domingo, setembro 28, 2008

Irmãos menores, mas pivetes?

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Esta semana o presidente Lula, ainda em Nova York, usou a feliz imagem do irmão mais velho tomando conta dos menores para explicar a paciência demonstrada pelo Brasil diante das provocações da Bolívia, do Paraguai e agora do Equador. Todos cobram do irmão mais velho tudo o que acontece ou deixa de acontecer na casa.

Com todo o respeito aos nossos "hermanos", mas bem que o presidente Lula poderia ter seguido adiante e caracterizado Evo, Lugo e Correa não só como irmãos mais novos, mas como pivetes mal-educados e malcriados. Porque os presidentes desses três países estão mais preocupados em atuar para os respectivos públicos internos do que realmente para resolver seus problemas internos. É bom ressaltar que Fernando Lugo, do Paraguai, ainda se encontra em meio ao processo de auto-exaltação que seus colegas boliviano e equatoriano já completaram. Mas não demora muito, conforme indicações vindas de Assunção.

A explicação é simples: elegeram-se, os três, em nome de uma falsa esquerda, debulhando promessas inviáveis para o eleitorado. Ao mesmo tempo, enfrentam a reação dos setores reacionários de seus países. Para ganhar fôlego, então, investem contra o Brasil, que tentam transformar em inimigo externo. Valem-se do exemplo do chefe da gangue onde pediram inscrição, no caso, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.

Esquecem-se, porém, de que o modelo a copiar, mesmo liderando a baderna, é rico, mora num palacete e os deixa dormindo na rua quando, de noite, volta para casa. Se Chavez desafia os Estados Unidos, por que eles não fariam o mesmo com o Brasil? Só que Chavez tem petróleo numa proporção que os gringos não podem prescindir, enquanto Bolívia, Paraguai e Equador nada têm de essencial para barganhar com a gente.

O gás da Bolívia? Ora, em pouco tempo seremos auto-suficientes no produto, sendo que se a situação apertar poderemos importar gás de outras fontes, por via marítima.
Em suma, os irmãos mais novos caminham céleres para transformar-se em pivetes, merecendo, enquanto é tempo, umas boas palmadas.

O ministério definitivo
Falta pouco para as eleições municipais revelarem um novo quadro político e partidário. Senão no primeiro, com certeza no segundo turno, saberemos quem subiu e quem desceu na gangorra onde o governo Lula se equilibra.

Traduzindo: se o PT eleger os prefeitos que imagina, ganhará cacifes para confrontar o próprio Palácio do Planalto. A vitória em capitais de grande expressão como Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza e outras darão aos companheiros oxigênio suficiente até mesmo para exigir que a escolha do candidato à sucessão de 2010 se faça em condomínio. Parece óbvio que vão querer maiores espaços no ministério, bem como opinar sobre os rumos dos últimos dois anos do mandato do presidente Lula.

Mas se for o PMDB a manter a supremacia nos municípios, elegendo mais prefeitos e vereadores além dos atuais, ficará difícil ao Palácio do Planalto evitar a pretensão maior do partido, no caso, de indicar o candidato à vice-presidência na chapa oficial. Os peemedebistas não deixarão, também, de controlar o Congresso.

No reverso da medalha, quem garante que PSDB e DEM, aliados, não se tornarão os maiores vitoriosos nas próximas urnas? A conseqüência será o acirramento da pregação oposicionista, também com vista à sucessão presidencial. Ficará o governo Lula obrigado a blindar-se para manter o poder, podendo emergir outra vez a proposta do terceiro mandato ou, mesmo, a abominável sugestão da prorrogação geral de mandatos por dois anos.

Tudo indica, em qualquer dos casos, uma vez conhecidos os resultados das urnas, que o presidente Lula se obrigará a uma recomposição do ministério. Poucos ministros estão garantidos, hoje, até porque, para continuar mantendo a popularidade e elevar sua administração a novos patamares, o chefe do governo necessitará promover alterações. Não é o caso da citação, hoje, de ministros fortes e de ministros fracos, mas basta passar os olhos na relação do ministério para se ter razoável noção de quem precisa ficar e de quem precisa sair.

Para concluir, a partir de novembro ninguém conseguirá segurar as especulações, mesmo se Lula, até lá, negar qualquer disposição de reformar o quadro de seus principais auxiliares.

