Adelson Elias Vasconcellos
Ontem, publicamos texto de uma reportagem do diário inglês, Financial Times, no qual se alertava para o problema dos aeroportos brasileiros, inclusive apontando alguns erros e falhas que, se corrigidos a tempo, evitariam o país de um vexame nos megaeventos programados para o país, a saber, a Copa do Mundo em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. Mesmo que o jornal inglês não tenha mencionado, antes destes dois acontecimentos, teremos, já em 2013, a Copa das Confederações, para qual o país assumiu o compromisso de poder oferecer 2/3 da estrutura necessária para a realização da Copa do Mundo, no ano seguinte, disponível e concluída.
Ora, este é um problema que chama a atenção não apenas da mídia internacional: dirigentes da FIFA estão desolados com o ritmo lento com que o Brasil está se preparando para acolher o fluxo de turistas que se espera para os três megaeventos.
Ontem, também, publicamos um relatório do site Contas Abertas dando conta de que, apesar da provisão de recursos, as obras insistem em não sair do papel.
Pois bem: eis que, hoje, domingo, o JB Digital, resolveu tomar as dores do governo, e rebater a reportagem do Financial Times. Deveriam, contudo, antes de sair chutando o balde sem mais nem porque, terem lido relatório da própria ANAC preocupado com o movimento dos aeroportos, não a partir de 2013, mas já a partir do final deste ano. Se o fizessem, por certo, se conteriam um pouco neste nacionalismo debiloide e provinciano, de se condoerem com a crítica mais do merecida para a falta de estrutura aeroportuária brasileira, que não de hoje, mas já de alguns anos vive um caos terrível, trazendo dor de cabeça para nós brasileiros, usuários costumeiros de aeroportos congestionados, sem condições mínima de atendimento, e isto que operam na sua capacidade limite. O pior destas encrenca é que não se vê nem da parte do governo Lula, principal responsável pela situação chegar ao ponto extremo em que chegou, mas do ponto de vista de programa de governo, não há da parte da futura presidente, a menor preocupação.
A batatada do JB já começa com a seguinte afirmação: “Sem o modelo colonialista e com territórios diminutos, certos países europeus não têm a força do Brasil”.
Pera lá, meu chapa: ninguém discute nem tamanho de território, tampouco mais força, menos força. Acontece que o Brasil se candidatou a ser sede de eventos em escala mundial, gastou rios de dinheiro saídos dos bolsos dos contribuintes para apresentar suas “virtudes” e provar ao mundo que estava mais habilitado do que todos os demais países candidatos a sediar estes eventos. Portanto, assumiu compromissos com a comunidade internacional e deve cumprir tais compromissos justamente para não pagar vexame e constranger seu povo. O começo da coisa tem que ser por aí.
O editorial peca ao partir para uma ofensa descabida em relação ao chefe da Associação Internacional de Transporte Aéreo ao qual o Brasil se acha ligado, ao tratá-lo como “um certo” Giovanni Bisignani. Ocorre que este senhor representa uma associação que tem o poder de vetar qualquer voo de escala internacional para o Brasil. A IATA, senhores, tem mais poderes que a nossa Infraero e Anac juntas, e não se trata de entidade fantasmas, ela é respeitada no mundo civilizado por aquilo que representam, sem favores de quem quer que seja.
De mais a mais, as críticas feitas ao sistema aeroportuário não destoam em nada das mesmas críticas que, internamente, todos os brasileiros fazem há pelo menos cinco anos. E não se trata como o Editorial acusa de “uma suposta inadequação” coisíssima nenhuma. O sistema aéreo brasileiro não está, "apenas" inadequado, está virado num caos. Ou os senhores do JB me apontem um brasileiro normal que esteja “feliz” com o inferno diário que precisa enfrentar nos nossos aeroportos? Talvez nossas autoridades, mas a opinião destas não vale um tostão furado, uma vez que seus embarques se fazem de forma “preferencial”, sem precisarem enfrentar filas, demoras, mau atendimento, falta de informação, atrasos, ou aguardando intermináveis horas nos chek-in das companhias aéreas.
