segunda-feira, novembro 22, 2010

Um governo se julga pelo resultado, não pela propaganda e discurso

Adelson Elias Vasconcellos

Sempre disse aqui que um governo, qualquer governo, não pode ser julgado pelo discurso de seus protagonistas, nem pela propaganda colorida que faz de si mesmo. Como todo o autorretrato é colorido, resulta que o discurso e a propaganda sempre se revestem de mentiras e empulhações.

E isto vale não apenas para governos, mas para todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas, não importa. Vale, enfim, para o julgamento das ações de qualquer ser humano. Não por outra coisa que se diz, popularmente, que de boas intenções o inferno está cheio.

Assim, jamais pautei meu senso crítico em relação ao governo Lula pelos discursos do petista, ou pela publicidade oficiosa, cheia de uma fantasia que não combina com a realidade do país. Como ainda, jamais me fixei nos quadros dos grandes centros urbanos, onde os recursos para melhoria da vida das pessoas são abundantes e elas, sempre, tem melhor preparo para se conduzirem.

É nos grotões, nas periferias, e nos serviços que são oferecidos a estas comunidades carentes que prefiro avaliar se Lula foi o governante que diz ter sido, ou tudo não passa de pura cascata.

Ontem, no artigo com que fechei a edição do dia, mesmo que em tom carregado de ironia, questionava já no título: Afinal, o que é feito do dinheirão que o governo tira da sociedade? Colocava a questão nestes termos, justamente, por avaliar o Brasil que Lula recebera de FHC com aquele que ele irá entregar à sua sucessora. E não uma avaliação apenas numérica, mas pelo ambiente institucional que se criou nestes últimos oito anos. E olhem que na avaliação, até deixo de lado a vergonhosa política externa de Lula, onde só cabe indignação nossa, humilhação diante das nações sérias que há no mundo, e vergonha suprema para o país diante da comunidade internacional.

Coincidentemente, o jornal O Globo em sua edição de domingo, nos traz um excelente texto cuja leitura deveria ser obrigatória para todos aqueles que estão em volta da futura presidente, inclusive a própria, que afirmou que estará recebendo uma herança “bendita”. Será?

Bem, na questão econômica, já se sabe, a coisa não é bem assim, já que qualquer mal passo produzirá um efeito devastador na decantada estabilidade econômica, que Lula, por covardia e incompetência, não quis dar a sustentabilidade necessária. Não quis pagar o preço político que deveria pelas reformas que deixou de lado e que, goste-se ou não, são verdadeiras ameaças ao crescimento do país. Louvam os puxa sacos de ocasião, doidos por serem contemplados no futuro governo com alguma boquinha rica, onde se ganha muita grana da sociedade, sem se precisar ter competência nem desenvolver o menor esforço, que o país crescerá perto de 8% neste ano, como nunca dantes, esquecendo de avaliar em que base este crescimento está se dando. Primeiro, não é sustentável ao longo do tempo, sequer no próximo ano. Segundo, outros países da América Latina, com menor expressão, riquezas e potencialidades, cresceram e crescerão bem mais do que o Brasil. Querem números? Vamos a eles, então:

a.- Média de crescimento do PIB nos últimos dez anos:
1.- Peru – 5,1%
2.- Colômbia – 3,7 %
3.- Chile – 3,6%
4.- Argentina – 3,5%
5.- Brasil – 3,2%

b.- Crescimento do PIB estimado para 2010:
1.- Paraguai – 8,9%
2.- Uruguai – 8,4%
3.- Peru – 8,2%
4.- Brasil – 7,5%
5.- Argentina – 7,4%

Olhando-se agora para o próprio umbigo, isto é, confrontando-se o Brasil com ele mesmo, vemos que o quadro da saúde e da educação, apesar do crescimento econômico, apesar dos volumes arrecadados da arrecadação federal, batendo recordes atrás de recordes históricos, o governo Lula avançou muito timidamente, e considerando-se o crescimento do PIB, associado ao aumento populacional, praticamente se mantém estagnado nestes dois campos prioritários para qualquer governo, quanto mais aquele que se auto proclama como o mais social de todos os tempos.

Nossos indicadores, quando são confrontados com os de outros países emergentes, nas áreas de educação, principalmente, são vexatórios. Há algum tempo atrás, divulgou-se uma pesquisa em que se apontava que 72% da população brasileira estava satisfeita com a educação que seus filhos recebiam nas escolas públicas. Este número não poderia mesmo ser diferente: ocorre que, 78% desta mesma população, segundo o IPEA, é analfabeta funcional. Para eles, se a escola oferece merenda e transporte escolar, além de livros didáticos, e o prédio não está caindo aos pedaços, parece que tudo vai bem. Ninguém se preocupa em saber se a qualidade de ensino que seus filhos recebem está de acordo, ao menos, com as necessidades do mundo moderno. Já nem entro no mérito de se considerar a educação como valor tanto da sociedade, e claro, do próprio indivíduo. E como iriam julgar estes pais e mães dado seu total desconhecimento do que seja um ensino de qualidade? E mais: quando a média de escolaridade para pessoas com mais de 25 anos no Brasil é de 7,2 anos, número igual ao registrado no Zimbábue, país com o pior IDH do ranking, por favor, não me venham com o papo furado de que este foi o governo do social ou com aquela cretinice de “Lula, o pai dos pobres”. Sabem todos que a melhor herança que um verdadeiro pai pode deixar para seus filhos é a educação. Com o indicador acima equiparado ao Zimbábue, convenhamos, ninguém precisa de um pai tão desalmado e irresponsável assim. Da mesma forma, a maior revolução social que Lula deveria ter promovido, capaz de garantir e sustentar um futuro promissor para o país, seria no campo da educação, coisa da qual ele passou muito longe de fazê-lo e obtê-lo.

Agora voltando à reportagem do o Jornal O Globo (reproduzido abaixo), vejam lá em que o governo Lula se esmerou em aplicar a bolada de dinheiro arrecadado da sociedade. Reparem o quanto é falaciosa a propalada “prioridade” social do governo. Gastou-se mais em "outras despesas" do que em educação e em saúde, que praticamente se mantiveram no mesmo patamar de investimentos ao longo do tempo. E não só isso: sempre digo que o problema brasileiro não é falta de recursos, e sim de competência na sua aplicação. Vejam na reportagem a crítica feita à gestão da saúde e concluam por si mesmos.

Portanto, quando se tratar de avaliar o governo Lula é bom que deixemos de lado o discurso e a propaganda. Elas indicam um país diferente, muito diferente do Brasil real. E atenção: nos próximos quatro anos, não teremos a parceria da economia mundial para nos empurrar como no período de 2003 a 2008, sob o governo Lula. Assim, o que se deixou de fazer é oportunidade perdida mesmo, lamentavelmente.

Também devo citar a corrupção como elemento marcante deste governo. E quando falo em corrupção, gostaria de encerrar com um dado curioso sobre o período Lula. De 2003 até esta data, foram promovidas pelo governo federal 72 conferências nacionais inspiradas nos mais diversos temas. Todas elas foram eventos pagos com dinheiro do contribuinte. Em tese, deveriam discutir propostas para aprimorar políticas públicas e a legislação em benefício do país. O resultado de tantos encontros, porém, é decepcionante. Eventos mais radicais, como a conferência de comunicações e a de direitos humanos, produziram iniquidades como a proposta de controle da mídia e a tolerância do Estado com as invasões do MST. Por outro lado, uma conferência de suma importância para o país, e que deveria discutir o combate à corrupção, foi esquecida. Em 2009, o governo se comprometeu com sua realização, mas ela nunca se concretizou. Por que será?

Assim, fica claro que, mais do que tudo, os indicadores finais apresentados por um governo, devidamente comparados com os mesmos indicadores de seu início, é o balanço que interessa. Neste sentido, deveria Dilma Rousseff precaver-se mais: a herança que julga bendita, é mais venenosa do que ela imagina. Só espero que seu julgamento não tenha sido feito com base nos discursos mentirosos do padrinho, tampouco com a propaganda enganosa dos marqueteiros pagos pelo governo, com o nosso dinheiro, claro. E, fica a pergunta: afinal, o que governo fez do dinheiro que arrebanhou da sociedade?

Apesar da expansão de PIB e gastos, só 10% do aumento das despesas foram para saúde e educação

Regina Alvarez, O Globo

A saúde precisa de mais investimentos e de um novo modelo de gestão

A média de escolaridade para pessoas com mais de 25 anos no Brasil é de 7,2 anos, número igual ao registrado no Zimbábue, país com o pior IDH do ranking.

BRASÍLIA - Uma radiografia dos gastos públicos nos oito anos do governo Lula mostra que as despesas cresceram fortemente entre 2003 e 2010, além da expansão do PIB, que, em média, foi de 4% ao ano. Mas áreas como a saúde e a educação ficaram com uma pequena fatia desse bolo. As despesas correntes cresceram 2,47 pontos percentuais do PIB no período - mas só uma fatia de 2% do aumento foi destinada ao custeio da saúde, e 8%, ao custeio da educação.

Dentro da rubrica de despesas correntes, o crescimento de gastos com a Previdência e com outras despesas vinculadas ao salário mínimo - auxílio a idosos e deficientes, seguro-desemprego e abono - foi de 1,37 ponto percentual, abocanhando 55,4% do aumento das despesas correntes ocorrido no governo Lula, segundo levantamento realizado pela Consultoria de Orçamento da Câmara, com base em informações do Sistema Financeiro de Administração Financeira (Siafi).

Crescimento dos gastos com pessoal
Os gastos com a Previdência e demais benefícios vinculados ao mínimo pularam de 7,22% do PIB em 2003 para 8,59% em 2010. No caso de pessoal, o gasto passou de 4,51% do PIB em 2003 para 4,78% em 2010, diferença que corresponde a 11% do aumento total das despesas no período.

Já os gastos de custeio da saúde avançaram só 0,05 ponto percentual entre 2003 e 2010, passando de 1,35% para 1,40% do PIB. Se considerados os gastos totais da pasta, incluindo pessoal e investimentos, a despesa passou de 1,80% do PIB para 1,97%, informa o Ministério da Saúde.

Na educação, as despesas de custeio nos oito anos da gestão Lula passaram de 0,42% do PIB para 0,62%. A diferença de 0,20 ponto percentual, que equivale a 8% do aumento dos gastos correntes, é um pouco maior em relação ao percentual da saúde, mas ainda é muito pequena se comparada com as outras despesas que abocanharam a maior fatia dos novos recursos.

