segunda-feira, junho 07, 2021

The Economist: Bolsonaro não é única razão de o Brasil estar no buraco

 The Economist, 

O Estado de S.Paulo

O sistema político que o ajudou a conquistar o cargo precisa de uma reforma profunda; próximo governo deve combater a corrupção sem preconceitos

  Foto: Evaristo Sá/ AFP 

Jair Bolsonaro, presidente da República 

Os hospitais estão lotados, as favelas ecoam tiros e um recorde de 14,7% dos trabalhadores estão desempregados. Inacreditavelmente, a economia do Brasil está menor agora do que era em 2011 – e serão necessários muitos trimestres fortes como o relatado em 1.º de junho para reparar sua reputação. O número de mortos no Brasil pela covid-19 é um dos piores do mundo. Mas o presidente Jair Bolsonaro faz piada dizendo que as vacinas podem transformar as pessoas em jacarés.

O declínio do Brasil foi chocantemente rápido. Após a ditadura militar de 1964-85, o país conseguiu uma nova Constituição que devolvia o Exército aos quartéis, uma nova moeda que acabou com a hiperinflação e programas sociais que, com um boom de commodities, começaram a reduzir a pobreza e a desigualdade. Uma década atrás, o País estava cheio de dinheiro do petróleo e tinha sido escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Parecia destinado a florescer.

Mas o Brasil não aproveitou a oportunidade. Como argumenta nossa reportagem especial desta semana, governos consecutivos cometeram três erros. Primeiro, eles cederam à visão de curto prazo e adiaram as reformas econômicas liberais. A culpa por isso pertence principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT), que ocupou a Presidência entre 2003-16. Ele alcançou um crescimento de 4% ao ano, mas não investiu para aumentar a produtividade. Quando os preços das commodities caíram, o Brasil enfrentou uma das piores recessões de sua história. Os governos de Michel Temer e Bolsonaro fizeram algum progresso nas reformas, mas pararam muito aquém do que é necessário.

Em segundo lugar, em seus esforços para se protegerem das consequências da Lava Jato, os políticos têm resistido às reformas que impediriam a corrupção. Os promotores e juízes por trás da Lava Jato são parcialmente culpados. Depois que alguns demonstraram ter uma agenda política, os inquéritos dos quais eram responsáveis ficaram estagnados no Congresso e nos tribunais.

Por último, o sistema político do Brasil é um fardo. Distritos estaduais e 30 partidos no Congresso tornam as eleições caras. Mais ainda do que em outros países, os políticos no Brasil tendem a apoiar projetos extravagantes para ganhar votos, em vez de reformas valiosas de longo prazo. Uma vez no cargo, eles seguem as regras erradas que os elegeram. Eles desfrutam de privilégios legais que os tornam difíceis de serem processados e de uma grande quantidade de dinheiro para ajudá-los a manter o poder. Como resultado, os brasileiros os desprezam. Em 2018, apenas 3% disseram confiar “muito” no Congresso.

A desilusão abriu o caminho para Bolsonaro. Ex-capitão do Exército com uma queda pela ditadura, ele convenceu os eleitores a verem seu jeito politicamente incorreto como um sinal de autenticidade. Ele prometeu eliminar políticos corruptos, reprimir o crime e turbinar a economia. E tem fracassado em todas as três tarefas.

Depois de aprovar a reforma da previdência em 2019, ele abandonou a agenda de seu ministro da Economia liberal, temendo que ela lhe custasse votos. A reforma tributária e do setor público e as privatizações estagnaram. O auxílio emergencial ajudou a evitar a pobreza no início da pandemia, mas foi reduzido no final de 2020 em razão do aumento da dívida. A taxa de desmatamento na Amazônia aumentou mais de 40% desde que Bolsonaro assumiu o cargo. Ele levou uma motosserra para o Ministério do Meio Ambiente, cortando seu orçamento e forçando a saída de funcionários. Seu ministro do Meio Ambiente está sob investigação por tráfico de madeira.

Em relação à covid-19, Bolsonaro apoiou manifestações contra os bloqueios totais e curas de charlatões. Ele enviou aviões carregados de hidroxicloroquina para povos indígenas. Por seis meses ele ignorou ofertas de vacinas. Um estudo descobriu que o atraso pode ter custado 95 mil vidas.

Em vez de lidar com a corrupção, ele protegeu seus aliados. Em abril de 2020, demitiu o chefe da Polícia Federal, que investiga os filhos dele por corrupção. Seu ministro da Justiça pediu demissão, acusando-o de obstrução da justiça. Dias antes, Bolsonaro havia ameaçado a independência do Supremo Tribunal Federal (STF). Em fevereiro, seu procurador-geral acabou com a força-tarefa da Lava Jato.

A democracia brasileira está mais frágil do que em qualquer momento desde o fim da ditadura. Em março, Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa, que se recusou a enviar o Exército às ruas para forçar a reabertura de empresas. Se ele perder a reeleição em 2022, alguns acham que ele pode não aceitar o resultado. Ele lançou dúvidas em relação ao voto eletrônico, aprovou decretos para “armar a população” e se gabou de que “só Deus” o tirará da cadeira presidencial.

Impeachment

Na verdade, o Congresso brasileiro poderia fazer o trabalho sem a intervenção divina. Sua conduta provavelmente se qualifica como passível de impeachment, incluindo “crimes de responsabilidade”, como encorajar as pessoas a desafiar os bloqueios totais, ignorar ofertas de vacinas e demitir funcionários para proteger seus filhos. O Congresso recebeu 118 petições de impeachment. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em 29 de maio para exigir sua expulsão do cargo.

Por enquanto, ele tem apoio suficiente no Congresso para impedir o impeachment. Além disso, o vice-presidente, que assumiria, é um general também nostálgico do regime militar. A última vez que o Congresso votou pelo impeachment de um presidente no Brasil – Dilma Rousseff em 2016 por esconder o tamanho do déficit orçamentário – isso dividiu o País. Bolsonaro se apresentaria como um mártir. Muitos de seus apoiadores estão armados.

No longo prazo, além de substituir Bolsonaro, o Brasil deve lidar com o cinismo e o desespero que o elegeu, enfrentando o baixo crescimento crônico e a desigualdade. Isso exigirá uma reforma dramática. No entanto, a própria resiliência que protegeu as instituições brasileiras das predações de um populista também as torna resistentes a mudanças benéficas.

As ações necessárias são difíceis. Acima de tudo, o governo precisa servir ao público e não a si mesmo. Isso significa reduzir os privilégios dos trabalhadores do setor público, que consomem uma parcela insustentável dos gastos do governo. Os políticos também não devem poupar a si mesmos. Os titulares de cargos devem ter menos proteções legais. Eles deveriam reorganizar os sistemas eleitoral e partidário para deixar sangue novo entrar no Congresso.

O próximo governo deve combater a corrupção sem preconceitos, conter gastos desnecessários e aumentar a competitividade. A aplicação de medidas severas na Amazônia deve ser acompanhada de alternativas econômicas ao desmatamento. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, novos Bolsonaros surgirão.

Há um longo caminho pela frente.

A não ser que o impeachment de Bolsonaro ocorra, o destino do Brasil provavelmente será decidido pelos eleitores no ano que vem. Seus rivais deveriam oferecer soluções em vez de espalhar nostalgia. Seu sucessor herdará um País deteriorado e dividido. Infelizmente, a podridão vai muito além de um homem só. /

 TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER  LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO  ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM


Bolsonaro é um agente do caos

 Vera Magalhães

O Globo

 André Borges/AFP

 O general Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro em ato no Rio |

"Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e, então, tudo se torna um caos. Eu sou um agente do caos. Ah, e sabe a chave pro caos? O medo."

O discurso, conhecido, é proferido pelo Coringa, o vilão do Batman. Mas poderia ser de Jair Bolsonaro, circunstancialmente presidente do Brasil.

As circunstâncias que o levaram ao Planalto, aliás, já são fruto do caos. Numa situação de normalidade institucional, alguém cuja única obra em vida foi apostar na ofensa e no esculacho a pessoas e corporações jamais poderia ter sido eleito presidente.

Uma vez aboletado no poder, não era de esperar que um agente do caos virasse um promotor da ordem. Quis o destino que essa figura histórica estivesse no comando do país na pandemia de covid-19.

