Adelson Elias Vasconcellos
Não entro nem embarco nesta alegoria de que, a chegada de Dilma à presidência, representa um momento histórico. Reafirmo, pois, a minha lei de análise, a de não julgar governantes pelo sexos, nem pela cor de sua pele, ou pela formação intelectual e profissional. Julgo-os apenas pelos seus atos e as consequências que deles emanam, ou seja, pelo resultados que alcançam, mesmo que tais resultados venham acontecer em outros governos que os sucedam.
Analisar, por exemplo, o discurso de Dilma em sua posse, é querer resvalar nos lugares comuns de todos os discursos de posse de governantes, sejam ditadores ou democráticos. Assim, ponho de lado as obviedades dos discursos de posse e me atenho naquilo que, a meu ver, representa muito mais o espírito com que o país será governado doravante. E é neste ponto que podemos sacar de saída, o seguinte: nada vai mudar, apenas a estúpida santificação da ignorância. Será difícil que o Brasil, em futuro próximo, volte a ser governado por um presidente que faça tanta louvação de sua ignorância e má formação intelectual quanto Lula. Neste ponto, Dilma não conseguirá nem chegar perto. Sua formação já se deu em outro nível de vida, e sua formação chegou à universidade. Quando jovem, conta sua biografia, formou imensa carga de leitura, o que a torna diferente de Lula justamente aí, e não pelo sexo.
Assim, ao afirmar que “... sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa desta ousadia do voto popular que, após levar à presidência um homem do povo, decide convocar uma mulher para dirigir os destinos do país...” , Dilma ignora a coisa mais elementar que um presidente, tenha ele a cor partidária que tiver, deve respeitar: a de que todos, independente da condição socioeconômica que tivermos, somos um mesmo povo. Ao que se saiba, o Brasil jamais teve na sua história republicana, um presidente não brasileiro. E se assim foi, todos saíram do mesmo povo, da mesma gente. Não é o fato de Lula ter sido operário metalúrgico, ou mesmo Castello Branco ter sido Marechal do Exército, que torna um mais povo do que outro. Ambos tiveram a mesma origem humilde, a diferença que um estudou e se formou em alguma coisa, o outro preferiu nada fazer, a não ser política. Mas eram do povo, os dois, sem tirar nem por. Do mesmo modo, tanto faz, ser homem ou mulher, ter origem humilde, caso de Lula, ou origem de classe média, caso da própria Dilma, o povo, a não ser nas ditaduras, sempre se fará representar no poder por aqueles que ele escolheu dentre sua gente, mesmo que seus governos sejam competentes ou não.
Já disse em outra ocasião que não acredito nesta onda de “cotas” para mulheres, cota para negros ou cota para deficientes. Acredito é na educação, feita de forma a conscientizar as pessoas que o que as torna diferente, para pior ou para melhor, é sua capacidade, sua formação moral e intelectual e sua própria consciência. Assim, acredito muito mais no sucesso de uma sociedade devotada a premiar o mérito do esforço individual do que escolhas feitas pelo tipo de sexo (ou opção), cor, crença religiosa, política, etc. Encerro qualquer debate quanto se entra no plano de “raças”. Não existem várias raças humanas, existe uma só, a HUMANA, o resto é diferença física que não altera o conjunto. Tudo o mais que se queira acrescentar neste tema é vigarice suprema que a apologia das esquerdas adora recitar.
Quanto ao longo discurso de Dilma, tirando, como disse acima, as obviedades, dá sim para sabermos que tipo de governo e a cultura que será atendida ao longo do mandato por Dilma Rousseff.
Primeiro, Dilma, a exemplo do que pregou Lula durante oito anos, esqueceu que o Brasil foi descoberto antes, de que toda uma nação foi forjada por séculos de história, por inúmeros personagens importantes que também fizeram “acontecer” antes de Lula no poder. Esta insistência na mistificação faz parte do receituário de criação do mito Lula, e, este por sua vez, na indispensável criação de um personagem necessário para sepultar tudo o que destoar do discurso esquerdista. Não, os fatos são outros, a verdade do PT não é a verdade suprema, aliás, sequer é verdade, já que se encontra assentada em bases falsas. Aquela balela de “...Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem...” é uma completa distorção e manipulação do fato histórico. Os “companheiros” a que Dilma aludiu, são os companheiros da luta armada, os esquerdista, que pretendiam não derrubar a ditadura de direita para restabelecer os marcos da democracia. Desejavam, isto sim, implantar uma ditadura socialista, bem marcantemente cubana ou soviética. É disto que se trata. Está certo que muitos brasileiros, hoje, sequer viveram aqueles anos de “chumbo”, talvez até a maioria dos eleitores. Mas há muitos da minha geração, por exemplo, a mesma de Dilma Rousseff, que já tinham idade suficiente para saberem separar os verdadeiros resistentes da ditadura militar em prol do restabelecimento da democracia, daqueles “companheiros” amantes de outra ditadura, a de esquerda, a qual Dilma e os “tais companheiros” pertenceram. Portanto, este trecho creio ser o bastante para evidenciar o tipo de “sentimento” que irá vigorar no cenário político do país até 2014. Disse a presidente: “... Sem arrependimento e sem ressentimentos e rancor, (...)rendo a eles [os que morreram na luta contra a ditadura militar de 64] a minha homenagem.”
