quinta-feira, abril 16, 2020

O MOTIVO DA RAIVA: Mandetta é ministro mais popular do governo; 76% rejeitam sua demissão

Clara Cerioni
Exame.com

Segundo revelou pesquisa Atlas, 64% dos entrevistados veem como positivo o trabalho do ministro da Saúde

 (Ueslei Marcelino/Reuters)
Luiz Henrique Mandetta

A atuação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, frente à pandemia do novo coronavírus tem sido bem vista pelos brasileiros, segundo revelou pesquisa Atlas, divulgada nesta quarta-feira, 15. Os números mostram que 64% dos entrevistados veem como positivo o trabalho do chefe da pasta e 76% rejeitam sua demissão.

A pesquisa foi realizada com 2.000 brasileiros, entre domingo, 12, e terça-feira, 14, período em que a cresceu a tensão entre o ministro e o presidente Jair Bolsonaro, que já procura o substituto de Mandetta. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos e o índice de confiança é de 95%.

A avaliação positiva de Mandetta é respaldada também pela opinião de que 72% dos entrevistados concordam com medidas de isolamento social, de fechamento de lojas e de suspensão das aulas. Essa questão é a que mais desgasta a relação entre o ministro da Saúde, que defende a estratégia para evitar o colapso do sistema público de saúde, e Bolsonaro, amplamente contrário às restrições.

A maioria (41,9%) está com medo de pegar a covid-19 e mais de 86% temem pela vida de um amigo ou familiar.

Avaliação de Bolsonaro

De acordo com a pesquisa Atlas, a avaliação positiva do governo Bolsonaro está em queda: saiu de 29% em fevereiro para 23% em abril. Já a parcela da população que considera o governo como ruim/péssimo foi de 38% em fevereiro para 43% em abril.

O desempenho pessoal do presidente como chefe do Executivo é desaprovado por 58,2% dos entrevistados, ao passo que 37,6% aprovam sua postura.

O apoio a um possível processo de impeachment também vem timidamente se ampliando: em fevereiro, 38% concordavam com saída do presidente. Em março, índice chegou a 45%. Em abril, está em 46,5%.



****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Não é apenas a divergência quanto aos critérios e métodos aplicados pelo ministro Mandetta no combate à pandemia, dos quais Bolsonaro é radicalmente contrário, que alimenta toda esta novela de sai-não-sai. Também é o fato da estrela do ministro brilhar muito mais do que a do presidente. E aí já não se trata mais de divergência, e sim de raiva movida a ciúmes doentio. E o ministro não terá sido nem o primeiro tampouco o último ministro ou secretário vítima desta psicopatia bolsonariana, assessorada de perto pela tríade maligna composta pelos três filhos e sob o comando de Olavo de Carvalho.  Ou você se ajoelha no milho ou terá a cabeça decepada. Simples assim. 


Receita Federal vai regularizar CPFs com pendências eleitorais para quem busca auxílio emergencial

Idiana Tomazelli, 
O Estado de S.Paulo

Reflexo dessa regularização nos ambientes informatizados da Caixa dependerá do período necessário para processamento nos sistemas da instituição financeira

  Foto: Felipe Siqueira/Estadão
Fachada do prédio da Receita Federal, em Santo André, ABC Paulista 

- A Receita Federal informou nesta quinta-feira, 9, que, em razão do atual estado de calamidade pública e da necessidade de pagamento do auxílio emergencial, foram alterados os procedimentos internos para regularizar os CPFs que apresentavam pendências eleitorais.

Assim, foi iniciado na madrugada desta quinta o processamento para regularizar os CPFs suspensos por pendências eleitorais, que não podem ser solucionadas neste momento nos cartórios eleitorais porque estão fechados por conta da pandemia da covid-19.

A previsão é que esse processamento se encerre nesta sexta, 10. O reflexo dessa regularização nos ambientes informatizados da Caixa Federal dependerá do período necessário para processamento nos sistemas da instituição financeira.

O CPF precisa estar regularizado para que o cadastro no programa de auxílio emergencial seja analisado. Se estiver suspenso, é porque pode haver pendências na declaração do imposto de renda ou com a Justiça Eleitoral, por exemplo.

Isso significa que o contribuinte pode não ter feito alguma declaração do IR ou ter se ausentado de votar e ter multas pendentes com a Justiça Eleitoral.

Outras pendências que levam a irregularidades no CPF são cadastro do contribuinte incorreto ou incompleto, multiplicidade ou fraude nos cadastros.

A Receita Federal divulgou nota informando que o trabalhador que estiver com dificuldade para fazer o cadastro por causa de problemas com o CPF poderá fazer a regularização de forma online e gratuita pelo site do órgão.

De acordo com a Receita, o aplicativo e site que permitem o cadastramento no programa de auxílio emergencial “apresentou um volume excessivo de acessos, que pode ter impedido o cadastramento de muitos beneficiários”.

Por isso, o órgão orienta o trabalhador a acessar novamente o sistema de cadastramento, em diferentes períodos do dia, pois a habilitação pode não ser possível na primeira tentativa. Persistindo a impossibilidade na habilitação por pendência no CPF no aplicativo, A Receita indica verificar se o CPF se encontra na situação "Regular" por meio da consulta no site da Receita Federal.

Se o CPF estiver regular, qualquer restrição apresentada pelo aplicativo Caixa - Auxílio Emergencial não deve estar relacionada a uma pendência com a Receita Federal, informa o órgão.

É importante que o cidadão verifique no ato do preenchimento do aplicativo Caixa - Auxílio Emergencial se o nome do cidadão, de sua mãe (se houver) e de sua data de nascimento coincidem com os dados constantes na base CPF da Receita Federal.

Caso o cidadão confirme que tenha a necessidade de regularização de dados do CPF, ela poderá ser realizada de forma online e gratuita pelo site da Receita Federal pelas seguintes opções:

- preferencialmente pelo formulário eletrônico "Alteração de Dados Cadastrais no CPF"
- Chat RFB

Para os casos em que não for possível regularizar pelo site, o atendimento poderá ser efetuado via e-mail corporativo da RFB ou presencialmente em uma das unidades. A Receita informou que, por causa da pandemia da Covid-19, o atendimento presencial nas unidades está sendo realizada “de forma excepcional”.

No caso do e-mail corporativo, o cidadão deverá enviar o e-mail de acordo com o seu estado de jurisdição, conforme lista abaixo, solicitando o serviço de regularização de CPF acompanhada da documentação descrita no endereço.


Oásis em meio à crise: os setores da economia imunes aos efeitos do coronavírus

 Fernanda Trisotto
Gazeta do Povo (Paraná)
  
Foto: Divulgação
Apesar do coronavírus, alguns setores estão com demanda em alta: 
empresas de cosméticos, como a L’Oréal, adaptaram 
a produção para itens de higiene, como álcool gel.|

A pandemia do novo coronavírus tem afetado muito o setor produtivo. Com grande parte do comércio fechado e a manutenção do atendimento apenas nos setores essenciais, o baque na economia é grande. Mas há alguns poucos setores em alta estão vivendo um momento peculiar, com um incremento na demanda neste período, que resultam até mesmo na contratação de trabalhadores, ainda que temporários.

Um levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que 7% das empresas consultadas registraram aumento na procura por seus produtos. Quando se trata de produção, 5% declararam ter registrado crescimento. Com esse movimento, algumas indústrias tiveram de adaptar o quadro de funcionários, com concessão de férias compulsórias para aqueles que fazem parte de grupos de risco e substituição ou ampliação no quadro de vagas.

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo adiantam que isso ocorre em setores-chave, como os de supermercados e farmácias, além da cadeia produtiva de insumos para saúde. Na outra ponta, com as restrições impostas pelo isolamento social, o e-commerce e os serviços de delivery também vêm observando crescimento na demanda.


Os setores em alta e suas lições

Ainda que sejam a minoria, esses setores representam um tipo de respiro em tempos de quarentena e também abrem uma possibilidade de adaptação para produção e prestação de serviços. Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, lembra que, no curtíssimo prazo, supermercados e farmácias, que são serviços essenciais, já tiveram aumento de fluxo, que deve ser acentuado nas primeiras semanas dos próximos meses, por causa do calendário de pagamentos salarial.

As empresas com atividades diretamente relacionadas à questão da saúde devem registrar alta na demanda, avalia o professor de economia do Insper Otto Nogami. Para ele, a indústria de equipamentos e acessórios hospitalares – do álcool gel, passando pela produção de máscaras e demais EPIs, além de camas e suportes para medicamentos –, e também a indústria plástica devem ser setores beneficiados pela crise.

A avaliação do professor é de que as indústrias de bem essenciais, como as que produzem material de limpeza e itens de alimentação, sofreram certo baque, mas pela característica de essencialidade seguiram funcionando, ao contrário do setor de serviços e itens supérfluos, que foram os mais afetados.

