Ralph J. Hofmann, Opinião Livre
Publiquei este artigo em 17 de agosto de 2005. Na época faltava quase um ano para o dia em que podíamos ter mandado para casa o Rei Lula. Contudo ele conseguiu ou a oposição falhou. Domingo vamos saber se o menininho da história conseguiu ser ouvido finalmente.
Não falta quem use a expressão “O Rei está nu”, ao descrever a situação no Brasil, referindo-se aos governantes.
Mas temos de lembrar exatamente do que Hans Christian Andersen, cujo centenário celebramos este ano, realmente escreveu. Muita gente usa a expressão sem ter lido a história.
Havia um rei extremamente vaidoso. Era presa fácil para qualquer um que viesse lhe vender lindos panos. Na verdade um metrosexual da época dos contos de Andersen.
Sabedores do fraco do Rei, dois vigaristas, talvez vendedores de torres eiffel e bondinhos de pão de açúcar, pagaram ao arauto local para difundir ao público que os maiores alfaiates ligados à Daslu da época estavam passando uma temporada no país.
O rei ouviu o arauto passar e imediatamente mandou buscar a dupla. Pediu que lhe fizessem o mais deslumbrante terno possível. Coisa para dar página central da Caras. Deveria usar o terno no principal desfile cívico do país daí a algumas semanas. Algo como um desfile das escolas de samba em tom barroco.
O resto é conhecido. Os alfaiates ocuparam uma suite do Maksoud Plaza local, encomendavam os vinhos e iguarias mais caras e mandavam a conta para o palácio, de vez em quanto solicitavam altas quantias a título de pagamento de materiais e adereços que tinham de comprar em produtores seletos e únicos no exterior.
Espalharam a notícia de que haviam localizado tecidos mágicos que só podiam ser vistos por pessoas extremamente inteligentes.
Quando visitados por nobres da corte que queriam ver o trabalho em andamento, qual empreiteiros mostrando montes de terra num rodovia em construção ou administradores de fundos contra a fome sem recursos, manuseavam roupas invisíveis e pediam a opinião dos visitantes.
Estes, atônitos ante sua própria e evidente burrice, pois nada viam, não davam o braço a torcer. Voltavam ao palácio e contavam maravilhas, diziam que naquela suite estava se criando uma obra milagrosamente linda.
No dia do desfile os alfaiates se encaminharam ao palácio empurrando araras cobertas com tecidos protetores e lá passaram a vestir Sua Majestade que, sabendo que o tecido só podia ser visto por pessoas muito inteligentes, e conhecedor das próprias limitações tudo aprovou e admirou.
Finalmente o Rei subiu no seu palanquim (uma espécie de carro alegórico sem rodas) e partiu em desfile, completamente pelado, enquanto os alfaiates se dirigiam à fronteira mais próxima.
Como ninguém gosta de parecer burro todos admiravam o rei e suas roupas invisíveis. Mas um menino de uns cinco anos, completamente alienado, não sabendo que estava dando provas de ser burro de repente gritou:
- Mas o Rei está nu! Porque eu tive de vestir essa beca para vir ao desfile!
E aí a ficção desmoronou. A vaidade conduzira o rei ao ridículo e o erário à penúria.
Neste momento temos de perguntar-nos. O rei está nu? Ou vivemos no país dos alfaiates?