Vantagem para os russos
Se o ministro Mangabeira Unger não atrapalhar, o Brasil poderá entrar no próximo ano com contratos já apalavrados com a Rússia, para a compra de uma partida de caças Sukoi. Fala-se no ministro do Futuro porque da Amazônia ao petróleo do pré-sal, do Plano Nacional de Defesa à política externa, ele se mete em tudo.

Como a decisão deve ficar restrita ao ministro da Defesa e aos comandantes das três forças armadas, é provável que a operação se concretize no correr do primeiro semestre de 2009. Junto com outras, que incluem submarinos franceses, helicópteros e variado equipamento militar.

Os caças Sukoi são considerados os mais modernos, maleáveis e de maior raio de ação. Além do que, os russos se dispõem a repassar tecnologia e garantir peças de reposição, coisa que os americanos não fazem.

A luta continua
Engana-se quem supõe a Polícia Federal na defensiva, disposta a refluir em suas operações investigatórias diante do crime organizado e das maracutaias praticadas nos altos escalões da economia e da administração. A crise dos grampos telefônicos não abalou a instituição, apenas determinou certas cautelas mais pessoais do que funcionais.

Está prevista para os próximos dias uma operação de grande envergadura, dizem que atingindo figuras tão exponenciais quando Daniel Dantas. Aliás, deve cuidar-se o megaespeculador, porque o seu calvário parece longe de haver terminado. Não é verdade que a Polícia Federal deixou de decifrar os disquetes retirados de seus computadores. Estão todos traduzidos.

Está na hora de perder a paciência

Estadão

As pesquisas de opinião indicam que a nova "constituição socialista e bolivariana" do Equador será aprovada, folgadamente, no referendo de domingo. Mas o presidente Rafael Correa não brinca em serviço. Para garantir a vitória, ele já gastou soma inédita em campanhas eleitorais no país - tudo dinheiro público, é claro. Também abriu a temporada de concessão de empréstimos e financiamentos por instituições oficiais de crédito a pessoas e organizações selecionadas. Só faltava, para garantir uma vitória estrondosa, um acontecimento que unisse a nação em torno de seu presidente.

É isso o que explica a assinatura, a quatro dias do referendo, do decreto de "estado de emergência preventiva" que, a pretexto de evitar um provável colapso do fornecimento de energia no país, fechou as operações da Odebrecht no Equador, congelou seus ativos e suspendeu direitos constitucionais de quatro cidadãos brasileiros, executivos daquela empresa, proibindo-os de deixar o país. Além disso, o presidente Rafael Correa mandou unidades do Exército, especializadas em operações especiais, ocuparem os escritórios e canteiros de obras da construtora. Também ameaçou não pagar um empréstimo de US$ 200 milhões, contraído para a construção da Hidrelétrica de San Francisco.

Essa usina, construída pela Odebrecht, foi entregue em julho de 2007, nove meses antes do prazo fixado e, no dia 6 de junho último, teve de deixar de operar porque apresentava problemas estruturais. A Odebrecht se dispôs a fazer os consertos necessários e, como o projeto da obra é do governo equatoriano, propôs que a responsabilidade pela paralisação do fornecimento de energia fosse definida por arbitragem da Câmara de Comércio Internacional, como prevê o contrato entre a construtora e o Equador. Para tanto, faria uma caução de US$ 43,8 milhões.

Mas não interessava ao presidente Rafael Correa resolver uma questão comercial pelos meios regulares. Ele precisava criar um factóide para ampliar sua base de apoio. Já havia usado essa mesma tática, nos primeiros dias de seu governo, quando escolheu dois "inimigos externos" para combater. Os primeiros foram o FMI e o Banco Mundial, ameaçados de um calote que nunca ocorreu. O segundo foi a Petrobrás, que tinha a concessão de dois campos de petróleo na Amazônia equatoriana, dos quais finalmente teve de abrir mão.

O presidente Rafael Correa considera que a intervenção na Odebrecht não terá repercussões negativas sobre o relacionamento entre o Equador e o Brasil. Afinal, o chanceler Celso Amorim declarou - à semelhança do que fizera quando Evo Morales mandou tropas para as refinarias da Petrobrás, na Bolívia - que o governo equatoriano tem o direito de proibir a atuação da construtora no país. E o Itamaraty não esboçou a menor reação à aberrante violação dos direitos de quatro cidadãos brasileiros, dois dos quais estão refugiados na embaixada em Quito.