“A partir do momento em que você é uma empresa que faz parte de alguma cadeia que está se beneficiando dessa quarentena, seu faturamento irá cair, mas isso não implica em fechamento e encerramento da atividade. Muitas indústrias estão se ajustando a essa nova realidade, e quem tem condições de partir para a produção de produtos alternativos, que atendam a essa cadeia, vai conseguir reverter as perdas”, pontua Nogami.


Solidariedade: como as empresas estão ajudando em tempos de pandemia de coronavírus


O crescimento da procura por esses setores se reflete, também, na abertura de vagas de trabalho, ainda que temporárias. No varejo, as redes GPA (Pão de Açúcar), Carrefour e Big vão contratar 11 mil pessoas, entre funcionários efetivos e temporários. Na indústria, a BRF está contratando 2 mil pessoas, entre colaboradores próprios e terceiros, que vão manter a produção e substituir funcionários do grupo de risco, que foram orientados preventivamente a ficar em casa. A JBS também anunciou a abertura de 3 mil vagas de empregos, entre postos de trabalho diretos e indiretos.


Isolamento deve levar a salto do e-commerce

O setor de e-commerce também deve ter um boom na demanda. Pesquisa da Ebit/Nielsen mostrou que em março de 2020, após a confirmação dos primeiros casos da Covid-19 no Brasil, houve um aumento acima da média no número de pessoas que faziam a primeira compra online. Nos três primeiros meses, os itens mais buscados foram produtos de limpeza, como álcool líquido e álcool gel, além de itens como fraldas para bebês, termômetros e até alimentos enlatados e papinhas infantis.

Na visão de Gustavo Cruz, da RB Investimentos, o setor, que deveria registrar um crescimento contínuo ao longo do tempo, vai ter uma aceleração por causa do coronavírus. “O e-commerce de alimentos, o delivery, vai acelerar, e isso vai puxar outras partes da cadeia, como a área da logística”, aponta. Além do transporte, há uma aposta de que empresas que fornecem serviços de armazenagem e galpões não sejam prejudicados com queda de ativos e possam ser, inclusive, beneficiadas pela mudança no padrão de comportamento.

Esse novo padrão é explicado pelo isolamento. Como lembra o professor Otto Nogami, a partir do momento em que a pessoa fica mais tempo em casa, a capacidade de ela explorar produtos pela internet aumenta. “O desejo de consumir sai do comércio de rua para o comércio internet. Essa é uma característica que muitos varejistas, principalmente no segmento de roupas, intensificam nas compras pela internet”, avalia.

Embora não haja muitos dados consolidados, os serviços de delivery de comida, de restaurantes e mercados, ganharam impulso nas últimas semanas. Enquanto algumas plataformas dizem ser muito cedo para mensurar os impactos da doença nas operações e hábitos de consumo, o Rappi revelou à Reuters um aumento de 30% na demanda em toda América Latina.

Nogami lembra que esse setor de alimentação acaba alavancando outros, como a indústria de plástico, porque demanda embalagens para seus produtos – e os chamados estão crescendo. Bares, restaurantes e mercados tentam se adaptar ao novo tipo de serviço e ainda não há consenso se as vendas online irão compensar a queda no faturamento ocasionada pelas medidas de restrição de convívio.

De olho no nicho de entregas, as plataformas de transporte estão ampliando seu rol de serviços. A Uber Eats, por exemplo, segue os passos de iFood e Rappi ao incluir farmácias, pet shops e lojas de conveniências na lista de fornecedores. A Cabify vai criar uma modalidade de entregas, em cidades selecionadas e com uma parcela dos motoristas, que terão a opção de outro tipo de trabalho que não o de transporte de passageiros. Já a 99 trabalha para expandir a 99Food. Antes restrita a Belo Horizonte, a plataforma estreou em Curitiba e é uma aposta da empresa para ampliar suas operações no Brasil.


60% dos pequenos negócios que buscaram empréstimo tiveram crédito negado

Exame.com
Com Agência Sebrae de Notícias

Pesquisa realizada pelo Sebrae mostrou também que ainda há bastante desconhecimento dos empresários a respeito das linhas de crédito disponíveis

 (Germano Lüders/EXAME)
Rua 25 de março, em São Paulo: além da dificuldade de acesso a crédito, 
os pequenos negócios já tiveram que realizar as primeiras demissões por conta da crise

Apesar das medidas anunciadas nas últimas semanas pelo Governo Federal, a maioria (60%) dos donos pequenos negócios que já buscou crédito no sistema financeiro desde o início da crise do coronavírus teve o pedido negado. E ainda há bastante desconhecimento dos empresários a respeito das linhas de crédito que estão sendo disponibilizadas para evitar demissões (29% não conhecem as medidas oficiais e 57% apenas ouviu falar a respeito).

Esses dados foram revelados pela segunda pesquisa “O impacto da pandemia do coronavírus nos pequenos negócios”, realizada pelo Sebrae entre os dias 3 e 7 de abril.

O levantamento, que ouviu 6.080 empreendedores de todo o país, mostrou que além da dificuldade de acesso a crédito, os pequenos negócios já tiveram que realizar as primeiras demissões por conta da crise. Nos últimos 15 dias, cerca de 18% dos empresários demitiram funcionários. Considerando o universo de 17,2 milhões de pequenas empresas no Brasil, isso significa que aproximadamente 3 milhões de empreendimentos já demitiram aproximadamente 9 milhões de trabalhadores (média de três empregados por empresa).

De acordo com a pesquisa do Sebrae, a situação financeira das empresas já não era considerada boa pela maioria dos pequenos negócios (73% disseram que era razoável ou ruim), mesmo antes da chegada da pandemia. Com a crise, a questão se agravou drasticamente. Quase 88% das empresas viram seu faturamento cair (a perda foi de 75% em média) e a estimativa é que as empresas consigam permanecer fechadas e ainda assim ter dinheiro para pagar as contas por mais 23 dias (expectativa média dos entrevistados).

O estudo mostrou também que mais de 62% dos negócios interromperam temporariamente as atividades ou fecharam as portas definitivamente (o que estima-se equivaler a 602 mil empresas). Entre os 38% que continuam abertos, (5,3 milhões de empresas) a maioria mudou o seu funcionamento passando a fazer apenas entregas, atuando exclusivamente no ambiente virtual ou adotando horário reduzido.


Garantia para o crédito

Para o presidente do Sebrae, Carlos Melles, o levantamento confirma a importância das medidas que vêm sendo anunciadas pelo governo nos últimos dias, em especial a alavancagem que a instituição está fazendo no Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas (Fampe). Nos próximos três meses, o Sebrae vai destinar pelo menos 50% da sua arrecadação, para ampliar o crédito aos pequenos negócios. A operação de socorro deve começar com R$ 1 bilhão em garantias, o que viabilizará a alavancagem de aproximadamente R$ 12 bilhões em crédito para pequenos negócios.

“Um dos maiores obstáculos no acesso dos pequenos negócios ao crédito é a exigência de garantias feita pelas instituições financeiras. Nesse sentido, o Fampe funciona como um salvo-conduto, que vai permitir aos pequenos negócios, incluindo até o microempreendedor individual, obterem os recursos para capital de giro, tão necessários para atravessarem a crise provocada pela pandemia do Coronavírus, mantendo os negócios e os empregos”, explica Carlos Melles.


Mais de 1 milhão de trabalhadores já tiveram contrato suspenso ou salário reduzido devido à crise

Idiana Tomazelli e Lorenna Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

No total do programa, a equipe econômica prevê que até 24,5 milhões de trabalhadores serão impactados pelas medidas de manutenção de empregos do governo