O resultado do investimento no caos está aí. Para ficar só em dois fatos recentes: está na capitulação do Exército Brasileiro ao Coringa que expurgou décadas atrás. E está na capa da revista britânica “The Economist”, que mostra um Cristo Redentor sem oxigênio, retrato acabado da nossa tragédia.

Parecia esculhambação demais até para os padrões bolsonarescos imaginar que Eduardo Pazuello escaparia do episódio em que se postou ao lado de Bolsonaro num caminhão de som sem ao menos uma advertência. Pois aconteceu: Bolsonaro colocou o Alto Comando do Exército na situação de submissão completa a sua explícita pressão, para que o caso claro de indisciplina fosse arquivado.

O precedente, mais um, é de gravidade extrema. Uma vez infiltradas pelos caprichos do capitão reformado do Exército em 1988, depois de um rumoroso processo por indisciplina, que papel desempenharão as Forças Armadas nas eleições de 2022?

É esse o caos atual que Bolsonaro fomenta. E, para esse tipo de plano, como o que o levou a ser julgado pelo Superior Tribunal Militar, ele é ardiloso e obstinado.

Não é de hoje que o presidente testa os limites dos militares. Quando encontra resistências, trata de extirpá-las do caminho. Foi assim com os generais Santos Cruz, Rêgo Barros, Fernando Azevedo e Silva e Edson Pujol, todos caídos, como um dominó de alta patente.

Ainda assim, os generais Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira, respectivamente ministro da Defesa e comandante do Exército, ambos colocados nos postos atuais em substituição a companheiros de arma que não aceitaram vergar diante dos caprichos de Bolsonaro, toparam fazer o jogo.

As consequências potenciais são gravíssimas. A própria reportagem da “Economist” se debruça sobre a insubordinação militar e a infiltração das Forças Armadas pela ideologia política como uma das causas de o Brasil estar sufocado.

O método bolsonarista de bagunçar o coreto das instituições para cooptá-las está descrito pelo semanário britânico em seus pormenores, e as reportagens que compõem o triste retrato do Brasil mostram como esse caos planejado está minando as diversas áreas da vida nacional, do SUS ao meio ambiente.

No discurso que fez na posse do agora defenestrado general Azevedo e Silva na Defesa, lá nos primórdios de seu mandato, Bolsonaro olhou para o general Villas Bôas e lhe agradeceu pelo papel que teve em sua eleição, um segredo que prometeu levar para o túmulo, mas que, no seu método de fomentar o caos, fez questão de vazar ali em voz alta.

Ao coreografar, como o Coringa, cada uma de suas investidas contra o sistema para implodi-lo por dentro, Bolsonaro vai fazendo questão de mostrar a seus seguidores que é capaz de tudo.

Primeiro, alude a uma fraude inexistente numa eleição que venceu. Depois vai dilatando os controles nas Forças Armadas e nas polícias militares. Alicia o Ministério Público, fazendo papinha da lista tríplice. Mira os órgãos de controle, como Coaf e Tribunal de Contas.

Quando os integrantes de todas essas corporações corrompidas acordarem, será tarde demais.


A anarquia militar de Bolsonaro

 Elio Gaspari

O Globo

Ela contaminou o século XX e agora é diferente, pior 

O vice-presidente Hamilton Mourão defendeu a necessidade de punição do general Eduardo Pazuello dizendo que é preciso “evitar que a anarquia se instaure dentro das Forças”.

Santas palavras. A partir da Proclamação da República, em 1889, a anarquia militar empesteou a política brasileira do século XX com pelo menos 14 levantes e seis golpes. Pode-se dizer que alguns foram de direita, outros de esquerda, mas todos tinham uma essência política. Os tenentes dos anos 20 queriam uma nova República. Até mesmo os generais que, em 1969, empossaram a junta militar dos Três Patetas (expressão usada por Ernesto Geisel em conversas privadas e Ulysses Guimarães em declaração pública) agiram em nome de uma suposta defesa da ordem.

A má notícia é que hoje a anarquia militar tem um pé na delinquência civil, para dizer o mínimo. Gregório Fortunato, o “Anjo Negro” e chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, era paisano. Fabrício Queiroz, o chevalier servant dos Bolsonaros, é um ex-policial militar. Nenhuma crise militar do século passado teve PMs, muito menos conexões com milicianos. Em 1964, o general Humberto Castello Branco disse que “não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos, destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência”. À época, a palavra “milícia” tinha outro significado.

Não passava pela cabeça dos generais do século passado conviver com a ideia de PMs amotinados. Em 1961, quando policiais militares de São Paulo rebelaram-se, o comandante da tropa de São Paulo, general Arthur da Costa e Silva, acabou com o levante no grito e prendeu os indisciplinados.

A essência política da anarquia militar do século XX cumpria um relativo ritual hierárquico. Em 1955, o general Odylio Denys foi decisivo para que seu colega, o ministro Henrique Lott, depusesse dois presidentes numa só noite. Seis anos depois, como ministro, prendeu-o por ter defendido a posse de João Goulart.

Nessa anarquia, prevaleciam os generais silenciosos, aqueles de que ninguém lembra o nome.

Bolsonaro gosta de falar em “minhas Forças Armadas”. As tropas de chefes militares que comiam abelhas, como Floriano Peixoto, não tinham dono. Também não existiam PMs amotinadas, milicianos, nem generais da ativa em manifestações de motoqueiros paramentados. Cenas como as da ação da PM no Recife no último domingo são um aviso de que a anarquia pode vir de baixo. Os disparos de balas de borracha contra manifestantes foram uma clara provocação anárquica, porém deliberada.

Hoje esses personagens existem e são um fator relevante na desordem política e administrativa do país. A anarquia militar de Bolsonaro é nova — e pior. 

O risco de “que a anarquia se instaure dentro das Forças” tornou-se visível com o general Pazuello subindo no carro de som de Bolsonaro, mas ele está aí desde 2018, quando o comandante do Exército sugeriu com seu famoso tuíte que o Supremo Tribunal Federal negasse o habeas corpus que impediria a prisão de Lula. Ele ecoava uma manifestação do comandante das tropas do Sul, general Jair Dantas Ribeiro, em 1962, forçando a realização de um plebiscito para enterrar o regime parlamentarista. João Goulart apostava na anarquia militar.


Luana, musa da CPI, lava nossa alma

 Ruth de Aquino

O Globo

Foto Agência Senado

 A médica infectologista Luana Araújo, na CPI da Covid:

 lealdade aos pacientes, à Ciência e ao Brasil | 

Mais Luanas e menos Nises e Mayras, esse é o Brasil que merecemos. “Não é porque um vírus morre no micro-ondas que eu vou pedir para o paciente entrar no forno duas vezes por dia”. Tem humor ferino a mineira Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela UFRJ. Assim ela detonou, na CPI no Senado, os tratamentos experimentais para Covid, com antivirais in vitro. 

Luana fez mestrado nos EUA em Saúde Pública. Fala bem inglês, alemão e até o português, em desuso no Planalto. Canta, toca piano. No Senado, sapateou em cima dos negacionistas fake com o salto alto do conhecimento e da palavra. A discussão sobre a cloroquina, ela chamou de “delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente”. O tratamento precoce mereceu mais uma ironia: “É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular”. Fiquei encantada. 

Precoce não é o tratamento com as caixinhas de cloroquina e ivermectina que Mayra, Nise, Pazuello e Bolsonaro coagiram médicos a receitar. Precoce é Luana, que aprendeu a ler e escrever sozinha com dois anos e aos quinze foi estudar música na Áustria, já com ensino médio concluído. Em seu perfil do Instagram, canta em inglês, tocando violão. Aí entendo como Luana soube projetar a voz, esgrimindo as sílabas com clareza em seu depoimento. Suas palavras soaram como música para os meus ouvidos. 

Luana é carismática e bonita. Não me venham acusar de machista por constatar e apreciar. Com “a política do apropriado”, ficou feio falar das belas. O irlandês maldito Oscar Wilde dizia que “a beleza é superior à genialidade porque não precisa de comentário; ela é um dos fatos do mundo, não pode ser interrogada, é soberana por direito divino”. E sabemos bem que ele não se referia especificamente às mulheres.

