terça-feira, abril 17, 2012

O desespero do PT


Adelson Elias Vasconcellos

A reação de petistas de alto coturno em relação à reportagem – capa da Revista Veja que chegou às bancas neste final de semana, além de resvalar mais uma vez no ataque pueril, demonstra a situação de desespero quando se aproxima a hora em que o STF deverá julgar o Mensalão.  

São tantas as manobras vigaristas que esta gente lança mão para tentar melar o julgamento que, se a gente fosse enumerá-las, teria de criar um blog só para isto. 

A última destas manobras torpes foi imaginada e elucubrada por Lula, que sequer respeitou a autoridade da presidente Dilma para, em sua ausência dada a viagem aos EUA,  convocar uma reunião com alguns de seus ministros para avaliar medidas a tomar em relação ao Caso Cachoeira. Lula viu neste escândalo primorosa oportunidade para espezinhar um pouco a oposição. E assanhou seus bate-paus a saírem a campo incentivando a criação de uma CPI. Até aquele momento, os vazamentos de escutas telefônicas feitas  pela PF referiam-se apenas as gravações de conversas mantidas pelo contraventor com Demóstenes Torres e algumas figuras isoladas ligadas ao governador de Goiás, Marconi Perillo, desafeto de Lula desde denunciou ao país que o então presidente sabia da existência do Mensalão.

Lula não imaginava que nas relações criminosas de Carlinhos Cachoeira gente de sua banda poderia estar envolvida. No decorrer dos dias, tal fato se confirmou deixando o governador do DF, Agnelo Queiroz, à beira do abismo.

Agora, Lula até admite fritar o governador Agnelo, desde que possa atingir a oposição e praticamente ferir de morte o DEM, cujo extermínio ele já andou pregando em comício na última campanha eleitoral. Lula é do tipo que não aceita oposição nem contrariedade. Nota-se nele um espírito democrático zero vezes zero.

Pois bem, dentre os seres petistas que se mostraram contrariados coma reportagem já tivemos o próprio presidente do partido, Rui Falcão, ao qual se juntaram Marco Maia, presidente da Câmara e, claro, José Dirceu. Dentre tanta baboseira que disseram e escreveram, está a acusação de que a Revista Veja não noticiou as relações promíscuas do senador Demóstenes Torres com Cachoeira.

Para que a verdade seja reposta no seu devido lugar, temos a foto abaixo, com a matéria. O semanário publicou  o texto na sua edição nº 2259, que chegou às bancas em 4 de março.


ATENÇÃO: a operação Monte Carlo que levou Carlinhos Cachoeira à prisão foi deflagrada em 29 de fevereiro, uma semana antes. 

Depois desta, a revista ainda publicou nas edições seguintes outras reportagens dando conta da ligação de Demóstenes com o esquema de Cachoeira. Portanto, não sonegou nada. Então por que a reação destemperada contra a revista? 

Desespero. Só isto explica a cortina de fumaça que José Dirceu e seus capangas, com o propósito de melar o julgamento do Mensalão, tentam criar. Já não basta a pressão que estão exercendo sobre os ministros do STF para conseguir adiar o máximo que puderem que o processo seja colocado em pauta, agora querem sufocar, no berro, a cobrança para que o julgamento ganhe maior celeridade que parte da imprensa tem feito junto com alguns movimentos sociais. E a pressão não tem sido pouca não. Utiliza-se inclusive a figura do Márcio Thomaz Bastos que, por sinal, é um dos defensores de um dos mensaleiros,  e que aceitou defender Cachoeira não apenas por conta da grana que ganhará, mas como forma de manter Cachoeira sob “controle” para que não fale demais.

Agora, tentam constranger o procurador geral como despiste, já que as primeiras gravações se encontram em poder do Procurador Geral desde 2009. Porém, do muito que foi vazado, a grande parte se refere a conversas gravadas depois desta data. 

O jogo é pesado e não esperem ações honestas. Não haverá limite legal muito menos moral que faça a turma não lançar mão para tentar escapar. 

Aliás, se Lewandovski já tem disponibilizado o material desde dezembro de 2011, quando o ministro Joaquim Barbosa lhe disponibilizou um resumo com mais de 200 páginas sobre o processo, não se entende quais as razões para o retardamento de seu trabalho? Taxa de sucesso por ter sido nomeado para o cargo por Lula? Espero que não, mas o atraso e a morosidade demonstrados até aqui são injustificáveis.

Por outro lado, na medida em que outros vazamentos começaram a apontar que o esquema de Carlinhos Cachoeira já havia penetrado ministérios do governo Dilma além de outros governos estaduais e de gente da base aliada do governo petista, muitos passaram a defender o tal “pé atrás”. Agora já se fala em realizar uma CPI menos ampla, mais restrita e que não dê margem a muitas investigações profundas. 

De um lado, há o interesse em não entregar nomes ligados ao governo federal e, principalmente, gente do próprio partido. Isto seria um tiro no pé. Ficaria clara demais para a opinião pública a manobra vigarista. E, de outro lado, dar margem para que a CPI tenha amplitude maior do que aquela que interessa ao PT, vai causar paralisação dos trabalhos no Congresso e, por consequência, prejudicará diretamente o governo Dilma. Considerando que este é um ano eleitoral, e o PT tem interesses específicos no pleito, especificamente em relação a São Paulo, provocar imobilidade no governo federal irá contrariar os interesses em jogo. 

Mas o desespero é imenso. E os próximos dias e semanas vão ser de guerra declarada. Não serão poucos os dossiês que vão respingar na imprensa.   A pressão sobre os ministros do Supremo Tribunal tende a aumentar de intensidade com o propósito de empurrarem o julgamento para 2013. 

Daí porque parte da sociedade, percebendo a importância do julgamento, mas atentando para as manobras canalhas que se movem nos porões e no submundo rasteiro da política imunda de Brasília, está se mobilizando para impedir este golpe contra a democracia. Para quem gosta de emoções, elas serão muitas. Para os fofoqueiros de plantão, então, o que não faltará é prato cheio.

É preciso destacar um ponto importante: a oposição, por mais que tenha que abrir mão de um ou mais representantes seus por estarem envolvidos no esquema Cachoeira, não pode abrir mão de exigir que a CPI seja levada adiante. Porque, por tudo o que já se sabe, é o governo petista quem mais tem a perder nesta lambança toda. Assim, nada de acordos, conchavos, nada mesmo que venha aproximar os interesses do governo a um jogo de interesses internos da oposição. Quem abriu guerra foram os petistas, portanto, que arquem com as consequências. 

Em tempo: antes que Lula e seus asseclas saiam pedindo a cabeça de todos os que a eles se opõem, conviria dar uma conferida na prestação de contas da campanha eleitoral de 2002: segundo denúncia apresentada à CPI dos Bingos, nas arcas de arrecadação petista jorrou 1 milhão de reais como doação feita por Carlinhos Cachoeira.  Ou será que, justamente, por já terem conferido, é que alguns estão ficando assustados e já pensam em esfriar a CPI? 

Há ainda a consultoria (ou seria tráfico de influência) prestada por José Dirceu à Construtora Delta que, do nada, tornou-se a maior beneficiada pelas obras do PAC além de ter abastecido Cachoeira com alguns milhões? 

Também  conviria relerem as justificativas feitas pelo então Procurador Geral, Antonio Fernando de Souza, para acatar a denúncia e transformá-la em um processo enviado ao STF.  TODAS as acusações apresentadas acabaram confirmadas pelas investigações realizadas. Portanto, não faz sentido Lula tentar negar que o mensalão tenha existido, até porque, olhando-se para a repartição de cargos e como as verbas orçamentárias são distribuídas, no fundo, e em nome de uma tal “governabilidade” o mensalão nunca deixou de existir. O que mudou foram os caminhos por onde resvala o dinheiro, mas os propósitos continuam sendo basicamente os mesmos: cooptação de votos do Legislativo para projetos de interesse do Executivo.

No final de semana, escrevi que a tática de morder a jugular da oposição desencadeada pela dupla Lula/Dirceu, associados ao desejo de Protógenes Queiroz aparecer mais do que pode, seria um duplo tiro no pé. Na medida em que a caixa preta do Esquema Cachoeira vai se abrindo, mais os governistas vão ficando apavorados. 

Imaginem se Cachoeira resolve abrir o bico e contar tudo o que sabe? Basta esta ameaça para colocar tanto o PT quanto seus aliados em polvorosa. O desespero tende a aumentar mais e mais, dada a insegurança de todos na base do “será que me gravaram também?”.  Em Brasília tem um batalhão que não conseguirá dormir tranquilo por um bom tempo.

Base aliada corre para esvaziar CPI do Cachoeira


Gabriel Castro
Veja online

Instalação da comissão era dada como certa até a semana passada. Mas, agora, Planalto avalia que investigação traz mais riscos do que benefícios ao governo

 (Carlos Moura/CB/D.A Press)
Carlinhos Cachoeira em Brasília: 
mesmo preso, contraventor provoca calafrios em parlamentares

"Se houver um entendimento, diminui o ímpeto pela CPI". Vital do Rêgo Filho, senador cotado para presidir a comissão

A criação da CPI para investigar as ligações do contraventor Carlinhos Cachoeira com políticos parecia apenas uma questão de tempo na semana passada: tanto na Câmara quanto no Senado, representantes de todos os partidos apoiavam a instalação da comissão. Seria a primeira grande CPI da atual legislatura, mas o consenso construído por questões pragmáticas hoje está ameaçado. De início, a base aliada embarcou na ideia porque o senador Demóstenes Torres, que ainda pertencia ao DEM, era o principal alvo das denúncias - que tinham ainda potencial para atingir o tucano Marconi Perillo, governador de Goiás. Já a oposição aceitou a investigação apostando na máxima de que, em uma CPI o governo sempre sai mais desgastado, sobretudo porque áudios da Polícia Federal indicavam que a máfia de Cachoeira se infiltrou no governo do petista Agnelo Queiroz no Distrito Federal, além de manter relações com parlamentares do PT.

