segunda-feira, janeiro 03, 2011

Mudaram algumas moscas, mas o cheiro é o mesmo...

Adelson Elias Vasconcellos

Não entro nem embarco nesta alegoria de que, a chegada de Dilma à presidência, representa um momento histórico. Reafirmo, pois, a minha lei de análise, a de não julgar governantes pelo sexos, nem pela cor de sua pele, ou pela formação intelectual e profissional. Julgo-os apenas pelos seus atos e as consequências que deles emanam, ou seja, pelo resultados que alcançam, mesmo que tais resultados venham acontecer em outros governos que os sucedam.

Analisar, por exemplo, o discurso de Dilma em sua posse, é querer resvalar nos lugares comuns de todos os discursos de posse de governantes, sejam ditadores ou democráticos. Assim, ponho de lado as obviedades dos discursos de posse e me atenho naquilo que, a meu ver, representa muito mais o espírito com que o país será governado doravante. E é neste ponto que podemos sacar de saída, o seguinte: nada vai mudar, apenas a estúpida santificação da ignorância. Será difícil que o Brasil, em futuro próximo, volte a ser governado por um presidente que faça tanta louvação de sua ignorância e má formação intelectual quanto Lula. Neste ponto, Dilma não conseguirá nem chegar perto. Sua formação já se deu em outro nível de vida, e sua formação chegou à universidade. Quando jovem, conta sua biografia, formou imensa carga de leitura, o que a torna diferente de Lula justamente aí, e não pelo sexo.

Assim, ao afirmar que “... sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa desta ousadia do voto popular que, após levar à presidência um homem do povo, decide convocar uma mulher para dirigir os destinos do país...” , Dilma ignora a coisa mais elementar que um presidente, tenha ele a cor partidária que tiver, deve respeitar: a de que todos, independente da condição socioeconômica que tivermos, somos um mesmo povo. Ao que se saiba, o Brasil jamais teve na sua história republicana, um presidente não brasileiro. E se assim foi, todos saíram do mesmo povo, da mesma gente. Não é o fato de Lula ter sido operário metalúrgico, ou mesmo Castello Branco ter sido Marechal do Exército, que torna um mais povo do que outro. Ambos tiveram a mesma origem humilde, a diferença que um estudou e se formou em alguma coisa, o outro preferiu nada fazer, a não ser política. Mas eram do povo, os dois, sem tirar nem por. Do mesmo modo, tanto faz, ser homem ou mulher, ter origem humilde, caso de Lula, ou origem de classe média, caso da própria Dilma, o povo, a não ser nas ditaduras, sempre se fará representar no poder por aqueles que ele escolheu dentre sua gente, mesmo que seus governos sejam competentes ou não.

Já disse em outra ocasião que não acredito nesta onda de “cotas” para mulheres, cota para negros ou cota para deficientes. Acredito é na educação, feita de forma a conscientizar as pessoas que o que as torna diferente, para pior ou para melhor, é sua capacidade, sua formação moral e intelectual e sua própria consciência. Assim, acredito muito mais no sucesso de uma sociedade devotada a premiar o mérito do esforço individual do que escolhas feitas pelo tipo de sexo (ou opção), cor, crença religiosa, política, etc. Encerro qualquer debate quanto se entra no plano de “raças”. Não existem várias raças humanas, existe uma só, a HUMANA, o resto é diferença física que não altera o conjunto. Tudo o mais que se queira acrescentar neste tema é vigarice suprema  que a apologia das esquerdas adora recitar.

Quanto ao longo discurso de Dilma, tirando, como disse acima, as obviedades, dá sim para sabermos que tipo de governo e a cultura que será atendida ao longo do mandato por Dilma Rousseff.

Primeiro, Dilma, a exemplo do que pregou Lula durante oito anos, esqueceu que o Brasil foi descoberto antes, de que toda uma nação foi forjada por séculos de história, por inúmeros personagens importantes que também fizeram “acontecer” antes de Lula no poder. Esta insistência na mistificação faz parte do receituário de criação do mito Lula, e, este por sua vez, na indispensável criação de um personagem necessário para sepultar tudo o que destoar do discurso esquerdista. Não, os fatos são outros, a verdade do PT não é a verdade suprema, aliás, sequer é verdade, já que se encontra assentada em bases falsas. Aquela balela de “...Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem...” é uma completa distorção e manipulação do fato histórico. Os “companheiros” a que Dilma aludiu, são os companheiros da luta armada, os esquerdista, que pretendiam não derrubar a ditadura de direita para restabelecer os marcos da democracia. Desejavam, isto sim, implantar uma ditadura socialista, bem marcantemente cubana ou soviética. É disto que se trata. Está certo que muitos brasileiros, hoje, sequer viveram aqueles anos de “chumbo”, talvez até a maioria dos eleitores. Mas há muitos da minha geração, por exemplo, a mesma de Dilma Rousseff, que já tinham idade suficiente para saberem separar os verdadeiros resistentes da ditadura militar em prol do restabelecimento da democracia, daqueles “companheiros” amantes de outra ditadura, a de esquerda, a qual Dilma e os “tais companheiros” pertenceram. Portanto, este trecho creio ser o bastante para evidenciar o tipo de “sentimento” que irá vigorar no cenário político do país até 2014. Disse a presidente: “... Sem arrependimento e sem ressentimentos e rancor, (...)rendo a eles [os que morreram na luta contra a ditadura militar de 64] a minha homenagem.”

Pergunta: quantos inocentes foram mortos pela guerrilha de esquerda? Para estes não fica, então, nenhum arrependimento? Entraram na quota de “inocentes úteis” com os quais as esquerdas, pelo mundo todo, massacraram e assassinaram milhões de seres humanos? A partir daí me resta concluir que, não será surpresa alguma, a tentativa que Dilma levará a cabo a tentativa torpe (e ilegal) para tornar sem efeito a Lei de Anistia, de 1979, mas somente no capítulo que trata de torturadores, e não do que perdoou os crimes dos guerrilheiros e terroristas de esquerda. E isto, sim, gostem ou não, chama-se canalhice!!! Portanto, e neste trecho do discurso, em que Dilma afirma “...Dediquei toda a minha vida a causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor...”, para mim, e para os que a verdade histórica como norte moral,  tem o mesmo significado de lixo e mentira. E, num discurso inicial de mandato, você começar contando mentiras, significa que seu governo não se moldará, nunca, pela verdade, o que representa, neste ponto, a continuidade das mistificações iniciadas com Lula no poder.

Há, ainda, dois outros pontos do discurso que merecem ser destacados, mais pelo que não contam e representam de apropriação indébita de valores e trabalho, do que por algum conceito meritório e devido respeito ao país que governará.

Foi Dilma quem disse a certa altura:

Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixou para todos nós.Sob sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história.”

Qual é, cara pálida? Se Lula liderou a travessia para a outra margem da história, dona Dilma, é preciso destacar que foi Fernando Henrique e Itamar Franco, principalmente, quem construíram a ponte que daria passagem à tal travessia. Sem ela, Lula estaria afogado no meio do oceano, dado que o país que aqueles ex-presidentes receberam e entregaram para Lula governar, não tinha rumo, não tinha pontes, não tinha a não ser canoas furadas, sem remos, sem bússolas, sem futuro algum. Eles assumiram o encargo de a erguerem a ponte, construir os marcos e alicerces para sustentar o peso da travessia.  
E o outro ponto é este aqui:

“...É com este mesmo carinho que quero cuidar do meu povo, e a ele - só a ele - dedicar os próximos anos da minha vida...”

Na frase acima fica claro o conceito que as esquerdas tem das sociedades que governam: o povo passa a ser propriedade sua, sem identidade própria,. Lula usou e abusou do termo durante seus dois mandatos, naquela estratégia cretina da criação do mito.

Não, numa sociedade democrática o povo não é nem nunca foi propriedade de partidos ou de governantes. Ao contrário: eles é que são propriedades do povo já que, por definição, o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Espero que, com o tempo, Dilma Rousseff não insista nesta tese patológica de sequestrar o povo para um partido político. É um equívoco histórico alguém imaginar-se dono de quem lhe concede, por um breve período, o poder de governar um país.

Por fim, creio que é preciso apontar a grande diferença entre Dilma e Lula, além do sexo. Talvez esta diferença, a meu ver, seja mais um fio de esperança, uma espécie de expectatiova de que Dilma se distancie, um pouco ao menos, de Lula no figurino de governar. Dado que as formações de ambos são totalmente diferentes, no campo intelectual e de formação profissional, espero que a presidente dê um basta à bufonaria lulista de ideologizar a própria ignorância. Isto faz mal danado para um país em que 2/3 de sua população é analfabeta, funcional ao menos, e que precisa libertar esta imensa massa das trevas e do atraso. Sem que se pratique esta revolução no campo da educação, o Brasil não sairá de sua condição de subdesenvolvido, podendo, quando muito, permanecer um emergente eterno. Que, pelo menos neste trecho do roteiro, os novos atores introduzam novas falas e novos atos.

Quanto ao resto, já disse que os problemas deixados pelo legado de Lula, forçarão a que o governo Dilma seja ao menos mais cauteloso no uso racional do dinheiro público. O cenário interno e externo da economia exige juízo e responsabilidade. E creio que, depois de oito anos de molecagens, está na hora do país ser governado seguindo um plano de desenvolvimento pró-país, e não pró-partido. Afinal, o poder pertence ao povo, e este não pertence a ninguém a não ser a si mesmo. O Brasil não é o PT, tampouco “DO” PT.

O legado de Lula

Percival Puggina, Mídia Sem Máscara

Há uma relação de causa e efeito entre a degradação da política brasileira e a ação do presidente Lula. Ele a deteriorou e comprometeu a democracia através do aparelhamento de tudo, da cooptação, da compra de votos com favores, do fracionamento e da descaracterização dos partidos.

