Adelson Elias Vasconcellos
Os assuntos que iremos tratar neste artigo são praticamente uma resenha dos inúmeros textos reproduzidos nesta edição. Falam de um país desgovernado, mas representam o obscurantismo vadio que invadiu a vida pública e que vai fazendo estragos e empurrando-nos para trás.
Ontem, comentamos a tal reunião em que a soberana tratou com aliados sobre as alianças políticas para uma provável reeleição em outubro de 2014. Afirmamos que, muito antes da presidente tratar de temas futuristas, o melhor que tinha a fazer era preocupar-se com janeiro de 2013, dada a maçaroca existente neste seus dois anos de mandato. Ou seja, melhor seria governar este mandato antes de aventurar-se a traçar planos para um segundo.
Hoje, conforme informa o jornalista Josias de Souza em seu blog, o recado que se tentou passar foi justamente este. A presidente entende que faltando-lhes dois anos para cumprir na presidência, seria prematuro tratar de uma provável reeleição. O Brasil, convenhamos, clama por prioridades muito mais urgentes. E, para não se dizer que apenas criticamos a presidente, e se de fato este foi seu posicionamento na reunião mantida com aliados, registro meu elogio à presidente. Espero, apenas, que a “notícia” não seja apenas fogo de palha, conversa mole para inglês ver, ou, da boca para fora como se diz.
Porém, se a prioridade é pela governabilidade, deveria dona Dilma refletir melhor sobre alguns aspectos que estão entravando seu governo. Vejamos: semana passada, o ministro Mantega, com a cara de pau que papai do céu lhe deu, anunciou que, em razão de menor arrecadação em função de desonerações praticadas ao longo do ano, o governo federal não conseguiria cumprir a meta cheia do superávit primário. Vimos, ainda, que apesar da crescente onda de criminalidade e violência, o governo investiu impressionantes R$ 1,6 bilhão a MENOS na área de segurança. Ou seja, ao que parece, com arrecadação menor, o governo não consegue cumprir sequer as metas traçadas no orçamento, quanto mais avançar nos investimentos que, há quatro meses, vem caindo. Obras e mais obras, programas e mais programas estão andando de lado, ou por incompetência conjugada com a suprema ignorância da burocracia estatal, ou, vá lá, por falta de recursos. Poderia avançar neste capítulo, como já fizemos em outras oportunidades, mas me afastaria do foco que pretendo investir.
Ora, se os recursos estão escassos, e tanto é assim que, afora as considerações acima, o governo também endureceu o jogo com os servidores naquela leva de greves que praticamente parou o país, a troco do que se justifica a criação de uma secretaria de “Micro E Pequenas Empresas”, com status de ministério, que, de início consumirá a bagatela de 7,9 milhões para a sua implantação, afora outros achaques futuros? Para que tamanho desperdício de dinheiro público, que se alega serem escassos para atendimento de outras áreas bem mais prioritárias e necessitadas, com a criação de mais um apêndice de estrutura administrativa, para tratar de assunto que hoje o próprio ministério de Indústria e Comércio já atende sem que se tenha notado algum prejuízo ao setor das PME, por falta da tal secretaria? Ora, a estrutura ministerial atual já é prá lá de extensa com muitas pastas inúteis que abrigam unicamente o objetivo de atender apetites políticos de vagabundos em busca de boca rica.
Cadê a tal capacidade de gestão que não se dá conta deste monumento à mediocridade e desperdício? O projeto nada mais é do que arrumar emprego para os indicados da base aliada, jogando no lixo recursos que estão faltando na saúde, na própria segurança como vimos, mas também na educação, na infraestrutura, no saneamento básico. Quanto mais o Estado for inchado com “estruturas administrativas” de puro favor político, maior será o gasto com a máquina e menor e mais escassos serão os recursos para investimentos os quais, ao lado da educação, são os únicos caminhos que conduzirão o país à prosperidade. Como já consagrado pelos mais elementares princípios de administração, capacidade de gestão é fazer mais e melhor com menos. Berro não faz obra andar. Torrar e desperdiçar dinheiro público não traz progresso e desenvolvimento para ninguém.
