Adelson Elias Vasconcellos
À hora em que escrevo, faltarão menos de 24 horas para a eleição presidencial começar a definir-se. Mas, diferentemente de 94 e 98, vencidas por Fernando Henrique, e 2002 e 2006, vencidas por Lula, há, apesar dos institutos de pesquisas, um ar de indefinição impregnando este cenário final.
Dentro do PT, nem o mais otimista pode se dar ao luxo de cantar marra. E por quê? Por conta de sua candidata. Ontem, no debate da Globo, ficou claro que Dilma não tem o indispensável atributo para ser presidente de um país como o Brasil, com os problemas que tem o Brasil, e diante de uma sociedade sumamente dividida, obra exclusiva do senhor Luiz Inácio.
A eleita do Lula, quando precisa conectar dois pensamentos com algum senso lógico, tropeça. Falta-lhe a clareza de raciocínio, falta-lhe até o recurso de linguagem, dois atributos indispensáveis para quem deseja comandar pessoas. Considerando-se o tamanho do Estado brasileiro, a candidata mostrou-se inepta ao cargo a que se habilita. Tirando-se de Dilma a maquiagem que os programas da campanha montaram, despida do marketing político e sem poder usar como arma o ataque ao adversário, mostrou-se um poço vazio, sem luz própria, sem a menor ideia do que é preciso pensar e fazer. Pode-se até não gostar de José Serra mas, sem dúvida, o tucano não apenas expressa bem o quem pensa, como consegue, com clareza, demonstrar o que quer e aonde pretende chegar.
Infelizmente, a exemplo de 2006, Serra utilizou tanto o discurso quanto a campanha em si, a mesma ferramenta equivocada. O mesmo marqueteiro de Alckmin lá atrás, parece não haver aprendido a lição, e insistiu, teimosamente, em repetir os mesmos erros de estratégia. Dilma já seria um páreo duro por mais poste que fosse – e é, ontem isto ficou cristalino – pela simples razão de contar com Lula e o PT a lhe dar retaguarda. Sabe-se que o PT carrega consigo um terço do eleitorado. Um outro terço deste mesmo eleitorado não vota em petista de jeito nenhum. Sobra a fatia do meio para a qual as campanhas devem traçar as melhores estratégias com intuito de atraí-las. Saber fazer a leitura do pensamento deste contingente, no tempo e na forma certos, é competência que se cobra dos estrategistas de campanha.
Sabia-se que os petistas não venderiam barato esta eleição. Lula, há dois anos, vem discursando país a fora nesta lenga-lenga. E há quase oito sataniza o governo de FHC e seus feitos. Daquilo que não pode fazer melhor, e sem nenhum escrúpulo, tratou de adotar como sua criação, mudando apenas o nome do programa. Resgatar na memória do povo brasileiro este legado, deveria ser uma parte do trabalho da campanha tucana. A outra, mostrar um verdadeiro projeto de país, e demonstrar que os inúmeros erros e escândalos proporcionados e patrocinados pelo governo Lula não apenas desqualificaram os serviços públicos, como irão exigir maior investimentos e esforços do que seriam necessários para recolocá-los um pouco de dignidade. O estado de falência da rede pública de saúde, a miserabilidade da infraestrutura, o gargalo da burocracia, a insegurança jurídica, a asfixia dos impostos, o aparelhamento do Estado, a farra dos gastos públicos, tudo isso representa um projeto que não pensa no país, pensa apenas em si mesmo e em se manter no poder, e a qualquer preço.