Base e oposição aceitaram a CPI, portanto, porque pretendiam empurrar a investigação para o terreno adversário - para os governistas, havia ainda a vantagem de ter como certo o comando dos trabalhos. Nos últimos dias, porém, o ímpeto de instaurar a comissão passou a diminuir. Do lado governista, o recuo é visível. A explicação: ao Palácio do Planalto, a CPI traz mais riscos do que vantagens. A Delta, a principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), aparece nas investigações da PF com fortes ligações com a quadrilha de Cachoeira.

A movimentação para enterrar a CPI foi notada no Congresso: "Houve muitos bombeiros tentando apagar o incêndio. Mas acho que é tarde demais", avalia Álvaro Dias (PSDB-PR), líder tucano no Senado. A coleta de assinaturas teve início na última quinta-feira - e a expectativa é de que o número mínimo necessário (171 deputados e 27 senadores) seja atingido já nesta terça. A partir daí, a decisão ficará nas mãos do presidente do Congresso, José Sarney (PMDB-AP), que prometeu dar prosseguimento imediato à criação da comissão. O peemedebista, porém,  está temporariamente fora do jogo, recuperando-se de uma cirurgia cardíaca. 

Quem assume o posto interinamente é Marta Suplicy (PT-SP). O imprevisto pode ajudar o governo a segurar a instalação da CPI, mas é pouco provável que o freio seja suficiente para impedir o avanço da comissão. Além dos líderes partidários, o próprio Sarney e Marco Maia (PT-RS), presidente da Câmara, haviam fechado um acordo pela investigação. 

Hesitação - 
Mas poucos reclamariam se, por alguma razão, a Comissão Parlamentar de Inquérito afundasse. Até o senador Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), cotado para presidir a CPI, diz "torcer" para que a investigação não seja necessária. Na avaliação dele, a comissão só existirá se o Supremo Tribunal Federal (STF) se recusar, pela segunda vez, a remeter o inquérito da operação Monte Carlo ao Senado. A primeira decisão foi tomada pelo relator do caso, o ministo Ricardo Lewandowski. Ele alegou que, em investigações sigilosas, apenas uma Comissão Parlamentar de Inquérito pode requisitar os autos.

"Até certo ponto, o pontapé inicial da CPI foi a resposta que veio do ministro Lewandowski", diz Vital. "Se houver um entendimento, diminui o ímpeto pela CPI", admite ele. Nesta terça-feira, os senadores Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), presidente do Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-CE), relator do processo contra Demóstenes no colegiado, e o próprio Vital, corregedor do Senado, têm um encontro marcado com Lewandowski. O trio tentará convencer o ministro a liberar o acesso às investigações - o que esvaziaria o apelo pela CPI.

Já o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (PT-SP), pertence ao grupo que pretende usar a comissão para atingir o grupo oposicionista - com Demóstenes Torres fora do DEM, o alvo principal passa a ser o tucano Marconi Perillo. Mas Tatto quer poupar outro governador: Agnelo Queiroz: "Não vejo necessidade de chamar o Agnelo. Na minha convicção, daquilo que eu já li, é diferente do Marconi Perillo, que tem uma relação com o Carlinhos Cachoeira".

Ciente do uso partidário que alguns petistas pretendem dar à investigação, a oposição tem pleiteado uma divisão no comando do colegiado. PT e PMDB dividiriam a relatoria e a presidência da comissão, como define o critério da maior bancada. Mas PSDB, DEM e PPS pedem um dos cargos-chave da CPI. "Temos que manter uma postura de isenção", diz Álvaro Dias.

A falência múltipla dos órgãos públicos


Arnaldo Jabor 
O Estado de S.Paulo

Os corruptos ajudam-nos a descobrir o País. Há sete anos, Roberto Jefferson nos abriu a cortina do mensalão. Agora, com a dupla personalidade de Demóstenes Torres, descortinamos rios e florestas e a imensa paisagem de Cachoeira. Jefferson teve uma importância ideológica.

Cachoeira é uma inovação sociológica. Cachoeira é uma aula magna de ciência política sobre o Sistema do País. Vamos aprender muito com essa crise. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras, de palavras que eclodiram diante de nossos olhos nas últimas semanas. Meu Deus, que riqueza, que profusão de cores e ritmos em nossa consciência política! Que fartura de novidades da sordidez social, tão fecunda quanto a beleza de nossas matas, cachoeiras, várzeas e flores.

Roberto Jefferson denunciou os bolchevistas no poder, os corruptos que roubavam por "bons motivos", pelo "bem do povo", na base dos "fins que justificam os meios". E, assim, defenestrou a gangue de netinhos de Lenin que cercavam o Lula que, com sua imensa sorte, se livrou dos mandachuvas que o dominavam. Cachoeira é uma alegoria viva do patrimonialismo, a desgraça secular que devasta a história de nosso País. Sarney também seria 'didático', mas nada gruda nele, em seu terno de 'teflon'; no entanto, quem estudasse sua vida entenderia o retrato perfeito do atraso brasileiro dos últimos 50 anos.

Cachoeira é a verdade brasileira explícita, é o retrato do adultério permanente entre a coisa pública e privada, aperfeiçoado nos últimos dez anos, graças à maior invenção de Lula: a 'ingovernabilidade'.

Cachoeira é um acidente que rompeu a lisa aparência da 'normalidade' oficial do País. Sempre soubemos que os negócios entre governo e iniciativa privada vêm envenenados pelas eternas malandragens: invenção de despesas inúteis (como as lanchas do Ministério da Pesca), superfaturamento de compras, divisão de propinas, enfrentamento descarado de flagrantes, porque perder a dignidade vale a pena, se a grana for boa, cabeça erguida negando tudo, uns meses de humilhações ignoradas pelo cinismo e pela confiança de que a Justiça cega, surda e muda vai salvá-los. De resto, com a grana na 'cumbuca', as feridas cicatrizam logo.

O governo do PT desmoralizou o escândalo e Cachoeira é o monumento que Lula esculpiu. Lula inventou a ingovernabilidade em seu proveito pessoal. Não foi nem por estratégia política por um fim 'maior' - foi só para ele.

Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de governo, em um instrumento de trabalho. A corrupção pública e a privada é muito mais grave e lesiva que o tráfico de drogas.

Lula teve a esperteza de usar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda do governo Lula: o escancaramento didático do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e 'peronista' patrimonialismo de Estado.

Quando o paladino da moralidade Demóstenes ficou nu, foi uma mão na roda para dezenas de ladrões que moram no Congresso: "Se ele também rouba, vamos usá-lo como um Omo, um sabão em pó para nos lavar, vamos nos esconder atrás dele, vamos expor nosso escândalo por seu comportamento e, assim, seremos esquecidos!"

Os maiores assaltantes se horrorizaram, com boquinha de nojo e olhos em alvo: "Meu Deus... como ele pôde fazer isso?..."

Usam-no como um oportuno bode expiatório, mas ele é mais um 'boi de piranha' tardio, que vai na frente para a boiada se lavar atrás.

Demóstenes foi uma isca. O PT inventou a isca e foi o primeiro a mordê-la. "Ótimo!" - berrou o famoso estalinista Rui Falcão - "Agora vamos revelar a farsa do mensalão!" - no mesmo tom em que o assassino iraniano disse que não houve holocausto. "Não houve o mensalão; foi a mídia que inventou, porque está comprada pela oposição!" Os neototalitários não desistem da repressão à imprensa democrática...

E foi o Lula que estimulou a CPI, mesmo prejudicando o governo de Dilma, que ele usa como faxineira também das performances midiáticas que cometeu em seu governo. Dilma está aborrecida. Ela não concorda que as investigações possam servir para que o Partido se vingue dos meios de comunicação e não quer paralisar o Congresso. Mas Lula não liga. "Ela que se vire..." - ele pensa em seu egoísmo, secretamente, até querendo que ela se dane, para ele voltar em 14. Agora, todo mundo está com medo, além da presidente. O PT está receoso - talvez vagamente arrependido. Pode voltar tudo: aloprados, caixas 2 falsas, a volta de Jefferson, Celso Daniel, tantas coisinhas miúdas... A CPI é um poço sem fundo. O PMDB, liderado pelo comandante do atraso Sarney, também está com medo. A velha raposa foi contra, pois sabe que merda não tem bússola e pode espirrar neles. Vejam o pânico de presidir o Conselho de Ética, conselho que tem membros com graves problema na Justiça. Se bem que é maravilhoso o povo saber que Renan, Juca, Humberto Alves, Gim Argello, Collor serão os 'catões', os puros defensores da decência... Não é sublime tudo isso? Nunca antes, em nossa história, alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto sobre o Brasil. A cada dia nos tornamos mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. E eu estou otimista. Acho que tudo que ocorre vai nos ensinar muito. Há qualquer coisa de novo nessa imundície. O mundo atual demanda um pouco mais de decência política. Cachoeira, Jefferson, Durval Barbosa nos ensinam muito. Estamos progredindo, pois aparece mais a secular engrenagem latrinária que funciona abaixo dos esgotos da pátria. A verdade está nos intestinos da política.

