domingo, julho 15, 2012

Por que a América Latina não cresce como a Ásia?


Marcelo Justo
BBC Mundo

Enquanto asiáticos cresceram, latino-americanos ficaram para trás na escala da economia global.


Em 1980, a produção industrial no Brasil era maior do que a da Tailândia, Malásia, Coreia do Sul, Índia e China juntas. Trinta anos depois, representava apenas 10% do total produzido por esses países.

O mesmo aconteceu, em menor grau, com outros países da América Latina. Se antes despontavam em relação aos asiáticos, hoje, perderam o diferencial competitivo e tentam correr, em vão, atrás do tempo perdido.

Mas por que a América Latina ficou para trás na economia global quando comparada à Ásia? Quais aspectos, culturais, políticos, históricos, econômicos, administrativos, resultaram em tamanho desequilíbrio?

Para esclarecer as razões da derrocada latino-americana ante a emergência asiática, a BBC conversou com o professor da Universidade de Cambridge Gabriel Palma, especialista em economias comparativas.

BBC Mundo - O sr. aponta em suas pesquisas que o crescimento econômico na Ásia tem sido mantido ao longo das últimas três décadas. Já, na América Latina, a economia oscila entre períodos de rápido crescimento e queda vertiginosa. Por quê?
Gabriel Palma - Desde a década de 80, países asiáticos como Coreia, Cingapura, Malásia e Tailândia têm crescido a uma taxa anual de 7%, enquanto China, Índia e Vietnã, em torno de 9%. No mesmo período, a América Latina cresceu somente 3%.

Isso não significa, contudo, que os países latino-americanos não têm capacidade de crescer. Pelo contrário. Argentina, Chile e Peru, na década de 90; o Brasil e o México, na década de 60 e 70, só para ficar em alguns exemplos, registraram taxas de crescimento semelhantes às verificadas atualmente na Ásia.

A principal diferença é que o crescimento latino-americano não foi sustentado. Na minha opinião, há três razões para isso.

A primeira diz respeito à taxa de investimento privado, que é de 30% do PIB na Ásia, enquanto que, na América Latina, é de 15%. Como resultado, o investimento por trabalhador ocupado na economia brasileira é hoje menor do que na década de 80, enquanto Índia e China apresentam taxas 8 e 12 vezes maiores, respectivamente.

O segundo ponto é que a política econômica na Ásia é claramente keynesiana com taxas de câmbio competitivas e taxas de juros baixas e estáveis.

A reforma econômica na Ásia, ou seja, a liberalização do comércio, a liberalização financeira, foi pragmática, lenta e seletiva. Na Índia, a reforma foi lançada na década de 80, mas a primeira redução de tarifas de importação ocorreu em 87 e a primeira abertura financeira, em 93.

Isso deu tempo aos agentes econômicos de se adaptar às mudanças.

Na América Latina, a reforma foi adotada como uma religião. Tudo foi feito da noite para o dia. Em dois ou três anos, todas as reformas foram implementadas. O resultado foi uma enorme confusão.

BBC Mundo - Ou seja, enquanto a Ásia adotou o pragmatismo, a América Latina enveredou-se pelo fundamentalismo? O senhor quer dizer que esse atraso se deve muito mais a aspectos históricos e culturais do que propriamente econômicos, não? 
Gabriel Palma: Existem, hoje, dois tipos de capitalismo. O anglo-ibérico, que aplicou todas as reformas religiosamente, e o asiático, que, com uma tradição pragmática, que não se deixa levar por ideologias.

Eu viajo com frequência para a Ásia e sempre vi um ceticismo claro em relação ao messianismo de algumas fórmulas ocidentais, como o Consenso de Washington e o neoliberalismo.

Tal atitude exerce um impacto muito claro na política econômica. Um exemplo é a intervenção no câmbio. Isso é fundamental para os asiáticos.

Enquanto isso, a América Latina aceita que o mercado dite as regras, ao deixar a taxa de câmbio à mercê da oferta e da procura, o que, normalmente, produz resultados desastrosos.

Apesar desse diagnóstico, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a América Latina tem crescido na primeira década deste século de forma muito estável.

Isso está ligado ao terceiro fator que nos diferencia da Ásia. Na América Latina, temos uma ilusão do mundo das finanças.

Nos anos pré-crise, de 2002 a 2007, a América Latina cresceu entre 4% e 4,5%, mas o valor dos ativos financeiros – aí incluídos as bolsas de valores, os títulos públicos e privados, os ativos dos bancos, cresceu mais de 30% ao ano, ou seja, cinco ou seis vezes mais do que o Produto Interno Bruto (PIB).

Todo mundo achava que isso seria sustentável. É a mesma ilusão que contaminou o mundo ocidental desenvolvido: a crença de que a economia pode crescer independente do que ocorra com o investimento, a produtividade e a mudança tecnológica, ou seja, a economia real.

BBC Mundo - Mas qual a importância dos aspectos culturais nesse processo? O ceticismo e a independência de julgamento, tão comuns na sociedade asiática, explica o seu sucesso econômico?
Gabriel Palma - Os meus amigos asiáticos tendem a minimizar o fator cultural. Ele é importante, claro, mas existem outros fatores mais relevantes.

Na Coreia do Sul, as indústrias formam o grupo (econômico) predominante. Na América Latina, a elite está relacionada às finanças e prefere o setor financeiro a correr os riscos no mercado (de produtos). Na América Latina, temos a melhor rentabilidade financeira do mundo, duas a três vezes maior do que em outros lugares.

Isso se deve a uma política econômica que tem sido fundamental para a desindustrialização da região, a falta de diversificação econômica, a falta de aparato tecnológico. A América Latina abandonou sua política industrial com a ideia de que poderia crescer com commodities e finanças.

É o que se vê nos últimos anos no Chile ou a euforia que existia durante o governo Lula no Brasil. A questão é que, se o preço do cobre no Chile volta aos tempos normais, o deficit em conta corrente salta para 15% do PIB do país.

O contraste histórico é, portanto, claro. Entre os anos 60 e 80, a produção industrial brasileira cresceu 9%. De lá para cá, cresceu apenas 2%. Na Ásia, por outro lado, o crescimento foi de 60%, de 1980 até os dias de hoje. A diferença no crescimento entre América Latina e Ásia é a diferença no crescimento de sua produção industrial.

