Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo
Já dizia Elias Maluco (para a polícia): “Prende, mas não esculacha.” A oposição poderia dizer o mesmo a Lula: “Ganha, mas não esculacha.” Só que Lula, hoje um mito encarnado, resolveu esculachar.
A essa altura, com um país inerte movido pelo vento da bonança internacional, com um governo parado que não consegue montar o segundo escalão no seu quinto mês de funcionamento, com um deserto de idéias disfarçado por um plano desenvolvimentista de mentira, lançar um ministério do Longo Prazo seria um escárnio, um desastre para qualquer presidente normal.
Mas Lula não é normal. E se essa colou, ninguém mais está autorizado a duvidar: Lula pode tudo.
Mesmo assim, fica a dúvida: por que o presidente se expôs dessa forma, bancando essa piada de mau gosto que é a criação de uma Secretaria de Ações de Longo Prazo, com status de ministério, entregue ao folclórico Roberto Mangabeira Unger?
O aspecto mais abordado dessa estranha nomeação até agora é justamente o menos importante. O fato de Mangabeira ter chamado Lula de corrupto e pedido seu impeachment não quer dizer quase nada – pelo menos perto das outras interrogações possíveis. Política é a arte da conveniência, todos lembram o aperto de mão de Luiz Carlos Prestes em Getúlio Vargas, o homem que acabou com a vida de Olga Benário. Hoje mesmo estão aí Lula e Collor de mãos dadas, para mostrar do que a política é capaz.
Tudo bem que a vontade de poder de Mangabeira Unger seja algo mussolinesco, e que o professor de direito mantenha há décadas um Brasil imerso em seu tubo de ensaio em Harvard, de onde volta e meia brota uma fórmula salvadora. Brizola já foi cliente desse nacionalismo providencial (com sotaque), assim como Ciro Gomes. Para políticos do tipo “a revolução sou eu”, Mangabeira é uma mão na roda. Há todo tipo de arroubo voluntarista em sua cartilha – da suspensão unilateral de dívidas aos vários tipos de autoritarismo monetário e cambial.
Um dia Mangabeira Unger cansou de ser eminência parda (ao mesmo tempo que as eminências não-pardas se cansaram dele, o que não é difícil de acontecer). Resolveu então dispensar os intermediários e apresentar-se ele mesmo ao eleitor. Sou feio, manco, sem carisma e falo com sotaque de gringo, mas sou como você, por isso sou a solução, foi mais ou menos o que o Messias de Harvard disse aos cidadãos brasileiros.
Ou seja: Mangabeira disse que não pertence ao mundo dos políticos, o que faz crer que seu brizolismo e seu ciro-gomismo foram só um efeito colateral de sua esquisitice, a qual ele agora finalmente assumiria, como um brado de “gente como a gente”.
Como se vê, a densidade política de Mangabeira Unger não justificaria nem a criação de um ministério das ações pretéritas. Por que então Lula terá colocado esse jabuti em cima da árvore?
Ao longo do primeiro mandato, dizia-se muito que um dos ministros a dar mais solidez política ao governo, na opinião de Lula, era Ciro Gomes. (Para se ver como esse governo é realmente um milagre). O ministério do Longo Prazo seria então uma forma de manter Ciro por perto, quem sabe como um nome para sucedê-lo em 2010.
Pode ser. Mas Mangabeira Unger, o luminar da cátedra internacional, é hoje um aliado do baixo clero evangélico no PRB, partido de José Alencar e Marcelo Crivella, o senador sobrinho do Bispo Macedo. É interessante notar que o messianismo – acadêmico, político ou religioso – sempre converge. É o milagre da igreja universal de Harvard.
Talvez essa “nova” força política brasileira também não justificasse a manobra desse ministério de anedota. Mas é preciso não esquecer que o núcleo mais ou menos duro do Projeto Lula acredita em guerrilha de comunicação, à la dicotomia chavista, no estilo “nós contra eles” (Delúbio já alertava para a conspiração da direita contra o governo popular). Nesse caso, os irmãos do PRB podem significar uma aliança divina com seus tentáculos de fé, rádio e TV.
O mistério permanece. De concreto, sabe-se que o novo ministro do Longo Prazo vai mandar no Ipea – centro de excelência que Dirceu e companhia há muito estão querendo enquadrar ideologicamente.
É tudo realmente muito estranho. Mas sempre há a esperança de que o governo crie o ministério do Curto Prazo e comece a trabalhar.