Acabou! Não há bem que sempre dure (na perspectiva dos 87% que gostaram), nem mal que não acabe (segundo a ótica dos 13% descontentes). Faço parte do pequeno grupo que não se deixa seduzir por conversa fiada, publicidade enganosa e não sente atração pelos salões e cofres do poder.

Lula chega ao fim de seu mandato em meio a um paradoxo que cobra explicações: a política e os que a ela se dedicam despencaram na confiança popular para um índice de rejeição de 92%! Ora, como entender que os políticos valham tão pouco perante a opinião pública enquanto o grande senhor, o chefe, o mandante, o comandante da política, surfa nas ondas de uma popularidade messiânica? Ouço miados nessa tuba. Como pode? Quanto mais crescia a popularidade do presidente mais decrescia o prestígio da política! E ele nada tem a ver? Chefiou durante quase uma década o Estado, o governo, a administração, uma fornida maioria parlamentar, o numeroso bloco de partidos integrantes de sua base de apoio, nomeou 8 dos 11 ministros do STF, estendeu seu braço protetor sobre as piores figuras da cena nacional e é a virgem do lupanar?

Eu aprecio os governantes realistas. Sei que o realismo se inclui entre as características de todos os estadistas. Seja como homem do governo, seja como chefe de Estado, o estadista lida com os fatos. Ideais elevados e pés no chão. Causas e consequências, problemas e soluções. Realismo. Isso me agrada. Mas há um realismo cínico, desprovido de caráter, que desconhece limites éticos, que se abraça com o demônio se ele puder ser útil. A história está cheia de líderes assim e apenas os olfatos mais sensíveis parecem capazes de perceber o cheiro de enxofre que exalam. Há uma relação de causa e efeito entre a degradação da política brasileira e a ação do presidente Lula. Ele a deteriorou e comprometeu a democracia através do aparelhamento de tudo, da cooptação, da compra de votos com favores, do fracionamento e da descaracterização dos partidos. Assim como atuam os desmanches de automóveis, assim operou a política presidencial com os pedaços dos partidos nacionais, comprados das fontes mais suspeitas e pelos piores meios.

Quer dizer, senhores e senhoras arrebatados pela retórica lulista, que a democracia perdeu importância e pode ser uma coisa qualquer, apoiada por qualquer arremedo de política? Não se exige mais, de quem governa, um padrão mínimo de dignidade? De coerência e respeito? Não! Pelo jeito, basta encher o bolso dos ricos e distribuir esmolas aos pobres para que surja um novo São Francisco em Garanhuns.

Ah, Puggina! Mas com ele a economia cresceu, o número de miseráveis diminuiu e se realizaram obras importantes. Vá que seja. Mas convenhamos: era preciso muita incompetência para que a economia ficasse travada em meio a um ciclo mundial extremamente favorável. Pergunto: não estavam diligentemente postas pelos antecessores as condições (privatizações, estabilidade monetária e jurídica, integração ao comércio mundial, credibilidade externa, responsabilidade fiscal e estímulo ao agronegócio)? Estavam, sim. Faltava o que Lula teve a partir de 2005: dinheiro jorrando, comprador e investidor, no mercado internacional. E ainda assim, entre 2002 e 2009, o crescimento do PIB per capita do Brasil teve um desempenho medíocre comparado com outros emergentes e, mesmo, com a maior parte dos países da América Latina.

O Partido dos Trabalhadores se construiu mediante três estratégias convergentes. Primeiro, a rigorosa adoção da cartilha gramsciana, assenhoreando-se dos meios de formação da cultura nacional, sem esquecer-se de qualquer deles - igrejas, sindicatos, movimentos sociais, universidades, meios de comunicação, material didático, música popular. Segundo, combatendo tudo, mas tudo mesmo, que os governos anteriores buscavam implementar como condição para que o país retomasse o crescimento: Plano Real, abertura da economia, privatizações, cumprimento de contratos, pagamento da dívida, responsabilidade fiscal, busca de superávits, agronegócio e Proer. Tudo era denunciado como maligno, perverso, antinacional, corrupto. Terceiro, destruindo de modo sistemático a imagem de quem se interpusesse no seu caminho para o poder, até restar, do imaginário de muitos, como a grande reserva moral da pátria. Dois anos no poder bastaram para que os véus do templo se rasgassem de alto abaixo e os muitos petistas bem intencionados arrancassem os cabelos num maremoto de escândalos.

Somente alguém totalmente irresponsável ou com desmedida ganância pelo poder haveria de desejar para a nação um governo social e economicamente desastroso. Não é e nunca foi meu caso. Não escrevo estas linhas para desconsiderar o que andou bem no governo do presidente Lula. Mas não posso deixar de expor o que vi - e como vi! - de sórdido e prejudicial em seu modo de fazer política. Para concluir, temperando os exageros de uma publicidade que custou ao país, na média dos últimos três anos, R$ 900 milhões por ano, considero sensata a observação a seguir. Quando Lula assumiu, em 2003, os principais problemas do Brasil situavam-se nas áreas de Educação, Saúde e Segurança Pública. Passados oito anos, haverá quem tenha coragem de afirmar que não persistem os problemas da Educação e que não se agravaram os da Saúde e da Segurança Pública? Haverá 87% de brasileiros dispostos a se declarar satisfeitos com a situação nacional nesses três pilares de uma vida social digna?

Dilma assume com criação de nova estatal. Mas já?

Veja online

A presidente recebeu de seu antecessor a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), que atuará na assistência, ensino e pesquisa em saúde

A criação da estatal – a sexta do governo Lula – foi feita por medida provisória (MP) publicada neste sábado no Diário Oficial

No seu primeiro dia de mandato, a presidente Dilma Rousseff recebeu de herança do antecessor Luiz Inácio Lula da Silva uma nova estatal na área de educação, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH). Criada para resolver o impasse dos hospitais universitários, que reúnem cerca de 22 mil profissionais terceirizados (prática considerada ilegal pelo Tribunal de Contas da União), a empresa ficará encarregada da execução de assistência, ensino e pesquisa na área da saúde.

A criação da estatal – a sexta do governo Lula – foi feita por medida provisória (MP) publicada neste sábado no Diário Oficial. Pelo texto, num primeiro momento, profissionais podem ser contratados temporariamente.

No trecho do seu discurso dedicado à área social, Dilma deixou recado sobre qual será o tom de seu governo nesse campo: melhorar o acesso e a qualidade dos serviços prestados. Na educação, além da atenção aos professores, que ela afirmou serem as verdadeiras "autoridades" da área, Dilma apresentou medidas práticas. Comprometeu-se a aumentar o investimento público e apresentou a proposta de ampliar o Programa Universidade para Todos (ProUni) para o ensino médio profissionalizante. Criado em 2004 para garantir o acesso de alunos carentes a cursos de graduação, o ProUni foi desde o início uma iniciativa que caiu no gosto tanto de alunos e professores quanto de proprietários de instituições privadas.

Estudantes com renda familiar de até um salário mínimo por pessoa podem receber bolsas integrais. Já aqueles com renda até três salários mínimos por pessoa podem receber bolsas parciais, com 50% do valor da mensalidade. Instituições que aderem ao programa têm, em troca, isenção de tributos. Nos últimos cinco anos, foram oferecidos 1,12 milhão de bolsas.

Saúde pública –
Na saúde, Dilma reivindica um papel nada modesto: "Quero ser a presidente que consolidou o SUS (Sistema único de Saúde), tornando-o um dos maiores e melhores sistemas de saúde pública do mundo." Um sistema, que, em sua avaliação, precisa atender os problemas das pessoas que procuram, quer seja com diagnóstico e tratamento, quer com medicamentos.

Mas ao contrário da educação, ela não menciona para a área de saúde mais investimentos. Em vez disso, acena com autoridade: "Vou acompanhar pessoalmente o desenvolvimento desse setor." Mais adiante, disse que usaria da força do governo federal para acompanhar a qualidade do serviço prestado e o respeito ao usuário.

Assim como reforço com instituições de ensino particular para ampliação do ProUni, Dilma afirmou estar interessada em estabelecer parcerias com setor privado na área da saúde, sobretudo para assegurar reciprocidade na utilização dos serviços do SUS.

Com Agência Estado

Planos de saída no Bolsa Família

Mauro Zanatta e Raymundo Costa, Valor Econômico

Está nos planos do governo Dilma Rousseff a transformação de parte da clientela do Bolsa Família, o programa de transferência de renda de maior sucesso da gestão Lula, em uma nova categoria de empreendedores rurais e urbanos. O Valor apurou que a nova ministra do Desenvolvimento Social, a economista Tereza Campello, que assumiu ontem o cargo, pretende dar ênfase ao desenvolvimento empresarial das 12,9 milhões de famílias assistidas pelo programa. 

Entre os planos está a criação de uma espécie de "força-tarefa" institucional para criar, transferir e aplicar tecnologias em benefício da "nova classe média" resultante das políticas de redução da pobreza no país. Pretende-se aproveitar várias experiências de microcrédito e usar o conhecimento acumulado pela agência de apoio ao empreendedorismo (Sebrae) para estimular esse novo grupo social a abrir pequenos negócios. Essa "porta de saída" estimularia investimentos em mercearias, restaurantes, cabeleireiros, revendas e "lan houses".

"As famílias do Bolsa Família têm microcrédito e crédito urbano, mas precisamos avançar. Temos de garantir a elas a ascensão, para que deixem de precisar do Bolsa Família", disse Campello em sua concorrida cerimônia de posse.