Brasil terá segundo menor crescimento na América do Sul, prevê Cepal


BBC Brasil

Brasil terá segunda menor taxa de crescimento da América do Sul, prevê Cepal


O Brasil deve registrar a segunda menor taxa de crescimento na América do Sul, apontou nesta quinta-feira um novo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

De acordo com o estudo, a economia brasileira crescerá somente 2,7% em 2012, à frente apenas da do Paraguai (-1,5%).

Já quando se analisa a América Latina, com exceção do Caribe, o resultado brasileiro é ligeiramente melhor. O Brasil ocupa o antepenúltimo lugar entre os países com as menores taxas de crescimento, à frente apenas de El Salvador (2%) e do Paraguai (-1,5%).

Nas primeiras posições, estão Panamá (8%), Haiti (6%), Peru (5,7%), Bolívia (5,2%) e Costa Rica (5%).

Segundo a Cepal, o crescimento econômico inverteu nos três primeiros meses deste ano a tendência de queda verificada a partir do segundo semestre de 2011, apesar de "uma alta da incerteza e volatilidade no contexto externo".

Ainda assim, a entidade manteve estável sua perspectiva de crescimento da economia da região, de 3,7% para 2012, contra 4,3% no ano anterior.

Para a Cepal, o impacto da atual crise financeira europeia, assim como da desaceleração da China e da baixa expansão nos Estados Unidos será diferenciado nos países, dependendo da importância relativa dos mercados de destino "de suas exportações e de sua estrutura exportadora".

Balanço trimestral
Segundo o relatório, de janeiro a março deste ano, o crescimento da América Latina esteve associado, em grande parte, ao aumento da demanda interna, com destaque para o setor de serviços, especialmente o comércio.

"O consumo privado explica a maior parte do aumento do Produto Interno Bruto (PIB) da região, com base em uma favorável evolução do emprego e dos salário", diz o estudo.

Por outro lado, aponta a Cepal, a queda nos preços dos principais produtos básicos de exportação provocou uma desaceleração do valor total dos produtos exportados pela região no mesmo período.

Segundo o estudo, as exportações devem crescer 6,3% neste ano na região, enquanto as importações poderão registrar um aumento ainda maior, de 10,2%.

Previsão
O relatório adverte para a possibilidade de um cenário externo mais adverso, com reflexo nos fluxos financeiros e nas linhas de crédito bancário.

Segundo a Cepal, o agravamento da crise nos países desenvolvidos pode levar à queda dos mercados e desvalorização das moedas, além de uma redução das exportações e do investimento.

Apesar da menor capacidade de manobra, diz a entidade, ainda há espaço para crescimento.

"Em vários casos, existem condições para empreender ações sem afetar a sustentabilidade das finanças públicas e externas e, assim, amenizar suas consequências para o crescimento", conclui o estudo.

Protecionismo e entrada da Venezuela minaram Mercosul, diz 'Economist'


BBC Brasil


Lado a lado, Dilma Rousseff (esq.) e Cristina Kirchner, 
são as duas principais líderes do Mercosul

A suspensão do Paraguai, a polêmica adesão da Venezuela e a crescente tendência ao protecionismo na região minaram o sucesso do Mercosul, que cada vez mais se distancia de seus objetivos comerciais e caminha rumo a uma união meramente sociopolítica, avalia a revista britânica The Economistem artigo publicado em sua edição desta semana.

Citando a crise em Assunção e a polêmica em torno da entrada de Caracas no bloco - que ocorreu sem a aprovação paraguaia e sob críticas do Uruguai - a publicação diz que há motivos para ver a integração sul-americana como ameaçada.

Além disso, a Economist alerta que a união de países criada em 1991 vem trilhando uma preocupante rota protecionista.

"Sob governos de esquerda, o Brasil e – especialmente - a Argentina tornaram-se mais protecionistas. Eles passaram a ver o Mercosul como uma fortaleza, ao invés de uma ponte: fora da América do Sul, os únicos acordos comerciais concluídos pelo bloco na última década foram com Israel e a Autoridade Palestina. Negociações com a União Europeia começaram em 1999, mas se dissiparam", argumenta o artigo.

Classificando o bloco como uma "boa ideia" que enfrenta agora "muitas dificuldades", a revista diz que os parceiros têm sido complacentes com o governo argentino, cujas medidas restritivas já afetam o comércio entre o próprio bloco.

No ano passado, as exportações brasileiras para a Argentina diminuíram em 15% e as uruguaias 10%, diz o artigo.

Venezuela
Mas na visão da revista é a presença da Venezuela e a aproximação com a ideologia de Hugo Chávez que apresentam o maior obstáculo ao sucesso do bloco.

"O Mercosul enfrenta agora um problema novo, criado por ele mesmo, que poderia potencialmente destruí-lo".

Na visão da revista, a união sul-americana foi criada por um grupo de democracias liberais para avançar o livre comércio na região, algo que o líder venezuelano também defende, mas sob uma interpretação peculiar.

"Chávez é um entusiasta dessas causas. Ele tem repetidamente feito um chamado por um 'novo Mercosul', com uma dose de 'Viagra político' para 'descontaminar o neoliberalismo' do bloco e 'priorizar áreas sociais'", diz a Economist.

O artigo diz ainda que, 21 anos após sua criação, o bloco adota estratégias que o afasta de dois de seus principais objetivos: aumentar o livre comércio entre seus membros e apresentar uma alternativa aos avanços dos Estados Unidos com tratados bilaterais com países da região, como Chile, Colômbia e Peru.

"O Brasil escolheu como seus principais aliados as protecionistas Argentina e Venezuela, que praticam uma forma arcaica de socialismo. Para reativar seu crescimento econômico, o Brasil precisa colocar mais ênfase em competitividade e uma diplomacia comercial para abrir mercados, precisamente o que o Mercosul um dia já aspirou fazer."

Ainda temos a sensação de afundar


Martin Wolf (*)
Valor

As pessoas que estão dando forma à política econômica estão mais preocupadas com o risco moral que com o pânico. Isso torna possível uma onda de crises soberanas e bancárias, culminando em controles de câmbio e desintegração da zona euro.


Faz quase cinco anos que a crise financeira abateu um mundo desavisado - agosto de 2007. Como estão hoje os países de alta renda atingidos pela crise? Mal.

Das seis maiores economias de alta renda (mais a zona do euro), somente EUA e Alemanha estão acima de picos anteriores. Desde que os EUA foram o epicentro dos choques iniciais, sua recuperação foi relativamente boa. Mas nenhum desses países pode estar feliz com seu desempenho. Enquanto nos EUA o Produto Interno Bruto (PIB) tem se mostrado maior do que o desses outros países, a taxa de desemprego mais que dobrou, de 4,7% em julho de 2007 para 10% em outubro de 2009. Mas os EUA ainda tiveram um desempenho melhor do que a zona euro, cuja economia está estagnada e cuja mais recente taxa de desemprego é de 11,1%, contra 8,2% nos EUA.

As economias estão estagnadas, ao mesmo tempo em que as políticas de juros estão agressivas. A maior taxa de juros de curto prazo oferecida por quaisquer dos bancos centrais das grandes economias de alta renda é 0,75%, praticada pelo Banco Central Europeu (BCE). Em relação ao PIB, os balanços patrimoniais dos bancos centrais também dobraram nos grandes países de alta renda desde 2007. Japão, EUA e Reino Unido continuam a incorrer em déficits fiscais muito grandes para tempos de paz. mas, apesar de enormes déficits fiscais, as taxas de juro de longo prazo remuneradas por títulos dos governos japonês, americano e britânico estão muito baixas, 0,8%, 1,5% e 1,6%, respectivamente.

David Levy, do Jerome Levy Forecasting Center, rotula de "depressão contida" essa conjuntura de estagnação econômica com enormes estímulos de política monetária. A explicação é clara: importantes economias estão em dificuldades em face de sua excessiva alavancagem, particularmente em seus setores familiar e financeiro. Nos EUA, por exemplo, a dívida total do setor privado cresceu de 112% do PIB em 1976 para um pico de 296% em 2008. Essa proporção tinha recuado para 250% até o fim do primeiro trimestre de 2012, posição em que esteve em 2003. Em 2007, o endividamento bruto privado dos EUA foi de 29% do PIB. Em 2009, 2010 e 2011, porém, o percentual foi negativo.

Acima de tudo, os setores privados estão incorrendo em grandes excedentes de renda sobre gastos. Nos EUA, o balanço financeiro do setor privado passou de um déficit de 2,4% do PIB no terceiro trimestre de 2007 para um superávit de 8,2% no segundo trimestre de 2009. Essa enorme inflexão teria certamente causado uma depressão enorme, se o governo não tivesse aceito incorrer em déficits fiscais compensatórios. Dessa forma é que a depressão foi contida.

O FMI prevê que os setores privados em todos os grandes países de alta renda ficarão em equilíbrio ou registrarão superávits neste ano. Isso implica que esses países devem estar incorrendo em grandes superávits em conta corrente ou em grandes déficits fiscais. A Alemanha está no primeiro caso. Os outros estão incorrendo em déficits fiscais. Dada a improbabilidade de que esses países grandes possam, coletivamente, registrar grandes superávits em conta corrente (em relação a quem poderiam fazê-lo?), eles têm de incorrer em déficits fiscais quando seus setores privados registram superávits enormes. Esses superávits, por sua vez, são explicados em parte pelo desejo de desalavancar, em parte por inapetência para tomar empréstimos e em parte pelo fato de o setor financeiro não poder ou não querer conceder empréstimos. Assim, tudo isso é a dolorosa ressaca depois da grande farra de crédito.
Assim, a grande história continua a ser de desalavancagem do setor privado temperada por uma política monetária frouxa e compensada pela alavancagem do balanço patrimonial do governo. A disposição das autoridades para fazer ambas as coisas, a despeito de críticas tolas, nos impediu de viver uma segunda grande depressão e continua a fazê-lo. Parece fantástica a ideia de que esses grandes déficits fiscais estão "expulsando" os gastos privados, quando as taxas de juros estão tão baixas em países abençoados por não estarem na zona do euro.

No entanto, alguns observadores institucionais estão inquietos diante dessas políticas. Em seu último relatório anual, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) aparentemente defende apertos monetário e fiscal nos países de alta renda. No entanto, o BIS não apresenta nenhuma análise compreensível sobre as consequências. O BIS observa, por exemplo, que "multiplicadores fiscais em uma 'recessão de balanço patrimonial (governamental)' pode ser menor do que em recessões normais. Em particular, numa "recessão de balanço patrimonial (governamental), agentes excessivamente endividados - atualmente, as famílias estão normalmente mais propensas a alocar uma maior fração de cada unidade adicional de renda à redução de seu endividamento, em vez de ampliar seus gastos com bens opcionais". Isso é efetivamente possível. A conclusão é que os déficits fiscais, facilmente financiados em países importantes, precisam ser ainda maiores, porque devem tanto facilitar a desalavancagem como sustentar a demanda. A outra maneira plausível de acelerar a desalavancagem é falências em massa, também denominada depressão. É isso o que deseja o BIS?

Sabemos que as grandes crises financeiras projetam longas sombras, especialmente em países cuja taxa estrutural de crescimento é modesta, o que torna a desalavancagem lenta. A política governamental deve tanto sustentar a demanda como facilitar a desalavancagem. Isso significa agressivas políticas monetárias e fiscais, articuladas com intervenções destinadas a recapitalizar bancos e acelerar a reestruturação da dívida privada. O governo Obama tentou tudo isso. Mas não foi suficientemente ambicioso. Também foi frustrado pela intransigência dos republicanos. No entanto, desde que os EUA evitem mergulhar em seu "abismo fiscal" no fim deste ano, deverá ocorrer uma moderada recuperação puxada pelo setor privado. Depois que isso estiver firmemente implementado, poderá ter início uma séria consolidação fiscal.

Infelizmente, os EUA não são a única das grandes economias em dificuldades. A crise também causou uma profunda fratura na zona do euro, a segunda maior economia no mundo. A impossibilidade de a eurozona articular uma resposta é garantia de turbulência. As pessoas que estão dando forma à política econômica estão mais preocupadas com o risco moral que com o pânico. Isso tudo torna muitíssimo possível uma onda de crises soberanas e bancárias, culminando em controles de câmbio e desintegração da zona euro.

Um número excessivo de abordagens e recomendações de política econômica não reconhece os desafios pós-crise nem elabora respostas eficazes. A essência da solução está em acelerar a desalavancagem, ao mesmo tempo em que se estimula a recuperação. Por esse critério, as políticas hoje executadas estão, infelizmente, muito longe de serem suficientemente boas. 

(Tradução de Sergio Blum).


(*) Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Nova tentação nacionalista


O Estado de S.Paulo

Se, efetivamente, estender para todo o setor de energia elétrica a política de conteúdo local em vigor para a indústria do petróleo - medida já em discussão no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) -, o governo premiará mais um segmento específico da indústria nacional, como tem feito com outras medidas de estímulo à atividade econômica. É muito pouco provável, contudo, que com essa medida beneficie o País. A possibilidade de se exigir dos fornecedores de equipamentos para as áreas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica um índice mínimo de componentes nacionais, repetindo o que já se faz no setor de petróleo, pode criar uma reserva de mercado para determinadas empresas instaladas no País, com todas as consequências negativas inevitáveis nesse tipo de prática.

O governo argumenta que a extensão para o setor elétrico da política de conteúdo local permitirá combater o aumento das importações, dotar a indústria nacional de maior competitividade e dar mais segurança e confiabilidade ao sistema - além de aumentar o emprego. São, basicamente, os mesmos argumentos de que lançou mão para justificar essa política para o setor de petróleo.

Segundo o governo, é cada vez maior a presença de fornecedores estrangeiros em obras de infraestrutura, em particular em projetos de exploração de recursos naturais. Primeiro vieram os europeus, depois os chineses. É crescente, segundo o Ministério de Minas e Energia, a participação de equipamentos importados e também da mão de obra estrangeira na execução e operação dos projetos nessa área. Como mostrou reportagem do Estado, o documento em estudo pelo CNPE lembra que problemas como esses no setor do petróleo foram enfrentados com a adoção da política de conteúdo local.

Ao estudar meios de ampliar essa política nacionalista, o governo Dilma dá continuidade a mais um dos muitos equívocos de seu antecessor. A contratação, no Brasil, de equipamentos para a indústria do petróleo foi uma importante bandeira eleitoral do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Ela tinha o poder de encantar uma parte do empresariado, aquela que seria diretamente beneficiada pelo aumento das encomendas, outros que ganhariam com a dinamização da atividade em sua área e os trabalhadores, pois representaria mais empregos para eles.

A realidade, porém, tem sido muito diferente do cenário prometido pelo governo na defesa dessa política. A falta de capacidade de produção da indústria nacional para atender a encomendas de grande porte, como são comuns no setor de petróleo, vem retardando projetos da Petrobrás.

Mesmo que a indústria nacional esteja preparada para atender aos pedidos volumosos nas áreas de petróleo e de energia elétrica, há outros riscos decorrentes da exigência de conteúdo nacional. A existência de um mercado cativo para o produtor local desestimula a busca da eficiência e abre espaço para a prática de preços incompatíveis com o mercado internacional. O resultado pode ser produto de qualidade inferior ao de similares disponíveis no mercado externo, mais caros e entregues fora do prazo contratual.

Não se contesta a intenção do governo de estimular e incentivar a produção local. Trata-se de discutir os limites a incentivos desse tipo. Se exagerados ou muito seletivos - como são muitos dos concedidos pelo governo Dilma a pretexto de reduzir os impactos da crise mundial sobre a economia brasileira -, resultam em perdas para os demais setores e para os contribuintes e consumidores em geral, ao aumentar custos.

No exame dessa questão - que deve levar em conta a capacidade da indústria local e os compromissos assumidos pelo Brasil na OMC, entre outros fatores, como se anuncia que será feito -, o CNPE não pode deixar de observar os objetivos para os quais foi criado, como órgão de assessoramento do presidente da República. Entre eles está a proteção dos interesses do consumidor quanto a preço, qualidade e oferta dos produtos e a promoção da livre concorrência. A exigência de conteúdo nacional pode resultar no oposto desses objetivos.

Quanto, afinal, devem os assalariados brasileiros?


Pedro do Coutto
Tribuna da Imprensa

Em excelente matéria publicada na edição de 6 de julho da Folha de São Paulo, a repórter Júlia Borba colocou em foco, manchete de página, a divergência entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central a respeito de a quanto monta o endividamento das famílias brasileiras, portanto dos assalariados principalmente.

Para o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, é de 64% da massa de vencimentos. Para o Banco Central, da ordem de 44%. Só isso? Penso que não. Holland provavelmente se referiu a uma percentagem acima da massa salarial. O que significaria (ou significa) um endividamento em torno de 1 trilhão e 600 milhões de reais. O Banco Central, de outro lado, estima as dívidas na escala de 440 bilhões, acima do total dos salários. O total dos salários oscila em torno de 1 trilhão e 100 bilhões de reais.

Pode-se chegar a este número com relativa facilidade. A arrecadação total do FGTS no ano passado, publicada no Diário Oficial, foi de 61 bilhões. Como tal receita decorre da incidência de 8% sobre os pagamentos dos celetistas, multiplica-se 61 bilhões por 12,5 vezes. Vai dar algo em torno de 750 bilhões de reais. Mas há os servidores públicos que não têm Fundo de Garantia. Tem que se somar estes para efeito de remuneração total. Há ainda os trabalhadores avulsos e os que não possuem carteira assinada. Muito bem. Chegamos dessa forma, suponho eu, ao patamar de 1 trilhão e 100 bilhões a cada doze meses.

Se as dívidas acumuladas fossem de 64%, somariam mais ou menos 700 bilhões. Se fossem 44% produziriam um resultado final de aproximadamente 500 bilhões. Muito pouco.

A verdade é outra. Basta citar que só o movimento dos cartões de crédito vai fechar este ano na escala mínima de 400 bilhões. Atingiu 107 bilhões no primeiro trimestre, revelou outro dia O Estado de São Paulo. Mas existe o crédito direto oferecido pelas lojas comerciais. Mais duzentos bilhões. Existem as compras financiadas de automóveis. Há os cheques pré-datados em profusão. Além disso, os empréstimos pessoais junto aos bancos e a loucura dos cheques especiais.

Como se percebe, todas essas modalidades de crédito somadas não podem representar apenas 640 bilhões e, muito menos, 440. Não. Pois só os cartões de crédito movimentam 400 bilhões de reais. Logo é necessário que a Fazenda e o BACEN refaçam os cálculos para patamares mais realistas. Sugiro à repórter Júlia Borba, portanto, que dê sequência à reportagem que iniciou. Não tenho dúvida que ela irá encontrar a verdade. Importante para informar claramente o fenômeno à opinião pública.

Mas ia me esquecendo mais uma forma de endividamento: o crédito consignado, cujos juros mensais são na altura de 2% ao mês, para uma taxa inflacionária de 5,1% ao ano, como achou o IBGE. Faz inevitavelmente explodir os orçamentos dos aposentados e pensionistas. Setenta e cinco por cento ganham o salário mínimo pago pelo INSS. Vinte e cinco por cento acima do piso. Este ano, por exemplo, enquanto três quartos dos 26 milhões de inativos foram reajustados em 14%, os 25% restantes receberam aumento nominal de 6 pontos. Assim, como poderão, todos eles, pagar juros anuais de 24%?