Espero que a infectologista vencedora de bolsa de prestígio para a Universidade Johns Hopkins conviva bem com os elogios e a fama repentina. Importante é seu percurso como médica, suas palestras sobre doenças infecciosas, como voluntária, para crianças e adolescentes. Ela mora em Nova Lima (MG) com o marido, fotógrafo oficial do time do Cruzeiro. Virou a musa da CPI pelo que pensa e fala. Por sua firmeza, sua inteligência. Não pela aparência.

Luana podia ser tudo, menos secretária extraordinária de enfrentamento à Covid no governo Bolsonaro. Ainda levaram 10 dias para perceber que ela era uma médica séria, a favor de máscara, distanciamento social, vacinas. Luana já tinha dito que o Brasil, no combate à pandemia, estava “na vanguarda da estupidez mundial” e que o tratamento precoce das Nises e Mayras não passava de “neocurandeirismo”. No Senado, ao ser confrontada com um vídeo do presidente contra máscaras, reagiu: “Como médica, é muito ruim ver isso. Isso dói”.

Tenha cuidado com os efeitos colaterais dos holofotes, Luana. Já surgiram perfis fake sobre você. Os bolsonaristas não perdoarão a goleada acachapante que você impôs a quem despreza a vida. São um rebanho imune à razão, pronto a se imolar em nome do capitão. Aplaudem mentiras cínicas e debochadas. Aglomeram-se. Desdenham das vacinas. Acreditam, tolos, na tese impossível e criminosa da imunidade de rebanho. 

“Mais de 320 dias. Esse seria o tempo em que teríamos de ficar quietos para respeitar um minuto de silêncio para cada uma das mais de 460 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Só de ontem para hoje, é como se mais de 12 aviões comerciais grandes, lotados tivessem caído em nosso território. Essa é a razão pela qual eu estou aqui hoje. Para mim, isso é intolerável e qualquer pessoa precisa fazer o que estiver a seu alcance para impedir essa hecatombe”.

Leal a seus pacientes e ao Brasil. Você lavou nossa alma, Luana.


A insubordinação de Bolsonaro

 William Waack, 

O Estado de S.Paulo

Ao incentivar a anarquia no Exército, arrisca a própria autoridade

  Foto: Evaristo Sá/ AFP

Jair Bolsonaro, presidente da República 

Durou quase meio século a trajetória do Exército entre eliminar a ameaça de anarquia dentro da instituição e o retorno à ameaça de anarquia. Nos dois episódios – quando a anarquia foi abortada e quando ela foi incentivada – a figura central foi o presidente da República.

No primeiro episódio o mandatário era o general Ernesto Geisel – alguém que, de fato, sabia o que era a natureza do poder. Destituiu sumariamente em 1977 seu ministro do Exército por entender que aquele oficial participava de um movimento de insubordinação, que arrasava qualquer princípio de autoridade, começando pela do presidente.

No segundo episódio o mandatário é o ex-capitão Jair Bolsonaro – alguém que, de fato, nunca soube o que é poder. Incentivou a insubordinação de um general, atacando um pilar fundamental de qualquer Exército, sem entender que está colocando em jogo a própria autoridade. Aliás, exercida de forma incoerente, contraproducente e que está diminuindo depressa.

Talvez um especialista do campo da psiquiatria explique melhor o desprezo que Bolsonaro tem pelo funcionamento de instituições, que são complexas estruturas apoiadas tanto em normas e códigos formais quanto na confiança que se atribui a elas. Um esclarecedor exemplo desse fato está na maneira como Bolsonaro tratou o Ministério da Saúde, cuja eficácia acabou sendo severamente comprometida no combate à pandemia não tanto pelo aparelhamento com incompetentes, mas, sobretudo, pela concorrência a ele criada pelo presidente e seu círculo informal de aconselhamento integrando charlatães, puxa-sacos e irresponsáveis dando palpites sobre políticas públicas de saúde.

No caso do Exército, o primitivismo político de Bolsonaro o faz enxergar como última garantia de poder de fato. Daí querer dominá-lo. Contudo, até o mais empedernido leninista compreende que o poder político baseado exclusivamente na força militar não dura para sempre, e que o exercício do poder abarca convencimento, visão, liderança e articulação de diversas forças (para não falar das ideias e postulados que as movam). Na linguagem marxista, o bonapartismo bem-sucedido é o que conhece seus limites.

Mas, para Bonapartes de hospício, é bem possível que a recusa de Forças Armadas a embarcar em aventuras políticas tenha revigorado instintos nunca dominados. Bolsonaro é o principal insubordinado em relação ao Exército, fato mais uma vez demonstrado ao trazer para junto de si no Planalto um general processado por indisciplina. Está sinalizando a todos que a transgressão da regra compensa.

Contanto que o transgressor seja alguém de lealdade irrestrita ao “mito”. Políticos na posição de Bolsonaro que agem mais por instinto do que por raciocínio são a regra, e não a exceção. Os que se acham infalíveis, também. Quando instinto, visão e raciocínio combinam com os fatos da realidade, acabam virando estadistas. São raríssimos, e talvez a geração no Brasil que foi às urnas pela primeira vez já no século 21 não se lembre de nenhum. Os atuais passam longe disso.

Geisel abortou a anarquia e, de uma posição de autoridade, iniciou ainda em 1977 o caminho (admita-se, lento e tortuoso) que levou à devolução do poder aos civis e à redemocratização. Nesse sentido, é um marco na linha do tempo que não pode ser ignorado, pelo símbolo e pelas consequências. Um niilista como Bolsonaro, sem visão política coerente e desprovido de qualquer princípio que não seja a própria sobrevivência, ao incentivar a anarquia, também quer colocar um marco na linha do tempo.

Seu símbolo já é claro. Quanto às consequências, dependem do grau de coesão interna e da liderança de instituições como a do Exército. Ou seja, como sobrevivem a Bolsonaro.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN



Vem aí o Bolsa Reeleição de Jair Bolsonaro?

  Malu Gaspar

O Globo

 Diego Gurgel/iShoot/Agência O Globo 

Presidente Bolsonaro visita Sena Madureira, no Acre, durante

 enchentes que assolaram o estado em fevereiro deste ano 

Não é preciso ser íntimo de Jair Bolsonaro para saber que ele só pensa na reeleição. “Você passou 30 anos votando em que tipo de gente? Quem não tá contente comigo tem Lula em 2022”, respondeu irritado, outro dia, a uma apoiadora que perguntou por que ele deixava “o povo sofrer”. Dias antes, já havia declarado: “O bandido foi posto em liberdade, foi tornado elegível, no meu entender, para ser presidente. Na fraude. Ele só ganha na fraude no ano que vem”.

O presidente gosta de dizer que não se importa com pesquisas nem entende de economia. Mas compreende muito bem onde o calo aperta, na hora do voto. Já disputou nove eleições e ganhou todas. E percebeu que, se quiser sair vencedor das urnas em 2022, precisará colocar a mão no bolso, ou melhor, no cofre.

Os resultados da última pesquisa Datafolha, que detectou vantagem de Lula contra Bolsonaro — num eventual segundo turno, o petista teria 41% dos votos e o presidente, 23% —, trouxeram dados enfáticos. Se a eleição fosse hoje, Lula teria 56% dos votos no Nordeste, 51% dos eleitores com ensino fundamental e 47% dos que têm renda familiar de até dois salários mínimos.

Estamos falando de um universo de 50 milhões de brasileiros, gente que sofreu seriamente o impacto da pandemia e foi socorrida pelo auxílio emergencial, que, pela regra atual, deverá pagar a última parcela em agosto. Apesar dos dados animadores de crescimento do PIB, o desemprego ainda é de 14,7% e atinge 14,8 milhões de pessoas. Outros 6 milhões são desalentados, que perderam os empregos, mas ainda nem sequer começaram a procurar nova ocupação.

É com esse contingente que Bolsonaro mais interage nas incursões que faz Brasil afora com os aliados do Centrão. Foram seus aliados que lhe expuseram a realidade crua, depois de observar a adesão às manifestações de rua do último fim de semana. Como a tragédia da Covid-19 derrubou o apoio ao governo na classe média, se quiser ganhar as eleições, Bolsonaro precisará ampliar o auxílio emergencial, além de marcar na memória desse público um programa de transferência de renda que carregue sua marca (e não a da herança petista).

