sábado, outubro 30, 2010

Escolhendo entre um estado maior e um estado melhor.

Adelson Elias Vasconcellos

À hora em que escrevo, faltarão menos de 24 horas para a eleição presidencial começar a definir-se. Mas, diferentemente de 94 e 98, vencidas por Fernando Henrique, e 2002 e 2006, vencidas por Lula, há, apesar dos institutos de pesquisas, um ar de indefinição impregnando este cenário final.

Dentro do PT, nem o mais otimista pode se dar ao luxo de cantar marra. E por quê? Por conta de sua candidata. Ontem, no debate da Globo, ficou claro que Dilma não tem o indispensável atributo para ser presidente de um país como o Brasil, com os problemas que tem o Brasil, e diante de uma sociedade sumamente dividida, obra exclusiva do senhor Luiz Inácio.

A eleita do Lula, quando precisa conectar dois pensamentos com algum senso lógico, tropeça. Falta-lhe a clareza de raciocínio, falta-lhe até o recurso de linguagem, dois atributos indispensáveis para quem deseja comandar pessoas. Considerando-se o tamanho do Estado brasileiro, a candidata mostrou-se inepta ao cargo a que se habilita. Tirando-se de Dilma a maquiagem que os programas da campanha montaram, despida do marketing político e sem poder usar como arma o ataque ao adversário, mostrou-se um poço vazio, sem luz própria, sem a menor ideia do que é preciso pensar e fazer. Pode-se até não gostar de José Serra mas, sem dúvida, o tucano não apenas expressa bem o quem pensa, como consegue, com clareza, demonstrar o que quer e aonde pretende chegar.

Infelizmente, a exemplo de 2006, Serra utilizou tanto o discurso quanto a campanha em si, a mesma ferramenta equivocada. O mesmo marqueteiro de Alckmin lá atrás, parece não haver aprendido a lição, e insistiu, teimosamente, em repetir os mesmos erros de estratégia. Dilma já seria um páreo duro por mais poste que fosse – e é, ontem isto ficou cristalino – pela simples razão de contar com Lula e o PT a lhe dar retaguarda. Sabe-se que o PT carrega consigo um terço do eleitorado. Um outro terço deste mesmo eleitorado não vota em petista de jeito nenhum. Sobra a fatia do meio para a qual as campanhas devem traçar as melhores estratégias com intuito de atraí-las. Saber fazer a leitura do pensamento deste contingente, no tempo e na forma certos, é competência que se cobra dos estrategistas de campanha.

Sabia-se que os petistas não venderiam barato esta eleição. Lula, há dois anos, vem discursando país a fora nesta lenga-lenga. E há quase oito sataniza o governo de FHC e seus feitos. Daquilo que não pode fazer melhor, e sem nenhum escrúpulo, tratou de adotar como sua criação, mudando apenas o nome do programa. Resgatar na memória do povo brasileiro este legado, deveria ser uma parte do trabalho da campanha tucana. A outra, mostrar um verdadeiro projeto de país, e demonstrar que os inúmeros erros e escândalos proporcionados e patrocinados pelo governo Lula não apenas desqualificaram os serviços públicos, como irão exigir maior investimentos e esforços do que seriam necessários para recolocá-los um pouco de dignidade. O estado de falência da rede pública de saúde, a miserabilidade da infraestrutura, o gargalo da burocracia, a insegurança jurídica, a asfixia dos impostos, o aparelhamento do Estado, a farra dos gastos públicos, tudo isso representa um projeto que não pensa no país, pensa apenas em si mesmo e em se manter no poder, e a qualquer preço.

Sabia-se que Lula, a partir do momento que retirou as pontes capazes de proporcionar aos cidadãos desvincular-se do assistencialismo oficial, exército de cerca de 50 milhões de beneficiados, seriam facilmente cooptados e transformados em 50 milhões de votos. Daí a importância de se ter resgatado o legado de FHC em cujo governo se criou, de fato, uma rede de proteção social digna do nome. Há indicadores perversos no campo social e educacional capazes de transformar o discurso de Lula e Dilma em pó. A tal eleição plebiscitária proposta por Lula já há dois anos, deveria ter sido aceita. Ficaria mais fácil de fazê-lo buscar outra tática. Bastava comparar o Brasil que FHC recebeu com o Brasil que ele próprio entregou ao Lula, e o efeito desta demonstração faria Lula emudecer e mudar de assusnto. Ou seja, faltou, em termos de campanha, ousadia, sem que com isso o candidato tucano tivesse seus méritos de excelente gestor público ofuscados.

Com um campanha ruim, ainda assim, Serra mostrou ser uma opção melhor para a função. A inapetência constatada em Dilma, acaba fazendo-nos recordar o discurso de José Dirceu, há cerca de dois meses, para sindicalistas na Bahia: uma provável eleição da candidata governista, facilitaria ao PT desfrutar de maior fatia de poder no futuro governo. Com efeito, fica difícil imaginar Dilma com um projeto próprio. Precisará ser escorada pelo partido e por Lula. Como as ideias de um e de outro se confrontam, Lula é mais político e neste sentido, mais hábil em negociar suas ideias, haverá uma disputa imensa de espaço para o exercício do poder. O PT vai querer a qualquer custo impor seu receituário autoritário, sem ter, por outro lado, um líder carismático para vingá-lo. Neste aspecto, Lula navega em outro extremo. Desejará retornar em 2014, e qualquer extremismo de parte de seu partido, pode lhe ameaçar a ambição. Dilma não tem liderança, e José Dirceu o comandante em chefe da esquadra, não pode exercer o poder diretamente. O que me preocupa é que, se Dilma for eleita, esta queda de braço consuma grande parte do tempo e da energia dos próximos quatro anos, e o país fique colocado em segundo plano, sem que se avance nas reformas indispensáveis à sustentação do nosso crescimento.

Preocupa, também, as várias iniciativas que se veem nos estados, de se criar secretarias para controle e fiscalização da comunicação. Claro que tais iniciativas, imagina-se, esbarrarão na instância superior do Judiciário, ao menos considerando-se as decisões anteriores e recentes do STF neste sentido. Mas até que tal conflito se decida, vão haver, sim, iniciativas de se tentar impor censura à liberdade de imprensa, e de se utilizar as verbas de publicidades institucionais de executivos estaduais para “negociar” com os veículos de comunicação abrandamento de crítica e divulgação de notícias ruins. Os que se submeterem, além da melhor oferta e distribuição de verbas, contarão com todo o apoio político para se converterem em imprensa chapa branca. Há uma grande parte da classe política que entende que a péssima reputação dos políticos é culpa da imprensa que só notícia as lambanças que eles cometem às dúzias. Assim, colocando mordaça pela via financeira, entendem ser mais fácil manipular a opinião pública.

Juntando-se os cacos acima, e muito embora muitos “analistas” insistam na tese que não haja diferenças entre Dilma e Serra, é visível o projeto de país que cada um representa. E, apesar do discurso e da campanha tentarem ocultar, Dilma não só representa um retrocesso nos fundamentos econômicos que nos asseguram a atual estabilidade econômica, por apostar na expansão desenfreada do gasto público e gigantismo da presença estatal na economia, tem ainda contra si um projeto de esfacelamento das instituições democráticas.

Serra, bem ao contrário, representa, gostem ou não, um projeto melhor ajustado e mais bem definido, seja no plano econômico, social e institucional. Infelizmente, contando com uma estratégia inadequada, tal diferença acabou não se tornando tão visível. Mesmo assim, ficou claro que ele não precisará de muletas para governar. Dilma, ao contrário, não apenas precisará de um ambulatório inteiro, como ainda estará sempre na UTI, dada a briga de foice que se estabelecerá por trás do pano para ocupação de espaços de poder. A meu ver, concluo, que a escolha deverá ser entre um estado melhor e um estado maior. No fundo, é exatamente disto que se trata.

O grande imitador

Revista Veja

Como se sabe, a forma mais sincera de elogio é a imitação. Uma pesquisa fotográfica mostra que, por esse prisma, Lula é um elogio itinerante ao ditador Fidel Castro, sucessor do ditador Fulgencio Batista em Cuba

Fidel Castro põe um par de óculos escuros em 1999 e Lula também, dez anos depois. Fidel troca de lugar com fotógrafos em 2004. Lula repete a piada em 2009 - Fotomontagem: Robson Fernandjes/AE - Christophe Simon/AFP - Adalberto roque/AFP - Ed Ferreira/AE (Fotomontagem)

Homem ou mulher, branquelo nórdico ou negro africano retinto, alto ou baixo, burro ou inteligente, gordo ou magro... O diretor de cinema Otto Preminger (1905-1986), americano nascido na Áustria, achava as classificações das pessoas listadas acima imperfeitas e incompletas. Para ele, no fundo, só existem pessoas de dois tipos: as que nasceram para estar diante das câmeras e as destinadas a ficar atrás delas. Lula e Fidel Castro são, sem dúvida, seres humanos do primeiro tipo na estrita divisão feita por Otto Preminger. O diretor de Laura, Anatomia de um Crime e O Cardeal prezava igualmente outra maneira de classificar os atores talentosos: há os que lapidam suas qualidades inatas por meio da imitação de outros melhores do que eles e os que escorregam pela vida e pela carreira impulsionados apenas pelos dons trazidos do berço. Lula e Fidel figuram também na primeira categoria de atores da tabela Preminger.

A imitação dos mestres é um método conhecido e aprovado para abrir um atalho na caminhada evolutiva em qualquer carreira. Cícero e Quintiliano, mestres romanos da oratória clássica, discordavam sobre muitos aspectos da retórica, mas estavam de acordo no aconselhamento a seus discípulos sobre a importância de começar pela imitação, deixando para desenvolver estilo próprio mais tarde, depois de firmada sua reputação. Deveria copiar-se principalmente o actio, ou seja, a entonação, o gestual, as expressões faciais, a linguagem corporal. Eles, muito mais do que as palavras, são, na visão dos mestres, os verdadeiros elementos da persuasão. Atores e políticos devem abusar deles para magnetizar as plateias.

