terça-feira, novembro 10, 2009

NESTA EDIÇÃO:

* Dando razão às críticas...
*** Adelson Elias Vasconcellos
* A decisão asquerosa da UNIBAN...
*** Adelson Elias Vasconcellos
* Geisy, a revogação da expulsão, o linchamento da língua, o crime e o decoro
*** Reinaldo Azevedo, Veja online
* A expulsão do vestido curto risca a fronteira que separa o país moderno do Brasil das cavernas
*** Augusto Nunes, Veja online
* Brasil ocupa a 98ª posição no Índice de Qualidade Institucional 2009
*** Adelson Elias Vasconcellos
* Accountability não é contabilidade
*** Lucia Hippolito, O Globo
* 'Defino cenário como superpresidencialismo'
*** Gabriel Manzano Filho, de O Estado De S. Paulo
* Visita incômoda
*** Editorial, Folha de S. Paulo
* Dólares, reais e uísque
*** Revista Veja
* A ética dos incomuns
*** Diego Escosteguy , VEJA
* Lula, lulismo e sucessão
*** Ruy Fabiano, Blog do Noblat
* Felizes trópicos! Felizes tempos!
*** Gaudêncio Torquato, Estadão
* O calote confirmado
*** Estadão
* Investigados patrocinam encontro da Polícia Federal
*** Folha De S.Paulo
* O Vampiro Argentino
*** Percival Puggina, Jornal Zero Hora (RS

Dando razão às críticas...

Adelson Elias Vasconcellos

Publicamos aqui o artigo do ex-presidente Fernando Henrique, cuja repercussão está fazendo muita gente parar para pensar. De fato, o artigo, quando visto sob o ângulo da nossa realidade política, não deixa dúvidas quanto a sua correção. Em momento algum, ao longo do texto, o ex-presidente atacou a pessoa de quem quer que seja, jamais foi ofensivo, ao contrário, por exemplo, do cantor e compositor Caetano Velloso, que chegou ao extremo de ser, no mínimo, deselegante com o senhor Lula.

Evidente que era de se esperar alguma forma de reação de Lula. E ela veio da forma mais estúpida possível. Aliás, Lula, desde que assumiu, faz uma força danada para desqualificar o governo que abriu o Brasil para modernidade. E tanto que Lula, em muitos pontos, não apenas deu continuidade ao que encontrou,  mas até chegou a copiar inúmeros programas, mudando-lhes apenas o nome, para aparecer na foto como o pai da criança. Só não conseguiu até agora mudar o DNA do verdadeiro projeto de país, coisa que a própria história, cedo ou tarde, há de fazer justiça e reconhecer de quem são os verdadeiros méritos do crescimento brasileiro nos últimos 15 anos... Principalmente no terreno do desenvolvimento social, coisa que Lula bate no peito e grita "eu sou o pai dos pobres"...

Mas Lula não se conteve em ser um copista, de má qualidade acrescente-se. Em momento algum, se ouviu do petista uma referência elogiosa ou respeitosa pelo país que encontrou. Já disse aqui em outras tantas vezes mas vale repetir: Lula e Dilma tentam criar um clima plebiscitário para 2010, querendo que se compare o seu governo com o de FHC. Esta vigarice não tem razão de ser, por uma simples razão: o correto seria comparar o Brasil que FHC recebeu e entregou para Lula. Somente a partir daí seria possível avaliar os dois períodos . E mais: que se compare a realidade mundial que FHC viveu com a de Lula. E vamos ver quem, na verdade, teve maiores obstáculos e os superou. Quem fez mais com menos!

Sempre que se refere a Fernando Henrique, Lula é ofensivo, jocoso, maldoso e mentiroso. Sem falar da injustiça que comete contra quem lhe entregou um país ajustado, encaminhado, com projetos bem definidos e elaborados. Porém, e sempre que algo sai errado com seus programas eleitoreiros, invariavelmente, Lula joga a culpa no antecessor, como se o país tivesse tido, desde 1500, um único presidente antes de Lula...Não esquecendo de que ele próprio já  está no poder há mais de seis anos...

Em outras tantas vezes, ao se referir a projeto de país, seu elogio se molda em Ernesto Geisel, esquecendo-se de ter sido ele um dos ditadores militares...

E, eventualmente, sobra um elogio para Juscelino, nome que ao citar, Lula precisaria dobrar e limpar a língua, além de desinfetar a boca...

Porém, desta vez Lula não apenas avançou o sinal, como também deu um pontapé na História tecendo uma indecente comparação com Hitler, como se o autoritário não fosse ele mesmo...

Quem assistiu aos noticiários de tevê ou mesmo ao vídeo que corre na internet de seu discurso, fica sem saber a razão de tanta fúria. E, por favor, não se tente entender de onde brota tanto ódio não apenas contra Fernando Henrique, mas contra quem quer que se aventure em lhe dirigir alguma forma de crítica. Lula é aquilo ali mesmo que se vê, o resto é maquiagem de marketeiro político e publicidade enganosa...

Agora, retornem ao texto do ex-presidente e vejam se ele não está absolutamente certo em falar de “autoritarismo popular”, ao se referir ao governo atual...

Ainda sobre o discurso cretino de Lula, percebam: ele tenta “adivinhar” tanto o pensamento quanto o sentimento do ex-presidente, além de tentar desqualificar a pessoa de FHC. Em momento algum se percebe alguma defesa em relação aos pontos abordados no artigo de Fernando Henrique. E o faz da pior maneira, descendo ao nível mais baixo possível. Bem agiu o ex-presidente que, em resposta aos ataques imbecis, preferiu dar a discussão por encerrada. Não iria desder ao nível proposto por Lula...

Fico imaginando que fantasmas povoam a mente de Lula para destilar tanto ódio e tanto ressentimento, e sempre de forma tão agressiva e maldosa, contra quem lhe critica. Será que ele se considera tão infalível?

Que seu governo raie pelos desvãos do processo de aniquilamento das instituições mais representativas da nossa democracia, até entendo. Trata-se de um método em plena realização não apenas no Brasil mas em toda a América Latina. Método este, por sinal, muito bem exposto não apenas por Fernando Henrique, também por todos quantos se preocupam com o processo de deterioração que o continento vem sofrendo.

O que não se pode aceitar do atual presidente, por que tal direito não lhe assiste, é a tentativa torpe de ignorar a história do país e redesenhá-la ao sabor de sua  arrogância. Não pode é continuar agredindo quem trabalhou com extrema seriedade para tornar o Brasil um país moderno, melhor, e, depois, vir de forma deprimente, aliar-se ao que existe de pior e mais retrógrado no cenário político do Brasil.

A continuar agindo desta forma, imbecil e vigarista, Lula apenas dá margem a endossar seus críticos que, a bem da verdade, até que o tem poupado muito, considerando sua origem operária e pobre. Contudo, ser semi-instruído, ex-operário de fábrica, ter vindo de família pobre e humilde, não dá a Lula o direito de se portar despido de qualquer noção de caráter, e achar que não possa ser criticado. Não só pode como deve, sempre que assim o fizer por merecer. Ele está na presidência porque assim o quis, foi sua vontade determinada que fez com que o povo lhe desse dois mandatos consecutivos para realizar uma limpeza ética no cenário político do país, como era a bandeira de seu partido na oposição. Contudo, ao invés de cumprir a promessa, suas ações e alianças apenas serviram para deteriorar o quadro geral.

Como também, não lhe compete exibir ao país um troféu internacional que, no fundo, foi patrocinado por empresas estatais... Isto é um monumento à pilantragem !

Juntando este discurso de Lula com as batatadas ditadas, nos últimos dias, por sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, percebe-se, entretanto, um certo desespero da dupla. Apesar do escandaloso e imoral uso da máquina do Estado para uso político eleitoral, apesar da mentira sem pudor e sem limites da propaganda picareta, dona Dilma não consegue dar a partida. Continua despencando tal fruto apodrecido. Tal como o Pac, ela continua empacada...

Assim, deste modo, até a eleição de 2010, e pela amostra do que a dupla tem dado antes do início da campanha propriamente dita, é de se esperar que eles tentem baixar o nível do debate prá ver se cola. É bom que os demais candidatos não se deixem levar por esta baixaria, artimanha que fará bem apenas a um dos lados, aquele que hoje está em baixa.. Para Dilma seria excelente buscar na discussão bestial luzes para sua candiatura.

Está mais do que na hora de Lula refletir sobre as críticas ao seu modo de governar e tratar as pessoas. Ter opinião contrária à sua não motiva ninguém a declarar guerra a inimigos invisíveis. Se for sincero consigo mesmo, perceberá que ele próprio continua dando razão às criticas que tendem a intensificar-se até o final de seu mandato. Porque, rigorosamente, o julgamento de seu período de governo, há de começar agora. Ou será que apenas ele, só ele,  pode atacar e agredir como o fez quando esteve na oposição? E olha que, rigorosamente, ele até agora não teve oposição  nenhuma... Talvez por isto se sinta tão à vontade para espalhar sua apologia à ignorância e, principalmente, à estupidez.

Aliás, não só não teve oposição como continua investindo na deformação dos estudantes brasileiros através de livros didáticos tendenciosos, exames de avaliação com questões de pura manipulação ideológica (voltaremos a este assunto por ser de suma importância), estudos de análise tendenciosa e mistificadora, manipulação e deformação de estatísticas (bem ao estilo dos regimes totalitários), além de programas que tendem a fragmentar a nação brasileira, e discursos que, rigorosamente, mais se prestam ao lixo não reciclável.

