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Marina Amaral, da Agência Pública
Especialistas em indústria farmacêutica acreditam em uma nova droga contra o coronavírus e pedem a suspensão de patentes durante a pandemia
(BartekSzewczyk/Getty Images)
Cloroquina: é uma molécula utilizada clinicamente desde 1944 para combater malária
e com efeitos adversos já registrados que vão de alergias a arritmias cardíacas
A associação quase anedótica do presidente Jair Bolsonaro com a cloroquina, a droga com a qual ele promete pôr fim à pandemia no país, elevou o status de um patinho feio da indústria farmacêutica, a cloroquina, uma molécula utilizada clinicamente desde 1944 para combater malária e com efeitos adversos já registrados que vão de alergias a arritmias cardíacas, podendo provocar até a morte de pacientes suscetíveis.
Barata, com a patente expirada há mais de 50 anos, o “ovo de Colombo” do presidente Bolsonaro contra a pandemia, importado do presidente Donald Trump — o primeiro a propagandear a substância —, tem uma série de contraindicações e nenhuma comprovação científica de sua eficácia contra o coronavírus até o momento.
Ainda assim, a cloroquina e a hidroxicloroquina (substância derivada) vêm sendo utilizadas em diversos hospitais públicos e privados no Brasil, não raramente associadas ao antibiótico azitromicina, o que aumenta o risco de efeitos colaterais como atesta nota técnica da Fiocruz do dia 3 de abril, emitida a pedido da presidência da entidade.
“Eu imagino que a presidência pediu que fizéssemos a nota por causa da pressão, até na mídia, para que se comece a usar a cloroquina de forma maciça para o combate à Covid-19 e também pela dificuldade de fazer a comunidade entender que o fato de um medicamento ter um uso promissor em estudos pré-clínicos, não necessariamente significa que ele vai ser um bom medicamento nos estudos clínicos”, disse à Agência Pública, por telefone, a pesquisadora Flor Espinosa, da Fiocruz Amazonas, especialista em malária.
A dra. Flor também contou que o medicamento é relativamente seguro para malária, mas que em doses maiores a “toxicidade é muito alta”, e não há como prever as reações individuais, que podem se manifestar com uma única dose. Além disso, a contra-indicação para o uso conjunto da azitromicina consta da bula do fabricante, sublinha. “A cloroquina associada à azitromicina já foi usada no esquema terapêutico para prevenção de malária em gestantes africanas, e o que se observou, é que tem muito mais efeitos colaterais”, explica a pesquisadora.
Embora admita “ter curiosidade, sobre o uso de cloroquina em pacientes de coronavírus em estágios iniciais”, a dra. Flor alerta que “esse não é um medicamento que possa ser usado à toa, você não pode fazer um uso preventivo e ficar tomando o remédio indefinidamente”.
Na semana passada, o Ministério da Saúde (MS), que no dia 31 de março havia recomendado que o medicamento fosse usado apenas para o “uso compassivo” (prescrito apenas para doentes graves sem prognóstico de cura) de pacientes de coronavírus, liberou a opção para os médicos, com o consentimento dos pacientes. A decisão tornou oficial o uso em pacientes no estágio inicial da doença em hospitais privados como o da Rede D’Or, no Rio de Janeiro, e as unidades do Sancta Maggiore, que pertence ao plano de saúde Prevent Sênior, especializado em idosos.
No dia 5 de abril, o diretor executivo da Prevent Sênior, Pedro Batista Jr., já fazia propaganda da experiência em entrevista no Youtube ao presidente do Instituto Mises, Hélio Beltrão, uma das lideranças da nova direita brasileira que chegou a oferecer pelo Twitter o medicamento a interessados. Naquele momento, os hospitais da Prevent Senior, que atendem principalmente maiores de 60 anos, já registravam 96 mortes por coronavírus, metade do total das mortes ocorridas em São Paulo pela doença. A empresa não fornece dados de mortes em pacientes tratados com a medicação por coronavírus por complicações cardíacas.
Na sexta-feira passada, dia 10 de abril, uma paciente do Hospital Sancta Maggiore de 53 anos, que se tratava em casa, morreu quatro dias depois de tomar por uma semana uma medicação receitada pelo hospital: cloroquina, azitromicina e tamiflu. A paciente era cardíaca, mas, mesmo sem necropsia nem exame positivo para a doença, a certidão registrou o óbito como causado por coronavírus. O advogado da Prevent Senior, Nelson Wilians disse à Folha que, “categoricamente, não é possível afirmar ou associar o tratamento à ocorrência da causa mortis“. “A paciente estava há seis dias sem a medicação. Qualquer ilação é temerária e má-fé”.
Redução do tempo de internação
“Mesmo que a hidroxicloroquina se mostre eficaz”, porque até agora “não há evidências robustas” que permitam “qualquer defesa possível da utilização da cloroquina nos pacientes da Covid-19”, destaca o professor do núcleo de Bioética da Universidade Federal do Rio do Janeiro, Reinaldo Guimarães, “não se deve considerar que ela vai curar pacientes. Até agora o que se tem, mesmo sem robustez, sem número suficiente de pacientes de controle dos ensaios, é que ela diminui o tempo de internação dos pacientes. Muito provavelmente, se for comprovado algum grau de eficácia, o desfecho não será a cura, mas sim a diminuição do tempo de internação. É bom, mas não é a bala de prata como parece que o presidente Bolsonaro quer dizer”, adverte Guimarães, que também é vice-presidente da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva.
Produzida principalmente em laboratórios públicos no Brasil para o Programa Nacional de Combate à Malária, a cloroquina e a hidroxicloroquina tem a vantagem de não despertar a cobiça dos grandes laboratórios internacionais.
O motivo é simples: essas moléculas não têm patente, a principal fonte de lucro das multinacionais, embora algumas grandes farmacêuticas, como a francesa Sanofi, também produzam hidroxicloroquina, que anunciam como menos tóxica do que a cloroquina, destinada principalmente ao tratamento de Lúpus, artrite reumática e febre reumatóide.
O presidente Bolsonaro tem se utilizado desse trunfo. No dia 21 de março, ele já anunciava em uma de suas lives: “Decidimos que os laboratórios químicos e farmacêuticos do Exército devem ampliar imediatamente a produção desse medicamento [cloroquina]”. No dia 31 de março, ele repetiu a promessa em rede nacional, dizendo ter ordenado “a fabricação de 1 milhão de comprimidos em 12 dias de cloroquina pelo Exército”, o primeiro laboratório brasileiro a produzir cloroquina na Brasil, sendo medicamento de referência para o genérico da Cristália, uma empresa farmacêutica brasileira que também produz insumos farmacêuticos.
Procurado por e-mail e telefone, o Exército não divulgou os dados pedidos pela Pública sobre a produção regular de cloroquina e a porcentagem de aumento na fabricação para cumprir a meta anunciada pelo presidente. O site do Ministério da Defesa para o Covid-19 fala da produção de lotes de 500 mil comprimidos por semana e de colaboração entre Exército, Marinha e Aeronáutica, mas não faz referência à produção regular de cloroquina destinada ao Ministério da Saúde — todo o tratamento de malária é fornecido pelo SUS.
A Pública também perguntou para a assessoria do Exército qual o volume de compras de cloroquina de outros laboratórios pela instituição. Um pregão de 2018 do Comando do Exército localizado pela Pública no Portal de Transparência registra a intenção de compra de vários medicamentos para o Hospital Geral de Belém. Ali consta a aquisição de 300 comprimidos de cloroquina da empresa de genéricos Cristália. Aparentemente, o preço atesta a conveniência da medicação: R$ 138,00.
O Ministério da Saúde é o maior comprador de medicamentos do país, e a Cristália uma grande fornecedora do SUS. Seu dono, Ogari Pacheco, elegeu-se suplente de senador do Tocantins pelo DEM em 2018, com uma campanha que custou 1,5 milhão de reais, e sua família ainda doou mais 2,1 milhões ao cabeça de chapa, o senador Eduardo Gomes, do MDB.
A outra grande empresa de genéricos que produz hidroxicloroquina no Brasil, essa tendo como medicamento de referência o Plaquenil, da multinacional francesa Sanofi, é a EMS, a maior do setor, que faz parte do grupo empresarial NC, de Carlos Sánchez. Além de diversas farmacêuticas, o NC detém a NSC Comunicação, uma grande rede de jornais, rádios e TVs afiliadas da TV Globo em Santa Catarina. Sanchez estava entre os convidados da reunião online realizada pela Fiesp com o presidente Bolsonaro no dia 20 de março. Depois do encontro, Bolsonaro disse ter pedido ao presidente da Índia a liberação de insumos para a produção de hidroxicloroquina. No dia 8 passado, o presidente anunciou que a matéria-prima para a hidroxicloroquina já estava a caminho e agradeceu o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.
Outro fabricante de hidroxicloroquina no Brasil é o Apsen, que produz o Reuquinol, exibido por Bolsonaro em conferência online com os líderes do G-20. O dono da empresa, Renato Spallicci, é fã declarado do presidente, o que fez surgir rumores de lobby da indústria farmacêutica nacional em defesa da hidroxicloroquina. Nas eleições do ano passado, 356 candidatos receberam doações do setor, um total de 13,6 milhões de reais, segundo levantamento feito pela Repórter Brasil.
Procuradas pela Pública para falar da produção de hidroxicloroquina, a EMS e a Cristália também não responderam aos pedidos de entrevista e fornecimento de dados.