BRASÍLIA - O governo já registrou mais de 1 milhão de acordos entre empresas e empregados para reduzir jornada e salário ou suspender contratos durante a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Esses trabalhadores receberão um benefício emergencial equivalente a uma parte do seguro-desemprego a que teriam direito caso fossem demitidos, um auxílio do governo para amortecer a perda na renda da família.
As negociações individuais valem para os trabalhadores com carteira assinada e que recebem até R$ 3.135 ou que tenham ensino superior e ganham acima de R$ 12.202,12. Quem tem salário intermediário também pode negociar individualmente para reduzir 25% da jornada e do salário, mas depende de acordos coletivos, negociados pelos sindicatos das categorias, para alterações mais radicais no contrato.
A expectativa do governo é que o número cresça ainda mais com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, que assegurou a validade imediata dos acordos individuais. Uma decisão anterior, proferida na semana passada, havia criado insegurança jurídica ao cobrar aval prévio dos sindicatos às negociações individuais – o que poderia atrasar as negociações e precipitar demissões pelas empresas.
No total do programa, a equipe econômica prevê que até 24,5 milhões de trabalhadores receberão o benefício emergencial – ou seja, serão impactados pelas reduções de jornada e salário ou suspensão de contratos. O número equivale a 73% dos vínculos com carteira assinada no País.
A medida permite redução de jornada em 25%, 50% ou 70%, com um corte proporcional no salário, por até três meses. Também é possível suspender o contrato por até dois meses. Em todos os casos, o governo pagará uma parte do seguro-desemprego a que o trabalhador teria direito.
Hoje a parcela do seguro vai de R$ 1.045 a R$ 1.813,03. Na redução de jornada, o governo paga o mesmo porcentual do corte (25%, 50% ou 70%) calculado sobre o seguro. Na suspensão de contrato, o governo paga 70% do seguro, em caso de empregados de grandes empresas, ou 100%, em caso de trabalhadores de pequenas e médias companhias.
Na soma da parcela salarial e da parte paga pelo governo, nenhum trabalhador receberá menos que um salário mínimo.
Decisão
A decisão do ministro do STF foi considerada positiva pelo governo ao dar ampla segurança jurídica ao programa emergencial de emprego. Lewandowski se pronunciou no âmbito de uma ação que questionou no STF a constitucionalidade da realização de acordos individuais para alterar jornada e salário.
O ministro decidiu que a medida do governo é válida e que o acordo gera efeitos jurídicos a partir de sua celebração. Ele destacou, contudo, que os sindicatos precisam ser comunicados dos acordos e poderão deflagrar negociação coletiva. Nesse caso, o empregado poderá aderir a esse acordo coletivo posteriormente.
Se o sindicato consultado não se manifestar em até dez dias, a negociação individual seguirá valendo.
A decisão do ministro é liminar (provisória) e ainda precisará ser analisada de forma definitiva pelos demais ministros do STF em julgamento marcado para o dia 16 de abril.

Novo coronavírus reduz renda de metade dos brasileiros, diz pesquisa

Renato Jakitas, 
O Estado de S. Paulo

Levantamento do Instituto Locomotiva mostra que 51% dos entrevistados tiveram seus ganhos afetados pelos efeitos da pandemia e estão contingenciando seus gastos

  Foto: Arquivo pessoal
Madeleine Lisboa parou de comer carne depois 
da crise gerada pela pandemia do coronavírus

Com menos de 30 dias de quarentena e em meio a um cenário em que a retomada do contato social ainda parece distante, mais da metade dos brasileiros já sente no bolso os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Pesquisa do Instituto Locomotiva, obtida com exclusividade pelo Estado, aponta que 51% das pessoas afirmam ter perdido renda e que já estão contingenciando seus gastos.

Segundo a pesquisa, o impacto da crise é praticamente o mesmo entre homens e mulheres. Por faixa etária, contudo, afeta mais o bolso dos trabalhadores com 50 anos ou mais (52%), com ensino superior completo (48%) e que residem nos Estados do Sudeste (38%). A região concentra São Paulo e Rio de Janeiro, as duas capitais com o maior número de infecções, segundo dados do Ministério da Saúde.

Para o presidente da Locomotiva, Renato Meirelles, a proporção de brasileiros afetada, que já é alta, deve crescer nas próximas semanas. E o brasileiro, ele afirma, espera que isso aconteça. “Levantamos que dois em cada três profissionais acreditam que seus empregos serão muito prejudicados no Brasil, apesar de 73% das pessoas defenderem o isolamento social como forma de frear o avanço da doença”, diz Meirelles.

A pesquisa foi realizada entre 3 e 5 de abril e entrevistou, por telefone, cerca de mil pessoas em 72 cidades do País. A margem de erro é de 3,2 pontos porcentuais para cima e para baixo.


TV a cabo dividida

Na casa da chef de cozinha Juliana Menezes os efeitos da paralisação da economia foram sentidos quase que de imediato. Ela, que deixou a sociedade de um restaurante para cozinhar na casa dos clientes, conta que conseguiu migrar a maior parte da demanda para um serviço de entrega de marmitas, que vem fazendo desde meados de março. Já o marido, que é vendedor e nos últimos dois anos também trabalhava como motorista de aplicativos, praticamente zerou a renda. O prejuízo é calculado em R$ 3 mil dentro do mês.

“Nunca tivemos poupança, não sobra dinheiro para isso. Saímos cortando os gastos”, diz Juliana, que reduziu a lista de supermercados, trocando, por exemplo, os alimentos orgânicos por produtos tradicionais. “Comida sempre foi meu ‘ralo’, onde gasto muito. Só nessa nova lista economizei por volta de R$ 1 mil”, afirma.

O corte também avançou nos custos fixos de serviços, como na assinatura de TV a cabo. “Cancelei o serviço de internet, bati na porta do meu vizinho de cima e me ofereci para dividir a conta com ele”, conta. “Nunca tinha conversado com esse vizinho e só sabia que se chamava Oscar. Ele aceitou fazer um teste e está ótimo assim”, afirmou. 

  Arquivo pessoal 
Juliana Menezes e o marido passaram a dividir a conta de internet com o vizinho 

Sem carne

Em Florianópolis, a microempresária Madeleine Lisboa teve de cortar no básico. Com o marido desempregado e dois filhos, ela viu a demanda de sua agência de limpeza minguar nas últimas semanas. “Como praticamente não tem serviço, paramos de comer carne. Eu avisei os filhos que para beber é só suco de limão, que pego no quintal do vizinho, e estou fazendo mistura com abacate, que também pego da horta”, conta. “Eu ainda tenho minha casa e dinheiro para comprar alguma coisa, agora minhas colaboradoras, que recebem por serviço feito, estão sem nada. Estou distribuindo cestas básicas para que tenham o que comer.”

5 perguntas para Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper  

Quem perde uma fatia da renda deve fazer o que para preservar o orçamento?

As pessoas precisam agir como empresas e precisam agir rapidamente. O que as empresas estão fazendo? Renegociando os custos fixos. Essa é a ação número um: cancele ou reduza pacotes de serviços. Renegocie seu contrato de aluguel e o valor do condomínio. Os gastos com moradia costumam afetar em 30% do orçamento das pessoas. 

Mas é fácil renegociar um contrato de aluguel neste momento?

Sim. Se há perda evidente de renda, há espaço para isso, dado o momento que vivemos. Quem mora em prédio pode convocar outros moradores e fazer uma reunião para reduzir alguns custos do condomínio. Se mora de aluguel, converse com o locador.

Os planejadores sempre falam que a dívida precisa ser quitada logo. No entanto, em tempos de recursos escassos, o que fazer entre pagar o compromisso ou guardar o dinheiro para um cenário imprevisível?

Bom, agora, guarde o dinheiro. Isso é diferente de tudo que sempre recomendamos. Claro que o ideal seria não ter contraído dívidas antes, já que nossa recomendação é sempre evitar. Mas agora o dinheiro pode ser importante para uma necessidade de primeira ordem. Lá na frente a pessoa encontra uma alternativa para quitar essa dívida.


Existem dívidas que podem ser postergadas? 

Hoje todo mundo sabe da situação que todos estão enfrentando. Várias instituições estão renegociando ou postergando pagamentos. Uma sugestão pode ser pagar agora os juros e deixar a amortização para depois. Outra coisa: os impostos e contas públicas, como de luz e água, isso dá para jogar um pouco para frente. Alguns Estados estão até liberando os mais pobres desses pagamentos.

Qual a dívida que não pode em hipótese alguma ficar para depois?

A do cartão de crédito. O que o consumidor não pode fazer agora, e várias pessoas estão fazendo, é entrar no rotativo do cartão de crédito, que é de mais ou menos 300% ao ano. Uma dívida dessa dobra de tamanho em seis meses. Venda o carro, que está parado e depreciando, mesmo que com desconto, mas não deva para a empresa de cartão.

Saque do auxílio emergencial de R$ 600 será liberado a partir do dia 27, informa Caixa

Lais Lis, 
Portal G1 — Brasília

Quem recebe na nova conta digital da Caixa, por enquanto, só pode usar dinheiro como débito ou transferência. Calendário vai liberando pagamentos até dia 5 de maio, com base na data de nascimento.



Começa em 27 de abril a liberação para saque do auxílio emergencial de R$ 600, informou nesta segunda-feira (13) a Caixa Econômica Federal. O calendário para o saque em dinheiro vai até 5 de maio, a depender da data de nascimento do beneficiário.

O auxílio já começou a ser depositado e, segundo o governo, 2,5 milhões de famílias já tinham recebido a primeira das três parcelas de R$ 600 até a tarde desta segunda. Nas poupanças digitais criadas pela Caixa para quem não indicou conta bancária, a previsão é que o depósito comece nesta terça (14).