Falei do relatório da ANAC, não é? Pois bem, o Estadão publicou uma reportagem em sua edição de hoje, do qual extraio o texto a seguir (veja íntegra na reportagem do Estadão, post abaixo). Depois retorno para concluir.
RIO - A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) convocou para segunda-feira uma reunião, em regime de urgência, com os presidentes das principais companhias aéreas, além de representantes da Infraero, Polícia Federal, Receita Federal e Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).
A agência está preocupada com o risco de problemas nos aeroportos em dezembro, durante as festas de fim de ano. Os executivos que comandam Gol, TAM, Webjet e Avianca confirmaram presença, e a Azul deve enviar seu diretor de operações.
O receio desta vez não é a repetição do caos no controle de voo, como ocorreu em 2006, no rastro do desastre do Boeing da Gol.
O risco vem da combinação de três fatores: a afluência em massa de passageiros estreantes, vindos da nova classe média; a venda de passagens além da capacidade das companhias, e o despreparo dos aeroportos em receber usuários que desconhecem os procedimentos de embarque.
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Retorno:
O Editorial, tentando talvez agradar ao governo de plantão para ser agraciado com alguma recompensa de curto prazo, a certa altura, acrescenta ao seu mal estar com a crítica, o seguinte:
Na condição de nação emergente, o Brasil já deu a partida em várias obras para receber bem os turistas que virão do mundo inteiro assistir às competições. No cronograma de ação, estão incluídos os aeroportos, assim como os corredores de transporte terrestre.
Com seu Produto Interno Bruto crescendo a níveis chineses e triscando nos 7% ao ano, parece hoje, no entanto, muito mais fácil para o Brasil realizar reestruturações de vulto do que alguns países europeus, prejudicados por não contarem mais com o modelo econômico colonialista e pelas dimensões relativamente diminutas de seus territórios em comparação com o do maior país da América do Sul.
Primeiro: a crítica do jornal inglês se faz aos aeroportos. Mal sabem eles o desespero que será capacitar a rede hoteleira, cujos empreendimentos estão ainda nas pranchetas dos projetistas.
Segundo, mesmo que este ano feche em 8% o crescimento do PIB, qualquer estagiário de Economia sabe que o país não tem capacidade de sustentar este crescimento no tempo que nos separa tanto da Copa quanto da Olimpíada. A tal ponto que o próprio governo projeta crescimentos em torno de 5% ao ano, e olhe lá. Terceiro: a infraestrutura brasileira, como um todo, está em frangalhos faz anos. Sua recuperação não apenas demanda recursos volumosos, que não temos na quantidade suficiente, mas também tempo de realização do quanto é preciso fazer. Sabendo-se como a burocracia brasileira é competente em emperrar obras públicas, seria preciso uma enorme revolução legal para afastar as dezenas de obstáculos para se dar início as obras previstas.
Quarto: os mega projetos previstos, como o tal trem bala, melhor faríamos se adotássemos outros procedimentos, do que nos metermos nesta aventura para a qual vai se investir uma verba colossal e, o que é pior, sem a competente viabilidade econômica capaz de garantir retorno do investimento. Delírio puro, caro e desnecessário. E para piorar: sequer será concluído até a Copa do Mundo de 2014!