Avançar também foi uma palavra-chave da presidente Dilma em seu principal discurso de posse, no sábado. Em 2003, quando o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva prestou juramento, a palavra que marcou sua fala foi "mudança". Agora, Dilma prega a continuidade, mas faz acenos à oposição e "estende a mão" às parcelas da sociedade que não estiveram com ela na jornada eleitoral.

Dos oito governadores oposicionistas eleitos ou reeleitos pelo PSDB em outubro, sete compareceram à posse de Dilma. A ausência mais notada foi a do senador eleito por Minas Gerais, Aécio Neves, e do governador Antônio Anastasia. Foi uma nova atitude de Aécio, que sempre condenou a radicalização da disputa entre PSDB e o PT em São Paulo e é hoje visto como o mais forte candidato da oposição em 2014.

Dilma disse que a "estabilidade econômica é um valor absoluto", prometeu qualidade nos gastos públicos e declarou que não permitirá a volta da inflação, que chamou de "praga". Mas o discurso de Dilma foi tímido quando se referiu à reforma política.

 

Negócio: US$ 53 milhões de dólares foram transferidos de Brasília para Paris

Jorge Serrão, Alerta Total

Exclusivo - Uma prova de grandes negócios sempre acontecem em fins de governo. Por volta das 14h 30min desta quinta, final de feira, nada menos que US$ 53 milhões de dólares foram transferidos de Brasília para Paris. Todo mundo achou isto esquisito no Banco Central. Pode ser que a grana acabe na África ou em bancos de paraísos fiscais. Claro, depois de ser dividido com parceiros franceses.

Só falta ao inteligente investidor faturar os R$ 200 milhões da Mega Sena da virada. Pode ser que o transferidor de dólares esteja protegendo o patrimônio, temendo medidas de impacto na economia brasileira até março. Investidores com informações privilegiadas se resguardam contra pequenas traições em grandes negócios. O certo é que houve um movimento de troca de Real por moeda norte-americana, pagando impostos dentro da lei e da ordem econômica, para enviar muito dinheiro para fora.

Pequenos governos e grandes negócios à parte, nem deixou o poder – ou o poder lhe deixou -, Luiz Inácio Lula da Silva já vocifera contra o risco imediato de ser vítima de traições. Ouvidos sempre atentos e indiscretos da Ilha da Fantasia cercada de políticos por todos os lados escutaram Lula esbravejar que não vai toletar traidores, tão logo passe a Presidência para Dilma.

Lula mandou um recado ameaçador aos agora inimigos – até ontem pretensos aliados ou parceiros de negócios político-econômicos. Advertiu, iradamente, que será capaz de produzir e soltar na mídia catálogos de dossiês revelando esquemas montados por aqueles que ousarem atacá-lo ou a seus familiares.

Lula perdeu a estribeira com o vazamento da informação, na Folha de S. Paulo, de que seu filho Fábio Luiz – conhecido como Lulinha – mora há três anos em um apartamento alugado por R$ 12 mil reais, com tudo pago pelo Grupo Gol, que faturou milhões vendendo livros didáticos ao governo federal. Lulinha admitiu que o pagamento do aluguel era feito por Jonas Suassuna, dono do Grupo Gol, mas que também é seu sócio na próspera empresa Gamecorp.

Lula que se cuide! E seus inimigos que se cuidem mais ainda. Quem deve se preocupar muito é o ex-ministro Ciro Gomes. Espiões de Lula identificaram que Ciro pode ser uma fonte de ataques ao Presidente-saideira. O cearense, que agora trabalhará no governo do irmão Cid, ficou revoltado e ameaçou rebeldia verbal contra Lula e parceiros próximos, só porque a quase-Presidente Dilma e o PSB lhe rifaram do pretendido Ministério da Saúde. Pobre Ciro!

Rico Lula! Cada vez mais se vangloriando. Ontem proclamou que “fez o impossível ao eleger uma mulher para a Presidência da República”. Termina seu governo triunfante na verborragia. Mas preocupante em seu íntimo. Sem o poder Presidencial, ele perde o foro privilegiado. Vira um réles mortal. E precisa tomar cuidado ao cantar de galo. O $talinácio de ontem será o frágil Galinácio de amanhã. C´est la vie...

Lula não joga para perder. Só gosta de ganhar. Sabe muito bem que brigar é sempre muito perigoso. Quem tem a perder tem medo de prejuí$o$. Ainda bem que o ano termina logo mais. Tomemos todas as saideiras com o Lula. De preferência com as melhores champanhes e frases francesas, adequadas á conjuntura e perfil de quem sai e de que, entra. São traduzidas não por pedantismo, mas porque o sóbrio leitor $talinácio não domina o francês:

Abondance de biens ne nuit pas. (Dinheiro nunca é demais).

Plus on a, plus on veut avoir. (Quanto mais se tem, mais se quer).

Petit à petit l’oiseau fait son nid. (De grão em grão a galinha enche o papo).

Plaie d’argent n’est pas mortelle. (Quem perde só o dinheiro, não se perde por inteiro).

Selon le vent, la voile. (Não procures mais do que podes).

À l’oeuvre on reconnaît l’artisan. (Queres conhecer o vilão, põe-lhe a vara na mão).

Enfim, como diria o imortal Ibrahim Sued (1924-2005), em seu excelente francês da Praça Paris carioca: “"Ademã, que eu vou em frente”. Será que Lula, também?
Feliz 2011! Se deixarem...

Intelectuais e poder

Roberto Romano (*) - O Estado de São Paulo

Quem se importa, hoje, com indivíduos e grupos "intelectuais"? No pretérito, escritores, filósofos ou cientistas eram combatidos, aceitos ou silenciados pelos regimes políticos, igrejas, patrões ou operários. É imenso o rol dos pensadores, de Erasmo a Bertrand Russell, envolvidos em problemas humanos candentes. No século 20, manifestos assinados por acadêmicos valiam programas políticos e competiam com encíclicas. Daí a estranheza escandalizada quando os "grandes nomes" silenciavam em situações de injustiça, como nas tiranias de esquerda ou direita.

O totalitarismo domou intelectuais famosos e fez do seu discurso propaganda ou hipocrisia. O realismo enfraquece a mente mais brilhante, nela obnubila o sentido ético e moral. No Brasil, O Pasquim criou o slogan exato para quem seguiu a ditadura: "Eu preciso sobreviver, entende?" O periódico espelha a reflexão de Elias Canetti em Massa e Poder. O Prêmio Nobel comenta a conivência entre autores e governo. O poderoso e seus áulicos preferem guardar a própria vida, em detrimento dos outros seres humanos. Para eles não existem família, amizade, partido ou formas religiosas, tudo o que fazem tem por alvo alongar a sua permanência na ordem pública, vampirizando todos ao seu redor.

Certeira analogia é feita por Canetti entre poderosos e intelectuais maníacos da glória. Para eles, as demais criaturas "não têm outra razão de viver senão a de pronunciar um nome muito determinado (...). As diferenças entre o rico, o detentor do poder e o famoso podem ser resumidas mais ou menos assim: o rico coleciona montes e rebanhos. No lugar destas coisas está o dinheiro. Os homens não lhe interessam; para ele é suficiente o fato de poder comprá-los. O detentor do poder coleciona homens. Os montes e os rebanhos nada significam para ele, a não ser que necessite deles para a aquisição de homens. Mas ele deseja homens que vivam, para arrastá-los ou para levá-los consigo à morte. (...) O famoso coleciona coros. Destes quer escutar apenas o seu nome. Eles podem estar mortos ou vivos, ou podem nem ter nascido ainda; tudo isto lhe é indiferente. Basta que sejam numerosos e tenham sido exercitados em repetir seu nome".

O poderoso que busca a sobrevida e o intelectual sedento de fama podem empreender boas e belas coisas: surgem os estadistas e os escritores imortais, que, segundo Canetti, alimentam a humanidade. A maioria dos governantes e acadêmicos, no entanto, é bem representada por líderes como Vargas e Sarney (ambos da Academia e, portanto, imortais...), beneficiários da censura imposta aos seres comuns.

Intelectuais do século 20 levantaram-se contra tiranias, mas também serviram aos poderosos, pouco importa a cor do príncipe, se parda ou rubra. "Não são aplausos que faltam aos intelectuais, mas sim votos aos partidos que eles apoiam (...). Uma coisa é formar o discurso político, outra é ter poder sobre a vida pública" (Gerard Lebrun, Quem Tem Medo dos Intelectuais?). Após a 2.ª Guerra, muitos intelectuais aceitaram viseiras (políticas, religiosas, econômicas), tentando colocar idênticos tampões na opinião pública. Imaginar "bons" escritores em luta contra "bandidos" (na direita ou na esquerda) é lenda que impede entender o reino animal do espírito, nome dado por Hegel à "comunidade" dos cerebrinos.

No Brasil de agora, emudecem os que parolavam sobre ética e serviço ao povo.

As bases militantes acusam suas direções, escondendo de si mesmas o fato de que os dirigentes não agiriam com desenvoltura se tivessem recebido críticas... dos intelectuais. O "bom acadêmico" (como o bom selvagem) contenta-se com penduricalhos (uma assessoria ou cargo honorífico), mas recolhe as ordens dos superiores e as justifica para o público.

Boa parte dos universitários fica de joelhos e usa truques para não atacar a falsa República brasileira. Fingem não ler péssimas notícias, ignoram o privilégio de foro, os lobbies informais, os caixas 2, as pressões corruptas no Estado e na sociedade. Eles antes falavam demais porque, ainda citando Lebrun, "a crítica das instituições e dos privilégios sempre terá mais atrativo do que a banal apologia da ordem estabelecida". Seu vício anabolizante se encontrava na denúncia. Como não podem mais desmascarar, humilhar, destruir inimigos de seus partidos e devem preservar, blindar, adular a própria grei, eles se ocultam no tíbio silêncio. Se os abusos dos três Poderes são gritantes, o dever manda apontar ao público o que se passa nos gabinetes, mesmo à custa de processos judiciais, prisões, exílios, solidão. Quando Voltaire denunciou o caso Calas, não recebeu apoio da sociedade. Ao escrever o tremendo Eu Acuso, Zola não se tornou popular. No tribunal sobre o Vietnã, Sartre e Bertrand Russell recolheram apupos.