Até o dia 27, no entanto, esse recurso só poderá ser usado em formato digital. As opções incluem pagamento de faturas em débito automático ou usando código de barras, e a transferência para contas de outros bancos.

A limitação só vale para quem está recebendo o auxílio pela poupança digital criada pela Caixa. Quem indicou conta bancária anterior ou vai receber os R$ 600 em substituição ao Bolsa Família não tem restrição para saque.

Segundo a Caixa, esse prazo é uma medida de prevenção contra a pandemia de Covid-19. O objetivo é de “evitar aglomerações nas agências e unidades lotéricas, expondo empregados, parceiros e clientes ao risco de contágio”.

A estimativa do governo federal é de que 54 milhões de brasileiros serão beneficiados com o auxílio. O custo da medida é calculado em R$ 98 bilhões.

Confira o calendário de saques:

27 de abril: pessoas que nasceram em janeiro e fevereiro
28 de abril: nascidos em março e abril
29 de abril: nascidos em maio e junho
30 de abril: nascidos em julho e agosto
4 de maio: nascidos em setembro e outubro
5 de maio: nascidos em novembro e dezembro

A Caixa está abrindo contas digitais gratuitas para os beneficiados pelo auxílio e que não têm conta bancária atualmente. Quem tem conta em outro banco pode receber o auxílio por meio dessa conta e não precisa fazer a conta digital da Caixa.

Nesta segunda, a Receita Federal anunciou que a inscrição de novos CPFs poderá ser feita pela internet, sem custo, para cidadãos de qualquer idade. A medida é importante porque pais e mães de família com direito ao benefício precisam informar o CPF de todos os filhos. A inscrição começa na terça (14).

Ministro do STF diz que acordos individuais entre patrões e empregados têm validade imediata

O Estado de S. Paulo

Sindicatos, no entanto, precisam ser comunicados e poderão deflagrar negociação coletiva; decisão de Ricardo Lewandowski é provisória e deve ser analisada pelos demais ministros na próxima quinta-feira

  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski. 

BRASÍLIA - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski negou nesta segunda-feira, 13, recurso da União na ação que questiona o Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda, mas esclareceu que os acordos individuais firmados entre empregadores e empregados têm validade imediata.

Lewandowski é relator de uma ação que questionou no STF a medida provisória editada pelo governo federal que permite a suspensão dos contratos e a redução do salário e da jornada durante a pandemia do novo coronavírus.

Pela decisão de Lewandowski, contudo, os sindicatos precisam ser comunicados dos acordos e poderão deflagrar negociação coletiva. Nesse caso, o empregado poderá aderir a esse acordo coletivo posteriormente.

Se o sindicato consultado não se manifestar em até dez dias, a negociação individual seguirá valendo.
A MP foi editada em razão do cenário de crise na economia, provocada pelo avanço da pandemia do novo coronavírus. O governo argumenta que a MP permitirá a manutenção dos postos de emprego.  O governo já recebeu quase 290 mil registros de acordos individuais desde o início da semana passada, quando entrou no ar o site para fazer a comunicação da negociação.

A decisão do ministro é liminar (provisória) e ainda precisará ser analisada de forma definitiva pelos demais ministros do STF em julgamento marcado para a próxima quinta-feira, 16.

Na sexta-feira, 10, a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com um recurso no STF para afastar a decisão do ministro. No entendimento do governo, a liminar concedida por Lewandowski provoca insegurança jurídica, pode "trazer risco para as relações de emprego" e causar demissões.

Lewandowski considerou que fere a Constituição a previsão, na medida provisória, de que os sindicatos serão somente comunicados da decisão tomada em acordo individual.

Ao negar o recurso, o ministro afirmou que a MP continua integralmente em vigor, incluindo a possibilidade de redução da jornada e do salário e a suspensão do trabalho.

Sobre o argumento do governo de que a decisão provoca mais morosidade na decisão das empresas em suspender os contratos ou reduzir os salários para evitar demissões, Lewandowski diz que "constituiria precedente perigosíssimo afastar a vigência de normas constitucionais asseguradoras de direitos e garantias fundamentais, diante do momento de calamidade pública pelo qual passamos".

Ele frisou, no entanto, que os acordos individuais são válidos imediatamente. "Esclareço, para afastar quaisquer dúvidas, e sem que tal implique em modificação da decisão embargada, que são válidos e legítimos os acordos individuais celebrados na forma da MP 936/2020, os quais produzem efeitos imediatos", diz.

No Twitter, o ministro da AGU, André Mendonça, afirmou que a resposta de Lewandowski "traz segurança jurídica à matéria e garante o direito do trabalhador, o emprego e a sobrevivência de milhares de empresas". "Vitória do país! Garantida mais essa importante política pública do governo @jairbolsonaro!", escreveu.

O governo desenhou a iniciativa prevendo que as empresas podem negociar diretamente com trabalhadores redução de jornada e salário ou suspensão de contratos. Nesses casos, a União pagará uma compensação que pode ser de até 100% do seguro-desemprego a que o trabalhador teria direito se fosse demitido.

Os trabalhadores que podem, segundo a MP, fazer a negociação individual são aqueles com remuneração até R$ 3.135 ou com ensino superior e salário maior que R$ 12.202,12. Os sindicatos seriam avisados num prazo de até 10 dias, para poderem agir em caso de abusos, mas a aplicação do acordo em si não dependeria de qualquer aval de terceiros - uma simplificação agora contornada pela decisão do ministro do STF, que prevê a necessidade de manifestação prévia dos sindicatos.

Feito no Brasil, estudo liga altas doses de cloroquina a mortes

 Lucas Agrela
Exame.com

O medicamento carece de pesquisas e testes clínicos para ter eficácia comprovada contra o coronavírus, causador da doença covid-19; vacinas estão em teste

 (REB Images/Getty Images)
Cloroquina: medicamento ainda está em testes para o tratamento de covid-19

Uma pesquisa científica feita no Brasil indica que o uso de altas dosagens de cloroquina em pacientes graves infectados pelo novo coronavírus pode levar à morte. 

Feita por pesquisadores de Manaus (AM), a pesquisa buscou avaliar os efeitos da cloroquina em pacientes infectados pelo novo coronavírus. Foram adotadas duas dosagens diferentes para o teste, feito com 81 participantes.

As dosagens adotadas foram de 600mg duas vezes ao dia, ao longo de dez dias; e 450 mg por cinco dias, com aplicação duas vezes ao dia apenas logo no primeiro dia de tratamento. Os indivíduos receberam o medicamento por meio de uma sonda nasogástrica.

A taxa de mortalidade foi mais alta entre as pessoas que receberam maior dosagem do medicamento: 17% contra 13,5% no segundo grupo, que recebeu dosagem menor de cloroquina. Junto ao remédio, também foram dados ceftriaxona e azitromicina aos pacientes.

Vale notar que os dados ainda são preliminares, não conclusivos – o que significa que mais estudos são necessários sobre a relação do medicamento com a doença e as mortes.

“Tais resultados nos forçaram a interromper prematuramente o recrutamento de pacientes para esse braço [da pesquisa]. Dado o enorme impulso global para o uso da cloroquina, resultados como os encontrados neste estudo podem fornecer evidências robustas para recomendações atualizadas de gerenciamento de pacientes com Covid-19”, segundo os pesquisadores.

Ainda não há um medicamento testado e comprovado como eficaz e sem riscos para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus. No entanto, tanto o presidente dos Estados Unidos Donald Trump quanto o presidente brasileiro Jair Bolsonaro dizem acreditar na eficácia do medicamento, bem como na variante hidroxicloroquina, usada contra malária, lúpus e artrite.

O entusiasmo é apoiado em uma pesquisa feita na França, com uma amostra pequena de pacientes que receberam a cloroquina junto a um antibiótico. Porém, o estudo é criticado pela comunidade científica internacional por ter uma amostra de pessoas pequena demais para identificar potenciais efeitos negativos quando o tratamento foi aplicado em ampla escala, bem como devido à abrangência de mais cenários de uso da substância em pessoas com covid-19.

Por que isolar grupos contra o novo coronavírus não é viável no Brasil

Larissa Linder
Deutsche Welle

Propagada por Bolsonaro, ideia tem encontrado eco entre empresários. Para cientistas, contexto brasileiro não possibilita isolamento apenas de grupos de risco ou modelo sul-coreano. Economistas também descartam medida.
    

Empresários e Bolsonaro alegam que quarentena 
para todos prejudica demais economia

Em alternativa à quarentena decretada em alguns estados para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro passou a defender o isolamento apenas de idosos e de grupos de risco. Já economistas e investidores falam em aplicar o modelo sul-coreano de retiro parcial e testes massivos. Apesar de estarem ganhando mais adeptos no país, infectologistas e epidemiologistas descartam a aplicação destas medidas no contexto brasileiro.  

