta permanecesse no cargo.

Quarentena

Distanciamento Social Seletivo (DSS) - Ficam isolados apenas grupos vulneráveis como idosos, obesos, diabéticos e cardiopatas. Pessoas abaixo de 60 anos podem circular livremente, se não apresentarem sintomas da doença.

Distanciamento Social Ampliado (DSA) - Todos os grupos da sociedade devem permanecer reclusos para evitar uma aceleração descontrolada da doença.

Bloqueio Total (Lockdown) - Todos os indivíduos permanecem reclusos e há um perímetro de segurança na região onde foram identificados casos da doença. Não é permitido entrar ou sair da área isolada.

Opinião pública e atitude

A maioria da população brasileira discorda de Bolsonaro e tem se mostrado alarmada com o avanço do vírus, inclusive promovendo panelaços contra o presidente.

Os brasileiros são predominantemente a favor do distanciamento social, segundo pesquisa do instituto Datafolha divulgada nesta semana.

A sondagem revelou que 76% dos 1.511 entrevistados são a favor das restrições, concordando com a recomendação de permanecer em casa para impedir que o coronavírus se espalhe, ainda que isso prejudique a economia.

Já 18% disseram preferir acabar com o distanciamento para estimular a economia e impedir o desemprego, mesmo que isso ajude a espalhar o vírus. Outros 6% não souberam opinar.

Na média 50,7% dos brasileiros estão respeitando o isolamento, segundo dados do índice de Isolamento Social, um projeto organizado pela Universidade de São Paulo e a Federal de Pernambuco.

O levantamento é feito com base em localizações coletadas de celulares. Os dados revelam a proximidade entre os indivíduos. Nos três Estados mais afetados, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, a média de observância à quarentena é de 50,2%, 51,6% e 53,1%, respectivamente.

Questionamento mundial

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Modelos tentam medir o papel de políticas 
de distanciamento social em vidas salvas

A prática de distanciamento permanece controversa apesar de um estudo da Escola de Saúde Pública de Universidade Fudan destacar a medida como estratégia crucial à contenção da epidemia na China.
O levantamento avaliou o distanciamento social nas cidades de Wuhan e Xangai, estimando que o isolamento tenha reduzido entre sete e nove vezes o contato entre indivíduos, desacelerando a curva de contágio.

No Ocidente, a posição política de líderes como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson só mudou após a divulgação das projeções de Neil Ferguson, chefe do programa de modelos matemáticos do Imperial College de Londres.

Ferguson estimou um "tsunami de fatalidades", caso não fosse imposto o distanciamento ampliado. Somente no Reino Unido haveria mais de 250 mil mortes sem as medidas de quarentena. Aplicada a mesma simulação aos Estados Unidos, o número de vítimas passaria de um milhão.

Apesar da guinada de estratégia, a epidemia se alastrou rapidamente no Reino Unido e tanto Johnson quanto o próprio cientista Neil Ferguson foram diagnosticados com covid-19, a doença causada pelo novo vírus.

O primeiro-ministro chegou a ser internado e ficar em terapia intensiva, mas já deixou a UTI e se recupera em um hospital de Londres.

Outros países europeus que levaram a ameaça a sério desde cedo, adotando distanciamento social extremo, já começam agora a retomar aos poucos a vida normal.

República Tcheca, Dinamarca e Áustria anunciaram que pretendem relaxar as restrições nas próximas semanas após uma redução contínua no número de casos. Os países pretendem reabrir as escolas e o comércio a partir do dia 14 de abril. As fronteiras, porém, permanecerão controladas.

Gravidade relativizada

Desde a chegada do vírus ao Brasil, Bolsonaro vinha relativizado a gravidade da doença e rechaçando as recomendações de distanciamento social.

O presidente participou de atos de apoio à sua liderança três semanas atrás, permanecendo em contato direto com seus eleitores. Além disso, divergiu publicamente da abordagem de distanciamento inicialmente recomendada pela OMS.

Em declarações mais polêmicas, o presidente chegou a afirmar que a doença seria apenas uma "gripezinha", ou "resfriadinho" e que a população se mostraria imune a ela, pois "brasileiro pula no esgoto e não acontece nada", opinião que foi refutada por evidências científicas.

Dados do IBGE levantados pela BBC News Brasil mostram que em 2016 o país somou mais de 346,5 mil internações hospitalares por doenças causadas por "saneamento ambiental inadequado".

Na decisão em que proibiu o governo federal de derrubar as medidas dos Estados, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que é necessário superar os "personalismos" e que a cooperação dos três Poderes é um instrumento que as lideranças precisam usar "em defesa do interesse público".

"Onde há rachaduras políticas, religiosas, de ideologia, de grupo, ali o vírus se infiltrará (...) Estamos brincando com o fogo. Peço que tenham unidade nacional acima das divergências", pediu o diretor-geral da OMS a todas as nações.





Mortes por coronavírus no mundo ultrapassam os 100 mil

Redação, 
O Estado de S.Paulo

A Itália é, hoje, o país mais afetado pela doença, com mais de 18 mil mortes. Em seguida, estão os Estados Unidos, com mais de 17 mil. 


  Foto: Stephanie Keith/Getty Images/AFP
Equipe remove corpo de vítima da covid-19 no Brooklyn, em Nova York  

A covid-19, doença causada pelo coronavírus, deixou mais de 100 mil mortos em todo o mundo até esta sexta-feira, 10, segundo levantamento da universidade norte-americana Johns Hopkins. O número de infectados pelo novo coronavírus passou de 1,6 milhão.

Até esta sexta-feira, 10, ao menos 100.376 pessoas morreram em decorrência do coronavírus. 

A Europa é o continente mais afetado, com quase o dobro das vítimas registradas na América, segunda região com mais mortes no mundo. A África é o continente menos afetado pela doença, com menos 500 mortes.

Apesar do velho continente ter sido o mais afetado no mundo até agora, o epicentro da pandemia atravessou o Atlântico nas últimas semanas. Em questão de dias, os Estados Unidos ultrapassaram a Espanha e se tornaram o país com mais mortes pela doença. Apenas em Nova York, mais de 7 mil pessoas morreram.

O recorde diário no país também é assustador: 1.973 pessoas morreram nessa quinta-feira, 9.

As mortes pelo vírus já foram registradas em todos os continentes. Na China, onde o novo coronavírus foi identificado pela primeira vez, no ano passado, as autoridades públicas parecem ter conseguido passar pelo pior, registrando um dia sem nenhuma morte pela doença nessa semana.

Antes disso, porém, medidas severas de confinamento e separação de pessoas foram adotadas, e ainda assim mais de 3.300 pessoas morreram e 81 mil foram infectadas, segundo informações do governo de Pequim.

Se no local onde se iniciou o contágio a situação está sendo controlada, o mesmo não pode se dizer do continente mais afetado. A Europa é, de longe, a parte do mundo mais atingida pelo novo coronavírus até o momento, com os países que registram os maiores índices de mortalidade.