Em Nova York, onde estava para a sessão de abertura dos trabalhos da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com a calma paternal que tem exibido quando interesses brasileiros legítimos são afrontados pelos hermanos, bolivarianos ou não. Disse não estar preocupado com a ameaça do calote ao BNDES e acrescentou que esperava um telefonema de Rafael Correa para conversarem como "dirigentes civilizados". Como sempre, nessas ocasiões, usou a metáfora do irmão mais velho. O Equador seria o "irmão menor", que, mesmo sem razão, fica fazendo cobranças ao mais velho, que precisa encarar a situação com paciência. Finalmente, lembrou que "no Equador há eleições domingo. Vamos deixar a bola passar para resolver esse problema. Esse é o papel do Brasil".

Não é. A excessiva tolerância do governo petista aos abusos cometidos por governos populistas da região contra empresas e interesses brasileiros quando muito pode ajudar os "irmãos menores" a ganhar eleições. Mas Lula não foi eleito presidente do Brasil para isso. Cabe-lhe zelar, em primeiro lugar, pelo interesse nacional, exigindo que o Brasil seja respeitado de fato pelos países vizinhos. Hoje, os populistas que controlam os países da vizinhança vêem o Brasil como um gigante de pés de barro, que pode ser desafiado à vontade, pois tem uma paciência inesgotável para aceitar desaforos e tolerar esbulhos. Já passou da hora de perder a paciência.

O diploma e os ministros

Editorial Folha de São Paulo

O governo Lula anda aflito com a liberdade de imprensa e o direito à informação. O impulso de criminalizar a publicação do segredo mal guardado convive com a preocupação acerca dos requisitos para o exercício da profissão de jornalista. A este respeito, dois ministros entraram em campo.

Carlos Lupi, do Trabalho, nomeou grupo de estudo para propor mudanças na regulamentação da profissão. Seis audiências públicas desembocarão, em novembro, numa sugestão. Dada a composição sindicalista, é diminuta a chance de que proponha o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista, instituída em 1969 pelo regime militar.

Fernando Haddad, da Educação, deve criar outra comissão. Seu propósito é debater os requisitos mínimos que as escolas de jornalismo devem oferecer. Seria essa a base para deslanchar uma supervisão sobre as faculdades e exigir-lhes qualidade.

Haddad prevê, ainda, que a empreitada serviria para definir a formação complementar necessária para profissionais graduados em outras áreas obterem o diploma de jornalismo. Quem almejasse trabalhar no ramo não teria de cursar todos os usuais quatro anos de bacharelado.

Seria um abrandamento, não uma solução. Na tradição mais democrática, o jornalismo é uma profissão aberta, sem barreira de acesso. É diante do público, e não de um comitê cartorial do Estado ou da academia, que o jornalista tem de legitimar-se.

Além do que, há risco de ambas as comissões sucumbirem, no que toca à regulamentação, com a desaparição de seu objeto. O Supremo Tribunal Federal prevê decidir, neste semestre, se o decreto-lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma é compatível com a Carta de 1988.

O Supremo haverá de pôr fim à exigência inconstitucional, por violação dos artigos 5º (liberdade de expressão) e 220 (liberdade de informação jornalística) da lei fundamental.

A salvação não vai cair do céu

Ruth de Aquino, Revista ÉPOCA

Uma águia de ferro sobrevoará o Rio de Janeiro a partir de outubro. Já tem apelido: “Caveirão do Ar”. É o Huey II, helicóptero americano totalmente blindado, à prova de tiro até nas pás da hélice, especial para situações de conflito. Tem capacidade para seis atiradores de precisão. Cabem 15 pessoas. Foi comprado por R$ 8 milhões pela Secretaria de Segurança do Rio. Quatro pilotos brasileiros foram treinados nos Estados Unidos. O Huey II está vindo de Miami.

Ah, então agora vai? Não, não vai.

É inacreditável que o Rio de Janeiro até hoje não tenha uma política de Estado a longo prazo para a segurança. Algo sério, que envolva uma refundação de nossas polícias, um orçamento público condizente, uma real presença do Estado nas comunidades carentes. Como tornar o Rio mais seguro e menos violento daqui a 15, 20 anos? A sociedade se mobiliza e apresenta propostas concretas ou só cobra do governo, paga proteção privada e se esconde?