Os intelectuais arvoravam mentirosa independência política. Hoje, o seu máximo empenho é assinar listas de apoio eleitoral ou em defesa própria.

Muitos deles passaram oito anos criticando à socapa o governo Lula e, na bacia das almas, assinaram manifestos em favor de sua candidata. Na outra margem, muitos se acomodaram, deixando o candidato oposicionista à deriva.

Eles precisam sobreviver, entende? Bolsas de estudos, recursos de pesquisa, publicação de livros e artigos justificam as zumbaias dos famosos (outros nem tanto) dirigidas aos governantes. Seguir exércitos fortes, no Brasil, traz popularidade, verbas e verbo. É o tempo das vivandeiras, agora no reino do espírito. Os "intelectuais orgânicos", no Brasil e no mundo, mostram para que servem: universalizam slogans em favor dos palácios. Eles são apenas a caricatura piorada de Glauco e Trasímaco.

(*) Filósofo, Professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor, entre outros livros, de ''O Caldeirão de Medeia'' (Perspectiva)

Em 2011, eu quero… Quer mesmo?

Guilherme Fiúza, Revista Época

Não fugirei do clichê. É chegada a hora de colocar no papel as resoluções para o ano que começa daqui a pouco, novinho em folha. Desde o início da semana, venho preenchendo uma lista que batizei de “to do list”. Nela, tracei as metas necessárias para que eu realize alguns desejos. Não foi fácil. Quando colocamos as tarefas no papel, fica evidente a nossa incompetência em relação a alguns assuntos.

Não me surpreendi, por exemplo, quando escrevi que desejo “me sentir bem com a imagem que vejo no espelho”. Preferi ser mais genérica a me prender ao tradicional “quero ser magra”. É mais do que isso. É uma questão de ser feliz com alguns quilos a menos, e não magérrima, que é uma coisa que não combina comigo.

O fato é que os anos passaram e eu comi, sem me preocupar, coisas muito gostosas. Para depois me punir. Ou esbravejar por causa de gente que come bem mais do que eu e não engorda. E aí que todo mês de dezembro, há pelo menos cinco anos, me pego planejando regimes, treinos e sonhando com as minhas antigas calças jeans. Viram? Incompetência. Ou, para soar menos cruel, dificuldade.


No quadrinho, Calvin diz a Hobbes (ou Haroldo): "Resoluções? Eu?? O que você está querendo dizer? Que eu preciso mudar?? Bem, camarada, até onde me diz respeito, eu sou perfeito do jeito que sou!"

Senti, então, a necessidade de entender por que desejamos alguma coisa, como ser magro ou magra ou parar de fumar, e depois fraquejamos. Os mais apressados dirão que é por preguiça ou comodismo. Já ouvi, por exemplo, que engordar é coisa de mulher relaxada. Como se alguém gostasse de se sentir mal toda vez que se despe ou prova uma roupa em uma loja. Há também distúrbios de toda ordem que podem ameaçar a perda de peso. Razões sempre há. Mas vamos falar de ação.

Conversei com a psicanalista Gisela Giglio Armando, do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Perguntei a ela por que encaramos a virada do ano como um momento propício à mudança e por que, muitas vezes, abandonamos a batalha antes de fevereiro. Ela me disse que nós construímos a ideia de que o fim do ano é o fim de um tempo, de um ciclo. É como se pudéssemos zerar o placar, apagar os erros e recomeçar. Porém, objetivamente, o final do ano é apenas uma pausa. Sendo ele uma pausa, o máximo que conseguimos, nesse hiato entre o fim e o início, é tomar decisões pontuais. “E não é possível fazer mudanças eficientes com decisões pontuais. É uma ilusão”, afirma.

Ela continua: “Os desejos, da maneira como os construímos, são contraditórios. No caso do emagrecimento, por exemplo, pode existir um desejo de sedução do outro por meio de um corpo bonito. E, por outro lado, há o desejo de comer, que é algo difícil de sobrepujar, porque a comida geralmente está ligada a sensações boas, como as da infância, da comida preparada pela mãe ou pela avó. Temos, então, um conflito entre o desejo que é consciente e o desejo que é inconsciente”.

Após as respostas dela, fiquei pensativa. Perguntei: haveria uma saída? Ela sugeriu um caminho: não fazer de conta que o final do ano fechou um ciclo. “Tente fazer uma reflexão profunda sobre os seus desejos. Uma reflexão que transborde, vá além do imediato e compreenda a sua identidade, o que ela suporta. Comece perguntando por que não consegue fazer determinada coisa. As respostas serão enriquecedoras”.

Feliz reflexão nova a todos vocês!

Planalto prepara guinada nos aeroportos. Será que agora vai?

Cristiano Romero, Valor Econômico

Setor privado receberá concessão para construir novas unidades e nova secretaria pode ser criada

A presidente Dilma Rousseff prepara uma guinada na gestão dos aeroportos, uma das áreas mais carentes do setor de infraestrutura brasileiro. As mudanças passam pela concessão de alguns aeroportos ao setor privado e a autorização para que grupos empresariais construam e operem novas unidades.

Com as novidades, é provável que o governo autorize o consórcio liderado pela construtora Andrade Gutierreza construir um terceiro aeroporto em São Paulo. A presidente avalia, também, a possibilidade de criar, com status de ministério, a Secretaria Nacional de Aviação Civil, vinculada à presidência da República. Hoje, essa secretaria está ligada ao Ministério da Defesa. Um dos nomes cotados a comandar a nova secretaria é o do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

A decisão de mudar radicalmente a gestão dos aeroportos retoma discussão iniciada em 2008 pelo governo Lula, sob a liderança da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Naquela ocasião, discutiu-se a possibilidade de a Infraero abrir o capital para levantar recursos no mercado e, assim, acelerar as reformas e ampliações de aeroportos. Numa reunião na Casa Civil, empresários explicaram à ministra que a abertura de capital não funcionaria porque os investidores não teriam interesse em colocar dinheiro numa empresa gerida pelo governo. Dilma, segundo apurou o Valor, teria se convencido, então, da necessidade de fazer parcerias com o setor privado.

O governo começou, então, a debater a possibilidade de fazer concessões de alguns aeroportos - inicialmente, do Galeão, no Rio de Janeiro, e de Viracopos, em Campinas (SP) - e de autorizar a privatização de outros. O plano foi abortado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que alegou ter assumido compromisso com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) de não privatizar em sua gestão.

No ano passado, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, concluiu proposta de criação de um novo marco regulatório para os aeroportos, prevendo a concessão de algumas unidades à iniciativa privada. Hoje, a Infraero administra 67 aeroportos federais, 80 unidades de apoio à navegação aérea e 32 terminais de logística de carga.

Com algumas exceções, toda essa infraestrutura pertence à União e não à Infraero, que, sem ativos, não consegue obter crédito para bancar investimentos. A adoção do novo modelo permitirá à estatal receber concessões de aeroportos e, assim, possuir um patrimônio.

A primeira medida para viabilizar o regime de concessões dos aeroportos será a assinatura de um contrato entre a União e a Infraero para definir o patrimônio da empresa. Por esse documento, será estimado o valor presente dos negócios com os aeroportos e a estatal, que passará a deter a posse de bens relacionados à infraestrutura.

O governo ainda não definiu que aeroportos concederá ao setor privado. Uma proposta encampada pela Associação Brasileira de Infraestrutura e da Indústria de Base (Abdib) e entregue ao governo no início de 2009 recomendou a concessão dos 15 maiores aeroportos, dos 67 geridos pela Infraero. Fontes oficiais do setor veem com ceticismo, porém, essa possibilidade.

Colaborou Cláudia Safatle

A pérola máxima do molusco presidente!

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Será que Lula bebeu? Não tem outra explicação.

Que rufem os tambores! Sir Lula vem aí! Um poço de simpatia. O homem das pérolas. O homem sem papas na língua. O destemido. O sem noção ataca de novo.

E logo quem ele resolveu atacar!

Será que Lula bebeu? Já que é final de festa, com certeza entre uma fala e outra de seus sempre últimos discursos ele bebeu. Ou a água estava batizada. Não tem outra explicação.

Num passado recente, Lula, na presença do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que a crise daquele momento era causada por ‘pessoas brancas de olhos azuis’, até porque não conhecia ‘nenhum banqueiro negro’. Uau. Uau duas vezes! Tô passado até agora com essa frase. Linda frase, que tem a cara do Lula, e que segundo seu assessor Marco Aurélio Garcia, que sempre tem uma explicação para as barbaridades que Lula fala, o presidente fala por metáforas. Sim, ele adora isso. Metáforas. E ainda segundo seu assessor, as metáforas não se explicam. São óbvias. E cada um tem uma versão. Então tá tudo explicado. Marco Aurélio garantiu que não houve nenhuma conotação racista. Que fique claro. Mas lá fora não foi o que pareceu.

Mas esse é Lula, o cara!

E Lula tinha que, agora, no apagar das luzes, no frigir dos ovos, soltar talvez a pérola máxima. Ou melhor, a metáfora máxima de seu governo. De seus oito anos de metáforas. Sua frase quase que final.

‘Foi gostoso ver os EUA em crise…’.