A Itália, por exemplo, é o país mais afetado do mundo, em termo de mortes. A península mediterrânea já superou a marca dos 17 mil mortos, e lidera a estatística global. Mia de mil italianos chegaram a morrer em um único dia em decorrência do covid-19.

Outro país severamente afetado foi a Espanha. Nesta sexta, os espanhóis registraram o menor número diário de mortes, 605, desde o início da quarentena, em 24 de março.

O país ibérico já tem mais de 15 mil mortes, de acordo com dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (CDC). O recorde diário no país foi de 950 falecimentos, registrado em dois de abril.

O lado ocidental da Europa foi o mais afetado pela crise. Além de Espanha e Itália, países como Reino Unido e França também registraram um grande número de mortes. Na França, o número ultrapassou os 12 mil.

No Reino Unido, o patamar ainda é inferior aos 10 mil, mas a doença chegou ao topo do espectro político, com as contaminações do primeiro-ministro, Boris Johnson, e do príncipe Charles.

Na América Latina, o número de mortos é superior a 2 mil. O Brasil encabeça a lista com quase mil mortos. Outros países que sofrem com os efeitos são Equador, com mais de 200 falecimentos, México, 194, e Peru, 138. A região tem mais de 50 mil casos confirmados da doença.

O número, no entanto, representa apenas uma parte dos infectados, pois alguns países contabilizam apenas pacientes que precisaram de internação.


Brasil bate novo recorde e chega 941 mortes por coronavírus

Gilson Garrett Jr.
Exame.com

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta quinta-feira, 9, o número de infectados é de 17.857

(Dado Galdieri/Getty Images)
Letalidade: população idosa corresponde a maior parte dos óbitos. 

Com 141 novas mortes confirmadas por coronavírus (causador da covid-19) em 24 horas, o Brasil tem agora 941 óbitos, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta quinta-feira, 9. O aumento de 18% é um novo recorde desde o primeiro caso registrado no país no fim de fevereiro.

Outro recorde divulgado pelo governo foi o aumento no número de casos chegando a 1.930 confirmados em um dia, o segundo maior até o momento. No Brasil já são 17.857 infectados. A taxa de letalidade é de 5,3%.

Segundo o balanço divulgado, 78% das mortes é de pessoas com mais de 60 anos. E 74% das pessoas que morreram tinham pelo menos uma doença pré-existente, como cardiopatia e diabetes.

Em números absolutos, São Paulo é o estado que registra o maior número de infectados, com 7.480 e 496 mortes. O Rio de Janeiro tem 2.216 infectados e 122 óbitos. O Ceará chegou a 1.425 casos confirmados e 55 mortes.



Dados proporcionais

O Ministério da Saúde apresentou, nesta quinta-feira, os números da pandemia no Brasil levando em conta a população. 

“Nós estamos vendo que nestas regiões há uma proporção maior de casos em relação à população. Isso ajuda o gestor local, o gestor estadual, a entender um pouco melhor a dinâmica dos seus casos. 

Mas vale ressaltar que o número de incidência reflete a disponibilidade de testes para os casos mais leves”, disse o secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira em coletiva nesta quinta.

Se analisar os dados por 100 mil habitantes, Fortaleza é a cidade que está com a situação mais crítica. A capital do Ceará tem 43,9 infectados por 100 mil habitantes. A cidade de São Paulo tem uma taxa de 40,4 por 100 mil habitantes. 

Manaus também está em situação de maior atenção, com 28,1 infectados por 100 mil habitantes. 

Em menos de quatro semanas desde o primeiro caso confirmado de coronavírus, o Amazonas se tornou o estado da região Norte com o maior número de infectados, com 899 pacientes positivos para a covid-19 e 40 óbitos, nos dados de quinta-feira, 9. A situação fez o governo admitir que o sistema de saúde poderia entrar em colapso.

Na quarta-feira, 8, o governador Wilson Lima (PSC) exonerou Tobias e nomeou para o cargo a biomédica paulista Simone Araújo de Oliveira Papaiz, especialista em gestão hospitalar.

Cobiça de governadores a Mandetta influenciou decisão de Bolsonaro

Da redação, Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Avaliação da cúpula militar é que demissão do ministro nesse momento fortaleceria popularidade de governadores que já elogiaram postura de Mandetta

(Adriano Machado/Reuters)
Mandetta: ministro enfrentou dia difícil após Bolsonaro ameaçar demiti-lo 

Sob “fritura” no governo federal, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou na noite desta segunda-feira, 6, que permanece no cargo mas, sem citar diretamente o presidente Jair Bolsonaro, reclamou de críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho à frente da pasta.

Com o desgaste, o passe do ministro passou a ser cobiçado pelos governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), caso deixe o governo federal. “Não posso aceitar que um médico da competência do Mandetta vá pra casa. Se sair, já está nomeado em Goiás”, afirmou Caiado em entrevista recente.

Já Doria, um dos principais adversários políticos do presidente, evita abordar o tema publicamente, mas disse a auxiliares que gostaria de contar com o ministro em seu time. Em entrevista recente ao jornal O Estado de S. Paulo, o tucano defendeu Mandetta e afirmou que a demissão dele seria “um desastre” para o Brasil.

A atuação do titular da pasta no combate ao novo coronavírus no país é elogiada pelos chefes dos Executivos estaduais e conta com o apoio dos comandos do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso, que ontem se manifestaram contra a demissão do ministro.

Popularidade

Os generais que assessoram o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, atuam para apaziguar os ânimos e evitar a demissão de Mandetta. Assim como Bolsonaro, os militares também têm reparos à forma como o ministro se comporta.

Eles consideram que Mandetta tenta capitalizar as ações da pasta. Mas avaliam que uma demissão, neste momento, fortaleceria os governadores que hoje travam uma queda de braço com o presidente.
Pesquisa XP mostrou que cresceu o apoio aos governadores na medida em que a pandemia se alastra pelo país. Os militares do Planalto tentam convencer Bolsonaro dos riscos de um desgaste de sua popularidade.

Para convencer o presidente sobre a permanência do ministro, os militares insistiram que essa é uma guerra que não é boa para ninguém. E alertam para falta de opção.

O ex-ministro Osmar Terra, um dos aliados que mais tiveram acesso a Bolsonaro nos últimos dias e que busca assumir o lugar de Mandetta, foi demitido do Ministério da Cidadania porque não dava resultado. 

Os militares têm consciência que os maiores inimigos são as redes sociais e dezenas de grupos de WhatsApp que alimentam a ira de Bolsonaro.

Os discípulos do escritor Olavo de Carvalho, guru da família do presidente, e o vereador e Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) já demitiram Mandetta em seus posts e passam o dia tentando fazer Bolsonaro usar a caneta. 

Desgaste de Mandetta

Na avaliação de Bolsonaro, o ministro adotou uma postura arrogante diante da crise e deveria ouvi-lo mais. “Algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas”, afirmou o presidente no domingo, ao receber apoiadores no Palácio da Alvorada.

Era uma indireta por Mandetta ter participado de uma “live” da dupla sertaneja Jorge e Mateus, quando voltou a defender o isolamento social, um dos pontos de divergência com o chefe do Executivo.

Outra divergência é em relação ao uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. O ministro, por sua vez, tem pedido cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.
Em mais um sinal de desprestígio de seu ministro da Saúde o presidente voltou a se reunir com médicos ontem para falar sobre o uso do medicamento. “Ciência. Não vamos perder o foco”, repetiu o ministro ontem após se reunir com médicos convidados por Bolsonaro para defender o remédio.


'Invisíveis' são 22 milhões em 24 horas de cadastro para o benefício de R$ 600

Idiana Tomazelli, Eduardo Rodrigues e Emilly Behnke,
 O Estado de S.Paulo

Eles não têm registro de microempreendedor individual, nem contribuem de forma autônoma ao INSS; governo estima de 15 milhões a 20 milhões de trabalhadores nessa situação

BRASÍLIA - Vinte e dois milhões trabalhadores informais se cadastraram nas primeiras 24 horas para receber o auxílio emergencial de R$ 600 que será pago por três meses aos atingidos pela crise do novo coronavírus. O número é um termômetro da corrida em busca de um alívio no bolso num momento em que a necessidade do isolamento social, recomendada por autoridades de saúde, tem feito minguar a renda desses cidadãos. O último balanço divulgado pela Caixa é de 9h30 desta quarta-feira, 8.

A enxurrada de cadastros veio no primeiro dia de funcionamento do site e do aplicativo para o cadastro dos informais que hoje estão completamente fora do radar do governo. Eles não têm registro de microempreendedor individual, nem contribuem de forma autônoma ao INSS. O governo estima que 15 milhões a 20 milhões de trabalhadores estão nessa situação e serão atendidos por esses canais.
Quem fez o cadastro ainda vai ter os dados analisados pelo governo, que cruzará as informações em bancos oficiais para saber se o interessado tem direito ao benefício. Os cadastrados no site ou no aplicativo só devem começar a receber a partir de 14 de abril, segundo calendário divulgado pela Caixa. É possível indicar conta em qualquer banco, mas quem ainda não tem relacionamento bancário receberá o dinheiro numa poupança digital da Caixa e só poderá fazer transações eletrônicas, como transferências e pagamento de contas. Inicialmente, não será possível sacar o dinheiro das poupanças digitais. Um calendário para permitir o resgate em espécie dos valores ainda está sendo elaborado pelo governo.

“As pessoas vão receber o dinheiro na conta e vão poder fazer movimentação. Mas saque terá cronograma. Se num dia só liberarmos 50 milhões para sacar dinheiro ao mesmo tempo, teremos colapso no sistema financeiro”, disse o presidente da Caixa, Pedro Guimarães. “Estamos estudando um escalonamento para recebimento em espécie.”

Até lá, os próprios dirigentes da Caixa avisam que os contemplados poderão fazer transferências gratuitas para contas de familiares ou pessoas próximas – para quem não há impedimento de saque.

Antes de esse grupo de “invisíveis” começar a receber, o governo iniciará os pagamentos aos brasileiros inseridos no Cadastro Único de programas sociais. São cidadãos de baixa renda já registrados na base de dados e que podem ser elegíveis ao benefício. A Dataprev já começou a rodar os cadastros para verificar quem dentro do CadÚnico precisa receber o auxílio, e a concessão será feita de forma automática. Nesse grupo, quem tiver conta na Caixa ou no Banco do Brasil receberá rapidamente. Nos demais casos, haverá a criação da poupança digital, com as mesma limitação inicial para saques em espécie.

O pagamento da segunda parcela também será feito em abril, entre os dias 27 e 30, de acordo com o mês de aniversário. A terceira e última parcela, por sua vez, será paga entre 26 e 29 de maio.

O terceiro grupo, formado por 14 milhões de famílias beneficiárias do Banco do Brasil, vai receber o auxílio emergencial no mesmo calendário do programa, com pagamentos na segunda quinzena de abril, maio e junho.

O economista Marcelo Neri, do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê com preocupação a logística da operação montada pelo governo. Com base em dados do IBGE, ele estima que aproximadamente 5 milhões de trabalhadores por conta própria e outros 5 milhões de trabalhadores sem carteira assinada serão elegíveis ao auxílio, de acordo com os critérios do programa (renda por pessoa de até R$ 522,50, ou renda familiar total até R$ 3.135). Isso sem contar desempregados e pessoas que, mesmo sem direito, vão engrossar a fila de pedidos. “Serão mais de 15 milhões, é uma operação complexa. E o governo já não está conseguindo operar outros cadastros, tem fila no INSS”, diz.

Segundo Neri, outro desafio é a educação financeira. Por um lado, muitas famílias mais humildes podem não estar habituadas aos canais digitais de pagamento e transações financeiras – que serão necessários diante da impossibilidade de sacar os recursos num primeiro momento. Em outra frente, será preciso educar a população sobre a necessidade de planejamento financeiro, avalia o economista. “São três meses de benefício, mas a duração da crise é incerta. O risco é as pessoas se adaptarem aos R$ 600 mensais e, quando voltarem ao valor anterior, sofrerem”, afirma o economista da FGV.

O sociólogo Luis Henrique Paiva, ex-secretário Nacional de Renda de Cidadania e hoje pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), avalia como positivo o uso de plataformas digitais para o cadastro e pagamento do auxílio. “Muitas pessoas podem se inscrever e receber o auxílio sem sair de casa. Mas existe um público informal com baixa escolaridade e pouca ou nenhuma familiaridade com plataformas digitais para o qual alguma alternativa presencial será necessária. Essa alternativa terá que ser pensada de forma organizada, para evitar aglomerações”, alerta.


Saiba como fazer e regularizar o CPF na Receita Federal

Diego Kerber, 
O Estado de S.Paulo

Documento é obrigatório para receber benefícios do governo federal, abrir conta bancária, tirar carteira de trabalho ou passaporte, entre outros

  Foto: Felipe Siqueira/Estadão
Fachada do prédio da Receita Federal, em Santo André, ABC Paulista 

Nesta terça-feira, 7, o governo federal liberou o cadastro do auxílio emergencial para trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEIs), autônomos e desempregados pelo site da Caixa Econômica Federal. No entanto, muitas pessoas, ao realizar o cadastro, receberam como resposta uma caixa de texto, informando que o CPF estava em situação inválida.

O CPF, ou Cadastro de Pessoa Física, é um documento de identificação que tem, como função principal, registrar os contribuintes do Imposto de Renda. O número é obrigatório não só para quem quer receber o auxílio emergencial de R$ 600 ou qualquer outro benefício do governo, mas também para todo cidadão que quiser prestar um concurso público, tirar carteira de trabalho ou passaporte, abrir uma conta no banco, pegar um empréstimo, financiamento ou um cartão de crédito.

Para descobrir se seu CPF está em situação regular antes de tentar o cadastro no site da Caixa Econômica, basta acessar o site da Receita Federal. Também é possível tanto se inscrever no CPF quanto regularizar o documento online. Veja abaixo:

Como fazer inscrição do CPF pela internet

Para criar um número de CPF pela internet, é preciso ter entre 16 e 25 anos e ter Título de Eleitor regularizado. Se já estiver com o documento válido, acesse o site da Receita Federal e preencha o formulário a seguir.

