Ruth de Aquino, Revista ÉPOCA
Uma águia de ferro sobrevoará o Rio de Janeiro a partir de outubro. Já tem apelido: “Caveirão do Ar”. É o Huey II, helicóptero americano totalmente blindado, à prova de tiro até nas pás da hélice, especial para situações de conflito. Tem capacidade para seis atiradores de precisão. Cabem 15 pessoas. Foi comprado por R$ 8 milhões pela Secretaria de Segurança do Rio. Quatro pilotos brasileiros foram treinados nos Estados Unidos. O Huey II está vindo de Miami.
Ah, então agora vai? Não, não vai.
É inacreditável que o Rio de Janeiro até hoje não tenha uma política de Estado a longo prazo para a segurança. Algo sério, que envolva uma refundação de nossas polícias, um orçamento público condizente, uma real presença do Estado nas comunidades carentes. Como tornar o Rio mais seguro e menos violento daqui a 15, 20 anos? A sociedade se mobiliza e apresenta propostas concretas ou só cobra do governo, paga proteção privada e se esconde?
Governo após governo adotou políticas de confronto que não resultaram em absolutamente nada. A herança, na segurança pública, é maldita. Em mandatos de quatro anos, criam-se miragens com ações paliativas e espasmódicas. Que produzam impacto na opinião pública. Uma hora, é a Força Nacional de Segurança que ocupa as favelas. Outra hora, são as tropas do Exército que vêm garantir “o voto livre” nos morros dominados por traficantes, milícias e policiais corruptos.
O pior é que existe gente que acredita nisso. As tropas ficam dois dias em cada favela. Para quê, mesmo? Para retirar propagandas e cartazes. Sim, porque o Exército avisa com antecedência qual favela vai ocupar. O objetivo não é o confronto. Traficantes e milicianos se recolhem a suas casamatas, num cessar-fogo informal, as tropas garbosas desfilam, os moradores se sentem mais seguros e a calma aparente vira abóbora quando o Exército some. Voltam a intimidação, o terror, a cobrança de pedágios, taxas e propinas. Voltam os assassinatos em “microondas” (queimados com pneus). No início do mês, descobriu-se que traficantes usavam até jacarés para ameaçar reféns no cativeiro.
Deparei, na Praia de Ipanema, com dois tanques exibindo soldados em pé com fuzis e metralhadoras, seguidos por ônibus, carros e batedores militares. As armas estavam apontadas para banhistas e pedestres. Pode ser que esse poder armado ostensivo na Avenida Vieira Souto, um dos metros quadrados mais caros do Brasil, dê a uma parcela da população a sensação de que o Estado cumpre seu papel. Eu encaro como uma declaração de impotência. Se for verdade que, nas eleições do Rio, há cem candidatos acusados de homicídio, testemunhamos a metástase da bandidagem. Só vejo um mérito nesse desfile de tropas: revelar à classe média e à classe alta que estamos em guerra. No Brasil, há cerca de 45 mil homicídios por ano, e boa parte envolve policiais. Nos Estados Unidos, todas as polícias matam 400 pessoas por ano. Um relatório da ONU condenou as "execuções extrajudiciais" no Brasil.
Um policial foi morto no ano passado com um tiro de fuzil dentro de um de nossos helicópteros ultrapassados, um Esquilo. O plano é comprar outro caveirão do ar no ano que vem, se o orçamento permitir. Mas de que adiantará matar traficantes em cima de um morro? O Rio tem 759 favelas. Morrem uns cabeças, surgem outros.
E as outras medidas? O PAC da Rocinha é um fracasso. O governo estadual dizia que a verba tinha sido liberada. Nenhuma obra de saneamento, urbanização, esgoto, posto de saúde, creche, nada foi cumprido. E os salários baixíssimos dos policiais do Rio? E a segurança privada e ilegal – que os policiais usam para complementar o soldo, e o governo ignora? E os turnos irreais? E a abordagem abusiva e desrespeitosa a jovens nas ruas, em busca de propina? E a Universidade da Polícia, sonho do secretário José Beltrame? E a discussão sobre por que manter uma Polícia Militar e uma Polícia Civil? E o debate sobre a legalização das drogas, lançado pelo governador Sérgio Cabral como forma de quebrar o tráfico?
O crime avança sobre o vazio de idéias e ações de longo prazo. Um caveirão alado não faz verão.