Fotomontagem
Castro antes e Lula depois. Enfatizar a fala com um dos indicadores em riste é natural. Usar os dois requer um modelo, e um certo treino - Fotomontagem: Sipa Press - Mauricio lima/AFP - Adalberto Roque/AFP - Roberto Stuckert Filho/Ag. Globo

A aula magna da Universidade Roma Três a ser ministrada no próximo dia 10 de novembro versará sobre os elementos do discurso político. Informa o programa que o destaque será o papel dos gestos na comunicação e na persuasão. O professor não será Fidel Castro. Mas poderia ser. A escola italiana se junta a dezenas de outras na Europa e nos Estados Unidos que buscam descobrir se certas posturas corporais, gestos e expressões faciais específicas são comprovadamente eficientes no convencimento das audiências. Será possível provar cientificamente que determinadas entonações de voz ou trejeitos são inerentes aos oradores que pretendem não apenas argumentar mas convencer seus ouvintes? Será que o apelo à emoção e o gestual dramático superam sempre outras formas de expressão oral mais racionais e contidas? Pode-se aprender a ser carismático em um palanque ou no palco apenas repetindo gestos de oradores comprovadamente carismáticos? Esses estudos estão apenas no começo, mas são fascinantes.

Talvez os estudiosos possam chegar um dia a uma gramática corporal e facial que permita mesmo aos mais desajeitados oradores tornar-se perfeitos senhores do palco? Se a pessoa já tiver nascido para, na classificação de Preminger, viver diante das câmeras, é bastante provável que a resposta seja sim. O melhor caminho, desde os romanos, é a imitação de um ídolo. Fidel Castro é um dos ídolos de Lula. Foram tantas as visitas do brasileiro a Cuba, antes e depois de se tornar presidente, que ele deve ter mais horas de assistência de discursos de Fidel (os curtos são de três horas e os longos podem passar de dez) do que de qualquer outro político brasileiro ou internacional. Consciente ou inconscientemente, Lula assimilou o estilo de Fidel Castro. O mestre é mais culto e mais carismático do que o pupilo brasileiro — mas Lula já ganha de Hugo Chávez, outro notório imitador do cubano.

Estas páginas foram ilustradas com gestos de Lula claramente copiados de Fidel Castro. Alguns deles não são privativos do mestre cubano e do aluno brasileiro. É o caso do gesto de apontar o indicador para um chefe de estado estrangeiro. Quando presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton não perdia uma chance de usar o truque. Fidel e Lula idem. Na maioria das vezes, estão simplesmente apontando a um visitante ilustre o lugar reservado a ele pelo cerimonial. Nas fotos, porém, o gesto dá a impressão de que quem aponta o dedo é o “mandatário alfa”, aquele que está no comando da situação, indicando caminhos a um colega desorientado ou sem muita convicção.

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O mandamento corporal de Fidel: diante de um mandatário estrangeiro, aponte-lhe o dedo. As fotos vão mostrá-lo no comando da situação. Castro em 1998 e Lula em 2007- Fotomontagem: Zoraida Diaz/Reuters - Sergio Moraes/Reuters

Monoglota, Lula se beneficia bastante de um truque de Fidel Castro — o de falar sempre mais do que o interlocutor, de forma que nas fotos ele pareça estar ensinando ao colega alguma coisa. No caso de Lula, a mágica da “boca aberta, pois a foto não tem som”, é ainda mais eficiente. Com frequência Lula aparece nas fotos oficiais falando com a maior tranquilidade a interlocutores russos, alemães, árabes, israelenses, africanos, como se dominasse o idioma deles. Fidel Castro fez desse um jogo de cena clássico de seu arsenal, pois, mesmo dependendo vitalmente das doações anuais bilionárias dos soviéticos para sua ilha não soçobrar, aparecia nas fotos como se ensinasse alguma coisa aos velhinhos do Kremlin.

A fronteira entre a eficiência e o grotesco é tênue nas traquinagens de Fidel aprendidas por Lula. O patrono desse teatralismo de palanque é Adolf Hitler, que, por sua vez, aprendeu tudo com um comediante de Munique, Ferdl Weiss. Os cubanos chamam Castro de “El comediante en jefe”.

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Adolf Hitler, líder nazista que chegou a ter 90% de aprovação nas pesquisas, aprendeu a gesticular com um comediante de Munique. Heinrich Hoffmann, seu fotógrafo particular, fez uma sensacional sequência de fotos do chefe ensaiando e as publicou em livro em 1939. Charles Chaplin estudou essas fotos para compor sua paródia de Hitler no inesquecível filme O Grande Ditador, de 1940 - Fotomontagem: AKG/Latin Stock - AFP

Para construir o futuro

O Estado de São Paulo

Quem suceder ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva só poderá construir o futuro e consolidar o Brasil como grande economia se for capaz, em primeiro lugar, de proteger a estabilidade conquistada a partir dos anos 90. Precisará cumprir uma longa agenda para modernizar o País, torná-lo tão competitivo quanto as economias mais dinâmicas e garantir seu lugar entre as potências. Mas, para isso, o governo terá de abandonar o voluntarismo, renunciar à farra com dinheiro público e retomar o caminho da responsabilidade. Esse caminho foi claramente abandonado e a mais nova comprovação desse fato é a escandalosa manipulação das contas públicas.

Nenhum avanço teria sido possível, nos últimos oito anos, sem a base construída até 2002. O combate à pobreza teria sido muito menos eficiente se a inflação desenfreada continuasse corroendo cada aumento salarial e cada centavo das políticas sociais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu esse fato e por isso respeitou a ação do Banco Central, mesmo contra as pressões dos companheiros e aliados. Mas seu compromisso com a política responsável tem sido cada vez mais frouxo - tanto mais frouxo quanto maior a sua dedicação ao jogo eleitoral e ao seu projeto de poder.

O próximo governante deverá, portanto, enfrentar uma dupla tarefa, se não quiser condenar-se ao fracasso. Terá de afastar o risco de um retrocesso, preservando o tripé da estabilidade: uma política realista de metas de inflação, respeito à responsabilidade fiscal e câmbio flutuante.

Para manter esse rumo, terá de corrigir uma série de desvios. Precisará conter a expansão do gasto corrente, abandonar a demagogia com os salários do setor público, renunciar ao empreguismo e ao aparelhamento do governo. Deverá buscar a eficiência do setor público - inaceitável para a ideologia petista - e buscar o máximo retorno para cada centavo do orçamento.

Uma efetiva poupança pública será indispensável tanto para o crescimento seguro da economia quanto para a adoção de uma política anticíclica digna desse nome, como a adotada, por exemplo, no Chile: economizar em tempos de prosperidade para gastar nas fases difíceis.

Com o manejo responsável e eficiente do dinheiro público, realizar a decantada reforma tributária será muito mais fácil. Será necessária, naturalmente, uma complicada negociação com Estados e municípios, uma tarefa evitada, durante oito anos, pelo presidente Lula.

Se o próximo governo fracassar nesse item, por incompetência ou indisposição para missões difíceis, o empresário brasileiro continuará em séria desvantagem no jogo internacional. Mais que isso, poderá encontrar dificuldade crescente para competir e, portanto, para produzir e criar empregos. Todos os candidatos prometeram trabalhar por essa reforma. Nenhum, no entanto, detalhou a promessa nem disse como enfrentará a tarefa.

Se quiser garantir uma nova e prolongada prosperidade, quem suceder ao presidente Lula deverá resistir à tentação de controle pessoal ou partidário da economia. Terá de renunciar à ideia de reestatizar empresas bem-sucedidas no setor privado e também ao uso de instrumentos de governo, como os bancos públicos, para operações promíscuas.

Não faltarão empresários dispostos a construir com o grupo governante esquemas de dominação econômica disfarçados de projetos nacionalistas. O germe de um capitalismo de compadrio e de favores já se instalou e prosperou nos centros de poder nos últimos anos. É tempo de combater esse germe, não só em benefício da economia, mas também do regime democrático.

A construção do futuro dependerá igualmente de um retorno à diplomacia realista e eficiente, guiada pelo interesse nacional bem compreendido e não por ilusões ideológicas dos anos 60.

Seja quem for o novo ocupante do Palácio do Planalto, precisará de ideias claras e de muita determinação para cuidar dessas tarefas. Enfrentará pressões de grupos instalados no aparelho estatal e de grupos nutridos pelo setor público e acomodados à sua sombra, como os agentes do peleguismo sindical e estudantil. A construção, em algumas áreas, dependerá de um trabalho prévio de demolição.

O Brasil que está dando certo

Rogério L. F. Werneck - O Estado de S.Paulo

Na esteira de uma campanha marcada pela mistificação e pelo escapismo, a candidata governista chega ao final da eleição presidencial em vantagem significativa nas pesquisas de intenção de voto. É o sucesso de um discurso enganoso que passa solenemente ao largo de questões fundamentais que o País terá de enfrentar nos próximos anos. O eleitor vem sendo conclamado a escolher entre "o Brasil que dava errado e o Brasil que está dando certo" e a eleger "a presidente que não vai deixar privatizar a Petrobrás nem o pré-sal".