Impossível. A curto prazo passarão a se encontrar mais endividados do que já estão hoje. De modo geral é por isso que a inadimplência nos últimos dois nãos subiu de 5 para 7,5%. Cinco por cento é a taxa esperada. Mas 7,5 situa-se 50% acima do ponto de submersão social. A propaganda na televisão oferece mil facilidades para liberar dinheiro. E oculta o verdadeiro custo desse dinheiro.

Com isso, os assalariados brasileiros vão se endividando cada vez mais e, claramente, não conseguirão se livrar da espiral: seus salários não chegam pelo menos a empatar com a inflação. Não podem assim vencer as estatísticas do IBGE. Já estão abaixo da linha d’água. Qual será seu limite de resistência?

Governo enfrenta falta de mão de obra para elaborar projetos


Gabriela Valente,  Danilo Fariello e Vivian Oswald
O Globo

Deficiências na equipe atrasam a liberação de investimentos previstos

BRASÍLIA — No momento em que incentivar investimento virou consenso dentro e fora do governo, a presidente Dilma Rousseff tem sido pressionada por técnicos para autorizar mais concursos porque — segundo eles — falta gente para elaborar e aprovar projetos importantes, principalmente, de infraestrutura. Somente nos três primeiros meses do ano, o Executivo perdeu, ao todo, quase 9 mil funcionários públicos. A maioria se aposentou.

Os interlocutores já avisaram Dilma que está difícil cumprir rapidamente a tarefa de criar um grande cronograma de concessões e licitações para destravar os investimentos com foco em 2013, porque pastas como Cultura e Meio Ambiente receberam mais mão de obra do que as áreas de infraestrutura. Atentos ao momento, os técnicos do setor ameaçam entrar em greve, o que comprometeria ainda mais o andamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Atualmente, a execução dos investimentos está aquém do que quer o governo. Dos R$ 17,7 bilhões que o ministério dos Transportes tem para investir, apenas R$ 3,6 bilhões foram empenhados até maio. Já o ministério da Integração Nacional empenhou somente R$ 1,1 bilhão dos R$ 6,5 bilhões reservados no orçamento. O ministério das Cidades empenhou R$ 976 milhões dos R$ 17,3 bilhões que tem para investir neste ano.

Os servidores que intimidam o governo com a promessa de cruzar os braços tiveram a carreira criada em 2007. Esses funcionários públicos, espalhados pelos ministérios de Transportes, Minas e Energia, Cidades, Integração Nacional, compõem mão-de-obra capacitada e especializada nos empreendimentos do PAC se queixam da baixa remuneração.

Segundo a Associação Nacional dos Analistas e Especialistas em Infraestrutura (Aneinfra), a cada ano 30% dos profissionais deixam a carreira em busca de concursos do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria-Geral da União (CGU) ou partem para a iniciativa privada em busca de pagamentos maiores. Somente no último concurso para auditores do TCU, por exemplo, dos 21 aprovados, sete eram analistas de infraestrutura. Os concursos e nomeações nem sequer repõem essa evasão, alega Guilherme Floriani, presidente da Aneinfra.

— Esse problema de recursos humanos acaba prejudicando ainda mais a tentativa de acelerar projetos de infraestrutura e o próprio PAC.

Em quatro anos, principais ministérios perdem 818 servidores
Dilma tem ouvido que está na hora de recompor o quadro, para dar vazão aos investimentos. Nos últimos quatro anos, o ministério das Cidades perdeu 157 servidores. Em três anos, o Ministério dos Transportes perdeu 435 pessoas e a pasta da Integração Nacional ficou sem 226 pessoas.

Segundo um interlocutor da presidente, o Ministério dos Transportes está parado. Já o Ministério da Integração Nacional nunca esteve tão esquecido como neste governo e perdeu todos os seus melhores técnicos para órgãos com atuação mais forte.

— Há alguns anos, esse ministério está sendo sucateado e transformado em trampolim político, mas agora chegou a um ponto que a última coisa que a pasta faz é a sua função primordial: pensar o desenvolvimento regional – disse um ex-integrante do alto escalão do ministério.

A pressão deve fazer com que o concurso para o Dnit — que está parado desde os escândalos do ano passado — saia do papel. Desde 2008, o governo autorizou apenas três concursos para área de infraestrutura. Foram criados mais cargos para áreas como Cultura, Meio Ambiente e Previdência nesse período.

— Para o investimento ocorrer, tem de ter antes um gasto de custeio — disse uma outra fonte graduada do governo.

Sala de concursados aprovados vira ‘lan house’
Um retrato da ineficiência da área virou chacota nos corredores de Brasília. Um grupo de recém-concursados passou meses em uma sala à espera de trabalho durante muito tempo até o ano passado. O lugar foi apelidado de lan house, porque a única atividade era navegar na internet, à espera de um compromisso.

Técnicos relatam a paralisia nas coisas mais cotidianas: como a compra de material de escritório para um dos ministros de maior peso na Esplanada. O cargo do servidor responsável para liberar o gasto está vago.

A presidente cobra que os técnicos da ativa montem o cronograma para acelerar investimentos: devem apresentar perspectivas para elevar as expectativas das empresas e tenta manter recursos no país enquanto houver pressões de saída de dinheiro que levam à desvalorização do real no curto prazo.

— A expectativa muda o sinal da economia para a frente. Tem que haver uma programação para os agentes econômicos começarem a se movimentar. Só assim eles terão a garantia de que as oportunidades vão acontecer — admitiu um integrante do governo.

Os países com a dívida mais e menos arriscada do mundo


Lilian Sobral 
Exame.com

Grécia voltou para o ranking com alta probabilidade de calote enquanto a Noruega segue com a dívida mais segura  

 Milos Bicanski/Getty Images 
Grevistas na Grécia: 
país tem a dívida mais arriscada do mundo

São Paulo – Após um trimestre de folga, a Grécia voltou para o ranking dos países com a dívida mais arriscada do mundo. Uma pesquisa trimestral elaborada pela CMA Datavision apontou que o país é o que tem a maior chance de dar um calote nos próximos cinco anos, com uma probabilidade calculada em 96,7%. O país tinha ficado de fora do último levantamento da consultoria, divulgado em abril.

Na última divulgação, o país que ocupava o primeiro lugar da lista era o Chipre, com uma probabilidade de calote de 63,7%. Embora o país tenha caído uma posição por conta da volta da grécia, sua chance de calote aumentou para 71,1%.