Quinto: este tipo cretino afirmação “colonialismo econômico”, demonstra bem o “pensamento fidalgo” de quem redigiu a baboseira que o jornal assina e endossa. Ou será que já esqueceram do que foi o PAN, no Rio, em 2007, orçamento que começou em R$ 400,0 milhões e terminou além de R$ 3,0 bilhões, afora a vigarice toda que se cometeu, que o TCU acusou, e que as autoridades “competentes” fizeram questão de impedir as investigações!? E de tudo o que se construiu, o que, de fato, está sendo usado? O Estádio do Engenhão, que nem bem completou três anos de construção, e já apresenta várias fissuras em sua estrutura? É a esta competência que o JB quer se referir? Reparem bem: estamos há menos de três anos para a Copa das Confederações e sequer temos construído, tampouco DEFINIDO, onde se realizará o jogo inaugural do evento!!! O Itaquerão, previsto após os conchavos de bastidores entre o presidente André Sanchez, do Coríntians, e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, devidamente escudados pelo governo federal, tem um projeto para 45 mil torcedores. Pois bem, o estádio do jogo inaugural requer 65 mil torcedores. E aí, quem vai bancar a diferença de projeto? E uma vez definido o projeto, quando começam, de fato, as obras e em quanto tempo será possível construir o estádio e as obras de entorno exigidas pela FIFA?
Melhor faria a turma do JB que ficou ofendidinha com a crítica se, antes, interessada em que o país cumprisse condignamente o compromisso que assumiu para com a comunidade desportiva mundial, cobrasse maior agilidade por parte das autoridades na execução dos cronogramas, porque, se outros países precisaram investir pesado para atender os encargos exigidos para sediar os dois eventos, por outro lado, não tinham as enormes carências tanto de infraestrutura quanto de instalações desportivas que o Brasil possui. E, além disto, tinham o capital financeiro que não temos. E não podemos esperar passar tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas, para atendermos as necessidades do país no campo da saúde pública, trânsito e segurança, que está matando mais do que todas as guerras mundiais juntas.
Está na hora deste povo que se diz jornalista, que defendem a independência de opinião para si, respeitar também a opinião alheia que, muito antes de nos ofender, nos faz é um favor em nos alertar , até por experiência própria, para os problemas reais com os quais o descaso e o despropósito representam, indiscutivelmente, a real ameaça para o vexame que podemos pagar perante o mundo. Que se enterre de vez este discurso provinciano de um falso “nacionalismo”. Não será com discurso hipócrita e demagógico que salvaremos a nossa cara.Temos que aprender muito com as nações que já vivenciaram momentos como os que o Brasil vai sediar.
Assim, melhor faria o JB se prestasse mais atenção às nossas mazelas, realidades e necessidades, do que perder tempo escrevendo tolices para agradar aqueles para quem deveriam, antes de tudo, cobrar ações concretas e competentes, porque, gostem ou não, é justamente isto que está faltando ao governo federal: cobrança maior por parte sociedade. E, considerando tanto o cenário do que é preciso fazer, como os recursos de que dispomos para bancar estas realizações, sem, por outro lado, nos descuidarmos das demais necessidades e carências vividas pela grande e imensa maioria da população, convenhamos, que falar apenas dos aeroportos, até que o Financial Times foi muito condescendente para com o Brasil. Merecíamos crítica bem mais contundente. Porque, apesar do JB tentar mascarar a realidade, se viajasse pelo país, olhando detalhadamente cada subsede que abrigará jogos da Copa, por exemplo, perceberia o ridículo do que acabou escrevendo. A começar pelos próprios aeroportos, que visitasse cada um, embarcasse e desembarcasse. E de tudo o que diário inglês escreveu e apontou em seu texto crítico, desafio o JB a provar qual vírgula está fora do lugar. Todo o texto é um relato mais do que conhecido dos brasileiros, porque somos nós que enfrentamos diariamente o inferno de frequentar aeroportos incapazes de atender condignamente seus usuários, e isto só com a demanda atual. E o que é pior: durante as imensas horas de espera, não encontramos um único operário trabalhando nas tais obras de ficção que o JB imaginou estarem em andamento. Alias, ao longo da semana, retornarei ao assunto Copa e Olimpíada. Há muito mais coisas com que devemos nos preocupar, além dos aeroportos.