O levantamento mostra que outras despesas obrigatórias, como gastos com Legislativo, Judiciário e Ministério Público, cresceram mais de 30% nos últimos oito anos. Passaram de 0,16% para 0,21% do PIB.

Destaque-se que no governo Lula a receita líquida de tributos - já descontadas as transferências a estados e municípios - cresceu 2,45 pontos percentuais, passando de 17,72% em 2003 para 20,17% em 2010.

Mas as despesas primárias - pessoal, custeio (despesas correntes) e investimentos - subiram ainda mais: o equivalente a 3,34 pontos percentuais, indo de 15,62% do PIB em 2003 para 18,96% em 2010. Para acomodar novas despesas além do crescimento da arrecadação, o governo reduziu o superávit primário, que é a economia destinada a pagamento dos juros e redução da dívida pública.

Escolaridade igual à do Zimbábue
Os gastos públicos com saúde no Brasil, de cerca de US$ 350 per capita por ano, são muito baixos, se comparados com aos de outros países, mas também há problemas sérios de gestão. A solução apontada por especialistas para avançar nessa área é uma combinação de aumento do financiamento público com uma gestão mais eficiente.

- O sistema precisa ser repensado. A saúde precisa de mais investimentos e de um novo modelo de gestão - afirma a professora Magda Scherer, do Núcleo de Estudos de Saúde Pública da UnB.

O próprio Ministério da Saúde reconhece os problemas: "Aliado a um sistema frágil de financiamento, temos um padrão de gestão arcaico, engessado, especialmente nos hospitais públicos, que continuam usando métodos, protocolos e mecanismos defasados. É necessário melhorar a qualidade do gasto, encontrar estratégias institucionais que permitam usar melhor os recursos existentes, criando estruturas mais dinâmicas, com remuneração por metas e avaliação de desempenho", diz nota da assessoria da pasta.

Na educação, a defasagem do Brasil em relação a outros países emergentes ficou muito evidente na recente divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas. A média de escolaridade para pessoas com mais de 25 anos no Brasil é de 7,2 anos, número igual ao registrado no Zimbábue, país com o pior IDH do ranking.

Outra dificuldade apontada está na expectativa de anos de estudo para crianças que ingressam nas salas de aula. No Brasil, esse indicador é de 13,8 anos, enquanto o considerado ideal para o desenvolvimento humano seria de 20,6 anos.

As estatísticas brasileiras também são negativas quando se observa o índice de repetência nas escolas. No país, aos 9 anos de idade, 16% das crianças não estão na série adequada. Já aos 16 anos, esse percentual sobe para 40%.

O professor Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos pela Educação, destaca que o gasto per capita do Brasil em educação básica, em torno de R$ 2,9 mil, está bem abaixo das despesas realizadas por países vizinhos como a Argentina e o Chile, que têm uma despesa em torno de US$ 2,1 mil per capita. Assim como acontece na saúde, o diagnóstico dos especialistas em educação aponta para dois problemas na área: carência de recursos e falhas na gestão.

- O Brasil precisa fazer dois deveres de casa: aumentar os recursos para a educação e profissionalizar a gestão. Não basta fixar um limite mínimo de gastos para a área, é preciso saber como estão sendo aplicados esses recursos - afirma Ramos.

O aumento da verba para educação e saúde passa por um crescimento dos investimentos nessas áreas. Mas a radiografia das contas do governo Lula mostra que, apesar de ter havido aumento substancial nos gastos com investimentos (que cresceram 0,9 ponto percentual de 2003 a 2010), a parcela destinada a essas despesas no Orçamento ainda é muito pequena, comparada com outras despesas. Em 2003, era de 0,48% do PIB; em 2010, está em 1,38%.

Lei de Responsabilidade Educacional

Hugo Ferreira Tadeu, Instituto Millenium

Qual o futuro que se espera para o Brasil? Qual o desempenho observado em relação aos países concorrentes diretos, citando os membros do bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China)? Quais são os indicadores de desempenho econômico? Finalmente, como está o processo educacional nacional?

As perguntas acima listadas são preocupantes e devem ser avaliadas com muito cuidado, ainda mais para um país que almeja o status de nação desenvolvida. Logo, peço licença ao tema “logística”, área comum do conhecimento que retrato nos textos de opinião escritos, para provocar uma reflexão sobre o aprendizado coletivo.

O tema educação merece atenção de especialistas contemporâneos como Claudio de Moura e Castro, Gustavo Ioshipe, Eduardo Gianetti e Mario Sergio Cortella, além de universidades e escolas de negócios, com seus respectivos pensadores, como as universidades federais, Pontifícias Universidades Católicas, Fundação Dom Cabral, Insper, entre outras.

Não se deve avaliar a educação, somente como um critério pedagógico ou filosófico, mas como condição essencial para o crescimento econômico. Ao retratar o crescimento brasileiro, desde o milagre da década de 70, perpassando pelas descobertas do setor petrolífero, passando pelos setores de mineração, aviação e agricultura. Podem ser citadas organizações como Petrobras, Vale, Embraer e Embrapa, com inúmeras inovações tecnológicas e na geração do conhecimento.

No entanto, o que se observa é um esforço generalizado destas empresas no investimento em educação de ponta, em busca de parceiros nacionais e internacionais, para pesquisa e desenvolvimento. Mas estes são fatos isolados.

Em linhas gerais, a educação tem péssimos resultados e com uma ausência de visão estratégica, destacando-se a morosidade pública. O problema é a miopia gerencial pública. Dados do IPEA revelam que 78% da população é analfabeta funcional, isto é, não entende o que lê, em um simples artigo de jornal. Trata-se de um absurdo! Logo, como mudar esta realidade, quando avaliado o primeiro nível de formação?

No extremo oposto, observa-se uma educação superior sendo sucateada. O que se espera são números e não qualidade. Desde o processo de abertura do ensino, na década de 90 (sendo um fato louvável, se não fosse à falta de supervisão real dos fatos gerados), novos grupos privados vem surgindo para “investir” neste segmento. Mas o problema é cultural, pois a educação é vista como ferramenta e não como aspecto cultural. Muitos alunos entrantes no sistema superior desejam o título, como forma de ascensão social e na busca pelo emprego, enquanto o objetivo central deveria ser a própria educação.

A resposta central está na baixa geração do conhecimento, sendo avaliado, por indicadores como conhecimento básico em português, matemática e raciocínio lógico, bem como empresas duvidosas nos profissionais recebidos para os seus quadros.

Conclui-se que este tema deveria ser avaliado como uma função verdadeiramente estratégica, os nossos concorrentes diretos veem este assunto com maior seriedade, destacando-se em todos os testes internacionais de produção técnica, representando um futuro iluminado e de alto desempenho. Se no passado recente a proposta foi à criação da Lei de Responsabilidade Fiscal para o controle das contas públicas e no ajuste de conduta econômica, por que não pensar na proposta de Lei de Responsabilidade Educacional, para um novo direcionamento produtivo nacional?

Ruth por Ignácio

Celso Lafer – O Estado de São Paulo

A biografia é um gênero difícil, posto que exige combinar História e estória. Requer, por isso mesmo, tanto o empenho e a dedicação na pesquisa dos fatos quanto a qualidade de um texto que, numa unidade narrativa, seja capaz de bem contar uma estória de vida. Seguir a ordem cronológica contribui para a tessitura da narrativa e, por isso, é um dos preceitos usuais na elaboração de uma biografia. Permite, com efeito, indicar como uma pessoa, na sua singularidade, foi, no correr do tempo, lidando com o seu potencial de possibilidades no confronto com as múltiplas circunstâncias do seu percurso. Foi este preceito que Ignácio de Loyola Brandão seguiu na elaboração do seu recém-publicado livro Ruth Cardoso - Fragmentos de uma Vida.

Ignácio enfrentou com sucesso o desafio da empreitada biográfica. No seu livro teceu a crônica de uma vida que permite compreender quem foi Ruth Cardoso e explicar a razão de ser mais ampla de sua exemplaridade. Esta se imbrica nos modos como lidou com o desafio da condição feminina no mundo contemporâneo. Soube traçar o retrato da sua biografada mesclando, na sua narrativa, os fragmentos do cotidiano (a sopa de mandioquinha, o dia a dia com Fernando Henrique e os filhos pequenos no exílio chileno, a casa e o jardim de Ibiúna) e os fatos e informações da atividade de uma pesquisadora e professora de Ciências Sociais que, pioneiramente, percebeu e escreveu sobre a mudança na dinâmica dos movimentos da sociedade. O luminoso posfácio de Manuel Castells dá conta da relevância acadêmica dos seus ensinamentos.

Ignácio garimpou, nos documentos e nas múltiplas e diversificadas entrevistas com seus próximos, facetas básicas de uma personalidade de boa e educada sociabilidade, que sabia conversar com as pessoas, mas preservava a sua intimidade. Captou a estatura humana e intelectual de Ruth, que, pela sua ação e pelo seu pensamento, teve voo próprio, independentemente do que foi a trajetória de FHC. Soube contextualizar o Brasil em que ela esteve inserida com a sensibilidade de um cronista que logrou explorar na narrativa o comum de vivências compartilhadas, proveniente da proximidade geracional. Explicou como ela redefiniu, com autonomia, discernimento e criatividade, o papel da mulher do presidente, colaborando, desse modo, na concepção de políticas sociais, distintas do assistencialismo tradicional.

Políbio dizia que o começo é mais da metade e alcança o fim. Uma das virtudes da narrativa de Ignácio é a de, como araraquarense que fez da memória vivida da sua cidade uma das fontes de inspiração da sua obra, explicar como Ruth levou dentro dela, a vida inteira, o significado do que representou para ela o seu lado Araraquara: o de quem gostava "das coisas boas da vida, mas possuía um sentimento ácido em relação a ‘grã-finagens’ e vaidades vazias".

A Araraquara de Ruth, que alimentou a sua eticidade, foi a de uma família de operosa e séria classe média, marcada pela boa e discreta presença de seu pai e impulsionada pela forte e independente personalidade de sua mãe, a professora dona Mariquita, a dos amigos e colegas de infância, de sua escolaridade inicial e do ambiente dos anos 30 e 40 de uma cidade do interior do Estado de São Paulo.

Araraquara está não só no início, mas na origem desta biografia. Foi a entrevista que Ignácio realizou em 1999 para a Vogue, Ruth Cardoso e o reencontro com a cidade desaparecida, o ponto de partida do "retrato de uma araraquarense por um araraquarense".