Outro ponto do relatório anterior indicava também que o mercado ficaria atento aos números de Portugal e Espanha. No caso de Portugal, a chance de calote em cinco anos diminuiu de 60,5% para 49,8%.

Já para a Espanha, más notícias: a chance de calote em cinco anos aumentou de 32,1% para 37,2%.

10 países mais arriscados
Probabilidade de calote em 5 anos
Posição no ranking anterior
1 - Grécia
96,70%
Não figurou
2 - Chipre
71,10%
1
3 - Argentina
58,60%
4
4 - Portugal
49,80%
2
5 - Paquistão
49,60%
3
6 - Venezuela
47%
6
7 - Ucrânia
45,10%
5
8 - Irlanda
38,60%
7
9 - Espanha
37,20%
10
10 - Egito
35,90%
8


Do lado oposto, no ranking dos países com as dívidas mais seguras, as primeiras posições permaneceram as mesmas, com Noruega se mantendo com a dívida pública mais segura do mundo. Em seguida, Estados Unidos, Suíça e Suécia se mantiveram com o segundo, terceiro e quarto lugar, respectivamente.

Reino Unido e Austrália subiram posições enquanto Alemanha e Chile deixaram a lista.

Japão e Nova Zelândia, que não entraram no ranking anterior, ocuparam dessa vez a nona e a décima posição, respectivamente.


10 países mais seguros
Probabilidade de calote em 5 anos
Posição no ranking anterior
1 - Noruega
2,80%
1
2- Estados Unidos
4,20%
2
3 - Suíça
4,60%
3
4 - Suécia
5,10%
4
5 - Reino Unido
6,10%
6
6 - Austrália
6,40%
8
7 - Hong Kong
6,40%
5
8 - Finlândia
6,70%
7
9 - Japão
7,50%
Não figurou
10 - Nova Zelândia
7,80%
Não figurou




O Brasil não figurou no Top 10. Segundo a consultoria, o país ficaria na 24ª posição das dívidas mais seguras, com uma probabilidade de calote de 10,4% em cinco anos.

Ataque duplo à liberdade na América Latina


Editorial
O Globo

A liberdade de imprensa foi brutalmente cerceada nas décadas de 60 e 70 na América Latina, no ciclo das ditaduras militares. Com a redemocratização, o direito à informação passou a se consolidar. Nos últimos anos, porém, novos obstáculos têm se colocado no caminho dos que se propõem a praticar o jornalismo com o máximo de isenção e responsabilidade na região.

São eles o surgimento de governos de cunho nacional-populista e o crescimento do crime organizado. Ambos têm em comum o objetivo de desmontar o estado de direito democrático e coibir o livre trânsito da informação, das opiniões.

O “pioneiro” na atual onda de repressão foi Hugo Chávez, caudilho que criou a vertente política denominada “bolivariana”. Ele foi o primeiro a usar os meios democráticos para cercear a democracia via controle do Judiciário, do Legislativo e da oposição, numa grande sacada maquiavélica.

Uma das características da “democracia” chavista é a reeleição ilimitada do presidente. Ou seja, algo muito mais próximo de uma ditadura populista, em que pese a risível afirmação em contrário do chanceler Antonio Patriota, no Congresso, repetindo a opinião de setores governamentais.

Em seus 13 anos no poder, Chávez persegue os meios de comunicação. Retirou do ar a rede RCTV em 2007 e, em 2010, o canal a cabo a que ela se resumira. Outra rede de TV aberta, a Globovisión, foi multada no equivalente a R$ 4 milhões por mostrar uma fuga de uma penitenciária superlotada.
Enquanto os meios privados são perseguidos, a mídia estatal, que só veicula o que é de interesse do Palácio Miraflores, não para de crescer. A ONG Espacio Publico registrou 203 ataques a jornalistas no país em 2011.

São chavistas Rafael Correa, no Equador, e Evo Morales, na Bolívia, entre outros. No Equador, o Congresso debate uma nova Lei de Comunicação que reduz a participação privada na área de rádio e TV de 85% para 33%, abrindo espaço para a mídia estatal e “comunitária”.

Enquanto o projeto tramita, Correa , nas últimas duas semanas, tirou do ar cerca de 20 emissoras de rádio no país. Seu governo também proibiu ministros e autoridades de dar entrevistas a jornalistas de veículos considerados “não confiáveis”.

A imprensa independente passa, também, por maus momentos na Argentina, pois a dinastia K — alérgica a críticas —, influenciada por Chávez, declarou guerra aos dois principais grupos de comunicação independentes, “Clarín“ e “La Nación“. O Congresso, sob controle kirchnerista, aprovou a Lei de Meios com, entre outros, o objetivo de obrigar as empresas a se desfazer de veículos em nome da desconcentração do setor. Na verdade, uma ferramenta para enfraquecê-las.

Outro jogo bruto, com armas de fato, é jogado no México, onde os cartéis atacam empresas de comunicação, sequestram e matam jornalistas, numa situação que lembra a Colômbia da década de 90.
Nos últimos dias, dois jornais mexicanos foram alvo de atentados dos cartéis. Desde 2000, 81 jornalistas foram mortos e 16, sequestrados no México.

Tanto quanto o chavismo, em todas suas versões, o crime organizado ameaça a democracia na América Latina. Por caminhos diversos, visam ao mesmo alvo. Não é por acaso que as Farc colombianas se associaram aos carteis de traficantes.

O fim ou o começo?


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Ontem, sexta-feira, 13, a pergunta que se fazia em Brasília era sobre se a presente onda de greves é o fim de uma velha aventura retomada pelas centrais sindicais ou, ao contrário, se é o começo de uma nova. Pode ser o último ataque de um exército posto na reserva depois da vitória ou, no reverso da medalha, a retomada de métodos que, no passado, eram desenvolvidos contra adversários, mas ironicamente, hoje, vem sendo praticados contra aliados, ou melhor, contra o estado-maior que deveriam estar protegendo.

Traduzindo: as centrais sindicais, estimuladas pelo PT, voltam a desencadear movimentos grevistas no serviço público federal, claro que aproveitando-se de reivindicações justas e de situações inadmissíveis, como os salários de fome dos professores universitários. Preparam-se, a CUT, a Força Sindical e penduricalhos, para instigar a paralisação nas atividades privadas, a começar pelos metalúrgicos, já em agosto.

Estariam as entidades de trabalhadores saudosas da ação de anos atrás, quando acutilavam a ditadura através de greves variadas? Mas como justificar adotarem agora a mesma estratégia quando estão no poder aqueles precisamente levados por eles?