Governo após governo adotou políticas de confronto que não resultaram em absolutamente nada. A herança, na segurança pública, é maldita. Em mandatos de quatro anos, criam-se miragens com ações paliativas e espasmódicas. Que produzam impacto na opinião pública. Uma hora, é a Força Nacional de Segurança que ocupa as favelas. Outra hora, são as tropas do Exército que vêm garantir “o voto livre” nos morros dominados por traficantes, milícias e policiais corruptos.

O pior é que existe gente que acredita nisso. As tropas ficam dois dias em cada favela. Para quê, mesmo? Para retirar propagandas e cartazes. Sim, porque o Exército avisa com antecedência qual favela vai ocupar. O objetivo não é o confronto. Traficantes e milicianos se recolhem a suas casamatas, num cessar-fogo informal, as tropas garbosas desfilam, os moradores se sentem mais seguros e a calma aparente vira abóbora quando o Exército some. Voltam a intimidação, o terror, a cobrança de pedágios, taxas e propinas. Voltam os assassinatos em “microondas” (queimados com pneus). No início do mês, descobriu-se que traficantes usavam até jacarés para ameaçar reféns no cativeiro.

Deparei, na Praia de Ipanema, com dois tanques exibindo soldados em pé com fuzis e metralhadoras, seguidos por ônibus, carros e batedores militares. As armas estavam apontadas para banhistas e pedestres. Pode ser que esse poder armado ostensivo na Avenida Vieira Souto, um dos metros quadrados mais caros do Brasil, dê a uma parcela da população a sensação de que o Estado cumpre seu papel. Eu encaro como uma declaração de impotência. Se for verdade que, nas eleições do Rio, há cem candidatos acusados de homicídio, testemunhamos a metástase da bandidagem. Só vejo um mérito nesse desfile de tropas: revelar à classe média e à classe alta que estamos em guerra. No Brasil, há cerca de 45 mil homicídios por ano, e boa parte envolve policiais. Nos Estados Unidos, todas as polícias matam 400 pessoas por ano. Um relatório da ONU condenou as "execuções extrajudiciais" no Brasil.

Um policial foi morto no ano passado com um tiro de fuzil dentro de um de nossos helicópteros ultrapassados, um Esquilo. O plano é comprar outro caveirão do ar no ano que vem, se o orçamento permitir. Mas de que adiantará matar traficantes em cima de um morro? O Rio tem 759 favelas. Morrem uns cabeças, surgem outros.

E as outras medidas? O PAC da Rocinha é um fracasso. O governo estadual dizia que a verba tinha sido liberada. Nenhuma obra de saneamento, urbanização, esgoto, posto de saúde, creche, nada foi cumprido. E os salários baixíssimos dos policiais do Rio? E a segurança privada e ilegal – que os policiais usam para complementar o soldo, e o governo ignora? E os turnos irreais? E a abordagem abusiva e desrespeitosa a jovens nas ruas, em busca de propina? E a Universidade da Polícia, sonho do secretário José Beltrame? E a discussão sobre por que manter uma Polícia Militar e uma Polícia Civil? E o debate sobre a legalização das drogas, lançado pelo governador Sérgio Cabral como forma de quebrar o tráfico?

O crime avança sobre o vazio de idéias e ações de longo prazo. Um caveirão alado não faz verão.

Na escola, mas analfabetos

Estadão

Se o estudo recém-divulgado pelo IBGE, em vez de se chamar Síntese de Indicadores Sociais se chamasse Síntese de Indicadores de Futuro, talvez ajudasse o País a se dar conta do que o espera se o mais crucial desses indicadores no mundo contemporâneo - a educação - continuar a ser, no Brasil, a catástrofe que as pesquisas revelam com desalentadora regularidade. Fala-se em futuro não porque as escabrosas deficiências do ensino já não venham emperrando a modernização nacional e a expansão dos nossos setores econômicos de ponta. Mas sobretudo porque, na era da revolução tecnológica permanente e globalizada, sem a superação acelerada do atraso educacional a distância entre o País e as "sociedades do conhecimento" só tenderá a aumentar. O resultado previsível será o encolhimento da participação relativa do Brasil no intercâmbio internacional dos bens e serviços de alto valor agregado - o que faz a riqueza das nações neste século 21.