Enfim, tenta-se vender um país que não existe, tenta-se passar uma mensagem de esperança num país em que a vida se tornou coisa sem importância. São cinqüenta mil homicídios por ano e trinta mil mortes por acidentes de trânsito. Matamos uma cidade média por ano, dá prá acreditar? E, tudo isso, com um governo  que, em seis anos, criou cinco pomposos planos de segurança pública, cujo resultado final foi a de ter aumentado a insegurança geral da Nação!!!

O senhor Lula, goste ou não, deve receber toda a crítica que merecer, e seu governo deve ser mostrado ao povo brasileiro pela realidade que tem, e não pela propaganda asquerosamente mentirosa que ilustra telas de tevê e revistas multicoloridas. A miséria em nossa volta não pode e não deve ser ignorada. Os avanços pontuais e positivos que tivemos foram muito mais em consequência do que estava instalado no país, do que por obra e graça do que Lula veio a implantar. E acrescente-se a isto a degradação de costumes, o processo de fragilização institucional, o aparelhamento repulsivo do Estado em favor de um partido,  aliada à deterioração dos serviços de um modo geral. Porque acima de qualquer coisa, é isto que fica, é isto que sobra espremendo-se todo o limão azedo destes dois mandatos.

Queira ele ou não, parte da sociedade, que ainda não se deixou idiotizar, e que, por isto mesmo, ainda consegue andar só sobre dois pés,  vai cobrar-lhe pelas responsabilidades de seus atos que, quando cometidos de forma errônea, Lula sempre tentou transferir a responsabilidade a terceiros. Lula não inventou nem descobriu o Brasil, ele apenas o está despedaçando e tornando o que era ruim, em algo muito pior. E, sobre qualquer ângulo que se analise, seu governo é infinitamente medíocre, apesar da propaganda nazi-comunista ... Corrigir as porcarias plantadas, custará muito caro à sociedade, além de precisar consumir mais de uma geração. A herança é maldita demais para um só sucessor tentar desfazer.

Os fatos estão todos aí, muito bem expostos diante de nossos olhos. Basta querer enxergar!

A decisão asquerosa da UNIBAN...

Adelson Elias Vasconcellos


A decisão da UNIBAN em expulsar a jovem Geisy, tanto na forma quanto no conteúdo, é demonstrativo do quanto o país continua ladeira abaixo na escala de valores humanos. Infelizmente.

Em momento algum, aquela entidade teve a decência de comunicar, pessoalmente, a expulsão. Agiu de forma estúpida com um aviso via imprensa,e, depois, com um comunicado imbecil feito por um assessor jurídico. A decisão é algo de mais abjeto que já assisti em quase sessenta anos, muitos dos quais de vida acadêmica. Tristemente, e este não é apenas um único sinal, há muitas evidências país afora, comprovando a tese de quanto o Brasil vai perdendo referência moral e senso de justiça, além de senso crítico.

Não será este o último momento em que a vítima é condenada e seus algozes, canalhamente, são mantidos impunes e até abençoados. Ao menos no Brasil. Caminhamos para um final nada feliz, podem acreditar. Uma vez mais constatamos, tristemente, que o ponto de ruptura de que vimos advertindo desde 2006, segue sua rotina de levar a total falência o senso crítico da sociedade, aniquilando valores e perdendo referências morais. Estamos perdendo noção do que seja civilidade, respeito ao próximo, limites de tolerância. Identificamos,nos mínimos gestos, uma violência brutal, desmedida. E, quanto mais nos tornamos estúpidos e bárbaros, selvagens e violentos, mais a nação se fragmenta.

E nem se venha aqui dizer que tudo isso se dá porque a base da pirâmide esteja mais culta e enriquecida. Nem uma coisa nem outra. A base continua tão analfabeta quanto sempre esteve, e a tal nova classe média, que se calcula ser de 19 milhões de novos componentes nos últimos três anos (?), é um fenômeno de multiplicação vigarista e, sejamos sinceros, de muito mau gosto. Simplesmente, o IPEA, antes um centro de estudo e pesquisa econômica de excelência e que Lula detonou e aparelhou da forma mais sórdida possível, chegou à constatação de que, o cidadão que recebe R$ 465,00/mês, deve ser categorizado como classe média !!!??? E isto feito a partir de estudo em que eles reuniram mais de cem especialistas para esta conclusão aberrante! Santo Deus, nem uma manada de 1,000 jumentos seria capaz de produzir algo tão bestial ! Sobre este estudo (?) ainda falaremos em outro artigo específico.

Portanto, não me surpreende decisões como esta cretinice tomada pela UNIBAN. Ela não é causa de coisa alguma: representa o sintoma mais claro de uma sociedade doente que vê, dia a dia, perderem-se seus valores mais significativos e elevados. É bom que despertemos desta letargia o quanto antes, muito embora, no ponto em que chegamos, já não nutra mais esperanças, não no curto prazo, ao menos. Pressinto que precisaremos mergulhar no lamaçal para aprendermos definitivamente a valorizar coisas básicas como honra, decência, honestidade, respeito, valores e sentimentos que nos tiraram da escuridão selvagem para um mundo melhor e mais justo, mais humano, enfim.

Menos mal que, apesar de tardiamente, a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, afirmou neste domingo que vai cobrar da Uniban explicações sobre a decisão de expulsar a aluna Geisy Arruda, que usou um microvestido e foi hostilizada no dia 22 de outubro. (É incrível que, antes, quando o assunto não atingira os holofotes da mídia e ganhara as manchetes da imprensa mundial, esta gente imunda se manteve distante e omissa, e agora,  as luzes se acenderam, feito mariposas, todas se alvoroçaram... Eta gente medíocre!).

Nilcéa condenou a decisão e disse que a atitude demonstra "absoluta intolerância e discriminação". "Isso é um absurdo. A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente quais são esses padrões."

Segundo a ministra, a ouvidoria da secretaria já havia solicitado à Uniban explicações sobre o caso, inclusive perguntando quais medidas teriam sido tomadas contra os estudantes que hostilizaram a moça.

Como disse, acho que o ministério se manifestou tardiamaente.  Tivesse agido quando o linchamento aconteceu, impediria que os papéis fossem invertidos, como de fato acabou acontecendo, além de exigir a punição dos culpados. A omissão permitiu que o absurdo acontecesse.

Por outro lado, declarou o cidadão Décio Lencioni Machado, assistente jurídico da instituição, que Geisy não foi punida porque no último dia 22 compareceu às aulas usando um vestido curto, curtíssimo. Até porque, segundo ele, "tem menina que usa roupas mais curtas". Ela recebeu a pena máxima porque desrespeitou a "dignidade acadêmica e a moralidade". E complementa com uma imbecilidade do tipo "O foco é a postura, os gestos, o jeito de ela se portar. Ela tinha atitudes insinuantes. (...) Ela extrapolava rebolando na rampa, usando roupas para que os colegas pudessem verificar suas partes íntimas." Pergunto: baseado em que fatos o senhor Décio ou a direção da UNIBAN chegaram a esta conclusão? Tanto quanto se saiba, antes do episódio do vestido, a jovem não sofrera sequer uma repreensão da direção acadêmica. Se seu comportamento era,v amos dizer, ...incoveniente, caberia a direção chamá-la para uma conversa, sempre particular e de forma respeitosa, repreendê-la.  Por que, então, só se notou tal comportamento “inadequado” somente a partir do vestido curto? E as demais colegas, que usam vestidos mais curtos, conforme o tal assessor reconhece, por mais forte razão, não estariam infringindo igualmente, os códigos desta falsa moralidade, uma vez que suas partes “íntimas” ficariam mais visíveis ainda? Se continuarmos a aplicar a lógica e o bom senso, tanto a decisão quanto os motivos alegados que a motivaram não resistem. O recado da UNIBAN não deixa margem à dúvida: se alguém, rebolar e usar vestido curto, o estupro, segundo eles, está liberado, mesmo que a moça diga “não”! Os estupradores serão perdoados e a vítima será queimada no fogo! Mais fundamentalista do que isso, impossível!

E digo mais: se os diretores da UNIBAN estão assim tão preocupados com a moralidade no ambiente interno da universidade, que passem a vigiar os estacionamentos e os cantinhos mais discretos.Provavelmente se depararão com gente fazendo coisa muito pior.

O evento, em toda a sua extensão e desdobramentos, além de chocar as pessoas decentes deste país, envergonha o Brasil como um todo, enquanto sociedade que se pretende civilizada.

EM TEMPO: Este artigo já estava pronto quando nos chegou a informação de que a UNIBAN voltara atrás de sua decisão de expulsar a garota Geisy. E isto só aconteceu após a forte reação contrária da sociedade. Pena que esta mesma sociedade não reaja com a mesma freqüência e veemência em tantos outros momentos. Claro que, nestas horas, dada a repercussão do fato, sempre há canalhas aproveitadores querendo tirar uma casquinha. Infelizmente, o que não faltam no país são patifes e pilantras, principalmente, na classe política. Mas é saudável saber que ainda temos vida inteligente por aqui. Pelo menos uns vinte por cento, se é que vocês me entendem...

