domingo, outubro 29, 2006

Aproveite o celular, Presidente !

Por Augusto Nunes
Publicado no Jornal do Brasil


O presidente da República já informou que, se não fosse Lula, gostaria de ser Juscelino Kubitschek. O destino não permitiu a JK tratar desse assunto, mas a hipótese contrária parece insensata. Ele não desejaria ser Lula. A evidente distância entre ambos ganha dimensões abissais quando o Grande Pastor assume a liderança da vanguarda do atraso e desanda no ataque a medidas que modernizaram o Brasil.
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A privatização de estatais, por exemplo. "Eu não teria vendido as telefônicas", exemplificou Lula ao infiltrar o tema na campanha eleitoral. JK diria que, se a transferência das empresas para a iniciativa privada merece, na forma, alguns reparos, foi exemplarmente acertada no conteúdo.
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A decisão livrou o mamute federal dos tumores disseminados por monstrengos ineptos, gulosos, envelhecidos, envilecidos, condenados à morte por inanição. Até 1997, quase 30 siglas - cabides de empregos para apadrinhados, gazuas manejadas por bandidos amigos - submeteram milhões de brasileiros à mudez, à estática e à extorsão.
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Para escapar das filas medonhas, formadas por interessados na aquisição de linhas fixas, multidões de contribuintes consumiram fortunas em transações pinçadas nas páginas de classificados. A privatização dos feudos odiosos universalizou o acesso ao telefone e encerrou a era do abuso.Caso tivesse vivido para utilizar os pequenos aparelhos hoje ao alcance do Brasil inteiro, JK decerto daria um recado a Lula: "Aproveite o celular, colega".
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Só não recomendaria a imediata suspensão de frases alopradas porque JK, ao contrário do herdeiro, era homem educado. Era gente fina.A polidez o impediria de lembrar ao atual presidente que também a privatização da Vale do Rio Doce foi uma ótima idéia. "Eu não teria vendido", repete Lula. "Principalmente por um preço tão baixo". O preço, como ocorre nos leilões públicos, resultou das leis do mercado.
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O valor da empresa acusou saltos extraordinários justamente por ter sido privatizada. "Se a Vale tivesse continuado estatal, hoje não seria a segunda maior siderúrgica do mundo, mas uma empresa a ser comprada", resume o economista William Eid, coordenador de um bem-vindo levantamento produzido pela Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas.
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O estudo avisa que a Vale, como quase todas as outras estatais privatizadas, tornou-se bem mais eficiente, lucrativa e financeiramente saudável. O investimento programado para este ano, por exemplo, soma US$ 4,6 bilhões. É 10 vezes superior ao registrado em 1997. Ganhou o governo, que passou a receber impostos antes sonegados. Ganharam os acionistas, agora beneficiados por lucros substanciais. E ganharam os trabalhadores. Os funcionários da Vale eram 11 mil no ano da privatização. Hoje, passam de 44 mil. Lula talvez não saiba disso. Ele nunca sabe de nada.
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Sim, o presidente é incapaz de poupar a lógica e a sensatez. Deveria ao menos poupar JK.

Campanha permanente.