Diga-se desde logo que a educação de massa, no Brasil, já foi pior. Avançou-se enormemente na última década em matéria de universalização do acesso à escola. Do mesmo modo, o desempenho do sistema de ensino melhorou, embora de forma muito desigual. Mas, a exemplo do que ocorre em tantos outros aspectos da realidade do País, como a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) tornou a comprovar, também na educação se avança a passos exasperantemente lentos - seja em relação às necessidades da população, seja em relação ao ritmo do progresso nas outras nações com as quais o Brasil deve ser cotejado.

Entram governos, saem governos, e o poder público não consegue concentrar pelo tempo devido programas prioritários, recursos focalizados e políticas de gestão eficazes ali onde se trava de fato a mais decisiva das batalhas na frente da educação - o ensino fundamental.

As conseqüências estão nos novos números do IBGE. O Brasil tem 2,4 milhões de crianças analfabetas na faixa de 7 a 14 anos. Destas, espantosos 2,1 milhões, ou 87,2% do total de iletrados, vão à escola. A proporção diminui com a idade. Mas é um escândalo que quase a metade (45,8%) dos analfabetos com 14 anos esteja na escola. "É inadmissível", reconhece a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar.

É o retrato de uma falência para a qual contribuem professores despreparados e sobrecarregados, condições deploráveis de trabalho, a pobreza das famílias e o interesse insuficiente dos pais, eles próprios analfabetos ou pouco mais que isso. Mas o nervo do problema é que "as escolas simplesmente não sabem o que fazer com as crianças", como diz o consultor da Fundação Cesgranrio, Ruben Klein.

Outro indicador da crise é a chamada defasagem idade-série. Em 2007, 32% dos alunos do ensino fundamental não cursavam a série em que deveriam estar. O dado melhorou em relação a 1997, quando os atrasados representavam 43% do total. Mas - novamente - o ritmo da melhoria deixa a desejar. "Os estudantes nessas condições ainda são muitos", diz o presidente do IBGE, Eduardo Nunes. O mesmo raciocínio vale para o nível de escolarização dos brasileiros com 15 anos ou mais. Em 1997, tinham, em média, 5,8 anos de escola. No ano passado, 7,3 anos. Ou seja, levou um decênio para a escolarização aumentar apenas 1,5 ano - e ficar em um patamar muito abaixo de países como a Coréia do Sul, cujo nível de vida em 1960 era semelhante ao do Afeganistão. Sem falar que a evasão no ensino médio é da ordem de 5 milhões de alunos por ano - o que reforça o nexo entre educação de baixíssima qualidade e a escassez de mão-de-obra qualificada. Em 2007, para completar, 30% dos brasileiros de 15 anos em diante eram analfabetos funcionais ou analfabetos totais. Trinta milhões de pessoas no primeiro caso, 14 milhões no segundo.

É ominoso constatar que um terço da geração que desponta para o mercado de trabalho, por falta de educação básica adequada, não tem condições de ascensão social. São cidadãos que dificilmente sairão do nível de pobreza para a classe média - e muito menos para o grupo privilegiado dos "10% mais ricos do Brasil", para o que bastaria a irrisória renda de 3,5 salários mínimos (R$ 1.452,50).

O que vem antes do pré-sal

Estadão

As águas rasas da Bacia de Santos podem ter mais gás que a Bolívia, mas o governo e a Petrobrás parecem ter esquecido essa riqueza, mais acessível e mais fácil de explorar que o petróleo do pré-sal. "É uma coisa que preocupa: vamos gastar fortunas, num esforço fantástico no pré-sal, quando temos em águas rasas e semi-rasas importantes reservas de gás", disse o presidente da Associação Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP), Márcio Mello, em debate promovido pelo Estado, na quinta-feira, sobre "O Futuro do Pré-Sal". A recente descoberta abre uma oportunidade extraordinária, observou o geólogo, "mas não podemos esquecer o pós-sal".

É um erro grave, segundo ele, reduzir a atividade exploratória numa área com potencial para mais do que dobrar a reserva conhecida de petróleo e gás, hoje estimada em 14 bilhões de barris. Com sua participação, Márcio Mello ampliou o debate sobre a política brasileira de hidrocarbonetos. Essa discussão está concentrada no modelo de exploração de um petróleo ainda inacessível, a mais de 6 mil metros de profundidade e a mais de 200 quilômetros da costa, e na partilha do dinheiro que será gerado por essa atividade.