Geisy, a revogação da expulsão, o linchamento da língua, o crime e o decoro

Reinaldo Azevedo, Veja online


A notícia nos sites e blogs ontem não deixava dúvida: “O reitor da Universidade Bandeirantes, Heitor Pinto, determinou a revogação da expulsão da estudante de Turismo Geisy Arruda”. Uau! A Uniban, em matéria de revogação de expulsões, vive mesmo num regime presidencialista, não é? Eu diria que ele chega a ser ditatorial, já que a decisão de botar a garota para fora, de punir a vítima, havia sido assumida, ao menos oficialmente, por alguma coisa que deve ser parecida com o que, numa universidade, é um Conselho Universitário. Entendi também que esse “conselho” tem autonomia para gastar uma nota preta para satanizar Geisy em anúncios no jornal e na televisão. Mas a ninguém ali ocorreu, sei lá, pegar o telefone: “Alô, Doutor Pinto, o que o senhor acha disso?” E olhem que o homem não é fraco, não, como veremos.

Até o deputado Vicente Paulo da Silva (SP), o notório Vicentinho, do PT, resolveu dar as caras. É considerado a maior personalidade formada na Uniban — de quem foi garoto-propaganda junto com outro petista, Luiz Marinho, atual prefeito de São Bernardo, cidade em que fica a unidade que protagonizou aquele espetáculo deprimente. Pinto, que já foi vice de Paulo Maluf quando este disputou o governo de São Paulo em 2002, chegou a ser cotado para vice de Vicentinho quando o deputado tentou, sem sucesso, a prefeitura de São Bernardo, em 2004. Depois desistiu. Mas a gente vê que é um homem sem preconceitos.

Eu poderia, digamos, recorrer a Raízes do Brasil par explicar o que acontece no país. Ou a Casa Grande & Senzala. Se recuasse um tanto mais na história de que a obra se ocupa, talvez chegasse a Os Donos do Poder. Mas seria gastar vela boa demais com pessoas muito, como direi?, vivas. Vicentinho anunciou: “Estou agendando uma audiência com o reitor Heitor Pinto. Pedirei que ele revogue essa decisão equivocada. A Uniban não devia ter arrumado essa confusão. Acredito que isso não tenha passado por ele. Deve ter sido uma decisão das instâncias menores”. Vicentinho, em suma, emprestava para seu amigo a desculpa essencial de todo petista: “Eu não sabia”.

Então o reitor não sabia? Pois é… Eu sabia que ele era ligado a alguma entidade que reúne universidades privadas. Descobri que é diretor da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup). Não é possível que alguém ocupado em liderar todo um setor ignore o que se passa dentro da sua casa. Entrei no site da entidade e… Bem, eu me espantei. Muito mesmo.

O primeiro texto que encontrei lá, até salvei um PDF para guardar como curiosidade, dá conta das críticas de Pinto ao IGC, o tal Índice Geral de Curso, elaborado pelo MEC, com base no tal exame do Enade — a prova que poderia ser positiva e que se transformou numa estrovenga patrulheira. Ele critica? Até aí, muito bem. Leiam trechos do que vai no site de uma entidade que reúne nada menos do que universidades:

Para Heitor Pinto Filho, um dos diretores da ANUP, o índice divulgado pelo MEC nesta semana é uma avaliação política. Em entrevista ao Correio Braziliense, o reitor afirmou que o levantamento é mal feito porque, entre outras coisas, não inclui todas as instituições do país.
 
De acordo com a matéria do Correio, o reitor Heitor lamentou a não participação de todas as IES na avaliação, fazendo referência à recusa da USP e da UNICAMP de não se submeterem ao SINAES. “Ou entra todo mundo, ou nenhuma”, afirmou ele.

Na entrevista, o diretor da ANUP também defendeu uma avaliação regionalizada respeitando as características de cada estado. “Um país com a extensão do Brasil não pode ter um índice geral como esse. Temos particularidades”, destacou ele.

Comento
Ai, meu Jesus Cristinho! Não é “mal feito”, e sim “malfeito”, embora este não seja o pior mal feito (sacaram a diferença?) à língua em trecho tão curto. Como explicar isto: “fazendo referência à recusa da USP e da UNICAMP de não se submeterem ao SINAES”. Notem: a USP e a Unicamp não se recusaram a NÃO SE SUBMETER; elas se recusaram a SE SUBMETER.

A Anup leva pau na prova de redação. Também fiquei comovido com a tese de Pinto: a criação do índice regional. Ou estou entendendo errado, ou ele está defendendo que certas regiões do país não podem competir com outras. Deixe-me ver: um curso A na região X poderia ser C na região Y, é isso? Entendo… Alguma chance de a redação analfabeta que está em negrito ser considerada correta em alguma região do país? Não!

O que se passa com a universidade brasileira?

Mas volto lá aos livros. Observem que pouco importam leis, instituições, civilidade, estatuto, o diabo a quatro. Vicentinho se dispôs a resolver a questão na base das relações pessoais, de amizade, de intimidade. Eis aí parte da miséria brasileira — inclusive a moral. Insisto desde o primeiro dia: a questão é mais séria do que parece. Décio Lencioni Machado, aquele senhor da área jurídica e do cabelo duro de gel, o mesmo que concedeu entrevistas acusando Geisy de mostrar “as partes íntimas” para os inocentes e tentados rapazes da Uniban, não se deu por achado. Afirmou que Pinto tomou a decisão “como pessoa física”. Uau! A maior autoridade da Uniban não é um reitor, mas uma “pessoa física”. Vai ver é o entendimento que se tem por lá de “autonomia universitária”. Machado é membro do Conselho Estadual de Educação. Milton Linhares, vice-reitor, é membro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação. Estamos feitos.

Fim do silêncio
O silêncio covarde sobre aquela agressão, que apontei aqui desde o primeiro dia, foi finalmente quebrado. Dada a decisão da universidade de expulsar Geisy, o Ministério da Educação encaminhou pedido de informações para a Uniban; a Secretaria Especial das Mulheres acionou o Ministério Público para investigar crime contra os direitos humanos; partidos políticos, parlamentares, OAB e UNE também se manifestaram. Folgo com a reação, mas não deixo de apontar: vieram tarde. A ocorrência original já era de extrema gravidade. Foi preciso que a humilhação chegasse ao requinte para essa gente acordar.

A revogação da expulsão, ademais, não anula os crimes que se cometeram na Uniban, e seus responsáveis têm de ser identificados e punidos. Se a sindicância serviu para punir a vítima, então sindicância não é, mas farsa. Que a Polícia entre no caso. O Ministério Público, agora acionado, não precisa nem da concordância de Geisy para atuar. Talvez não dê para consertar a língua portuguesa da Anup. Mas se pode tentar consertar a moral torta dos arruaceiros. Por que não com a lei?

Para deixar claro
É evidente que minhas críticas não se estendem a todos os alunos da Uniban. Os que não participaram daquela baixaria não têm por que se sentir atingidos — e seria muito bom, então, que a maioria silenciosa que não aprovou o linchamento moral desse um jeito de se manifestar.

Para concluir, lembro a alguns que quem adota um princípio não se impressiona com interveniências de superfície. O meu, já disse, entende que o apedrejamento e a eleição de bodes expiatórios são praticas que devem ser banidas da convivência civilizada. Pouco se me dá o que Geisy vai fazer depois. Ainda que venha a posar nua, como alguns sugerem — a ilação parece revelar o mesmo preconceito que resultou na ação da turba —, isso não tornaria menos estúpidos os que participaram daquela catarse de misérias. Para pensar a questão no seu limite: a qualidade do cadáver não muda o espírito do homicida contumaz. Reitero: acho indecente especular se ela colaborou ou não com seus algozes.

É evidente que cada situação comporta uma variação de estilos de vestimenta dentro de uma faixa do que é considerado o decoro de um determinado ambiente ou ocasião. Já contei aqui que aluno meu não mascava chiclete ou ficava exibindo pêlo do sovaco quando eu dava aula. Serei o último a acatar o vale-tudo. Nem tudo vale, não, senhores! Mas linchadores e candidatos a estupradores não têm autoridade para falar em decoro.

Na hierarquia da civilização, o criminoso não dá aula de moral ao indecoroso. Essa é boa! Podem espalhar. Pena que não dê tempo de entrar no próximo livro.

PS - Alô, Anup! Hora de cuidar da inculta e bela num site que reúne universidades. Por enquanto, ela vive aí a sua fase sepultura. Que tal ambicionar o esplendor?

A expulsão do vestido curto risca a fronteira que separa o país moderno do Brasil das cavernas

Augusto Nunes, Veja online

O monumento ao primitivismo que começou a ser erguido na noite de 22 de outubro, quando centenas de alunos do campus de São Bernardo protagonizaram a tentativa de linchamento da moça do vestido curto, foi inaugurado com a expulsão de Geisy Arruda e a aprovação, com louvor, dos agressores. A nota divulgada pela direção da Uniban, com o título A educação se faz com atitude e não com complacência, faz sentido nestes tempos estranhos. Num Brasil pelo avesso, o certo virou errado e o errado virou certo.

Como o culpado é inocente, Antonio Palocci pode estuprar a conta do caseiro, o MST pode invadir o que vier pela frente, José Sarney pode continuar engordando o prontuário de matar de inveja um general do PCC. Como o inocente é culpado, Francenildo Costa não pode queixar-se da condenação ao desemprego, os fazendeiros não podem invocar o direito de propriedade nem alegar que as terras são produtivas. Por divulgarem verdades sobre um homem incomum, o Estadão merece censura e merecem pancadas jornalistas que escrevem livros contando um pouco do muitíssimo que fez o dono do Maranhão.