Sabia-se que Lula, a partir do momento que retirou as pontes capazes de proporcionar aos cidadãos desvincular-se do assistencialismo oficial, exército de cerca de 50 milhões de beneficiados, seriam facilmente cooptados e transformados em 50 milhões de votos. Daí a importância de se ter resgatado o legado de FHC em cujo governo se criou, de fato, uma rede de proteção social digna do nome. Há indicadores perversos no campo social e educacional capazes de transformar o discurso de Lula e Dilma em pó. A tal eleição plebiscitária proposta por Lula já há dois anos, deveria ter sido aceita. Ficaria mais fácil de fazê-lo buscar outra tática. Bastava comparar o Brasil que FHC recebeu com o Brasil que ele próprio entregou ao Lula, e o efeito desta demonstração faria Lula emudecer e mudar de assusnto. Ou seja, faltou, em termos de campanha, ousadia, sem que com isso o candidato tucano tivesse seus méritos de excelente gestor público ofuscados.
Com um campanha ruim, ainda assim, Serra mostrou ser uma opção melhor para a função. A inapetência constatada em Dilma, acaba fazendo-nos recordar o discurso de José Dirceu, há cerca de dois meses, para sindicalistas na Bahia: uma provável eleição da candidata governista, facilitaria ao PT desfrutar de maior fatia de poder no futuro governo. Com efeito, fica difícil imaginar Dilma com um projeto próprio. Precisará ser escorada pelo partido e por Lula. Como as ideias de um e de outro se confrontam, Lula é mais político e neste sentido, mais hábil em negociar suas ideias, haverá uma disputa imensa de espaço para o exercício do poder. O PT vai querer a qualquer custo impor seu receituário autoritário, sem ter, por outro lado, um líder carismático para vingá-lo. Neste aspecto, Lula navega em outro extremo. Desejará retornar em 2014, e qualquer extremismo de parte de seu partido, pode lhe ameaçar a ambição. Dilma não tem liderança, e José Dirceu o comandante em chefe da esquadra, não pode exercer o poder diretamente. O que me preocupa é que, se Dilma for eleita, esta queda de braço consuma grande parte do tempo e da energia dos próximos quatro anos, e o país fique colocado em segundo plano, sem que se avance nas reformas indispensáveis à sustentação do nosso crescimento.
Preocupa, também, as várias iniciativas que se veem nos estados, de se criar secretarias para controle e fiscalização da comunicação. Claro que tais iniciativas, imagina-se, esbarrarão na instância superior do Judiciário, ao menos considerando-se as decisões anteriores e recentes do STF neste sentido. Mas até que tal conflito se decida, vão haver, sim, iniciativas de se tentar impor censura à liberdade de imprensa, e de se utilizar as verbas de publicidades institucionais de executivos estaduais para “negociar” com os veículos de comunicação abrandamento de crítica e divulgação de notícias ruins. Os que se submeterem, além da melhor oferta e distribuição de verbas, contarão com todo o apoio político para se converterem em imprensa chapa branca. Há uma grande parte da classe política que entende que a péssima reputação dos políticos é culpa da imprensa que só notícia as lambanças que eles cometem às dúzias. Assim, colocando mordaça pela via financeira, entendem ser mais fácil manipular a opinião pública.
Juntando-se os cacos acima, e muito embora muitos “analistas” insistam na tese que não haja diferenças entre Dilma e Serra, é visível o projeto de país que cada um representa. E, apesar do discurso e da campanha tentarem ocultar, Dilma não só representa um retrocesso nos fundamentos econômicos que nos asseguram a atual estabilidade econômica, por apostar na expansão desenfreada do gasto público e gigantismo da presença estatal na economia, tem ainda contra si um projeto de esfacelamento das instituições democráticas.
Serra, bem ao contrário, representa, gostem ou não, um projeto melhor ajustado e mais bem definido, seja no plano econômico, social e institucional. Infelizmente, contando com uma estratégia inadequada, tal diferença acabou não se tornando tão visível. Mesmo assim, ficou claro que ele não precisará de muletas para governar. Dilma, ao contrário, não apenas precisará de um ambulatório inteiro, como ainda estará sempre na UTI, dada a briga de foice que se estabelecerá por trás do pano para ocupação de espaços de poder. A meu ver, concluo, que a escolha deverá ser entre um estado melhor e um estado maior. No fundo, é exatamente disto que se trata.