O tema recorrente que permeia a biografia de Ruth é, como disse, o da lida com a condição feminina no mundo contemporâneo, um desafio de abrangente espectro, pois as transformações desta condição no século 20 foram constitutivas de uma verdadeira revolução. Com efeito, a Revolução Feminina, como a Revolução Industrial, trouxe uma mudança radical, ainda que gradual, nos costumes e no funcionamento da sociedade, não precedida, no entanto, como explica Bobbio, de um evento inaugural. Essa significativa mutação do que era o tradicional propiciou uma crescente presença das mulheres no mundo das profissões, dos negócios, da política e do pensamento, com impacto redefinidor na prévia lógica social dos papéis do masculino e do feminino.

No caso de Ruth, a mutatio rerum acima apontada representou o desafio do buscar e encontrar na sua vida um equilíbrio entre os seus projetos intelectuais e a sua carreira de professora, com identidade e espaço próprios de atuação, e os cuidados mais tradicionais na lida do cotidiano, com a casa, a educação dos filhos, a atenção com netos e o convívio com um marido da projeção intelectual e política de Fernando Henrique.

A exemplaridade com que construiu esse equilíbrio teve desdobramentos que foram além da sua pessoa. Ruth extraiu de sua experiência pessoal e de pesquisadora, e da importância que atribuiu à igualdade de gênero, elementos importantes que instigaram as renovadoras propostas das políticas sociais do governo FHC. O "feminismo prático" de Ruth no trato da emancipação das mulheres contribuiu para a visão da Comunidade Solidária e da Bolsa-Escola. A ênfase no responsável papel da mulher nas famílias brasileiras traduziu-se de modo abrangente no sustentar, pelo acesso ao conhecimento, a extensão, pelo empowerment, da cidadania.

O livro de Ignácio abre-se com uma epígrafe de Sêneca: "Aquilo que terás feito de tua vida, veremos no momento em que a perderás." Ignácio narrou com sensibilidade o que Ruth fez de sua vida, com ressonância nacional e internacional. Com seu talento de escritor, descreveu o momento em que a foi perdendo, seguido pela unanimidade dos sentimentos de pesar e respeito que cercaram o seu falecimento. O livro, ao tangenciar, como seria de esperar, a atuação de FHC, aponta como na dialogada e igualitária convivência do casal Ruth foi uma companheira que engrandeceu a sua vida e a sua obra.

(*) Professor Titular da Faculdade de Direito da USP, Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras, foi Ministro das Relações Exteriores no Governo FHC.

Em crise, magistério atrai cada vez menos

Alessandra Duarte e Carolina Benevides, O Globo

RIO - Com a professora de História doente, e sem que a escola conseguisse substituto, o jeito foi os alunos fazerem as vezes de professor: em julho de 2009, três alunos do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Ernesto Faria deram aula dessa disciplina para colegas que estavam no 1º e no 2º ano. A falta de professores que atinge os ensinos fundamental e médio é um problema que começa nos bancos das universidades, onde os alunos não querem mais se formar como professor. Um levantamento dos últimos censos escolares do Inep mostra que, de 2005 a 2008, caiu 12,4% o número de concluintes de cursos superiores de "formação de professores de matérias específicas" - o item, no censo escolar, que abriga licenciaturas como as de Português, Matemática, Química e Física. Se eram 77.749 em 2005, foram para 68.128 em 2008 - ano que viu 817 alunos concluírem cursos de "formação de professores em Português", enquanto o de Direito formou 85 mil, e cursos de Administração, 103 mil.

O dado vai ao encontro de números da Fundação Carlos Chagas que dão conta de que, em média, 70% dos alunos que entram em cursos de licenciatura desistem antes de completá-lo.

Diminuiu ainda o número dos que entram nas faculdades para cursá-los: de 2005 a 2009, o número de alunos ingressando nesses cursos caiu 23,7% na rede privada e de 11,4% na rede pública, segundo o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp). Nesse período, o número total de matrículas em cursos de licenciatura nas redes pública e privada também caiu 8,1%.

- Já seria preocupante se esse número não tivesse crescido, mas caiu. E isso porque temos déficit de professores, não excesso - sublinha Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp.

O déficit de professores, apenas da 5ª série do fundamental ao 3º ano do ensino médio, é de 246 mil no país. O quadro é mais crítico em Física, Química, Matemática e Biologia.

Para os professores que permanecem na carreira, fica a sobrecarga. Segundo dados do Inep, do Ministério da Educação, 753,8 mil professores no país na educação básica (redes pública e privada) davam aula para cinco ou mais turmas em 2009. No ensino médio, 72.241 lecionam para dez ou mais turmas.

Uma professora para 12 turmas
Professora de História, Wânia Balassiano, de 45 anos e há 25 na rede estadual, tem 12 turmas na Escola Estadual Ernesto Faria, outras cinco numa escola particular e ainda dá aulas em casa:

- Fico sobrecarregada, já adoeci e sei que a qualidade da aula seria melhor com menos turmas. A carreira não é valorizada, o estado não incentiva que a gente faça mestrado, os salários são baixos. Amo o que faço, mas a sensação é que escolhem o magistério porque não têm coisa melhor para fazer.

Ou porque não acham algo melhor. Estudo da Fundação Carlos Chagas em 2009 mostra que 68% dos alunos que cursam licenciatura vêm de escolas públicas.

- A maioria não conseguiu passar para outra carreira. E os melhores não vão para a sala de aula, preferem fazer mestrado - diz Mozart Ramos, do movimento Todos pela Educação.

- Minha turma começou com 20 alunos. Hoje somos cinco - conta Rodrigo Barreto, no 3º período da licenciatura de Letras da Uerj.

Em outro setor da universidade (Física), João Pedro Brasil, de 20 anos, faz licenciatura, mas também bacharelado, como outros cinco colegas. Fazendo apenas licenciatura, só conhecem na turma Sofia de Castro, de 19:

- Já fui monitora de colégio e vi que dar aula era o que queria - diz ela. Perguntada sobre quanto imagina ganhar, responde: - É melhor não pensar.

Entrave maior para a valorização da carreira, o salário tem piso nacional que não chega a R$ 1.100 para 40 horas semanais. Mas esse valor não está sendo aplicado por muitos governos porque a lei está sob análise do Supremo Tribunal Federal, após estados entrarem com pedido de revisão do texto.

- Não adianta falar em salário ideal quando a gente não consegue implementar nem o mínimo - observa Paulo Corbucci, pesquisador de educação do Ipea.

Presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Roberto Leão defende que os problemas não sejam atacados de forma isolada:

- Professor precisa de plano de carreira, escolas com estrutura e a chance de se atualizar.

Secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda admite que "houve desinteresse muito grande pela carreira", mas aponta ação para valorizá-la:

- A criação de um piso nacional, que trouxe também tempo mínimo obrigatório para o professor se dedicar à reciclagem.

Pilar diz ainda que o MEC prevê 300 mil vagas para a Plataforma Freire, um programa para professores que já estavam dando aula mas não tinham formação adequada. Até agora, há cem mil - um terço - inscritos.

O papel de Lula

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Na condição de inventor da candidatura e de posse da prerrogativa de mentor de Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio da Silva tem se comportado como previsto nesta etapa de transição entre a eleição e a posse da sucessora.

Ninguém de bom senso pode imaginar que Dilma possa se tornar independente de Lula de uma hora para outra. Acreditar nisso é se abstrair da realidade e conferir excessivo e precipitado crédito às histórias de distanciamento entre criadores e criaturas.

Essas coisas levam tempo. No caso específico de Dilma, é preciso levar em conta também que determinadas atitudes não são condizentes com a natureza feminina.

O dever de lealdade é mais acentuado nas mulheres, ou há alguma dúvida a respeito?

O caso de Lula como criador também é peculiar: ele detém uma força e um poder de mobilização dentro e fora do partido que sempre lhe assegurarão ascendência sobre Dilma, por mais que os deveres e os prazeres da Presidência a tornem a cada dia mais senhora de si. Isso sem falar que ele sabe fazer política e ela não.

A liderança dela é derivada e isso é um fato.

Nada há de estranho, portanto, que Lula influa decisivamente na composição do ministério. Pode não ser adequado, mas durante toda a campanha os gestos, mais que as palavras (embora estas também), deixaram bastante claro que não haveria solução de continuidade, sendo ela a eleita.

Só por isso não se pode dizer que Dilma será necessariamente uma marionete. Esquisito seria se ela fizesse escolhas à revelia dele.

Quanto à interferência de Lula para barrar o apetite de setores do PMDB no episódio do "blocão", há o óbvio: o presidente é ele até o dia 31 de dezembro.

Antes disso fica difícil fazer análises definitivas sobre qual será mesmo o papel de Lula como ex-presidente pelo simples fato de que a situação concreta ainda não se apresentou. Até lá, o que se faz são suposições.

Conjecturas a esse respeito é o que mais tem sido feito no mundo político. É consenso entre amigos e aliados de Lula que Dilma transitará em terreno complicado: não poderá desagradá-lo, mas também não poderá deixar que o poder lhe seja usurpado.

Nesse aspecto, a iniciativa teria de ser dele, deixando o governo para ela e cuidando da política em duas dimensões: a da própria biografia e a do projeto de poder de seu grupo - vale dizer o PT e área de influência.

Lula cuidará do instituto que levará seu nome, mas gostaria de ocupar algum posto que lhe permitisse liderar programas de ajuda a nações mais pobres, na África, como já se diz. Internamente, funcionaria como referência política nos grandes debates.

Um papel que Fernando Henrique poderia ter cumprido se o PSDB tivesse deixado, mas que com o PT Lula certamente poderá cumprir. Surpreendente na visão de amigos e aliados é a unanimidade da dúvida em relação a uma possível volta em 2014.

Ninguém acha que Lula voltará a disputar eleições. Para não se arriscar a macular o patrimônio da inédita popularidade ao fim de dois mandatos que já lhe garante lugar de honra na História.

Outro patamar.
A direção do PMDB avisou nas internas que vai desautorizar quaisquer iniciativas de pressão por cargos sobre a presidente eleita. Não porque o partido não queira participação à altura da parceria que lhe confere a Vice-Presidência da República.

A questão é que nem todos no PMDB compreenderam que tais truques já não são necessários como eram à época em que o partido era um poderoso aliado, mas não passava de um anexo garantidor da "governabilidade".

Quando os idealizadores do "blocão" se juntaram a partidos como o PTB e o PP, que nem sequer se aliaram ao PT na eleição, emprestaram a eles a força e não o contrário como quiseram dar a entender. Reduziram o PMDB ao posto de agregado, subtraindo-lhe importância.

