quarta-feira, maio 02, 2007

O bagre não tem culpa, presidente

Editorial Jornal do Brasil

Poucas coisas merecem do governo tratamento tão distinto quanto a educação e o meio ambiente. Enquanto destina àquela área um plano sério, ambicioso e de longo prazo, no segundo campo o Planalto investe em um modelo estranho, que fatia o ministério e reduz os poderes da ministra Marina Silva sobre a emissão de licenças para obras físicas. A ministra se irrita, mas a verdade é transparente: Lula quer pressa na construção de usinas hidrelétricas na Bacia Amazônica, para evitar um apagão energético em 2010. A resistência esboçada por Marina foi neutralizada por um golpe de caneta.

Parece suspeito, mas a paralisia em torno dessas decisões jamais protegeu a Amazônia dos predadores. As usinas não saem; só a madeira, os minérios, as plantas medicinais e a própria floresta, trocada por lavouras de soja ou transformada em carvão. Ao criticar o "excesso burocrático" que estaria retardando o licenciamento dos projetos, Lula faz uma simplificação grosseira: a usina parou "por causa de um bagre".

Por conta disso, uma das medidas do PAC da Educação poderia estender ao gabinete presidencial aulas sobre ambiente. Nesse curso, Lula aprenderia que teses simplistas são tão inconsistentes quanto a visão ecoxiita defendida pelo PT anos a fio. Extinta uma espécie de bagre, ocorrem interferências na cadeia alimentar, micro e macroscópica. Também aprenderia que a ciência sabe como evitar esses danos ambientais.

O modelo das hidrelétricas que Marina Silva não quer na Amazônia, na atualidade, é menos agressivo que aquele do qual saíram desastres como Balbina, no Maranhão. Não faz sentido manter imobilizados os projetos no Rio Madeira, por exemplo, diante do despejo de mercúrio pelos garimpos na água.
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A burocracia petista jamais demonstrou o mesmo rigor aplicado na questão das licenças quando o assunto é o desmatamento ou a corrupção que cerca o contrabando de madeiras nobres. A conta acabou sobrando para os grandes bagres.