Por Dora Kramer
Publicado em O Estado de São Paulo

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As eleições dominaram o cenário durante quase todo o 1º mandato de LulaFormalmente, terminou ontem a campanha eleitoral. A mais longa da história, pois a disputa eleitoral prevaleceu sobre qualquer outro assunto e serviu de pano de fundo a todos os debates durante praticamente todo o mandato do presidente Luiz Inácio da Silva.
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Lula nunca desceu do palanque onde passou a vida toda e isso ficou muito bem demonstrado por seu estilo discursivo de governar, com grande apreço a pronunciamentos - não raro dois ou três por dia - e aversão a entrevistas e questionamentos em geral. Em quatro anos, só deu uma entrevista coletiva - contrariando prática comum nas democracias - e só se dispôs ao contraditório quando lhe interessou: agora, no segundo turno da campanha pela reeleição.
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A oposição, por sua vez, resolveu subir no palanque quando começaram a aparecer os escândalos de corrupção. PSDB e PFL, que no início não viam chance de voltar ao poder tão cedo, passaram a considerar fortemente a hipótese de Lula não se reeleger.
Contribuiu para a animação oposicionista a vitória do PSDB em São Paulo, com José Serra, e a derrota imposta ao PT no Rio Grande do Sul, com a eleição de José Fogaça para a prefeitura de Porto Alegre, depois de 16 anos de administrações petistas.
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Em dezembro de 2005, um ano marcado por adversidades, a oposição vislumbrava a vitória na sucessão presidencial quase que como uma certeza.
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Lula vivia seu período de popularidade mais baixo.
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Em março, com o presidente já em franco estado de recuperação, o PSDB escolheu para disputar com Lula seu candidato menos competitivo. Ficou com Geraldo Alckmin porque, como diz agora a campanha do PT, não quis trocar o certo pelo duvidoso e optou por garantir o governo de São Paulo, com José Serra.
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Se ganhasse a Presidência com Alckmin, estaria no lucro. Se não, aguardaria a vez na esperança de que Lula padeça do mesmo veneno que vitimou os tucanos na campanha de 2002: o imenso desgaste provocado por 8 anos de poder.
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É nisso que o PSDB aposta agora. O partido está como Roberto Jefferson: sublimou a derrota, adotou o discurso segundo o qual é melhor Lula na Presidência mais 4 anos, se enfraquecendo à medida que não puder atender às expectativas da população, do que na oposição ainda forte e se preparando para retomar o governo em 2010, atrapalhando os planos de José Serra e Aécio Neves.
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É uma conta arriscada, visto que a oposição apostava também no 'sangramento' em praça pública do presidente neste último ano e o que se viu foi uma recuperação e capacidade de resistência invejáveis.
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Mas, a despeito dos riscos, é nisso que a oposição aposta. E é por isso que a campanha eleitoral terminou de direito, mas, de fato, recomeça logo depois de proclamados os resultados de hoje e vai perdurar pelos próximos 4 anos.

Tudo às escuras

Por André Petry
Publicado na Revista Veja

"Alckmin não foi capaz de usar a campanha para mostrar o essencial:
que o projeto tucano é diferente do projeto petista"

.No dia 26 de setembro de 1960, aconteceu o célebre debate televisivo entre John Kennedy e Richard Nixon, que inaugurou a idéia de colocar candidatos em confronto em transmissões ao vivo. No dia seguinte, Clark Clifford, conselheiro de Kennedy, mandou-lhe uma carta curta e objetiva. Elogiava o desempenho de Kennedy e alinhava três sugestões para os debates seguintes. A primeira dizia assim: "Nixon está dizendo que vocês dois têm os mesmos objetivos, apenas diferem sobre os meios de alcançá-los, mas isso é falso". E encerrava, apelando: "Você não pode permitir que ele crie a ilusão de que vocês trabalham para o mesmo fim". Kennedy não permitiu. E ganhou.
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Na campanha de Geraldo Alckmin, faltou alguém para lhe dar esse conselho singelo. As pesquisas indicam que, neste domingo, Alckmin perderá a eleição. Mas o problema não é perder uma eleição. Isso é próprio da democracia. Alguém sempre perde. O problema é perder a eleição sem cumprir seu papel de apresentar-se como uma alternativa concreta. Alckmin não foi capaz de usar sua campanha para mostrar o essencial: que o projeto tucano é diferente do projeto petista.
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Não mostrou que seu partido defende a radicalização da experiência social-democrata no Brasil, mobilizando todo o seu empuxo modernizador e seu sentido libertário. Não defendeu sua crença no capitalismo avançado. Não conseguiu sequer defender a privatização. Em vez disso, resolveu fazer o campeonato da intensidade: era mais emprego, mais escola, mais crescimento. No auge dessa disputa, Alckmin disse que era mais esquerda do que Lula e mais pobre do que Lula (a contenda patrimonial, a se julgar pelas declarações de bens apresentadas pelos candidatos, dá 691.000 reais contra 839.000 reais, com vantagem para Lula, o menos pobre).
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É possível que a exposição das idéias tucanas não levasse à vitória eleitoral, mas o inverso também não levou e, para piorar, ainda deixou tudo às escuras. Se mostrasse com clareza que o projeto tucano é diferente do projeto petista, a oposição poderia até não mudar o resultado das urnas, mas colheria dois dividendos: teria ajudado no seu compromisso pedagógico de esclarecer as massas, que é papel da oposição em qualquer democracia, e não teria se rendido à demagogia paralisante de que o país pode crescer sem cortar nada, pode crescer sem fazer sacrifícios, pode crescer sem suor.
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O único campo em que Alckmin tentou cravar a diferença foi na ética. Diante da bandalheira petista, parecia galinha morta. Não era. Os tucanos ignoraram que, tendo escondido Eduardo Azeredo nas sombras do valerioduto, não podiam falar como guardiães da moralidade pública. No fundo, os tucanos subestimaram a capacidade da bandidagem petista de recuperar um discurso, qualquer discurso, e esqueceram de organizar o seu próprio. Por isso, gritaram mais contra o dossiê do que contra o mensalão – quando, pela natureza dos crimes, deveria ter sido justamente o contrário. O dossiê é uma delinqüência. O mensalão é uma patologia.
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Repetindo: "Você não pode permitir que ele crie a ilusão de que vocês trabalham para o mesmo fim".
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Deu no que deu.

Porque hoje é domingo

Por Adriana Vandoni
Publicado no Argumento & Prosa

Estou ficando com muita pena das pessoas ligadas às investigações da gangue do dossiê. A turma da CPI é só lamúria. O Biscaia, tadinho, esta semana foi todo cheio de autoridade receber uns documentos sigilosos. Guardou no cofre rapidinho. Nem uma risadinha ele deu para as câmeras, até que descobriu que tinha em mãos o Brasil inteiro já conhecia, menos ele. Maldade dos meninos de Cuiabá!
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O Raul Jungmann, revoltadinho vai processar todo mundo. Sua próxima vítima é o delegado Diógenes. Tô com dó desse rapaz, tadinho. Ele não sabe se atende a imprensa, a CPI, o superintendente, o ministro do crime Thomaz Bastos. Ninguém deixa o homem trabalhar. Não dá tempo! Só nesta semana, quantos quilômetros ele já andou? Foi na baixada fluminense, vai Diógenes pra lá. Em Varginha, em Atibaia, volta pra Mato Grosso. E a imprensa atrás. Não, foi em Campo Grande!, corre o delegado pra Campo Grande. Não dá! Não deixam o homem trabalhar.
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Entendo a pressão que ele está passando. Imaginem! Eu que não tenho nada com isso não agüentava mais receber telefonemas e e-mails: Quem mandô? Quem mandô? Quem mandô? Não adiantava eu gritar: não sei quem mandou! Que coisa! Tenho minhas suspeitas, claro.
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Mas, depois da publicação na revista Época de que pagaram 2,5 milhões de reais para o bandido Vedoin envolver o Senador Antero, eu achei que estivesse livre. Quanto engano! Continuei recebendo ainda mais telefonemas e e-mails, só mudou a pergunta: quem pagô? Quem pagô? Quem pagô? Caramba! Não sei quem pagou! Gostaria de saber, mas não sei. Que coisa! Tenho minhas suspeitas, claro.
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Daí eu tomei uma decisão. Vou investigar. Darei uma mãozinha à Policia Federal, em especial para o delegado Diógenes porque, fala sério, agüentar o Ministro do crime na cola, é fogo!
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Crime que se preza sempre tem sua trama iniciada durante uma conversa em um restaurante. Isso é clássico. Então eu chamei a “H.B.”. “H.B.” é o apelido da “histérica do bacalhau”, uma doida anti-tabagista especialista em restaurantes. É uma espécie de “Maria algodão” de banheiro de colégio. Todo mundo tem medo dela. Peguei a “H.B.” e passei as informações: - precisamos descobrir a origem de tudo isso. O suspeito é o Sr. Chefe, você precisa vasculhar todos os restaurantes de Cuiabá e região.
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Depois eu disse: vá. E ela foi.
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Mas todas as informações eram sempre truncadas. Não conectava. Pensei: será que a “H.B.” está ficando velha e não consegue mais investigar? Parecia um quebra-cabeça, mas de pouquíssimas peças. Só não conseguia juntar. Fiz um organograma e... ah, agora sim, estava fechando! Nisso vinha a “H.B.” pra mim: mas saiu na TV que foi no Rio, em SP, no Paraguai. – Isso é pra pulverizar as informações, “H.B.”! Cê tá tonta? Tá de tinta nova no cabelo?
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Ah, quer saber? Chega! Montei meu organograma - adóóóro fazer organograma de tudo - e guardei. Essa turma não tem jeito.Mas vou antecipar aqui o que será divulgado pelo Ministro do Crime ou por algum porta-voz. A origem do dinheiro está na militância do PT. O partido tem 1.048.164 filiados no Brasil, segundo o TSE. O dossiê custou 1.750.000 de reais, o que deu para cada filiado a merreca de R$1,66 (um real e sessenta e seis centavos). Agora eu quero ver a PF prender 1.048.164 pessoas. É o crime perfeito!
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Ah, quanto ao dinheiro pra envolver Antero?, eu também quero saber. Quem pagou?