Leia também: A violência da PM em Recife e o perigo de conflitos em 2022

Os detalhes do programa ainda estão em discussão. Por ora, só há consenso em torno do nome, Alimenta Brasil — mas quem conhece Bolsonaro sabe que, agora que foi revelado, esse nome pode acabar mudando. Para os magos eleitorais do Centrão, porém, o programa pode até se chamar “Bolsa Reeleição”, desde que o benefício seja polpudo — de preferência R$ 600 mensais por família, e não a média atual de R$ 250. Paulo Guedes já concordou em ampliar o auxílio enquanto durar a emergência da Covid-19, mas a meta dos parceiros de Planalto é ir com ele até o fim do mandato.

O que se verá nos bastidores daqui por diante, portanto, será um embate em torno do alcance e dos custos da “Bolsa Reeleição”. Não há grandes dúvidas sobre quem deverá prevalecer. “O que interessa é ganhar”, explicou nesta semana um dos pragmáticos representantes do Centrão raiz. “Para isso, Bolsonaro tem que usar uma arma que Lula não tem: ele ordena despesas”, finalizou didaticamente o aliado.

Não dá para dizer ainda quanto será gasto com o novo programa, mas o auxílio emergencial consumiu R$ 300 bilhões em 2020 —o equivalente a dez anos de Bolsa Família. Os economistas preveem que o governo terá uma folga de caixa no ano que vem, em razão do crescimento do PIB, do aumento da arrecadação e da inflação mais alta, que permite subir o teto de gastos na mesma medida. Ainda assim, a equipe econômica tem calafrios quando pensa no perigo de descontrole fiscal.

Eleições 2022: Iniciativa de almoço com FHC partiu do PT

Há, ainda, outro risco importante. Embora ninguém discuta que a vulnerabilidade social no Brasil tenha aumentado imensamente na pandemia e que o governo precisa agir, é grande o temor de que, no afã eleitoreiro, abra-se apenas mais um guichê de distribuição de dinheiro, sem associá-lo a medidas e contrapartidas efetivas que ajudem a reduzir a desigualdade estrutural da sociedade brasileira — como o comparecimento escolar.

A resposta do Centrão para esse tipo de dúvida é curta e direta: sem programa, não tem reeleição. Além do mais, Bolsonaro não seria o primeiro presidente a sangrar o cofre pensando nas urnas.

Fernando Henrique fez isso ao segurar o câmbio, em 1998, para deixá-lo flutuar três meses depois da vitória. O próprio Lula, engordando em quase 2 milhões de famílias o cadastro do Bolsa Família em 2006, último ano do primeiro mandato. E também Dilma Rousseff, ao liberar centenas de bilhões em desonerações fiscais em 2013.

Esse é o jogo, sempre foi, dizem os aliados. Para eles, não haveria por que não jogá-lo, tendo o cofre ao alcance da caneta Bic.


Economia defende auxílio emergencial mais (?) enxuto como ponte para novo Bolsa Família

 Idiana Tomazelli, 

O Estado de S.Paulo

Prorrogação do auxílio deve ocorrer por medida provisória, considerando ‘sobra’ de recursos dentro dos R$ 44 bi já destinados à nova rodada; segundo a lei, novo Bolsa Família tem que sair até dezembro, por conta das eleições

  Foto: Dida Sampaio/ Estadão 

Os ministros João Roma, da Cidadania, e Paulo Guedes, 

da Economia, em evento no Palácio do Planalto 

BRASÍLIA - Com popularidade em queda e manifestações nas ruas contrárias a seu governo, o presidente Jair Bolsonaro prepara o anúncio de uma prorrogação do auxílio emergencial e da reformulação do programa Bolsa Família. Dentro da área econômica, há quem defenda que a ajuda seja estendida de maneira mais enxuta, como uma “ponte” até o lançamento da nova política social permanente do governo.

O auxílio emergencial beneficia hoje 39,1 milhões de brasileiros, com parcelas em valores de R$ 150 a R$ 375. No desenho atual, a última parcela é prevista para julho deste ano.


Segundo apurou o Estadão/Broadcast, a discussão da prorrogação do auxílio está avançada no governo e deve ocorrer por medida provisória. Há uma “sobra” de recursos dentro dos R$ 44 bilhões já destinados à nova rodada do auxílio emergencial que pode ser usada na prorrogação do programa. Uma ala entende que os recursos restantes para as parcelas adicionais podem ser bancados por meio de crédito extraordinário, fora do teto de gastos (regra que limita o avanço das despesas à inflação), já que a pandemia tem se prolongado.

A necessidade de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para isso, aventada anteriormente, perdeu força porque esse tipo de crédito já fica fora do teto, e há espaço na meta fiscal (que permite rombo de até R$ 247,1 bilhões no ano) para acomodar o gasto adicional.

Outra ala da equipe econômica, porém, defende que essa “ponte” até o lançamento do novo Bolsa Família seja feita com recursos limitados até o teto de gastos. Essa alternativa poderia resultar em um novo “enxugamento” no número de famílias atendidas hoje pelo programa.

Um obstáculo a essa alternativa, no entanto, é a ausência de espaço no teto. A equipe econômica conseguiu autorização para desbloquear R$ 4,8 bilhões dentro do limite e já há disputa por esses recursos.

Embora haja outra “sobra”, de R$ 7 bilhões dentro do teto de gastos, devido à transferência de famílias do Bolsa Família para o auxílio emergencial, técnicos do governo não veem segurança jurídica para o uso dessa dotação na prorrogação do programa a vulneráveis. O plano é usar esse dinheiro para turbinar a nova política social permanente.

As discussões sobre como ficarão os programas sociais do governo nos próximos meses ganharam força nos últimos dias. Como mostrou o Estadão/Broadcast, o desenho do substituto do Bolsa Família precisa ser implementado até dezembro de 2021 ou acabará engavetado, pois a lei veda a adoção desse tipo de medida em ano de eleições.

A Lei das Eleições determina que, no ano de realização do pleito, é proibida a distribuição de valores e benefícios, exceto programas sociais já autorizados em lei e com execução orçamentária no exercício anterior – neste caso, em 2021.

Reunião

Ontem, Bolsonaro se reuniu com os ministros da Cidadania, João Roma, da Economia, Paulo Guedes, da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, e da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, para discutir a estratégia de lançamento do novo Bolsa Família. Os detalhes, porém, estão sendo guardados a sete chaves pelos integrantes do governo. 

Nas reuniões mais recentes, a reformulação vinha sendo discutida com base em reajuste nos benefícios e criação de bolsas de mérito escolar e esportivo, além de um “voucher” para creches.

O lançamento do novo programa depende do afastamento de dispositivos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2021, da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e da Lei Complementar 173. Todas impõem algum tipo de restrição à criação ou ampliação de despesa continuada, o que travaria o novo programa social. Para isso, um dos pontos em discussão era a necessidade ou não de enviar um projeto de lei complementar para abrir o caminho. O novo Bolsa Família terá orçamento maior que os R$ 35 bilhões programados em 2021.


****** COMENTANDO A NOTÍCIA: 

No ritmo que vai, com o governo encolhendo cada vez mais o tal “auxilio”, não será surpresa se o governo ainda cobrar imposto dos pobres e miseráveis pelo simples deles existirem! Quanta mediocridade e falta de senso de realidade!!!!


Governo secreto

 Marcos Strecker

Revista ISTOÉ

Uma das maiores contribuições da CPI da Covid até o momento foi esclarecer que o governo criou um gabinete paralelo para lidar com a pandemia. Ele servia apenas ao presidente, à revelia da estrutura oficial. O estrago que esse grupo causou ao País ainda será apurado, mas a sua própria existência é reveladora de uma verdade ainda mais perturbadora sobre o governo Bolsonaro. O presidente criou um sistema personalista, que deriva basicamente do seu clã familiar e dos apoiadores mais leais, para gerir o País. Isso ignora a administração e passa por cima da Constituição.