Uau (de novo). Essa metáfora pode ser interpretada de várias maneiras. Uma delas é que o presidente sofre de algum tipo de “disfunção erétil” cerebral (talvez), pois sente prazer com coisas diferentes. Que exemplo de homem. Que exemplo de vida. Que exemplo para as criancinhas que o amam e não sabem que debaixo dos caracóis daquela barba se esconde um Shrek. Do mal.

Como pode um presidente dizer que está se divertindo vendo os países amigos se afundarem em suas crises e ver que suas economias estão em frangalhos? Eu já acho que Lula na verdade disse: “Eu sou demais! Eu sou “o cara”. Eu sou o máximo. E ver vocês todos na lama me dá tanto prazer que hoje acho que sei o que é ter um orgasmo internacional”. Mas com certeza seu assessor entrou e redigiu a metáfora para que a frase pudesse ser publicada no horário nobre. Afinal Lula só fala por metáforas. Ele é o homem metáfora.

Corremos o risco de ver Lula ganhar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ele talvez só não ganhe uma estrela na calçada da fama porque falou diretamente para Obama. E logo ele que conferiu o titulo a Lula de “o cara”. Acho provável que Obama mude um pouco o título para “o cara mais sem noção” que já conheci.

Só falta agora Lula entrar com mais um discurso de despedida em edição especial, tipo ‘Plantão da Globo’, oferecendo ajuda financeira aos EUA. Mas, claro, lembrando que tudo que ele fala não passa de uma metáfora.

Mas é justamente aí que mora(va) o perigo. Se eu pelo menos soubesse isso desde o começo, ia tentar estudar até mais, não só as metáforas e como devemos interpretá-las, mas as várias figuras de linguagem, pois Lula na verdade é um molusco cheio delas. E que as pratica com maestria.

E estou quase convencido de que ele tem razão. Nós que o criticamos, a imprensa de um modo geral e a oposição, é que somos a parte burra, a parte que não entende de nada. Absolutamente nada. E que tudo isso que vimos e ouvimos quer dizer justamente aquilo que nossa interpretação das coisas não alcança.

Só que agora é tarde demais, diria Lula. Vocês é que saíram perdendo, que não conseguiram aproveitar o melhor de mim. Ou seria o melhor de eu? Eu fiz, eu faço. Eu sou demais. Eu vou voltar!

Salvem as baleias. Não jogue lixo no chão. Não fumem em ambiente fechado.

Agora é pra valer!

Feliz Ano Novo! Feliz 2011!

O Lula da despedida

Villas-Bôas Corrêa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a oportunidade do café da manhã com os jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Planalto, para uma entrevista madura, meditada e exemplar. A melhor ou entre as melhores dos seus oito anos dos dois mandatos.

Para começo de conversa, foi categórico em afirmar que lutará pela reeleição da presidente Dilma Rousseff, com a sensata ressalva que é cedo para tratar da reeleição, tema que só pode interessar a oposição.

No embalo da emoção da despedida, confessou que gostaria de voltar a ser amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que deve ter carpido o remorso do desencontro. Pois, no mesmo dia, Fernando Henrique Cardoso, no programa Manhattan Connection, do GNT, com o sovado apelo ao “sem falsa modéstia” mas esbanjando vaidade, declarou que foi ele e não o presidente Lula que mudou o Brasil. Numa concessão à prudência, citou o presidente Getúlio Vargas como o maior presidente de uma relação que inclui Juscelino Kubitschek, Campos Salles, Rodrigues Alves e o general Castelo Branco.

Como o presidente Lula não tomara conhecimento do destampatório de Fernando Henrique Cardoso, voltemos à sua objetiva conversa com os repórteres.

O Lula com a alma de ex-presidente, reconheceu que “ não tenho mais idade para estudar. Eu queria mesmo era ser economista. Mas temo que tenha pouco mais a aprender do que aprendi na Presidência da República, por que isto aqui é uma pós-graduação elevada à quinta potência”.

Fernando Henrique Cardoso voltou à baila: “Do ponto de vista pessoal, a hora em que eu encontrar o Fernando Henrique Cardoso, voltamos a ser se não amigos como fomos em 1978, quando eu o procurei para apoiá-lo como candidato ao Senado, mas amigos”.

Lula só tem elogios para a presidente eleita Dilma Rousseff: “estou confiante que Dilma montou um governo para aprimorar as coisas que fizemos. Ela conhece a totalidade das obras que fizemos. Conhece os ministros todos os ministros e boa parte já trabalhou com ela.”

E foi mais enfático na reafirmação do seu esforço para “desencarnar da Presidência: “Estou empenhado em passar por um processo de desencarnação da Presidência. Se você deixa Presidência e continua fazendo política, logo em seguida vai estar sempre com ela na cabeça. Isso não é correto, nem para mim nem para quem vai assumir. Vou passar um tempo sem dar palpite em política. Vou tentar voltar à normalidade”.

As promessas de Dilma

O Estado de São Paulo

O governo da presidente Dilma Rousseff será bem mais que uma continuação dos oito anos de seu antecessor, se ela cumprir as promessas mais audaciosas de seu discurso de posse. Ela prometeu retomar a pauta de reformas, abandonada quase inteiramente durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se houver empenho nessa missão, o Brasil poderá nos próximos quatro anos não só avançar algumas posições entre as grandes economias. Poderá também acumular os benefícios combinados da modernização produtiva e da consolidação democrática e estará, portanto, muito mais qualificado para integrar o Primeiro Mundo.

A presidente definiu como "tarefa indeclinável e urgente" a reforma política, necessária para aperfeiçoar a democracia e "fortalecer o sentido programático dos partidos". Há muito emperrado no Congresso Nacional, esse projeto recebeu escassa atenção do último governo, mais inclinado a recorrer ao fisiologismo do que a aperfeiçoar as instituições.

O desinteresse pela modernização institucional também permite explicar, em boa parte, a estagnação do regime tributário, cada vez mais nocivo a uma economia moderna e aberta. A presidente apontou os tributos como um dos obstáculos ao desenvolvimento e defendeu sua reforma com base nos critérios da simplicidade e da racionalidade.

De forma discreta, a presidente Dilma Rousseff procurou impor sua marca no tratamento das questões econômicas e sociais. Em dois momentos afirmou seu compromisso com a estabilidade e mencionou explicitamente a importância do controle da inflação. O crescimento associado a fortes programas sociais impõe a manutenção de sólidos fundamentos econômicos. "Isso significa - reitero - manter a estabilidade econômica como valor absoluto." Essa ênfase é sem dúvida uma novidade.

Ao mencionar a importância do Estado como provedor de serviços básicos e de previdência, falou em "custos elevados para toda a sociedade". Mas, em vez de defender a carga tributária, propôs a melhoria dos serviços e a qualificação dos gastos governamentais. Também nesse ponto sua fala se distanciou da retórica do presidente Lula, acostumado a defender a tributação brasileira como perfeitamente razoável e indispensável para custear a ação do governo. A qualidade dos gastos e a eficiência do serviço público têm sido um tema da presidente desde sua eleição. Seu antecessor sempre tratou essas questões como se fossem preocupações das "elites".

Também ao tratar do pré-sal a presidente mostrou uma perspectiva diferente daquela revelada, quase sempre, nos pronunciamentos do presidente Lula. Depois de mencionar a responsabilidade de converter a riqueza do pré-sal em "poupança de longo prazo" e em novo instrumento de modernização econômica e social, a presidente acrescentou: "Recusaremos o gasto apressado, que reserva às futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança." Para que essa declaração, intrigante à primeira vista, se não para marcar, mais que uma posição, uma diferença?

A presidente Dilma Rousseff insistiu na promessa de continuidade marcada por avanços. Até aí, nada de surpreendente, até porque essa devia ser a expectativa da maior parte - senão da totalidade - de seus eleitores. Apesar disso, seu discurso teve também o indisfarçável tom de uma nova Carta ao Povo Brasileiro, destinada a afastar inquietações e a afirmar a identidade de um novo governo. Ao qualificar como "inegociável" seu compromisso com as liberdades individuais e, de modo especial, com a liberdade de imprensa e de opinião, a nova presidente parece ter feito muito mais que uma rotineira declaração de princípios.

Esses temas foram tão importantes no debate político recente quanto o risco de calote da dívida pública, nos meses anteriores à eleição do presidente Lula, em 2002. Para não dar o calote, ele precisou renegar teses tradicionais do PT e as próprias opiniões. Para consolidar o respeito às liberdades democráticas e, de modo particular, à liberdade de imprensa, a presidente Dilma Rousseff terá de renegar não só bandeiras de seu partido, mas também as pretensões do governo chefiado por seu antecessor e principal artífice de sua eleição.

Battisti: não fosse a realidade, Lula estaria certíssimo

Josias de Souza, Folha.com

Data curiosa o Réveillon. Suscita reações limítrofes, encenadas sobre a fina lâmina do tempo. Os fogos lançados. O copo erguido. O afago amigo. O carinho íntimo.

Tudo pode começar num tempo e terminar em outro. Num instante, o presente. Súbito, na derradeira virada do ponteiro, o futuro é deixado para trás.

Lula escolheu esse intervalo invisível, Tordesilhas de seu governo, para tomar, junto com o espumante, uma decisão polêmica.

Resolveu, finalmente, ceder os céus do Brasil, esse teto generoso, ao terrorista Cesare Battisti, cuja extradição a Itália havia solicitado. Beleza.

Evolua-se para a pergunta óbvia: por quê? A resposta, informou o Planalto em nota, está num parecer da Advogacia-Geral da União, acatado por Lula.

Pois bem. O que diz o doutor Luís Inácio Adams, advogado-geral? Em texto empolado, o xará de Lula anota o seguinte:

“Conclui-se que há ponderáveis razões para se supor que o extraditando possa ser submetido a agravamento de sua situação pessoal...”