Para justificar suas propostas, Bolsonaro, empresários e investidores alegam que o remédio receitado para combater o coronavírus – a quarentena de toda a população – pode ser pior que a própria doença. A ideia contraria, sobretudo, a recomendação da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) e vai na contramão de medidas aplicadas em quase todo o mundo.

Os defensores desta ideia argumentam que pode haver exagero numa quarentena por mais de duas semanas, e que o abalo econômico pode ser mais amargo, além de afetar mais gente que a própria crise da saúde. Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, é um desses críticos. Ele publicou um vídeo em que dizia: "não podemos [parar] por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer". Depois, se desculpou. 

As consequências econômicas do coronavírus são ainda imprevisíveis. Economistas falam num impacto global, no mínimo, tão grande quanto o da crise de 2008. Para o Brasil, que sofreu queda acumulada de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) na última recessão e cresce em torno de 1% nos últimos três anos, com 41% de pessoas na informalidade, certamente será crítico. Em meados deste mês, o Credit Suisse cortou a projeção de crescimento do PIB brasileiro para zero em 2020. 

Mas não é só a questão humanitária que representa um problema na ideia do isolamento apenas de idosos. "Como você faz uma quarentena isolando só idosos no Brasil? Nossos idosos moram com a família, com crianças e jovens. O presidente da República, para estarrecimento de todos que prezam pela ciência, falou em reabrir escolas. As crianças vão contrair o vírus na escola e vão levar para dentro de casa para contaminar os idosos", argumenta o ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz José Gomes Temporão, que esteve à frente do combate à H1N1. 

O professor titular de epidemiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Medronho tem uma opinião semelhante. "É impraticável, teríamos que colocar os idosos separados das famílias, em hotéis, em qualquer opção desse tipo. Se o idoso ficar apenas sem sair de casa, vai ser contaminado pela família."

Especialistas ouvidos pela DW Brasil também são céticos em relação à aplicação do modelo sul-coreano no país. "A Coreia conseguiu testar grande parte da população. No caso do Brasil, e da China, não há essa capacidade, por serem países de dimensões continentais. E não tem nem como comprar tantos testes no mercado internacional", afirma o professor da Universidade Federal de Pelotas e doutor em epidemiologia Bruno Nunes. 

Os especialistas destacam o contexto completamente diferente do país asiático diante do Brasil. Com 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos, dimensões continentais e condições de habitação e socialização completamente diferentes das da Coreia do Sul, a comparação entre os dois países não faz sentido.

Além disso, Nunes lembra que com a contaminação atingindo áreas mais empobrecidas, onde várias pessoas dividem poucos cômodos, fica impraticável isolar grupos de risco. No Rio de Janeiro, por exemplo, um terço da população vive em comunidades. 

De acordo com Temporão, o Brasil optou pelo isolamento social ainda no começo da contaminação e, se for possível manter dois meses ou mais de quarentena, o país pode ter um resultado positivo diante da crise. "Eu não conheço nenhum epidemiologista sério no Brasil que defenda esse posicionamento do presidente. Vemos uma pressão do empresariado, que não entende nada de saúde, numa situação muito delicada". 


OMS recomenda isolamento social

O isolamento social é uma das recomendações da OMS para conter a pandeia, considerada inclusive a medida mais eficaz até agora. Um artigo científico publicado na revista Science sobre as restrições adotadas pela China pontua que "as medidas drásticas de controle" impostas no país asiático "atenuaram substancialmente a expansão da covid-19".

As evidências científicas mostram que o isolamento social tem o efeito de achatar a curva de infectados, isto é, fazer com que haja menos pessoas infectadas em um curto espaço de tempo, o que tenderia a sobrecarregar o sistema de saúde e elevar a letalidade. Ele foi adotado pela China, que superou a crise do novo coronavírus, e por países europeus, como França, Itália, Espanha e Alemanha.

"Se tivermos no Brasil o acúmulo de pacientes que tivemos no norte na Itália, que tivemos em Wuhan, que vamos ter em Nova York, teremos uma brutal hecatombe. Vamos ter pessoas morrendo não é nem dentro de hospital, será na rua, porque não vão conseguir nem entrar em hospital", avalia o professor de infectologia da UFRJ Celso Ramos. 

Medronho explica ainda que o isolamento é importante para diminuir o chamado número de reprodução básico. Quando esse número é menor que um, a epidemia cessa. Quando está em 1,5, é considerada uma situação endêmica. "No Brasil, estudos que estamos fazendo nos mostram que está em torno de 5, outros pesquisadores, estimam 4,4", alerta, ao mostrar o alto índice de contágio do vírus no momento.  

"No nosso país, temos muita gente com doenças crônico-degenerativas e os processos epidêmicos regularmente nos atingindo, o que faz com que tenhamos uma carga de adoecimento já elevada", acrescenta. 


Mesmo economicamente, medida seria ruim

Para o professor Nelson Marconi, coordenador do Núcleo de Desenvolvimento da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP), nem mesmo economicamente faria sentido aliviar as restrições de forma prematura. "Vamos supor que os governos liberem ou reduzam o isolamento, a epidemia se agrava, e aí logicamente vai ter um problema social com impacto sobre o nível de atividade também. As pessoas vão se retrair de novo se aumentar o número de mortes, mas aí de forma desordenada. Não existe essa solução", diz. 

Ele defende que o governo aumente o gasto público tanto para a saúde quanto para maior proteção social. Assim, age nas duas frentes necessárias para que os impactos, tanto sociais quanto econômicos, não sejam tão severos. É nesta direção que têm atuado os governos europeus, por exemplo. "O isolamento tem que acontecer, a questão é saber o que [o governo] precisa fazer para minimizar esse impacto". 

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, também acredita que é mais inteligente manter o isolamento social. "Se do ponto de vista médico é pior [não fazer quarentena], do ponto de vista econômico é pior, porque vai demorar mais para superar [a epidemia no país]. A informação que eu tenho é que quem tentou outro caminho, que foi a Europa no começo, perdeu tempo, perdeu vidas, e perdeu atividade econômica".


Reino Unido voltou atrás de quarentena parcial

O fundador do Centro de Prevenção de Doenças de Yale, David Katz, é um dos críticos do isolamento total da população. Com base em dados da Coreia do Sul, ele argumenta que 99% dos infectados sentem no máximo sintomas leves e não precisam de tratamento. E sugere concentrar testes em idosos. 

Temporão, no entanto, discorda desta visão. "Claro que existem polêmicas e ninguém é dono da verdade. Mas o que chama a atenção é: o mundo todo neste momento opta pelo distanciamento social radical. Vacina só daqui a um ano, um ano e meio, e medicamentos ainda não temos", diz o ex-ministro da saúde. 

Na semana passada, o premiê britânico, Boris Johnson, defendia um isolamento parcial da população. Nesta terça-feira, no entanto, voltou atrás diante da pressão da opinião pública e de cientistas, e acabou determinando a quarentena para todos. 

Por enquanto, além de Bolsonaro, o único outro líder mundial que acena com o fim precoce da quarentena total é o presidente americano, Donald Trump, que falou na possibilidade de encerrá-la na Páscoa. 


Gerador de ozônio elimina 99,9% de coronavírus em ambientes, avalia UFSC

Beatriz Correia
Exame.com

Equipamento da empresa catarinense Wier foi testado pelo Laboratório de Virologia Aplicada da universidade e teve a eficácia contra o Sars-Cov-2 comprovada


(Wier/Divulgação)
Gerador de Ozônio: o equipamento foi desenvolvido pelo CEO da Wier, Bruno Cadorin 

Um teste feito pelo laboratório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em uma máquina da Wier apontou que o equipamento inativa 99,9% do vírus da covid-19 em ambientes fechados. O aparelho é um Gerador de Ozônio e faz a higienização e desodorização de ambientes, matando bactérias, fungos e vírus.

A empresa de Florianópolis encomendou, ao custo de cerca de 25 mil reais cada, três laudos da máquina chamada de OzPro ao Laboratório de Virologia Aplicada da universidade. O equipamento já era usado para higienizar quartos de hotéis, empresas, carros e até hospitais. Com o surto do novo coronavírus, o CEO da Wier, Bruno Cadorin, decidiu encomendar os testes aos pesquisadores e constatou que o aparelho serve também para eliminar o Sars-Cov-2 dos ambientes. 

“Combatemos a doença eliminando o vírus presente em ambientes e evitando que as pessoas sejam contaminadas. Nossa atuação é na prevenção, não no tratamento”, afirma Cadorin.

Na avaliação feita pela UFSC, o ozônio foi eficiente em 99,9% das amostras dos dois tipos existentes de vírus: envelopados e não envelopados. Ou seja, que possuem ou não um envelope lipídico de proteção. Sob efeito do ozônio, o novo coronavírus, que se enquadra na classificação como envelopado, foi inativado.