  Foto: Captura de tela/Diego Kerber
Pedido para solicitar criação de CPF pelo site da Receita Federal. 

Preste atenção se todos os campos foram preenchidos corretamente, sem erros de digitação. Isso pode gerar inconsistências em futuros cadastros.


Como regularizar CPF pela internet

O site da Receita Federal também oferece a opção de regularizar um número de CPF que está em situação inválida. Basta acessar este link e preencher o formulário, seguindo as instruções.

  Foto: Captura de tela/Diego Kerber
Pedido de regularização de CPF no site da Receita Federal. 

Lembre-se de verificar a digitação de todos os campos para evitar erros. Ao final do processo, será aberta uma solicitação de regularização, que deve ser resolvida posteriormente com atendimento agendado.


Solicitação por email para moradores de São Paulo

Para os contribuintes de São Paulo, há uma terceira opção para resolver problemas relacionados ao CPF. Quem precisar pedir a inscrição do CPF, alteração de dados, regularização de documento em situação cadastral suspensa ou pesquisar o número do CPF pode enviar um email para atendimentorfb.08@rfb.gov.br. No assunto do email, é preciso informar qual o serviço solicitado e, junto à mensagem, deve-se anexar:

Documento de identificação (RG atualizado ou o RG desatualizado junto com a Certidão de Nascimento ou Casamento; no caso de menores de 16 anos, RG ou Certidão de Nascimento e RG dos pais ou responsáveis, sendo neste último caso também necessário o termo de guarda/tutela);
Título de eleitor, se tiver;
Comprovante de endereço;
Protocolo de atendimento da entidade conveniada (Banco do Brasil, Caixa Econômica ou Correios) ou o protocolo gerado na internet;
Selfie do solicitante ou responsável segurando o documento de identidade aberto, com frente e verso visíveis e legíveis.



Mansueto defende aumentar gastos com saúde e assistência aos trabalhadores

Exame.com
Com informações Agência O Globo

Secretário do Tesouro, no entanto, advertiu que "não se pode cometer o erro de transformar esse aumento de gasto em despesa permanente"

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Coronavírus: Mansueto afirmou que a quarentena
 é necessária para conter o avanço da doença 

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta terça-feira que a pandemia do coronavírus impõe a necessidade de elevação de gastos com saúde e assistência aos trabalhadores e que, nesses esforços, o governo não deve “se preocupar com a economia fiscal.” Mas Mansueto advertiu que “não se pode cometer o erro de transformar esse aumento de gasto em despesa permanente.”

“O desafio de todos nós é não se preocupar com a economia fiscal e gastar com as pessoas, garantindo por exemplo que a saúde dos municípios possa tratar quem precisa. Mas, este ano, é um gasto temporário. O erro que a gente não pode cometer é aumentar o gasto com despesa permanente. Esse erro não devemos cometer. Em especial garantir qualquer recurso para o sistema de saúde-afirmou Mansueto durante o evento “E agora, Brasil?”, organizado pelo GLOBO e pelo Valor Econômico.

O secretário do Tesouro também afirmou outro desafio da crise é proporcionar renda aos trabalhadores que, por causa da pandemia, precisam ficar isolados em casa sem trabalhar. Mansueto disse que a quarentena é necessária e que, diante disso, esses profissionais precisam contar com o Estado.

“É preciso proteger e dar renda a pessoas vulneráveis. Pessoas que não estão podendo trabalhar nesse momento e não por culpa delas. Infelizmente, todos nos tivemos de ficar em casa”, afirmou. “O Brasil tem grande quantidade de trabalhadores na economia informal, e temos que fazer quase que um esforço de guerra para achar essas pessoas. Daí a importância do auxílio emergencial de R$ 600 que foi aprovado”.

Mansueto afirmou que o terceiro desafio da crise é dar suporte ao empresariado para a manutenção dos empregos.

Também participando do debate, a economista e consultora Zeina Latif apontou as divergências internas do governo e a politização do debate sobre a Covid-19 como grande responsável pela demora na adoção de medidas de combate ao novo coronavírus.

“O Ocidente inteiro errou, mas o Brasil errou mais”, criticou.

O evento é uma realização dos jornais O GLOBO e Valor Econômico, o “E agora, Brasil?” tem patrocínio do Sistema Comércio através da CNC, do Sesc, do Senac e de suas Federações.


Governo vai destinar R$ 900 milhões para bancar conta de luz de famílias de baixa renda

Anne Warth, 
O Estado de S.Paulo

Programa Tarifa Social concede descontos escalonados de 10% a 65% na conta de luz de famílias de baixa renda, de acordo com a faixa de consumo

  Foto: Divulgação
A isenção dos pagamentos para a população de baixa renda deve 
custar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão, mais do que o aporte da União. 

BRASÍLIA - Pela primeira vez em cinco anos, o governo vai aportar recursos para bancar a conta de luz da população mais pobre. Após semanas de debates intensos entre técnicos, o Ministério da Economia aceitou destinar R$ 900 milhões ao programa Tarifa Social, que atende 9,4 milhões de famílias, segundo apurou o Estadão/Broadcast. A proposta faz parte das ações de enfrentamento ao avanço do novo coronavírus no País.

Uma Medida Provisória (MP) sobre o tema está em fase final de elaboração e prevê que o Tesouro ajude a pagar a conta de luz das pessoas de baixa renda, por até três meses, desde que o consumo seja de, no máximo, até 220 kWh. A MP passa a vigorar assim que é edita, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias.

A isenção dos pagamentos para a população de baixa renda deve custar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão, mais do que o aporte da União. Por isso, o restante dos recursos deve vir de sobras de recursos de um fundo setorial – a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Portanto, não haverá impacto para os demais consumidores.

Entre as sobras estão cerca de R$ 200 milhões em recursos do Luz Para Todos não utilizados no ano passado, além de obras do programa previstas para 2020 que vão atrasar. A queda no preço dos combustíveis utilizados para abastecer termelétricas da Região Norte – e que também são bancadas pelo fundo setorial – também vai contribuir.

O programa Tarifa Social concede descontos escalonados de 10% a 65% na conta de luz de famílias de baixa renda, de acordo com a faixa de consumo. Neste ano, ele deve custar R$ 2,594 bilhões, que serão arrecadados por meio das tarifas. Mais da metade do universo de famílias atendidas vivem no Nordeste. Mas desde 2015, o Tesouro não aporta recursos no programa, e ele é custeado por meio das pelas contas de luz dos demais consumidores.

Até 2014, os descontos do programa eram bancados pelo governo federal, que transferia recursos do Orçamento para o fundo setorial CDE. Esse fundo, por sua vez, fazia os repasses às distribuidoras de energia. Isso deixou de ocorrer em 2015, devido às dificuldades do governo para cumprir a meta fiscal. Com a aprovação do estado de calamidade, a União ficou dispensada de atingi-la.

