quinta-feira, novembro 08, 2012

O risco Argentina e as repercussões para o Brasil


Murillo de Aragão (*)
Brasil Econômico

Neste momento, a crise argentina com os credores no mercado financeiro internacional tem repercussão muito negativa para o Brasil, ainda que tal percepção não esteja sendo destacada na imprensa. A Argentina é um parceiro estratégico para o Brasil.

O Brasil é o principal destino das mercadorias argentinas; a Argentina é um dos principais mercados para produtos brasileiros. Existem investimentos relevantes do Brasil na Argentina. Com destaque para empresas como Petrobras, Vale, Ambev, Randon, entre muitas outras.

A estimativa de estoque de investimentos globais brasileiros no país vizinho, entre 1997 e o primeiro semestre de 2011, era de US$ 11,2 bilhões. Em 2012, apesar da imposição de barreiras comerciais, o intercâmbio entre os dois países deve estar por volta de US$ 40 bilhões.

Ao Brasil e, sobretudo aos investidores brasileiros na Argentina, não interessa o agravamento da crise com os credores internacionais, nem um eventual risco de novo default da dívida argentina no mercado internacional. 

Recentemente, a presidente Cristina Kirchner afirmou que a Argentina não vai deixar de pagar os títulos renegociados. "Pagaremos! E pagaremos com dólares porque temos dólares!", disse. Porém, não demonstrou interesse em tentar chegar a um acordo com os "fundos abutres", aqueles que detém cerca de 8% da dívida de 2001 e que não foi renegociada.

Mesmo com a garantia de Cristina Kirchner, fica a dúvida se as decisões judiciais norte-americanas não terminarão impactando a capacidade financeira da Argentina e, por tabela, o financiamento dos investimentos brasileiros no país. 

No início de outubro um fundo, o NLM, conseguiu a apreensão do navio-escola argentino, a histórica fragata Libertad, que ainda está retida no porto de Tema, Gana, por ordem dos tribunais da capital ganense, Acra. O governo Kirchner rejeita o pagamento de fiança de US$ 20 milhões para liberar o navio e promete que apelará na Justiça internacional.

O rebaixamento da avaliação da Argentina pelas agências de risco tem efeito imediato sobre o custo do dinheiro e sobre a qualidade dos investimentos brasileiros no país. A Standard & Poor's reduziu a nota argentina de B para B-. A agência Fitch Ratings também anunciou que revisaria a nota argentina para um possível rebaixamento. 

Considerando o quadro atual neste final de outubro e início de novembro, o ideal é que a Argentina e os credores cheguem a um acordo que impeça desdobramentos mais relevantes e até mesmo que afetem, por exemplo, o funcionamento da YPF e as exportações argentinas de commodities, bem como os investimentos brasileiros no país. Para tal, o governo brasileiro deveria considerar estimular uma mediação entre credores e a Argentina, com base em uma avaliação pragmática e racional dos problemas, seus desdobramentos e riscos.

A ação construtiva do Brasil deve ocorrer não apenas pelos evidentes interesses econômicos do nosso país na Argentina e pela necessidade de protegermos o Mercosul, mas também por solidariedade política e diplomática a um país irmão. Ao Brasil, o bom termo dessa disputa a curto prazo é importante.

(*) Murillo de Aragão é cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas