Adelson Elias Vasconcellos
Sabe o Brasil todo que a religião de Lula sempre foi o poder. Parece ser seu único alimento também. Ninguém de sã consciência é capaz de imaginar Lula como devotado praticante de um catolicismo, ou cultivador de alguma destas seitas evangélicas que abundam o país.
Claro que em véspera de eleições, todo o político demagogo se veste de mil máscaras, e a religião é uma delas.
Lula sempre usou seu discurso e sua presença para públicos diferentes com as máscaras úteis para cada ocasião. Não há nele uma crença fervorosa, uma religião praticante, uma ideologia política definida, há um oportunismo cínico com o qual se apresenta para captar votos. É um ser político por excelência, dos mais argutos e inteligentes nesta seara dentre todos os que o país já produziu.
Em seu governo, ao contrário das campanhas eleitorais, sempre se lutou para eliminar do Estado qualquer vestígio que induzisse a alguma crença religiosa. O famigerado Plano de Direitos Humanos, versão 3.0, tinha lá, dentre as centenas de aberrações, a determinação de se retirar das repartições públicas qualquer símbolo religioso, diga-se “crucifixos”, sob a alegação de que o Estado deve ser laico. No meu modesto entendimento, uma coisa não interfere na outra. O Estado deve ser laico sim, mas em sua maneira de conduzir os destinos do país, sem contudo interferir na crença de seu povo, que, no Brasil, é majoritariamente católico. Deste modo, a presença de um crucifixo nas paredes das repartições públicas, de modo algum interfere na natureza laica do Estado. Indica, isto sim, a crença de valores perfeitamente humanos que as pessoas que ali estão pretendem preservar tanto em sua vida pessoal quanto profissional.
Na passagem do bastão para a sua sucessora, Lula encheu e carregou cerca de 15 caminhões de mudança, com coisas e apetrechos que diz haver recebido de presente ao longo de seus oito anos de mandato.
Há alguns anos atrás abriu-se no país uma discussão que acabou sendo enterrada justamente sobre tais presentes. Era preciso separar o que era presente para a pessoa do presidente, do que presente para o Estado brasileiro, então encarnado e representado pelo presidente. Claro que há diferença. Aquilo que fosse pessoal, teria o mandatário direito de carregar consigo ao deixar a presidência. O que pertencesse ao Estado deveria ficar guardado nas dependências do Palácio do Planalto, ou em alguma outra ala de governo.
Não sei se alguém se deu ao trabalho de fazer alguma forma de seleção e inspeção entre os objetos carregados por Lula como se fossem seus. Deveria. Por quê? Porque Lula acabou carregando algo que não lhe pertence. E o que é pior: sob as bênçãos do atual governo.
Falo do crucifixo do gabinete da Presidência. Reparem na foto abaixo:
Nela vê-se Lula placidamente sentado e, na parede atrás dele, um crucifixo.
Segundo informou a Folha de São Paulo, depois de eleita e empossada, Dilma promoveu alguns ajustes no mobiliário de seu gabinete. A coisa virou notícia. E, com a rapidez de um raio, o Planalto cuidou de prestar os esclarecimentos.
Dentre outras coisas, foi dito que o crucifixo, presenteado a Lula, pertence a ele, não à Presidência. Foi para São Bernardo, no caminhão de mudança. Quanto à Bíblia, encontra-se agora numa sala contígua ao gabinete presidencial, noutra mesa. Diz-se que já estava lá quando Dilma chegou para seu primeiro dia de trabalho, na segunda feira.
Tudo ficaria por isto mesmo não fosse...
...não fosse o fato de que a versão produzida pelo Planalto é mentirosa. Agora, reparem nesta outra foto:
Praticamente em um mesmo ângulo, como se fosse réplica da cena anterior, vê-se outro personagem, o ex-presidente Itamar Franco, e lá na mesma parede, o mesmo crucifixo.
Consta na agenda do ex-presidente Lula que ele teria encontrado o ex-presidente mineiro, no Planalto, nos dias 8 de janeiro de 2003, 30 de janeiro de 2004, 6 de janeiro de 2005 e 12 de maio de 2006. No acervo fotográfico, não consta nenhuma foto destes encontros.
Mesmo que houvesse fotos dos encontros, seria impossível imaginar Itamar Franco sendo recebido por Lula e este “cedendo-lhe o mesmo lugar” que ocupou por oito anos. Claro que a foto de Itamar é do tempo em que o mineiro foi presidente.
E mais claro ainda que Lula se apropriou de algo que não lhe pertence, coisa aliás que não estranho nenhum pouco. Lula sempre teve enrome dificuldade em separar o público do privado. Agora, apropriar-se justo de um crucifixo, símbolo máximo da cristandade, em que roubar é um pecado mortal, é algo bastante irônico para a biografia do ex.
A menos, é claro, que Lula tencione montar um anexo do gabinete presidencial em sua cobertura em São Bernardo, com linha direta com a Dilma. Aí a coisa não é apenas um caso de polícia. É caso de internação urgente e severo tratamento...Freud explica !
Lula, devolva o crucifixo que não pertence!