Como funciona o programa

O programa Tarifa Social funciona de forma escalonada, como o recolhimento de Imposto de Renda. Exemplo: uma família com consumo mensal de 250 kWh paga os primeiros 30 kWh com 65% de desconto; a faixa entre 31 kWh e 100 kWh com 40% de desconto; a parcela entre 101 kWh e 220 kWh com 10% de desconto; e a parte acima de 220 kWh sem desconto algum.

Para ter direito ao benefício, as famílias devem estar inscritas no Cadastro Único do Ministério da Cidadania e comprovar renda per capita que não exceda 0,5 salário mínimo. Por ano, cada família recebe, em média, R$ 200 de subsídio.

Distribuidoras

Além de apoio às famílias de baixa renda, a medida vai ajudar as distribuidoras de energia, que tem cobrado o governo auxílio ao setor.

Isso porque, ao bancar as despesas em nome das famílias, o Tesouro vai impedir que as concessionárias sofram os efeitos da inadimplência nos pagamentos, caso essas pessoas tenham dificuldades financeiras nos próximos meses. Assim, o dinheiro entra direto no caixa das empresas.

A ajuda às famílias de baixa renda era vista como necessária, já que a Aneel proibiu, por 90 dias, cortes no fornecimento de energia por inadimplência devido à pandemia de covid-19.

A suspensão de cortes foi tomada devido às dificuldades de deslocamento da população, já que mais da metade das pessoas paga as contas em agências bancárias, lotéricas e redes de atendimento das próprias distribuidoras, todas com atendimento reduzido em razão da pandemia.

Apesar disso, a proibição de cortes pode ter, como efeito colateral, um aumento da inadimplência, já que consumidores com dificuldades financeiras podem optar por pagar outras contas, em detrimento das tarifas de energia.

Congresso

Nas últimas semanas, diversos parlamentares começaram a se movimentar para apresentar propostas que aumentem a cobertura do programa Tarifa Social. Presidente da Comissão de Infraestrutura, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) propôs que os gastos fossem bancados com recursos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), que representam 0,5% da receita operacional líquida das distribuidoras.

A ideia não foi totalmente descartada, Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o governo ainda avalia de que forma pode direcionar esses recursos de P&D para ajudar a pagar despesas do fundo setorial CDE, que banca vários outros subsídios e descontos para grupos específicos.

Mansueto: Tesouro envia ao BNDES dinheiro para financiar a folha de empresas menores

Míriam Leitão
O Globo

O dinheiro do Tesouro Nacional que vai financiar o pagamento da folha em pequenas e médias empresas está indo para o BNDES nesta terça-feira. A informação foi passada pelo secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, durante o evento “E agora, Brasil?”, do GLOBO. Mas as empresas com débito previdenciário não poderão participar. Mansueto lembrou que essa é uma obrigação constitucional.

Uma fonte do setor bancário me contou sobre a demora no repasse dos recursos. Com a chegada do recurso ao BNDES, ele disse que será possível até antecipar a liberação do financiamento para as empresas. É fácil operacionalizar porque o BNDES já disponibiliza suas linhas através dos bancos rotineiramente. No total, o programa vai financiar R$ 40 bilhões, sendo R$ 36 bilhões do Tesouro e R$ 4 bi dos grandes bancos. Foi uma proposta do setor bancário que o presidente do BC aceitou, com a condição de que eles também participassem do risco, colocassem “a pele no jogo” também.

O programa havia sido anunciado no dia 27 de março. Poderão aderir ao Fopas as empresas com faturamento entre R$ 350 mil e R$ 10 milhões por ano, e que se comprometam a não demitir funcionários por quatro meses. A ajuda será feita por dois meses, e os juros serão de 3,75%, o mesmo da taxa básica. Mas uma barreira é que as empresas com débito previdenciário não poderão participar. Mansueto explicou no evento que essa é uma determinação da Constituição. Outras barreiras burocráticas foram até suspensas para permitir a liberação de crédito, mas não será possível mudar a previsão constitucional agora. Nesse momento de emergência, acaba sendo uma barreira para garantir a manutenção de empregos. 


Trabalhador que precisar sacar em dinheiro auxílio de R$ 600 terá de aguardar calendário da Caixa

Laís Lis, 
Portal G1 — Brasília

Quem receber o recurso pela conta digital criada pela Caixa Econômica Federal não poderá sacar o dinheiro de imediato, mas poderá fazer transferência para outras contas e pagar contas.


Governo detalha como será o pagamento do auxílio emergencial

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, afirmou nesta terça-feira (7) que os trabalhadores informais que necessitarem sacar em dinheiro o auxílio emergencial de três parcelas de R$ 600 – criado em razão da crise econômica motivada pela pandemia de coronavírus – terá de aguardar um calendário de saques a ser divulgado pela Caixa.

A Caixa informou que abrirá 30 milhões contas digitais gratuitas para os beneficiados pelo auxílio e que não têm conta bancária atualmente. Essa conta digital vai permitir que os beneficiários façam pagamentos de contas e também transferências gratuitamente.

Quem já tiver conta em outro banco, poderá receber o auxílio por meio dessa conta e não precisa fazer a conta digital da Caixa. Segundo Guimarães, o crédito nessas contas bancárias será feito de forma muito rápida e esse dinheiro estará disponível para as que as pessoas façam transferências e pagamentos online.

Mas, para sacar o dinheiro, será preciso aguardar o calendário. A medida tem como objetivo evitar grandes aglomerações de pessoas em agências da Caixa e em lotéricas.

“Você terá dinheiro na sua conta, poderá fazer DOCs, realizar pagamentos e gastar esse dinheiro. Mas se você quiser sacar esse dinheiro, vamos organizar com calendário. O pagamento existirá, estará na conta, poderão fazer transferências e pagamentos”, disse Guimarães.

Paulo Henrique Angelo, vice-presidente da Caixa para Rede de Varejo, afirmou que a Caixa ainda precisa identificar onde estão as pessoas que vão receber os recursos para poder planejar os saques em dinheiro do benefício.

Segundo Angelo, isso ocorrerá a partir do momento em que o banco receber a base de dados dos beneficiários. O vice-presidente da instituição reforçou, no entanto, que não será possível permitir que milhões de pessoas procurem as agências da Caixa para fazer saques no mesmo dia.

Auxílio não cobrirá dívidas

Durante coletiva de imprensa, Paulo Henrique Angelo, vice-presidente da Caixa para Rede de Varejo, destacou que o dinheiro do auxílio emergencial será protegido de débitos existentes que o beneficiário tiver com qualquer banco.

Segundo Angelo, após um acordo, os bancos concordaram – quando o crédito for depositado em contas de outros bancos, não haverá débito de dívidas existentes com esses bancos, como, por exemplo, alguma dívida com tarifas bancárias ou com o cheque especial.

“Não será debitado nenhum valor de débito existente na conta do brasileiro”, afirmou.

Como funcionará a poupança digital

A conta digital será aberta de forma automática pela Caixa Econômica Federal para todos os cadastrados que não informarem uma conta bancária para receber o auxílio emergencial.