Como o que era já não é, diplomas de universidades estrangeiras agora equivalem a atestados de elitismo. Devem ser transferidos da parede para o porão, antes que os diplomados sejam considerados inimigos do Grande Ignorante e, portanto, da pátria. Falar e escrever direito é coisa de preconceituoso, miudezas desprezíveis para um enviado da Divina Providência. Acumular conhecimentos é feio. Bonito é ser analfabeto. O presidente que subiu na vida sem ter estudado é a prova de que o brasileiro precisa aprender a desaprender, e revogar de vez o refinamento. É da vulgaridade que o povo gosta, é grosseria o que o povo quer.

A minissaia foi inventada em 1960, os trajes das universitárias hoje sessentonas eram bem mais ousados. Mas um microvestido ficou moderno demais, porque o país está avançando para trás. A sindicância interna concluiu que Geisy teve “uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados”.

A sorte é que jovens de boa família estavam lá para defender “os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade” desrespeitados pela moça desvestida de vermelho. “A atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”, descobriu a Uniban.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a Uniban transformou o campus de São Bernardo no muro da boçalidade. A expulsão do vestido curto riscou a fronteira que separa o país moderno do Brasil primitivo. A turma das cavernas está do lado de lá.

Brasil ocupa a 98ª posição no Índice de Qualidade Institucional 2009

Adelson Elias Vasconcellos

Uma vez mais, o Brasil dá provas de, entre o discurso e a propaganda oficiais, e a realidade que vivemos, vai enorme diferença. Há poucos dias, ficamos sabendo que nosso índice de Desenvolvimento Humano é um dos piores do mundo. Estamos na 75° do ranking.

Agora, acaba de ser divulgado outro índice que nos situa nas últimas posições, e que, somado ao nosso IDH, põe por terra toda a mistificação de um governo em que a mentira se tornou um método de ação rotineira.

Organizado pela International Policy Network (IPN-Londres), o Índice avalia oito indicadores: Voz e Prestação; Estado de Direito; Liberdade de Imprensa; Corrupção; Fazendo Negócios; Competitividade; Liberdade Econômica.

O Brasil ocupa a 98ª posição no ranking do Índice de Qualidade Institucional 2009, divulgado nesta sexta-feira pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e o Instituto Liberdade. Em 2008 o Brasil estava em 91º lugar. A Dinamarca aparece em primeiro lugar, seguida pela Suíça. No continente americano o Canadá lidera, seguido dos Estados Unidos. Na América do Sul, o Chile lidera, sendo o 24º no ranking geral.

Existem realidades que são incontestáveis e, por mais que se tente mascará-las, cedo ou tarde, elas acabam vingando. Quando falamos e demonstramos que as instituições democráticas no Brasil, ao longo do governo Lula perderam consistência, quando demonstramos que a liberdade de imprensa ainda é uma conquista a ser obtida, exemplo disto são os 100 dias em que o Estadão permanece amordaçado, afora a perseguição à mídia feita de forma sutil mas permanente, quando exibimos casos em que a liberdade econômica e as dificuldades criadas pelo poder público para se fazer negócios permanecem entravando o pleno desenvolvimento do país, o índice acima, no qual o Brasil desceu sete posições desde a última avaliação feita há um ano, dá bem uma mostra do quão certos estamos ao permanecermos no grupo dos 20% para quem o governo Lula está longe de receber aprovação. E, se adicionarmos aos ingredientes já citados umas pitadas de corrupção que, no governo atual, bateram todos os recordes republicanos, então, de fato, por mais boa vontade que se tenha não é possível bater palmas..

Infelizmente, esta notícia, que deveria servir de base de análise para muitos colunistas e analistas políticos, fica relegada a pequenos destaques na imprensa genuflexa ao poder do Estado. Como já se disse aqui muitas vezes, tanto o Brasil quanto a maioria dos países latinos, que adoram flertar com as esquerda, não fazem por merecer a liberdade de que ainda gozam.

É de esperar, ao menos, que não tenhamos que chegar ao fundo do poço da escuridão do autoritarismo doentio, para aprendermos a lição que insistimos em ignorar.

Accountability não é contabilidade

Lucia Hippolito, O Globo


Nas democracias, o governante presta contas de seus atos à sociedade. O presidente dos Estados Unidos dá entrevistas quinzenais na Casa Branca, tendo que enfrentar perguntas às vezes constrangedoras, muitas vezes duras, mas quase sempre leais. Na França, o presidente cumpre o mesmo ritual.

Nos países parlamentaristas, além das entrevistas periódicas, o primeiro-ministro vai semanalmente ao Parlamento, onde é “premiado” com uma saraivada de críticas da oposição, ouve discursos fortes, recebe perguntas sobre seus atos e pedidos de explicação sobre atos de governo.

Tudo dentro da mais perfeita normalidade democrática.

Nos Estados Unidos, secretários e titulares de agências do governo comparecem rotineiramente às comissões da Casa dos Representantes e do Senado para responder a perguntas e prestar contas das ações dos órgãos sob sua responsabilidade.

Nos países parlamentaristas, então, nem se fala. Como os ministros saem, praticamente todos, do Parlamento, têm que prestar constas à sociedade, através de seus pares.

O que sustenta este procedimento é a accountability, palavra ainda intraduzível em todo o seu conteúdo.

Accountability contém a idéia de que a autoridade é um servidor público. Eleito ou não, tem que prestar contas de seus atos à sociedade. Ou através de periódicas entrevistas coletivas, ou através de periódicas visitas ao Parlamento. Ou ambas.

Autoridades são remuneradas pelo povo. Muitas dormem em palácios pagos com o dinheiro do povo, locomovem-se em automóveis e aviões pagos pelo povo, movidos a combustível pago pelo povo. Alimentam-se às custas do povo.

Devem, pois, satisfação de seus atos.

No Brasil, disseminou-se – e não é de hoje – a noção de que autoridades não precisam prestar contas à sociedade. Sentem-se como se tivessem recebido do eleitorado um cheque em branco. Tudo podem, nada devem.

Ministros “fazem o favor” de comparecer às comissões da Câmara e do Senado para prestar contas sobre sua pasta.

O comparecimento de agentes do governo ao Congresso transforma-se em batalha campal entre oposição e situação. Oposição querendo extrair o fígado da autoridade, situação prestando-se aos mais ridículos papéis para evitar a saia justa para a Excelência.

Papelão!

Governos brasileiros confundem prestação de contas com publicidade. Gastam fortunas em publicidade paga, como se isto bastasse para justificar seus empregos.

Sinto muito, mas não basta. Accountability não é contabilidade das empresas de publicidade.

Accountability é um dos pilares da democracia. De agentes públicos, o mínimo que se espera é respeito ao dinheiro do contribuinte, que paga seu salário e suas mordomias.

Accountability é menos palanque e mais debate, menos pronunciamentos e mais entrevistas, menos portarias ministeriais e mais comparecimento ao Congresso.

Afinal, se uma autoridade não resiste a uma crítica ou a uma palavra mais dura, talvez esteja no cargo errado.

Como se diz lá no interior de Minas, se não aguenta o calor, que saia da cozinha.

'Defino cenário como superpresidencialismo'

Para Gabriel Manzano Filho, de O Estado De S. Paulo, o historiador Carlos Guilherme Mota, professor titular de História Contemporânea da USP (aposentado) e de História da Cultura na Universidade Mackenzie, concedeu uma entrevista que merece destaque. Para aqueles que se indispuseram contas o artigo do ex-presidente Fernando Henrique, “Para onde vamos?”, onde ele retrata de maneira irreparável nossa realidade política, o professor Carlos Mota como que endossa àquelas críticas.

O registro é oportuno não pelo fato de coincidir sua análise com a do ex-presidente: além de reforçar ela vai mais fundo, e de forma clara, não deixa dúvidas do que passa nas entranhas do poder e do processo canalha com que nossas instituições estão sendo anarquizadas e de como o pensamento crítico nacional está sendo estigmatizado. Vale a leitura e, principalmente, a reflexão se é este país que realmente queremos.

Segue o texto:

Para o estudioso, descolamento de Lula do PT foi ruim para a consolidação de uma cultura de partidos no País

O que se vê no Brasil, hoje, é um "superpresidencialismo desbussolado e pitoresco", em que se produz "a montagem de um novo bloco de poder". Talvez não seja um subperonismo, como alertou no domingo passado, em artigo no Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - mas algo pior. "Porque o populismo de Perón politizava, enquanto o pobrismo do Brasil avilta."

A comparação é do historiador Carlos Guilherme Mota, professor titular de História Contemporânea da USP (aposentado) e de História da Cultura na Universidade Mackenzie, para quem Lula pratica "uma forma cordial, mas matreira, de evitar a implantação de uma moderna sociedade civil".

Respondendo ao "para onde vamos" de FHC, Mota diz que "há um fenômeno novo, estimulante, de uma nova esquerda liberal, republicana, socializante", aparecendo nos EUA, na União Europeia, no Chile e até no Brasil, com figuras como Barack Obama, Michelle Bachelet, Segolène Royal.

O ex-presidente FHC acertou ao dizer que o governo Lula conduz o Brasil para um subperonismo?
Mota - Não sei se o termo é esse, mas concordo que se trata da crise mais grave desde os anos 80. Prefiro definir o cenário como um superpresidencialismo desbussolado e pitoresco. A nação assiste, bestificada, à montagem de um novo bloco de poder. O tratamento dado ao segmento social que o governo entende por povo tem algo em comum com o dos descamisados de Evita e de Perón, mas é pior.