"O Brasil que está dando certo" não sabe bem como é mesmo que vai continuar financiando a gigantesca farra fiscal instaurada no segundo mandato do presidente Lula. Ou pior, acha que sabe. Aposta em poder dar sobrevida ilimitada ao fabuloso esquema de expansão de crédito subsidiado bancado por emissão de dívida pública, montado no BNDES. Confia na elevação sem fim da carga tributária para fazer face à expansão descontrolada de gastos. E espera poder continuar recorrendo impunemente a artifícios contábeis de todo tipo para escamotear a gritante deterioração das contas públicas. Sempre tendo o cuidado, claro, de não informar o eleitorado de qualquer uma dessas apostas.

"O Brasil que está dando certo" tem taxa de juros absurdamente alta e taxa de câmbio em preocupante apreciação, mas já não tem plano de jogo coerente para lidar com tais problemas. É um país onde o ministro da Fazenda se vangloria de contar "com armas de grosso calibre" para combater a apreciação e brada aos quatro ventos que "essa história de que ajuste fiscal vai baixar os juros é um equívoco". E onde as pressões em favor da redução da taxa de juros vêm perdendo força. Parte do empresariado já não se preocupa com a taxa de juros e com a sobrecarga que a política fiscal expansionista impõe à política monetária. Prefere frequentar os guichês de favores do BNDES, sem se dar conta de que a expansão do crédito subsidiado bancado por emissão de dívida pública vem tornando cada vez mais remota a possibilidade de uma queda estrutural da taxa de juros.

"O Brasil que está dando certo" é um país onde o governo impõe uma carga tributária mais alta do que a de qualquer outra economia em desenvolvimento, mas gasta quase tudo em dispêndios correntes. Só consegue investir pouco mais de 1% do PIB. E, ainda assim, prefere, por razões ideológicas, concentrar seu parco orçamento de investimento em áreas nas quais o setor privado está interessado em investir. O País continua exibindo carências vergonhosas em saneamento básico, transporte de massa, saúde, segurança e educação. Mas é em setores como petróleo e energia elétrica que o governo quer investir. Basta comparar os quase R$ 300 bilhões de dinheiro público já destinados ao BNDES e à Petrobrás, desde 2008, com os totais de R$ 18 bilhões e R$ 34 bilhões que a candidata governista promete gastar nos próximos quatro anos em transporte público e saneamento básico.

"O Brasil que está dando certo" é, portanto, um país que aprendeu pouco nos últimos 40 anos. Ainda insiste em despejar recursos públicos em investimentos no setor produtivo. E, como no regime militar, está de novo pronto a perder a oportunidade de ampliar rapidamente o acesso da população a condições decentes de educação, saúde, segurança e infraestrutura urbana.

Há poucos dias houve quem afirmasse que a eleição de Dilma Rousseff era a garantia de que os recursos do pré-sal seriam destinados à educação. Ledo engano. O que a candidata governista tem em mente é a dilapidação de boa parte do excedente potencial do pré-sal num faustoso programa de subsídio à produção nacional de equipamentos para a indústria petrolífera. Se ela tiver o sucesso que espera nessa empreitada, vai sobrar bem menos do que se imagina para educação e outros destinos mais nobres. Numa triste reedição do nacional-desenvolvimentismo geiselista.

O Brasil vai custar a dar certo se, ao arrepio das lições da história, teimar em insistir no que deu errado, de fato, no seu conturbado passado.

(*) Economista, Doutor pela Universidade Harvard, é Professor Titular do Departamento de Economia da PUC-RIO

Depois do palanque

Míriam Leitão, O Globo

Quando novembro vier, será inevitável olhar o quadro econômico sem escapismos. Há muitos dilemas para enfrentar. A dívida bruta está em torno de 60% do PIB, o superávit real caiu, num ano de aumento de arrecadação. O dólar é um preço desconcertante. O governo não sabe o que fazer com o câmbio. Os candidatos evitaram o tema economia e gastaram sua munição em algumas falsas batalhas.

Os números ouviram muito desaforo durante o programa eleitoral e os debates. Foram contorcidos para confessar o que não registraram ou foram tomados pelo que se parecem e não pelo que são de fato.

O mercado de trabalho teve mais dinamismo no governo Lula, sem sombra de qualquer dúvida. Mas quem procurar no Ministério do Trabalho ou no IBGE vai encontrar números diferentes dos 15 milhões de empregos que Dilma Rousseff tem dito que foram criados. Há de fato boas notícias nessa área. E há um mar de más notícias. O desemprego de jovens de 18 a 24 anos está em 14%, isso é 125% maior do que os 6,2% da taxa média de desemprego, que é a mais baixa desde o começo da pesquisa. No Recife, o desemprego de jovens é de 20% e em Salvador é de 24,5%. Na informalidade estão 22 milhões de trabalhadores. Números que informam que no melhor momento recente do mercado de trabalho, há desafios gigantes pela frente.

O número de alta do PIB é mais vistoso do que real. Parte dos 7,5% do crescimento este ano é apenas a recuperação da queda do ano passado. O país crescia a 6%, caiu para taxas negativas, e este ano recuperou o que havia perdido e ainda cresceu. Mas de crescimento real mesmo, segundo especialistas, é entre 4% a 4,5%, o que é uma boa taxa. Isso significa que para repetir o nível de 7% no ano que vem, só mesmo pisando mais o pé na tábua e criando mais distorções. É por isso que as previsões são de crescimento menor em 2011.

O Brasil tem sido visto com bons olhos por analistas de bancos, fundos e agências de risco estrangeiros não porque as contas públicas melhoraram, é que o mundo piorou muito. Na comparação com outros países o Brasil parece bem. Mas há dados que afligem. A arrecadação está aumentando mais de 17% e mesmo assim o Brasil está reduzindo o superávit primário e a dívida bruta está em 60%. A dívida líquida só não está aumentando por causa dos truques contábeis como o de registrar como empréstimos o dinheiro transferido para o BNDES. O superávit primário de setembro foi tão gigante quanto falso, mas o governo aproveitou a fantasia e mandou gastar mais. A receita é falsa, o gasto é real.

Números marretados são ótimos para inglês ver, mas não enganam quem vive de olhar os indicadores brasileiros. O crédito está se expandindo fortemente e já está perto de 50% do PIB. Mesmo assim, essa medida de crédito/PIB do Brasil é baixa quando comparada com outros países. Só que com os juros brasileiros o custo do serviço dessa dívida tanto para as famílias quanto para as empresas é muito mais alto. Nosso horizonte de endividamento é mais curto. As famílias se endividam a 40% ao ano. Isso é muito alto.

O Brasil está melhor do que outros países do mundo e ainda paga juros de 10,75%, por isso tem atraído mais capital estrangeiro; o capital entra derrubando o dólar; o dólar incentiva a importação e aprofunda o déficit em transações correntes. O governo tenta deter a entrada de dólar com aumento do IOF e ameaças de que tem “outras armas” mas não diz quais. Isso apressa novas entradas. O Banco Central compra mais reservas internacionais numa moeda que está perdendo valor em relação às outras e em títulos de dívida de países que não remuneram seu capital. E se endivida a 10,75% ao ano. Está pegando dinheiro no cheque especial para aplicar na poupança. E mesmo com toda essa compra de reservas o dólar cai. Os setores que se sentem ameaçados pelos importados começam a pedir medidas de proteção. Assim, o país vai criando um desajuste atrás de outro.

Parte do déficit externo é causado por aumento de investimentos. Isso é ótimo porque aumentará a capacidade produtiva da economia brasileira. Só que parte desse excesso é para financiar consumo. E aí é que mora o perigo.

O dólar baixo ameaça os produtores locais, que já falam em “desindustrialização”, como a Fiesp, mas é o que tem garantido que a inflação não suba muito. Os preços de alimentos e serviços estão em alta, mas o de produtos impactados pelo dólar estão subindo mais devagar pela queda da moeda americana. O que significa que se o governo tiver sucesso no seu projeto de desvalorizar o real frente à moeda americana, terá um outro problema para resolver: a alta da inflação. O ministro da Fazenda disse que aumento de gasto não é inflacionário. Ele se engana mais uma vez. A inflação não está subindo apenas porque o dólar está baixo e tem puxado para baixo o índice.

Para onde se olhe há circulo vicioso se formando na política econômica, administrada com imperícia e desconhecimento teórico básico. Parte do sucesso atual se deve ao fato de que a China crescendo está comprando mais e elevando preços de commodities que o Brasil exporta. Não fosse isso, o rombo nas contas externas seria maior. Só que parte do crescimento da China se deve às exportações turbinadas por um yuan com preço artificialmente baixo.

A torcida é para que este governo e o próximo a ser eleito consigam ver os riscos que estão se formando. Quando forem desarmados os palanques talvez seja possível admitir a existência dos desequilíbrios. Mas isso, quando novembro vier.

O perigo das promessas cumpridas

Alexandre Barros (*) – Agência Estado

Candidatos prometem tudo. Eleitores sabem que promessas não serão cumpridas, mas votam assim mesmo. É extraordinária a capacidade das pessoas de se alimentarem de ilusões.

Um jornal lançou um promessômetro: vai registrar promessas dos candidatos e depois conferir seu cumprimento.

Em geral, quem apoia o candidato gosta das suas promessas e desgosta das do oponente. Raciocínio de eleitor: gosto do que acho que será bom para mim e desgosto do que será ruim ou me desagrada.

A proposta aqui é inverter esse raciocínio e esquecer que as promessas feitas não serão cumpridas. Mudemos o paradigma: imaginemos o que aconteceria se as promessas fossem todas cumpridas.

A marca registrada das promessas eleitorais é a generosidade. Todos os candidatos prometem mundos e fundos: salvação para todos, vida melhor, salário melhor e mais felicidade. Ninguém se lembra de que a felicidade custa recursos.

