quinta-feira, novembro 08, 2012

O Brasil se desequilibrou


Marcelo Coutinho (*) 
O Globo

Não precisamos da cabeça de ‘um cara’, mas dos pés no chão

Há quatro anos, Lula era tido como “o cara” por ninguém menos do que pelo presidente dos EUA, Barack Obama. O Brasil estava em rota certa até 2008, e Lula despontava como líder mundial, respeitado quase como uma unanimidade. Chegou a ser lembrado para secretário-geral da ONU.

Hoje, está calado. Não fala para o mundo tem muitos meses. Sua doença foi superada, não o impediu de participar ativamente das últimas eleições. Para quem pretendia ser o sucessor de Ban Ki-moon, Lula está muito apagado internacionalmente. Mesmo no Brasil, o ex-presidente tem se mantido longe da imprensa. O motivo leva o nome de mensalão.

Não dá para ser líder mundial com uma espada dessas sobre a cabeça. FHC terminou seu governo em baixa, porém quanto mais o tempo passa mais ganha credibilidade pelo que fez. Já Lula ainda é muito popular, mas o tempo lhe tem sido menos favorável em termos de legado.

Obama, que apelidou o ex-presidente brasileiro, caminha para a reeleição. Os dois poderiam ter feito coisas maravilhosas juntos. Mas, depois das amabilidades iniciais, estranharam-se. Um desperdício histórico. Nas eleições americanas, o Brasil sequer foi mencionado.

Enquanto isso, Dilma não demonstra qualquer aptidão para preencher a lacuna aberta pelo eclipse de Lula. A voz do ex-presidente voltou para os palanques eleitorais, mas a voz do Brasil no mundo ainda não retornou. Saímos de um ativismo diplomático quase irresponsável na etapa final da era Amorim para um vale de omissões e reticências.

Dilma foi eleita como a senhora da aceleração do crescimento. Contudo, é na prática bem o contrário disso. A economia está andando de lado. Descobrimos que há pouco o que podemos fazer internamente para resolver uma crise que é global e que nada teve de marolinha. O maior desafio é agora de ordem sistêmica. Não há política econômica capaz de funcionar sem uma boa política externa. É claro que temos outros grandes problemas. Mas nenhum deles será resolvido de maneira satisfatória sem antes uma estratégia internacional que reverta tendência à desindustrialização. O relógio do nosso desenvolvimento não só está atrasado como agora perdeu também um dos seus ponteiros.

A ascensão chinesa vem diminuindo a indústria não apenas no Brasil. Todavia, somente aqui houve uma política externa que, em vez de atenuar os efeitos dos grandes deslocamentos produtivos mundiais, foi a primeira a atirar nossa indústria no colo de Pequim.

A prioridade da política externa de agora em diante deve ser preservar segmentos do nosso parque industrial e recuperar áreas em que somos competitivos, diminuindo a dependência em relação à China ou ao menos não permitindo que cresça essa vulnerabilidade ainda mais. Toda a nossa inteligência diplomática deve se dedicar a isso, mas sem prejuízos à sociedade.

O mundo girou, e o Brasil se desequilibrou. Não precisamos da cabeça de “um cara”, mas dos pés no chão, de um plano internacional bem elaborado e de alguém que simplesmente saiba expressá-lo com clareza.

(*) Marcelo Coutinho é professor de Relações Internacionais do Iuperj e da UFRJ