"Pela primeira vez não podemos ser chamados de adesistas, não disputamos espaços, mas dividimos naturalmente o poder conquistado nas urnas", diz o ex-ministro Geddel Vieira Lima, lembrando que ataques a Dilma Rousseff atingem igualmente o vice, Michel Temer.

Liberalismo e democracia

Rodrigo Constantino, Instituto Millenium

A democracia é um sistema imperfeito. Nunca é demais repetir este alerta. Mas acredito que alguns libertários com viés mais anarquista levaram a lógica para um extremo perigoso. Hoppe é o grande ícone deste grupo, quando lembra que a democracia é um “deus que falhou”. A questão, porém, é outra: se a democracia for vista como uma espécie de deus, naturalmente ela estará fadada ao fracasso. Aliás, qualquer modelo irá falhar, sempre! Eis o ponto importante aqui: todos os modelos políticos para convívio em sociedade terão inúmeros problemas. Perfeição é algo que não existe quando se trata de seres humanos.

Não é correto, portanto, atacar um sistema imperfeito com base em utopias. Podemos – e devemos – apontar os riscos e os defeitos da democracia. Mas não acho honesto fazê-lo de cima de uma torre de marfim, oferecendo em troca um paraíso platônico construído nas nuvens da imaginação. O papel aceita qualquer coisa. A abstração é capaz de produzir os mais belos mundos. O diabo está nos detalhes. Quando o sonho precisa dar lugar à prática, aí é que mora o perigo. E a experiência mostra que revoluções idealistas costumam acabar muito mal. Anarquia não virou sinônimo de caos à toa, ou por conta de alguma conspiração mirabolante de intervencionistas.

Os liberais são realistas a ponto de perceber isso. Eis a grande diferença entre eles e seus colegas libertários anarquistas. Como disse Og Leme, todo liberal é um anarquista frustrado. Ele costuma achar linda a utopia de uma sociedade sem Estado, mas depois acorda para a vida e encara sua existência como uma espécie de “mal necessário”, como disse Thomas Paine. A expressão pode parecer contraditória à primeira vista, mas faz sentido, pois lembra que certos males demandam remédios muito amargos ou dolorosos. Liberais jamais adoram o Estado e, portanto, nunca poderiam colocar a democracia num altar divino. Logo, o deus não falhou; ele jamais existiu! O problema são as malditas alternativas concretas, invariavelmente piores.

Hoppe chega a demonstrar certo saudosismo, preferindo a monarquia em vez da democracia, se tiver que escolher entre ambas. Ele, ao contrário de Mises, não vê a mudança como progresso. Mas acredito que Hoppe está bastante enganado, e nesse caso se trata de um fenômeno empírico: basta observar se há mais ou menos liberdade individual nos países democráticos hoje. Novamente, que a democracia gerou vários problemas novos, isso é fato. Mas daí a afirmar que no passado havia mais liberdade para a maioria dos indivíduos, isso já é bem diferente – e, creio, absurdo. As democracias mais avançadas, com sólidas instituições e uma cultura de liberdade, quase sempre são capazes de, gradualmente, corrigir as maiores falhas e sobreviver, com razoável grau de estabilidade e liberdade. Olhando a história da humanidade, não é pouca coisa!

O liberalismo é, em sua essência, democrático. Mário Vargas Llosa considera os pressupostos básicos do liberalismo “a democracia política, a economia de mercado e a defesa do indivíduo frente ao Estado”. A propriedade privada e o Estado de Direito são bandeiras claramente liberais. Mas o liberalismo é mais que isso. Basicamente, ele é “tolerância e respeito aos outros, e, principalmente, a quem pensa diferente de nós, quem mantém outros costumes e adora outro deus ou simplesmente nenhum”. Vargas Llosa descarta utopias: “Logicamente, salvo nas belas utopias dos anarquistas, não há como prescindir da existência de um poder. Mas é possível, sim, contê-lo e opor-lhe contrapesos para que não se exceda, que não usurpe funções que não lhe competem e não sufoque o indivíduo”.

O liberal está preparado para viver entre discordâncias e diferenças, num ambiente de pluralidade em que ninguém se arroga o monopólio da justiça. Por isso existem tantos tipos de liberais discordando entre si. Não se trata de um grupo monolítico, que abraçou alguns dogmas simplistas e ponto final. Trata-se da defesa de uma sociedade aberta, como colocou Karl Popper, ao contrário de algum sistema fechado e acabado. Para Popper, “a importante e difícil questão das limitações da liberdade não se pode resolver mediante uma fórmula seca e cortante”. Mas isso não é motivo para desânimo: “E o fato de sempre haver casos fronteiriços, longe de assustar-nos, deve converter-se em mais uma coluna de nossa posição, visto como, sem o estímulo dos problemas políticos e das lutas desse tipo, a presteza dos cidadãos em lutarem por sua liberdade logo desapareceria e, com ela, a própria liberdade”.

Propriedade privada, Estado Democrático de Direito, economia de mercado, tolerância, liberdade de expressão e individualismo, estas são as expressões que, no meu entendimento, melhor resumem a postura liberal. Com isso em mente, há muito que ser feito para melhorar o mundo ainda, garantindo mais liberdade aos indivíduos. A democracia, enquanto meio, é uma aliada dos liberais nesta empreitada.

A abstenção do Brasil em condenar na ONU o apedrejamento de mulheres me dá vergonha de ser brasileiro

Ricardo Setti, Veja online

Amigos, a manchete da seção “Internacional” do Estadão diz tudo: “Brasil cala sobre apedrejamento no Irã”.

O subtítulo também é altamente ilustrativo: “Ao lado de países como Cuba, Sudão, Síria e Líbia [todos ditaduras ferozes e violadoras dos direitos humanos, comento eu], diplomacia brasileira recusa-se a apoiar resolução em comissão da Assembléia-Geral da ONU que condena a lapidação e cobra fim de perseguição a jornalistas, blogueiros e opositores iranianos”.

Um dos pontos principais da resolução, apresentada pelo Canadá e aprovada por 80 países civilizados — da vizinha Argentina ao Japão, dos Estados Unidos a todos (repito, todos) os países europeus, do próprio Canadá, naturalmente, ao Chile — é a condenação do apedrejamento como método de execução. A resolução também pede o fim da discriminação contra as mulheres.

Como cidadão de um país em que a maioria da população é constituída de mulheres, e que — santo Deus — acaba de eleger uma mulher como primeira presidente em 121 anos de história da República, declaro-me indignado e sobretudo envergonhado com a política externa pusilânime e covarde do governo Lula e de seu chanceler de estimação, Celso Amorim, em relação à ditadura do Irã.

O regime dos aiatolás fanáticos massacra os direitos das mulheres, adota a pena de morte sob as formas mais vis, enjaula adversários políticos, censura a imprensa, rouba nas urnas e seu ditador, Mahmoud Ahmadinejad, nega a existência do Holocausto e apóia grupos terroristas mundo afora.

O atual governo brasileiro acredita que com “diálogo e cooperação” é que a situação pavorosa dos direitos humanos no Irã vai melhorar. Prefere aproximar-se, ser amigo do Diabo a condenar suas ações.

Imagino o constrangimento da presidente Dilma como mulher e como política que já condenou de forma clara e inequívoca a barbárie que constituem os apedrejamentos de mulheres, em geral por suposto “adultério”, no Irã.

Um pato é um pato

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

O que é, o que é? Tem bico de pato, pé de pato, pena de pato, anda e nada feito pato? Pela lógica, é um pato.

Com todo o respeito, mas um governo com Guido Mantega, Antônio Palocci, Paulo Bernardo, Gilberto Carvalho, Maria Fernanda Coelho, Aldemir Bendini e Henrique Meirelles não será um governo Lula? Pode ser chamado de governo Dilma, mas será a mesma coisa.

Nenhuma restrição pode ser feita a esses e outros nomes que serviram e servem com lealdade ao presidente Lula. Ou a própria presidente eleita não integrou esse time, como coordenadora?

Antes mesmo da divulgação do ministério as engrenagens vão se compondo para a conclusão de que, por decisão própria, Dilma Rousseff quer uma administração igual à de seu antecessor. Claro que escolherá ministros que não participaram da atual administração, assim como deverá imprimir sua marca e suas características ao conjunto. Mas assim como um pato é um pato, o governo Dilma é o governo Lula.

CONDIÇÕES PARA SER DE ESQUERDA
Muito tempo atrás, precisamente há 28 anos, tive oportunidade de participar de uma entrevista na televisão reunindo os candidatos ao governo de São Paulo, nas primeiras eleições diretas lá realizadas, ainda no regime militar. Coube-me questionar o Lula, então de barba preta e mal aparada, disposto a enfrentar Franco Montoro, afinal eleito, Reinaldo de Barros e outros. Indaguei sobre sua ideologia: o que era, afinal? Socialista, comunista, direitista, centrista, esquerdista ou o quê?

A resposta veio simples e arrancou aplausos da pequena plateia comprimida no estúdio: “eu sou torneiro-mecânico...”

Ainda recentemente, com o Lula já no segundo mandato na presidência da República, no palácio da Alvorada, diante das câmeras, repeti a pergunta. Meditando e não mais de bate-pronto, ele definiu-se como “de esquerda, voltado para o socialismo”.

Os jornais publicaram esta semana comentário do presidente anunciando que depois de deixar o poder irá dedicar-se a aglutinar as esquerdas. Claro que não aquelas anacrônicas de dois séculos atrás. Nada de socializar os meios de produção nem de decretar a ditadura do proletariado. Muito menos de extinguir o capitalismo ou de garrotear os veículos de comunicação.

O problema é que para ser de esquerda, voltado para o socialismo, nos tempos modernos, determinados requisitos básicos continuam prevalecendo. Estará o já então ex-presidente Lula disposto a sustentar, por exemplo:

O fim da especulação financeira que faz fluir para os bancos lucros cada vez mais indecentes, e para o investidor estrangeiro os juros mais altos do planeta, sem deixar um centavo de imposto entre nós, quando vai embora?

A participação dos empregados no lucro das empresas e a obrigatoriedade da co-gestão?

O imposto sobre grandes fortunas?

O reajuste do salário mínimo conforme dispositivo constitucional, capaz de garantir dignidade ao trabalhador para alimentação, habitação, vestuário, saúde, educação e até lazer?

A reestatização, ou seja, o controle pelo poder público de setores intrinsecamente ligados à soberania nacional, como a exploração do subsolo e as telecomunicações?

A volta a direitos trabalhistas básicos suprimidos pelo neoliberalismo, como a estabilidade no emprego e o salário-família?

Tratamento igual, pelo Poder Judiciário, para criminosos de colarinho branco e para ladrões de galinha?