Tudo o que as pessoas amam devem a capitalismo. Aquela moto ou o carro que lhe dá tanto prazer não apareceu ali na sua porta por desejo ou descuido de Papai Noel. Foram necessários os esforços de muita gente (combinação de capital e trabalho) para que você pudesse subir nas suas duas ou quatro rodas e desfrutar os prazeres de uma viagem ou os desprazeres de um engarrafamento. Desde quem pensou o produto até quem agregou tudo, para um monte de metais, plásticos e outras matérias-primas chegarem a ser um carro ou uma moto.

O feijão, o peixe ou o bife que você come não chegaram ao seu prato por desejo deles, mas pelo desejo e esforço de um enorme número de pessoas que plantaram, cuidaram, pescaram ou criaram, entregaram e cozinharam o que deu origem ao feijão, peixe ou bife que estão no seu prato.

Isso é o que tende a ser ignorado pelos eleitores quando ouvem as promessas. Eles fantasiam, como quem compra o bilhete da Mega Sena, que o peixe veio nadando até seu prato ou que o boi depositou o bife na sua mesa. Mas o prêmio da Mega Sena só acumula em muitos milhões porque alguns milhões de pessoas pingaram nas lotéricas, monopolizadas pelo governo, seus caraminguás que viram, agregados, aquele prêmio cheio de cifrões, com o qual sonhamos de domingo a quarta e de quinta a sábado.

As promessas eleitorais ignoram todos esses fatos. Elas partem do princípio de que as coisas vão acontecer porque os candidatos assim querem e os eleitores neles acreditam.

Na hora de cumprir as promessas é que a porca torce o rabo. Qualquer promessa, para ser cumprida, vai custar recursos de milhões de pessoas, empresas, agências governamentais, que vão precisar trabalhar, pagar impostos (e o governo terá de recolhê-los) para transformar cada um daqueles sonhos em política pública viável, seja ela o Bolsa-Família, os milhares de creches e postos de saúde ou os muitos quilômetros de uma ferrovia.

Assim, meu caro eleitor, antes de votar pense no que aconteceria se todas aquelas promessas que você ouviu durante a campanha eleitoral fossem, de fato, cumpridas. Faça as perguntas que Henry Hazlitt sugeriu em seu livro Economia em uma Lição. Quem vai pagar aparentemente por aquelas promessas? De onde vem o dinheiro? Quem vai pagar de verdade os custos das promessas? Quem vai se beneficiar? Pense não apenas nos beneficiários imediatos e aparentes, mas em todos aqueles de quem nos esquecemos nas análises rápidas, superficiais e emocionais (qualquer política pública tem beneficiários intermediários não aparentes). Será que aquelas promessas vão mesmo trazer aquele bem que os políticos prometem aos eleitores, destinatários delas?

Lamento criar este incômodo para você, meu caro leitor. Presumo que você preferiria não ter lido este artigo e ir votar sossegado, apertar os botões e torcer para que a maioria dos eleitores aperte a mesma combinação de botões, para que os resultados daquelas promessas jorrassem tranquilamente durante os próximo quatro anos do governo que for eleito.

Pare um pouco e pense no que vai acontecer se aquelas promessas forem cumpridas. Quem vai pagar a conta?

Sei que sua situação no dia da eleição seria muito mais confortável se você não se fizesse estas perguntas, pois iria votar com a crença (ou a esperança) de que todas aquelas promessas seriam cumpridas e o seu mundo se tornaria muito mais agradável, a custo zero.

Só que não será a custo zero. Não existe nada que não custe alguma coisa. Atenha-se às promessas viáveis. Nada de mais que algumas delas vão beneficiar alguns grupos, desde que você se dê ao trabalho de pensar quem são todos os beneficiários. Será que os beneficiários não aparentes à primeira vista ganharão mais do que os beneficiários apregoados pelos candidatos?

Uma estrada pode beneficiar muita gente que vai usá-la, mas vai beneficiar também quem for construí-la. Idem uma creche. O aumento do salário por lei vai ser muito bom para quem vier a recebê-lo, mas você terá de contribuir com um pouquinho do seu dinheiro para que alguém ganhe mais.

Se isso tudo for feito via mercado, com cada um de nós decidindo em que vamos gastar nosso dinheiro, teremos a tranquilidade de saber que, mal ou bem, pagamos pelo nosso benefício. Mas sendo isso feito via impostos, a situação é diferente. Alguém vai resolver de que maneira vai gastar o seu dinheiro. A regra é universal e quem a ensinou foi Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: quando alguém gasta o dinheiro dos outros (no caso, o nosso), em benefício dos outros (no caso, nós), não importam nem o preço nem a qualidade do produto ou serviço prestado.

Boa sorte amanhã e pense nos problemas que teríamos se todas as promessas fossem cumpridas.

(*) Cientista Político, é Diretor-Gerente da Early Warning: Oportunidade e Risco Político (Brasília).

Serra ficou à vontade e Dilma, na defensiva

Leonardo Barreto, O Estado de São Paulo

O formato do debate foi interessante porque pôde trazer aos candidatos questões cotidianas, formuladas pelos próprios eleitores. Ao mesmo tempo, isso prejudicou um pouco Dilma Rousseff. As perguntas formuladas tratavam de problemas que as pessoas estão vivendo no dia a dia, trazendo com elas uma crítica à candidata da continuidade do atual governo.

Quando são os eleitores que formulam as questões, eles trazem mais credibilidade. Dilma acabou se prejudicando no sentido de ter, a todo momento, de falar que o problema já está sendo resolvido, o que ficou um pouco contraditório. No caso de José Serra, ele ficou muito à vontade. O candidato tem mais experiência em termos de debate, tem mais traquejo e se saiu melhor em boa parte das perguntas.

Como a crítica à atual gestão já vinha na questão, para ele marcar um gol ficava mais fácil. Nesse sentido, o formato favoreceu o candidato do PSDB. Dilma ficou mais na defensiva e Serra teve a oportunidade de desenvolver melhor seus argumentos. Mas isso é eleição. Quem está no governo sempre tem de se defender, faz parte do jogo.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

É bem provável que trechos do debate já se encontram em vídeos espalhados pela internet. Quem puder rever, que o faça. Esta foi a primeira vez nesta campanha, e pena que já no seu final, que os candidatos se viram diante da verdadeira face do Brasil. Foram colocados frente a frente com o Brasil real, seus problemas, suas mazelas, suas deficiências e atrasos, muito diferente do Brasil da fantasia exibida pela campanha governista na tevê.

Tenho por princípio não brigar com pesquisas. Sei que umas são mais sérias que outras, mas a metodologia atualmente empregada, acaba distorcendo a realidade de todas elas. Se de um lado, Lula goza de 80% de popularidade e aprovação, não dá para crer que os serviços públicos, avaliados pelos mesmos institutos, sequer cheguem a 50% de aprovação, e isto raramente, porque a grande maioria está abaixo da linha de extrema pobreza. Ora, se os serviços prestados são de responsabilidade deste governo que aí está, como pode ele ser peça isolada do conjunto da obra?

Voltemos ao debate. Apesar de prometer o paraíso ainda mais colorido do que Lula canta no palanque, Dilma não conseguiu justificar porque a má qualidade da saúde, por exemplo, não foi arrumada agora? Ou da educação, ou do saneamento, etc.

Se ganhar Dilma, sua vitória terá que ser computada à capacidade maravilhosa de Lula mentir e ser acreditado, e na competente campanha na tevê, produzida por João Santana.

Mas, neste caso, infelizmente, quem perderá será o país como um todo. Deus queira que esteja enganado, muito embora o currículo de Dona Dilma não a recomende nem para fiscal de linha de transporte público!

Governo do PT abusa da Caixa Federal e da Petrobrás para beneficiar Dilma Roussef

Políbio Braga


É estarrecedor o mau uso da máquina pública federal em favor da candidata oficial, a ex-ministra Dilma Roussef, e isto se percebe em quase todas as repartições e escritórios de empresas estatais. Os mais ativos são a Petrobrás e a Caixa Federal. O leitor Carlos Corwall, que se corresponde com regularidade com o editor, mabndou a denúncia abaixo. Ela revela comportamento criminoso por parte de dirigentes da Caixa Federal. Isto é denúncia mesmo.

Outro caso é o da Petrobrás. O jornal O Globo deste sçábado, revela que a estatal fez campanha todos os dias para beneficiar Dilma Roussef, chegando ao ponto, sexta, de anunciar uma nova reserva de petróleo. A própria Petrobrás admite que sua margem de erro é de 305%.

Veja só a sequência de malfeitorias feitas pela Petrobrás esta semana:

1) segunda, anúncio de patrocínio a 113 projetos sociais, R$ 110 milhões.

2) terça, anúncio de patrocínio de 44 projetos ambientais, R$ 78 milhões.

3) quarta, anúncio de descoberta de petróleo em Sergipe.

4) quinta, início da produção definitiva de Tupi, com a presença de Lula.

5) sexta, ANP divulga estimativas para reservas de Livra, maiores do que as de Tupi.

Este ano, Lula e Dilma anunciaram que o Brasil alcançou a autossuficiência de petróleo, mas isto não é verdade.