Não haverá cobrança de tarifa de manutenção;
Por 90 dias as pessoas terão direito a três transferências gratuitas por mês, seja por DOC ou por TED;
Transferências gratuitas ilimitadas para contas da Caixa;
Não haverá emissão de cartão físico. A movimentação da conta deve ser feita pela aplicativo Caixa Tem;
Pelo aplicativo será possível ver saldo, extrato, pagar boletos bancários, pagar boletos de água, luz, telefonia, entre outros, e fazer transferências.

Segundo a Caixa, futuramente será disponibilizada dentro do aplicativo Caixa Tem a possibilidade de fazer pagamentos por um cartão de débito digital e também por QR Code. Esses mecanismos, no entanto, ainda não estão disponíveis e serão apresentados em outro momento.
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Calendário de pagamentos

Primeira parcela
Pessoas que estão no Cadastro Único que não recebem Bolsa Família e têm conta no Banco do Brasil ou poupança na Caixa Econômica Federal: quinta-feira (9);
Pessoas que estão no Cadastro Único que não recebem Bolsa Família e não têm conta nesses bancos: até três dias após a Caixa receber a confirmação do cadastro pela Dataprev;
Trabalhadores informais que não estão no Cadastro Único e fizerem o cadastro pelo aplicativo: o pagamento começa em 14 de abril e será feito em três dias úteis após a validação do cadastro pela Dataprev;
Beneficiários do Bolsa Família: últimos dez dias úteis de abril, seguindo o calendário regular do programa

Segunda parcela
Pessoas que estão no Cadastro Único que não recebem Bolsa Família e trabalhadores informais inscritos no programa de auxílio emergencial: entre 27 e 30 de abril
Beneficiários do Bolsa Família: últimos dez dias úteis de maio, seguindo o calendário regular do programa

Terceira parcela
Pessoas que estão no Cadastro Único que não recebem Bolsa Família e trabalhadores informais inscritos no programa de auxílio emergencial: entre 26 e 29 de maio;
Beneficiários do Bolsa Família: últimos dez dias úteis de junho, seguindo o calendário regular do programa.



Governo autoriza saques de R$ 1.045 do FGTS a partir de 15 de junho e extingue PIS-Pasep

Idiana Tomazelli e Luci Ribeiro, 
O Estado de S.Paulo

Expectativa é que 60 milhões de trabalhadores possam sacar os recursos de 15 de junho a 31 de dezembro; R$ 36 bilhões serão injetados na economia

  Foto: Fábio Motta/Estadão 
Para receber o auxílio emergencial de R$ 600, trabalhador
 deve se enquadrar em todos os requisitos. 

O governo federal confirmou no Diário Oficial da União (DOU) uma nova fase de liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Medida Provisória publicada na noite da última terça-feira vai permitir saques de R$ 1.045 por trabalhador. A medida faz parte das ações adotadas para atenuar os efeitos econômicos do novo coronavírus no País e foi antecipada pelo Estadão/Broadcast. Os valores poderão ser retirados a partir de 15 de junho e ficarão disponíveis até 31 de dezembro. 

A Medida Provisória 946/2020, que autoriza os saques, extingue o Fundo PIS-Pasep, instituído por lei complementar em 1975, e transfere o seu patrimônio para o FGTS. De acordo com o texto, o patrimônio acumulado nas contas individuais dos participantes do Fundo PIS-Pasep ficará preservado.

Conforme o Estadão/Broadcast já informou, a nova liberação de recursos do FGTS deve beneficiar cerca de 60 milhões de trabalhadores. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o valor autorizado representa o limite possível de ser liberado nas contas sem comprometer a sustentabilidade do FGTS.

O governo estima uma injeção de aproximadamente R$ 36 bilhões com a nova rodada de saques. A estimativa do governo era obter R$ 20 bilhões do fundo PIS pasep. O dinheiro restante virá do próprio FGTS, que ficou com recursos nao resgatados na última rodada do saque imediato (o prazo para resgatar até R$ 998 terminou em 31 de março).

Os trabalhadores que fizeram opção pelo saque-aniversário (realizado uma vez por ano, sempre de acordo com a data de aniversário do cotista) também terão direito ao novo saque de até R$ 1.045, desde que tenham saldo suficiente para isso em suas contas. A retirada do saque-aniversário em 2020 começa em abril, para os trabalhadores que nasceram em janeiro e fevereiro e já fizeram a opção por essa modalidade. 

De acordo com a MP, o  saque será liberado por trabalhador na seguinte ordem: contas vinculadas relativas a contratos de trabalho extintos, com início pela conta que tiver o menor saldo e, depois, demais contas vinculadas, com início pela conta que tiver o menor saldo. A MP informa que os saques serão efetuados conforme cronograma de atendimento, critérios e forma a serem estabelecidos pela Caixa.

Como em outras vezes, será permitido o crédito automático aos trabalhadores que tiverem conta poupança ou corrente na Caixa, "desde que o trabalhador não se manifeste negativamente". Quem não quiser o depósito automático tem até 30 de agosto para pedir o "desfazimento do crédito", conforme procedimento também a ser definido pela Caixa. A MP determina ainda que a transferência dos valores para outra instituição financeira não poderá acarretar cobrança de tarifa.  

O Fundo PIS/Pasep, que será extinto, era formado por contas individuais e alimentado até 1988 pelas receitas que hoje compõem o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Há mais de 30 anos o Fundo PIS/Pasep não conta mais com arrecadação para essas contas.

É o FAT que hoje paga o abono salarial, e não houve qualquer mudança nesse fundo. O governo até antecipou os pagamentos do abono salarial neste ano como outra medida de enfrentamento da crise. 

Mesmo com a extinção do PIS-Pasep, nada muda a princípio no calendário de pagamentos do abono salarial 2020-2021. No final de março, cerca de R$ 21 bilhões (R$ 4,26 bilhões do Pasep e R$ 16,89 bilhões do PIS), referentes ao calendário 2019-2020 ainda não haviam sido sacados, segundo o Ministério da Economia. O prazo final para saques termina no dia 29 de maio.


Marina Filippe
Exame.com

Segundo pesquisa, a qualidade da resposta de uma marca à crise terá um impacto enorme na propensão de compra de 76% dos brasileiros

(Valter Campanato/Arquivo/Agência Brasil)
Compras no futuro serão afetadas pelo posicionamento atual das marcas 

A pandemia do novo coronavírus tem mudado as estratégias das empresas em relação ao marketing. Neste momento, não basta saber qual produto a empresa vende e onde comprar.

Os consumidores querem mais do que nunca que as marcas tenham propósito, ajudem a comunidade e sejam assertivas em suas comunicações.

Sobre esse tema,  foi realizado o estudo “Confiança nas Marcas e a Pandemia de Coronavírus”, realizado pela agência global de comunicação Edelman, com 12 mil pessoas, em 12 países, inclusive no Brasil.

Para 94% dos brasileiros as marcas devem ofereçam produtos gratuitos ou mais baratos para profissionais da saúde, pessoas de alto risco e aqueles cujos trabalhos foram afetados.

A rede de restaurantes Outback, por exemplo, doou 6.000 ovos de Páscoa para profissionais de saúde. A fabricante de alimentos Linea doou 5.000 unidades dos ovos de chocolate que fabrica para profissionais em hospitais de campanha em São Paulo.