No que é pior?
Mota- Porque o populismo de Perón politizava e o pobrismo daqui avilta. O assistencialismo brasileiro é deprimente, pois trata esses condenados da terra como fracassados. E as condições de melhoria social - tão sonhada e ensinada por figuras como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes - são pífias. Aqui o capitalismo andou para um lado e a política social andou para outro. Basta ver que o governo não consegue encaminhar a questão dos sem-terra, por exemplo. Mas há, de fato, uma semelhança até física de um certo tipo de "neossindicalista" brasileiro de hoje com aqueles pelegos dos tempos de Getúlio Vargas, Perón, Ademar de Barros...

Como Perón nos anos 50 e nos 70, Lula tem uma enorme aprovação para si e para seu governo.
Mota - Ele consegue isso porque põe em marcha uma mobilização autoritária em que aplica, magistral e perversamente, a velha metodologia da conciliação. O autoritarismo popular ao qual FHC se referiu, praticado por Lula, é uma forma cordial, mas matreira, de se evitar a implantação democrática de uma moderna sociedade civil. Com valores e regras respeitados, que valorize a formação da cidadania.

O governo não caminha nessa direção?
Mota - Os indicadores vão bem, mas a sociedade vai mal. E o poder é algo muito tentador quando os indicadores se tornam favoráveis. O governo Lula vem instaurando o que um de seus ministros, Franklin Martins, denominava "lambança". O Brasil assiste atônito a uma guerra civil nos grandes centros urbanos e a outra, menos estridente, no campo. O presidente chegou a declarar na semana passada que não sabe como equacionar o problema do narcotráfico. À semelhança da Argentina de Perón, existe aqui o assalto às estatais, que desviou o PT de seu papel histórico de criador de um trabalhismo moderno.

FHC não poupou grupo nenhum, nem o PSDB, ao afirmar que "os partidos estão desmoralizados". Por que as oposições não conseguem fazer nada?
Mota - A sociedade brasileira, que vinha se politizando até o final do primeiro governo Lula, perdeu o pique com o aviltamento dos partidos, sobretudo o PSDB na oposição, depois da opaca atuação do ex-candidato a presidente Geraldo Alckmin e das sucessivas indecisões dos pré-candidatos. O descolamento de Lula do seu partido não foi nada educativo para a consolidação de uma cultura de partidos no País.

Há um esvaziamento dos oposições que não acontece apenas no Brasil.
Mota- Esse esvaziamento dos partidos de esquerda é um fenômeno mais amplo. Faltam lideranças firmes, falta transparência nas negociações do interesse público. A quebra de confiança nos políticos é geral. Isso resulta, em grande parte, de uma reorganização da ordem mundial, mas, sobretudo, de uma brutal concentração de poder do Estado, por toda parte. Esse fenômeno dá força a Lula para um percurso despolitizante, em que a cada semana se anuncia uma novidade, desde o biodiesel ao pré-sal, à Olimpíada... O PAC e os discursos grandiosos do presidente lembram um pouco os projetos de impacto de Ernesto Geisel. Mas os projetos militares ainda deixaram o País mais estruturado. Lula está deixando pencas de aspones pendurados em altos salários nas estatais.

Por isso o debate direita-esquerda perdeu importância?
Mota - A direita se modernizou, a globalização a beneficia com o avanço das novas tecnologias e formas de dominação turbinadas pela cultura digital. Esta acelerou a vida econômico-financeira num ritmo que pulveriza as iniciativas da velha esquerda.

Repetindo FHC, para onde o País vai?
Mota - O Brasil duplicou sua população em 40 anos, mas a elite dirigente não se planejou nem criou mecanismos para um crescimento tão desafiador. Não tivemos uma revolução burguesa criativa, como a de outros momentos da História, mas sim uma burguesia em geral predadora, associada a interesses do capital internacional. Mas a crise de agora é mais profunda. Ela vem fazendo com que algumas lideranças se deem conta de que, em uma sociedade de massas, e com a pesada herança de uma mentalidade escravista-bragantina, só pode esperar um desastre. Que virá mais cedo ou mais tarde, e em algumas cidades já começou. Falta um estadista de pulso para, nesse contexto de guerra civil disfarçada, mobilizar a Nação.

Perdeu-se, ao que parece, o caminho para uma social-democracia. Como recuperá-lo?
Mota - O que falta a partidos social-democratas, como PSDB e PPS imaginam ser, um conteúdo programático e uma liderança - coisa que FHC cobrou com ênfase. Mas há lideranças surgindo, novas gerações de professores, juízes, promotores, pesquisadores, militares, profissionais liberais com boa formação e visão moderna do País.

Como a política detesta o vácuo, vai aparecer alguma coisa no lugar?
Mota - Acredito que sim. Há um fenômeno novo, muito estimulante, de uma nova esquerda liberal, republicana, bem formada e socializante. Ela vem aparecendo nos EUA, na União Europeia, no Chile, aqui mesmo no Brasil - onde é menos visível porque, neste momento, Lula ofusca tudo. Obama, Michelle Bachelet no Chile, Segolène Royal na França, são algumas pontas desse iceberg.

Visita incômoda

Editorial, Folha de S. Paulo

Se tudo correr como previsto, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, desembarca no próximo dia 23 em Brasília, onde se encontrará com o presidente Lula. A viagem estava marcada para o mês de maio, mas foi cancelada pouco antes da controvertida apuração eleitoral iraniana, que o reconduziu ao cargo.

Como se sabe, entre as ideias fixas de Ahmadinejad figuram a negação da existência do Holocausto e a intenção de suprimir do mapa o Estado judeu.

Para tornar o quadro mais delicado, as investidas retóricas do presidente ocorrem em meio a suspeitas de que seu país prepara-se para construir uma bomba nuclear.

O Brasil deve ser objetivo e pragmático nas relações econômicas com o país persa, nação dependente da produção petrolífera, que importa produtos os mais variados. De cada US$ 100 transacionados com o Irã no ano passado, US$ 99 corresponderam a exportações brasileiras.

O incremento dessas relações não deve servir, no entanto, de justificativa para o presidente Lula desconversar diante das posições belicosas e delirantes de Ahmadinejad. A sociedade brasileira se funda na tolerância e aprendeu a valorizar a democracia, o que precisa ser levado em conta pelos governantes.

Não se trata de criar atmosfera de confronto com o visitante, o que seria inapropriado. Mas, nas oportunidades e nos termos adequados, críticas aos disparates defendidos pelo convidado não devem deixar de ser feitas.

Os conselheiros do presidente Lula para assuntos externos têm se revelado exageradamente generosos com personagens sombrios da política internacional. Basta lembrar que recentemente, na Venezuela, Lula confraternizou com ditadores homicidas do continente africano, como Robert Mugabe, do Zimbábue, e Muammar Gaddafi, da Líbia.

Dólares, reais e uísque

Revista Veja

Luludi/Ag. Luz,

PORRE COM DINHEIRO ALHEIO

Poleto, o homem dos dólares de Cuba, é indenizado

Comissão de Anistia, órgão subordinado ao Ministério da Justiça, foi criada há oito anos para tentar reparar os abusos perpetrados durante os 21 anos do regime militar. Desde então, já concedeu cerca de 30 000 indenizações, a um custo que ultrapassa os 4 bilhões de reais. É justo compensar pessoas que perderam o emprego ou tiveram a vida devassada por perseguição política de um estado ditatorial. As concessões sem critério, porém, estão desvirtuando a nobreza do propósito inicial. Na mamata do que está sendo chamado de Bolsa Ditadura, pegaram carona "perseguidos" de todos os tipos. Na semana passada, mais uma figura curiosa embarcou no trem. O economista Vladimir Poleto - aquele que admitiu ter transportado 1,4 milhão de dólares de Cuba, em 2002, para robustecer o cofre da campanha do presidente Lula, e que, em seguida, tentou anistiar a própria confissão alegando estar embriagado - também ganhou direito ao seu quinhão. Ex-assessor do ex-ministro Antonio Palocci, o economista revelou que apanhou o dinheiro clandestino de um funcionário da Embaixada de Cuba em Brasília, acondicionou-o em caixas de uísque e rum e transportou-o num avião Seneca para São Paulo, onde funcionava o comitê financeiro da campanha.

A indenização a Poleto é uma das mais esdrúxulas já concedidas pelo governo. No início do regime militar, o economista tinha 8 anos de idade. No fim, estava com 29. De acordo com a ata do julgamento que lhe concedeu indenização, Poleto sofreu perseguição no período de 7 de dezembro de 1984 a 14 de janeiro de 1985. No calendário do governo, 39 dias de perseguição viraram um ano. Mas que tipo de perseguição, afinal, teria sofrido Poleto? Ele argumentou que foi "obrigado" a pedir demissão do Banco do Brasil no fim de 1986, quando os generais já estavam de pijama havia mais de um ano, por ter liderado uma greve. Queria, por isso, receber uma pensão mensal vitalícia de 2 600 reais. A Comissão de Anistia entendeu que Poleto foi perseguido com base em um documento no qual é apontado como "concitador de movimento subversivo", mas negou-lhe o plano de aposentadoria. O relator do caso, cujo voto favorável à indenização foi acompanhado pelos de outros dois conselheiros, é Egmar Oliveira. Como Poleto, ele é ex-sindicalista. Como Poleto, ele é amigo do ex-caixa de campanha do PT Delúbio Soares. A indenização concedida ao economista com o dinheiro do contribuinte é de 13 950 reais - longe do que Poleto pretendia, mas suficiente para comprar ao menos 200 garrafas do seu uísque preferido. (Alexandre Oltramari)

A ética dos incomuns

Diego Escosteguy , VEJA


O Supremo Tribunal Federal tomou o centro do palco político em Brasília ao dar sinais de que pode punir exemplarmente o uso de caixa dois em campanhas.Os oráculos da política fingem não ter entendido o recado da Justiça