Pergunta: quantos inocentes foram mortos pela guerrilha de esquerda? Para estes não fica, então, nenhum arrependimento? Entraram na quota de “inocentes úteis” com os quais as esquerdas, pelo mundo todo, massacraram e assassinaram milhões de seres humanos? A partir daí me resta concluir que, não será surpresa alguma, a tentativa que Dilma levará a cabo a tentativa torpe (e ilegal) para tornar sem efeito a Lei de Anistia, de 1979, mas somente no capítulo que trata de torturadores, e não do que perdoou os crimes dos guerrilheiros e terroristas de esquerda. E isto, sim, gostem ou não, chama-se canalhice!!! Portanto, e neste trecho do discurso, em que Dilma afirma “...Dediquei toda a minha vida a causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor...”, para mim, e para os que a verdade histórica como norte moral, tem o mesmo significado de lixo e mentira. E, num discurso inicial de mandato, você começar contando mentiras, significa que seu governo não se moldará, nunca, pela verdade, o que representa, neste ponto, a continuidade das mistificações iniciadas com Lula no poder.
Há, ainda, dois outros pontos do discurso que merecem ser destacados, mais pelo que não contam e representam de apropriação indébita de valores e trabalho, do que por algum conceito meritório e devido respeito ao país que governará.
Foi Dilma quem disse a certa altura:
“Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixou para todos nós.Sob sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história.”
Qual é, cara pálida? Se Lula liderou a travessia para a outra margem da história, dona Dilma, é preciso destacar que foi Fernando Henrique e Itamar Franco, principalmente, quem construíram a ponte que daria passagem à tal travessia. Sem ela, Lula estaria afogado no meio do oceano, dado que o país que aqueles ex-presidentes receberam e entregaram para Lula governar, não tinha rumo, não tinha pontes, não tinha a não ser canoas furadas, sem remos, sem bússolas, sem futuro algum. Eles assumiram o encargo de a erguerem a ponte, construir os marcos e alicerces para sustentar o peso da travessia.
E o outro ponto é este aqui:
“...É com este mesmo carinho que quero cuidar do meu povo, e a ele - só a ele - dedicar os próximos anos da minha vida...”
Na frase acima fica claro o conceito que as esquerdas tem das sociedades que governam: o povo passa a ser propriedade sua, sem identidade própria,. Lula usou e abusou do termo durante seus dois mandatos, naquela estratégia cretina da criação do mito.
Não, numa sociedade democrática o povo não é nem nunca foi propriedade de partidos ou de governantes. Ao contrário: eles é que são propriedades do povo já que, por definição, o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Espero que, com o tempo, Dilma Rousseff não insista nesta tese patológica de sequestrar o povo para um partido político. É um equívoco histórico alguém imaginar-se dono de quem lhe concede, por um breve período, o poder de governar um país.
Por fim, creio que é preciso apontar a grande diferença entre Dilma e Lula, além do sexo. Talvez esta diferença, a meu ver, seja mais um fio de esperança, uma espécie de expectatiova de que Dilma se distancie, um pouco ao menos, de Lula no figurino de governar. Dado que as formações de ambos são totalmente diferentes, no campo intelectual e de formação profissional, espero que a presidente dê um basta à bufonaria lulista de ideologizar a própria ignorância. Isto faz mal danado para um país em que 2/3 de sua população é analfabeta, funcional ao menos, e que precisa libertar esta imensa massa das trevas e do atraso. Sem que se pratique esta revolução no campo da educação, o Brasil não sairá de sua condição de subdesenvolvido, podendo, quando muito, permanecer um emergente eterno. Que, pelo menos neste trecho do roteiro, os novos atores introduzam novas falas e novos atos.
Quanto ao resto, já disse que os problemas deixados pelo legado de Lula, forçarão a que o governo Dilma seja ao menos mais cauteloso no uso racional do dinheiro público. O cenário interno e externo da economia exige juízo e responsabilidade. E creio que, depois de oito anos de molecagens, está na hora do país ser governado seguindo um plano de desenvolvimento pró-país, e não pró-partido. Afinal, o poder pertence ao povo, e este não pertence a ninguém a não ser a si mesmo. O Brasil não é o PT, tampouco “DO” PT.