Globalmente, 60% das pessoas têm recorrido as marcas que já confiavam. No Brasil, o índice é de 68%. E 46% dos brasileiros começaram a usar uma nova marca por causa da forma inovadora ou compassiva com que ela tem respondido ao surto do vírus, versus 37% da população global.

Como resultado, a qualidade da resposta de uma marca à crise terá um impacto enorme na propensão de compra de 76% dos brasileiros, assim como as companhias colocam seus lucros acima das pessoas durante a crise perderão a confiança, possivelmente para sempre.

As ações que acontecem agora devem ser lembradas por um longo prazo, e o marketing serve como uma ferramenta que consolida as atitudes da empresa.

Os líderes que tomam decisões que não agradam a população podem sofrer duras consequências em breve. Um exemplo, foi quando a #maderonuncamais se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais após Junior Durski, dono das redes de lanchonetes Madero e Jerônimo ser contra o isolamento social e demitir 600 funcionários.


Bancos não poderão “pegar” auxílio emergencial de contas com dívidas

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

De acordo com ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, auxílio emergencial do governo não poderá ser usado para pagar débitos

 (Chronis Jons/The Image Bank/Getty Images)
Banco: depósito do auxílio poderá ser feito
 em qualquer banco que a pessoa tiver conta

O ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, informou neste terça-feira, 7, que o valor do auxílio emergencial de R$ 600 não poderá sofrer débitos na conta do cidadão.

Segundo o ministro, mesmo que a pessoa tenha débitos pendentes em sua conta, quando o auxílio for transferido não poderá ser usado para pagar esses débitos. “Esse dinheiro fica protegido não paga débitos anteriores”, reforçou Onyx durante coletiva no Palácio do Planalto.

O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, disse ainda que a transferência do auxílio emergencial para bancos privados será gratuita.

As transferências digitais para outros bancos sem custo tem o objetivo de evitar que os cidadãos se desloquem até as agências da Caixa durante a pandemia.

Ele afirmou ainda que mesmo celulares pré-pagos sem créditos conseguirão baixar o aplicativo para o cadastro do benefícios. Além disso, quem se cadastrar após o pagamento da primeira parcela não deixará de receber o auxílio completo com as três parcelas. “Se alguém só entrar na base de dados no dia 15, não significa que perdeu o primeiro valor”, disse.

O auxílio emergencial será repassado por três meses e será pago em dobro para mulheres chefes de família (R$ 1,2 mil). O benefício é direcionado para trabalhadores informais, intermitentes e empreendedores individuais.


Como solicitar

Já está disponível para download o aplicativo para trabalhadores informais se cadastrarem para receber o auxílio emergencial de 600 reais, oferecido pelo governo para combater efeitos econômicos da pandemia do coronavírus.

Para solicitar o benefício, basta acessar o site ou baixar o app Caixa Auxílio Emergencial nos aparelhos com sistema operacional Android e aparelhos com sistema iOS, como iPhones.

O auxílio emergencial é um benefício concedido pelo governo aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados, e tem por objetivo fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do coronavírus. O valor será distribuído durante três meses.

Mas não é todo mundo que precisa fazer o cadastro no app ou site. O aplicativo é destinado a trabalhadores informais que ainda não têm nenhum tipo de cadastro no sistema de programas sociais do governo. Ou seja, não estão cadastrados no Cadastro Único (CadÚnico) e não recebem o Bolsa-Família.

Depois de fazer o cadastro, a pessoa pode acompanhar se vai receber o auxílio emergencial, consultando no próprio site ou app.


'Interventor' da crise, Braga Netto age para evitar dispensa de Mandetta e é alvo de ala ideológica

Tânia Monteiro, 
O Estado de S.Paulo

Ala ideológica do governo e o chamado 'gabinete do ódio' desaprovam o poder concedido aos militares na equipe e, agora, na administração da crise provocada pela pandemia de coronavírus

   Foto: Andre Dusek/Estadão
O general Walter Braga Netto 

BRASÍLIA - Escalado para comandar o comitê de crise e coordenar as ações do governo sobre o coronavírus, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, passou a ser tratado por alguns setores militares como uma espécie de “interventor” do Palácio do Planalto. O general do Exército assumiu a nova tarefa na semana passada, quando passou a mostrar efetivamente a que veio. Após reclamações do  presidente Jair Bolsonaro sobre o protagonismo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Braga Netto não apenas transferiu as entrevistas a respeito da pandemia para o Planalto como foi um dos que convenceram o chefe a não demitir o colega.

Na prática, os militares do governo avaliam que a dispensa de Mandetta, neste momento, fortaleceria governadores que travam uma queda de braço com Bolsonaro, como João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio).

Nesse cenário, o chefe da Casa Civil assumiu sua função de gerente do governo, que atua com escudo para proteger o governo Bolsonaro. “Braga Netto é o homem certo, no lugar certo, na hora certa”, disse ao Estado o vice-presidente, Hamilton Mourão, que vira e mexe é criticado nas redes sociais pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

A ala ideológica do governo e o chamado “gabinete do ódio”, comandado por Carlos, filho “zero dois” do presidente, desaprovam o poder concedido aos militares na equipe e, agora, na administração da crise. Braga Netto, no entanto, diz não se aborrecer com os ataques e continua dando ordens aos colegas, até mesmo em bilhetinhos que passa para ministros durante  entrevistas no Planalto.

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
General Braga Netto passa 'cola' a colegas ministros 

Diante de novo fogo amigo, coube a Mourão sair em defesa do general. “Ele não está enquadrando ninguém, mas apenas fazendo a verdadeira governança. Assim, a Casa Civil passa a atuar como um verdadeiro centro de governo”, resumiu o vice. “Braga Neto está fazendo o que sabemos: colocar ordem na casa, coordenando as ações ministeriais, de modo que haja sinergia, cooperação e, como consequência, os esforços do governo sejam mais eficazes.”

A organização da Casa Civil, segundo Mourão, tem como meta estabelecer “um sistema de comando e controle que permita ao presidente tomar decisões”.

Na semana passada começaram a circular rumores de que Braga Netto seria o nome escolhido por uma Junta Militar para assumir o comando do País, deixando Bolsonaro como “rainha da Inglaterra”, que reina, mas não governa. A versão começou a ganhar força no fim de semana nas redes sociais, a ponto de usuários alterarem o dicionário online colaborativo Wikipédia para apontar o general como o 39º presidente do Brasil - a mudança foi desfeita assim que o site identificou.

A tese da “conspiração” é alimentada por filhos do presidente, que têm Mourão entre seus alvos prediletos. Em entrevista ao Estado, porém, o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas foi enfático: “Ninguém tutela Bolsonaro”.

Freio

Ex-interventor na segurança pública do Rio em 2018, nomeado à época pelo então presidente Michel Temer, Braga Netto é conhecido pelo estilo durão. Nos últimos dias, ele tem tratado de assuntos tão diversos quanto importantes: da ciumeira relacionada aos holofotes sobre Mandetta à infraestrutura do País, passando por discussões econômicas e até por conversas com companhias aéreas para manutenção de voos durante a crise.