Na prática, o aparelho que é do tamanho de uma caixa de sapatos e foi desenvolvido pela Wier capta o ar ambiente e transforma o oxigênio em ozônio. “A aplicação é simples, o equipamento é compacto, de uso intuitivo e usa a tecnologia de plasma frio. Outro lado positivo é ser sustentável e ambientalmente correto”, afirma Cadorin.

Mas é preciso ter cuidado, o ozônio é uma substância que pode trazer complicações para o ser humano se usado diretamente. Após o uso para a higienização do ambiente é preciso esperar um tempo até entrar no local. Além disso, também é necessário que quem vai fazer a aplicação utilize os equipamentos de segurança e não tenha contato com o gás.

Vendas da Wier

Por ser uma fábrica, o foco de vendas da Wier são negócios como hotéis, lojas de carros, hospitais e consultórios, mas a empresa também vende no varejo. O Gerador de Ozônio está disponível em duas opções, para uso doméstico, ao custo de 1.790 reais, e para uso comercial, por 4.490 reais. A diferença entre as duas versões do equipamento é relacionada à potência e tempo útil de vida.

Segundo o CEO, a confirmação da eficácia do Gerador de Ozônio contra o coronavírus teve reflexo imediato nas vendas da empresa. “A procura aumentou muito desde que fizemos o laudo. Essa alta vem principalmente de concessionárias e redes de hotéis, mas também do público doméstico”.

A Wier duplicou a produção para dar conta da demanda nos últimos meses. Um dos pedidos vem do próprio governo de Santa Catarina, que tem comprado o equipamento com tecnologia de ozônio para uso pelo Corpo de Bombeiros local.

A empresa catarinense registrou um crescimento de 70% no ano de 2019 em comparação com 2018. Segundo Cadorin, o crescimento alcançado nos primeiros três meses deste ano já representa metade do avanço em todo o ano passado. Em meio à crise financeira sofrida pelas grandes e pequenas empresa por causa dos reflexos do coronavírus, a perspectiva é de que a Wier continue avançando nos negócios e tenha bons resultados até o fim do ano.



Por que a cloroquina não é, sozinha, a bala de prata contra a covid-19

Exame.com
Marina Amaral, da Agência Pública

Especialistas em indústria farmacêutica acreditam em uma nova droga contra o coronavírus e pedem a suspensão de patentes durante a pandemia

(BartekSzewczyk/Getty Images)
Cloroquina: é uma molécula utilizada clinicamente desde 1944 para combater malária 
e com efeitos adversos já registrados que vão de alergias a arritmias cardíacas 

A associação quase anedótica do presidente Jair Bolsonaro com a cloroquina, a droga com a qual ele promete pôr fim à pandemia no país, elevou o status de um patinho feio da indústria farmacêutica, a cloroquina, uma molécula utilizada clinicamente desde 1944 para combater malária e com efeitos adversos já registrados que vão de alergias a arritmias cardíacas, podendo provocar até a morte de pacientes suscetíveis.

Barata, com a patente expirada há mais de 50 anos, o “ovo de Colombo” do presidente Bolsonaro contra a pandemia, importado do presidente Donald Trump — o primeiro a propagandear a substância —, tem uma série de contraindicações e nenhuma comprovação científica de sua eficácia contra o coronavírus até o momento.

Ainda assim, a cloroquina e a hidroxicloroquina (substância derivada) vêm sendo utilizadas em diversos hospitais públicos e privados no Brasil, não raramente associadas ao antibiótico azitromicina, o que aumenta o risco de efeitos colaterais como atesta nota técnica da Fiocruz do dia 3 de abril, emitida a pedido da presidência da entidade.

“Eu imagino que a presidência pediu que fizéssemos a nota por causa da pressão, até na mídia, para que se comece a usar a cloroquina de forma maciça para o combate à Covid-19 e também pela dificuldade de fazer a comunidade entender que o fato de um medicamento ter um uso promissor em estudos pré-clínicos, não necessariamente significa que ele vai ser um bom medicamento nos estudos clínicos”, disse à Agência Pública, por telefone, a pesquisadora Flor Espinosa, da Fiocruz Amazonas, especialista em malária.

A dra. Flor também contou que o medicamento é relativamente seguro para malária, mas que em doses maiores a “toxicidade é muito alta”, e não há como prever as reações individuais, que podem se manifestar com uma única dose. Além disso, a contra-indicação para o uso conjunto da azitromicina consta da bula do fabricante, sublinha. “A cloroquina associada à azitromicina já foi usada no esquema terapêutico para prevenção de malária em gestantes africanas, e o que se observou, é que tem muito mais efeitos colaterais”, explica a pesquisadora.

Embora admita “ter curiosidade, sobre o uso de cloroquina em pacientes de coronavírus em estágios iniciais”, a dra. Flor alerta que “esse não é um medicamento que possa ser usado à toa, você não pode fazer um uso preventivo e ficar tomando o remédio indefinidamente”.

Na semana passada, o Ministério da Saúde (MS), que no dia 31 de março havia recomendado que o medicamento fosse usado apenas para o “uso compassivo” (prescrito apenas para doentes graves sem prognóstico de cura) de pacientes de coronavírus, liberou a opção para os médicos, com o consentimento dos pacientes. A decisão tornou oficial o uso em pacientes no estágio inicial da doença em hospitais privados como o da Rede D’Or, no Rio de Janeiro, e as unidades do Sancta Maggiore, que pertence ao plano de saúde Prevent Sênior, especializado em idosos.

No dia 5 de abril, o diretor executivo da Prevent Sênior, Pedro Batista Jr., já fazia propaganda da experiência em entrevista no Youtube ao presidente do Instituto Mises, Hélio Beltrão, uma das lideranças da nova direita brasileira que chegou a oferecer pelo Twitter o medicamento a interessados. Naquele momento, os hospitais da Prevent Senior, que atendem principalmente maiores de 60 anos, já registravam 96 mortes por coronavírus, metade do total das mortes ocorridas em São Paulo pela doença. A empresa não fornece dados de mortes em pacientes tratados com a medicação por coronavírus por complicações cardíacas.

Na sexta-feira passada, dia 10 de abril, uma paciente do Hospital Sancta Maggiore de 53 anos, que se tratava em casa, morreu quatro dias depois de tomar por uma semana uma medicação receitada pelo hospital: cloroquina, azitromicina e tamiflu. A paciente era cardíaca, mas, mesmo sem necropsia nem exame positivo para a doença, a certidão registrou o óbito como causado por coronavírus. O advogado da Prevent Senior, Nelson Wilians disse à Folha que, “categoricamente, não é possível afirmar ou associar o tratamento à ocorrência da causa mortis“. “A paciente estava há seis dias sem a medicação. Qualquer ilação é temerária e má-fé”.


Redução do tempo de internação

“Mesmo que a hidroxicloroquina se mostre eficaz”, porque até agora “não há evidências robustas” que permitam “qualquer defesa possível da utilização da cloroquina nos pacientes da Covid-19”, destaca o professor do núcleo de Bioética da Universidade Federal do Rio do Janeiro, Reinaldo Guimarães, “não se deve considerar que ela vai curar pacientes. Até agora o que se tem, mesmo sem robustez, sem número suficiente de pacientes de controle dos ensaios, é que ela diminui o tempo de internação dos pacientes. Muito provavelmente, se for comprovado algum grau de eficácia, o desfecho não será a cura, mas sim a diminuição do tempo de internação. É bom, mas não é a bala de prata como parece que o presidente Bolsonaro quer dizer”, adverte Guimarães, que também é vice-presidente da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Produzida principalmente em laboratórios públicos no Brasil para o Programa Nacional de Combate à Malária, a cloroquina e a hidroxicloroquina tem a vantagem de não despertar a cobiça dos grandes laboratórios internacionais.

O motivo é simples: essas moléculas não têm patente, a principal fonte de lucro das multinacionais, embora algumas grandes farmacêuticas, como a francesa Sanofi, também produzam hidroxicloroquina, que anunciam como menos tóxica do que a cloroquina, destinada principalmente ao tratamento de Lúpus, artrite reumática e febre reumatóide.

O presidente Bolsonaro tem se utilizado desse trunfo. No dia 21 de março, ele já anunciava em uma de suas lives: “Decidimos que os laboratórios químicos e farmacêuticos do Exército devem ampliar imediatamente a produção desse medicamento [cloroquina]”. No dia 31 de março, ele repetiu a promessa em rede nacional, dizendo ter ordenado “a fabricação de 1 milhão de comprimidos em 12 dias de cloroquina pelo Exército”, o primeiro laboratório brasileiro a produzir cloroquina na Brasil, sendo medicamento de referência para o genérico da Cristália, uma empresa farmacêutica brasileira que também produz insumos farmacêuticos.