Suprema contradição, caso se prolongue, é assistir a CUT contribuindo para obturar a máquina pública através do estímulo à paralisação dos funcionários federais. Ou amanhã, a greve dos metalúrgicos, capaz de tornar ainda mais críticas as dificuldades econômicas.

É preciso seguir adiante com o chavão popular: tem azeitona nessa empada. Não é de graça que as forças sindicais se prestam para conturbar a ação de um governo que ajudaram a criar. Fossem apenas as centrais e ainda se alegaria o arroubo juvenil de que estão contaminados seus velhos líderes. Mas tem mais. Por trás dessa investida contra o governo do PT encontra-se o próprio PT. Muitos de seus chefes imaginaram ocupar o governo Dilma como as hordas de Gengis Khan ocuparam metade do mundo. Repelidos pela própria natureza das coisas, tentam desestabilizar a presidente, obrigando-a a ceder aos grevistas em concessões impossíveis ou, como alternativa, em ver paralisada parte de seu governo.

A hora seria de o Lula dar um basta na pantomima. Afinal, Dilma Rousseff foi sua criação. Durante oito anos ele conseguiu enquadrar as centrais, impedindo-as de atuar contra os objetivos por elas mesmo conquistados. Vão desfazer tudo?

Em suma, fica em aberto a resposta: estão terminando uma aventura ou começando outra?

A INVASÃO DAS GUIANAS
Agora que por força de lei vem sendo divulgados documentos secretos e sigilosos do passado, seria bom que algum pesquisador buscasse conhecer os originais de patética instrução dada em 1961 pelo então presidente Jânio Quadros ao Estado Maior das Forças Armadas, no sentido de preparar a invasão das Guianas. Porque a determinação existiu e foi feita por escrito. A megalomania daquele Hitler felizmente frustrado previa a busca de mais espaço vital para o Brasil… A desculpa era impedir a influência de Cuba na parte Norte do subcontinente.

Em nossa História, apenas D. João VI, ainda príncipe regente, ousou invadir a Guiana Francesa, forma de reagir a Napoleão, que o havia expulsado da Europa. Por terra e pelo mar, auxiliadas pela marinha inglesa, as tropas portuguesas tomaram Caiena e lá ficaram algum tempo. Com a derrota definitiva do corso e a prevalência da Santa Aliança, tivemos que devolver a Guiana à França de Luís XVIII. Uma lambança, que Jânio Quadros tentou repetir. Seria bom para a memória nacional obter a comprovação.

No Rio, ensino superior cresce com universidades de lata


Cecília Ritto
Veja online 

Por trás dos números do Reuni, a expansão das universidades se revela precária. No interior do estado, contêineres servem de sala de aula e de depósito para material que deveria servir para cursos da UFF. Em Angra dos Reis, alunos dividem espaço com escola

Em vez de salas, instalações do campus da UFF em Rio das Ostras utilizam contêineres: obras atrasadas e gastos a mais com aluguel de estruturas de lata - Luiz Montenegro

Dentro de um dos contênieres da UFF em Rio das Ostras, os sinais da greve - Luiz Montenegro

Contêineres no campus da UFF em Rio das Ostras - Luiz Montenegro

Contêineres no campus da UFF em Rio das Ostras: expansão do ensino universitário emperra na estrutura precária - Luiz Montenegro

Universidades de lata: contêineres alugados para abrigar as instalações da UFF em Rio das Ostras: improviso - Luiz Montenegro

Material estocado em contêineres: equipamentos que deveria aparelhar os prédios da universidade não podem ser usados - Luiz Montenegro

Instalações improvisadas no campus da UFF: universidade foi a que mais abriu vagas no estado do Rio - Luiz Montenegro

Expansão da UFF em Rio das Ostras: contêineres em vez de prédios - Luiz Montenegro

Atividades paralisadas na UFF em Rio das Ostras: greve das federais está prestes a completar dois meses - Luiz Montenegro

O campus da UFF em Rio das Ostras: obras atrasadas e contêineres para substituir as instalações - Luiz Montenegro

Obras no campus da UFF em Rio das Ostras - Luiz Montenegro

Greve nas federais: atividades suspensas no campus da UFF em Rio das Ostras - Luiz Montenegro


O quadro de docentes da UFF em Rio das Ostras não chega a 50% do necessário e o prédio prometido para estar pronto até 2009, para acomodar os alunos em salas, sequer teve o projeto aprovado

A meta lançada em 2008 pelo Reuni, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, é ambiciosa: dobrar o número de alunos de graduação até 2018. Assim, a década a ser contada a partir da metade do segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, nesse quesito, poderia ser de glória para o ensino no Brasil, com a criação de mais portas de entrada no ensino superior público e a formação de profissionais e acadêmicos fundamentais para sustentar a transformação estrutural de que o país necessita para seguir em frente. A análise fria dos números mostra que, de fato, mais alunos ingressaram nessas instituições de ensino e novos cursos foram abertos no interior dos estados. Mas a meio caminho do ano estabelecido como alvo pelo programa o que se vê é um abismo entre teoria e prática na criação de cursos, vagas e infraestrutura para as levas crescentes de universitários.

A situação no Rio de Janeiro é emblemática. O estado que concentra quatro das principais universidades federais brasileiras ganhou 6.397 novas vagas – passando de 21.023 para 27.420, um crescimento de 30% nos primeiros dois anos da ‘década de ouro’ planejada pelo governo federal. Nada mal, se a ideia for criar formalmente posições de matrícula. Mas na instituição que mais cresceu no Rio, a Federal Fluminense (UFF), onde foram abertas 2.056 posições de 2008 a 2010, o quadro não é exatamente de uma ampliação da qual a população fluminense possa se orgulhar. A saída para promover o crescimento a toque de caixa foi alocar turmas em contêineres, em vez de salas com a estrutura que pede um curso universitário. Ou seja: grande parte do que se comemora como expansão do ensino superior estuda, atualmente, em universidades de lata.