Uma águia de ferro sobrevoará o Rio de Janeiro a partir de outubro. Já tem apelido: “Caveirão do Ar”. É o Huey II, helicóptero americano totalmente blindado, à prova de tiro até nas pás da hélice, especial para situações de conflito. Tem capacidade para seis atiradores de precisão. Cabem 15 pessoas. Foi comprado por R$ 8 milhões pela Secretaria de Segurança do Rio. Quatro pilotos brasileiros foram treinados nos Estados Unidos. O Huey II está vindo de Miami.
Ah, então agora vai? Não, não vai.
É inacreditável que o Rio de Janeiro até hoje não tenha uma política de Estado a longo prazo para a segurança. Algo sério, que envolva uma refundação de nossas polícias, um orçamento público condizente, uma real presença do Estado nas comunidades carentes. Como tornar o Rio mais seguro e menos violento daqui a 15, 20 anos? A sociedade se mobiliza e apresenta propostas concretas ou só cobra do governo, paga proteção privada e se esconde?
Governo após governo adotou políticas de confronto que não resultaram em absolutamente nada. A herança, na segurança pública, é maldita. Em mandatos de quatro anos, criam-se miragens com ações paliativas e espasmódicas. Que produzam impacto na opinião pública. Uma hora, é a Força Nacional de Segurança que ocupa as favelas. Outra hora, são as tropas do Exército que vêm garantir “o voto livre” nos morros dominados por traficantes, milícias e policiais corruptos.
O pior é que existe gente que acredita nisso. As tropas ficam dois dias em cada favela. Para quê, mesmo? Para retirar propagandas e cartazes. Sim, porque o Exército avisa com antecedência qual favela vai ocupar. O objetivo não é o confronto. Traficantes e milicianos se recolhem a suas casamatas, num cessar-fogo informal, as tropas garbosas desfilam, os moradores se sentem mais seguros e a calma aparente vira abóbora quando o Exército some. Voltam a intimidação, o terror, a cobrança de pedágios, taxas e propinas. Voltam os assassinatos em “microondas” (queimados com pneus). No início do mês, descobriu-se que traficantes usavam até jacarés para ameaçar reféns no cativeiro.
Deparei, na Praia de Ipanema, com dois tanques exibindo soldados em pé com fuzis e metralhadoras, seguidos por ônibus, carros e batedores militares. As armas estavam apontadas para banhistas e pedestres. Pode ser que esse poder armado ostensivo na Avenida Vieira Souto, um dos metros quadrados mais caros do Brasil, dê a uma parcela da população a sensação de que o Estado cumpre seu papel. Eu encaro como uma declaração de impotência. Se for verdade que, nas eleições do Rio, há cem candidatos acusados de homicídio, testemunhamos a metástase da bandidagem. Só vejo um mérito nesse desfile de tropas: revelar à classe média e à classe alta que estamos em guerra. No Brasil, há cerca de 45 mil homicídios por ano, e boa parte envolve policiais. Nos Estados Unidos, todas as polícias matam 400 pessoas por ano. Um relatório da ONU condenou as "execuções extrajudiciais" no Brasil.
Um policial foi morto no ano passado com um tiro de fuzil dentro de um de nossos helicópteros ultrapassados, um Esquilo. O plano é comprar outro caveirão do ar no ano que vem, se o orçamento permitir. Mas de que adiantará matar traficantes em cima de um morro? O Rio tem 759 favelas. Morrem uns cabeças, surgem outros.
E as outras medidas? O PAC da Rocinha é um fracasso. O governo estadual dizia que a verba tinha sido liberada. Nenhuma obra de saneamento, urbanização, esgoto, posto de saúde, creche, nada foi cumprido. E os salários baixíssimos dos policiais do Rio? E a segurança privada e ilegal – que os policiais usam para complementar o soldo, e o governo ignora? E os turnos irreais? E a abordagem abusiva e desrespeitosa a jovens nas ruas, em busca de propina? E a Universidade da Polícia, sonho do secretário José Beltrame? E a discussão sobre por que manter uma Polícia Militar e uma Polícia Civil? E o debate sobre a legalização das drogas, lançado pelo governador Sérgio Cabral como forma de quebrar o tráfico?
O crime avança sobre o vazio de idéias e ações de longo prazo. Um caveirão alado não faz verão.