Clipping
Diretores da Caixa Econômica Federal se reuniram com representantes de 42 prefeituras da região, na manhã de hoje (29), no Hotel Pódium, em Varginha. Durante a reunião foram assinados 75 convênios, autorizando a liberação de mais de R$ 27 milhões para 42 prefeituras da região. Entretanto, havia representantes de 75 prefeituras. Os recursos, do orçamento geral da União, são destinados a compra de equipamentos, máquinas, cobertura de ginásios e escolas, construção de quadras esportivas, reformas em geral e pavimentação asfáltica. O PSDB vai apresentar representação contra o governo federal na quarta-feira (3). O diretório do partido em Varginha enviou documentação para o departamento jurídico do PSDB em Belo Horizonte entrar na justiça. O advogado Antonio Silva, ex-prefeito de Varginha, classificou a reunião como “no mínimo inoportuna, moralmente duvidosa e nitidamente eleitoreira. Desequilibra o pleito eleitoral a favor da candidata do governo . Uma estranha coincidência acontecer dois dias antes da eleição”, ironiza. Ele cita a lei 9.504/97, que proíbe aos agentes públicos, nos três meses antes das eleições, “realizar transferência voluntária de recursos da União aos Estados e Municípios, e dos Estados aos Municípios”. A justificativa é evitar “afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos”.O presidente do PSDB, Antônio Moura, disse que ficou indignado com a reunião. “Vamos buscar njustiça a verdade e esperamos que a justiça seja feita. Ainda que tardiamente, já que estamos na véspera da eleição”. Moura explica que a “o candidato beneficiado, agente público ou não, ficará sujeito à cassação do registro ou do diploma, caso seja comprovado que ele foi beneficiado”.

Outros dois fatos irritaram os tucanos: a presença do deputado federal Odair Cunha (PT) e de homem com um adesivo da candidata Dilma Rousseff na camisa. Denúncias foram encaminhadas para a promotoria eleitoral. O promotor Hamilton Vieira Santiago requereu ao juiz eleitoral que requisite da Caixa Econômica cópias dos convênios e, da imprensa, imagens da reunião. O juiz eleitoral Antônio Carlos Parreira não quis comentar o caso. O Ministério Público Federal da comarca está de recesso, pelo dia do servidor.

Para Varginha foram autorizados R$ 800 mil para a construção de um Centro de Reabilitação e recursos para a construção de 430 casas, informou o prefeito Eduardo Carvalho “Corujinha” (PT). O superintendente regional da Caixa Econômica Federal disse que “o que a gente traz de dinheiro são recursos de vários ministérios, no total de R$ 27 milhões. A assinatura dos convênios é o ponto de partida”. Depois, em contato com o blog, a Assessoria de Comunicação da Caixa voltou atrás e disse que são R$ 18 milhões.A reportagem do Blog registrou a presença de oito prefeitos: de Varginha, Itajubá, Pedralva, Santana da Vargem, Cambuquira, Carmo da Cachoeira, Ilicínea e Bom Jesus da Penha.

Outro lado
A Caixa Econômica Federal não se pronunciou sobre o ocorrido. A Assessoria de Imprensa informou que o superintendente regional João Deon Pereira –que continuou em Varginha durante todo o dia- havia saído da reunião de trabalho e estava sem o telefone celular.

ANP faz estimativa com 300% de margem de erro

Miriam Leitão, O Globo

A ANP divulgou agora à tarde que o campo de Libra, situado no pré-sal, pode ter reservas de petróleo entre 3,7 a 15 bilhões de barris. Uma estimativa com margem de erro de mais de 300%. De deixar o pior instituto de pesquisa de opinião parecer um instrumento de precisão.

A estimativa foi feita como resultado de uma única perfuração, com penetração em apenas 22 metros na camada do pré-sal. A meta é atingir 6.500 metros em dezembro.

O comportamento da agência reguladora é intempestivo. Ela divulga uma previsão desse tipo a dois dias das eleições e com a bolsa de valores aberta e em pelo processo de compra e venda de ações. O ideal seria fazer mais furos para que se tenha informações mais precisas sobre a capacidade do poço.

O governo tem usado o pré-sal não como uma reserva de matéria-prima, mas como um reservatório sem fim de manipulações eleitorais. A maior parte das informações divulgadas não foram comprovadas, são apenas estimativas iniciais. As que tinham sido anunciadas antes foram reestimadas para baixo.

Em geral, o que as consultorias estimam hoje é metade do que foi inicialmente anunciado. Essas reservas só poderão ser incorporadas ao conceito de reservas provadas daqui a muito tempo, e muitos testes. Essas permanecem inalteradas em cerca de 15 bilhões de barris.

O pior é que a agência reguladora, que deveria ter independência para regular o setor, parece ter definitivamente aderido à máquina de propaganda oficial.

Telebrás, para comparsas

Ethevaldo Siqueira, Estadão

“A Telebrás não está sendo recriada para servir à sociedade brasileira. Sua reativação tem o claro objetivo de atender a comparsas políticos. Exatamente como tem ocorrido na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Isso nos conduzirá, inevitavelmente, à degradação dos serviços, como, aliás, já ocorre no setor postal”.

Essas palavras são do comandante Euclides Quandt de Oliveira, ex-ministro das Comunicações, de 1974-79, ao avaliar a recriação da Telebrás. Quandt foi o primeiro presidente daquela estatal que retirou o País da situação de profundo atraso em suas telecomunicações em que vivia até o começo dos anos 1970.

Lúcido e franco aos 91 anos de idade, Quandt se preocupa com o futuro do País e relembra que cabe ao Estado fixar políticas públicas e mesmo prestar serviços, diretamente ou por intermédio de concessionárias. “A prestação de serviços públicos é uma responsabilidade do Estado. Cabe-lhe, no entanto, fiscalizar a prestação de serviços com o máximo rigor”.

Defensor histórico e convicto do modelo estatal, Quandt mudou de opinião no começo dos anos 1990. Ele explica: “Depois de passar pela Telebrás e pelo Ministério das Comunicações, continuei a defender o modelo estatal, pois acreditava que ele seria capaz de cumprir sua missão de atender aos brasileiros em qualquer ponto do País. Fui, porém, forçado a reconhecer que, a partir de 1985, a escolha de dirigentes no Sistema Telebrás passou a ser feita com o claro propósito de atender a amigos e comparsas políticos, gente que, em sua maioria, não tem a qualificação profissional para o exercício do cargo. A partir daí, passei a ser defensor da privatização”.

Loteamento
Por volta de 1990, Quandt já havia perdido sua esperança na possibilidade de a Telebrás atender a todos os brasileiros. Hoje, o modelo estatal volta a ser desfigurado em vários setores governamentais pelo loteamento político, inclusive com a reativação da Telebrás, como acaba de ser feita.

Conheço Quandt há mais de 30 anos e fui testemunha de seu trabalho excepcional em favor das comunicações brasileiras, ao lado do segundo presidente da Telebrás, o general José Antonio de Alencastro e Silva. Aquela Telebrás, nascida em 1972, funcionou de forma exemplar até 1985 e nada tinha de parecido com a “nova Telebrás”, ressuscitada por Dilma Rousseff e Erenice Guerra – e entregue, como um feudo, ao petista gaúcho Rogerio Santanna.

Heterodoxia petista
A volta da Telebrás tem sido justificada como estratégia para levar a banda larga a todo o povo brasileiro, “com a melhor qualidade e o menor preço”. Algo comovente, não? Os caminhos para alcançar esse nobre propósito, entretanto, não são nada republicanos. Confira, leitor:

* Holding das antigas Teles, a Telebrás foi privatizada em 1998, mas não foi extinta, por diversos problemas legais. Por ter sido criada por lei, não poderia ter sido reativada por decreto, com a mudança de suas finalidades. No entanto, esse decreto mudou sua condição de empresa holding transformando-a em uma operadora de serviços. Só uma lei específica, debatida e votada pelo Congresso poderia mudar sua atividade-fim.

* Nenhuma concessionária ou outra parte legítima teve coragem contestar perante o Supremo Tribunal Federal (STF), essa inconstitucionalidade. Por isso, o País teve que engolir tudo em seco. Será que o Ministério Público não seria essa parte legítima para provocar o STF a se pronunciar sobre a constitucionalidade ou não desse decreto?

* Além de recriar a Telebrás, o governo Lula aprovou, num só decreto, o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), que, “a rigor, como plano, não existe”, segundo Otávio Marques de Azevedo, diretor da Andrade Gutierrez, acionista da Oi.

* O PNBL divulgado com o decreto não passa de uma breve carta de intenções, acompanhado agora por uma lista das primeiras 100 cidades a serem atendidas, 50% delas com população superior a 350 mil habitantes, nas quais já atuam pelo menos três operadoras com oferta de banda larga.

* Um plano de banda larga de verdade deveria incluir metas específicas, fontes de financiamento, orçamento confiável, cronograma de investimentos, áreas prioritárias, população a ser atendida, evolução dos serviços e suas características técnicas.

* Por sua importância, a questão da banda larga deveria ter sido debatida pelo Congresso Nacional há mais de 5 anos e com a participação de toda a sociedade. Só foi anunciada, entretanto, por um grupo palaciano ávido de poder, no sétimo ano do governo Lula, como um filão eleitoral.

* O pior da heterodoxia e da ousadia petista na recriação da Telebrás foi alijar e marginalizar as duas áreas mais qualificadas e legalmente capacitadas a estudar e a propor modificações setoriais: o Ministério das Comunicações, ao qual a Telebrás sempre esteve legalmente vinculada, e a Anatel, que detém o maior número de especialistas em telecomunicações do governo.

* Depois de tantas manobras, tudo acabou sendo decidido por Dilma Rousseff e sua sucessora, Erenice Guerra, sem o apoio do Ministério das Comunicações, que elaborou estudo de mais de 200 páginas sobre as linhas do PNBL – totalmente ignorado pela ministra Dilma.

Eis aí um pequeno retrato das comunicações brasileiras na era Lula.

Conflito nos portos

Agência Estado

A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) demorou muito para tomar uma decisão sobre a situação dos terminais portuários cujos contratos - alguns vencidos, outros prestes a vencer - foram assinados antes da vigência da Lei de Modernização dos Portos, o que criou um ambiente de insegurança jurídica entre as empresas que operam esses terminais e retardou os investimentos. Quando o fez, em vez de eliminar as incertezas, tornou-as ainda mais agudas, o que deve resultar em arrastadas demandas judiciais. Nem mesmo a Secretaria Especial dos Portos (SEP) concorda com a decisão da Antaq nesse caso, e diz que continuará a atuar sem a levar em conta.

