domingo, setembro 28, 2008

Uma lição de verdadeira democracia

Bastante oportuno o comentário do Reinaldo Azevedo em seu blog (link ao lado) a respeito das regras que disciplinam os debates políticos nos Estados Unidos. As “regras” por lá permitem que o debate seja aquilo que todos esperam de um encontro de candidatos: um debate político de idéias, críticas, programas, etc.

Conforme o próprio Reinaldo narra, por aqui a Justiça Eleitoral, tentando fazer “democracia”, regulou de tal forma os debates políticos para os órgãos de imprensa que, ao cabo de todos, sem exceção, acabamos assistindo a coisa alguma. Bom seria se nossos “juízes” aprendessem a lição de como se regulam as verdadeiras democracias, onde a liberdade não é uma linda expressão de efeito discursivo apenas. Lá, ela é amplamente praticada.

E, antes do comentário do Reinaldo que segue abaixo, permitam-me também dar minha opinião sobre o debate entre os candidatos realmente relevantes à sucessão de Bush: de um lado, tivemos alguém bem posicionado diante das câmeras que, quando confrontado com a realidade, ficou devendo muito. Este foi Obama. Em termos de política externa, o senador democrata precisa ainda aprender muito. De outro lado, e ainda sobre política externa, McCain desfilou coerente sempre. E foi só: pareceu-me que ambos os candidatos combinaram-se de se manterem distante da crise financeira. E, acredito, este é o tema que mais preocupa o americano médio. Haverá outro debate e, neste, se espera que os candidatos se aprofundem mais nesta questão. Afinal, ela não preocupa apenas os americanos, mas o mundo todo.

A seguir o excelente texto do Reinaldo Azevedo.

Sobre atividades solitárias e taras legiferantes

Escrever, às vezes, é mesmo a mais solitária das práticas. Sim, leitor amigo, até mais solitária do que isso em que você acabou de pensar, quando, em regra, as pessoas costumam imaginar situações favoráveis às suas fantasias... Ninguém se concentra em determinados devaneios para perder no final, não é mesmo? Se vocês procurarem no arquivo do blog, encontrarão vários textos meus fazendo a distinção entre “vencer” um debate e a percepção de que se venceu um debate. São coisas distintas.
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No texto de há pouco sobre o confronto McCain-Obama, escrevo logo no primeiro parágrafo: “A dúvida que todos devemos ter, os que torcemos para um ou para outro, é em que medida esses encontros interferem na escolha do eleitor.” Revi há pouco o debate, retransmitido pela CNN. McCain, digamos, “venceu” mais ainda do que ontem. Basta ouvir as respostas; basta constatar quem liquidou com o contra-argumento do outro, quem anulou o contra-ataque. Em economia, os dois apatetados. Em defesa e política externa, Obama foi esmagado.
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E as pesquisas? Quais? Reitero: vão perguntar para os espectadores da Fox News quem ganhou. Dirão que foi McCain. E diriam o mesmo ainda que ele tivesse perdido. Isso vai mudar alguma coisa? Interfere na escolha dos eleitores? Não tenho dados empíricos: intuo que, nos EUA, os debates possam ter uma influência maior do que no Brasil. Por aqui, as regras estão tão engessadas, que ninguém mais dá bola para esses confrontos. E esse é outro tema deste texto.
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Não duvido de que as TVs brasileiras precisem aprender a fazer debate com os americanos. Mas, para tanto, seria preciso contar com uma lei eleitoral tão liberal quanto a americana. Por lá, os homens de toga, os “dotô juiz”, vão cuidar de assuntos mais urgentes para a vida dos cidadãos. Aqui, eles querem regular tudo. Qualquer Zé Mané reivindica e obtém o “direito” de participar de debates. Neste domingo, em São Paulo, os candidatos se confrontam na Record. Lá estarão algumas nulidades eleitorais, com suas bazófias, sua ignorância “alastrante”, sua irrelevância constrangedora, a dizer, de posse do traço nas pesquisas: “Quando eu for eleito, no primeiro dia...” Jesus!
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Excelente o formato do debate a que assistimos ontem. Um único jornalista, realmente imparcial, a propor uma série de questões de interesse dos americanos, com os candidatos batendo bola, contraditando-se, questionando-se, cada um expondo as fraquezas da argumentação do outro, sem o "acabou o seu tempo". No Brasil, é aquela folia ridícula do “um minutos para a pergunta, dopis para a resposta, um para a réplica, outro para a tréplica”... Vai um candidato ou candidata e diz: “Eu comecei a construir o hospital não sei onde...” É mentira! No máximo, fez um estudo do terreno. Mas a afirmação só poderá ser desmentida 15 minutos depois. Sem contar isso que vejo, de soslaio, enquanto escrevo: campanha OBRIGATÓRIA NA TV, que nós pagamos, para o desfile do elenco do circo de horrores.
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Quando é que um partido vai ter a coragem de propor o fim do horário eleitoral gratuito? Não há uma miserável lei, na área eleitoral, que não contribua para tornar as eleições menos democráticas e mais aborrecidas. Nenhuma! Sem exceção. A política, no Brasil, é prisioneira da tara legiferante.