A intervenção do presidente da ABGP chamou a atenção para uma questão da maior importância, mas atualmente negligenciada: quais devem ser as prioridades na exploração das reservas de petróleo e gás? Economicamente, começar pela exploração dos recursos mais acessíveis parece o mais sensato, e por mais de uma razão. O retorno do capital investido será mais rápido, em termos empresariais, e isso tornará mais fácil custear a exploração do pré-sal. Além do mais, o abastecimento de gás ficará mais seguro, com menor dependência do produto boliviano. O governo e a Petrobrás podem ter argumentos para justificar a escolha do pré-sal como prioridade, mas não há como desconhecer, simplesmente, as ponderações do geólogo Márcio Mello.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) concentraram-se no debate sobre as mudanças legislativas defendidas pelo governo, sobre a destinação da renda do pré-sal e na própria conveniência de se avançar, agora, na discussão dessas questões.

"A única coisa que não interessa ao Brasil é o silêncio sobre esse tema", disse o senador, defendendo a posição do governo. O presidente Fernando Henrique preferiu uma posição mais cautelosa e mais pé no chão. Não tem muito sentido, segundo ele, gastar tanto tempo e esforço discutindo o uso de uma renda hipotética e, na melhor hipótese, acessível somente depois de muito investimento e de muitos anos de espera. Além disso, segundo ele, o governo deveria ser mais prudente ao planejar o modelo de exploração do pré-sal, com uma nova atribuição de papéis e de direitos ao governo e às empresas participantes do empreendimento. O sistema de partilha, segundo Mercadante, é o mais adequado aos novos projetos. Mas o melhor modelo, segundo Fernando Henrique, "não é aquele que sai da cabeça de um intelectual" e sim o que flui das conversas. Em outras palavras, é preciso conversar, negociar e compor interesses, em vez de tentar impor uma solução.

Quanto a este ponto, o debate reproduziu e aprofundou os principais argumentos que têm circulado no País desde que o governo decidiu converter o pré-sal no foco das decisões estratégicas da política do petróleo e do gás. O economista e empresário Francisco Gros, ex-presidente do Banco Central e da Petrobrás e hoje principal executivo da OGX, voltou a chamar a atenção para o problema do financiamento: sairá muito caro completar a prospecção da área do pré-sal e converter o petróleo e o gás nela contidos em riqueza efetiva. Equacionar esse problema deveria ser a prioridade do governo, em termos práticos. "Não podemos cair na ilusão do Eldorado", disse Francisco Gros. "O Brasil tem petróleo, mas ainda é preciso atrair investimentos para desenvolver essas áreas."

Debaixo da água, do solo marítimo e do sal, petróleo e gás são recursos naturais, não riquezas de fato. O debate promovido pelo Estado serviu também para chamar a atenção, de novo, para essa verdade tão simples e evidente quanto negligenciada pelos políticos e até, aparentemente, por alguns técnicos. Decidir o que fazer com essa riqueza é certamente importante, mas não é, na ordem prática, o problema número um.

Elas vão longe

Guilherme Fiúza, Revista EPOCA

Dilma Rousseff e a mentira se encontraram de novo. Como se sabe, elas têm uma sina juntas. Na ditadura e na democracia.

A ministra-chefe da Casa Civil, que Lula inventou como gerentona e o Brasil acreditou (o Brasil acredita em Lula), mentiu sob tortura para salvar seus companheiros. Um gesto nobre, pelo qual ela tomou gosto.

A mãe do PAC (esse menino anda sumido) declarou, sem ninguém a torturá-la, que o governo a que serve investiu 504 bilhões de reais na aceleração do crescimento. É mentira, claro, mas colou e ela foi em frente.

E agora disparou: o dinheiro do pré-sal vai erradicar a pobreza em menos de 18 anos.

Dilma vai acabar com a pobreza porque é modesta. Se fosse atrevida, acabaria também com a corrupção e a tristeza. A tristeza até que seria fácil, mas a corrupção ela teria que fazer umas consultas ao partido.

Como se sabe, Lula e o PT inflaram o número de brasileiros famintos para incrementar seu banquete de votos. Sua plataforma era Fome Zero – programa que sumiu do mapa, sinal de que a fome deve ter acabado. Nessa linha, acabar com a pobreza também não vai ser problema.