Procurado por e-mail e telefone, o Exército não divulgou os dados pedidos pela Pública sobre a produção regular de cloroquina e a porcentagem de aumento na fabricação para cumprir a meta anunciada pelo presidente. O site do Ministério da Defesa para o Covid-19 fala da produção de lotes de 500 mil comprimidos por semana e de colaboração entre Exército, Marinha e Aeronáutica, mas não faz referência à produção regular de cloroquina destinada ao Ministério da Saúde — todo o tratamento de malária é fornecido pelo SUS.

A Pública também perguntou para a assessoria do Exército qual o volume de compras de cloroquina de outros laboratórios pela instituição. Um pregão de 2018 do Comando do Exército localizado pela Pública no Portal de Transparência registra a intenção de compra de vários medicamentos para o Hospital Geral de Belém. Ali consta a aquisição de 300 comprimidos de cloroquina da empresa de genéricos Cristália. Aparentemente, o preço atesta a conveniência da medicação: R$ 138,00.

O Ministério da Saúde é o maior comprador de medicamentos do país, e a Cristália uma grande fornecedora do SUS. Seu dono, Ogari Pacheco, elegeu-se suplente de senador do Tocantins pelo DEM em 2018, com uma campanha que custou 1,5 milhão de reais, e sua família ainda doou mais 2,1 milhões ao cabeça de chapa, o senador Eduardo Gomes, do MDB.

A outra grande empresa de genéricos que produz hidroxicloroquina no Brasil, essa tendo como medicamento de referência o Plaquenil, da multinacional francesa Sanofi, é a EMS, a maior do setor, que faz parte do grupo empresarial NC, de Carlos Sánchez. Além de diversas farmacêuticas, o NC detém a NSC Comunicação, uma grande rede de jornais, rádios e TVs afiliadas da TV Globo em Santa Catarina. Sanchez estava entre os convidados da reunião online realizada pela Fiesp com o presidente Bolsonaro no dia 20 de março. Depois do encontro, Bolsonaro disse ter pedido ao presidente da Índia a liberação de insumos para a produção de hidroxicloroquina. No dia 8 passado, o presidente anunciou que a matéria-prima para a hidroxicloroquina já estava a caminho e agradeceu o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

Outro fabricante de hidroxicloroquina no Brasil é o Apsen, que produz o Reuquinol, exibido por Bolsonaro em conferência online com os líderes do G-20. O dono da empresa, Renato Spallicci, é fã declarado do presidente, o que fez surgir rumores de lobby da indústria farmacêutica nacional em defesa da hidroxicloroquina. Nas eleições do ano passado, 356 candidatos receberam doações do setor, um total de 13,6 milhões de reais, segundo levantamento feito pela Repórter Brasil.

Procuradas pela Pública para falar da produção de hidroxicloroquina, a EMS e a Cristália também não responderam aos pedidos de entrevista e fornecimento de dados.

O estudo da Prevent Senior que já curou 300 pessoas com cloroquina

Mariana Desidério
Exame.com

Operadora usa remédio em estágios iniciais da covid-19 e diz que 300 pacientes já tiveram alta. "Dados trazem esperança", diz diretor

(Prevent Senior/Divulgação)
Fachada de hospital da Prevent Senior no Tatuapé 

A operadora de saúde Prevent Senior realiza uma pesquisa sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus para pacientes em fase inicial da doença. O estudo tem sido tema de discussão, uma vez que a indicação do Ministério da Saúde é para uso do remédio em pacientes em estado grave. A pesquisa ainda não foi publicada. Mas a companhia afirma que, até agora, 500 pacientes receberam o tratamento em estágio inicial da doença. Desses, 300 foram internados e já receberam alta.

Em entrevista à EXAME, o médico e diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista Júnior, detalhou a pesquisa que ainda está em andamento. Além do tratamento para pacientes internados, a operadora estuda tratamento para pacientes ambulatoriais, sem internação, que podem até receber o medicamento em casa. A empresa não divulga quantos pacientes foram tratados nessa modalidade nem as taxas de mortes com o uso do remédio nos estágios iniciais da doença. “O que posso dizer é que os dados são robustos e trazem esperança de tratamento adequado para a população”, diz Júnior.
Leia a entrevista:

Pode explicar o estudo que vocês estão fazendo com a cloroquina no tratamento de covid-19?

Hoje saiu um estudo da Fiocruz que achamos fantástico e que corrobora os resultados que estamos encontrando aqui. Eles fizeram uma avaliação do uso da cloroquina em pacientes em estado grave e identificaram que a eficiência nesses casos é baixa. Isso eu já sabia. O estudo da Fiocruz identifica a observação que fizemos há duas semanas, de que a introdução para pacientes graves tem baixíssimo efeito. Criamos então uma metodologia de estudo científico para pacientes antes de chegar ao estado grave. Nesse tratamento, usamos a hidroxicloroquina, que é menos tóxica. É importante ressaltar que esse medicamento não é novo, é usado no tratamento de lúpus, artrite.

E o que vocês identificaram até agora?

Traçamos uma linha do tempo da doença, de um a dez dias, a partir do início dos sintomas. Do primeiro ao terceiro dia, a pessoa tem sintomas de gripe típicos. Do terceiro ao quinto dia, apresenta febre associada. No quarto e no quinto dia, esse quadro evolui para uma dispneia (dificuldade de respirar). Essa é a evolução dentro de um padrão clássico de gravidade. E, no nosso entendimento, a ação mais adequada do medicamento começa a ser aparente após 48 horas do uso da medicação. Então eu preciso de dois dias para apresentar resposta adequada com efeito no controle da reprodução do vírus. Se inicio o tratamento tardio, esse paciente já tem quase dez dias de doença. Nos pacientes mais frágeis, com dez dias, infelizmente eles evoluem com padrão gravíssimo, necessitando de hospitalização e UTI. Essa linha do tempo indica a necessidade da entrada precoce da medicação. Com o passar dos dias, há um aumento do processo inflamatório no corpo, principalmente nos pulmões. O objetivo da medicação precoce é impedir a replicação viral e não deixar que o corpo entre em processo inflamatório agudo. Temos evidência robusta de que a introdução precoce é extremamente efetiva no tratamento de pacientes com covid-19, os resultados do trabalho científico vão poder confirmar isso e dar um alento a todos que vão precisar de tratamento devido à infecção.


Quantas pessoas já foram tratadas dentro desse protocolo?

Já temos 500 pacientes tratados com hidroxicloroquina mais azitromicina no início da doença dos que precisaram de internação. Desses, 300 já receberam alta hospitalar e estão em casa.

Quais os riscos associados ao uso desse medicamento no estágio precoce da doença?

O principal risco no uso agudo da medicação é que um em cada 1.000 paciente pode ter arritmia durante o uso, que é revertida com a suspensão da medicação.


Quais pacientes são elegíveis para esse uso?

Pacientes de grupo de risco, frágeis e que apresentam sintomas.


A Prevent Senior também está receitando a hidroxicloroquina para pacientes em consultas virtuais?

Temos um segundo protocolo de pesquisa em pacientes ambulatoriais, que não são casos de internação. Eles fazem acompanhamento via telemedicina. Se tiver os sintomas clássicos é convidado a fazer uma tomografia, coletar outros exames. E existe também a indicação da medicação apenas pelos sintomas clínicos. Para isso, o paciente tem de assinar um termo da pesquisa científica, se ele aceita é encaminhado para tomar esse remédio. Muitos não aceitam participar e continuam sendo monitorados. É importante ressaltar que, em algum momento da vida, esses pacientes avaliados via telemedicina passaram por uma consulta prévia presencial conosco. Se o paciente tem algum problema cardíaco, por exemplo, ele não será indicado para tomar a medicação somente com a avaliação clínica. E se ele tiver qualquer um dos padrões alterados é convidado a passar presencialmente.

Quando o paciente aceita esse tratamento, qual é o procedimento?

Entregamos a medicação na casa dele, uma vez que ela não é encontrada na rede.

Quantos pacientes ambulatoriais já foram tratados dessa maneira?

Esse dado faz parte da pesquisa que será publicada, não podemos divulgar.


O uso da hidroxicloroquina em estágio precoce é autorizado pelo Ministério da Saúde?

Essa não é uma medicação nova, ela é usada há mais de 70 anos. Estamos identificando a eficiência em outro padrão de doença. Os dois protocolos de pesquisa, tanto do uso em pacientes internados quanto do uso ambulatorial, foram enviados para a Plataforma Brasil da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do governo federal e receberam autorização. Também fazemos parte de um estudo multicêntrico semelhante junto com o Hospital Albert Einstein.

A Prevent Senior teve reuniões com o governo federal para falar sobre o tema?

Temos uma ótima relação com o ministério, com o governo federal e com todos os governos. Essas informações que estou passando para você são divulgadas para o governo. Existe um padrão de ética em pesquisa que tem de ser seguido para proteger a pesquisa e garantir que ela seja feita de forma isenta, sem qualquer viés.

O senhor defende que haja um protocolo para uso precoce do medicamento em todo o país?

Estamos fazendo um trabalho científico que busca evidência técnica para comprovação da eficácia da introdução da medicação em fase precoce da doença.

Quando devem publicar o estudo?

Já foi feita a revisão técnica e estamos enviando para publicação em revista indexada de âmbito mundial, o interesse é do mundo todo.

O uso desse medicamento em estágio inicial da doença tem sido estudado em outros países?

Temos contato com outros países o tempo todo. E sim há estudos semelhantes em outros países.


O número de mortes por coronavírus em pacientes da Prevent Senior diminuiu depois que começaram a usar esse protocolo?

Não posso relatar o número de óbitos, isso faz parte da pesquisa. O que posso dizer é que os dados são robustos e trazem esperança de tratamento adequado para a população.


Acredita que com o uso da hidroxicloroquina precoce é possível abrir mão de isolamento social?

De jeito nenhum. A quarentena é fundamental para a estruturação de toda a sociedade e proteção dos pacientes frágeis. Enquanto não houver resposta científica, há necessidade de proteção da população. Havendo evidência científica, aí todos os governos vão poder tomar as medidas mais adequadas para dar respostas a suas economias.


Estudo indica que uso de máscaras desacelera pandemia de coronavírus

Lucas Agrela
Exame.com

A prática evita a propagação da covid-19 por pessoas que têm quadros assintomáticos da doença

 (Getty Images/Getty Images)
Covid-19: máscaras podem evitar disseminação da doença pelo ar

O uso de máscaras cirúrgicas (N95) pode ajudar a desacelerar a pandemia do novo coronavírus, de acordo com um estudo publicado na revista científica Nature Medicine.

Em testes de laboratório, o uso de máscaras reduziu a transmissão de vírus que infectam pessoas pelo ar — uma forma de transmissão sobre a qual os pesquisadores ainda divergem em relação ao novo coronavírus. A aferição foi feita usando uma máquina de captura de respiração com um método criado por Don Milton, professor de saúde ambiental aplicada na Universidade de Maryland e autor sênior do estudo.  

Feito com 246 pessoas, o estudo foi conduzido por pesquisadores de Hong Kong junto com Milton antes de o novo coronavírus se tornar uma pandemia, e ele não aborda a questão do uso de máscaras como forma de prevenção ao contágio. O que a pesquisa mostrou foi que as máscaras podem ajudar a limitar propagação do vírus por pessoas já infectadas por ele, considerando que muitos indivíduos com a covid-19 não apresentam sintomas e, mesmo assim, disseminam a doença.

“Em tempos normais, diríamos que, se não foi mostrado estatisticamente significativo ou eficaz em estudos do mundo real, não recomendamos [a prática de usar máscaras]”, disse Milton. “Mas, em meio a uma pandemia, estamos desesperados. O pensamento é que, mesmo que diminua um pouco a transmissão, vale a pena tentar.” 

Como na maioria dos casos de estudos científicos sobre a covid-19, ainda são necessárias mais pesquisas sobre a doença e o vírus para que a ciência chegue a conclusões definitivas sobre o uso de máscaras. O que se sabe, por ora, é que elas reduzem a propagação da doença e, assim, podem ajudar a desacelerar a pandemia do novo coronavírus.

O debate na comunidade científica sobre o uso de máscaras acontece em um momento que profissionais de saúde de todo o mundo enfrentam problemas de abastecimento desse tipo de material de proteção.

Imigrantes brasileiros recebem ajuda para enfrentar coronavírus nos EUA

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington
O Estado de S.Paulo

Muitos partiram do Brasil em busca de trabalho e estavam preparados para qualquer coisa, menos para uma pandemia

  Foto: Alexandre Benony
Solange Paizante (com máscara cor de rosa), do projeto 
Mantena Global Care, distribui quentinhas e cestas básicas  

O Domingo de Páscoa dos americanos foi mais um dia de calvário, com 30 mil novos infectados e quase 2 mil mortos em 24 horas. Se os hospitais sobrecarregados aumentam a angústia da população, algumas comunidades são obrigadas a apostar na sorte. É o caso dos imigrantes ilegais, entre eles muitos brasileiros, que vieram armados de um sonho e estavam preparados para qualquer coisa, menos para a pandemia de coronavírus. 

Larissa – a real identidade de todos os ilegais foi preservada – atravessou a fronteira do México com o marido e o filho de 6 anos em novembro. Pensava que teria nos EUA uma vida melhor do que a que levava em Minas Gerais, onde trabalhava em uma plantação de café. Mas o sonho ficou para trás. 

Logo na entrada, o marido ficou detido no centro de imigração e foi deportado há dez dias. Sem falar inglês, sem documentos, sem emprego, sem o marido e com o filho, Larissa sabia que seus dias não seriam fáceis quando chegou a Newark, mas não imaginava que estaria no epicentro de uma pandemia. “Viemos com a ideia de trabalhar e conseguir comprar uma casa. Deu tudo errado. Eu só choro”, afirma.

Newark fica no Estado de New Jersey, a cerca de 15 minutos do centro de Manhattan. Na última semana, Nova York viveu seus dias mais duros desde que o Estado passou a concentrar mais de 40% dos casos de coronavírus nos EUA – país que tem hoje mais de meio milhão de infectados e 22 mil mortos por covid-19. 

Para o imigrante ilegal, enfrentar a crise é quase uma batalha perdida, porque muitos não têm plano de saúde, não falam inglês, sobrevivem de trabalho informal e, sem documentação regularizada, não terão ajuda do governo. Hoje, mais de 3 milhões de pessoas que vivem em Nova York são estrangeiros – 38% dos moradores da cidade. A estimativa é que 600 mil sejam imigrantes ilegais. No país inteiro, cerca de 11 milhões vivem ilegalmente, segundo o Pew Research Center. 

No caso dos brasileiros, uma rede de apoio informal tem dado comida e apoio aos que precisam de ajuda. “A maior parte dos brasileiros da região não tem documento e está empregada no setor de serviços ou informal. É a comunidade que está sofrendo mais. A maioria não tem reserva financeira, ou tem para só um mês”, afirma Alejandra Merklen, do Grupo Mulheres do Brasil NY. 

Morando de favor na casa da cunhada, Larissa é faxineira, ganha de US$ 60 a US$ 80 por dia de trabalho. Com a pandemia, o trabalho diminuiu, mas não parou. Apesar das recomendações das autoridades, algumas casas continuam a contratar diaristas. E ela nunca nega serviço. “Acho que os patrões não me passariam a doença. Antes de ir, a gente procura saber se eles estão passando mal. Se estivessem doentes, me avisariam”, diz. 

  Foto: Alexandre Benony.
Solange Paizante (com máscara cor de rosa), em Newark 

Cinco meses depois de chegar aos EUA, Larissa está de malas prontas para voltar. Conseguiu pagar a passagem com doações e planeja partir nesta semana. O Consulado do Brasil em Nova York tem recebido pedidos de ajuda para providenciar documentação para brasileiros que querem ser repatriados.

Solange Paizante é coordenadora de uma das associações da região de Newark, a Mantena Global Care, que tem ajudado Larissa. Com apoio de Ruy de Almeida, empresário do setor imobiliário da região, a ONG distribui cestas básicas para famílias de brasileiros sem documentos e marmitas para os que não podem cozinhar. 

“Muitos estão fragilizados. Vieram pelo México. Pai, mãe, crianças. Já chegaram com dívidas e no meio da pandemia. Eles estão passando muita necessidade.

Gastaram tudo para vir para cá só com o sonho, como eu vim, como milhares vieram”, conta Solange, que aguarda o fim do processo para obter um green card. “Tem até brasileiro da Pensilvânia que veio para conseguir a cesta.” 

Marta viajou de Belo Horizonte para os EUA há cinco anos. Grávida de sete meses, diz que seu maior medo sempre foi o de se contaminar durante a gravidez. Agora, ela se preocupa com o marido, que ficou desempregado com a paralisação do setor de construção civil. Ela estava na reta final para regularizar sua situação quando todo o atendimento, inclusive de órgãos de imigração, foi suspenso.

“Sem os documento, tenho medo de pedir assistência financeira do governo e isso prejudicar meu processo nas cortes de imigração”, diz Marta, em referência à ajuda de US$ 1,2 mil do governo americano. “Acho que teria direito. Mas, na dúvida, prefiro não arriscar.”