Mas, o País é tão frágil, tão dependente de acasos, que vivemos com o suspense do julgamento do mensalão pelo STF.

Se o ministro Ricardo Lewandowski não terminar sua lenta leitura do processo, nada acontecerá e a Justiça estará desmoralizada para sempre.

O mensalão legalizou o caso Cachoeira


Guilherme Fiuza
Revista Época

Só faltam um projeto de lei criando o Bolsa-Bingo e outro criando cotas para mulheres nas fábricas de caça-níqueis

Carlinhos Cachoeira foi vítima de um mal-entendido. O “empresário da contravenção” (como foi apresentado na Voz do Brasil) foi às compras em Brasília e, ao que se saiba, pagou tudo o que consumiu. Ninguém se sentiu lesado por ele, não se ouviu uma só voz reclamando de calote. É legítimo concluir, portanto, que as belas cifras entoadas nas escutas telefônicas tenham chegado direitinho aos destinatários. Por que, então, perseguir esse homem?

Antigamente, comprar deputados e senadores era ilegal. Mas os tempos mudaram, e só o advogado de Cachoeira não viu. Márcio Thomaz Bastos, o ex-ministro da Justiça, insiste em pedir habeas corpus para o cliente, preso no Rio Grande do Norte, alegando que ele não tem antecedentes criminais. Perda de tempo. Assim como o ex-ministro pode ser muito bem pago com o dinheiro sujo do bicheiro, Demóstenes Torres e companhia podem privatizar seus mandatos à vontade para servir ao “empresário da contravenção”.

Esse caminho foi aberto justamente pelo governo ao qual Thomaz Bastos serviu. Comparado ao esquema das mesadas para deputados, que ficou conhecido como mensalão, a engrenagem de Cachoeira é brinquedo de criança. A boa notícia para o mercado de compra e venda de parlamentares é que, sete anos depois do mensalão, ninguém foi punido.

Por que o ex-ético Demóstenes e seu patrocinador caça-níqueis vão se constranger, com tantos mensaleiros à solta, vagando por Brasília e lhes dando bom dia de cara limpa? Acusado de chefiar a quadrilha, José Dirceu manda e desmanda no governo da companheira de armas Dilma Rousseff – que o prestigia publicamente, em eventos apoteóticos do partido. Diante disso, que mal haverá em acolher no gabinete um bicheiro de estimação?

Num erro imperdoável para grandes advogados, os defensores de Cachoeira e Demóstenes não atentaram para a jurisprudência: comprar parlamentares, desde que por uma causa popular e progressista, é legítimo. E não vale a ressalva de que o mensalão será um dia, quem sabe, julgado. O processo do mais grave escândalo da história da República foi travado politicamente na Justiça brasileira, atravessando três eleições (indo agora para a quarta), o que garantiu a sobrevivência de seus protagonistas e do projeto de poder do PT. Na prática, a absolvição já se deu. O crime compensou.

O que o senador e o bicheiro farão para provar que sua causa também é popular e progressista é problema deles. Mas não será difícil. A conexão Dirceu-Delúbio-Valério, com o apoio dos bancos BMG e Rural, criou um duto das empresas estatais para os cofres partidários. Se isso não tirou o status progressista do governo popular, até a jogatina pode ser de esquerda. Aí só será preciso um mínimo de criatividade por parte do contraventor e de seu representante no Congresso: um projeto de lei criando o Bolsa-Bingo, outro instituindo cotas para mulheres nas fábricas de caça-níqueis e, mais importante de tudo, uma choradinha em público, que no Brasil não tem erro.

Os éticos, ou pelo menos os ex-éticos, não haverão de admitir a condenação do senador e do bicheiro por um crime que o mensalão revogou. Desde 2005, a posição da corte suprema foi clara sobre esse caso: dos discursos inflamados de Nelson Jobim, então ministro do Supremo Tribunal Federal, em defesa de José Dirceu, ao pronunciamento em dezembro último do revisor do processo, Ricardo Lewandowski, sobre a possibilidade de parte dos réus nem sequer vir a ser julgada: “Não há dúvida nenhuma de que poderá ocorrer a prescrição (dos crimes)”.

Após sete anos de trabalho cuidadoso da Justiça, às vésperas de mais uma eleição e da extinção dos processos, o revisor do caso informa sobre a perspectiva de julgamento do mensalão: “Não tenho uma previsão clara”. Tradução: a anistia aos parlamentares comprados (ou alugados) e seus contratantes vai muito bem, obrigado. A diferença para o caso Cachoeira é que o contratante é “empresário da contravenção”, enquanto no mensalão os contratantes eram, por assim dizer, “servidores públicos da contravenção”. Os contratados não ligariam para essa diferença.

O Brasil tem duas opções: ou se manca e sai às ruas contra o arquivamento do mensalão ou aceita de uma vez por todas ser governado pelos companheiros da contravenção.

CONVOCO UMA TESTEMUNHA PARA AJUDAR A MANDAR OS MENSALEIROS PARA A CADEIA: LULA!

Reinaldo Azevedo

Convoco uma testemunha de acusação para mandar para a cadeia os mensaleiros.

Chama-se Luiz Inácio Lula da Silva.

Convoco um petista para atestar as falcatruas cometidas pelos mensaleiros.

Chama-se Luiz Inácio Lula da Silva.

Convoco um protagonista daquela quadra da história para chamar pelo nome os mensaleiros.

Chama-se Luiz Inácio Lula da Silva.

No dia 12 de agosto de 2005, dois meses depois da entrevista concedida pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Folha, denunciando o esquema do mensalão, o presidente da República houve por bem se manifestar oficialmente a respeito na abertura da reunião ministerial, ocorrida na Granja do Torto. Segue um vídeo com pequenos trechos. Retomo em seguida.


Voltei
No post anterior, vocês encontram a íntegra do discurso. Sim, já havia ali, como você vão perceber, certa malandragem retórica ao destacar as “conquistas” do governo, como a sugerir certo mecanismo de compensação; como se a alegada eficiência da administração pudesse desculpar as falhar éticas. Afinal de contas, era um petista falando… Uma coisa, no entanto, resta inequívoca: o próprio Lula atestava a existência das lambanças. E, por isso mesmo, ele se desculpou. Mais ainda: no esforço — bem-sucedido, diga-se — de se livrar de um processo de impeachment, alegou que não sabia de nada e se disse… traído!

Assim se manifestava o Lula de 12 de agosto de 2005:

“Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia e que chocam o país. O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Eu não mudei e, tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa trajetória.

Já o Lula de abril de 2012 lidera uma pressão gigantesca sobre os ministros do Supremo para adiar o julgamento para 2013 — se possível, para que ele jamais seja julgado. A decisão, hoje, cabe a um único homem: Ricardo Lewandowski, o ministro revisor, em cujas mãos está a reputação do próprio tribunal, que pode ser desmoralizado.

O Lula de 12 de agosto de 2005 se dizia, além de indignado, empenhado em punir os responsáveis pelos crimes que “apareciam a cada dia e que chocavam o país”. Assim:

“Esta é a indignação que qualquer cidadão honesto deve estar sentindo hoje diante da grave crise política. Se estivesse ao meu alcance, já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis por esta situação.”

Já o Lula de abril de 2012 está indignado é com o eventual cumprimento da lei e aposta todas as suas fichas na impunidade. Antes mesmo da manifestação dos ministros do Supremo, o Apedeuta fez, sim, o que estava a seu alcance para passar a mão na cabeça dos criminosos. Os que deixaram o partido estão de volta à legenda. Os que permaneceram continuaram prestigiados.

Tão logo se deu o esfriamento da crise, o governo federal, com o concurso de Franklin Martins, armou uma operação para hostilizar a imprensa e acusá-la de golpismo. O Lula indignado, que pedia desculpas e se dizia traído cedeu lugar à personagem arrogante, que passou a tratar popularidade como sinônimo de inocência ou de absolvição.

O Lula de 12 de agosto de 2005 já exercitava a tese vigarista de que o mensalão era um mal decorrente do sistema político, que tinha de ser corrigido. Ainda assim, falava na necessidade de punir corruptos e corruptores. Relembro:

“O Brasil precisa corrigir as distorções do seu sistema partidário eleitoral, fazendo urgentemente a tão sonhada reforma política. É necessário punir corruptos e corruptores, mas também tomar medidas drásticas para evitar que essa situação continue a se repetir no futuro.”

Já o Lula de abril de 2012 pretende usar a CPI destinada a investigar gangue de um bicheiro e suas conexões com o Poder Público para esconder os crimes de outra gangue, justamente a dos mensaleiros — aquela que o levou a pedir desculpas e a a dizer que se sentia traído. Há nove anos no poder, o partido pouco se moveu em favor da reforma política — e o pouco que fez apontava para um modelo ainda pior do que o  que temos hoje.