A melhoria nas condições das faculdades Brasil afora faz parte da pauta de reivindicações da greve prestes a completar dois meses. E é uma queixa que une mestres e alunos. A UFF é o retrato, no Rio, de uma expansão desordenada. Antes mesmo do Reuni – projeto criado em 2007, e posto em prática no ano seguinte – havia uma política de interiorização dos campi das federais, iniciado em 2003. É aí que começa a história da UFF de Rio das Ostras, na região dos Lagos, onde atualmente há cerca de 40 contêineres que funcionam como salas de aula, salas de professores e estoque de material. As estruturas de lata usadas como módulos escolares custam, cada uma, dois mil reais por mês. A princípio, a universidade e a prefeitura firmaram convênios para que professores de Niterói, onde fica a sede, lecionassem na cidade. Em 2005, o executivo municipal de Rio das Ostras acusou a UFF de ser deficiente em sua prestação de contas. O Ministério da Educação entrou na discussão para repactuar a negociação e o polo deixou de ser uma extensão para se transformar em um campus autônomo.

Hoje, o quadro de docentes da UFF em Rio das Ostras não chega a 50% do necessário e o prédio prometido para estar pronto até 2009, para acomodar os alunos em salas, sequer teve o projeto aprovado. A estrutura principal é uma escola pública desativada, onde há 12 salas de aula para atender seis cursos – enfermagem, psicologia, produção cultural, ciência da computação, engenharia de produção e serviço social –, quase todos integralizados, ou seja, com todos os períodos em andamento. A prefeitura, que goza de orçamento irrigado pelos royalties do petróleo, fez doações de terrenos no entorno da escola para ampliar o campus. Até agora só foram construídos um alojamento e uma clínica para psicologia aplicada. Ambos estão fechados há quase dois anos, segundo relatos de professores, à espera do habite-se, que é dado pela própria prefeitura.

Com a falta de prédios, foi necessário recorrer às estruturas de lata para acomodar precariamente os estudantes. Aproximadamente 20 delas também são usadas como local para armazenagem de material comprado e guardado desde 2005. Há aparelhos de pressão, computadores, camas hospitalares, mesas, carteiras, quadros. “É Tudo o que deveria estar dentro dos prédios que não foram construídos”, explica o diretor do Instituto de Humanidades e Saúde da UFF de Rio das Ostras, Ramiro Piccolo. “No planejamento, era para termos um prédio com três blocos. Não saiu do papel. Agora são feitas obras para erguer um prédio multiuso, que será na verdade um tapa-buraco. Mas a ideia é tentar parar de usar os contêineres”, explica.

A unidade da UFF de Campos dos Goytacazes – outra cidade onde jorram os royalties – passa por problemas parecidos. Com o Reuni e a consequente expansão do campus, houve o projeto de erguer um prédio até 2010 para abrigar novos cursos. Em parte do terreno ainda nem foi feita terraplanagem. A solução adotada também foi a de espalhar contêineres. “Em 2010, começamos a alugar contêineres. Atualmente usamos cerca de 30. Para o próximo ano, precisaremos de mais 20 porque os cursos estão avançando e, além de demandarem salas, é necessário construir laboratórios. Estamos crescendo em estruturas provisórias. Crescer é motivo de orgulho para nós, mas temos problema de gestão do espaço. Temos custo, atraso de aluguéis de contêineres. Estamos inventando novas formas de gerir”, explica um professor que preferiu não se identificar.

De volta ao banco da escola – Em Angra dos Reis, a unidade da UFF divide o espaço com uma escola de ensino fundamental, apesar de desde 2009 ser prometido à universidade que as crianças serão realocadas em outro local. Antes disso, o curso de pedagogia funcionou por 17 anos em um colégio público, onde os estudantes do ensino superior sentavam-se em carteiras infantis. A mudança para o novo local, há três anos, ficou aquém do ideal. O único curso em Angra é o de pedagogia, que se somará ao de políticas públicas a partir do próximo semestre. O de geografia também está previsto para começar em breve. Quando isso acontecer, não haverá espaço, e pode ser que mais contêineres apareçam pelas unidades do interior.

Como a estrutura cedida para a universidade era um antigo alojamento, há outros tipos de problemas. Todos os aparelhos de ar condicionados, por exemplo, não podem ser ligados. O motivo: a rede elétrica não aguenta e houve pane quando, no verão, tentou-se refrigerar as salas. As calhas, de acordo com docentes, estão entupidas. Quando chove, o que acontece com frequência no município, a biblioteca fica alagada. “Nós professores e os alunos corremos para retirar a água, porque o pessoal da limpeza não dá conta”, conta um docente.

Os contêineres da UFF são um caso extremo. Mas os problemas estruturais se repetem em formas e graus diferentes nas outras federais do Rio. Em maio, veio à tona a precariedade das instalações da UFRJ em Macaé, no Norte Fluminense. Cinquenta estudantes do curso de medicina criado naquela cidade desembarcaram na capital do estado para ter aulas na Ilha do Fundão. A primeira turma de medicina da UFRJ de Macaé foi aberta no segundo semestre de 2009, dentro da política de expansão do Reuni. Mas, novamente, descobre-se que criar números de matrícula e expandir o ensino universitário são coisas bem distintas.

Com a falta de professores em Macaé, os estudantes passaram parte do ciclo básico em turmas da nutrição e da enfermagem. Segundo os estudantes, havia apenas 12 docentes do curso de medicina, nem todos com diploma de médicos, pouquíssimos com mestrado ou doutorado no currículo. Os professores chegavam a pedir ajuda da turma para planejar a aula e discutir o cronograma. Não havia sequer um laboratório de anatomia, o básico do curso, que põe o estudante em contato com o corpo humano.

No Rio, o grupo de Macaé disse ter sentido uma grande diferença no ensino. Para corrigir o desnível, foi preciso repor aulas em um período abaixo, pois o conteúdo não havia sido plenamente contemplado em Macaé. “Parece aula de outro mundo”, diz Daniele Guedes Allan, de 29 anos, em referência à maior qualidade dos professores do Rio.

Este ano, em abril, todos os matriculados na faculdade de medicina de Macaé entraram em greve por 40 dias. Uma comissão composta pelo reitor, vice-reitor, diretor do curso de medicina do Rio e mais dois professores foram à cidade verificar os problemas. No município, detectaram que nem o hospital Público Municipal de Macaé nem o hospital São João Batista estavam aptos a receber as turmas de 5º período, momento em que começam as aulas práticas. A solução encontrada foi a transferência das turmas. Os estudantes começaram a frequentar o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Fundão, e em seguida foram transferidos para o Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio.

De acordo com o diretor-geral do campus de Macaé, Gilberto Zanetti, os problemas estão sendo contornados. A universidade firmou convênio com o SUS há cerca de duas semanas, e os alunos passarão a ter aulas nos hospitais da cidade do Norte Fluminense. “Estamos criando uma rotina. Não estamos em uma”, diz Zanetti, confirmando o estado de instabilidade que as planilhas do Reuni não mostram.