sábado, outubro 30, 2010

“PRECONCEITUOSO” POR QUÊ?

Ricardo Setti, Veja online

Estou recebendo centenas de insultos porque não me orgulho de ter um presidente semianalfabeto. Será que essa gente não tem nenhum argumento?

Nunca, em 45 anos de jornalismo, me ocorreu algo semelhante.

Nunca, em 45 anos de jornalismo, recebi tamanha torrente de insultos pessoais, injúrias, calúnias e difamações como ocorreu e ainda está ocorrendo ainda depois que publiquei, ontem, o post logo abaixo deste, sobre o mau exemplo que dá o presidente Lula ao se vangloriar — ou deixar parecer que se vangloria — de não ter estudado além do ensino fundamental e do curso técnico que fez.

Claro que, felizmente, chegaram ao blog centenas de comentários que, pró ou contra o post, contêm argumentos, e não insultos, e são respeitosos.

Mas no meio do aluvião dos insultos, as palavras — publicáveis — mais usadas são “preconceito” e “preconceituoso”.

“PRECONCEITUOSO” POR QUÊ? — Gostaria então de perguntar aos que me ofendem:

Preconceituoso por quê?

Porque eu defendo a cultura, o ensino, o esforço de centenas de milhares de brasileiros que venceram e vencem a adversidade para estudar e progredir?

Porque não gosto de Lula fazendo a apologia da ignorância?

Os que me insultam acham positivo o exemplo que o presidente dá a quem pretende dar duro e, mesmo trabalhando e tendo família para cuidar, continuar os estudos?

Acham errado o que fez a senadora Marina Silva, analfabeta até os 16 anos, pobre, de família humilde, que lutou, completou o ensino elementar, o médio, o segundo grau e formou-se em História na Universidade Federal do Acre e, até agora, mesmo sendo mãe de 4 filhos e senadora da República, busca uma especialização além das duas que já obteve?

Ou o Vicentinho, que deu duro como trabalhador rural, lavador de carros e outras profissões humildes e, em São Paulo, já como sindicalista, pai de família e político, completou o segundo grau pelo Telecurso 2000, passou a estudar Direito à noite e hoje é advogado?

Ou o Luiz Marinho, igualmente sindicalista, também, como o Vicentinho, de origem humilde, ex-pintor de automóveis na Volkswagen, que depois de adulto fez um enorme esforço e é hoje formado em Direito?

Resumindo meus argumentos, acho que a postura depreciativa do presidente em relação ao ensino é uma ofensa — e certamente um desestímulo — aos brasileiros que estudam, principalmente os pobres.