Já dizia Elias Maluco (para a polícia): “Prende, mas não esculacha.” A oposição poderia dizer o mesmo a Lula: “Ganha, mas não esculacha.” Só que Lula, hoje um mito encarnado, resolveu esculachar.
A essa altura, com um país inerte movido pelo vento da bonança internacional, com um governo parado que não consegue montar o segundo escalão no seu quinto mês de funcionamento, com um deserto de idéias disfarçado por um plano desenvolvimentista de mentira, lançar um ministério do Longo Prazo seria um escárnio, um desastre para qualquer presidente normal.
Mas Lula não é normal. E se essa colou, ninguém mais está autorizado a duvidar: Lula pode tudo.
Mesmo assim, fica a dúvida: por que o presidente se expôs dessa forma, bancando essa piada de mau gosto que é a criação de uma Secretaria de Ações de Longo Prazo, com status de ministério, entregue ao folclórico Roberto Mangabeira Unger?
O aspecto mais abordado dessa estranha nomeação até agora é justamente o menos importante. O fato de Mangabeira ter chamado Lula de corrupto e pedido seu impeachment não quer dizer quase nada – pelo menos perto das outras interrogações possíveis. Política é a arte da conveniência, todos lembram o aperto de mão de Luiz Carlos Prestes em Getúlio Vargas, o homem que acabou com a vida de Olga Benário. Hoje mesmo estão aí Lula e Collor de mãos dadas, para mostrar do que a política é capaz.
Tudo bem que a vontade de poder de Mangabeira Unger seja algo mussolinesco, e que o professor de direito mantenha há décadas um Brasil imerso em seu tubo de ensaio em Harvard, de onde volta e meia brota uma fórmula salvadora. Brizola já foi cliente desse nacionalismo providencial (com sotaque), assim como Ciro Gomes. Para políticos do tipo “a revolução sou eu”, Mangabeira é uma mão na roda. Há todo tipo de arroubo voluntarista em sua cartilha – da suspensão unilateral de dívidas aos vários tipos de autoritarismo monetário e cambial.
Um dia Mangabeira Unger cansou de ser eminência parda (ao mesmo tempo que as eminências não-pardas se cansaram dele, o que não é difícil de acontecer). Resolveu então dispensar os intermediários e apresentar-se ele mesmo ao eleitor. Sou feio, manco, sem carisma e falo com sotaque de gringo, mas sou como você, por isso sou a solução, foi mais ou menos o que o Messias de Harvard disse aos cidadãos brasileiros.
Ou seja: Mangabeira disse que não pertence ao mundo dos políticos, o que faz crer que seu brizolismo e seu ciro-gomismo foram só um efeito colateral de sua esquisitice, a qual ele agora finalmente assumiria, como um brado de “gente como a gente”.
Como se vê, a densidade política de Mangabeira Unger não justificaria nem a criação de um ministério das ações pretéritas. Por que então Lula terá colocado esse jabuti em cima da árvore?
Ao longo do primeiro mandato, dizia-se muito que um dos ministros a dar mais solidez política ao governo, na opinião de Lula, era Ciro Gomes. (Para se ver como esse governo é realmente um milagre). O ministério do Longo Prazo seria então uma forma de manter Ciro por perto, quem sabe como um nome para sucedê-lo em 2010.
Pode ser. Mas Mangabeira Unger, o luminar da cátedra internacional, é hoje um aliado do baixo clero evangélico no PRB, partido de José Alencar e Marcelo Crivella, o senador sobrinho do Bispo Macedo. É interessante notar que o messianismo – acadêmico, político ou religioso – sempre converge. É o milagre da igreja universal de Harvard.
Talvez essa “nova” força política brasileira também não justificasse a manobra desse ministério de anedota. Mas é preciso não esquecer que o núcleo mais ou menos duro do Projeto Lula acredita em guerrilha de comunicação, à la dicotomia chavista, no estilo “nós contra eles” (Delúbio já alertava para a conspiração da direita contra o governo popular). Nesse caso, os irmãos do PRB podem significar uma aliança divina com seus tentáculos de fé, rádio e TV.
O mistério permanece. De concreto, sabe-se que o novo ministro do Longo Prazo vai mandar no Ipea – centro de excelência que Dirceu e companhia há muito estão querendo enquadrar ideologicamente.
É tudo realmente muito estranho. Mas sempre há a esperança de que o governo crie o ministério do Curto Prazo e comece a trabalhar.