“...E que, se plausível a premissa, deve-se aplicar o tratado [firmado entre Brasil e Itália no final dos anos 80], no sentido de se negar a extradição”.

Sim, sim. Mas, afinal, o que diabos prevê o tal tratado bilateral? A picanha é grande. O sumo está no miolo.

Prevê a concessão de refúgio quando existirem "razões ponderáveis para supor que a pessoa [...] será submetida a atos de perseguição e discriminação”.

Coisas que envolvam “raça, religião, sexo, nacionalidade, língua, opinião política, condição social ou pessoal”.

Trocando em miúdos: Lula decidiu dar abrigo a Battisti no Brasil para protegê-lo da perseguição a que seria submetido caso fosse devolvido à Itália.

Tudo seria lindo, não fosse a realidade. Eis o que sucede com Battisti fora do mundo de fantasias criado por Lula em benefício do preso:

1. O Estado democrático da Itália acusou Battisti de ter cometido crimes de sangue.

2. Como militante da organização Proletários Armados pelo Comunismo, teria passado nas armas, entre 1978 e 1979, quatro pessoas. Battisti nega.

3. Nesse ponto, a primeira dúvida. Supondo-se que os crimes tenham sido cometidos por Battisti, seria ele: A) um criminoso comum; B) ou um combatente político.

4. Crave-se a opção ‘A’. Entre os mortos, havia italianos que nada tinham a ver com o Regime que Battisti se dispôs a combater. Entre eles um açougueiro e um joalheiro.

5. Julgado pelo Judiciário da Itália, Battisti foi condenado à cana perpétua. O processo correu à revelia do réu, que havia fugido.

6. Depois de passar pela França e pelo México, Battisti veio dar nesta terra de palmeiras e sabiás. Preso, encontra-se encarcerado há quatro anos.

7. O Estado democrático de Roma requereu sua extradição. Antes que o processo fosse apreciado pelo STF, o companheiro Tarso Genro piscou.

8. Na pele de ministro da Justiça, Tarso deu a Battisti, em janeiro de 2009, o status de refugiado político. Decisão individual, contra o conselho de refugiados da pasta.

9. Em essência, Tarso esgrimira o mesmo argumento que Lula ressuscita agora: se devolvido à Itália, Battisti seria perseguido.

10. Na sessão em que o pedido de extradição de Battisti foi à mesa, o STF cuidou, antes, da apreciação do ato de Tarso Genro. Desconstituiu-o. De cabo a rabo.

11. No mais, os ministros do Supremo, com a responsabilidade das togas a pesar-lhes sobre os ombros, consideraram lícito e legal o pedido do governo da Itália.

12. O tribunal entendeu que não lhe cabia julgar a legitimidade da condenação imposta pelo Judiciário italiano a Battisti.

13. Durante a sessão, alguns ministros realçaram: a Itália que condenou Battisti não é república de bananas, mas Estado em pleno usufruto da democracia.

14. Aprovou-se, por constitucional, a extradição. Encurtou-se a cadeia de perpétua para 30 anos, encarceramento máximo previsto nas leis brasileiras.

15. De resto, em decisão considerada polêmica por uns e errada por outros, o STF transferiu a Lula a palavra final sobre o pedido de extradição. Porém...

16. Porém, o Supremo cuidou de fixar as balizas: Lula teria de guiar-se pelos termos do tratado firmado pelo Brasil com a Itália. Uma peça que tem peso de lei.

17. Ao ressuscitar os argumentos de Tarso Genro para fundamentar a negativa da extradição, Lula faz troça da Itália e, de quebra, do próprio STF.

18. Brinca com a Itália ao tratar a nação amiga como se fosse uma ditadura cubana. Achincalha o Supremo ao levantar tese que o tribunal já derrubou.

19. Para diferenciar-se de Tarso, Lula fabricou uma piada nova: em vez de refugiado, decidiu dispensar a Battisti o tratamento de imigrante.

20. Roma decidiu recorrer, de novo, ao STF. Mesmo sem o recurso, o Supremo teria de opinar sobre o ato de Lula. Cabe ao tribunal expedir –ou não— o alvará de soltura de Battisti.

21. Assim termina 2010. No ocaso do seu segundo reinado, Lula injeta veneno no 2011 de Dilma Rousseff, condenada a lidar com a justa fúria do governo da Itália.

Um porta-voz de si mesmo

João Bosco Rabello, Estadão.com

O presidente Lula entrará para a história como o que mais falou para o País. Compareceu diariamente aos telejornais, para manifestar-se sobre tudo e sobre nada. Não há exagero em dizer que governou literalmente do alto dos palanques. Foi o porta-voz da República e de si mesmo.

Essa circunstância, mais que qualquer outra, dá consistência ao bordão que usou exaustivamente, do "nunca antes neste país". Lula fez nada menos que 2.519 pronunciamentos nos seus oito anos de mandato, o que equivale a um discurso diário.

Não entram nessa conta as declarações avulsas e de improviso nos chamados "quebra-queixo" (as entrevistas não programadas, dadas em pé) nem o programa Café com o Presidente.

Longe da casualidade, a performance é estratégica: permitiu que impusesse, pela insistência, suas versões, a despeito, não poucas vezes, dos fatos. De quebra, deixou a impressão de ter feito muito mais do que fez. E de ter acertado bem mais do que acertou. E era exatamente essa a ideia. Nesses termos, foi bem-sucedido.

O duelo das versões com os fatos começou pela difusão da ideia de "herança maldita", mencionada já no dia seguinte à posse. Estabelecida, usurpou de seu antecessor a autoria do programa que lhe permitiu êxitos na economia: fim da inflação, Lei de Responsabilidade Fiscal, câmbio flutuante autonomia operacional do Banco Central.

Lula manteve o modelo econômico que herdou (e combateu), inclusive nomeando como autoridade monetária máxima um quadro do PSDB, Henrique Meirelles, cuja performance técnica lhe permitiu ousar nos programas sociais, obtendo tal popularidade que o blindou dos constantes desvios éticos de seu governo.

Conquistas e desafios

Roberto Setubal - Presidente do Banco Itaú Unibanco, Revista IstoÉ


O próximo governo terá a oportunidade de dar um novo salto no desenvolvimento do Brasil, desde que aproveite as conquistas dos últimos anos e persevere nas mudanças que o País precisa. Há uma série de oportunidades e desafios para o futuro.

O Brasil hoje se insere favoravelmente no contexto global. A exigência de redução nos gastos do consumidor nos EUA cria a necessidade de que outros países ajudem no papel de consumidor de última instância, em especial países emergentes com elevado potencial de crescimento do seu mercado consumidor. Tais países passam a atrair uma fatia cada vez maior do investimento global. E, entre eles, o Brasil é sem dúvida um dos destaques.

O crescimento da classe média no Brasil é substancial. Entre 2003 e 2009, cerca de 35,7 milhões de pessoas entraram nas classes A, B e C. Estimamos que até 2014 outros 27,9 milhões serão incorporados a estas classes. Este é o resultado do crescimento da economia, somado à formalização do mercado de trabalho e à eficácia das políticas sociais. Este processo terá implicações profundas sobre o ambiente de negócios no Brasil.

Nos últimos anos a estabilidade macroeconômica – como o controle da inflação - tem gerado dividendos para o desenvolvimento. O risco macroeconômico caiu e a confiança no Brasil está em alta, o que tem se manifestado num processo de queda da taxa de juros real. Este processo deve prosseguir nos próximos anos. Ainda que os juros possam subir em algum momento, a tendência estrutural é de queda, o que favorecerá o investimento, assim como o desenvolvimento do mercado imobiliário.

O Brasil tem o desafio de acelerar os investimentos de forma substancial nos próximos anos. Além dos investimentos necessários das empresas para satisfazer à demanda crescente desta nova classe média, há os investimentos em recursos naturais de que o mundo tanto precisa. Em especial, as descobertas no pré-sal vão exigir muitos recursos, além de novas tecnologias. Existe também o desafio de continuar a encurtar o hiato habitacional hoje existente com maiores investimentos em residências. Sem falar nos compromissos assumidos com eventos esportivos como a Copa do Mundo e a Olimpíada. Para isso o Brasil terá que dar um salto de qualidade na sua infra-estrutura, especialmente nos setores ligados a portos, estradas, aeroportos e logística.

Para os próximos anos, as necessidades de financiamento do investimento serão elevadas. Com a poupança doméstica (privada e pública) nos níveis atuais, o País acabará recorrendo à poupança externa para conseguir financiar o crescimento. Isto significa um maior déficit em conta-corrente consistente com um câmbio real valorizado pela entrada de capitais. O forte crescimento da economia não pressiona somente as contas externas, mas também pode colocar desafios à convergência da inflação para níveis ainda menores no futuro.

O crescimento sustentável demanda avanços na educação. É preciso ênfase no acúmulo de conhecimento, na formação de indivíduos que sejam capazes de ser produtivos, de resolver problemas e liderar. No Brasil houve bastante avanço na educação, principalmente no acesso das crianças ao ensino fundamental. O grande desafio dos próximos anos é o aumento da qualidade da educação escolar. Quem consegue adquirir mais educação tem como benefício uma renda muito maior na sua carreira. Interessante é que apenas gastar mais não resolve. Não basta simplesmente realocar recursos para a educação, é necessário planejar e colocar os incentivos corretos para que professores e escolas levem os alunos a um desempenho melhor.

Em suma, há vários desafios pela frente. Mas o Brasil encontra-se em situação privilegiada para aproveitar as oportunidades e alavancar o crescimento.

Mais déjà-vu ou novas estratégias?