Montagem sobre ilustração de Negreiros.
Fotos de Lula Marques/Folha Imagem, Jamil Bittar/Reuters, Ed Ferreira/AE,
Carlos Pupo/AE e Sergio Dutti/AE



A dona de casa Francisca Gonçalves Lima tem 31 anos, quatro filhos e um teto na cidade de Recanto das Emas, na periferia de Brasília. Ela deve 200 reais de aluguel. Há uma semana, temendo ser despejada, Francisca sofreu um colapso nervoso - e, num ato de atroz desespero, pingou veneno de rato no suco dos filhos. Em seguida, ingeriu a dose restante. Todos, felizmente, sobreviveram. Francisca está internada, sob escolta policial. Francisca é uma cidadã comum. Quando deixar o hospital, será presa. Pela lei de Deus, ela pecou. Pela lei dos homens, ela será punida. Esse é o mundo dos brasileiros sem privilégios. A 30 quilômetros do barraco de Francisca, protegidos pelo confortável manto dos poderes da nação, há uma casta de homens e mulheres que não se submete às mesmas leis e aos mesmos costumes. São os políticos, ou os "incomuns" - aqueles que, como bem explicou o presidente Lula ao defender as ilegalidades cometidas pelo senador José Sarney, "não podem ser tratados como pessoas comuns". Sob o infalível perdão do presidente, eles continuam cometendo toda sorte de transgressões, algumas aparentemente pequenas em dolo, como enganar os idosos com promessas de reajuste de pensão, outras em escala, como a constante tentativa de afrontar as leis vigentes.

Ao contrário dos homens comuns, eles não creem que possam sofrer sanções morais, legais e muito menos políticas. Na Divina Comédia, o poeta Dante Alighieri percorre os círculos do Inferno para conhecer os pecados do mundo. Os gabinetes da Esplanada dos Ministérios oferecem excursão semelhante. Em Brasília, ele descobriria que tudo é permitido. A ilustração que abre esta reportagem, inspirada em uma obra do século XV, foi adaptada para exibir os sete pecados capitais de nossos homens públicos incomuns de nossa capital incomum. Na semana passada, esse sistema cínico, de cuja ética relativa apenas poucos e bons escapam, sofreu um choque de realidade. O Supremo Tribunal Federal (STF) começou o julgamento do chamado "mensalão mineiro", que tem como principal implicado o senador tucano Eduardo Azeredo. Ele é acusado de ter recorrido aos favores financeiros nunca desinteressados do hoje notório Marcos Valério, "o carequinha que fazia chover dinheiro" na expressão memorável do petebista Roberto Jefferson. O ministro Joaquim Barbosa, relator do caso, encontrou indícios suficientes para recomendar a abertura de processo criminal contra o senador.

A decisão do STF, que ainda precisa ser confirmada pelos demais ministros, mostra que, ao contrário do que alguns políticos gostariam, nem tudo está controlado. Joaquim Barbosa, durante o julgamento, chegou a sugerir que o caso do senador tucano fosse analisado simultaneamente com seu similar mais famoso, o mensalão petista - esquema milionário de desvio de recursos públicos idêntico ao dos tucanos, mas ampliado pelo governo Lula para também subornar congressistas. Juridicamente, a ideia parece inexequível, mas sua simples proposição revela a disposição da Justiça em condenar e punir a gênese dos grandes escândalos de corrupção: o caixa dois dos políticos. Apesar dos sinais claros, há gente que ainda insiste em tentar trafegar na contramão. Na semana passada, o presidente do Congresso, o senador José Sarney, demonstrou que ainda não entendeu o recado. Ele decidiu ignorar uma decisão do Supremo, que determinara a cassação do senador Expedito Júnior, do PSDB de Rondônia, por compra de votos. Candidamente, quando o senador Cristovam Buarque subiu o tom e sugeriu que ele fosse preso por dar de ombros à mais alta corte do país, Sarney saiu-se com um gracejo: "Ah, é? Peço que não me levem cigarro na prisão porque não fumo, mas que me confortem". Um dia depois, voltou atrás, não por sua iniciativa, mas por decisão do próprio Expedito Júnior, que retirou um recurso impetrado com o único propósito de protelar seu afastamento. O caso foi resolvido, mas ficou o perigoso rastilho da intenção de afrontar a Justiça.

Pode-se argumentar que a ética sempre esteve, e talvez sempre estará, distante da política - ainda mais no Brasil. A história dá alguma razão a quem pensa assim. Na Grécia antiga, onde floresceu a experiência democrática, já havia severas restrições ao comportamento dos governantes. Na obra A República, o filósofo ateniense Platão comparou a praga dos políticos mal-intencionados a zangões: eles confiscavam os ricos por meio de altos impostos, serviam-se do que podiam e distribuíam os restos às massas.

Celso Junior/AE

MANOBRA
Manifestação de aposentados em Brasília:
 os idosos cobram o que lhes foi prometido e o governo faz de conta que vai atendê-los

O Brasil sempre conviveu com um enxame de gordos zangões, que, desde a redemocratização, assomaram na vida pública do país fazendo muito barulho. O imortal José Sarney, o primeiro presidente depois do período militar, estendeu por um ano o próprio mandato e ainda viu uma CPI no Congresso debruçar-se sobre as mutretas de seu governo. Eram tempos nos quais o então deputado Lula qualificava Sarney de "o maior ladrão da República". Seu substituto, o iracundo Fernando Collor, barbarizou tanto em dois anos de governo que o Congresso o derrubou, por meio de um inédito processo de impeachment. O tucano Fernando Henrique Cardoso, recorrendo à sua base de apoio no Parlamento, mudou a Constituição para poder se reeleger - e foi acusado de comprar votos para isso. O Congresso, o espaço de disputa política por excelência, criou CPIs, descobriu malfeitorias e cassou anões do Orçamento, deputados escroques, parlamentares enrolados com empreiteiras... Tempos em que havia reprimendas. Se não jurídicas, ao menos políticas. Queimava ainda uma réstia de decoro, representada, sobretudo, no chuço empunhado com vigor pelo PT, Quixote disposto a atacar os gigantes da política para demonstrar o valor de seus ideais.

Quando Lula e o PT assumiram o governo, logo ficaram amigos dos gigantes. Sobrevieram os pequenos escândalos, como quando a então ministra Benedita da Silva usou dinheiro público para ir rezar na Argentina. Em seguida apareceram escândalos como o do petista Waldomiro Diniz, assessor do ex-deputado José Dirceu, pilhado achacando um bicheiro. Era o prelúdio da mãe de todas as decepções éticas: a insólita odisseia do mensalão. Era inacreditável, mas era verdade: o PT havia comprado, com dinheiro sujo, o apoio de deputados dos partidos aliados. Lula saiu em defesa dos seus, dizendo que o "PT havia feito o que sempre se fez sistematicamente no Brasil". Encontra-se ali o ponto de inflexão na prática política do país, o momento no qual a tradicional cultura do favor e da transgressão na esfera pública perde seu único anteparo. Sobrou somente o trauma - e a ética dos incomuns. Diz o filósofo Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo: "Desde então, a política ficou à deriva. O país ainda não se recuperou da perda do referencial ético simbolizado pelo PT".

Joedson Alves/AE e Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo

SUBORNO E CAIXA DOIS
O ex-ministro José Dirceu, o petista-chefe da quadrilha do mensalão,
e o senador Eduardo Azeredo, o tucano que testou o protótipo da fraude em Minas

O triunfo do cinismo pôs em marcha o declínio inexorável da boa prática política. No Congresso, liberou geral. A Câmara absolveu mensaleiros, cassou outros e alguns destes foram eleitos novamente. Numa prova do profundo abismo que separa a ética dos cidadãos da ética dos incomuns, o deputado José Genoíno, que era presidente do PT na época do mensalão, subiu à tribuna da Câmara na semana passada para discursar contra o projeto que proí-be a candidatura dos políticos ficha-suja (aqueles que têm condenação criminal). Disse Genoíno: "Hoje, você é culpado até que prove a sua inocência". Antes do ocaso da ética na política, um discurso como esse, concorde-se ou não com seu conteúdo, seria impensável. Há abundância de exemplos. No mesmo dia em que Genoí-no perorou na tribuna, a Câmara absolveu dois deputados que vendiam as passagens aéreas de sua cota. Essa ética não é uma abstração. Ela produz efeitos reais e perversos para o cidadão comum. Ainda na semana passada, os aposentados descobriram isso amargamente. O governo se pronunciou a favor do projeto que vincula o reajuste de aposentadorias e pensões ao salário mínimo. Lula incentivou o projeto, mas, como a nova lei traria prejuízos aos cofres públicos, mandou que a base do governo impedisse a aprovação - no que foi docemente obedecido. Jogou para a plateia.

O principal método empregado por Lula para afirmar a ética dos incomuns é sua prolífica língua. Dia sim, outro também, o presidente arenga diretamente às massas, num diálogo sem intermediários que lembra o populismo de Getúlio Vargas. Suas mais recentes investidas deram-se contra a imprensa e o Tribunal de Contas da União. Incomodado com as críticas que recebe nos jornais, Lula afirmou que "o dever da imprensa é informar, não fiscalizar". Engano. O dever da imprensa, numa democracia liberal, é também o de fiscalizar o governo. Na mesma linha, o presidente criticou duramente as auditorias do TCU, que tem determinado a paralisação de obras do governo com evidências de irregularidades. As declarações sugerem que a ética de Lula costuma contrariar o princípio democrático da crítica. Na obra A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, o pensador Karl Popper, um dos maiores teóricos da democracia, escreveu: "Os democratas que não veem a diferença entre uma crítica amigável e uma hostil estão imbuídos de espírito totalitário. O totalitarismo, sem dúvida, não pode considerar qualquer crítica como amigável, uma vez que qualquer crítica de uma autoridade deve desafiar o próprio princípio da autoridade".