 

Crédito: Roberto Jayme/Ascom/TSE

TUDO DOMINADO 

Flávio, Eduardo e Carlos se dividem entre a articulação dogoverno, 

política externa e comunicação. Ação ocorre à revelia da máquina pública


Para aumentar seu poder personalista e evitar o controle da sociedade, Bolsonaro criou uma administração oculta que vai da Saúde ao Orçamento

O governo paralelo de Bolsonaro tem vários tentáculos. A articulação política passou a ser feita em boa medida pelas mãos do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro. Mesmo sem ocupar nenhum cargo no Executivo, ele é o responsável por negociar cargos-chave da República entre os diversos partidos e grupos de interesse. São dele as indicações do novo ministro da Justiça, Anderson Torres, do diretor da Polícia Federal, Paulo Maiurino, e até do mais novo ministro do STF, Kássio Nunes Marques. A política externa também foi confiada ao grupo familiar. O Itamaraty tem a coordenação informal do filho 03, o deputado Eduardo Bolsonaro, que chegou a sonhar com o posto de chanceler e transformou a chancelaria em correia de transmissão de teses estapafúrdias e conspiratórias copiadas da direita radical americana, que desgastaram as relações com a China. E a comunicação do governo foi transferida, na prática, da Secretaria de Comunicação (Secom) para o gabinete do ódio, outra estrutura oculta sob a coordenação de Carlos Bolsonaro, o filho 02, que é vereador no Rio de Janeiro mas se mostra um assíduo frequentador do Planalto e do Palácio da Alvorada. 

(Crédito:Divulgação)

SECRETA 

A médica Nise Yamaguchi negou contato com o presidente,

 mesmo havendo provas. Ela debatia a edição e redação de decretos 

Além dos filhos, o presidente se cerca de aliados que se movimentam fora do radar da opinião pública, como ocorreu com a pandemia. No caso da Saúde, nenhum dos participantes do gabinete oculto ocupou cargo oficial no Ministério da Saúde, mas todos participaram de eventos e reuniões oficiais com Bolsonaro para tratar de assuntos relacionados à crise. A estrutura estabeleceu estratégias sanitárias ignorando os técnicos do governo e o próprio ministro da Saúde. Ditou políticas de governo longe dos holofotes, com objetivos escusos. A gravidade dessa constatação pode ser traduzida em números: a pandemia já caminha para a cifra de meio milhão de mortos. Quantas vidas poderiam ser salvas com uma gestão transparente e profissional, que respeitasse as indicações da ciência? Além de responsabilizar os culpados pela tragédia, a CPI deve chegar a esse número.

Gabinete paralelo estabeleceu estratégias sanitárias ignorando

 os técnicos e o próprio ministro

Para integrantes da CPI, esse gabinete paralelo foi fundamental para a atitude negacionista. Documentos enviados à comissão mostram que ocorreram pelo menos 24 reuniões com pessoas de fora do Ministério no Planalto ou no Palácio do Alvorada. O presidente participou pessoalmente de pelo menos 18. O relator Renan Calheiros diz que a comissão já tem provas de que seus integrantes se reuniam com o mandatário. Um papel importante pode ter sido exercido por Arthur Weintraub, que é ex-assessor da Presidência e hoje atua na OEA. Esse advogado, irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, declarou em uma live de abril de 2020 que o presidente o havia incumbido de “estudar isso aí”, em referência ao coronavírus. A peça-chave desse gabinete, acredita a cúpula da CPI, é Osmar Terra (MDB), que é médico e ex-ministro da Cidadania. Ele foi uma das primeiras pessoas públicas a lançar a tese da “imunidade de rebanho” – a contaminação generalizada como forma de se alcançar a imunização coletiva, uma adaptação irresponsável de um conceito da imunologia que favoreceu o aparecimento de novas variantes do vírus. Pela apuração da CPI, a radicalização a favor do uso da cloroquina e do tratamento precoce ocorreu precisamente em seguida às reuniões do gabinete paralelo. A oncologista Nise Yamaguchi, que também seria integrante e é defensora do uso da cloroquina, encontrou-se com o presidente em momentos-chave. Um coincidiu com a demissão do ex-ministro Nelson Teich. Outro precedeu o pronunciamento oficial do dia 8 de abril, quando o mandatário defendeu o medicamento. No dia 15 de maio do ano passado, um novo protocolo para o uso do fármaco ocorreu após uma reunião com essa médica.

 (Crédito:Divulgação)

NA CPI 

O senador Rogério Carvalho, do PT, fez o mapa do gabinete paralelo

: núcleo negacionista, núcleo operacional e gabinete do ódio 

A compra de vacinas, uma providência em que o governo foi no mínimo negligente, também ocorreu à revelia da estrutura do Ministério da Saúde. O ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten, passou a interceder diretamente com a farmacêutica Pfizer. Carlos Bolsonaro e o assessor internacional do presidente, Filipe Martins, participaram de reuniões para aquisição do imunizante. Também numa ação alheia à estrutura do Ministério foi o vôo para Israel atrás de um spray nasal milagroso contra a doença, que não teve nenhum resultado prático e custou ao menos R$ 400 mil. A comitiva contou com a participação de Ernesto Araújo e mais dois diplomatas, de Martins, Wajngarten, dois deputados (Eduardo Bolsonaro e Hélio Lopes, amigo do presidente), dois técnicos em saúde e um segurança. Como a “missão” não achou nenhum spray viável e virou um fiasco, o objetivo passou a ser definido como “compra de imunizantes” (mesmo que Israel não fabrique nenhum contra a Covid) e, depois, como “cooperação científica e tecnológica”.

A CPI está cercando esse desgoverno. O depoimento de Yamaguchi, na terça-feira, mostrou a mesma tática usada por outros apoiadores do presidente: mentir e negar sistematicamente suas responsabilidades. Ela negou que tenha tido encontros privados com o presidente, mas a agenda de Bolsonaro registra pelo menos quatro reuniões com a médica, uma a sós. Além disso, ela já havia declarado publicamente que tinha contatos permanentes com o mandatário.

 

(Crédito:Edilson Rodrigues)

COM PROVAS 

O presidente da CPI, Omar Aziz, diz que já há motivos para indiciamentos.

 O relator Renan Calheiros cita evidências do gabinete paralelo 

“Desconheço a existência de um gabinete paralelo. Não teria nem como enunciar pessoas que participem”, afirmou. Mas, como lembrou o senador Tasso Jereissati, ela não se constrangeu em articular e orientar políticas para a Saúde que se chocavam com o trabalho do titular da pasta. Nise atuava no Planalto à revelia do ministro e até do diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres. Em seu depoimento, a médica reiterou que defende o “tratamento precoce”, que foi classificado um dia depois na CPI como “uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente” pela infectologista Luana Araújo. O senador Otto Alencar, que é médico, fez uma das intervenções mais duras contra Nise, ao confrontar seus conhecimentos sobre a doença. “Ouvi a defesa de uma tese equivocada, já superada por outros países”, disse. O atrevimento das negativas da médica aumentou seu papel na tragédia. O presidente da comissão, Omar Aziz, chegou a se exaltar quando Nise minimizou a importância da “vacinação aleatória”. “Não escutem o que ela está dizendo. Todos os brasileiros precisam de duas vacinas “, disse o senador. Ele também classificou a defesa que ela fez da cloroquina de “grande engodo”. Para ele, a CPI já tem motivos para pedir ao Ministério Público o indiciamento de agentes públicos por crime sanitário e contra a vida. “Temos provas suficientes de que o Brasil não quis comprar vacina”, afirmou. Um dos próximos integrantes do gabinete paralelo a serem ouvidos é Arthur Weintraub. Outro deve ser o empresário Carlos Wizard.