Washington Novaes - O Estado de São Paulo

E se chega ao fim do ano com a incômoda sensação - relendo o que o autor destas linhas escreveu neste espaço no primeiro dia de 2010 - de que o tempo não passou ou não foi aproveitado para enfrentar as graves questões ali enumeradas. De novo, várias capitais e outras cidades às voltas com inundações, evidenciando seu despreparo para se adaptarem às mudanças climáticas com programas de readequação das áreas urbanas aos eventos extremos, cada vez mais frequentes. O último balanço do ano acusa 250 mil mortos no mundo em consequência de "desastres naturais" (incluindo enchentes, terremotos, etc.), mais que os 115 mil que perderam a vida em atos terroristas ao longo de 40 anos (The Washington Post, 20/12). E US$ 222 bilhões de prejuízo.

Mas pouco ou quase nada conseguimos avançar, como demonstrou a reunião da Convenção do Clima em Cancún - com duas questões novas e graves: 1) A Bolívia recorrendo e cortes internacionais porque seu voto na reunião - que impedia o consenso indispensável para decisões - não foi levado em conta; 2) os países-ilhas, como o Arquipélago de Marshall, com 61 mil habitantes, perguntando quem assumirá a solução se ele desaparecer do mapa com a elevação do nível do mar (a seu pedido, a Universidade Columbia, nos EUA, discutirá a questão em abril). Enquanto isso, países "emergentes" e "em desenvolvimento acusam os industrializados e recusam-se a assumir compromissos de redução de emissões - deslembrando a proposta brasileira de 1997, em Kyoto, de que cada país deveria assumir cotas de redução proporcionais à sua contribuição para o acúmulo de gases na atmosfera desde a revolução industrial e às atuais emissões.

E assim seguimos impermeabilizando nossas cidades, entupindo-as com veículos (no mundo, são 170 mil veículos novos por dia), assoreando rios com deposição de esgotos, sem regras para a expansão urbana. Diz a Agência Nacional de Águas que em seis anos 1.896 de 2.965 municípios analisados atingirão o limite máximo de fornecimento de água. Mas as perdas de água nas redes urbanas continuam por volta de 40% (26% em São Paulo), sem que haja programas de financiamento para projetos de recuperação e manutenção das redes, muito mais baratos que construir mais barragens, adutoras e estações de tratamento. Quase metade dos brasileiros não conta com redes de coleta de esgotos em sua casa, pelo menos 20 milhões não recebem água tratada, menos de 30% dos esgotos coletados recebem algum tratamento. Mas não se cumprem sequer os objetivos previstos no PAC e a "universalização" do saneamento levará pelo menos 20 anos.

Agora temos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos. Mas nos faltam instrumentos e recursos para dar destinação adequada a pelo menos 230 mil toneladas diárias de lixo domiciliar e comercial. Os municípios gastam hoje mais de R$ 15 milhões por dia na coleta, mas os aterros das grandes cidades estão quase todos esgotados e 70% dos municípios não dão destinação adequada aos resíduos. Com a colaboração do Senado - que suprimiu no projeto de lei nacional a indicação de que a incineração só seria permitida se inviáveis o reaproveitamento, reciclagem ou aterramento do lixo -, os caríssimos e inadequados projetos de incineração avançam a passos céleres em vários lugares. Nos últimos dias do ano, o decreto-lei presidencial que regulamentou a política de novo restabeleceu a prioridade para outras possibilidades.

A Convenção da Biodiversidade em Nagoya demonstrou a gravidade da situação no mundo, que consome 30% mais de recursos naturais do que o planeta pode repor. Mas se tenta por aqui mudar o Código Florestal para reduzir as exigências de conservação. Avança-se um pouco na Amazônia na questão do desmatamento, mas se vai em frente a todo vapor com os projetos de novas hidrelétricas, comentados aqui na semana passada. E o Cerrado, que este ano se transformou num imenso caldeirão, com número recorde de queimadas, continua a perder vegetação em 14 mil km2 anuais, segundo o governo, 22 mil segundo as ONGs. Até pelo avanço descontrolado do plantio de cana-de-açúcar. Certamente com consequências muito fortes, inclusive no acúmulo de água para as três bacias hidrográficas que abastece, e na agricultura, que já se ressente de perdas fortes. Mais que nunca, fica evidente a ausência da chamada "transversalidade" nas ações do governo federal - o ex-secretário-geral do Ministério do Meio Ambiente João Paulo Capobianco chegou a dizer que "o governo não tem política ambiental".

Quando se reveem temas sociais tratados ao longo do ano, fica evidente que o setor de saúde continua empacado, e agora com a alegação de que é preciso recriar a CPMF para financiá-lo, quando a administração federal continua a gastar mais de R$ 150 bilhões por ano em pagamento de juros bancários e a investidores em papéis financeiros (mais de 12 vezes o orçamento anual do Bolsa-Família). Mas não se empenha numa verdadeira reforma tributária, que cesse com os programas de incentivos fiscais concedidos pelos Estados e que somam centenas de bilhões de reais por ano - concentrando a renda e desviando recursos da saúde e da educação. Esta última, sem profundas modificações, não conseguirá avançar na qualificação de pessoas para o mercado e na abertura de saídas para jovens que abandonam a escola e aderem à marginalidade.

É evidente que o País avançou em muitas áreas sociais nos últimos anos, com a estabilização monetária, os vários programas sociais consolidados, o crédito consignado. Mas terá de conceber novas estratégias, se não quiser ser vítima da crise financeira mundial e das transformações internacionais na produção de bens que concorrem com os nossos.

Agora, é esperar se as novas administrações se conscientizarão das novas realidades ou seguirão no déjà-vu inquietante.

O enigma Dilma

Everardo Maciel, Correio Brasiliense

No curso da história brasileira, poucas pessoas chegaram à Presidência da República com tão escassas informações sobre suas habilidades políticas e administrativas quanto Dilma Roussef. Como reagirá a nova presidente ante as inevitáveis crises? Terá estilo próprio ou será tutelada pelo presidente Lula? Nada se sabe.

Ressalvada a cota pessoal da presidente, a escolha dos 37 ministros pautou-se conforme os caóticos ritos do nosso curioso presidencialismo. Resultou de meras indicações de partidos e facções partidárias, eventualmente de governadores, sem o mais remoto sinal de orientação programática. Nesse cenário sobressaiu um inédito crivo do presidente que sai. Coordenar essa equipe não será tarefa fácil.

No contexto das boas escolhas, algumas merecem destaque: o ministro Antônio Palocci, Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, e Carlos Alberto Barreto, secretário da Receita Federal.

Palocci é a garantia de bom senso, conhecimento e experiência. Será um filtro contra ideias mirabolantes. Exercerá sua missão com equilíbrio e realismo. Em relação à reforma tributária, por exemplo, certamente vai desestimular proposições grandiloquentes, preferindo abonar propostas pragmáticas.

Tombini é um técnico preparado e probo. Terá a dificílima tarefa de encontrar uma saída para a armadilha do câmbio, que está comprometendo gravemente nossas exportações e gerando sério processo de desindustrialização.

Barreto, com as mesmas qualidades de Tombini, terá a missão de resgatar a credibilidade da Receita, abalada em virtude dos vazamentos de informações sigilosas, e de superar o clima de conflagração entre as categorias profissionais daquele órgão. Precisa, também, resgatar a capacidade de formular políticas fiscais pela própria Receita, indevidamente subtraída após a gestão do secretário Jorge Rachid. Sem essas iniciativas, será muito difícil assegurar crescente melhoria na qualidade da administração tributária.

No campo das políticas públicas, a presidente Dilma defrontar-se-á com um alentado cardápio de problemas. É verdade que nos últimos oito anos o país cresceu, houve redução do desemprego e melhorou a distribuição de renda. Esse desempenho foi fruto da boa herança do governo Fernando Henrique, das excepcionais condições da economia internacional e da disposição do presidente Lula de preservar aquela herança e ousar nos programas sociais.

As circunstâncias tanto quanto os resultados, portanto, foram excepcionais. É ilusório, todavia, pensar que desenvolvimento fundado apenas em consumo, expansão de crédito e transferências de renda possa ser duradouro. É modelo eleitoralmente produtivo, mas economicamente débil. Sua vulnerabilidade é de tal ordem que “marolinhas”, no cenário internacional, podem simplesmente reduzi-lo a pó, com dramáticas consequências sociais, conforme evidenciam as sucessivas crises econômicas contemporâneas.

Eventuais ganhos decorrentes da exploração do pré-sal, se bem orientados, podem significar um grande passo em direção a novo patamar de desenvolvimento. É imperioso prosseguir no esforço para reunir condições tecnológicas e financeiras para dar curso à exploração. Não esqueçamos, entretanto, que tudo isso, por ora, é mera expectativa.

O governo Lula não se animou a fazer reformas que implicassem custo político. Nosso modelo previdenciário é inviável a longo prazo; a legislação trabalhista é fator impeditivo de superação da informalidade; o sistema orçamentário é pantomima que nada planeja ou controla; a política de pessoal da administração pública apenas não existe; a gestão da saúde e educação públicas caminha para falência. O Estado precisa de reforma profunda.

Qualquer pretensão de desenvolvimento consistente a longo prazo requer uma política educacional que não se satisfaça com estatísticas descomprometidas com a lamentável qualidade do nosso ensino. Da mesma forma, a sucateada infraestrutura de estradas, portos e aeroportos será sempre uma limitação na persecução de taxas mais ambiciosas de crescimento econômico.

No Brasil, lamentavelmente foi conferida prioridade à expansão dos gastos correntes em desfavor dos investimentos, o que vai exigir indigestos programas de austeridade fiscal, sob pena de ficarmos reféns do dilema juros altos ou inflação.

Pessoas que conhecem, de perto e de longa data, a nova presidente asseguram que não será o nono ano do governo Lula, mas o primeiro do governo Dilma. Seja qual o for o significado dessa expressão, a verdade é que o enigma Dilma só será decifrado por ela própria. Esperamos que seja um bom governo.