O Lula de 12 de agosto de 2005 acenava para um Brasil livre de larápios:

“Queria, neste final, dizer ao povo brasileiro que eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas, porque o povo brasileiro, que tem esperança, que acredita no Brasil e que sonha com um Brasil com economia forte, com crescimento econômico e distribuição de renda, não pode, em momento algum, estar satisfeito com a situação que o nosso país está vivendo.

Impressionante! Trezes meses e três dias depois desse discurso, os aloprados foram flagrados pela Polícia Federal tentando comprar um dossiê fajuto para incriminar o então candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra. Eram os tais “aloprados”, como o próprio Apedeuta os designou. Participaram da operação pessoas do círculo de confiança do então presidente:

- Jorge Lorenzetti - compadre de Lula e seu churrasqueiro;

- Freud Gody - segurança pessoal de Lula e seu faz-tudo;

- Oswaldo Bargas - sindicalista da CUT e amigo pessoal de Lula;

- Ricardo Berzoini - presidente do PT, indicado por Lula;

- Expedito Veloso - militante petista, membro do grupo de campanha de Lula e diretor do Banco do Brasil. Hoje, vejam que coisa!, ele trabalha no governo do Distrito Federal, do notório Agnelo Queiroz.

- Hamilton Lacerda - assessor pessoal de Aloizio Mercadante (que disputava o governo com Serra) e homem que carregava a mala com o dinheiro. Já está de volta ao partido e vai concorrer a vaga na Câmara Municipal de São Bernardo;

- Valdebran Padilha - militante do PT. Em 2010, foi preso em outra operação da Polícia Federal.

Menos de quatro anos depois, em 2010, outro grupo de petistas é flagrado tentando montar um novo dossiê contra Serra. Na turma,  ninguém menos do que Idalberto Matias Araújo, o tal Dadá, homem de Carlinhos Cachoeira, o que nos traz de volta a 2012.

Encerrando
Chegou a hora de pôr um fim a esse capítulo da história, com a punição dos culpados, segundo o testemunho do próprio Lula. Que o ministro Ricardo Lewandowski cumpra a tempo a sua obrigação para que aquele pedido de desculpas de 2005 encontre a devida correspondência na esfera jurídica.

Chega de mistificação!

Que Lewandowski honre logo a disposição para a justiça daquele presidente de 2005!!!

A verdadeira operação abafa


O Estado de S.Paulo

A tática dos lulopetistas de acusar os adversários políticos de praticar as malfeitorias que eles próprios cometem é sobejamente conhecida, mas chega a ser desconcertante o caradurismo da operação abafa que suas lideranças estão tentando instaurar diante da iminência do julgamento do processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Temerosa de que a Suprema Corte venha a confirmar a existência do maior escândalo de corrupção da história da República, a cúpula petista tenta por todos os meios - inclusive a pressão sobre os ministros do STF - desqualificar as acusações que pesam sobre os 38 réus do processo e, por meio das mais deslavadas chicanas, provocar a postergação do julgamento para 2013. Com isso estariam os petistas, no mínimo, se poupando de maior desgaste político em ano eleitoral e permitindo a prescrição de muitas das denúncias.

A operação abafa lulopetista se desenvolve em dois planos: o político, com a tentativa de desqualificar perante a opinião pública as acusações que pesam sobre os mensaleiros, sob o argumento cínico de que eles fizeram o que "todo mundo faz"; e o jurídico, técnico, no qual procuram demonstrar tanto a existência de vícios processuais que precisam ser corrigidos quanto a inexistência de provas suficientes contra réus como o notório José Dirceu.

Para demonstrar o que todo mundo sabe - que corruptos existem em todo canto - os petistas assumiram até mesmo o risco de apoiar a CPI do Cachoeira, que está sendo constituída para investigar o envolvimento do contraventor goiano Carlinhos Cachoeira com governantes e políticos. Pretendem, é claro, atingir o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, e fazer barulho em torno do envolvimento do senador oposicionista Demóstenes Torres com os negócios do bicheiro. E não se pejam de alegar que os principais veículos de comunicação do País estão envolvidos - ora vejam - numa operação abafa destinada a acobertar os malfeitos do desmoralizado senador goiano.

A direção do partido foi muito longe, muito depressa. Tanto que a presidente Dilma Rousseff, na sexta-feira, queixou-se da precipitação e dos termos da nota oficial do PT e chegou a pedir a Lula que não jogue mais lenha na fogueira. Como se sabe, Lula não vê a hora de destruir politicamente o seu desafeto Marconi Perillo. Dilma, no entanto, se preocupa com os respingos de lama que a CPI certamente jogará no governo que preside.

Os petistas apressados tentam confundir delitos diferentes cometidos por gente da mesma espécie. O caso Demóstenes é uma coisa - e os culpados precisam ser punidos -, enquanto o mensalão é outra coisa - e os culpados precisam ser igualmente punidos. Os dois casos têm origem na mesma cultura que leva à apropriação indébita dos bens públicos e à desmoralização das instituições. Mas são delitos que precisam ser examinados e julgados, cada um a seu turno.

No que diz respeito ao STF, os petistas confiam, sempre movidos por seu enraizado sentimento de patota, no fato de que a maioria dos atuais ministros foi nomeada por Lula e Dilma. É uma expectativa que não honra a tradição de absoluta isenção partidária com que os juízes da Suprema Corte historicamente se comportam no desempenho de suas altas responsabilidades. Mas, a julgar pelo que circula na área do partido do governo, o próprio Lula estaria empenhado em fazer pressão sobre os ministros, já que é o maior interessado em evitar que a existência do maior escândalo de corrupção de seu governo seja confirmada pela Suprema Corte.

De qualquer modo, se já não bastassem os reiterados exemplos de rigor lógico e técnico em seus julgamentos - como destacamos recentemente em editorial sobre a decisão de que não constitui crime o aborto de fetos anencéfalos -, tudo indica que o STF está convencido de que é mais do que chegada a hora de se pronunciar sobre o escândalo do mensalão, conforme revelou o ministro Carlos Ayres Britto, que na próxima quinta-feira assume a presidência do STF. "É preciso julgar com brevidade, porque há o risco de prescrição", disse ele. Para tanto, o processo precisa ser julgado até o dia 6 de julho, para evitar que a decisão final da Corte só venha a ser proferida no próximo ano.

Os seus e os meus corruptos


Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

Que se leve até o fim a apuração das ligações do corretor zoológico Carlinhos Cachoeira com as autoridades civis, militares e eclesiásticas - sejam elas federais, estaduais ou municipais, do executivo, do legislativo ou do judiciário.

Não importa se o investigado é do DEM, do PSDB, do PT, do PMDB, do PPS ou de que partido for. Ninguém pode ficar de fora. Que se recue a apuração até a data que for necessária.

Que se vá fundo. Façam isso, senhores parlamentares. Mas, por favor, parem com essa mania irritante de apontar o indicador para os políticos de outros partidos com a intenção de justificar os próprios maus feitos.

Em outros lugares, a apuração de um escândalo de corrupção serve para que se fechem as torneiras e se impeça que o dinheiro do povo continue a vazar por ali. No Brasil, vigora o princípio da jurisprudência do erro: a falha de um é o escudo que protege o erro do outro.

Os deslizes cometidos por "A" são mencionados por "B" para justificar os próprios passos em falso. Isso já cansou.

O segundo maior problema dessa prática (o primeiro, claro, é a roubalheira propriamente dita) é que o fogo cruzado gera uma paralisia e impede o avanço das discussões que realmente interessam. De vez em quando, um caso mais caudaloso, como esse do Cachoeira, acaba atraindo interesse e resulta na abertura de uma CPI.

Todo político, desde que não esteja na condição de investigado, é chegado numa Comissão Parlamentar. Ela, a CPI, lhe dá a chance de aparecer e, em alguns casos, até de alcançar o estrelato como paladino da moralidade.

Os jornalistas também gostam. Cada seção lhes dá, prontinha, a manchete do dia seguinte. Ninguém precisa se esforçar para encontrá-la. Os corruptos não admitem, mas parece que também gostam.

Afinal, ao chamar tanta atenção para um único problema, a CPI acaba tirando atenção dos demais. E, enquanto se apura um escândalo aqui, por ali se cometem as falcatruas que alimentarão a próxima investigação.

A opinião pública acompanha o caso e, no início, também gosta da CPI. Afinal, deposita ali a esperança de resolver o problema endêmico da corrupção. Mas logo percebe que tudo seguirá como antes e se cansa.

No final, tudo o que acontece é a perda de alguns mandatos (como Demóstenes Torres perderá o seu agora) e nada mais. Nenhuma CPI até hoje teve o mérito de extirpar a praga da corrupção.

O que facilita a corrupção no Brasil não é a falta de CPIs nem de leis que estipulam punições para quem anda fora do trilho. A questão, ao contrário, é o excesso de leis complexas, que regulam formas corretas de acesso das prestadoras de serviço privadas ao dinheiro público.

As leis complicadas formam um emaranhado que dificulta o controle e facilita que se encontrem brechas para a roubalheira. Se o Poder Legislativo quiser resolver o problema, deve criar leis simples e compreensíveis.

Deve promover as reformas estruturais de que o país necessita. Do contrário, vamos ter que fazer dezenas de outras CPIs para investigar dezenas de outros escândalos que ainda serão descobertos pela Polícia Federal, em telefonemas grampeados com autorização da justiça aos quais algum órgão de comunicação terá acesso privilegiado.