Essa nova plataforma ética dos incomuns deve muito ao presidente Lula. Ainda no século XIX, a república brasileira assentou-se sobre o presidencialismo, uma forma de governo que favorece o personalismo dos governantes e a emergência de líderes carismáticos. A tradição autoritária da cultura brasileira conduziu ao modelo político atual, no qual o poder se concentra inteiramente nas mãos do presidente. Diz o filósofo Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas: "Nessas condições, o líder se torna um messias, os políticos próximos a ele tendem a imitar seu comportamento. Assim, ele vira um mito. Qualquer crítica ao líder carismático, portanto, vira blasfêmia". A influência moral de Lula é tamanha que até a oposição mimetiza suas atitudes. Eduardo Azeredo, no decorrer do julgamento, disse que não sabia sobre o esquema - como o presidente fizera no escândalo do mensalão. Quando enfrentar seu julgamento por tentativa de homicídio, Francisca, a cidadã comum que envenenou seus filhos num acesso de loucura, não terá como alegar que não sabia. Ela poderá pegar até trinta anos de prisão. Seus filhos crescerão sem mãe. É assim no mundo das pessoas comuns. (Com reportagem de Otávio Cabral)

Lula, lulismo e sucessão

Ruy Fabiano, Blog do Noblat


Os regimes que se fundam na liderança de uma única pessoa – e dela se tornam dependentes - tendem ao autoritarismo.

A história contemporânea é farta em exemplos: Mussolini, Franco, Salazar, Perón, sem falar em Hugo Chavez.

Fernando Henrique Cardoso citou, em artigo de grande repercussão, publicado há uma semana, que a liderança de Lula expressa essa tendência.

Não é uma liderança doutrinária ou ideológica. É populista, fisiológica e faz do Estado – e, dentro dele, dos bilionários fundos de pensão – o seu instrumento básico de ação política e perpetuação no poder.

Comparou-o a Juan Domingo Perón, o presidente argentino entre 1946 e 1955 e entre 1973 e 1974, que, ainda hoje, inspira a ação de diversos partidos políticos naquele país, inclusive o que presentemente o governa.

Perón, como Lula, tinha forte base sindicalista e seu discurso era nacionalista. Tinha apoio na Igreja Católica e fez de sua liderança personalista, apoiada num discurso populista, de pai dos pobres, o norte de sua política.

A preocupação de FHC é com o Brasil pós-Lula, a dependência que um eventual sucessor por ele eleito ficará de seu aval político e pessoal. O receio de que venha a fundar um peronismo caboclo. Um Vargas mais bem equipado.

A infiltração da nova elite sindical na máquina governamental – o tal aparelhamento que hoje a abrange por completo – não será removida facilmente, mesmo que a oposição venha a eleger o sucessor.

Some-se a isso, a ação, cada vez mais agressiva, dos movimentos sociais – MST à frente – e ter-se-á o panorama que aguarda o futuro presidente. Se for Dilma, o continuísmo manterá as coisas como estão. Se a oposição vencer, será refém do lulismo.

Somente Lula terá interlocução com essas duas vertentes solidamente instaladas no Estado: a nova elite sindical e os movimentos sociais.

Se hoje, com ele pilotando diretamente a máquina, há ruídos, imagine-se sem ele. Sabe-se, por exemplo, que, recentemente, o presidente indispôs-se com o comando do MST, em face da estratégia indiscriminada e mais agressiva das invasões.

A divergência não as deteve, como se nota pelos últimos acontecimentos, mas não estabeleceu nenhum rompimento. O governo continua empenhado em esvaziar a CPI mista do Congresso, em processo de instalação.

Nota-se, porém, que não é um convívio ameno, embora governo e MST sejam parceiros formais.

Imagine-se um eventual governo Serra ou Aécio ou mesmo Ciro, que, embora formalmente alinhados à esquerda – ao menos no discurso –, são considerados estranhos no ninho dos movimentos sociais.

Necessitarão da intermediação de Lula, que continuará, desse modo, a influir diretamente no processo de estabilidade política, como seu fiador.

Isso explica o cuidado de Serra e Aécio em não bater de frente com o presidente. Nem mesmo nos momentos mais cruentos do Mensalão, os dois ousaram afrontar Lula.

Aécio apresenta-se não como o anti-Lula, mas como o pós-Lula, o que é algo bem diferente.

Serra, nem isso. Mantém-se em silêncio obsequioso, exibindo estranha indiferença às pesquisas que o dão como favorito na corrida sucessória. Não basta ganhar as eleições.

É preciso vencê-las sem perder de vista a necessidade de interlocução com o establishment lulista. Lula sai, mas o lulismo fica.

A nova elite sindical aprendeu a manejar a máquina e os recursos bilionários dos fundos de pensão.

Adquiriu autonomia de vôo. É aliada dos movimentos sociais, que frequentemente infringem a lei, sob o olhar complacente dos governantes.

É dentro desse quadro que o futuro presidente governará, seja ele quem for.

Felizes trópicos! Felizes tempos!

Gaudêncio Torquato (*), Estadão

Há 71 anos Claude Lévi-Strauss, embrenhado na densa solidão das matas de Mato Grosso, enfrentando endemias rurais típicas da região, escolheu uma expressão amarga para descrever, anos depois, o "ambiente mais hostil ao homem sobre a superfície do planeta": tristes trópicos. Ao falecer, aos 100 anos, o antropólogo francês, considerado um dos maiores pensadores do século passado, deixa definitivamente impregnado no mapa do Brasil o nome com que batizou seu clássico livro, produto de seis meses de viagem à Serra do Norte, no centro-oeste do País. Os nossos trópicos conseguiram diminuir significativamente a malária, a ancilostomose, o tracoma, a doença de Chagas, a leishmaniose, porém não têm sido capazes de conter a pandemia ética e moral que faz padecer o corpo da Nação, haja vista as intermitentes infrações ao Estado de Direito, o farisaísmo com que se encobrem os ilícitos, usando-se sempre a recorrência de que as "instituições funcionam normalmente" e o rolo compressor de um aparato governativo que bombardeia qualquer reação das oposições e amortece esporádicas vozes críticas.

Tristes trópicos! O ministro Marco Aurélio Mello, com a autoridade de membro do Supremo Tribunal Federal (STF), profere a sentença: "Talvez a quadra seja sinalizadora de fecharmos o Brasil para balanço." Referia-se ele à decisão "mandamental" do STF - de cassar o mandato do senador Expedito Junior (PSDB-RO) e empossar o segundo colocado nas eleições de 2006 - só acatada pelo Senado após forte reação pública, confirmando a verve de Getúlio Vargas nos idos de 30: "A Constituição foi feita para ser violada." Se o Poder Legislativo deixa de cumprir decisão da mais alta instância do Poder Judiciário, como negar crise entre os Poderes, como tem feito o próprio presidente do STF, ministro Gilmar Mendes? Se a desobediência à Lei Maior, ainda mais sob a lupa acurada da mídia, é considerada coisa normal, a conclusão é de que o império da bagunça se implantou solidamente no mais elevado patamar das instituições. E sob a complacência dos integrantes dos Poderes. Não há o que fazer. Resta, apenas, alterar parcialmente o bordão de Stanislaw Ponte Preta, para alegria geral: se não se restaura a moralidade, vamos todos nos locupletar.

A transgressão aos códigos, o despudor, o caradurismo e a leniência são pragas que encontram terreno fértil para germinar no País, a ponto de se indagar sobre a lógica que explica sua propagação, porquanto, em outra vertente, descortina-se um ambiente focado nos eixos da transparência, da racionalidade, do civismo e da promoção da cidadania. Não há contradição entre os dois retratos? Aparentemente, sim. Mas é preciso entender que as cargas renovadas do oxigênio moral que vivifica os pulmões da sociedade são engolfadas por ares poluídos que correm pelos canais da administração pública, como é o caso do chamado valerioduto, objeto de investigação pela Justiça. Ademais, o quadro degenerativo decorre de mudanças que se operam nos dutos do próprio sistema democrático. Nas últimas décadas a democracia baixou de patamar. A democracia atomizada do século 19 foi substituída pelo ciclo das tecnodemocracias, pavimentadas por complexos negociais e quadros burocráticos. Sob essa configuração, as clássicas estruturas de contrapeso - os três Poderes - perderam vitalidade, enquanto a nova tríade do poder (negócios, burocratas e políticos) começou a dar o tom. Na esteira, a política passou a se guiar pelo impulso da economia.

A peça Brasil se encaixa perfeitamente na cartela. O discurso econômico, se já era forte antes, ganha força na era Lula. Domina as agendas do Executivo e do Legislativo, funciona como polo de disputa entre unidades federativas (veja-se a polêmica sobre os projetos do pré-sal), planta obras nos espaços (obreirismo faraônico do PAC) e, por fim, apaga fogueiras que poderiam incendiar o ambiente institucional, como centrais sindicais e movimentos que se esbaldam com recursos das fontes do Estado. O sindicalismo brasileiro hoje é movido à pecúnia. Não por acaso, uma nova oligarquia se instalou no centro do poder. São os filhos do sindicalismo de resultados. E haja resultados! Os fundos de pensão são as estrelas da constelação. Só a Previ dispõe de mais de 200 cargos nas grandes empresas do País. A teia nos intestinos da administração propicia uma simbiose interburocrática, reunindo alas sindicais, correntes partidárias e dirigentes indicados por grupos empresariais. A nova oligarquia, para se preservar, esforça-se para tornar o Estado um ente ativo e cada vez mais forte. Eis a cara do neocapitalismo esboçado pelo governo e que encontra respaldo no grande empresariado, cuja força crítica feneceu ante os benefícios que lhe são concedidos. O programa de redução do IPI (linha branca, automóveis) é um exemplo.