Inclusive porque o dinheiro do pré-sal pode comprar tudo, até amor verdadeiro. Como nem a Dilma, nem ninguém, sabe quando nem quanto vai sair do fundo do mar, não há motivo para limitações. Em cheque em branco, cada um põe o valor que quiser.

A relação de Dilma com a mentira está evoluindo: antes salvava seus companheiros, agora salva seus votos. Não deixa de ser uma causa nobre.

Uma lição de verdadeira democracia

Bastante oportuno o comentário do Reinaldo Azevedo em seu blog (link ao lado) a respeito das regras que disciplinam os debates políticos nos Estados Unidos. As “regras” por lá permitem que o debate seja aquilo que todos esperam de um encontro de candidatos: um debate político de idéias, críticas, programas, etc.

Conforme o próprio Reinaldo narra, por aqui a Justiça Eleitoral, tentando fazer “democracia”, regulou de tal forma os debates políticos para os órgãos de imprensa que, ao cabo de todos, sem exceção, acabamos assistindo a coisa alguma. Bom seria se nossos “juízes” aprendessem a lição de como se regulam as verdadeiras democracias, onde a liberdade não é uma linda expressão de efeito discursivo apenas. Lá, ela é amplamente praticada.

E, antes do comentário do Reinaldo que segue abaixo, permitam-me também dar minha opinião sobre o debate entre os candidatos realmente relevantes à sucessão de Bush: de um lado, tivemos alguém bem posicionado diante das câmeras que, quando confrontado com a realidade, ficou devendo muito. Este foi Obama. Em termos de política externa, o senador democrata precisa ainda aprender muito. De outro lado, e ainda sobre política externa, McCain desfilou coerente sempre. E foi só: pareceu-me que ambos os candidatos combinaram-se de se manterem distante da crise financeira. E, acredito, este é o tema que mais preocupa o americano médio. Haverá outro debate e, neste, se espera que os candidatos se aprofundem mais nesta questão. Afinal, ela não preocupa apenas os americanos, mas o mundo todo.

A seguir o excelente texto do Reinaldo Azevedo.

Sobre atividades solitárias e taras legiferantes

Escrever, às vezes, é mesmo a mais solitária das práticas. Sim, leitor amigo, até mais solitária do que isso em que você acabou de pensar, quando, em regra, as pessoas costumam imaginar situações favoráveis às suas fantasias... Ninguém se concentra em determinados devaneios para perder no final, não é mesmo? Se vocês procurarem no arquivo do blog, encontrarão vários textos meus fazendo a distinção entre “vencer” um debate e a percepção de que se venceu um debate. São coisas distintas.
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No texto de há pouco sobre o confronto McCain-Obama, escrevo logo no primeiro parágrafo: “A dúvida que todos devemos ter, os que torcemos para um ou para outro, é em que medida esses encontros interferem na escolha do eleitor.” Revi há pouco o debate, retransmitido pela CNN. McCain, digamos, “venceu” mais ainda do que ontem. Basta ouvir as respostas; basta constatar quem liquidou com o contra-argumento do outro, quem anulou o contra-ataque. Em economia, os dois apatetados. Em defesa e política externa, Obama foi esmagado.
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E as pesquisas? Quais? Reitero: vão perguntar para os espectadores da Fox News quem ganhou. Dirão que foi McCain. E diriam o mesmo ainda que ele tivesse perdido. Isso vai mudar alguma coisa? Interfere na escolha dos eleitores? Não tenho dados empíricos: intuo que, nos EUA, os debates possam ter uma influência maior do que no Brasil. Por aqui, as regras estão tão engessadas, que ninguém mais dá bola para esses confrontos. E esse é outro tema deste texto.
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Não duvido de que as TVs brasileiras precisem aprender a fazer debate com os americanos. Mas, para tanto, seria preciso contar com uma lei eleitoral tão liberal quanto a americana. Por lá, os homens de toga, os “dotô juiz”, vão cuidar de assuntos mais urgentes para a vida dos cidadãos. Aqui, eles querem regular tudo. Qualquer Zé Mané reivindica e obtém o “direito” de participar de debates. Neste domingo, em São Paulo, os candidatos se confrontam na Record. Lá estarão algumas nulidades eleitorais, com suas bazófias, sua ignorância “alastrante”, sua irrelevância constrangedora, a dizer, de posse do traço nas pesquisas: “Quando eu for eleito, no primeiro dia...” Jesus!
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Excelente o formato do debate a que assistimos ontem. Um único jornalista, realmente imparcial, a propor uma série de questões de interesse dos americanos, com os candidatos batendo bola, contraditando-se, questionando-se, cada um expondo as fraquezas da argumentação do outro, sem o "acabou o seu tempo". No Brasil, é aquela folia ridícula do “um minutos para a pergunta, dopis para a resposta, um para a réplica, outro para a tréplica”... Vai um candidato ou candidata e diz: “Eu comecei a construir o hospital não sei onde...” É mentira! No máximo, fez um estudo do terreno. Mas a afirmação só poderá ser desmentida 15 minutos depois. Sem contar isso que vejo, de soslaio, enquanto escrevo: campanha OBRIGATÓRIA NA TV, que nós pagamos, para o desfile do elenco do circo de horrores.
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Quando é que um partido vai ter a coragem de propor o fim do horário eleitoral gratuito? Não há uma miserável lei, na área eleitoral, que não contribua para tornar as eleições menos democráticas e mais aborrecidas. Nenhuma! Sem exceção. A política, no Brasil, é prisioneira da tara legiferante.