(*) Ricardo Galuppo é Publisher do Brasil Econômico

Habeas mídia: Nova tentativa de amordaçar a imprensa


Jorge Serrão
Alerta Total

Noticiam os jornais que o desembargador Newton De Lucca, recém empossado Presidente do TRF da 3.ª Região, defendeu "irrestritamente" a criação do "habeas mídia" a "impor limites ao poder de uma certa imprensa" para proteger individual, coletiva ou difusamente pessoas físicas e jurídicas que sofrerem ameaça ou lesão ao seu patrimônio jurídico indisponível por intermédio da mídia".

Segundo o juiz, serviria o habeas "não apenas em favor dos magistrados que estão sendo injustamente atacados, mas de todo o povo brasileiro, que se encontra a mercê de alguns bandoleiros de plantão, alojados sorrateiramente nos meandros de certos poderes midiáticos no Brasil e organizados por retórica hegemônica, de caráter indisfarçavelmente nazofascista".

É proposta inoportuna e de rematada inconstitucionalidade, que alberga em seu ventre, tramada à socapa em gabinetes corporativistas, manete vil à ação jornalista. Verdadeira mordaça à liberdade de imprensa e à livre expressão. Em miúdos: fascismo disfarçado de legalidade tão ao gosto dos donos do poder.

A Constituição em seu art. 5º, IV, pontifica: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. O complemento está no inciso IX que diz: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Em sociedades democráticas a imprensa é o primeiro esteio das liberdades públicas, eis que é “assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”, conforme o art. 5º, XIV.

Aqueles que, valendo-se de mecanismos semelhantes, querem afrontar o texto constitucional, seus princípios e valores fundamentais de consagração a direitos e garantias individuais, esquecem-se que tal proposta nem por emenda pode ser veiculada, já que não será objeto de deliberação a proposta tendente a abolir os direitos e garantias individuais (art. 60, parágrafo 4º, IV).

Esse habeas mídia é forma de intimidação aos que trazem à luz do dia a ação nefasta dos grupos e poderes políticos hegemônicos, inclusive a magistratura a serviço do corporativismo e da corrupção.

Meios de defesa contra a imprensa irresponsável ou criminosa existem: ações de responsabilidade penal e civil, porque “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem” (artigo 5º, V).

Querem impedir as denuncias, criticas ou investigações da imprensa? Simples: basta não cometer ilícitos contra o Estado e o povo; não apadrinhar parentes e amigos; não desviar recursos públicos ou fraudar licitações; não fazer caixa dois ou vender sentenças, etc.

Enfim, basta cumprir a Constituição que juraram respeitar, zelando pela res publica. O contrário é nuvem de fumaça a despistar delitos continuados, alçando a imprensa como culpada dos males sociais. 

Risco da CPI faz base aliada negociar 'operação abafa' para poupar políticos


Eugênia Lopes, João Domingos e Evandro Fadel, 
O Estado de S. Paulo

Temor do Planalto com desdobramentos da investigação alertou governistas

BRASÍLIA e CURITIBA - Diante do alerta do Palácio do Planalto sobre os riscos de desgaste do governo, tomou corpo no Congresso, com ajuda da base aliada, uma “operação abafa” na Comissão Parlamentar de Inquérito do Cachoeira, a ser instalada nos próximos dias. Uma das estratégias é poupar políticos de diversos partidos citados na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que levou à prisão o contraventor Carlinhos Cachoeira.

Ficariam fora do radar deputados flagrados em escutas com integrantes do esquema, os governadores petista Agnelo Queiroz (DF) e o tucano Marconi Perillo (GO), além do ex-ministro José Dirceu. A única exceção seria o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), que teve 298 conversas telefônicas com Cachoeira grampeadas pela PF nos últimos três anos. O senador está sendo investigado também pelo Conselho de Ética e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A “operação abafa” é resultado da pressão da presidente Dilma Rousseff para que setores do PT defensores da CPI do Cachoeira tenham calma e não usem a comissão como palco de vingança, o que poderia causar danos políticos ao governo.

Dilma conversou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a CPI na sexta-feira, em São Paulo, conforme revelou o Estado.

O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), defendeu nesta segunda-feira, 16, que a CPI investigue os negócios de Cachoeira e não se transforme numa disputa política entre governo e oposição. “Queremos é desmantelar esta rede de poder paralelo que foi constituída por esse cidadão chamado Cachoeira e que vai desde o Legislativo, passa pelo Executivo e pelo Judiciário, pelo setor privado e pela imprensa brasileira.”

“Todos serão investigados independente de onde estejam, de qual papel tenham cumprido”, afirmou Maia, a despeito da operação abafa em curso no Congresso. Ele negou que o PT queira barrar as investigações.

Até a semana passada arauto de uma investigação que atingisse as entranhas da oposição, o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), adotou um discurso conciliador. “Acho um exagero chamar o Agnelo Queiroz (governador do Distrito Federal, do PT) e o Marconi Perillo (governador de Goiás, do PSDB)”, disse o líder, ao responder se os dois deveriam ser convocados pela CPI. Em seguida, porém, retomou a luta política: “O envolvimento do governador do PSDB com Cachoeira é muito maior. É mais razoável chamar o Marconi do que o Agnelo”.

O movimento em gestação no Congresso visa a salvar os políticos ao mesmo tempo em que tentará fazer com que a CPI concentre suas investigações no contraventor Carlinhos Cachoeira e nos empresários mais citados nos grampos da Polícia Federal, como Fernando Cavendish, dono da Delta Construções S.A. e Cláudio Abreu, representante da empresa no Centro-Oeste.

Entre os parlamentares poupados, neste momento, estão os tucanos Carlos Alberto Leréia (GO), que admitiu ser mesmo amigo de Cachoeira e saber que ele estava envolvido com o jogo ilegal, e Leonardo Vilela (GO), pré-candidato à prefeitura de Goiânia. Também foram citados nas gravações Jovair Arantes (GO), líder do PTB na Câmara, Sandes Júnior (PP-GO), Rubens Otoni (PT-GO), gravado em vídeo negociando financiamento de campanha com o empresário preso, e Stepan Nercessian (PPS-RJ), que tomou um empréstimo de R$ 175 mil do contraventor.

Oposição. O líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), disse ter a certeza de que o governo usará a imensa maioria que terá na CPI para impedir investigações mais aprofundadas. Dos 30 titulares da CPI, os partidos de oposição vão nomear apenas 6. Caberá ao governo preencher as outras 24 vagas.

O presidente do Conselho de Ética do Senado, Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), e os senadores Vital do Rego (PMDB-PB) e Humberto Costa (PT-PE) encontram-se nesta terça-feira, 17, com o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski para pedir acesso ao inquérito que apura as relações de Cachoeira com políticos. A investigação está sob sigilo.

Mensalão: ministros do STF pressionados a votar


Carolina Brígido, Isabel Braga e Cristiane Jungblut
O Globo

Voto do relator tem cerca de 500 páginas; Ayres Britto quer julgar caso ainda no 1º semestre

O GLOBO / GUSTAVO MIRANDA
Na foto, o ministro Ayres Brito do Supremo Tribunal Federal

BRASÍLIA - Interessado em marcar o julgamento do mensalão para o primeiro semestre deste ano, o ministro Carlos Ayres Britto, que assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira, tem trabalhado nos bastidores para viabilizar seu desejo. A despeito das pressões exercidas, direta ou indiretamente, pelos políticos envolvidos no escândalo e seus advogados, Ayres Britto, com a ajuda do relator do processo, Joaquim Barbosa, tem conversado com os demais colegas para verificar se já estão trabalhando em seus votos para o julgamento no plenário.

Ou seja: internamente, todos os ministros estão sendo pressionados para fazer sua parte. Em especial Ricardo Lewandowski, o relator revisor do processo. Recentemente, ele ouviu de um colega uma cobrança mais dura para que entregue logo o voto:

— O senhor não quer entrar para a História como coveiro do mensalão, né?

Em dezembro do ano passado, Lewandowski recebeu de Barbosa o relatório do caso. Agora, precisa elaborar um voto minucioso e entregá-lo à presidência do tribunal para que o julgamento seja marcado. O voto do relator Joaquim Barbosa está quase pronto e terá cerca de 500 páginas.

Lewandowski não diz quando vai terminar o trabalho, mas anunciou que quer fazer isso ainda neste semestre, mesmo com a dificuldade do tamanho do processo. São 38 réus, mais de 600 depoimentos de testemunhas e cerca de 50 mil páginas para serem estudadas.

Ayres Britto não quer que o julgamento seja adiado para o segundo semestre, quando já estará em curso o processo eleitoral. Diante de tantas cobranças - da opinião pública e dos colegas -, Lewandowski decidiu se dedicar mais. Nesta quarta-feira, quando for substituído na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela ministra Cármen Lúcia, não voltará à bancada da Corte. Renunciará ao posto para ficar integralmente no Supremo.