A questão do vencimento nos próximos anos de várias dezenas de contratos de arrendamento assinados antes da publicação da Lei dos Portos, em 1993, era conhecida pelas autoridades, que tiveram o tempo necessário para examiná-la e encontrar uma solução legal, por meio da prorrogação desses contratos ou da realização de novas licitações das áreas arrendadas. Há tempos, tanto dirigentes da Antaq quanto funcionários graduados da SEP vinham anunciando uma decisão para o problema.

No fim de setembro, a Antaq publicou a Resolução 1.837, que dá aos operadores dos terminais cujos contratos foram assinados antes da Lei dos Portos o direito de pedir a prorrogação do arrendamento, o que não era permitido. A resolução da Antaq tem como fundamento um parecer da Advocacia-Geral da União, que, em resposta a uma solicitação da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) a respeito do direito dos terminais de renovarem seus contratos de arrendamento, concluiu que os contratos podem ser prorrogados.

O diretor-geral da Antaq, Fernando Brito Fialho, esclareceu ao Estado que poderão pedir prorrogação do contrato os terminais que estiverem cumprindo todas as determinações da autoridade portuária e atenderem às novas exigências contidas na resolução.

A medida atendeu às reivindicações dos atuais operadores dos terminais, que alegavam a falta de uma decisão clara do governo sobre o caso para retardar seus planos de investimentos. Mas a decisão da Antaq está longe de ser clara e aceita por todos os envolvidos na questão.

Ela desagrada não apenas às empresas interessadas em disputar as áreas dos terminais com contratos prestes a vencer. Funcionários da SEP e algumas autoridades portuárias já disseram que vão continuar seguindo a regra que manda licitar as áreas arrendadas antes de 1993 com contratos vencidos ou a vencer. Mantida essa regra, até 2013 cerca de 100 terminais irão a leilão, ironicamente em processo a ser conduzido pela Antaq.

O presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), José Roberto Correia Serra, anunciou que todos os 12 contratos da área da Codesp que vencerão até 2014 passarão por licitação, como já ocorreu com duas outras áreas. "Vamos tomar todas as decisões com base na Lei dos Portos", disse, pois essa é a forma de o porto se capitalizar, fazer os investimentos necessários e atrair investimentos privados.

Já o presidente da ABTP, Willen Mantelli, discorda da SEP e diz que a resolução da Antaq corrige uma injustiça feita quando da implementação da Lei dos Portos. Num ponto de sua crítica ao comportamento da SEP, ele está coberto de razão. Se nem a SEP e a Antaq conseguem se entender, "imagine a instabilidade para os investidores".

A Antaq existe também para regular os serviços de transporte aquaviário e de exploração da infraestrutura portuária de modo a assegurar qualidade, eficiência, segurança, regularidade e tarifas módicas desses serviços, além de "harmonizar os interesses dos usuários com os das empresas concessionárias, permissionárias, autorizadas e arrendatárias, e de entidades delegadas, preservando o interesse público".

Sua resolução, no entanto, aprofunda a desarmonia no setor, o que retarda a solução do problema e a realização dos investimentos em expansão e modernização dos serviços.

‘Governo fez pré-sal perder seriedade', diz especialista

Veja online

A dois dias do segundo turno, novas descobertas são anunciadas pela ANP, colocando o pré-sal no palanque político mais uma vez

Os anúncios sobre o petróleo são verdadeiros, transparentes e sem interesses eleitoreiros? Em quais pontos a Petrobras, de fato, beneficia a população brasileira, para ser usada na campanha?

Em apenas uma semana, três notícias sobre novas reservas de pré-sal foram divulgadas no país. Cada uma delas se refere a áreas diferentes de exploração: o campo de Libra, na bacia de Santos, os poços em águas ultraprofundas na bacia Sergipe-Alagoas, e o rumor de que haja mais petróleo nos blocos BM-S 9, BM-S 40 e BM-S 12, em Tupi. Essa terceira descoberta teria, segundo os mesmos rumores, potencial de exploração de 68 milhões de barris.

As informações são boas para o país, mas chama atenção o fato de serem divulgadas a menos de uma semana do segundo turno da eleição presidencial. É de se estranhar que tantas boas novas cheguem tão alinhadas com a agenda da estratégia eleitoral da candidata governista ao Planalto, Dilma Rousseff, que baseou boa parte do seu discurso durante a campanha do segundo turno numa fala ufanista sobre a riqueza da Petrobras e do pré-sal brasileiro. Além de propagandear as vitórias da estatal, os petistas ainda insistiram em dizer que uma vitória da oposição colocaria essas conquistas em risco - o que, é sabido, não aconteceria.

Na avaliação de Adriano Pires, diretor do Centro de Pesquisa em Infraestrutura (CBIE), os anúncios feitos sobre o petróleo são despejados no mercado com uma certa dose de irresponsabilidade por parte do governo – representado pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). “O pré-sal perdeu seriedade. Há tantos números gigantescos divulgados às vésperas da eleição, que não se pode confiar”, argumenta Pires.

Valor de mercado - A máquina de propaganda do PT em torno do petróleo e da Petrobras pode, no entanto, ter efeito contrário. Caso todas as descobertas se concretizem e sejam exploradas, as riquezas geradas ao país serão notadas em, no mínimo, uma década. A reserva de Tupi, amplamente divulgada como salvação da economia no final de 2007, produz hoje cerca de 14.000 barris de petróleo por dia. O Brasil consome cerca de 2 milhões de barris diários.

O crescimento da produção de petróleo também não foi exemplar ao longo do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o balanço da própria Petrobras, entre 1995 e 2002, a produção de petróleo cresceu 109,5%. Já entre 2003 e 2010, o crescimento foi de 30%. “A empresa já está sendo penalizada por isso”, diz Pires. Desde a capitalização bilionária ocorrida no final de setembro, a Petrobras perdeu mais de 14 bilhões de dólares em valor de mercado. “Como uma empresa que pode explorar toda essa riqueza enterrada está perdendo tanto assim?”, questiona o especialista.

Perspectivas – A divulgação das novas descobertas ainda não motivou analistas a reverem suas perspectivas para as ações da empresa. O anúncio de Libra, cujo potencial de exploração deverá ser divulgado ainda nesta sexta-feira pela ANP, não pode ser considerado positivo para a Petrobras ainda, pois não está sob concessão da companhia no momento. “No curto prazo, os fundamentos não mudam. Não se pode revisar as perspectivas para a empresa antes de um detalhamento maior sobre as descobertas”, afirma Lucas Brendler, do banco Geração Futuro.

Os questionamentos que permanecem: os anúncios são verdadeiros, transparentes e sem interesses eleitoreiros? Em quais pontos a Petrobras, de fato, beneficia a população brasileira, para ser usada como mote de campanha presidencial? Se as descobertas são tão importantes, não seria melhor divulgá-las com clareza após o frenesi das eleições? Segundo Adriano Pires, a relação direta do governo com o petróleo não é saudável para a população, pois cria expectativa em torno de uma riqueza que não é palpável. “Se criou um mito irresponsável em torno do pré-sal. Domingo, após as eleições, é certo que nem a ANP nem a Petrobras falarão mais disso por um bom tempo”, prevê.

Falta de parcerias prejudica pesquisa no setor automotivo

Veja online

Engenharia brasileira já acumula méritos em desenvolvimento, mas pesquisa e registro de patentes em universidades ainda deixa a desejar

Marcel Salim
surgiu de um rabisco num guardanapo de restaurante

Para garantir o crescimento dos pólos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), as montadoras que atuam em países emergentes têm investido na qualificação de engenheiros nestas nações. No caso do Brasil, as montadoras que estão há mais tempo no país (GM, Ford, VW e Fiat) são as que mais investem em infraestrutura tecnológica e na formação de pessoal técnico. “Cada montadora, contudo, possui uma estratégia diferente e, por isso, o ritmo de criação de novos pólos de P&D ocorre de forma gradual, apesar de que este é um movimento que já se tornou tendência no setor automotivo global”, afirma Flávia Consoni, especialista em indústria automotiva e que desenvolveu um estudo sobre as estratégias de inovação tecnológica e políticas de atração de investimentos em P&D no setor nacional.

Uma característica bastante valorizada pelas matrizes das montadoras em relação ao Brasil tem sido a capacidade de algumas filiais apresentarem soluções de baixo custo que são incorporadas ao desenvolvimento de futuros veículos, o que é relevante quando se trata de atrair e realizar atividades de engenharia.

Aqui, os veículos Meriva (GM) e Fox (VW) se destacam como grandes exemplos de pesquisa e desenvolvimento promovidos pela engenharia automotiva nacional. Ambos projetos contaram com a responsabilidade técnica de profissionais brasileiros em todas as etapas do processo de criação. O resultado não apenas agradou o consumidor por aqui, como também conquistou os europeus, cujo nível de exigência é um dos mais altos do mundo.

Outro modelo que também chama a atenção é o Ford EcoSport. O veículo nasceu nas mãos do engenheiro aposentado Luc de Ferran, ex-vice-presidente da Ford, pai do piloto da Fórmula Indy Gil de Ferran e que idealizou para a montadora outros sucessos, tal como o Ford Corcel II e o Ford XR3.

Luc começou a rabiscar o EcoSport num guardanapo de restaurante em 1996. Quase 15 anos depois, o utilitário compacto esportivo feito em Camaçari é sucesso de vendas da montadora. O modelo foi o primeiro esportivo da companhia a utilizar um chassi monobloco compacto, projetado para oferecer comportamento equilibrado tanto no asfalto como na terra.