Extinção dos privilégios concedidos aos integrantes do Poder Legislativo?

Proibição de grupos econômicos possuírem diferentes e variados meios de comunicação, como televisão, rádio, jornais e revistas, sem esquecer a parafernália eletrônica?

Outros requisitos seriam necessários para definir um esquerdista e abrir-lhe condições para recuperar a ideologia perdida. Ousará quem se propõe a tanto?

TRÊS CONSELHOS
Dois conselhos que, se estivesse entre nós, Antônio Carlos Magalhães daria a Dilma Rousseff: não nomear para o ministério quem não poderá demitir e, se precisar fazer maldades, fazê-las de uma só vez, deixando as bondades para anunciar em pílulas, devagar e sempre...

O controvertido líder baiano, se pudesse, também recomendaria a seus companheiros do DEM: “tomem vergonha!”

IMPUNIDADE
Agora que se anuncia a imediata nomeação do décimo-primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal ainda pelo presidente Lula, seria bom que os meretíssimos se preocupassem com o julgamento dos 40 réus do mensalão. Em mãos do ministro Joaquim Barbosa, de saúde abalada, os processos arrastam-se sem perspectiva de solução. Logo se dará a prescrição. Assim como o Executivo ficou devendo ações mais diretas e cirúrgicas quando da eclosão do escândalo do mensalão, estaria o Judiciário na mesma rota?

O legado da Inconfidência

Artigo do leitor Murilo Augusto de Medeiros, O Globo online

" Era na área fiscal que os tentáculos autoritários do governo se sobressaíam. Uma situação, aliás, não muito diferente da qual presenciamos hoje”

O apetite arrecadatório do governo por tributos escorchantes arrebenta o bolso dos cidadãos e entrava o desenvolvimento do país há muitos anos. No Brasil Colônia, por exemplo, o termo "derrama" popularizou-se por ser um artifício coator em que os cidadãos eram obrigados a zelar pela arrecadação dos quintos reais, daí a famosa expressão "o quinto dos infernos".

Na verdade, era um tributo perverso que incidia sobre tudo o que fosse produzido em nosso país, correspondendo a nada menos que 20% da produção. Minas Gerais foi um dos estados mais prejudicados com essa política arbitrária do governo português, que, não raro, confiscava bens, invadia moradias, prendia e até matava para cobrar o valor mínimo estipulado para o quinto.

A cobrança de impostos abusivos sobre toda a produção de ouro gerou revolta e indignação na sociedade. A Inconfidência Mineira, o mais significativo movimento insurrecional do Brasil Colônia - simbolizado pelo líder Tiradentes -, nasceu justamente sob o manto dos impostos. Era na área fiscal que os tentáculos autoritários do governo se sobressaíam. Uma situação, aliás, não muito diferente da qual presenciamos hoje.

A perda da liberdade individual, o uso arbitrário de força contra os mais pobres e a ineficiência do resultado final são consequências deletérias quando o governo gasta irresponsavelmente e inventa impostos e tributos para que o contribuinte pague pelo seu gasto.

Lamentavelmente, o Brasil vive uma época em que as futuras vítimas escolhem de bom grado o caminho da servidão. Pagamos cerca de 40% de imposto em cada produto comprado. Trabalhamos praticamente cinco meses do ano apenas para bancar o governo. E recebemos em troca serviços precários e obsoletos. É justo isso? É legítimo o estado nos tirar quase a metade do que ganhamos para arcar com a farra dos outros?

Em 2010, o impostômetro atingiu a marca de R$ 1 trilhão 49 dias antes da registrada em 2009. E o governo insiste em ressuscitar a CPMF. Ora, pra quê mais impostos se a arrecadação bate recordes o tempo todo? É um vício perverso, onde cada vez mais o poder central tira de uns e dá para outros e cada vez mais sua função centra-se nessa atividade redistributiva. É uma espécie de assalto disfarçado, em que os contribuintes ficam sob a mira constante da arma estatal.

Não dá para fingir que isso tudo é muito normal. Ser passivo com o aumento de impostos é típico daqueles que delegam ao Estado a função de controlar todos os passos da vida humana.

Aliás, somos uma massa facilmente manobrável ou indivíduos com opinião própria para impor limites ao Estado? Os brasileiros vestirão a camisa verde e amarela de Tiradentes ou continuará assistindo de camarote ao governo assaltar os nossos bolsos para financiar projetos mirabolantes e manchar as instituições? A Inconfidência deixou um grande alerta. E Tiradentes não renascerá enquanto a sociedade não compreender que a luta contra a excessiva carga tributária não se restringe a causas partidárias ou imediatistas, mas sim a todos os brasileiros que trabalham e honram os seus compromissos.

O presidente que exige uma mulher no Planalto nega socorro à mulher condenada à morte por apedrejamento

Augusto Nunes, Veja online

Até na morte por apedrejamento o Irã dos aiatolás consegue ser mais brutal com as mulheres. Os homens, enterrados na areia até a cintura, ficam com os braços livres para proteger o rosto. Nem isso será permitido a Sakineh Mohammadi Ashtiani, viúva de 43 anos, já punida com 99 chibatadas e agora à espera do ritual instituído em 1983. O Código Penal determina que as mulheres sejam enterradas até a altura do busto, com as mãos amarradas por cordas e o corpo enrolado num tecido branco. Não podem sequer defender-se das pedras atiradas a curta distância sob o olhar da multidão reunida na praça.

O grupo de executores, liderado pelo juiz que assinou a sentença, inclui os jurados que ordenaram a condenação, parentes da vítima, figurões da comunidade e voluntários anônimos. Todos são homens: no Irã, mulheres não apedrejam; só podem ser apedrejadas. Para que a plateia não se sinta frustrada pela morte rápida, as pedras que circundam o alvo são pequenas. O juiz atira a primeira. A agonia que se encerra com o traumatismo craniano não dura menos que uma hora.

Tanto pelo espetáculo da perversidade primitiva quanto pela ausência de motivos para a condenação, o caso de Sakineh provocou uma intensa mobilização na internet. Como em quase todos os países, multidões de brasileiros decidiram lutar pelo cancelamento do espetáculo da barbárie. E alguém teve a ideia de lançar a campanha “Liga, Lula”, inspirada na convicção de que Mahmoud Ahmadinejad não se negaria a atender a um pedido de clemência formulado pelo amigo brasileiro.

Lula também acha que ouviria um sim. Mas não vai ligar. Caso ligasse, não iria além de observações sobre o método escolhido para o assassinato. “Eu, sinceramente, não acho que nenhuma mulher deveria ser apedrejada por conta de… ter, sabe, traição”, gaguejou nesta quarta-feira. Adultério – ou “traição”, prefere Lula – não chega a ser um crime hediondo, certo? Se é assim, estariam de bom tamanho a cadeira elétrica, uma injeção letal, a câmara de gás, até mesmo a forca. Matar a pedradas pode parecer um exagero aos olhos dos ocidentais, talvez ponderasse na conversa telefônica.

Mas a conversa não haverá, sublinhou a continuação da discurseira. “Um presidente da República não pode ficar na internet atendendo tudo que alguém pede de outro país”, justificou-se. “Veja, eu pedi pela francesa e pelos americanos que estão lá, pedi para a Indonésia por um brasileiro, pedi para a Síria por quatro. É preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras, as pessoas, sabe… Se começam a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, vira uma avacalhação”.

Avacalhar quer dizer desmoralizar, ridicularizar, tratar desleixadamente, não levar a sério. Não combina com a história de Sakineh. Mas a expressão usada pelo campeão da vulgaridade se ajusta admiravelmente ao próprio governo: a Era Lula é uma avacalhação. Há sete anos e meio, em seus vários significados, o verbo é conjugado o tempo todo pelo governo em geral e pelos condutores da política externa em particular.

Lula se desmoraliza ao enxergar uma questão política numa causa humanitária. Para defender o parceiro, virou ajudante de carrasco. Não pode ser levado a sério alguém incapaz de compreender que os direitos humanos prevalecem sobre todas as leis ou regras. Lula encara dramas com desleixo e participa de chanchadas com muita aplicação. É ridícula, enfim, a argumentação invocada para mascarar a verdade escancarada. Para recusar ou endossar pedidos, para estuprar ou tratar respeitosamente normas legais, Lula não se orienta por princípios. Segue a partitura do hino à avacalhação.

O que importa é a conveniência eleitoreira, o parentesco ideológico, a cumplicidade mafiosa. Fidel Castro, por exemplo, emplacou três pedidos em três anos. Foi para atender ao ditador-de-adidas que o presidente autorizou a deportação dos pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, fez que não leu a carta da blogueira Yoani Sanchez e acusou o preso político Orlando Zapata de se se deixar morrer no 85° dia da greve de fome. Hugo Chávez emplaca todos, até os que declama ao som da lira do delírio. Foi para agradar ao bolívar-de-hospício que Lula violentou as leis de Honduras e transformou em pensão a embaixada brasileira. É para ajudar o comparsa venezuelano que hostiliza o governo colombiano e afaga as FARC.

Para eleger Dilma Rousseff, tornou-se um colecionador de delinquências eleitorais. Para fechar negócio com José Sarney, promoveu-o a homem incomum. Para chegar à presidência, exigiu que os corruptos fossem justiçados. Para consolidar-se no poder, tratou de nomeá-los amigos de infância. No momento em que se recusou a estender a mão a Sakineh em respeito às leis do Irã, estava ajudando Hugo Chávez a desrespeitar as leis da Colômbia. Enquanto o chefe adulava os narcoterroristas das FARC, o ministro Celso Amorim tentava estuprar a legislação israelense que proíbe a entrada na Faixa de Gaza de autoridades estrangeiras que podem ser utilizadas pelo Hamas como peças de propaganda.

Lula acha que uma brasileira merece a Presidência sobretudo por ser mulher. Mas acha que não merece misericórdia uma iraniana que só foi condenada à morte por apedrejamento porque é mulher. Anda chorando quando lembra que a longa temporada no poder está acabando. Não se comove com a prisioneira angustiada com a aproximação do fim macabro. Pune brasileiros que dão palmadas nos filhos. Absolve iranianos que matam a pedradas.

O candidato sem chances ao Nobel da Paz nem imagina o que é um humanista. Desde sempre fez a opção preferencial pelos pastores da violência. Dilma Rousseff acha que todas as mulheres devem apoiá-la porque é mulher. Não deu um pio sobre a saga da iraniana que vai morrer por ser mulher. Lula só pensa em Lula. Dilma não consegue pensar.