Julgamento ocorrerá mesmo com dez ministros na Corte
Em entrevista ao GLOBO publicada no último domingo, Ayres Britto não só afirmou que deseja julgar o processo do mensalão até 6 de julho, quando a campanha eleitoral começa oficialmente, como pretende manter o julgamento mesmo que o STF esteja apenas com dez ministros. No segundo semestre, a Corte deverá trabalhar com dez integrantes porque o atual presidente do STF, Cezar Peluso, vai se aposentar. Ainda assim, disse Ayres Britto, ele manterá o julgamento em pauta, caso não seja possível concluí-lo no primeiro semestre:

— O ideal é o número 11, ímpar. Mas, se só tiver dez, qual o presidente que vai esperar nomear o substituto do ministro Peluso, que você não sabe quando vai acontecer, e deixar o processo sem julgamento? — disse Ayres Britto.

Folha diz que estratégia do PT é denegrir o procurador-geral da República, nomeado por Lula


Tribuna da Imprensa

Reportagem de Natuza Nery e Valdo Cruz, na Folha, revela que petistas que negociam a criação da CPI do Cachoeira querem transformar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em um dos focos das denúncias.

O objetivo é cobrar explicações do procurador sobre o fato de ele não ter começado a investigar políticos ligados ao empresário Carlinhos Cachoeira três anos atrás.

O PT avalia que Gurgel segurou a investigação desde 2009, o que teria beneficiado os suspeitos na Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal em fevereiro. Naquele ano, estava em curso uma operação da PF que precedeu e baseou a Monte Carlo, chamada Vegas. Ela também investigava Cachoeira e resvalou em suas ligações com políticos com foro privilegiado.

Por isso ela foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República, que tem a competência de processá-los criminalmente, mas não abriu apuração no Supremo Tribunal Federal.

Petistas enxergam na suposta omissão uma oportunidade de constranger e desgastar o procurador num momento-chave: o julgamento do processo do mensalão, previsto para este ano. No plenário do Supremo, caberá a Gurgel sustentar as alegações da acusação contra os réus do mensalão.

A cúpula do PT não esconde a irritação com o procurador desde o ano passado, quando ele encaminhou à corte as alegações finais do processo, defendendo a condenação de 36 réus. Petistas reclamaram do excesso de adjetivação do documento.

A CPI do Cachoeira deve ser criada na próxima terça para apurar o envolvimento de agentes públicos e privados com o empresário. Por iniciativa do PT, a comissão vai investigar as duas operações, a Monte Carlo e a Vegas.

Nos bastidores, líderes petistas e integrantes do governo chegam a levantar, no limite, a hipótese de um processo de impeachment contra Gurgel, caso fique provado que ele segurou deliberadamente a investigação por algum eventual interesse político no episódio.

Procurada, a assessoria de imprensa da Procuradoria justificou a decisão do órgão, afirmando que, no momento em que recebeu o material, o procurador-geral fez uma avaliação preliminar e verificou não haver elementos suficientes para nenhuma iniciativa do STF, optando como estratégia de atuação “sobrestar [suspender] o caso”.

Ainda segundo a assessoria, com isso se evitou que fosse revelada a investigação relativa a pessoas não detentoras de foro privilegiado, podendo inviabilizar o curso da Monte Carlo.

O fim de um mistério


J.R.Guzzo
Exame

O distinto público ficou anos sem entender para que, afinal, servia o tal Ministério da Pesca. Um escândalo de alguns milhões de reais depois, finalmente temos a resposta

IDELI SALVATTI, EX-MINISTRA DA PESCA:
Ela garante que não houve nada de mais com as lanchas pagas pelo Erário

Um dos maiores curiosos mistérios da Administração Pública brasileira, que há nove anos vinha desafiando qualquer tentativa de explicação, foi finalmente esclarecido: para que serviria o Ministério da Pesca? Desde que foi fundado, em janeiro de 2003, logo no primeiro governo do ex-presidente Lula, o ministério (cujo nome completo, acredite-se ou não é Pesca e Aquicultura) não foi capaz de acrescentar um único bagre,  nem um modesto lambari que seja, à produção nacional de peixes. Nenhuma das funções que se possa imaginar para ele já não é exercida por um monte de milhares de repartições públicas que estão há décadas por aí, neste nosso Brasil tão grande – do Ibama à Receita Federal, das capitanias de portos às secretarias de Finanças dos estados, dos distritos navais da Marinha às Prefeituras do litoral, oi seja lá ao diabo que for. Pesca-se no Brasil há 500 anos, e nunca passou pela cabeça de ninguém  que um ministro pudesse baixar uma portaria capaz de fazer um cardume de sardinhas, por exemplo, aparecer onde sardinhas, pelas suas  razões pessoais não querem dar as caras. Lula, a certa altura, chegou a dizer que o ministério teria a missão de fazer a “reforma aquária” – pois a reforma agrária, em mais uma das grandes realizações de seu governo, já estava no papo. Foi engraçado, mas não explicou nada. É óbvio, também, que o Ministério da Pesca jamais iria ensinar alguém a pescar ou a pescar melhor – o ministro recém-presenteado com o emprego,  aliás, teve um acesso de sinceridade no momento de sua nomeação e disse que, em matéria de pesca, não saberia enfiar uma minhoca no anzol.  

Felizmente, de um momento para outro, o enigma foi resolvido: o Ministério da Pesca serve para empresários amigos do PT venderem lanchas ao Ministério da Pesca. Ah, bom: agora dei, até que enfim, para entender. As explicações foram fornecidas, dias atrás, por uma reportagem de O Estado de São Paulo. Um empresário que em 2010 havia doado 150 000 reais à campanha da atual ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, ao governo de Santa Catarina, conseguiu vender 28 lanchas – patrulha para o Ministério da Pesca, por algo acima de 30 milhões de reais. Há pouca coisa que se salve nessa história. A experiência da tal empresa no ramo da indústria naval se resumia, até o fechamento do negócio, à construção do grande total de uma (1) lancha. O ministério não podia ter comprado lanchas-patrulhas: na está legalmente autorizado a fazer patrulhas (é mais uma das coisas que não faz) e, se não pode fazer patrulhas, não precisa de lancha para patrulhar coisa nenhuma. Das 28 que socaram em cima do Erário, 23 está até hoje encostadas sem utilização. Ideli ficou em terceiro lugar na eleição, mas ganhou do governo Dilma Rousseff – justamente, por uma dessas grandes coincidências da vida, o Ministério da Pesca. Ali, por sinal, mandou pagar a última parte da fatura ainda devida ao homem das lanchas e contribuinte de sua campanha; coisinha de 5 milhões, nada muito mais do que isso. Naturalmente, o governo e o PT juram que nenhuma dessas coisas tem nada a ver a outra.    A ministra Ideli não tem nada a ver com o caso. Nada tem a ver com nada. Na verdade, não aconteceu  nada. Fim da peça.

O Ministério da Pesca. Como se vê agora, só servia para isto: aumentar o mundo da vigarice que se formou, no Brasil, em torno da ideia do “Estado forte”, que tanto encanta o PT, os empreiteiros de obras e qualquer sujeito que tenha alguma coisa a vender para o governo. Não falem, perto da presidente Dilma, em diminuir o tamanho desta gosma; isso poderia ser entendido como uma defesa do “Estado mínimo”, e ela tem horror ao “Estado mínimo”. Fechar um ministério, então, é considerado praticamente um ato criminal. Nem que seja, caso venha a ser criado um dia, o Ministério das Perguntas Cretinas, legado imortal do Millôr Fernandes, que acaba de nos deixar! 

O uísque e o retrato


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Paulo Maciel, professor de sociologia e reitor da Universidade Federal de Pernambuco, deputado, primo de Marco Maciel, logo depois do golpe de 64 foi nomeado presidente do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool) pelo presidente Castelo Branco. Veio para o Rio, começou a trabalhar.

O IAA era sinônimo de Pernambuco. Sendo também ele um filho quatrocentão de Recife, Paulo Maciel conhecia todos os usineiros do Estado. No fim do ano, começaram a chegar a seu apartamento, na zona sul do Rio, caixas de uísque de seus amigos usineiros, como presentes de Natal.

Ele não bebia, não gostava dos presentes, mas não podia fazer nada. E o uísque chegando e a mulher dele guardando no quarto dos fundos. Passou o Natal, o Ano Novo, aquelas caixas ali empilhadas. Fazer o que? A mulher, muito naturalmente, resolveu livrar-se daquele uísque todo: pôs um anúncio mínimo nos classificados do Jornal do Brasil: “Vende-se uísque escocês”.

PAULO MACIEL
E o endereço muito bem explicado. Antes do meio-dia, Paulo Maciel trabalhando no IAA, chegam dois senhores bem vestidos, terno e gravata:

– A senhora anunciou uísque escocês para vender? Quantas caixas são? De que marca? Podemos ficar com tudo.

– Pois não. Entrem e vejam lá dentro. Há muitas caixas, meias caixas e algumas garrafas isoladas. Nunca somei.

Os homens foram, contaram tudo, anotaram tudo, chamaram uma Kombi pelo telefone, mandaram descer as caixas:

– Quanto é, minha senhora?

– Tanto.

– Infelizmente, não podemos pagar. Somos da Policia Federal.

Paulo Maciel ficou com ódio de presente de usineiro.

RETRATO DE GEISEL
Madalena trabalhava em Realengo, subúrbio do Rio, empregada na casa do doutor Otacílio, advogado e cabo eleitoral da Arena. Doutor Otacílio ajudou na eleição do deputado Nina Ribeiro, que lhe conseguiu um retrato, com assinatura, moldura e tudo, do presidente Geisel. Pôs o retrato logo na entrada do escritório, como homenagem e prova de prestígio.

