segunda-feira, novembro 22, 2010

Um governo se julga pelo resultado, não pela propaganda e discurso

Adelson Elias Vasconcellos

Sempre disse aqui que um governo, qualquer governo, não pode ser julgado pelo discurso de seus protagonistas, nem pela propaganda colorida que faz de si mesmo. Como todo o autorretrato é colorido, resulta que o discurso e a propaganda sempre se revestem de mentiras e empulhações.

E isto vale não apenas para governos, mas para todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas, não importa. Vale, enfim, para o julgamento das ações de qualquer ser humano. Não por outra coisa que se diz, popularmente, que de boas intenções o inferno está cheio.

Assim, jamais pautei meu senso crítico em relação ao governo Lula pelos discursos do petista, ou pela publicidade oficiosa, cheia de uma fantasia que não combina com a realidade do país. Como ainda, jamais me fixei nos quadros dos grandes centros urbanos, onde os recursos para melhoria da vida das pessoas são abundantes e elas, sempre, tem melhor preparo para se conduzirem.

É nos grotões, nas periferias, e nos serviços que são oferecidos a estas comunidades carentes que prefiro avaliar se Lula foi o governante que diz ter sido, ou tudo não passa de pura cascata.

Ontem, no artigo com que fechei a edição do dia, mesmo que em tom carregado de ironia, questionava já no título: Afinal, o que é feito do dinheirão que o governo tira da sociedade? Colocava a questão nestes termos, justamente, por avaliar o Brasil que Lula recebera de FHC com aquele que ele irá entregar à sua sucessora. E não uma avaliação apenas numérica, mas pelo ambiente institucional que se criou nestes últimos oito anos. E olhem que na avaliação, até deixo de lado a vergonhosa política externa de Lula, onde só cabe indignação nossa, humilhação diante das nações sérias que há no mundo, e vergonha suprema para o país diante da comunidade internacional.

Coincidentemente, o jornal O Globo em sua edição de domingo, nos traz um excelente texto cuja leitura deveria ser obrigatória para todos aqueles que estão em volta da futura presidente, inclusive a própria, que afirmou que estará recebendo uma herança “bendita”. Será?

Bem, na questão econômica, já se sabe, a coisa não é bem assim, já que qualquer mal passo produzirá um efeito devastador na decantada estabilidade econômica, que Lula, por covardia e incompetência, não quis dar a sustentabilidade necessária. Não quis pagar o preço político que deveria pelas reformas que deixou de lado e que, goste-se ou não, são verdadeiras ameaças ao crescimento do país. Louvam os puxa sacos de ocasião, doidos por serem contemplados no futuro governo com alguma boquinha rica, onde se ganha muita grana da sociedade, sem se precisar ter competência nem desenvolver o menor esforço, que o país crescerá perto de 8% neste ano, como nunca dantes, esquecendo de avaliar em que base este crescimento está se dando. Primeiro, não é sustentável ao longo do tempo, sequer no próximo ano. Segundo, outros países da América Latina, com menor expressão, riquezas e potencialidades, cresceram e crescerão bem mais do que o Brasil. Querem números? Vamos a eles, então:

a.- Média de crescimento do PIB nos últimos dez anos:
1.- Peru – 5,1%
2.- Colômbia – 3,7 %
3.- Chile – 3,6%
4.- Argentina – 3,5%
5.- Brasil – 3,2%

b.- Crescimento do PIB estimado para 2010:
1.- Paraguai – 8,9%
2.- Uruguai – 8,4%
3.- Peru – 8,2%
4.- Brasil – 7,5%
5.- Argentina – 7,4%

Olhando-se agora para o próprio umbigo, isto é, confrontando-se o Brasil com ele mesmo, vemos que o quadro da saúde e da educação, apesar do crescimento econômico, apesar dos volumes arrecadados da arrecadação federal, batendo recordes atrás de recordes históricos, o governo Lula avançou muito timidamente, e considerando-se o crescimento do PIB, associado ao aumento populacional, praticamente se mantém estagnado nestes dois campos prioritários para qualquer governo, quanto mais aquele que se auto proclama como o mais social de todos os tempos.