Transparece sob esse pano de fundo a figura de um governismo opressor, que coopta perfis mais refratários e aviva os mais recônditos desejos. O confortável cobertor econômico - alinhavado no passado e aperfeiçoado pelo governo Lula - confere ao presidente poderes nunca d"antes conseguidos por antecessores. E o que faz o chefe? De maneira competente, diga-se, preenche os buracos da pirâmide social com programas para todas as classes. Chovem loas nos arredores do Palácio do Planalto. Não satisfeito, o presidente avança. Costura alianças, convoca siglas para o balcão de benesses e esnoba o poder da crítica, a partir da imprensa, que, no fundo, ganha seu desprezo. Partidos amorfos, oposições flácidas, empresariado cooptado, sindicalismo de gaveta, base econômica sob rígido controle ajudam a compor a conclusão: o Brasil, sob Lula, bate às portas do céu. Nem a língua acesa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com sua cunha sobre o subperonismo lulista (1º/11, A2), tira o sono do comandante da campanha da ministra Dilma.

Felizes trópicos! Felizes tempos! O novo batismo do Brasil deixaria perplexo o grande Lévi-Strauss.

(*) Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação

O calote confirmado

Estadão

A Câmara modificou o projeto de emenda constitucional (PEC) que o Senado aprovou em abril, permitindo a Estados e municípios pagar quando quiserem as dívidas atrasadas com empresas e pessoas físicas, reconhecidas em sentenças judiciais de última instância - os chamados precatórios. Mas a nova versão, aprovada quarta-feira em primeiro turno por 328 deputados, apenas 20 a mais do que o quórum mínimo de 3/5 dos votos exigidos para alterações constitucionais, não é menos indecente do que a original, ao ratificar na sua essência o princípio do calote, promovido a "ferramenta permanente de gestão pública", conforme a avaliação irrefutável da Ordem dos Advogados do Brasil.

Tanto que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que em ambas as votações liderou o lobby de seus pares pela "legitimação do calote", nas palavras do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), deu-se por satisfeito com o desfecho. "O texto aprovado", declarou, "está bastante consensual" - decerto "na ótica dos governantes e não da cidadania", como diz Alencar. A Prefeitura paulistana deve R$ 14 bilhões em precatórios vencidos. No País inteiro, estima-se que o estoque desses débitos já ultrapassa R$ 100 bilhões, ou cerca de 20% das receitas estaduais e municipais. É um escândalo continuado. A Carta de 1988 deu ao poder público oito anos para pagar os seus precatórios, fossem eles alimentares (em geral salários, pensões e aposentadorias), relativos a desapropriações, ou por obras e serviços executados.

Em 2000, o Congresso premiou os inadimplentes com mais 10 anos de prazo. Se a PEC do Calote for definitivamente aprovada nos termos atuais, o prazo será de 15 anos no mínimo - e ilimitado. Limites, só para o cumprimento das decisões judiciais: para todos os efeitos práticos, o desembolso não excederá a 2% das receitas líquidas anuais (no caso dos Estados) ou 1,5% (no dos municípios). As dívidas deixarão de ser corrigidas, como estipula a Constituição, por uma fórmula que combina inflação mais juros de 12% ao ano. Quando a emenda for sancionada, a correção passará a ser feita pela variação da TR mais 0,5% ao mês, como nas cadernetas de poupança. A alteração beneficia os entes devedores. Eles também ficarão livres do risco de bloqueio dos seus recursos em caso de não-pagamento.

Em cada exercício, governadores e prefeitos terão a prerrogativa de saldar metade dos seus débitos por meio de leilões ou "câmaras de conciliação" (sic). Dessas modalidades participarão os credores que aceitem, como último recurso, receber apenas uma fração do que lhes cabe, para não esperar uma eternidade pelos valores a que têm direito líquido e certo. Os outros 50% serão pagos em ordem cronológica - o que a Constituição previa para todos os precatórios -, respeitadas as prioridades para os precatórios de natureza alimentar e, entre esses, para os credores com mais de 60 anos. Para os caloteiros, o melhor dos mundos era o do texto que vingou no Senado. Mas a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara flagrou naquela versão diversas provisões inconstitucionais.

Uma delas previa que 40% dos recursos anuais para a quitação dos débitos seriam destinados a pagamentos de precatórios em ordem crescente. Isso permitiria aos devedores quitar valores menores antes dos outros, modificando, em consequência, a posição dos credores na fila original - uma rematada violência. Em seu lugar foi adotado o esquema de 50%-50% acima referido, que doura a pílula. Outra inovação, acrescida à proposta pelo relator Eduardo Cunha (PMDB-RJ), cria uma espécie de mercado paralelo de precatórios, ao autorizar os credores a transferir parte ou todos os seus direitos a terceiros.

O parecer foi aprovado pela maioria dos deputados de ambos os lados da divisa entre governo e oposição, do PT ao DEM. Ainda assim, 76 parlamentares votaram contra a enormidade, repelida formalmente pelo PSOL, o PDT e o PSC. (Quatro deputados se abstiveram e uma centena deles se ausentou.) Fosse o Brasil um país em que os eleitores se interessassem em saber o que fazem os seus representantes, os políticos que patrocinaram mais esse ato de lesa-cidadania correriam o sério risco de receber o troco nas urnas. Mas, sendo as coisas como são, sobra para os prejudicados.


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Quando tratamos deste assunto alguns dias atrás, a PEC ainda estava para ser votada. E, o que dissemos lá atrás, vale reprisar agora: se esta escandolosa vigarice prosperar,é de se esperar que o STF adeclare inconstitucional, por se tratarem de dívidas líquidas e certas, reconhecidas em seu último grau de recurso e que,portanto, seu pagamento é a execução da sentença, não havendo nenhuma razão para protelação.

Não há nenhuma razão minimamente decente para tais dívidas sofrerem este “estupro legal”. Experimente qualquer contribuinte deixar de pagar seus impostos, taxas e contribuições para ver o que lhe acontece? Sendo assim, não se pode conceder ao Poder Público tal privilégio que, além de tudo, é imoral.

Investigados patrocinam encontro da Polícia Federal

Folha De S.Paulo


CBF, Caixa e Petrobras, alvos de investigação na PF, deram ajuda financeira a congresso

Delegado não vê conflito de interesse; Petrobras nega ter sido investigada, Caixa vê retorno mercadológico e CBF evita comentar caso

Dos 6 patrocinadores do 4º Congresso Nacional de Delegados de Polícia Federal, realizado entre terça-feira e ontem, em Fortaleza (CE), pelo menos 3 fazem ou já fizeram parte de investigações feitas pela PF: CBF (Confederação Brasileira de Futebol), CEF (Caixa Econômica Federal) e Petrobras.

A previsão de arrecadação total com patrocínios é de R$ 660 mil, mas nem todos já depositaram o valor compromissado na conta da entidade promotora do evento, a ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal), segundo informou a Diretoria Financeira.

A organização do encontro, que inclui o trabalho de captação de recursos, segundo o presidente da associação, delegado Sandro Avelar, foi feita pela Haia Eventos & Turismo. "Não vejo nenhum conflito de interesses. Estamos trabalhando dentro da maior transparência, com as portas abertas e com a participação da imprensa", disse Avelar.

"Nenhuma entidade consegue fazer um evento deste porte sem o apoio de patrocinadores. Estamos discutindo assuntos de interesse nacional", afirmou o presidente da associação, referindo-se ao tema central do encontro, que é o combate à impunidade. Responsável pela Haia, Celina Frossard não respondeu a recados deixados pela Folha nos três últimos dias.

O nome dos patrocinadores foi estampado no site da associação, em panfletos e camisetas distribuídos no evento - que não se realizava havia cinco anos-, bem como em um painel no local.


***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

É claro que isto aí tem um nome, representa um comportamento onde a ética está proibida de entrar. Mas não pensem que só no meio empresarial esta indecência é encontrada. Ou vocês acham que Lula jorra dinheiro público para os chamados movimentos sociais a troco de quê? Há um preço que eles devem pagar para o gesto “bondoso” do “cara”: que ninguém contrarie seu governo! De fato, motivos não faltaram para protestos e levantes, porém, todos se mantiveram em absurdo e criminoso silêncio. Vejam como um governante é laureado lá fora: basta reunir algumas estatais e ordenar que patrocinem eventos de premiação, ou seja, financiem o passaporte da mistificação.

Aqui neste espaço, vocês devem lembrar quando vezes criticamos, com veemência, alguns “congressos” para juízes, dirigentes de clubes, etc. A questão nem precisa envolver dinheiro público. O que se condena é o comportamento imoral de pessoas que deveriam servir como exemplo, mas que, no caso, são apenas maus exemplos e com as quais, invariavelmente, nada lhes acontece. Assim, quando se procurar por causas da violência no Brasil, ninguém deve ignorar tais episódios porque, queiram ou não, quem está sendo agredida, além da moral, é a fração da sociedade que tenta viver honestamente.