Já se questiona a estratégica da CPI, que na prática criou um palco para o discurso negacionista. Mas parece estar funcionando. Involuntariamente, Nise Yamaguchi reforçou a convicção da CPI de que havia um gabinete paralelo. Ela mostrou mensagens com o médico aliado Luciano Azevedo em que alertava que um decreto em defesa da cloroquina poderia “expor o presidente”. Ela queria com isso mostrar que não propôs diretamente alterar a bula desse medicamento, como denunciou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, mas acabou provando que as orientações oficiais eram discutidas à revelia da equipe do Ministério. Ela e outros membros discutiram a edição e a redação de minutas de decretos presidenciais. O senador Rogério Carvalho, do PT, apresentou na CPI um “organograma” desse gabinete, dividido em três núcleos. O “negacionista” seria responsável por “orientar e organizar as políticas públicas de enfrentamento da Covid”. Seus titulares seriam Wizard, Yamaguchi, Luciano Azevedo, o virologista Paolo Zanotto, o deputado federal Ricardo Barros e Osmar Terra. O “núcleo operacional” cuidaria de “operacionalizar a teoria de imunidade de rebanho” e tinha como integrantes membros do governo: Arthur Weintraub, Eduardo Pazuello, Mayra Pinheiro (a capitã cloroquina) e o ex-chanceler Ernesto Araújo. Já o “núcleo do gabinete do ódio”, para Carvalho, deveria “disseminar informações falsas sobre a pandemia” e era formado por Wajngarten, Filipe Martins, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro. Até o relatório final, a CPI deverá sistematizar as responsabilidades, mas o quadro do senador petista não deve estar muito distante da realidade. 

(Crédito:GABRIELA BILO)

ELEIÇÃO BENEFICIADA

 Presidente da Câmara, Arthur Lira teve a ajuda 

do Orçamento secreto para se eleger este ano

Essa administração oculta também funcionou em outras áreas. O escândalo do Orçamento paralelo mostra que até parte das contas públicas já são operadas com fins privados e políticos. Ao contrário do que sempre propagandeou, o governo criou uma forma secreta e personalista de distribuir recursos longe dos olhos públicos. O Ministério do Desenvolvimento Regional e sua estatal Codevasf têm sido usados para direcionar obras, como a instalação de poços artesianos, e para a compra de máquinas pesadas, como tratores, por preços até 259% acima dos valores de referência. São R$ 3 bilhões das chamadas “emendas de relator”. O ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi o líder de indicações, contemplado com R$ 277 milhões. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, foi o vice-campeão em verbas secretas: conseguiu R$ 125 milhões. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira, manejou R$ 114 milhões do Orçamento. A destinação desses recursos coincidiu com a eleição da nova cúpula da Câmara e do Senado e tudo indica que foi usada para angariar apoio às chapas vencedoras, que apoiam o presidente. Na prática, uma forma de comprar o Congresso. Juristas e advogados apontam a flagrante ilegalidade. A lei proíbe a utilização das emendas para influenciar votos no Congresso. Além disso, as próprias emendas “de relator” seriam inconstitucionais, pois servem apenas para driblar as regras das emendas individuais ou de bancadas de estados, que seguem limitações previstas na Constituição.

 

(Crédito:Jefferson Rudy)

RECURSOS 

Líder do governo no Senado e membro da CPI, Fernando Bezerra Coelho

 recebeu R$ 125 milhões do Orçamento secreto 

Contra a Constituição

Esse modus operandi bolsonarista é uma rejeição essencial da Constituição, que estabelece os princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade. Os braços desse governo das sombras, ao contrário, operam para driblar o controle social e viabilizar decisões que contrariam o interesse público, como a CPI da Covid deixa claro. E eles estão em áreas vitais. A PF, como denunciou o ex-ministro Sergio Moro, passa aos poucos a ter nomes alinhados ao clã Bolsonaro, que tem interesses em regiões como o Rio de Janeiro, onde corre o inquérito das rachadinhas de Flávio Bolsonaro. Como acontece na pasta da Saúde, os corpos funcionais dos ministérios da Educação e da Secretaria da Cultura também são desmontados para serem substituídos por nomes sem qualificação técnica. Os novos integrantes são bolsonaristas responsáveis apenas por viabilizar a agenda ideológica do presidente.

As estruturas do Ibama e do ICMBio revelam um caso ainda mais grave. Estão sendo desmanchadas por um motivo ainda mais suspeito: o favorecimento de ações criminosas de desmatadores e garimpeiros ilegais. O Itamaraty tem um corpo de servidores dos mais profissionais da administração pública, reconhecido internacionalmente e selecionado em exames rigorosos, uma exceção dentro do governo. Mas as diretrizes da política internacional passaram a ser ditadas por figuras estranhas, sem currículo, respeitabilidade ou mesmo responsabilidade para falar em nome do País.

O presidente até o momento desprezou a máquina pública, preenchendo a administração com militares para favorecer seu projeto autoritário de poder 

(Crédito:Divulgação)

PEÇA-CHAVE 

O deputado Osmar Terra foi um dos primeiros a lançar a tese

 da “imunidade de rebanho”, que ajudou a criar novas variantes do vírus 

São todas ações que negam a burocracia do governo e fogem ao crivo da sociedade. Bolsonaro adula os servidores com fartos benefícios corporativos, para cooptá-los, ao mesmo tempo em que negligencia a burocracia. Critica a “influência esquerdista” em órgãos e ministérios, mas faz isso apenas porque gostaria que fossem aparelhados por seus próprios aliados ideológicos, sem nenhum espírito republicano. O presidente até o momento desprezou a máquina pública, preenchendo a administração com fardados para militarizar o governo. Com o mesmo espírito, quer minar a independência das Forças Armadas, submetendo-as à sua agenda política. Numa demonstração ousada de que está conseguindo esse objetivo, constrange o Exército a não punir o ex-ministro Eduardo Pazuello por ter participado de uma manifestação política ao seu lado, contra as normas da corporação. Mais do que isso, reafirmou o poder do general ao nomeá-lo para um cargo de confiança na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. O mandatário também mandou o Ministério da Justiça realizar um estudo nacional sobre a “qualidade de vida” dos policiais civis e militares, estratégia de aliciamento que serve apenas como um passo a mais para aumentar sua influência sobre esses agentes e minar o poder dos governadores. Não é uma surpresa. Afinal, o presidente usa o discurso de um governo “liberal”, mas na verdade sonha apenas com uma máquina estatal hipertrofiada e dócil, a serviço de seu projeto autoritário de poder.


‘The Economist’ critica Bolsonaro e diz que Brasil terá ‘década sombria’ em edição especial

 Redação, 

O Estado de S.Paulo

Revista britânica é uma das mais conceituadas do mundo e mostra o Cristo Redentor usando uma máscara de oxigênio

A revista britânica The Economist, uma das mais conceituadas publicações do mundo, traz nesta semana uma edição especial sobre o Brasil com uma série de críticas ao governo Jair Bolsonaro. Como em outras vezes que se referiu ao País, a revista traz na capa uma nova ilustração do Cristo Redentor, desta vez respirando com uma máscara de oxigênio.

No especial, que é capa da revista sob o título 'A década sombria do Brasil', a revista descreve o presidente brasileiro como um homem que quer “destruir as instituições, não reformá-las”, “esmagou todas as tentativas” de uma exploração sustentável da Amazônia e revelou serem “falsos” todos os votos favoráveis à renovação política.

Ao citar o apoio dos militares a seu governo, a revista diz que os generais que se aliaram a ele “esperavam fazer avançar a agenda do Exército” mas, “em vez disso, prejudicaram suas reputações” e afirma que, “sob Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma ‘boca de fumo’ (escrito em português e traduzido) para hidroxicloroquina”.

  Foto: Divulgação

Capa da revista Economist de 5 de junho fala em 'década sombria' para o Brasil 

O especial termina com uma reportagem intitulada “Hora de ir”, que afirma que o futuro do País depende do resultado de 2022. O texto destaca o apoio dos militares ao atual presidente, mas destaca o ônus aos generais em apoiar o presidente e os riscos de o presidente, e seus apoiadores cada vez mais armados, não aceitarem um resultado adverso nas urnas. Em março de 2016, a revista deu a foto da então presidente Dilma Rousseff na capa, também com o mesmo título, "Hora de ir".

A reportagem aborda a dificuldade dos partidos de centro em encontrar um nome em comum para a disputa do pleito e, ao citar Lula, que lidera as pesquisas eleitorais, afirma que o ex-presidente “precisa mostrar como o manejo da pandemia custou vidas e formas de sustento, e como Bolsonaro governou para sua família e não para o Brasil”. Para a Economist, “o ex-presidente deve oferecer soluções, não ‘saudades’ (escrita em português e traduzida como nostalgia)” dos anos em que governou o País.