O Ministro Da Mordaça

Fábio Portela , Revista VEJA

Tarso Genro tenta restringir a liberdade de imprensa, com projeto que pune quem divulga grampos

CALA A BOCA
Para o ministro da Justiça, a solução para notícia ruim é silenciar os jornalistas

O ministro da Justiça, Tarso Genro, é daqueles homens públicos que adoram a imprensa – desde que ela lhe seja servil e bajuladora. Quando uma notícia lhe desagrada, seu humor azeda. Genro padece da velha doença esquerdista de confundir o mensageiro com a mensagem. Foi o que ocorreu no início do mês, quando VEJA revelou que a maior autoridade do Poder Judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, fora grampeado ilegalmente por espiões da Agência Brasileira de Inteligência, uma repartição da Presidência da República. Diante de um fato tão grave, que ofende os princípios democráticos, esperava-se que o ministro da Justiça agisse para conter a grampolândia criada no interior do governo. Genro tomou outro caminho. Com aval do Planalto, urdiu um plano para amordaçar a imprensa. Enviou ao Congresso um projeto de lei que, sob a justificativa de combater escutas clandestinas, pune com quatro anos de prisão quem ousar divulgar o conteúdo de grampos – ou seja, os jornalistas. Os arapongas, autores das escutas no Supremo, foram deixados em paz.

Para Genro, a democracia jamais será boa o suficiente sem uma pitada de ditadura. "Uma sociedade humanizada só será realizada na sua plenitude quando o engenho humano unificar democracia e socialismo", escreveu ele em março, em artigo destinado a rever o "legado de Lenin", o tirano bolchevique, teórico e prático do terror como um braço do estado. Que um entusiasta da ditadura do proletariado tente calar a imprensa é esperado. É de seu DNA. Surpreende é que o desatino tenha ecoado positivamente. Em depoimento no Congresso, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, esqueceu a Constituição que ajudou a escrever como deputado e que jurou defender como ex-ministro do Supremo – ele atacou o sigilo de fonte jornalística, um princípio da Carta, e defendeu a imposição de pena aos jornalistas, a quem chamou de "vazadores de informação".

O presidente da Associação Nacional dos Editores de Revistas, Jairo Mendes Leal, criticou a medida: "Os projetos apresentados pelo Poder Executivo são mais uma tentativa de obstaculizar o exercício jornalístico e a liberdade de imprensa e devem ser repudiados por toda a sociedade". Não é a primeira vez que o governo petista tenta encabrestar a imprensa. Em 2004, gestou-se um monstrengo chamado Conselho Federal de Jornalismo, que, nos sonhos petistas, teria poderes para "orientar, disciplinar e fiscalizar" os jornalistas. O projeto foi engavetado graças à reação vigorosa da sociedade. Só há dois tipos de imprensa: a que é livre e a que não é. Relativizar esse conceito é trapaça intelectual. Quando a imprensa é livre, ela permite ao cidadão monitorar e julgar o trabalho dos governantes. Se é refém, deixa de ter serventia à sociedade. Sob tutela, torna-se mero instrumento do poder. Essa última versão é a que faz suspirar o ministro Tarso Genro.