Guilherme Fiúza, Revista Época
Não fugirei do clichê. É chegada a hora de colocar no papel as resoluções para o ano que começa daqui a pouco, novinho em folha. Desde o início da semana, venho preenchendo uma lista que batizei de “to do list”. Nela, tracei as metas necessárias para que eu realize alguns desejos. Não foi fácil. Quando colocamos as tarefas no papel, fica evidente a nossa incompetência em relação a alguns assuntos.
Não me surpreendi, por exemplo, quando escrevi que desejo “me sentir bem com a imagem que vejo no espelho”. Preferi ser mais genérica a me prender ao tradicional “quero ser magra”. É mais do que isso. É uma questão de ser feliz com alguns quilos a menos, e não magérrima, que é uma coisa que não combina comigo.
O fato é que os anos passaram e eu comi, sem me preocupar, coisas muito gostosas. Para depois me punir. Ou esbravejar por causa de gente que come bem mais do que eu e não engorda. E aí que todo mês de dezembro, há pelo menos cinco anos, me pego planejando regimes, treinos e sonhando com as minhas antigas calças jeans. Viram? Incompetência. Ou, para soar menos cruel, dificuldade.
No quadrinho, Calvin diz a Hobbes (ou Haroldo): "Resoluções? Eu?? O que você está querendo dizer? Que eu preciso mudar?? Bem, camarada, até onde me diz respeito, eu sou perfeito do jeito que sou!"
Senti, então, a necessidade de entender por que desejamos alguma coisa, como ser magro ou magra ou parar de fumar, e depois fraquejamos. Os mais apressados dirão que é por preguiça ou comodismo. Já ouvi, por exemplo, que engordar é coisa de mulher relaxada. Como se alguém gostasse de se sentir mal toda vez que se despe ou prova uma roupa em uma loja. Há também distúrbios de toda ordem que podem ameaçar a perda de peso. Razões sempre há. Mas vamos falar de ação.
Conversei com a psicanalista Gisela Giglio Armando, do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Perguntei a ela por que encaramos a virada do ano como um momento propício à mudança e por que, muitas vezes, abandonamos a batalha antes de fevereiro. Ela me disse que nós construímos a ideia de que o fim do ano é o fim de um tempo, de um ciclo. É como se pudéssemos zerar o placar, apagar os erros e recomeçar. Porém, objetivamente, o final do ano é apenas uma pausa. Sendo ele uma pausa, o máximo que conseguimos, nesse hiato entre o fim e o início, é tomar decisões pontuais. “E não é possível fazer mudanças eficientes com decisões pontuais. É uma ilusão”, afirma.
Ela continua: “Os desejos, da maneira como os construímos, são contraditórios. No caso do emagrecimento, por exemplo, pode existir um desejo de sedução do outro por meio de um corpo bonito. E, por outro lado, há o desejo de comer, que é algo difícil de sobrepujar, porque a comida geralmente está ligada a sensações boas, como as da infância, da comida preparada pela mãe ou pela avó. Temos, então, um conflito entre o desejo que é consciente e o desejo que é inconsciente”.
Após as respostas dela, fiquei pensativa. Perguntei: haveria uma saída? Ela sugeriu um caminho: não fazer de conta que o final do ano fechou um ciclo. “Tente fazer uma reflexão profunda sobre os seus desejos. Uma reflexão que transborde, vá além do imediato e compreenda a sua identidade, o que ela suporta. Comece perguntando por que não consegue fazer determinada coisa. As respostas serão enriquecedoras”.
Feliz reflexão nova a todos vocês!