Madalena era mãe de Joãozinho, quatro anos, menino travesso, que subia e descia das janelas como um trapezista. Madalena ficava em pânico quando ele subia nas janelas. Uma noite, doutor Otacílio chegou em casa, foi direto para o escritório. Percebeu que o retrato de Geisel não estava na parede:

– Madalena, onde é que está o retrato do presidente?

JOÃOZINHO
Madalena ficou lívida. Doutor Otacílio ouviu o choro de Joãozinho:

– Por que é que o menino está chorando?

– Pus de castigo, doutor. Ele está levado demais. Não sai de cima das janelas. Uma hora dessas cai lá embaixo e morre.

Doutor Otacílio foi lá dentro tirar Joãozinho do castigo. Encontrou-o em prantos e o retrato do presidente Geisel na parede do quarto:

– O que é que a fotografia do presidente está fazendo aqui, Madalena?

– Doutor, é o castigo. O Joãozinho tem pavor desse retrato. Eu prendo o Joãozinho, ponho o retrato, ele chora, mas logo depois fica bonzinho. É a única coisa de que ele respeita. Só fica bom com o retrato desse homem.

O retrato de Geisel amedrontava mais do que a Polícia Federal.

A denúncia revisitada


Dora Kramer
O Estado de S.Paulo

A ideia de Lula e companhia de convencer a sociedade em geral e o Supremo Tribunal Federal em particular de que as ocorrências registradas sob a rubrica "mensalão" não passaram de uma urdidura da oposição mancomunada com a imprensa municiada de informações por bandidos sofre de um erro de origem.

Para se concordar com a tese é preciso aceitar por consequência que a Procuradoria-Geral da República que ofereceu a denúncia em 2006 e o Supremo Tribunal Federal que no ano seguinte houve por bem transformá-la em processo, são cúmplices de uma farsa e, portanto, farsantes.

Antes de se cometer uma leviandade dessa dimensão conviria aos interessados fazer a leitura, senão das 136 páginas ao menos das 12 primeiras nas quais o então procurador-geral Antonio Fernando de Souza resume o que as investigações o levaram a concluir.

O procurador começa descrevendo a cena deflagradora do escândalo: um diretor dos Correios (Maurício Marinho), gravado em vídeo em conversas "para ilicitamente beneficiar um suposto empresário interessado em negociar com os Correios, mediante contratações espúrias, das quais resultariam vantagens econômicas tanto para o corruptor, quanto para o grupo de servidores e dirigentes da ECT que Marinho dizia representar".

Prossegue o procurador relatando como o então presidente do PTB e deputado, Roberto Jefferson - "acuado, pois o esquema de corrupção e desvio de dinheiro estava focado num primeiro momento em dirigentes dos Correios indicados pelo PTB" - forneceu os detalhes iniciais, "esclarecendo que parlamentares que compunham a base aliada recebiam, periodicamente, recursos do Partido dos Trabalhadores em razão do seu apoio ao governo federal, constituindo-se o que se denominou como mensalão".

A atuação, segundo consta da denúncia, ocorria de duas formas: o loteamento político dos cargos públicos, o que Roberto Jefferson denominou "fábricas de dinheiro", e a distribuição de uma "mesada" entre os parlamentares.

"Relevante destacar, conforme será demonstrado nesta peça, que as imputações feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson ficaram comprovadas", aponta Antonio Fernando de Souza.

Segundo ele, o cruzamento de dados bancários e a quebra de sigilos "possibilitaram a verificação de repasses de verbas a todos os beneficiários" relacionados no inquérito. "Na realidade, as apurações foram além, evidenciando engendrados esquemas de evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro".

No trecho mais conhecido, no qual se destaca a expressão "sofisticada organização criminosa", o procurador - baseado no "conjunto probatório do presente inquérito" - traça o retrato da "estrutura profissional montada para a prática de crimes como peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta além das mais diversas formas de fraude".

Cita nominalmente José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino e Silvio Pereira (já excluído do processo) como responsáveis, na condição de "dirigentes máximos do partido", por desvios cujos objetivos eram "negociar apoio político, pagar dívidas pretéritas do partido e também custear os gatos de campanha e outras despesas do PT e dos seus aliados".

Tudo isso para "garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores".

Os detalhes de como foi feito isso, a descrição minuciosa de ações, dos mecanismos utilizados por intermédio do dito publicitário Marcos Valério para atender à "demanda criminosa", o conluio com bancos privados, com dirigentes de empresas estatais estão expostos nas 136 páginas da denúncia oferecida pela Procuradoria-Geral da República.

Peça aceita pelo STF não como fator de condenação, mas como conjunto de indícios suficientemente robustos para a abertura do processo.

No julgamento os ministros do STF podem até concluir pela falta de provas bastantes contra os réus. Pode inocentá-los ou deixá-los impunes por força de prescrição de penas. Mas de burla com toda certeza não se pode qualificar a narrativa em tela.

CPI no partido dos outros é refresco


Levi Vasconcelos 
247

O caso do senador Demóstenes não deixa de ter certa verossimilhança ao silêncio dos deputados baianos com o colega e deputado Roberto Carlos

A volta do deputado Roberto Carlos (PDT) à Assembleia da Bahia, depois de ter sido acusado pela Polícia Federal de sustentar um time de funcionários do qual embolsa parte do dinheiro, foi um festival de amabilidades. Os colegas o tratavam com tapinhas nas costas, abraços, como se estivessem cumprimentando alguém que saiu de refrega pessoal intransferível.

Por trás da cortina, não era bem isso. Saiu da refrega, sim. Mas transferível. O espírito de corpo era óbvio. Contabilize-se que no calor da hora, na segunda da semana retrasada, quando a PF entrou de madrugada no gabinete do deputado, arrombou a fechadura da porta, vasculhou o que quis e nada levou, ninguém falou.

Na terça, quando a sessão ordinária começou, pouco mais de 24 horas depois, publicamente nem parecia que tal episódio havia acontecido. Nem um piu. Podia ser tudo, menos o silêncio dos inocentes. Da prática que Roberto Carlos é acusado muitos são suspeitos. O colega na mais ingênua das hipóteses, 'deu azar'. Por isso todos agiram como se nada de imoral houvesse de tudo que estava na boca do povo, levado ao ar pela mídia.

Perguntas intrigantes
Se publicamente tudo era silêncio, o tititi, listado a seguir de forma que possamos dar organicidade ao caso, foi bem adubado:

1 – Sendo a verba em apreço de uma instituição estadual, a PF tem competência para investigar?
R - Ao que tudo indica, pode. Agora, no Amapá, o governador Camilo Capiberibe está sendo investigado pela PF com autorização da justiça por ter 35 contas bancárias, fato descoberto durante a Operação Mãos Limpas, que apurava fraudes em licitações dos antecessores de Camilo, Pedro Paulo Dias e Waldez Góes. Uma coisa gerou outra (o governador jura de pé junto que só tem três contas).

2 – A PF argumenta que agiu a partir de informações de 2008 do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que apontou movimentação financeira acima do justificável do parlamentar. O tal documento, encaminhado pelo Ministério Público Federal a justiça aponta Roberto Carlos e mais 20 parlamentares. Por que só Roberto Carlos foi alvo da investigação?
R – Não há uma resposta conclusiva. A PF alega segredo de justiça para ocultar detalhes do caso depois de ter convocado uma entrevista coletiva para dar alguns detalhes da Operação Detalhes.

Afirma agora que a acusação básica é sonegação fiscal. Mas só Roberto Carlos comete tal delito na Assembleia?
O leque de especulações é vasto. Teria sido por conta da amizade do deputado com a juíza Olga Regina Guimarães, notória e ostensiva inimiga da PF (Em fevereiro último, Roberto Carlos levou a magistrada a Juazeiro para lançar o livro O preço amargo da calúnia, na qual ela ataca com vigor figuras da polícia (inclusa a Federal)? Ou ainda porque a PF queria pegar Carlos Luppi, presidente nacional do PDT, não conseguiu e descontou no deputado baiano?

Se foi por Olga ou Luppi seria ato de vingança, o que deixaria a PF sai apequenada. Mas convenhamos, o ato policial enseja tal tipo de especulação e não deixa de apequenar-se em si, na medida em que só investigou um num universo de muitos suspeitos.

A questão principal
O foco dado pela mídia à suposta contratação de funcionários fantasmas carece de alguns ajustes. Nada há demais em um deputado contratar um funcionário que trabalha noutro município, conforme suas conveniências. Faz parte. Se equívocos há, não são da natureza do princípio e sim do serviço público de modo geral.

Isto posto, havemos de convir que o caso de Roberto Carlos teve lá seus méritos. Primeiro, trouxe a tona a real raiz do descalabro, essa de deputados contratar assessores por salários, que podem chegar até a R$ 11 mil e embolsar uma parte do dinheiro.

É algo sempre comentado a boca pequena, mas nunca publicizado. O dinheiro sai em nome do servidor, que devolve parte ao deputado. Há um caso que chocou os corredores da assembleia: o deputado chegou a cobrar do servidor a devolução da restituição do Imposto de Renda.

Todo mundo sabe e ninguém diz por uma razão elementar: os servidores também são cúmplices. Se estão ocupando posições de confiança algum vínculo político há. Dedurar o deputado, neste caso, ficaria mal, não só com ele, mas também com outros, sem contar as implicações legais. Espera-se que o rebu estimule servidores de ex-deputados a abrir a boca. É o mínimo que se pode esperar.