Para a revista, “para voltar aos trilhos, o Brasil deve lidar com velhos problemas”, citando favorecimentos fiscais para a indústria e para funcionários públicos e leis tributárias e trabalhistas que distorcem ou desencorajam o investimento. 

A reportagem foi a locais como Camaçari, na Bahia, para mostrar o “sonho adiado” das pessoas que ascenderam à classe C ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva mas que, depois de uma série de problemas listados pela publicação (em especial as medidas econômicas adotadas no governo Dilma Rousseff), passaram a viver em um contexto de desemprego e queda de renda. O retrato é Vinícius Rabelo, um neto de plantadores de mandioca que trabalhou na fábrica (recém-fechada) da Ford na cidade e que, hoje, vive como motorista de Uber.

 Foto: Economist

Outras capas da revista The Economist sobre o Brasil na última década 

A revista cita uma série de problemas que levaram a esse quadro, passando por uma falha do PT em não investir em uma infraestrutura que prometesse ganhos de longo prazo, a política econômica de Dilma, um controle de gastos nunca realizado pelo País e, por fim, a crise do coronavírus e a baixa taxa de vacinação. Porém, a revista aponta “vislumbres de esperança” com a agricultura em alta, as commodities voltando a terem preços em alta e, no caso de Camaçari, a transformação da cidade em um hub logístico entre Salvador e o oeste da Bahia. 

Menos otimista é a reportagem “Andando para trás”, que aborda o fim da Operação Lava Jato sob o governo Bolsonaro e a aliança mal-sucedida entre o presidente e o juiz da operação, Sérgio Moro, “que estava orientando promotores inapropriadamente” durante as investigações. O texto descreve os retrocessos no País para o controle da corrupção, mesmo após toda a investigação feita a partir das delações de executivos da Odebrecht, e ainda cita os esforços do presidente, tensionando as instituições, para proteger os filhos de investigações criminais. A reportagem diz que o caso do “tratoraço”, revelado pelo Estadão, em que o Ministério do Desenvolvimento destinou até R$ 3 bilhões para compras suspeitas de superfaturamento para parlamentares, “minou as alegações de Bolsonaro de que não houve nenhum escândalo desde que ele assumiu o governo”.

A Economist foi ainda para o Território Sete de Setembro, terra indígena na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, na reportagem mais longa do especial, “Árvores de dinheiro”, que disseca os conflitos entre indígenas, madeireiros, garimpeiros e criadores de gado, tendo com a preservação da Amazônia como pano de fundo. A reportagem destaca que os povos residentes na região são os mais pobres do País, afirma que as oportunidades de renda a partir das atividades ilegais acabam atraindo mesmo os indígenas moradores das áreas protegidas e que faltam investimentos em pesquisa na região.

O texto fala em “cruzada” lançada pelo ministro Ricardo Salles contra o Fundo Amazônia e relembra da reunião ministerial de abril do ano passado, em que ele sugeriu “ir passando a boiada” de desregulamentação enquanto a atenção da imprensa estava na covid-19 e dá exemplos desse esforço em alterações legais, citando a autorização para garimpo em territórios indígenas. Isso sem deixar de citar a perseguição a agentes da Polícia Federal que investigam Salles.

Foto: The Economist / Reprodução

Capa da The Economist citando o 'atoleiro' em que estava o Brasil  

Ao olhar para os demais políticos do País, no texto “Necessidade de reformas”, a publicação britânica diz que “Brasília está cheia de políticos jovens com ideias velhas”, citando frase da deputada federal Joênia Wapixana (Rede), primeira indígena do Congresso. O texto destaca que, depois dos protestos de 2013 e de 2016, que terminaram com o impeachment de Dilma, o parlamento brasileiro sofreu sua maior renovação, mas as expectativas de reformas políticas não se concretizaram. “Reformas mais profundas podem incluir distritos menores, regras de financiamento de campanha mais rígidas e admissão de candidatos independentes. Mas nada disso parece provável”, afirma a Economist.

Ainda no campo político, a revista explora o fator do voto evangélico na disputa eleitoral, e analisa que embora Bolsonaro busque neste eleitorado uma de suas principais bases – e conte com o apoio de líderes das principais denominações – o apoio do público evangélico ao presidente não é claro.

Outras edições especiais sobre o Brasil

  Foto: The Economist / reprodução 

Capa de 2009 mostra o Cristo Redentor decolando  

A Economist já trouxe edições especiais do Brasil no passado. Em 2009, o Cristo Redentor estava decolando como um foguete, em uma especial intitulada “O Brasil decola”.

Em 2013, a foto era parecida, mas o cristo era um foguete descontrolado, voando a esmo. A reportagem “O Brasil explodiu?” dissecava os problemas econômicos que se vislumbravam naquele ponto, quando o crescimento estava em xeque e a inflação, em alta.

Foto: The Economist / Reprodução

Capa de 2013 mostra o Brasil desgovernado, com o Cristo Redentor voando a esmo 

Em abril de 2016, a edição falava colocava o Cristo Redentor pedido socorro. Em editorial, a revista diz que a presidente Dilma Rousseff tem responsabilidade sobre o fracasso econômico, mas que os que trabalham para tirá-la do cargo "são, em muitos aspectos, piores" e cita Eduardo Cunha como exemplo. "No curto prazo, o impeachment não vai resolver isso". Por isso, a revista defendia novas eleições gerais.

  Foto: The Economist / reprodução 

Em capa de 2014, The Economist colocou na capa o Cristo Redentor

 com uma placa de socorro SOS 

Em 2019, no começo do governo Bolsonaro, a capa trouxe a ilustração de uma floresta de tocos de árvores e teve foco na expectativa de aumento do desmatamento sob a gestão do então recém-empossado presidente.


A surpresa e os riscos para o avanço do PIB

 Celso Ming, 

O Estado de S.Paulo

A economia mostra mais resiliência do que a esperada, mas ainda há riscos no caminho

  Foto: Fábio Motta/Estadão 

O Produto Interno Bruto (PIB, valor de tudo o que é produzido

 na economia em determinado período) cresceu 1,2% no primeiro

 trimestre, na comparação com os últimos três meses do ano passado. 

Já sabemos que o avanço do  Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre sobre o anterior, de 1,2%, surpreendeu os analistas e pessoas comuns.

Quase ninguém fora dos segmentos do agronegócio e do setor exportador tinha a percepção de que a economia vinha bombando para fechar o ano, provavelmente, ao redor dos 5% ao ano.

Ao contrário, toda a mídia apontava para os limitadores de um forte crescimento. Observações de entidades de classe e de economistas de que o consumidor está sumido, de que há milhares de empresas falindo ou, simplesmente, fechando suas portas e de que a taxa de desocupação de 14,7% no primeiro trimestre deste ano, ou 14,8 milhões de desempregados no País, mais os 6 milhões de desalentados explicavam demanda e produção mais fracas.

No entanto, “la nave va”, como diz o título do belo filme de Fellini. Com base nesse resultado, os analistas apressaram-se a rever para cima suas projeções de crescimento do PIB do Brasil em 2021. O Goldman Sachs e o BNP Paribas, por exemplo, passaram a trabalhar com avanço do PIB de 5,5%; o Bank of America (BofA), com 5,2%; o Citi, com 5,1%; o Itaú, com 5,0%; o Credit Suisse e o J.P. Morgan, com 4,9%; o Bradesco, com 4,8%.

Os fatores que contribuem para a obtenção desse resultado positivo são conhecidos: é o excelente desempenho da economia global; a grande procura no exterior por commodities metálicas e alimentares; e o auxílio emergencial distribuído pelo governo que, mesmo a conta-gotas, ajuda o consumo. Também não se pode desprezar o efeito vacina: são quase 50 milhões os imunizados pelo menos com a primeira dose. Outros 15 milhões se recuperaram da doença e, portanto, já carregam anticorpos. Cerca de 65 milhões estão praticamente fora do alcance do coronavírus e isso começa a fazer diferença no mercado de trabalho e no consumo.

A economia mostra mais resiliência do que a esperada. Mas convém examinar o que pode atrapalhar.

Como o consumo (tanto das famílias como do governo) caiu 1% no primeiro trimestre, em relação ao último trimestre de 2020, boa parte da recuperação se deve à formação de estoques. Uma das explicações é relativamente simples.