Lula é reeleito !

Uma sinuca de bico.

por Ipojuca Pontes
Publicado no DiegoCasagrande

O Brasil está numa sinuca de bico. Depois das eleições do próximo dia 29, que definirá, entre outras coisas, quem vai tomar conta do país, é muito provável que se instale na vida pública nacional um quadro de completa falta de governabilidade. No frigir dos ovos, qualquer analista político consciente, ou que tenha se empenhado em observar a vida política brasileira nos últimos 30 anos, já percebeu que está se acumulando entre as duas facções partidárias, PT e PSDB, um enorme arsenal de chumbo grosso que, no calor da refrega, pode se transformar numa explosiva carga de nitroglicerina pura.
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Senão vejamos: na possibilidade, ainda que cada vez mais difícil, de ocorrer uma vitória do candidato tucano Geraldo Alckmin, comprometido, conforme programa de governo, com o desenvolvimento de um capitalismo brasileiro a partir do fortalecimento do mercado, é mais que previsível que a sanha do PT, partido comprometido com o monopólio de um “Estado regulado”, e o seu conseqüente aparelhamento, faça cair sobre o próximo mandatário uma permanente tempestade de intimidações.
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Neste sentido - como já foi dito de forma transversa pelos próprios membros do PT, especialmente os seus “quadros ideológicos” mais empenhados - não será desprezível imaginar a radicalização da atuação dos “movimentos sociais” e das tropas de choque petistas formadas por militantes profissionais bem treinados, tendo como desfecho as sucessivas ondas de greves, passeatas, atos de violência e marchas sobre Brasília, que levarão o governo a promover, obrigatoriamente, o sempre lastimável Estado de sítio, a estabelecer a suspensão de certos direitos e garantias individuais.
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Por outro lado, é plenamente admissível que a vitória do candidato-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e do seu partido contraventor, reeleito pela prática de ilícitos (considerados, entre outros, pelo Ministério Público), venha a desencadear a mobilização do conjunto das oposições e de parte da sociedade brasileira na luta pelo estabelecimento do impeachment presidencial, considerado constitucionalmente como inafiançável crime de responsabilidade.
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Com efeito, razões para a imposição de tal medida não faltam. No histórico, nenhum outro governo da República brasileira esteve envolvido, em menos de quatro anos, em quantidade tão alarmante de denúncias de fraudes e operações mafiosas como as que contaminaram a vida pública nacional e determinaram a queda de figuras ministeriais e membros de todos os escalões governamentais. De fato, em menos de 174 semanas de vigência, o governo e seu partido leninista estivem envolvidos em nada menos de 218 denúncias de escândalos, mais de um por semana, com destaque, entre outros, para os escabrosos casos da compra do AeroLula, da extorsão do assessor parlamentar Waldomiro Diniz, da atuação da máfia dos “vampiros” no Ministério da Saúde, da ação nefasta da quadrilha das sanguessugas, do acachapante mensalão denunciado pelo partícipe Roberto Jefferson, das remessas de dólares ilegais pelo mentor publicitário e contraventor Duda Mendonça, do uso e abuso dos permissivos cartões de crédito do Palácio do Planalto, da ação empresarial de Lulinha (o filho privilegiado), das operações da quadrilha de Ribeirão Preto e da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, para não falar no recente e acintoso “dossiêgate”, ápice da volúpia criminosa – tudo isso somado, a formar um conjunto de aberrações de fazer tremer o Império Romano, na iminência de cair no limbo e ficar na impunidade, como se a verdade fosse a mentira, e a mentira, a paralaxe da nação.
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Ademais, com a permanência de Lula da Silva no poder, é factível antecipar um quadro de estagnação ou mesmo de retrocesso econômico e social. A julgar pelo já vivido no atual período de governo, devemos enfrentar, no próximo mandato, o avanço e a ampliação do “Estado forte”, levado adiante pelo bolchevismo petista, com todos os agravantes da propaganda enganosa, do empreguismo partidário, do falso crescimento e da manutenção dos privilégios e, pior que tudo, do efetivo “controle social” monitorado pela fortalecida Abin, a ser transformada numa cópia cabocla das famigeradas DGI cubana e a KGB, a repressiva máquina de espionagem soviética.
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Quem duvidar do que se afirma, basta olhar os itens básicos da plataforma de governo da reeleição de Lula. Nele, o presidente e aliados dão conta de que, 1) buscarão o “desenvolvimento induzido pelo financiamento e a ação do Estado” falido; 2) perpetuarão o atual modelo da Previdência, com déficit anual crescente na ordem de R$ 40 milhões, à margem o rombo previdenciário que ultrapassa a casa de R$ 1 trilhão; 3) marginalizarão qualquer hipótese de reforma trabalhista, fomentadora do desemprego galopante e do trabalho informal, visto que, no entender fantasista, “há espaço para modernizar as relações de trabalho sem comprometer os direitos dos trabalhadores” e, 4) recrudescerão a carga tributária, no “propósito de racionalizar a arrecadação e de defender a desoneração das exportações e dos investimentos”.
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(De fato, como já antecipado pelos burocratas do fisco, logo em 2007 está previsto o aumento dos impostos que atingirão a marca recorde de 42%, um massacre fiscal que transformará o empresariado em refém do governo e a força de trabalho numa multidão escravizada para manter o parasitismo estatal).
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Sim, não cabe dúvida: o Brasil está numa sinuca de bico. Só quem não vê o óbvio é aquele tipo de gente que fura os olhos para enxergar melhor. Que, mais cedo do que imagina, pagará caro pela ilusão do mito vermelho.

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Coisa das elites

por Carlos Alberto Sardenberg
Instituto Millenium


O regime de metas de inflação, introduzido no Brasil em 1999 e desde então praticado com rigor e competência, é o que há de mais moderno em política econômica. Cerca de 90 países, entre desenvolvidos e emergentes, utilizam esse sistema, baseado em teorias desenvolvidas a partir dos anos 60, quando a inflação elevada era um problema mundial.

Hoje, não é mais. Em países desenvolvidos, não se tolera inflação acima de 2,5% ao ano. Para os emergentes, aceita-se um pouco mais, mas sempre abaixo dos 5%. Resumindo, o regime de metas é um caso talvez raro de sucesso na teoria e na prática.