Como Sakineh, o Brasil merece e precisa ser salvo. Ela depende da solidariedade internacional para livrar-se do horror. O país só depende da sensatez dos brasileiros.

Novo puxão em orelhas moucas

Percival Puggina

Quando é que a maioria dos bispos brasileiros, sensatos e fiéis, vai ouvir o Papa e fazer o que precisa ser feito na entidade que os congrega?

Tenho sob os olhos quatro documentos: 1) o Programa Nacional de Direitos Humanos - 3 (PNDH-3); 2) a declaração da CNBB sobre o tal programa, datada de 15 de janeiro deste ano; 3) o manifesto subscrito por mais de duas centenas de entidades que integram a Campanha pela Integralidade e Implementação do PNDH-3, lançado no dia 20 de maio; e 4) o discurso proferido pelo Papa Bento XVI aos bispos da Região Centro-Oeste no dia 15 desde mês de novembro.

O primeiro, o PNDH-3, é um bolo de pretensões ideológicas coberto com merengue de direitos humanos. Muito já escrevi sobre ele, apontando suas agressões a verdadeiros direitos da pessoa, como vida, liberdade e propriedade. O documento sofreu forte rejeição de vários setores. Mesmo assim, o PT o referendou de fio a pavio em seu Congresso Nacional realizado no mês de fevereiro deste ano. No entanto, com a aproximação da campanha presidencial, o bolo foi posto no freezer à espera de dias mais adequados para o retorno à vitrina da confeitaria petista.

O segundo, a declaração oficial da CNBB sobre o PNDH-3, só falta pedir desculpas por ter que discordar dele em quatro pontos. Aliás, bem contadas, das 572 palavras dessa declaração, apenas 100 podem ser lidas como expressão de divergência. As demais são de louvor e endosso àquele horroroso e mal concebido calhamaço. A entidade chega ao cúmulo de se desdobrar em elogios à "tão sonhada democracia participativa" (artimanha petista de lamentáveis resultados no Rio Grande do Sul, onde ficou tão desacreditada que saiu de pauta para nunca mais voltar). Mas até aí nada que surpreenda. A gente sabe que o coletivismo beato adora essas coisas.

O terceiro, o manifesto da Campanha pela Integralidade e Implementação do PNDH-3 é firmado por mais de duas centenas de organizações, em sua maioria pertencente ao segmento de gays, lésbicas, travestis e transgêneros. Sai em ardorosa defesa do programa, que deseja ver implantado sem alterações. Não há surpresa alguma em seu conteúdo, mas no fato de estar subscrito por organismos vinculados à mesma CNBB que senões ao PNDH-3. Ali estão, por exemplo, entre os signatários do apoio, os bem conhecidos Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra. Ali está, também, a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo. E para completar o enrosco, também o subscreve o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, o CONIC, do qual faz parte - adivinhem quem! - a própria Igreja Católica. Se você entrar no site do CONIC verá que a primeira e maior das cinco igrejas que integram aquele conselho é a Igreja Católica, representada por Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB e signatário daquela declaração de discordância a que me referi acima. Pode uma coisa dessas? Ser contra e a favor? Pode. Na CNBB pode.

Para ampliar o paradoxo, o manifesto do Movimento pela Integralidade e Implementação do PNDH-3, lá pelas tantas, afirma textualmente o seguinte: "Desde que foi lançado, em dezembro de 2009, no entanto, o PNDH-3 vem sofrendo duros ataques de setores conservadores de nossa sociedade - sobretudo da Igreja (sic), dos donos da mídia, de setores antidemocráticos do Exército e de latifundiários. Esses segmentos não reconhecem o processo de construção participativa que resultou no Programa Nacional de Direitos Humanos ...". E lá vai a assinatura do CONIC, arrastando consigo não apenas a CNBB, mas a própria Igreja Católica em nosso país a falar mal de si mesma. Durma-se!

Por essas e por muitas outras, cada vez que Bento XVI se reúne com bispos brasileiros nas tradicionais visitas ad Limina Apostolorum, lá vem um sermão focando os desvios que tantas e tantas vezes tenho apontado na conduta da CNBB. Agora foi a vez dos senhores bispos do Centro-Oeste, recebidos no dia 15 de novembro, saírem com as orelhas ardendo. Ciente dos abusos cometidos em nome da entidade, por seus dirigentes, seus assessores e por alguns de seus organismos vinculados, que pintam e bordam em nome da CNBB e da Igreja, o Papa usou palavras firmes que, muito provavelmente, chegaram, mais uma vez, a ouvidos moucos.

Disse Sua Santidade, entre outras coisas: a) "Trata-se em definitivo de buscar que a Conferência Episcopal, com seus organismos, funcione cada vez mais como órgão propulsor da solicitude pastoral dos bispos, cuja preocupação primária deve ser a salvação das almas, que é, além disso, a missão fundamental da Igreja"; b) "Ao mesmo tempo é necessário lembrar que os assessores e as estruturas da Conferência Episcopal existem para o serviço dos bispos, não para substituí-los"; e c) "Esse organismo deve evitar colocar-se como uma realidade paralela ou substituta do ministério de cada um dos bispos" nem "constituir-se em intermediário entre o bispo e a sé de Pedro".

Quando é que a maioria dos bispos brasileiros, sensatos e fiéis, vai ouvir o Papa e fazer o que precisa ser feito na entidade que os congrega? Quando vai rever suas assessorias, instituições vinculadas e essas associações esdrúxulas a ponto de a tornarem esquizofrênica, como se viu acima?

Tirando os esqueletos do armário.

Adelson Elias Vasconcellos

Agora, quando chega ao fim o reinado Lula no Planalto, após oito anos de mistificação, mentiras e muita, mas muita corrupção, da qual o país sequer conhece a metade, parece não haver mais riscos de liberar o muito que estava escondido e abafado.

Pouco antes do segundo turno, o PT e Gilberto Carvalho, além do tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, tornaram-se réus no processo do desvio milionário de recursos da BANCOOP, para as arcas do partido e, talvez, agora, com a investigação avançando um bocadinho se venha descobrir as conexões da falcatrua com o mensalão e o caso dos Aloprados.

Nem bem as urnas se fechavam apontando a vitória de Dilma, e eis que o partido, através de suas várias células espalhadas no país, desencadeou a apresentação de projetos, em nível estadual, de controle da mídia. Além de que, durante a transição, Lula entregará a Dilma o projeto desenhado com carinho fascista por Franklin Martins do projeto de controle em nível federal.

Semana passada, dois outros esqueletos se apresentaram à sociedade: o renascimento do assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, com a condenação do primeiro dos acusados. Imediatamente, também, reabriu-se as investigações do assassinato de Antonio da Costa Santos , conhecido como Toninho do PT, ex-prefeito de Campinas. Talvez o caso mais rumoroso seja o de Celso Daniel: além da perseguição infame aos familiares do ex-prefeito, obrigando seus irmãos a buscarem asilo político na Franla - o que é um absurdo - o crime foi sucedido por outros sete misteriosos assassinatos de pessoas ligadas, de uma forma ou de outra, ao crime, não escapando sequer o legista que desmascarou as investigações de mentirinha que foram feitas com o propósito de acobertar os verdadeiros motivos que culminaram na morte de Celso Daniel.

E a semana fechou com a liberação – finalmente – pelo Justiça Militar do dossiê sobre Dilma Rousseff, ao tempo da ditadura militar. Aliás, cá prá nós, que historinha mais enrolada esta sobre a liberação de um documento - ATENÇÃO - que é PÚBLICO. Creio que o juiz, à luz do bom senso, cometeu algo que podemos classificar como abuso de autoridade! Não há lei para enquadrá-lo e puni-lo, hein?  Com a palavra o Ministério Público.

Como Lula está quase passando o bastão à sucessora, e esta já não corre mais riscos, parece que a Justiça nem Ministério Público veem alguma ameaça em deixar os acontecimentos trancafiados até agora virem à tona, o que representa dizer o seguinte: as duas instituições, de uma forma ou de outra, contribuíram para que o país fosse governado por bandidos durante oito anos e abriu caminho para que a continuidade do crime organizado no poder tenha mais quatro anos de vida mansa.

Falta agora o ministro Joaquim Barbosa, do STF, sair de cima do processo do mensalão e deixar que se prossiga no julgamento dos réus. E é bom se apressar porque em agosto de 2011, os crimes prescrevem, muito embora, particularmente, não acredite que alguém resulte condenado, pelos menos os “gente fina” tipo José Dirceu. Aliás, sexta-feira passada, Lula declarou com todas as letras que ajudará seu “companheiro” a se safar desta e que provará que o mensalão nunca existiu. Resta saber o que fará com as afirmações dadas em 2005, quando se declarou traído, sem nunca dizer por quem.

São situações como as que vemos acima que enterram de vez a esperança de que o país esteja mais próximo da civilização. Quando o poder instalado tem a força de praticar impunemente crimes e atos lesivos aos interesses do país, e são acobertados justamente pelas instituições que teriam a função de investigar e condenar os malfeitores, não há plano de segurança pública capaz de convencer aos demais cidadãos de que o crime não compensa.

Agora, mesmo que de forma subterrânea, já se fala em desenterrar a Lei da Anistia, para julgar os torturadores. E os crimes cometidos pela esquerda, que não queria democracia coisa nenhuma, e sim pretendia implantar no Brasil uma ditadura comunista ao estilo cubano, inclusive os grupelhos nos quais Dilma Rousseff teve participação ativa, quem julgará?

Fica difícil entender que alguém ainda tenha esperança de que, um dia, quem sabe, em um futuro bem distante, o Brasil se torne um país de paz e de esperança, com confiança absoluta em suas instituições, reinando por aqui a plena justiça social.

Por que, senhores, falar em justiça social assaltando os cofres públicos, e distribuindo bolsas sem nenhum critério, a não ser colher o voto na próxima eleição, isto é fácil e qualquer cafajeste é capaz de fazer. Quero ver é estadista de verdade praticando justiça social em políticas públicas que reduzam as desigualdades que nem 100 milhões de bolsas serão capazes de eliminar.

Assim, mesmo que tardiamente, que a Justiça brasileira e o Ministério Público cheguem ao fundo das investigações dos esqueletos que acabam de retirar do armário e que, minimamente ao menos, punam os culpados cujos nomes devem ser informados em todas as suas letras. Passa da hora do país passar a limpo seu passado, inclusive o mais recente deles, ou seja, os oito anos de Lula no poder. Nenhum futuro decente pode ser forjado com base em um presente cheio de mentiras e falsidades.