Sem primeira pedra
Deputado ganha na Bahia em torno de R$ 20 mil por mês, tem mais R$ 60 mil de verba de gabinete (com a qual contrata os seus funcionários no limite de até R$ 11 mil), e mais quase R$ 30 mil de verba indenizatória, aquela que ele paga despesas de viagens como diárias, gasolina e afins, é 'indenizado'. Mas diz que é pouco para o tamanho dos gastos do mandato (quando se vai conversar com algum deles sobre o assunto convém sempre levar um lenço para enxugar as lágrimas, de tanta pena que dá).

É nesse jogo que mora o perigo. Antes, eles tinham a verba de subvenção para doar a entidades filantrópicas. Foi tanta maracutaia, tanta ONG fajuta, só para desviar dinheiro, que acabaram extinguindo.

Não é de graça que a Assembleia mostrou o espírito corporativo ante o barulho midiático do caso. Ficou parecendo que todo mundo tem telhado de vidro. E o melhor, em tal situação, é não provocar a PF, para não futucar o cão com vara curta. Se isso não foi dito, foi praticado.

Num cenário desses, ninguém ousa a atirar a primeira pedra. O que muito contribui para o consenso popular, raras vezes injusto, quase sempre pertinente, de que todo político é desonesto.

Exemplo do Senado
O caso do senador Demóstenes Torres está aí como bom paradigma. Quando o STF se negou a mandar para o Senado informações sobre o caso alegando sigilo de justiça, imediatamente os senadores se assanharam. Puxados pelo baiano Walter Pinheiro, líder da bancada do PT, a proposta de formação de uma CPI ganhou plena concórdia de governistas e oposicionistas com a mesma velocidade de fogo morro acima ou água morro abaixo.

Bom lembrar que senadores e deputados adoram CPI. Assim era quando o PT estava na oposição, assim é agora, com o DEM e o PSDB na oposição. É um bom palanque midiático. Mas bastou surgir o nome do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, do PT, o PT e o governo deram sinais de recuo. Quer o governo que o presidente seja do PMDB e o relator do PT.

Claro que Roberto Carlos não é Demóstenes. O senador é figura de notoriedade nacional que amealhou tal condição com ácido inquisidor de outros autores de delitos, um paladino da moralidade. E o escândalo com ele é nacional e bem mais grave pela própria natureza.

Mas não deixa de haver certa verossimilhança o silêncio dos deputados baianos com o colega e o medo dos governistas que os contraventores de Demóstenes tenha tentáculos bem mais abrangentes do que parece.

Lá, consagra-se o princípio de que CPI no partido dos outros é refresco. Ninguém quer ser vidraça. Só pedra.

Controlar a mídia? Além de inconstitucional é algo impossível


Pedro do Coutto
Tribunas da Imprensa

Uma parte do PT, a que segue a orientação, falsa orientação, do ex-ministro José Dirceu, representado pelo presidente da legenda, Rui Falcão, está tentando aproveitar o embalo do escândalo envolvendo o senador Demóstenes Torres, o empresário Carlos Cachoeira e várias outras pessoas, entre elas o governador de Brasília, Agnaldo Queiros, e até um ex-diretor da Delta Construtora, para investir mais uma vez contra a liberdade de imprensa. A tese é a de sempre: controle da mídia.

Algo inconstitucional e, além disso, impossível na prática. O que essa corrente do Partido dos Trabalhadores chama de controle? Ela sequer consegue explicar. Não coloca nada de concreto para debate, simplesmente porque não possui legitimidade tal projeto. E, como dizia o jurista Santiago Dantas, nenhuma posição é legítima, quando aquele que a ocupa não puder dizer seu verdadeiro nome. A frase é textual. E, a meu ver, a melhor e mais clara síntese de uma situação humana. Não só política, mas também social.

Reportagem primorosa de Cátia Seabra e Márcio Falcão, Folha de São Paulo de sexta-feira, focalizou amplamente a sombra que a facção mais em risco do partido tenta lançar sobre o regime democrático.O objetivo é tentar apagar ou diluir o mensalão da consciência coletiva, portanto do julgamento, não só pelo Supremo, mas também por parte da opinião pública.

Não valendo a pena entrar na análise do tema, tão absurdo ele é, devemos apenas colocar os pontos constitucionais que asseguram a liberdade de expressão. Portanto se os pontos pertencem à Constituição de 88, somente poderão ser mudados através de emenda. Não da lei ordinária. Porém exigir esta clareza do deputado Rui Falcão é esperar demais. Ele, aliás, não pensa por si. Age por José Dirceu. Não considera tampouco que a posição da presidente Dilma Rousseff é exatamente contrária à assumida pelo ex-chefe da Casa Civil – vale acentuar, o maior derrotado pelo episódio do mensalão.

Direceu não só foi demitido por Lula e teve o mandato parlamentar casado. Na verdade, jogou fora a Presidência da República. Não ocorresse o desfecho que aconteceu, seria ele, e não Dilma Rousseff, o candidato de Lula à sucessão de 2010. Ao bater o pênalti para fora, Dirceu chutou o próprio destino. E dificilmente a sorte passa duas vezes pelo caminho do iluminado.

José Dirceu derrotou a si mesmo. Episódio singular na política? Não. Rejeitando ser vice de JK em 65, Leonel Brizola perdeu outro grande pênalti da história. Investindo contra a posse de Negrão de Lima, em 65, Carlos Lacerda explodiu sua própria candidatura presidencial. Provocou a crise institucional e terminou entregando o poder ao general Costa e Silva, com a implantação das eleições indiretas de 66. Coisas da política, título da brilhante coluna que Carlos Castelo Branco assinava no Jornal do Brasil.

Os homens passam, os exemplos ficam. O espelho derrotou José Dirceu, derrotou Brizola, derrotou Carlos Lacerda. Mas falei em dispositivos constitucionais que impedem qualquer controle sobre os meios de comunicação. Vamos a eles. Ítem 4 do art.5º: “É livre a manifestação d pensamento, sendo vedado o anonimato”. Item 5 do mesmo artigo:”É assegurado o direito de resposta”. Parágrafo 3º, artigo 222: “Os meios de comunicação eletrônica, independentemente da tecnologia, deverão observar a mesma determinação.” Finalmente o artigo 220: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística. É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. É isso aí.

Gilmar Mendes volta a pedir pressa no julgamento do mensalão, mas não será atendido...


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

Com impressionante frequência, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, tem defendido que o julgamento do mensalão aconteça ainda neste semestre. Para quem entende mensagens cifradas, isso significa que no STF o processo está sendo mesmo conduzido para um atraso cada vez maior, de forma a propiciar a prescrição dos crimes.

Segundo o ministro, as aposentadorias de Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, no semestre que vem, podem atrapalhar o caso e admitiu que não analisar o tema ainda neste ano pode ser ruim para a imagem da Justiça.

Mendes ressalta, no entanto, que os ministros precisariam limpar a pauta ou suspender as votações de outros assuntos polêmicos. “Este é um assunto complexo, com muitos envolvidos, por isso temos que ter a disposição e organizar algo especial”, afirmou.

Em sua opinião, esse excesso de assuntos importantes pode levar a erros, como o que aconteceu com a decisão que determinou a instalação de comissões mistas para a análise de medidas provisórias. O episódio gerou uma polêmica e repercutiu negativamente no Congresso.

“O que vocês falaram de pane, que pode ter sido uma pane efetiva nossa na questão das medidas provisórias. Quem está submetido a julgamentos dessa relevância pode acabar incorrendo nesse tipo de coisa”, diz ele.

O ministro admite ainda uma pressão enorme dos dois lados no caso do mensalão: aqueles que querem o julgamento rápido e os que não querem. Segundo ele, uma novidade sobre o assunto deve acontecer nos próximos dias. O que será? Boa coisa não é…

LEWANDOWSKI SE ESTRESSA
O mensalão causa estresse entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), informa a coluna “Mônica Bergamo”, publicada na Folha. Motivo: Luiz Fux sugeriu a Gilmar Mendes e Carlos Ayres Britto que realizassem sessão administrativa para discutir o andamento do caso. Mendes disse que primeiro Ricardo Lewandowski, que revisa o processo, precisaria liberar o relatório.

Lewandowski não gostou. Disse que, se Mendes se metesse em assuntos de seu gabinete, também se meteria em assuntos dele. Mendes respondeu afirmando que até agradeceria, se isso o ajudasse. Mendes disse ainda que continuará falando sobre o mensalão, sim, sempre que entender que isso é necessário.

AYRES BRITO QUER PRESSA
O novo presidente do Supremo, Ayres Brito, promete julgar antes do primeiro semestre, vejam só, para não atrapalhar a campanha eleitoral. Ou seja, submete a Justiça a circunstâncias externas.

Pode prometer à vontade, mas a questão só entra em pauta quando o relator (Joaquim Barbosa) e o revisor (Lewandowski) quiserem. Na verdade, até as paredes do Supremo sabem que o caso do mensalão será empurrado com a barriga rumo à prescrição, que inclusive já começou. As penas mais leves estão prescritas, os réus cada vez mais tranquilos, conscientes da impunidade.

A desmoralização da Justiça vai aumentar, é claro. Mas quem se importa com isso?