“O segredo do EcoSport está na boa engenharia nacional. Nós sabemos para quem projetamos. Um bom engenheiro deve conhecer profundamente o cliente, ir até sua casa para identificar o que ele realmente gosta. Em seguida, basta mesclar o profundo conhecimento acadêmico com o lado prático e pronto: temos um bom carro”, explica Luc.

Não apenas carros, o Brasil também possui dois triunfos em termos de tecnologia: são os motores a álcool e flex. O país se especializou no desenvolvimento e aperfeiçoamento desta tecnologia, já que possui condições de produzir e garantir o abastecimento do etanol.

Por serem mais viáveis que os elétricos, quase 100% da frota brasileira vem sendo produzida atualmente com motores flex fuel, que rodam com qualquer proporção de álcool e gasolina, garantindo ao consumidor menos gastos com combustível. Apesar das variações nos preços, o álcool em média chega a custar metade do valor da gasolina.

Incentivos -
Mesmo com as conquistas da engenharia nacional nos últimos 40 anos, ainda falta por parte do governo e do meio acadêmico uma parceria maior com as montadoras, especialmente dos órgãos de fomento, que financiam pesquisas para criação de novos produtos. É o que garante o professor Ronaldo de Breyne Salvagni, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva (CEA) da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP).

“Esse é um nó que ainda temos na engenharia brasileira. Enquanto nos Estados Unidos, Japão e Europa há uma interação forte entre as matrizes das montadoras e as universidades locais, no Brasil isso não acontece. Nosso país ainda se restringe à produção de pesquisas acadêmicas, limitando-se em termos de avanços tecnológicos”, afirma Salvagni.

“No caso do motor flex, por exemplo, há necessidade de mais estudos e aperfeiçoamento para que o mesmo possa conquistar novos mercados, inclusive por conta da sua má eficiência frente aos motores elétricos. Se o Brasil não fizer estas melhorias, ninguém fará. O governo deveria ter um interesse maior em defender a tecnologia nacional.”

A professora Flávia Consoni também compartilha a mesma opinião: “O Brasil como um todo não está preparado para realizar pesquisas. Falta um investimento mais consistente em engenharia e conhecimento. O governo deve suprir esta lacuna, deixando de lado a adaptação de veículos e ampliando as pesquisas e projetos de criação de veículos totalmente desenhados e produzidos no país”.

EcoSport, criado pelo pai do piloto de Fórmula Indy Gil de Ferran,

A manipulação contábil do Tesouro e a meta da LDO

Agência Estado

Os resultados das contas fiscais divulgados ontem não constituíram surpresa, pois já se sabia que a injeção de R$ 31,9 bilhões na caixa do Tesouro, em decorrência da manipulação do processo de capitalização da Petrobrás, mudaria substancialmente as contas públicas.

De fato, o déficit nominal de R$ 9,1 bilhões do governo central transforma-se em superávit de R$ 16,2 bilhões em setembro, o maior registrado desde que se publicam esses dados. O mesmo ocorre com o superávit primário, que, de R$ 3,4 bilhões, em agosto, sobe para R$ 25,5 bilhões, no mês seguinte.

Se não fosse essa manipulação, o resultado primário de todo o setor público teria sido de cerca de apenas R$ 4 bilhões...

Não cabe dar muita atenção às contas do governo federal, a não ser para assinalar que o déficit primário do INSS sobe de R$ 5,4 bilhões, em agosto, para R$ 9,1 bilhões, em setembro, refletindo o pagamento de metade do 13.º salário dos aposentados e pensionistas. O déficit nominal dos Estados cresce 215,3% e o dos municípios, 71,5%, permitindo imaginar o que teria sido o do governo federal nessa fase da campanha eleitoral.

Os juros nominais pagos pelo setor público são sensivelmente iguais ao do mês anterior, embora acusem uma queda de R$ 3,195 bilhões no caso do governo central, que utilizou uma pequena parcela da sua estranha operação contábil para pagar seus juros.

Diante do resultado das contas públicas, a questão principal é saber se essa manipulação contábil vai permitir atingir o superávit primário equivalente a 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos nove primeiros meses do ano ele chegou a R$ 75,5 bilhões, equivalente a 2,20% do PIB. No ano passado, nos três últimos meses, o crescimento do superávit primário foi de R$ 8,9 bilhões. O resultado obtido até agora representa 64% da meta (cerca de R$ 118 bilhões). Porém, não podemos esquecer de que no quarto trimestre o truque de setembro não se poderá repetir, que o governo está engajado num programa de investimentos muito maior do que no ano passado e que os gastos do INSS serão maiores do que em 2009.

Dificilmente a meta plena do superávit primário será atingida, e podemos imaginar que o governo recorrerá à sua inventiva capacidade contábil para chegar ao resultado estabelecido pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

Cumpre assinalar que, apesar da "receita extraordinária", a dívida bruta do governo central (R$ 2,057 trilhões) cresceu em razão das operações compromissadas do Banco Central.

A jequice da Era da Mediocridade não deixou escapar nem o criador do Jeca Tatu

Augusto Nunes, Veja online

O Brasil conseguiu ficar mais jeca, resumiu o título do post publicado em setembro de 2009 e reproduzido na seção Vale Reprise. Depois de descrever a inverossímil quermesse patriótica montada para celebrar a fantasia do pré-sal, que chegou ao climax com a Proclamação da Segunda Independência pelo presidente Lula, o texto reitera nas três últimas linhas que os brasileiros ainda providos de lucidez continuavam a enxergar as coisas como as coisas são: “Sem parentesco com o país que o governo inventou, o Brasil real não mudou. Só conseguiu tornar-se ainda mais metido a esperto, mais grosseiro, mais caipira, mais jeca. Toda nação acaba ficando parecida com quem a governa”.

Ficou mais parecida ainda nesta semana, informa o parecer do Conselho Nacional de Educação publicado no Diário Oficial da União de quinta-feira. Segundo a entidade, o livro “Caçadas de Pedrinho”, do escritor Monteiro Lobato, é perigoso demais para cair nas mãos dos alunos de escolas públicas. Em que pecado teria incorrido o pai de personagens ─ Emília, Narizinho, Dona Benta, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia, o próprio Pedrinho ─ eternizados no imaginário de milhões de crianças brasileiras? Que crime teria cometido o admirável contador de histórias que inoculou em incontáveis gerações o amor à leitura?

Monteiro Lobato é racista, acaba de descobrir Nilma Lino Gomes, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, que redigiu o documento endossado pelos demais conselheiros. No livro publicado em 1933, ela identificou vários trechos grávidos de preconceito, sobretudo os que envolvem Tia Nastácia, macacos e urubus. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”, explica a vigilante conselheira. Num deles, “Tia Nastácia é chamada de negra”. Noutro, trepa numa árvore “com a agilidade de um macaco”. Solidária com os conselheiros, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC já resolveu que “a obra só deve ser usada quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.

Quem não compreende coisa nenhuma é o bando de ineptos alojado nas siglas que vão colocando em frangalhos o sistema de ensino. Quem precisa tratar processos históricos com menos ligeireza são os cretinos fundamentais que ousam censurar a obra de um escritor genial. Só burocratas idiotizados pelo politicamente correto tentam aprisionar em gavetas nos porões criaturas que excitaram a imaginação de milhões de pequenos brasileiros.

Ironicamente, um dos filhos literários de Monteiro Lobato é o Jeca Tatu. Nasceu para ensinar que o Brasil só conheceria a civilização se erradicasse o atraso crônico, as doenças da miséria, o primitivismo cultural ─ a jequice, enfim. No Brasil do presidente que não lê, não sabe escrever e celebra a ignorância, o caipira minado pelo amarelão, que fala errado e se imagina esperto, virou modelo a imitar. Ser jeca está na moda, rende votos, aumenta a popularidade. Pode até garantir o emprego de conselheiro nacional de educação.

Quem tem medo de Pedrinho?

Marcos Guterman, Estadão.com

O Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista”, informa a Folha desta sexta-feira. Segundo o parecer, o racismo estaria caracterizado no tratamento de Tia Nastácia e de animais como urubu e macaco, cuja menção, diz o texto do conselho, é “revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”. Para o CNE, os professores da rede pública não estão preparados para lidar com esse tipo de mensagem em sala de aula. O autor da denúncia, o mestrando em relações raciais da UnB Antonio Gomes da Costa Neto, acredita que o livro de Lobato “deixou para trás as regras de políticas públicas para as relações etno-raciais” e tenha o potencial de “ensinar a criança a ser racista”.

Quando Monteiro Lobato é considerado danoso para as crianças, por supostamente conter mensagens ou estereótipos de caráter racista, perdeu-se completamente a noção da importância dos clássicos para a formação intelectual. “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram”, explica Italo Calvino em seu livro “Por Que Ler os Clássicos”. Ou seja, um livro desse porte não é apenas texto; é uma revelação.

A obra, como toda a saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, é exatamente isso. Publicado em 1933, “Caçadas de Pedrinho” sofreu de fato alguma influência do pensamento racial de sua época – em que o racismo não era considerado necessariamente negativo. Mas não é possível qualificar de “racista”, por causa de um punhado de frases descontextualizadas, um autor que criou protagonistas negros tão bondosos e formidáveis como Tia Nastácia e Tio Barnabé.

Ademais, esse não é, nem de longe, o aspecto central de sua obra – tanto é assim que milhares de crianças a leram e certamente não se tornaram racistas por causa dela. Em primeiro lugar, os pequenos leitores são apresentadas de modo bem humorado e excitante ao universo rural brasileiro, com seu rico folclore. Enquanto Dona Benta relata as aventuras da ficção como tal, as crianças do Sítio são, elas mesmas, personagens de suas fantasias, convidando os leitores a abstrair-se e entrar em suas epopeias. Mas o que torna “Caçadas de Pedrinho” uma obra significativa – e atual – é a crítica feroz aos excessos da burocracia estatal.