Foi introduzido no Brasil tardiamente e meio de surpresa. Não surgiu de um longo debate, nem acadêmico, muito menos político. Nas faculdades de economia, eram poucos os que se dedicavam ao tema. Nos meios políticos, então, sequer se cogitava dessa coisa.

A crise de 1999, em seguida à desvalorização do real, criou a oportunidade. Sem a âncora do dólar baixo e controlado, a equipe econômica, então liderada por Pedro Malan e Armínio Fraga, propôs a idéia do regime de metas. O presidente Fernando Henrique Cardoso entendeu, topou e a introduziu por medidas provisórias e decretos.

Portanto, foi uma decisão de cima, da elite dirigente.

Nos meios políticos, praticamente ninguém tinha ouvido falar disso e quase todos viram com maus olhos essa coisa de Banco Central independente, condição essencial do regime de metas. Quer dizer que o presidente da República não pode mandar o BC reduzir os juros? – perguntavam os políticos, entre surpresos e desconfiados, incluindo muitos aliados de FHC. No PT, então, foi unanimidade contra. Lideranças e economistas do partido simplesmente atacaram mais essa invenção neoliberal e, pior, de banqueiros.
No governo, entretanto, em 2003, Lula manteve o regime, dando autonomia ao BC, e até nomeando para sua presidência um ex-banqueiro tucano e de banco estrangeiro. Não havia alternativa. Com dólar a quatro reais e inflação passando dos 10% ao ano, consequência da crise de confiança criada pelo temor de que Lula governasse com as propostas e os economistas originais do PT, o novo presidente foi praticamente obrigado a manter as políticas ditas neoliberais, e apoiadas pelo mercado, pelo FMI e pela comunidade econômica internacional, a chamada elite da globalização.

Muitos no PT entenderam isso como provisório. O próprio presidente Lula, em diversos momentos, alimentou essa versão de que, debelada a crise, voltaria a suas verdadeiras propostas. Mas foi ficando, ficando, até que hoje Lula, em campanha, alardeia: eu acabei com a inflação.

Terá sido convencido da eficiência do sistema ou simplesmente se deixa levar pelas circunstâncias? Nos meios políticos, valem as circuntâncias. Tanto que até hoje, com sete anos de metas de inflação, ainda não houve condições de se votar no Congresso a legislação que formalize a independência do BC.

Para economistas que estudam esse regime, se o BC tivesse independência fixada em lei, em vez de autonomia concedida pelo presidente da República, só por isso os juros poderiam ser mais baixos.

O BC, nessa prática, é uma espécie de agência, que cuida da estabilidade da moeda. Não é o BC que fixa a meta de inflação – é o governo, por algum instrumento. No caso brasileiro, o Conselho Monetário Nacional, integrado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC. O Banco Central deve ter autonomia para fixar os juros, de modo a cumprir a meta.

Essa construção parte do entendimento de que política monetária, uma vez fixados os objetivos, deve ser uma coisa técnica. Ou ainda, entende-se que a estabilidade da moeda é um bem universal, de interesse de toda a sociedade, não podendo depender deste ou daquele governo, deste ou daquele partido.

A idéia de que o governo e os políticos eleitos não podem abrir mão desse poder é atrasada, vem do tempo da inflação. É tão atrasada quanto a idéia de achar que setores ditos estratégicos devem ficar sob controle do governo, via estatais. Dizia-se, por exemplo, que a privatização das telecomunicações comprometeria a segurança nacional.

Passado esse tempo, o que se vê? Que mais pessoas têm telefone – o que certamente é um objetivo comercial das empresas, mas também um objetivo estratégico para o desenvolvimento nacional.

Mas ainda se discute se a privatização deveria ou não ter sido feita. Mais um debate atrasado.

É preciso civilizar os bárbaros do PT.