No pacote dos portos, se anuncia outra extravagância: pretende-se ressuscitar a tal “Portobras”. Mais um cabide de empregos inúteis e de favor, mais uma estrutura inútil de gastança sem benefício algum para o país. E assim vai se tornando a mediocridade a marca registrada de um tempo perdido.
No Congresso, paraíso do desperdício, a coisa segue na balada de sempre. É impressionante que o TCU precise informar aos interessados no Congresso, mas também no Itamaraty, que estes precisam cortar os excedentes pagos acima do teto. Tal compromisso e exigência, sequer precisaria receber a cobrança do TCU, deveriam ser automáticos. Contudo, e disto temos insistido aqui, parece que a elite de servidores estatais, de braços dados aos congressistas inúteis e gigolôs que gravitam no parlamento, não se dão conta de suas obrigações. Sua preocupação central, para não dizer única, é explorar e expropriar a sociedade cada vez mais, e sem se sentirem obrigados à nenhuma contrapartida. Faltam-lhe não apenas consciência cidadã, mas vergonha na cara.
Mas nem só de desperdícios e inutilidades é feito o Congresso Nacional. Também de absolutos irresponsáveis. Foi o que se viu no caso dos royalties. E, se a soberana não vetar a quebra de contratos sobre as áreas já licitadas, o assunto, inevitavelmente, será empurrado para o Supremo decidir, como, aliás, tem sido habitual. O Congresso ou não decide o que deveria e no tempo certo ou, quando o faz, afronta ao código de leis do país. Sem falar do bom senso que passa a séculos de distância daquela casa.
E aí, o que acontece? Como deputados e senadores esquecem seus deveres funcionais, e para que o país não fique parado à mercê dos vagabundos e picaretas, a sociedade se vê impelida à buscar no Judiciário, muitas vezes, soluções para os impasses. Não contente com sua omissão vergonhosa, o que faz o Congresso? Trata de se intrometer nos poderes do Judiciário de maneira absolutamente inconstitucional. É o que se viu na aprovação de proposta que pretende alterar dispositivos constitucionais para conferir ao Legislativo poder de vetar dispositivos emanados do Judiciário, que o faz, é bom saber, absolutamente dentro de suas prerrogativas constitucionais. Vai vingar o tal projeto, que é uma afronta à independência e autonomia dos poderes? É de se esperar que, dentre os 594 parlamentares, entre senadores e deputados federais, ao menos um tenha o juízo perfeito de brecar a iniciativa. Ela afronta à democracia estupidamente.
Uma das justificativas é a de que, se o Congresso pode agir desta forma com o Executivo, isto é, se lhes é dado o direito de vetar decretos do Executivo e normas de agências reguladoras, também se poderá fazer o mesmo em relação ao Poder Judiciário. Acaso sua excrescências ignoram o seu papel fiscalizador de atos do Executivo, que lhes define a autonomia legal? O mesmo, até por definição, não se aplica em relação ao Judiciário. Democracia decente alguma do mundo confere ao Legislativo o poder fiscalizador de atos do Judiciário. Que besteira é essa que tentam inventar? Mesmo que se admitisse tamanho absurdo em relação ao Poder do Legislativo, ter autonomia de vetar normas advindas do Judiciário, se os “inativos” parlamentares cumprissem com sua obrigação legislativa, não precisaria que o Judiciário fosse provocado a preencher os vácuos jurídicos não legislados por suas excelências.
É claro que esta afronta não vingará. Ela esbarra no próprio dispositivo constitucional, inclusive em cláusulas pétreas da carta magna. Além disto, nossos congressistas poderiam muito bem, para bem cumprir o mandato que a sociedade lhes outorga, exercerem um mínimo de seus deveres ao invés de se tornarem meros despachantes de luxo do Executivo. Passa da hora de suas excelências exercerem a função parlamentar representativa e deixar de lado a função de meros capachos do governante de plantão. A gente até compreende esta servidão imbecil: afinal, sendo o executivo quem libera a grana e tem a caneta que nomeia mais de 20 mil vagabundos sem função, mas com milionários cachês como serviçais do poder, é no Executivo que eles irão buscar atender seus apetites e ganâncias pessoais. O interesse público que se dane!!!
Senhores deputados e senadores, por favor, há limites até para o absurdo dos absurdos. Tentar mudar a constituição para se tornarem fiscalizadores do Poder Judiciário, com certeza, é um deles.