Para relembrar: a segunda parte de “Caçadas de Pedrinho” relata a divertida história de Quindim, um rinoceronte que escapou de um circo carioca. Diante disso, o governo cria um “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”, um monstro burocrático com um chefe e 12 auxiliares, muito bem remunerados, além de “um grande número de datilógrafas e encostados”. Todo esse pessoal se esforça ao máximo para não encontrar o bicho, uma vez que, se isso acontecesse, todos eles perderiam a boquinha.

Quindim acaba se incorporando à família do Sítio, como parceiro das crianças e em desafio ao Estado que o caça. Ao ousar colocar os meninos como protagonistas dessa “rebeldia”, a obra de Lobato chegou a ser classificada de “comunista” pelo padre jesuíta Sales Brasil, em 1959. O livre pensamento e a fantasia a serviço da reflexão política e social são os piores inimigos da “ordem” de um Estado crescentemente hostil à crítica.

Assim, não admira que haja burocratas no Estado brasileiro que, a título de impedir o “racismo” de “Caçadas de Pedrinho”, queiram evitar que as crianças o leiam.

O politicamente correto em ritmo de barbárie: Monteiro Lobato na mira dos “censores do bem” do Ministério da Educação

Reinaldo Azevedo

Experimentei, confesso, certo mal-estar ao ler uma reportagem de Angela Pinho e Johanna Nublat, na Folha de hoje. Leiam. Volto em seguida:

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Monteiro Lobato (1882-1948), um dos maiores autores de literatura infantil, está na mira do CNE (Conselho Nacional de Educação). Um parecer do colegiado publicado no “Diário Oficial da União” sugere que o livro “Caçadas de Pedrinho” não seja distribuído a escolas públicas, ou que isso seja feito com um alerta, sob a alegação de que é racista. Para entrar em vigor, o parecer precisa ser homologado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. O texto será analisado pelo ministro e pela Secretaria de Educação Básica.

O livro já foi distribuído pelo próprio MEC a colégios de ensino fundamental pelo PNBE (Programa Nacional de Biblioteca na Escola). Em nota técnica citada pelo CNE, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC diz que a obra só deve ser usada “quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”. Publicado em 1933, “Caçadas de Pedrinho” relata uma aventura da turma do Sítio do Picapau Amarelo na procura de uma onça-pintada.

Conforme o parecer do CNE, o racismo estaria na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como o urubu e o macaco. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”, diz a conselheira que redigiu o documento, Nilma Lino Gomes, professora da UFMG. Entre os trechos que justificariam a conclusão, o texto cita alguns em que Tia Nastácia é chamada de “negra”. Outra diz: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

Em relação aos animais, um exemplo mencionado é: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens”. Por isso, Nilma sugere ao governo duas opções: 1) não selecionar para o PNBE obras que descumpram o preceito de “ausência de preconceitos e estereótipos”; 2) caso a obra seja adotada, tenha nota “sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”.

À Folha Nilma disse que a obra pode afetar a educação das crianças. “Se temos outras que podemos indicar, por que não indicá-las?” Seu parecer, aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE, foi feito a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, ligada à Presidência, que a recebeu de Antonio Gomes da Costa Neto, mestrando da UnB.

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Comento
Antonio Gomes da Costa Neto, o tal mestrando da UnB que, Deus do céu!, denunciou Monteiro Lobato, afirma em entrevista à Folha que ele não quer, não, censurar o autor. É que, segundo ele, “Os professores, no dia a dia, não têm o preparo teórico para trabalhar com esse tipo de livro. Então, não é que ele deva ser proibido. O que não é recomendado é a sua utilização dentro de escola pública ou privada.“

Ah, bom! É o mesmo argumento que se empregava na República Velha para tirar de milhões de brasileiros o direito de votar: eles seriam muito ignorantes para isso e fariam besteira. É o argumento que a censura empregava durante as ditaduras havidas no Brasil, seja a de Getúlio, seja a militar: falta capacidade às pessoas para discernir o bem do mal, e a exposição a material potencialmente nefasto lhes causará prejuízos. A esquerda adere aos argumentos que dizia servirem antes aos conservadores. Não é, como se nota, que ela fosse a favor da liberdade; apenas era contra a censura aplicada pelos adversários. Quando aplicada pelos aliados, tudo bem!

É um escárnio. Submete-se Monteiro Lobato a padrões, debates e proselitismos que estão postos hoje em dia, mas que não estavam dados então. É claro que não se descarta a possibilidade de um professor trabalhar em sala de aula a figura de Tia Nastácia — que, atenção!, é um dado da formação histórica, familiar, social e moral brasileira. Que seja, pois, tema de aula se for o caso. Proibir a obra ou meter nela uma tarja de “racista” é uma estupidez sem par.

Deverá agora “O Mercador de Veneza” vir com a advertência: “Cuidado! Obra anti-semita, só recomendável para quem está devidamente instruído sobre este assunto”. Ou, do mesmo Shakespeare, sobrepor à capa de “Othelo” algo assim: “Cuidado! Sugere-se que temperamento emocional e desequilibrado do protagonista pode estar relacionado à sua origem racial e mesmo à cor de sua pele”? Vai-se proibir Alexandre Herculano, em Portugal ou em qualquer lugar, ou apensar um tratado a seus livros advertindo para a possível manifestação de preconceito contra a fé islâmica? É o fundo do poço moral, a que não se chega sem uma dose cavalar de ignorância, preconceito às avessas, estupidez e, obviamente, patrulha ideológica.

Já contei aqui de um amigo articulista que foi “molestado” — sim, molestado moralmente! — porque, num artigo sobre economia, escreveu que via “nuvens negras” no horizonte. Quis saber o militante? “Nuvens negras? Como sinal de coisa ruim? Não pode! É racismo”. Desde a “Ilíada” pelo menos, de Homero, nuvens negras estão associadas a maus presságios, são prenúncios de acontecimentos aziagos — e os negros nem sequer haviam ainda entrado na história dita ocidental. Há nuvens negras em Machado de Assis, um autor… negro! Aliás, vejam vocês, esse autor também espelha em sua obra as relações sociais de seu tempo. Sem contar que, antes das tempestades, o céu costuma, efetivamente, enegrecer, não é?

Querem mandar Monteiro Lobato de volta para a cadeia, agora uma cadeia moral. Vou ver se encontro um pequeno ensaio que escrevi sobre sua obra, no tempo em que eu ainda escrevia sobre cultura — em vez de combater a “incultura” da política brasileira. Que o tal rapaz faça a sua “denúncia”, vá lá. Que um parecer bucéfalo seja aprovado por unanimidade no Ministério da Educação, aí já estamos no terreno da paranóia e da mistificação.

PS - E não me espanta que tal cretinismo tenha acontecido na gestão do ministro Fernando Haddad, este homem notoriamente incompetente, competentíssimo na arte de fingir competência. Em breve, Monteiro Lobato só poderá ser recomendando depois da leitura do livro “Emília, a boca de trapo, pede desculpas por todas as ofensas a Tia Nastácia”.

“PRECONCEITUOSO” POR QUÊ?

Ricardo Setti, Veja online

Estou recebendo centenas de insultos porque não me orgulho de ter um presidente semianalfabeto. Será que essa gente não tem nenhum argumento?

Nunca, em 45 anos de jornalismo, me ocorreu algo semelhante.

Nunca, em 45 anos de jornalismo, recebi tamanha torrente de insultos pessoais, injúrias, calúnias e difamações como ocorreu e ainda está ocorrendo ainda depois que publiquei, ontem, o post logo abaixo deste, sobre o mau exemplo que dá o presidente Lula ao se vangloriar — ou deixar parecer que se vangloria — de não ter estudado além do ensino fundamental e do curso técnico que fez.

Claro que, felizmente, chegaram ao blog centenas de comentários que, pró ou contra o post, contêm argumentos, e não insultos, e são respeitosos.

Mas no meio do aluvião dos insultos, as palavras — publicáveis — mais usadas são “preconceito” e “preconceituoso”.

“PRECONCEITUOSO” POR QUÊ? — Gostaria então de perguntar aos que me ofendem:

Preconceituoso por quê?

Porque eu defendo a cultura, o ensino, o esforço de centenas de milhares de brasileiros que venceram e vencem a adversidade para estudar e progredir?

Porque não gosto de Lula fazendo a apologia da ignorância?

Os que me insultam acham positivo o exemplo que o presidente dá a quem pretende dar duro e, mesmo trabalhando e tendo família para cuidar, continuar os estudos?

Acham errado o que fez a senadora Marina Silva, analfabeta até os 16 anos, pobre, de família humilde, que lutou, completou o ensino elementar, o médio, o segundo grau e formou-se em História na Universidade Federal do Acre e, até agora, mesmo sendo mãe de 4 filhos e senadora da República, busca uma especialização além das duas que já obteve?

Ou o Vicentinho, que deu duro como trabalhador rural, lavador de carros e outras profissões humildes e, em São Paulo, já como sindicalista, pai de família e político, completou o segundo grau pelo Telecurso 2000, passou a estudar Direito à noite e hoje é advogado?

Ou o Luiz Marinho, igualmente sindicalista, também, como o Vicentinho, de origem humilde, ex-pintor de automóveis na Volkswagen, que depois de adulto fez um enorme esforço e é hoje formado em Direito?

Resumindo meus argumentos, acho que a postura depreciativa do presidente em relação ao ensino é uma ofensa — e certamente um desestímulo — aos brasileiros que estudam, principalmente os pobres.