Um crime dentro de outro

O Estado de São Paulo

O desfecho do julgamento do primeiro dos sete acusados do sequestro e assassínio do então prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002, fez justiça à convicção do Ministério Público de que ele não foi vítima de um crime comum, como sustenta a Polícia paulista, mas de um crime político - encomendado, no dizer do promotor Francisco Cembranelli, "por uma corja de malfeitores, verdadeira máfia, alojada na administração petista".

O conselho de sentença que considerou culpado o réu Marcos Roberto Bispo dos Santos, condenado a 18 anos de prisão em regime fechado, acolheu por unanimidade todos os seis quesitos formulados por Cembranelli. Um deles pedia que o júri, composto por cinco mulheres e dois homens reunidos no Fórum de Itapecerica da Serra, na quinta-feira, se manifestasse sobre a tese de que o crime foi cometido mediante paga e promessa de recompensa.

É de fato inverossímil que a captura de Celso Daniel tenha sido iniciativa de uma quadrilha especializada em sequestrar pessoas de posses para obtenção de resgate. Na versão da Polícia, os sequestradores teriam confundido o prefeito com um empresário que atuava na Ceagesp. Decidiram executá-lo ao descobrir, pelo noticiário da TV, a identidade de sua presa. À época, Daniel coordenava o programa de governo do pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva e era tido já então como nome certo para o seu eventual Ministério.

Ao percorrer diligentemente os meandros da tragédia, o Ministério Público encontrou um crime dentro de outro. Tratava-se do esquema de cobrança de propina de empresas que prestavam ou desejassem prestar serviços ao município. A operação - de que o prefeito estava perfeitamente a par - era capitaneada pelo seu ex-segurança e amigo próximo Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. Daniel se insurgiu contra o esquema apenas quando soube que parte do butim era embolsada por Sérgio Gomes e associados. Todo o produto das extorsões deveria ser repassado ao PT para forrar o caixa 2 do partido.

O peculiar senso ético de Daniel - que decerto ele compartilhava com muitos companheiros, dado o que se passava e viria a se passar em outras prefeituras controladas pela legenda - custou-lhe a vida. Os procuradores apuraram que, diante da decisão do prefeito de pôr fim ao pedágio espúrio no município, Gomes resolveu eliminá-lo. A Polícia, embora dissociasse uma coisa da outra, não contestou as evidências de corrupção recolhidas pelo Ministério Público. Nem poderia.

Conforme o testemunho dos irmãos de Daniel, o Sombra entregava o dinheiro ao secretário de governo de Santo André, que se incumbia de levá-lo ao presidente do partido. O secretário era Gilberto Carvalho, que viria a ser chefe de gabinete do presidente Lula e seu mais íntimo colaborador. Ele figura como réu em um processo por improbidade administrativa no município. O presidente do PT era o deputado José Dirceu, que viria a ser o "capitão do time" de Lula. Além de ter cassado o seu mandato parlamentar, está sendo processado como principal articulador do mensalão.

No julgamento dessa semana, o promotor destacou que as somas extorquidas em Santo André se destinavam a abastecer campanhas petistas, "inclusive na primeira eleição do presidente Lula". Segundo ele, "o PT depositava todas as fichas naquela campanha. Os recursos passaram a ser captados de maneira mais portentosa". Ele abordou ainda um aspecto do caso que até aqui não parecia claro: por que, antes de matá-lo, os sequestradores torturaram o prefeito nos dois cativeiros para onde foi levado? A sua execução não seria suficiente para o que o Sombra teria pretendido?

Daniel foi seviciado, apontou Cembranelli, para que revelasse onde estava um dossiê, presumivelmente compilado por ele, "com informações contra integrantes do PT". Não se sabe o que foi feito da papelada. Mas o promotor lembrou que Gilberto Carvalho foi visto em companhia de outro petista, o vereador Klinger Sousa, saindo do apartamento do prefeito no dia seguinte ao sequestro. "Celso Daniel foi varrido por uma trama macabra", afirmou Cembranelli. "Virou obstáculo, um estorvo." Talvez não apenas para os Sombras.

Empresária que revelou propina vira ''fugitiva''

Fausto Macedo - O Estado de São Paulo

'Ando com minha malinha para um lugar e outro', diz denunciante do caso Santo André

Rosângela Gabrilli, que denunciou à promotoria o esquema de propinas na administração Celso Daniel (PT) - prefeito de Santo André morto em 2002 -, vai por aí, sem rumo certo. "É cada hora em um lugar. Ando com minha malinha para um lugar e para outro."

Na sexta-feira ela conversou por telefone com a reportagem do Estado, de algum ponto do País que não quis indicar. Como diz, isolou-se, "tamanha a frustração e a decepção com tudo".

"Tudo", ela resume, "são as autoridades, os políticos". Exclui desse rol o Ministério Público, os promotores do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado que a acolheram quando Celso Daniel foi eliminado. Soube da condenação de Marcos Roberto Bispo dos Santos, apontado como integrante do grupo que sequestrou e fuzilou o petista. Dezoito anos em regime fechado foi a pena que o júri popular decretou na quinta-feira para o réu, o primeiro de sete acusados.

"É um alívio, principalmente por constatar que a Justiça começou a ser feita", declarou Rosângela. "Há anos estava apreensiva por qualquer coisa que acontecesse. Quando o julgamento foi marcado minha esperança foi muito grande. Uma hora, afinal, tinha que acontecer. É uma vitória importante, mas temos outros passos pela frente."

Quando os bandidos crivaram de balas o prefeito, Rosângela criou coragem e tornou de conhecimento geral os métodos de uma organização que se apossou de setores da gestão municipal. "Uma corja de malfeitores alojada na administração petista", nas palavras do promotor Francisco Cembranelli.

O pai dela, empresário Luiz Alberto Ângelo Gabrilli, de 75 anos, é um homem doente. Praticamente perdeu a voz, e mal consegue se movimentar - consequências do trauma, sustos e desgostos. "Papai ficou assim depois que perdemos a Expresso Nova Santo André", conta Rosângela. "Foi quando meu pai caiu em si de que havia sido enganado, ludibriado por essa turma toda." Restou a Expresso Guarará, da qual Rosângela foi diretora por 16 anos.

"Contribuição".
Em 1997, ela depõe, a prefeitura convocou uma reunião a portas fechadas com os empresários do transporte público de Santo André. O início da trama. Daquele encontro, afirma Rosângela, participou Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, guarda costas e amigo de Celso Daniel - para o Ministério Público, Sombra foi o mandante do assassinato do prefeito que teria se insurgido contra a corrupção ao constatar que o dinheiro não ia apenas para o caixa do PT, mas também para o bolso de aliados. Roberto Podval, defensor de Sombra, afirma que ele não tem envolvimento com o caso.

"Ali foi determinada a contribuição mensal, os valores da extorsão para campanhas do PT", relata Rosângela. "Na reunião com os empresários foi estipulado um valor por ônibus. A propina variava por empresa, conforme aumentava a tarifa ia aumentando esse valor por ônibus."

Os pagamentos se sucederam até dezembro de 2001 - em janeiro do ano seguinte, Celso Daniel foi executado. "Era todo dia 30", ela afirma. "Sete empresas eram forçadas a contribuir."

Gabrilli não suportava aquela obrigação de contribuir com a corrupção e a resistência lhe custou caro. Vieram exigências contratuais, condições que golpearam o empresário e seus negócios. "Tivemos que construir um terminal na Vila Luzita", diz Rosângela. "Foi uma imposição do contrato de concessão. O problema é que a gente cumpria tudo, quem não cumpria era a prefeitura. A gente comprava ônibus novo para repor a frota, mas a administração não deixava pôr na rua. Não liberava."

"A gente tinha que entrar com mandado de segurança para colocar ônibus novo em circulação", ela conta. "Nunca vi isso. Em lugar nenhum empresário compra ônibus e não consegue pôr na rua. Não foi uma vez, foram duas vezes que recorremos à Justiça. Fomos colocados para fora."

Quando Celso Daniel foi eliminado, Rosângela apelou à promotoria e contou sua história, que resultou na abertura de muitas ações judiciais contra os antigos parceiros do petista, hoje réus por improbidade. Ela repudia o fato de nenhuma dessas ações ter chegado ao seu final. "É desestimulante, são oito anos já. É doído ver o quanto demora para as coisas acontecerem nesse País. Difícil aceitar uma lentidão tão grande em um caso importante e com provas tão cabais."

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Família Gabrilli sofre até hoje os efeitos do caso Celso Daniel
O Estado de São Paulo

Tantos problemas e tanta pressão puseram de joelhos a família Gabrilli. Em 2009, Luiz Alberto Ângelo Gabrilli, o patriarca, vendeu sua parte na Expresso Guarará. Beto, seu filho, foi tocar outros negócios. Rosângela, a filha, partiu. "Parei, eu me desgastei demais com tudo isso, sofri demais", ela diz. "Perdi minha vida. Quero me reencontrar. Perdemos a motivação, o sentido de tudo isso depois de quase 40 anos de trabalho."

Aos 55 anos, ela não tem um endereço fixo. Quer ficar na estrada por uns tempos. "Fico um pouco em cada lugar, na casa de amigos. É uma peregrinação, enquanto essa história não tiver um fim. Sei que a minha segurança é muito delicada e eu tenho que me preservar porque tenho três filhos."

Nos tempos de boa saúde financeira, a Expresso Nova Santo André chegou a ter 80 veículos na rua. Rosângela cresceu nas empresas. "Eu brincava de boneca dentro dos ônibus. Eu quero dizer que papai é um grande homem, um grande caráter."

Ela não pensa em retornar a São Paulo. "Eu ouvia muito dessa turma de Santo André que o poder tudo pode. Eu ouvia deles que para o poder não existe lei. Sempre fui muito revoltada com tudo isso, com o esquema, a extorsão."

Um editorial delirante e provinciano do JB

Adelson Elias Vasconcellos

Ontem, publicamos texto de uma reportagem do diário inglês, Financial Times, no qual se alertava para o problema dos aeroportos brasileiros, inclusive apontando alguns erros e falhas que, se corrigidos a tempo, evitariam o país de um vexame nos megaeventos programados para o país, a saber, a Copa do Mundo em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. Mesmo que o jornal inglês não tenha mencionado, antes destes dois acontecimentos, teremos, já em 2013, a Copa das Confederações, para qual o país assumiu o compromisso de poder oferecer 2/3 da estrutura necessária para a realização da Copa do Mundo, no ano seguinte, disponível e concluída.

Ora, este é um problema que chama a atenção não apenas da mídia internacional: dirigentes da FIFA estão desolados com o ritmo lento com que o Brasil está se preparando para acolher o fluxo de turistas que se espera para os três megaeventos.