Diplomatas criticam reserva de vagas para negros no Instituto Rio Branco

Instituto Millenium

O Itamaraty decidiu adotar um (polêmico) sistema de cotas raciais para o concurso de diplomatas. Até mesmo defensores da política admitem que o critério abre brechas para distorções e injustiças, pois a instituição exige apenas que o candidato se declare afrodescendente para ser beneficiado.

Para a titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Yvonne Maggie, a decisão do Itamaraty incentiva a disputa entre brancos e negros em um país “sem raças definidas”, mas com efetiva desigualdade social.

O embaixador aposentado Rubens Barbosa acredita que o Itamaraty cometeu um equívoco ao adotar o sistema para impulsionar o acesso de negros à diplomacia. Ele afirma que o Instituto Rio Branco já havia dado um passo importante e suficiente quando decidiu conceder bolsas para estudantes interessados na carreira, sem condições financeiras para se preparar para a difícil prova do Instituto Rio Branco.

O sociólogo Joaze Bernardino, da Universidade de Brasília (UnB), comemorou a decisão do Itamaraty, mas advertiu que a autodeclaração como preto e pardo, método tradicional de aferição, provoca confusão.

Fonte: “O Globo”

O advento da era da razão

Gaudêncio Torquato (*) - O Estado de São Paulo

Dúvidas balizam as interlocuções nos mais diversos ambientes: como será o governo da presidente Dilma Rousseff? Ela vai impor autoridade? Será pálida sombra do ex-presidente Lula? Sem traquejo na área política, conseguirá administrar as pressões partidárias e passar pelo olho do furacão nas Casas congressuais? As interrogações se apresentam pelo fato de suceder a um governo acentuadamente marcado pelo perfil do líder mais carismático de nossa contemporaneidade.

Sob esse prisma, a leitura mais linear é a de que a fosforescência do ciclo anterior tende a ofuscar a luz que se acende no palco que se abre. Pode-se apostar nessa hipótese? Não. A tendência é a de que a nova iluminação até propicie comparações de cores e matizes com a anterior, particularmente no seio de conglomerados que não mais verão no palanque a pessoa que identificavam como uma de suas legítimas representantes. As massas cultivam a catarse gerada por líderes carismáticos, que nelas provocam contínuas descargas emotivas. Vão perdê-la. Se a perda ocasionará algum vazio para elas, fará bem à identidade do governo Dilma. A alteração da maneira de agir do governante, pela forma de contato com as plateias, será benéfica ao País, pois o império da razão suplantará o reinado da emoção. Ciclos calcados na glorificação de imagens geralmente descambam na anestesia social. E uma sociedade anestesiada fecha as portas do futuro.

Não é preciso ser profeta para anunciar que a primeira mulher a comandar o País abrirá a era da racionalidade. Basta examinar sua trajetória na coordenação do Ministério Lula. Trata-se de pessoa afeita a planejamento, gerenciamento, controles e cobrança. Isso, por si só, é merecedor de aplausos, eis que passamos - e perdemos - um bocado de tempo interpretando a expressão do presidente que saiu ou ensaiando versões sobre o que disse ou tentou dizer. A substituição do verbo pela ação constitui um avanço. Os grupamentos pragmáticos, a partir das forças produtivas, terão motivos para comemorar o fato de que, doravante, encontrarão pautas mais concisas e objetivas. Os eventos serão desprovidos da verve de discursos improvisados e metáforas, ganhando mais substância. O que será condizente com um país que precisa regular os parâmetros a uma nova ordem. Há uma conta (grande) a ser paga e que, sabe-se, tem sido empurrada com a barriga - 2011 se prestará a ajustes, entre os quais o financiamento da área da saúde, o preenchimento dos buracos da Previdência, cada vez mais fundos dada a expansão da conta dos aposentados, carências no setor de segurança, etc.

Quando se diz que o Brasil passou ao largo da crise financeira internacional (2008-2009), pouco se destaca que isso não se deu de maneira fortuita. A política que propiciou a milhões de brasileiros amplo acesso ao consumo oxigenou as veias da economia. Chegou, porém, o momento de o País adequar a política econômica às novas disposições da economia internacional, no entendimento de que não é uma ilha de segurança no mundo conturbado. O início de um novo governo é ideal para integrar políticas e alinhar posições. Nesse ponto emerge o perfil da presidente. Não se espere que o primeiro ano da governante seja pleno de realizações e ações de impacto. Servirá, isso sim, para a correção de rumos e desvios, justaposição de programas e projetos, a partir de rígida revisão do PAC. Como agirá Dilma? É possível distinguir na nova mandatária-mor um senso crítico mais acentuado que o de seu antecessor. Será mais exigente e inflexível do que Lula nas cobranças. Essa característica, aliás, ganhará relevo, até porque é esse vetor que balizará sua identidade. O alinhamento da equipe ministerial tomará um bom tempo, não se devendo descartar a possibilidade de substituição de um parafuso na engrenagem, em caso de desgaste. Trata-se de uma constelação sem grandes estrelas, facilitando sua harmonia. Mas o conjunto de ministros escolhidos deve ser considerado um grid de largada. No meio e no final da pista, a disposição poderá ser diferente.

As expectativas em torno do desempenho da presidente levam ainda em conta a questão do gênero. Há muita curiosidade para saber se uma mulher terá melhor desempenho que um homem no comando da Nação. Especula-se que suas dificuldades serão menores nos espaços do obreirismo e nas áreas sociais (programas assistenciais) e mais complexas nas frentes econômica e política. A permanência do ministro Guido Mantega na Fazenda, a escolha de um perfil técnico para o Banco Central (Alexandre Tombini) e a nomeação de Antônio Palocci para comandar a Casa Civil, tendo sido ele ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, lhe darão conforto e garantia de que a política econômica estará sob controle. E para ajudá-la a administrar a relação com as esferas política e jurídica a presidente terá à disposição a experiência de seu vice, Michel Temer, professor de Direito Constitucional e presidente do PMDB, que dirigiu a Câmara dos Deputados por três vezes. Com esse respaldo são mínimas as possibilidades de grandes crises na frente política.

Por último, a pergunta recorrente: Lula mandará no governo Dilma? Trata-se de hipótese débil. A dirigente deverá impor seu estilo. O ex-presidente, por sua vez, quer ver a glória da sucessora. A intromissão descabida na gestão seria um desastre para ambos. É evidente que deverá ser acionado para dar conselhos, principalmente em circunstâncias tormentosas. Luiz Inácio, como animal político, continuará a circular por muitas plagas, usufruindo o prestígio que angariou, fazendo palestras, recebendo honrarias, comovendo-se com aplausos. Sabe, porém, que há uma liturgia de poder a ser preservada. Sob pena de esboroamento do edifício que construiu. E queima da própria imagem.

(*) Jornalista, é Professor Titular da USP e Consultor Político e de Comunicação.

Quem pensa que Lula continuará mandando, como se fosse um Rasputin de Garanhuns, está muito enganado.

Carlos Newton, Tribuna da Imprensa

Dilma Roussef vai tomar as rédeas do governo (e com um chicote na mão)

Neste primeiro domingo do ano, a presidente Dilma Rousseff tem oportunidade de pela primeira vez realmente raciocinar como chefe do governo desta grande nação – a quinta maior em extensão territorial e a sexta em número de habitantes, um país verdadeiramente gigantesco, que está entre as dez maiores economias do mundo.

“E agora, José”? Dilma fará como José Sarney, trêmulo e desnorteado, ao assumir a vaga de Tancredo Neves, pensando no poema de Drummond e sem saber o que fazer? Claro que não. Dilma Rousseff é diferente, não parece nada com Sarney e teve muito tempo para se preparar.

Quem a conhece e já esteve com ela em reunião de trabalho, fora da campanha eleitoral, sabe que a nova presidente tem um temperamento forte e sabe administrar. Na segunda metade do governo Lula, Dilma Rousseff agia como se estivesse no cargo de primeiro-ministro, enquanto o presidente exercia uma função representativa, viajando para lá e para cá, como nunca antes na História deste País.

Muita gente pensa que Lula se tornará uma eminência parda, ficará comandando o governo nos bastidores, como uma espécie de Rasputin no Planalto (ou uma versão de Garotinho no governo da mulher Rosinha). Isso não vai acontecer. Dilma não é Rosinha Matheus.

Como ninguém sabe o que realmente se passa na cabeça de Lula, pode ser que ele até acalente a ilusão de continuar mandando no governo. Mas isso não ocorrerá. Amanhã, assim que sentar naquela cadeira, no Palácio do Planalto, Dilma Rousseff vai assumir plenamente as rédeas do governo, e de vez em quando, podem ter certeza, estará com um chicote nas mãos.

Temperamento à parte, na verdade Dilma Rousseff é uma incógnita na Presidência e vai surpreender, positiva ou negativamente. Com a experiência que acumulou nos últimos oito anos, pode se sair muito bem, especialmente se fizer uma limpeza no ministério, afastando determinadas figuras que precisou aceitar, para não entrar em choque com Lula antes da hora.

Antonio Palocci (Casa Civil), pelos antecedentes em Ribeirão Preto e Brasília; Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário), pelas estripulias financeiras como secretário de Desenvolvimento Urbano do governo de Jaques Wagner, na Bahia; Pedro Novais (Turismo), pelo uso de recursos públicos em festa num motel; e Edison Lobão (Minas e Energia), pelo conjunto da obra. Pelo menos, esses ministros deveriam ser defenestrados, para não atrapalhar o bom andamento dos serviços e também para não contaminar (palavra da moda) os demais. Aí, ficará mais fácil governar.