Por Reinaldo Azevedo
Publicado na Revista Veja
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"Faz 26 anos que os democratas se ocupam de atrair o PT para a civilização. Os tupinambás e os caetés, no entanto, resistem e tentam impor o canibalismo como algo doce e decoroso. Mas continuamos aqui, firmes no nosso papel de jesuítas, crentes na nossa missão civilizadora, esforçando-nos para catequizá-los, fingindo que são tupis amistosos"

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Faz 26 anos que os democratas se ocupam de atrair o PT para a civilização. Os tupinambás e os caetés, no entanto, resistem e tentam impor o canibalismo como algo doce e decoroso. Antes, tingiam a cara para a guerra e nos propunham o dilema: "Socialismo ou barbárie". Com o tempo, eles mesmos fizeram a opção sem nem nos dar a chance de escolher: barbárie! Institucional, quando menos. Mas continuamos aqui, firmes no nosso papel de jesuítas, crentes na nossa missão civilizadora, esforçando-nos para catequizá-los, fingindo que são tupis amistosos – tentando, enfim, emprestar-lhes alguma metafísica. Mas quê... Tenho cá as minhas dúvidas se os aborígines não estão vencendo. Em vez de o primitivismo ser domado, o que vejo é muita gente a flertar com Guaixará, Aimbirê e Saravaia, invertendo o fluxo histórico da civilização.
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Os três acima eram os demônios da peça Auto de São Lourenço, do padre Anchieta (1534-1597), representada para os índios e para os primeiros colonos. Lembro-me de um livro que ganhei quando criança. Havia uma ilustração do jesuíta fazendo um poema na areia com um galho ou cajado. A catequese é mais do que um confronto de culturas. É um choque entre tempos. Trata-se do encontro de homens que estão em estágios diversos de domínio da natureza. Um trazia a escrita, a abstração, a realidade como conceito; outros viviam imersos no gozo, no terror e na ignorância. Antropólogos vão protestar. Para eles, pouco importa por que cai a maçã. Qualquer explicação "cultural" vale a pena. Continuo a achar libertadora a lei da gravidade...
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Anchieta era um grande educador. Deixaria arrepiados os seguidores do "pedago-demagogo" Paulo Freire. O padre também usava o universo do "educando" (meu micro quase trava diante da palavra...) para passar uma mensagem "libertadora". Empregando elementos da cultura dos indígenas, queria tirá-los de sua crença e lhes ensinar os valores cristãos. Por isso, ridicularizava o seu modo de vida, em vez de adulá-lo. Devemos muito a esse padre. Guaixará, por exemplo, recitava: "Boa medida é beber / cauim até vomitar. / Isto é jeito de gozar / a vida, e se recomenda / a quem queira aproveitar. / A moçada beberrona / trago bem conceituada. / Valente é quem se embriaga / e todo o cauim entorna, / e à luta então se consagra".
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Como se vê, Anchieta fazia o contrário do que fazem as ONGs financiadas pelo petismo e por entidades estrangeiras que se encantam com os aborígines alheios. O que o padre associava ao mal e exibia como hábito a ser vencido seria, hoje em dia, exaltado como cultura de resistência. Reparem como a educação formal, do "centro", foi invadida pela chamada "cultura da periferia".
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Isso é verdade tanto dentro do Brasil como na relação do país com o mundo. Há mais antiamericanos na USP do que em Bagdá ou em Cabul. O Brasil não aceita ser humilhado pelos EUA e pelo FMI. Só pela Bolívia e por Evo Morales. A reeleição de Lula corresponde à vitória do recalque do oprimido.
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Falando a catadores de papelão e a sem-teto na quinta, no Palácio do Planalto, Lula Aimbirê disse que nunca antes gente como aquela entrou em palácios. Como se vê, ele precisa de gente como aquela para fazer discursos como aquele... Mais de 400 anos depois, Saravaia dá um pé no traseiro de Anchieta e diz: "Nós vencemos".
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Esta nossa catequese política, um tanto infrutífera, também vive, a exemplo da outra, um choque de tempos. A economia da informação do século XXI, os indivíduos conectados à rede e à diversidade, a vitória inequívoca do capitalismo, o triunfo das sociedades abertas, tudo isso tem de conviver com um partido que é herdeiro do Terror Jacobino do século XVIII, do marxismo do século XIX e da Revolução Russa de 1917.