A poucos dias de completar dois meses no cargo, Braga Netto ainda está fazendo substituições na Casa Civil, pasta que, antes, era comandada por Onyx Lorenzoni, hoje titular do Ministério da Cidadania. Recentemente, por exemplo, ele nomeou o general Sérgio José Pereira - seu antigo auxiliar na época da intervenção federal, no Rio - para ajudá-lo a fazer a articulação com os demais ministérios.

O núcleo militar do governo considera que, por não ter aspiração política - ao contrário de Onyx, pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul, em 2022 -, Braga Netto imporá rapidamente um freio de arrumação na equipe.

Na pandemia, fábricas se transformam para consertar respiradores e produzir máscaras

Cleide Silva, 
O Estado de S.Paulo

Participam da força-tarefa as automotivas GM, FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai 

  Foto: GM
GM participa da mobilização para consertar respiradores 

Preparada para equipamentos normalmente pesados, alguns sujos de graxa, usados na produção de automóveis, a ala de manutenção da fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, no ABC paulista, passou nos últimos dias por severo processo de higienização e desinfecção para consertar respiradores pulmonares danificados ou sem uso há muito tempo. O trabalho começou na segunda-feira, 30, e as primeiras quatro unidades ficaram prontas dois dias depois e serão devolvidas aos hospitais.

São os primeiros aparelhos que retornam ao mercado em ação que envolve dez empresas que se prontificaram a realizar o serviço, em parceria com o Senai. A entidade calcula que há cerca de 4 mil a 5 mil respiradores inoperantes no País, dos quais 3,6 mil já foram localizados e estão sendo entregues ao grupo para manutenção.

Além da GM, participam da força-tarefa as automotivas FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai, que treina o pessoal para a tarefa e dispõe de 25 pontos para coleta e manutenção de aparelhos.

No caso da GM, o serviço será realizado nas quatro fábricas do grupo em São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e também no campo de provas em Indaiatuba (SP). “Temos 15 engenheiros e técnicos em cada uma das fábricas trabalhando voluntariamente nas linhas de montagem que criamos”, diz Carlos Sakuramoto, gerente de Tecnologia e Inovação da Engenharia de Manufatura da GM. “Queremos fazer as entregas imediatamente para poder salvar mais vidas rapidamente.”

A corrida para ampliar no País a oferta de respiradores (ou ventiladores), vitais para pacientes com dificuldade de respirar após contaminação pelo novo coronavírus, levou empresas de variados setores a juntarem forças para minimizar a falta do equipamento, cuja demanda disparou em quase todo o mundo.

No Brasil há quatro fabricantes oficiais do aparelho, com capacidade para produzir cerca de 2 mil unidades ao mês. Mesmo ampliando a capacidade, as unidades não terão condições de atender toda a demanda que, num cenário otimista feito pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) seria de 40 mil respiradores no País. Num cenário pessimista de avanço da pandemia, sem isolamento social, poderia chegar a 400 mil unidades.

Diante da urgência, a Leistung, que produz equipamentos médico-hospitalares (incluindo respiradores), cedeu sua tecnologia para a empresa de motores elétricos Weg para a produção em sua fábrica de Jaraguá do Sul (SC). A empresa está à procura de fornecedores de componentes e já conseguiu o suficiente para produzir as primeiras 500 unidades. O objetivo, segundo a Weg, é que estejam prontas para entrega na segunda quinzena de maio.

Componente é um dos gargalos

Outro grupo de empresas se dispôs a produzir componentes e sistemas, como a Embraer, em parceria com seus fornecedores. Boa parte dos itens usados na produção são importados. Sakuramoto, da GM, diz que a empresa também pode produzir moldes e conexões para os ventiladores. Já a FCA Fiat Chrysler colocou suas áreas de Compras, Logística e Engenharia para localizar, no mercado global, fornecedores de peças e componentes para entrega no curto prazo.

“Também estamos procurando um parceiro estratégico internacional produtor de equipamentos para associação com empresa nacional, tendo como objetivo a transferência de tecnologia e a ampliação da capacidade instalada de produção de ventiladores no Brasil”, afirma o presidente da empresa para a América Latina, Antonio Filosa. “Buscamos também fontes de financiamento para investimento de fabricante nacional para ampliar sua capacidade de produção.”

Diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi informa já ter contato com duas empresas nacionais interessadas em ampliar a produção, mas encontram dificuldades no abastecimento de componentes. Já outra empresa que produz ventiladores para uso veterinário vai reconfigurar sua linha de produtos para uso humano.

Grupos empresariais também fazem doações para a aquisição dos equipamentos, que custam  a partir de R$ 15 mil. O banco Itaú, por exemplo, vai doar R$ 8,5 milhões para a compra de 190 respiradores. A KTK, de São Paulo, deve produzir os aparelhos a serem  entregues ao Ministério da Saúde em maio.

Há outras iniciativas nas universidades do País. A Poli informa que desenvolveu um tipo de respirador mecânico de baixo custo (em torno de R$ 1 mil) para necessidades emergenciais. A ideia é oferecer o projeto a empresas autorizadas pela Anvisa que queiram assumir a produção. Pesquisadores da  Universidade Federal do Rio (UFRJ) também trabalham em um equipamento simples e barato para produção em larga escala.

Iniciativa privada também se mobiliza para doar máscaras e protetores

Outra demanda que mobiliza a iniciativa privada é a de protetores (ou escudos) faciais, feitas em acrílico. O grupo Leroy Merlin, que atua no varejo de materiais de construção, iniciou esta semana a produção desses equipamentos para serem doados a profissionais da saúde que atuam diretamente com pacientes infectados. Em parceria com o Movimento Brasil Contra o Vírus, o objetivo inicial é fabricar 12 mil peças ao longo dos próximos três meses.

  Foto: ALEX SILVA/ESTADAO
Leroy Merlin está produzindo protetores faciais 

 “Se for necessário, poderemos produzir mais”, diz Rodrigo Spillere, gerente de Inovação da Leroy Merlin. Ele conta que a sala onde antes eram feitos projetos de bricolagem na unidade da Marginal do Tietê, em São Paulo, foi isolada e passou por processo de higienização.  Segundo ele, são utilizadas cinco impressoras 3D, com as quais são produzidas 50 máscaras ao dia. “Se uma técnica que estamos testando for aprovada, de uso de uma cortadora a laser, a capacidade pode subir para 2 mil ao dia”, informa Spillere.

  Foto: ALEX SILVA/ESTADAO
Leroy Merlin está produzindo protetores faciais 

No Rio, a PSA Peugeot Citroën usa suas impressoras 3D para produzir protetores faciais, em parceria com a Federação das Indústrias (Firjan). A FCA é outra montadora que vai fabricar cerca de 2 mil peças a serem doadas a serviços de saúde de Minas e Pernambuco.

A Esmaltec, do ramo de eletrodomésticos, se propôs a produzir componentes para a produção de cerca de 30 mil escudos, em iniciativa com o Senai do Ceará.