Nossos indicadores, quando são confrontados com os de outros países emergentes, nas áreas de educação, principalmente, são vexatórios. Há algum tempo atrás, divulgou-se uma pesquisa em que se apontava que 72% da população brasileira estava satisfeita com a educação que seus filhos recebiam nas escolas públicas. Este número não poderia mesmo ser diferente: ocorre que, 78% desta mesma população, segundo o IPEA, é analfabeta funcional. Para eles, se a escola oferece merenda e transporte escolar, além de livros didáticos, e o prédio não está caindo aos pedaços, parece que tudo vai bem. Ninguém se preocupa em saber se a qualidade de ensino que seus filhos recebem está de acordo, ao menos, com as necessidades do mundo moderno. Já nem entro no mérito de se considerar a educação como valor tanto da sociedade, e claro, do próprio indivíduo. E como iriam julgar estes pais e mães dado seu total desconhecimento do que seja um ensino de qualidade? E mais: quando a média de escolaridade para pessoas com mais de 25 anos no Brasil é de 7,2 anos, número igual ao registrado no Zimbábue, país com o pior IDH do ranking, por favor, não me venham com o papo furado de que este foi o governo do social ou com aquela cretinice de “Lula, o pai dos pobres”. Sabem todos que a melhor herança que um verdadeiro pai pode deixar para seus filhos é a educação. Com o indicador acima equiparado ao Zimbábue, convenhamos, ninguém precisa de um pai tão desalmado e irresponsável assim. Da mesma forma, a maior revolução social que Lula deveria ter promovido, capaz de garantir e sustentar um futuro promissor para o país, seria no campo da educação, coisa da qual ele passou muito longe de fazê-lo e obtê-lo.

Agora voltando à reportagem do o Jornal O Globo (reproduzido abaixo), vejam lá em que o governo Lula se esmerou em aplicar a bolada de dinheiro arrecadado da sociedade. Reparem o quanto é falaciosa a propalada “prioridade” social do governo. Gastou-se mais em "outras despesas" do que em educação e em saúde, que praticamente se mantiveram no mesmo patamar de investimentos ao longo do tempo. E não só isso: sempre digo que o problema brasileiro não é falta de recursos, e sim de competência na sua aplicação. Vejam na reportagem a crítica feita à gestão da saúde e concluam por si mesmos.

Portanto, quando se tratar de avaliar o governo Lula é bom que deixemos de lado o discurso e a propaganda. Elas indicam um país diferente, muito diferente do Brasil real. E atenção: nos próximos quatro anos, não teremos a parceria da economia mundial para nos empurrar como no período de 2003 a 2008, sob o governo Lula. Assim, o que se deixou de fazer é oportunidade perdida mesmo, lamentavelmente.

Também devo citar a corrupção como elemento marcante deste governo. E quando falo em corrupção, gostaria de encerrar com um dado curioso sobre o período Lula. De 2003 até esta data, foram promovidas pelo governo federal 72 conferências nacionais inspiradas nos mais diversos temas. Todas elas foram eventos pagos com dinheiro do contribuinte. Em tese, deveriam discutir propostas para aprimorar políticas públicas e a legislação em benefício do país. O resultado de tantos encontros, porém, é decepcionante. Eventos mais radicais, como a conferência de comunicações e a de direitos humanos, produziram iniquidades como a proposta de controle da mídia e a tolerância do Estado com as invasões do MST. Por outro lado, uma conferência de suma importância para o país, e que deveria discutir o combate à corrupção, foi esquecida. Em 2009, o governo se comprometeu com sua realização, mas ela nunca se concretizou. Por que será?

Assim, fica claro que, mais do que tudo, os indicadores finais apresentados por um governo, devidamente comparados com os mesmos indicadores de seu início, é o balanço que interessa. Neste sentido, deveria Dilma Rousseff precaver-se mais: a herança que julga bendita, é mais venenosa do que ela imagina. Só espero que seu julgamento não tenha sido feito com base nos discursos mentirosos do padrinho, tampouco com a propaganda enganosa dos marqueteiros pagos pelo governo, com o nosso dinheiro, claro. E, fica a pergunta: afinal, o que governo fez do dinheiro que arrebanhou da sociedade?