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O partido só entende o exercício do poder como golpe e eliminação do outro – ainda que este herdeiro daquelas vocações totalitárias faça a mímica da democracia. Quando se acredita que se converteram, são flagrados comprando um naco do Parlamento. Quando se supõe que estão assustados, tentam golpear as eleições com dossiês fajutos. Quando a gente acha que estão rezando o "creio-em-deus-pai" da democracia, estão se entupindo de cauim, mobilizando instrumentos do Estado a seu próprio serviço. Até vomitar.
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O conteúdo que se queria utópico daquelas formulações dos séculos XVIII, XIX e XX ganhou uma nova feição, é verdade, e faz concessões aparentes ao estado de direito. Alguns tantos sustentam que, do totalitarismo jacobino-bolchevista, teria restado tão-somente a moldura, uma vez que não seria lícito duvidar da adesão dos tupinambás e caetés ideológicos à economia de mercado e à democracia. Quantas vezes é preciso que o diabo sapateie no altar para que se reconheça a sua real natureza?
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Os "bons selvagens" perderam a batalha para uma teologia e uma tecnologia superiores. Já os maus selvagens decidiram partir para a guerra de valores. Lula e seus rapazes não aceitam mais ser "colonizados" pela democracia. Olham para o conjunto de leis do país e, a exemplo de Guaixará, recitam: "Vêm os tais padres agora / com regras fora de hora / pra que duvidem de mim. / Lei de Deus que não vigora".
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O PT conseguiu eliminar a hierarquia de valores que regula a vida em sociedade, de modo a conduzi-la a um estado de permanente subversão. Vale atribuir ao adversário uma intenção que ele não tem, obviamente mentirosa, e, a exemplo do que afirmou Lula num debate, o outro "que desminta". Jaques Wagner, governador eleito da Bahia, um dos caciques petistas, sob o pretexto de defender o bom princípio de que ninguém é obrigado a se auto-incriminar no estado de direito, afirma que o acusado tem o "direito de mentir". Não, meu senhor! Mentir à polícia è a Justiça é um risco, não um direito. O petismo é mestre não propriamente em negar a verdade, mas em corrompê-la. É por isso que precisa tanto do concurso de um criminalista.
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Ou o petismo passa a ser visto no curso de uma revolução cultural ou jamais será entendido – e vencido. E o canibalismo será regra. Numa campanha eleitoral sem propostas, sem valores, sem alternativas, sem diferenças de conteúdo, aborrecida a mais não poder, resta, sem dúvida, uma intenção, anunciada por Lula, que faz toda a diferença. No debate da Rede Record, deixou entrever a disposição de estudar o que eles chamam de "controle social dos meios de comunicação". Trata-se de um eufemismo e de uma perífrase para "censura". O PT vê em cada veículo – ou, vá lá, em boa parte deles – um bispo Sardinha dando sopa. Sabe que a imprensa livre é o Evangelho da democracia; que ela guarda seus segredos e seus fundamentos.
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Estamos vivendo os nossos dias de Hans Staden (1525-1579), o aventureiro alemão que caiu presa dos tupinambás. Deu sorte: conseguiu sair vivo. No cativeiro, observou os costumes dos antropófagos e depois redigiu um relato de viagem que fez grande sucesso na Europa. Ajudou a espalhar a lenda de que, por estas plagas, comer gente era prática corriqueira – os tupis, coitados, gostavam mesmo era de uma capivara e de um macaco. Alguns acreditam de tal modo na superioridade de sua teologia e de seus hábitos alimentares que observam os seus raptores com interesse antropológico, mal disfarçando certa simpatia por aqueles que os ameaçam.
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Estou fora dessa. Quero os tupinambás e os caetés ajoelhados. Sob o signo da Cruz da civilização. Os petistas devem acionar a tecla SAP para metáforas e metonímias neste último parágrafo.

Final de campanha !