Adelson Elias Vasconcellos
Nos textos que reproduzimos abaixo, dos jornalistas Suely Caldas, no Estadão, do Elio Gaspari, na Folha de São Paulo e o da historiadora Lucia Hyppollito, em O Globo, devemos juntar as matérias que tem sido publicadas no Exterior sobre o atual momento que vive o Brasil.
Tanto aqui dentro, mesmo que de forma muito tímida ainda, quanto lá fora, em jornais e visitas como a britânica The Economist, o espanhol El País, o francês Le Monde e o inglês, Financial Times, reconhecem que a estabilidade econômica e todas as virtudes e consequências positivas para o país que ela provoca, estão assentadas num período de continuidade que nunca experimentamos em nossa história. Os oito anos de FHC e todas as reformas que implementou, tanto políticas, quanto estruturais do Estado, e mais os programas e ações sociais no sentido de reduzir desigualdades sociais, retirando milhões de brasileiros neste período do grau de extrema pobreza em que viviam, juntados aos sete anos de Lula em que este teve o mérito de manter a herança que recebeu, apesar dos “senões” que lhe atribuímos, pelo menos aqui no blog, nos dão esta sustentação excepcional.
Foi a partir do Plano Real que o Brasil renasceu e, apesar das dificuldades da economia mundial no período de 1994 a 2002, a manutenção feita por Lula a partir de 2003, quando encontrou um cenário da mundial bastante positivo e favorável, aos quais se juntaram a enorme competência da agropecuária brasileira, além da recuperação da capacidade de investimento público, consagram ao Brasil perspectivas bastante animadoras para o país nos próximos anos.
Mas também nos fazem rever alguns conceitos mal arrumados e que dominaram a opinião pública durante muito tempo e que perderam completamente a importância que lhes atribuíamos. Quinze anos de continuidade de uma mesma política econômica, com importantes destravamentos da estrutura do Estado, além de programas sociais dirigidos para atacar a pobreza de grande parcela da população e a quem os programas foram inteligentemente direcionados (apesar de Lula os haver transformado em programas eleitoreiros nos últimos anos), mudaram a cara do país. Em consequência, apesar dos problemas de natureza institucional, a partir de janeiro do próximo ano, conforme vimos no texto da Lucia Hippolito, vamos emplacar um terceiro presidente eleito consecutivo. Não é pouca coisa em se tratando de Brasil.
Mas há um aspecto que, durante muito tempo, alimentou uma espécie de preconceito besta no meio político, e até de parte de boa parte da imprensa que é o instituto da reeleição presidencial. Foi justamente sua implantação, que permitiu ao Brasil viver oito anos de reformas importantes. E, foi justamente a reeleição, que nos assegurou os frutos que estas reformas provocaram.
Tanto é verdade que o assunto saiu da pauta e perdeu o interesse que, nas últimos projetos de reforma política que temos discutido, não mais se toca no assunto.
Sempre que se analisar, no futuro, o Brasil e sua ascensão presente, na raiz deste crescimento, lá estará a reeleição presidencial como uma das causas a proporcionar campo ideal para frutificar e fortalecer ações públicas que deram sustentáculo a estas conquistas que hoje experimentamos.
Claro que há muito para ser feito. Tivesse o presidente Lula se empenhado em aprofundar outras importantes e indispensáveis reformas, como a previdenciária e tributária, por exemplo, e isto lá no início de seu primeiro mandato, e certamente que o Brasil teria logrado crescimentos maiores. Como, também, tivesse se preocupado muito mais com o investimento público do que em partidarizar o Estado, teríamos avançado muito mais.
Ainda, assim, é saudável notar que estabilidade econômica e institucional, com avanços sociais foram conquistas fruto da sequência de governos de políticas mais ou menos semelhantes, e cuja extensão dos mandatos em mais quatro anos, garantiram um período de tempo necessário para fazer a coisa certa.
E independente do sucessor ou sucessora de Lula que sair das urnas no final deste ano, Serra ou Dilma, os mais cotados no momento, já é possível sabermos que, tanto no plano econômico, quanto no social, o quadro tente a se manter, assegurando, pela estabilidade, crescimentos ainda maiores em benefício de toda a sociedade.
Deste modo, seria importante que a campanha que se avizinha, tivesse como tema do debate, não uma natureza plebiscitária, ou seja, quem fez mais. Seria importante para o país que discutíssemos as reformas que ainda nos faltam para dar maior sustentabilidade ao desenvolvimento brasileiro. E assuntos é que não faltam. Além das reformas citadas acima, tributária e previdenciária, precisamos também discutir investimentos públicos, reformas no Judiciário para permitir maior celeridade nos processos, reformas políticas para permitir melhor governabilidade para o país, além, é claro, de programas específicos nas áreas da saúde, educação e segurança.
E se hoje todos estes temas forem trazidos à discussão pública, acreditem, o que menos interessará é discutirmos as vantagens e desvantagens do instituto da reeleição. O ponto em que chegamos ao final desta primeira década do século 21, tornou irrelevante no debate o tema “reeleição”. Ela está consagrada plenamente. E quem ganhou foi o país. Nada mais justo do que o povo escolher para um novo mandato, o governante que se mostra competente em sua primeira chance.