Ontem, também, publicamos um relatório do site Contas Abertas dando conta de que, apesar da provisão de recursos, as obras insistem em não sair do papel.

Pois bem: eis que, hoje, domingo, o JB Digital, resolveu tomar as dores do governo, e rebater a reportagem do Financial Times. Deveriam, contudo, antes de sair chutando o balde sem mais nem porque, terem lido relatório da própria ANAC preocupado com o movimento dos aeroportos, não a partir de 2013, mas já a partir do final deste ano. Se o fizessem, por certo, se conteriam um pouco neste nacionalismo debiloide e provinciano, de se condoerem com a crítica mais do merecida para a falta de estrutura aeroportuária brasileira, que não de hoje, mas já de alguns anos vive um caos terrível, trazendo dor de cabeça para nós brasileiros, usuários costumeiros de aeroportos congestionados, sem condições mínima de atendimento, e isto que operam na sua capacidade limite. O pior destas encrenca é que não se vê nem da parte do governo Lula, principal responsável pela situação chegar ao ponto extremo em que chegou, mas do ponto de vista de programa de governo, não há da parte da futura presidente, a menor preocupação.

A batatada do JB já começa com a seguinte afirmação: “Sem o modelo colonialista e com territórios diminutos, certos países europeus não têm a força do Brasil”.

Pera lá, meu chapa: ninguém discute nem tamanho de território, tampouco mais força, menos força. Acontece que o Brasil se candidatou a ser sede de eventos em escala mundial, gastou rios de dinheiro saídos dos bolsos dos contribuintes para apresentar suas “virtudes” e provar ao mundo que estava mais habilitado do que todos os demais países candidatos a sediar estes eventos. Portanto, assumiu compromissos com a comunidade internacional e deve cumprir tais compromissos justamente para não pagar vexame e constranger seu povo. O começo da coisa tem que ser por aí.

O editorial peca ao partir para uma ofensa descabida em relação ao chefe da Associação Internacional de Transporte Aéreo ao qual o Brasil se acha ligado, ao tratá-lo como “um certo” Giovanni Bisignani. Ocorre que este senhor representa uma associação que tem o poder de vetar qualquer voo de escala internacional para o Brasil. A IATA, senhores, tem mais poderes que a nossa Infraero e Anac juntas, e não se trata de entidade fantasmas, ela é respeitada no mundo civilizado por aquilo que representam, sem favores de quem quer que seja.

De mais a mais, as críticas feitas ao sistema aeroportuário não destoam em nada das mesmas críticas que, internamente, todos os brasileiros fazem há pelo menos cinco anos. E não se trata como o Editorial acusa de “uma suposta inadequação” coisíssima nenhuma. O sistema aéreo brasileiro não está, "apenas" inadequado, está virado num caos. Ou os senhores do JB me apontem um brasileiro normal que esteja “feliz” com o inferno diário que precisa enfrentar nos nossos aeroportos? Talvez nossas autoridades, mas a opinião destas não vale um tostão furado, uma vez que seus embarques se fazem de forma “preferencial”, sem precisarem enfrentar filas, demoras, mau atendimento, falta de informação, atrasos, ou aguardando intermináveis horas nos chek-in das companhias aéreas.

Falei do relatório da ANAC, não é? Pois bem, o Estadão publicou uma reportagem em sua edição de hoje, do qual extraio o texto a seguir (veja íntegra na reportagem do Estadão, post abaixo). Depois retorno para concluir.

RIO - A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) convocou para segunda-feira uma reunião, em regime de urgência, com os presidentes das principais companhias aéreas, além de representantes da Infraero, Polícia Federal, Receita Federal e Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

A agência está preocupada com o risco de problemas nos aeroportos em dezembro, durante as festas de fim de ano. Os executivos que comandam Gol, TAM, Webjet e Avianca confirmaram presença, e a Azul deve enviar seu diretor de operações.

O receio desta vez não é a repetição do caos no controle de voo, como ocorreu em 2006, no rastro do desastre do Boeing da Gol.

O risco vem da combinação de três fatores: a afluência em massa de passageiros estreantes, vindos da nova classe média; a venda de passagens além da capacidade das companhias, e o despreparo dos aeroportos em receber usuários que desconhecem os procedimentos de embarque.

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Retorno:
O Editorial, tentando talvez agradar ao governo de plantão para ser agraciado com alguma recompensa de curto prazo, a certa altura, acrescenta ao seu mal estar com a crítica, o seguinte:

Na condição de nação emergente, o Brasil já deu a partida em várias obras para receber bem os turistas que virão do mundo inteiro assistir às competições. No cronograma de ação, estão incluídos os aeroportos, assim como os corredores de transporte terrestre.

Com seu Produto Interno Bruto crescendo a níveis chineses e triscando nos 7% ao ano, parece hoje, no entanto, muito mais fácil para o Brasil realizar reestruturações de vulto do que alguns países europeus, prejudicados por não contarem mais com o modelo econômico colonialista e pelas dimensões relativamente diminutas de seus territórios em comparação com o do maior país da América do Sul.

Primeiro: a crítica do jornal inglês se faz aos aeroportos. Mal sabem eles o desespero que será capacitar a rede hoteleira, cujos empreendimentos estão ainda nas pranchetas dos projetistas.

Segundo, mesmo que este ano feche em 8% o crescimento do PIB, qualquer estagiário de Economia sabe que o país não tem capacidade de sustentar este crescimento no tempo que nos separa tanto da Copa quanto da Olimpíada. A tal ponto que o próprio governo projeta crescimentos em torno de 5% ao ano, e olhe lá. Terceiro: a infraestrutura brasileira, como um todo, está em frangalhos faz anos. Sua recuperação não apenas demanda recursos volumosos, que não temos na quantidade suficiente, mas também tempo de realização do quanto é preciso fazer. Sabendo-se como a burocracia brasileira é competente em emperrar obras públicas, seria preciso uma enorme revolução legal para afastar as dezenas de obstáculos para se dar início as obras previstas.

Quarto: os mega projetos previstos, como o tal trem bala, melhor faríamos se adotássemos outros procedimentos, do que nos metermos nesta aventura para a qual vai se investir uma verba colossal e, o que é pior, sem a competente viabilidade econômica capaz de garantir retorno do investimento. Delírio puro, caro e desnecessário. E para piorar: sequer será concluído até a Copa do Mundo de 2014!

Quinto: este tipo cretino afirmação “colonialismo econômico”, demonstra bem o “pensamento fidalgo” de quem redigiu a baboseira que o jornal assina e endossa. Ou será que já esqueceram do que foi o PAN, no Rio, em 2007, orçamento que começou em R$ 400,0 milhões e terminou além de R$ 3,0 bilhões, afora a vigarice toda que se cometeu, que o TCU acusou, e que as autoridades “competentes” fizeram questão de impedir as investigações!? E de tudo o que se construiu, o que, de fato, está sendo usado? O Estádio do Engenhão, que nem bem completou três anos de construção, e já apresenta várias fissuras em sua estrutura? É a esta competência que o JB quer se referir? Reparem bem: estamos há menos de três anos para a Copa das Confederações e sequer temos construído, tampouco DEFINIDO, onde se realizará o jogo inaugural do evento!!! O Itaquerão, previsto após os conchavos de bastidores entre o presidente André Sanchez, do Coríntians, e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, devidamente escudados pelo governo federal, tem um projeto para 45 mil torcedores. Pois bem, o estádio do jogo inaugural requer 65 mil torcedores. E aí, quem vai bancar a diferença de projeto? E uma vez definido o projeto, quando começam, de fato, as obras e em quanto tempo será possível construir o estádio e as obras de entorno exigidas pela FIFA?

Melhor faria a turma do JB que ficou ofendidinha com a crítica se, antes, interessada em que o país cumprisse condignamente o compromisso que assumiu para com a comunidade desportiva mundial, cobrasse maior agilidade por parte das autoridades na execução dos cronogramas, porque, se outros países precisaram investir pesado para atender os encargos exigidos para sediar os dois eventos, por outro lado, não tinham as enormes carências tanto de infraestrutura quanto de instalações desportivas que o Brasil possui. E, além disto, tinham o capital financeiro que não temos. E não podemos esperar passar tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas, para atendermos as necessidades do país no campo da saúde pública, trânsito e segurança, que está matando mais do que todas as guerras mundiais juntas.

Está na hora deste povo que se diz jornalista, que defendem a independência de opinião para si, respeitar também a opinião alheia que, muito antes de nos ofender, nos faz é um favor em nos alertar , até por experiência própria, para os problemas reais com os quais o descaso e o despropósito representam, indiscutivelmente, a real ameaça para o vexame que podemos pagar perante o mundo. Que se enterre de vez este discurso provinciano de um falso “nacionalismo”. Não será com discurso hipócrita e demagógico que salvaremos a nossa cara.Temos que aprender muito com as nações que já vivenciaram momentos como os que o Brasil vai sediar.

Assim, melhor faria o JB se prestasse mais atenção às nossas mazelas, realidades e necessidades, do que perder tempo escrevendo tolices para agradar aqueles para quem deveriam, antes de tudo, cobrar ações concretas e competentes, porque, gostem ou não, é justamente isto que está faltando ao governo federal: cobrança maior por parte sociedade. E, considerando tanto o cenário do que é preciso fazer, como os recursos de que dispomos para bancar estas realizações, sem, por outro lado, nos descuidarmos das demais necessidades e carências vividas pela grande e imensa maioria da população, convenhamos, que falar apenas dos aeroportos, até que o Financial Times foi muito condescendente para com o Brasil. Merecíamos crítica bem mais contundente. Porque, apesar do JB tentar mascarar a realidade, se viajasse pelo país, olhando detalhadamente cada subsede que abrigará jogos da Copa, por exemplo, perceberia o ridículo do que acabou escrevendo. A começar pelos próprios aeroportos,  que visitasse cada um, embarcasse e desembarcasse. E de tudo o que diário inglês escreveu e apontou em seu texto crítico, desafio o JB a provar qual vírgula está fora do lugar. Todo o texto é um relato mais do que conhecido dos brasileiros, porque somos nós que enfrentamos diariamente o inferno de frequentar aeroportos incapazes de atender condignamente seus usuários, e isto só com a demanda atual. E o que é pior: durante as imensas horas de espera, não encontramos um único operário trabalhando nas tais obras de ficção que o JB imaginou estarem em andamento. Alias, ao longo da semana, retornarei ao assunto Copa e Olimpíada. Há muito mais coisas com que devemos nos preocupar, além dos aeroportos.