Nos últimos 40 anos, as empresas (e não só as indústrias) aprenderam a trabalhar no regime just in time, pelo qual o suprimento de matérias-primas, peças, componentes e produtos acabados é feito à medida que requerido na produção ou na montagem. Com isso, reduzem-se substancialmente os custos com formação de estoques. Ora, a pandemia interrompeu grande parte desses fluxos. Fontes de suprimento, navios, aviões, funcionamento dos portos e aeroportos tiveram de paralisar ao menos temporariamente suas atividades. Faltou e continua faltando muita coisa. Essa foi, por exemplo, a principal razão pela qual a Volkswagen foi obrigada a paralisar suas atividades em duas de suas unidades por 10 dias a partir de 7 de junho.

Uma vez retomadas as atividades, grande número de empresas passou a operar não só com força total como, também, voltou a empilhar estoques. Uma vez regularizadas as cadeias de produção e distribuição, a atividade econômica deverá reduzir a atual velocidade de recuperação.

O outro enorme limitador é o desemprego recorde, já mencionado. Quem imagina que a retomada reabrirá postos de trabalho fechados durante a pandemia deve desconfiar dessa hipótese. As empresas aprenderam a trabalhar com menos gente, seja porque reorganizaram ou transferiram parte de suas linhas de produção, seja porque aumentaram o uso de tecnologia poupadora de mão de obra. Se o emprego continuará apertado, segue-se, também, que a demanda continuará por enfrentar novas limitações.

E tem a inflação que, neste ano, irá para algo como 5,5% ou 6,0%. Até há algumas semanas, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, focava suas advertências no caráter temporário da alta. Agora, mudou de tom. Prefere admitir que a inflação aumentará. Devem puxá-la as tarifas de energia, os preços dos combustíveis e os dos alimentos que têm tratamento de commodities. Inflação é redução do poder aquisitivo e menos avanço do PIB.

E há os riscos: o de uma nova onda de covid-19; aumento da resistência à aprovação das reformas; e de uma deterioração da situação política.


PRÊMIO À INCOMPETENCIA: Pazuello ganha cargo de confiança na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência

 Felipe Frazão e Luci Ribeiro, 

O Estado de S.Paulo

Nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União na tarde desta terça

  Foto: Gabriela Biló / Estadão

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello,

 durante depoimento à CPI da Covid, no Senado 

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro abrigou o ex-ministro da Saúde, general do Exército Eduardo Pazuello, com um novo cargo de civil no Palácio do Planalto. Pazuello foi nomeado nesta terça-feira, 1.º, para uma função na Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, com salário de R$ 16.944,90.

O general Pazuello será secretário de Estudos Estratégicos no órgão comandado pelo almirante Flávio Augusto Viana Rocha, militar da ativa da Marinha. A nomeação saiu em edição extra do Diário Oficial da União, assinada pelo ministro-chefe da Casa Civil, o general da reserva do Exército Luiz Eduardo Ramos.

A nomeação de Pazuello ocorreu a poucos dias de o Comando do Exército decidir sobre um procedimento de apuração disciplinar contra ele. O novo secretário participou de um ato político em apoio ao presidente, e ao lado dele, com motociclistas no Rio, no último dia 23. As normas militares proíbem expressamente qualquer tipo de manifestação.

Pazuello também é um dos principais alvos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid do Senado, a CPI da Covid. Ele já foi interrogado pelos senadores e deverá ir novamente à comissão. Uma nova convocação do ex-auxiliar já foi aprovada pelo colegiado.

O comandante-geral, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, deve ouvir pessoalmente Pazuello, depois de os argumentos de defesa do ex-ministro não terem convencido a cúpula do Exército. Ele alegou que a manifestação não tinha viés político, porque o presidente não está filiado a partido. Oficiais que acompanham o caso avaliam que Pazuello deve receber uma punição branda ou média, de advertência verbal a uma censura por escrito.

Na tentativa de blindar Pazuello politicamente, Bolsonaro apresentou a mesma argumentação em uma "live", deixando claro ser contra a punição ao ex-ministro da Saúde. Ele já havia oferecido um novo cargo civil ao ex-auxiliar no governo.

Pazuello estava até agora como adido na Secretaria-Geral do Exército, um órgão burocrático, à espera de uma nova posição militar. Segundo oficiais que despacham no Quartel-General, havia um clima de constrangimento para que ele voltasse a assumir qualquer cargo de comando de tropa novamente, por causa da vinculação política e da transgressão disciplinar.

O novo cargo deve voltar a colocar em xeque a decisão de Pazuello de não passar à reserva. Ele continua sendo pressionado a deixar o serviço ativo, mas deu indicações de que não deseja encurtar a carreira enquanto durar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, da qual é alvo. Pazuello pode permanecer até 2022 no serviço ativo como general de Divisão. A seu favor, pesa o fato de o almirante Viana Rocha também permanece na ativa.


STF excluiu consumidor da restituição de PIS-Cofins sobre ICMS

 Roberto Macedo, 

O Estado de S.Paulo

É o Brasil muito desigual, até na administração da justiça

Volto ao tema do meu artigo anterior, pois cabem mais esclarecimentos, e há novidades. Recorde-se que no dia 13 do mês passado o Supremo Tribunal Federal (STF) de novo decidiu quanto ao assunto, determinando que a restituição fosse para recolhimentos tributários a partir de 2017, quando foi tomada sua primeira decisão. O governo federal reivindicava que a restituição só contasse desde a última sentença, mas não teve sucesso.

No dia anterior à decisão recente, li no jornal Valor um importante artigo sobre o tema, do contador Eliseu Martins, ex-professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da USP, e que também trabalhou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e no Banco Central.

Martins abordou o tema sob a perspectiva de políticas públicas, com um olhar social, e perguntou: “... quem de fato pagou por esse tributo a maior durante todo esse período?”. E respondeu: “... não terá sido o consumidor?”. Não teriam sido as empresas “... apenas veículos dessa transferência ... indevida do Tesouro para o consumidor ... que de fato ... suportou...” o ônus?

Acrescento que análises desse tipo distinguem as empresas, até mesmo as individuais, que recolhem um imposto ao governo, relativamente a quem efetivamente paga o ônus da tributação ao adquirir bens e serviços tributados com esse imposto, ou seja, os consumidores. Se estes arcariam com todo o ônus depende de algumas tecnicalidades.

Se o preço de um bem ou serviço subiu por conta de um imposto, a demanda por ele, e de seus componentes na cadeia produtiva, poderá diminuir e, assim, as empresas também teriam arcado com um pedaço do custo. Essa diminuição da demanda dependerá muito de sua elasticidade ou resposta relativamente aos preços, que será tanto mais forte quando mais houver produtos similares que substituam os que receberam tributação. Mas no caso essa tributação foi generalizada, o que reduz muito essa elasticidade. E ela é praticamente nula em alguns casos. Por exemplo, consumidores de serviços públicos de eletricidade, água e saneamento básico usualmente não têm alternativas, e arcam com todo o ônus de impostos indiretos, como os vários que incidem sobre o consumo desses serviços.

Um caso que implicitamente admite que os consumidores pagam a maior parte dos impostos indiretos é o da Lei 12.741, de 8/12/2012, conhecida como lei do imposto na nota. Ela estabelece que deverá constar nos documentos fiscais ou equivalentes a informação do valor aproximado correspondente à totalidade dos tributos federais, estaduais e municipais, cuja incidência influi na formação dos respectivos preços de venda. E lista sete tributos que integram esse valor total, entre eles PIS-Cofins.

Não estou dizendo que todo o ônus seja do consumidor, pois o mercado brasileiro de bens e serviços é imenso e seria preciso examinar caso a caso. Mas me arrisco a dizer, com base na literatura que conheço sobre o assunto, que a transferência ao consumidor é o caso mais comum, e é menor na redução de impostos, abordada mais à frente.

Martins citou que a Aneel, a agência reguladora do setor de energia elétrica, “... deliberou descontar na tarifa dos consumidores o que as empresas de energia receberem”. Agora, algumas novidades. Depois do artigo dele, vi notícia no jornal O Popular, de Goiânia, no último dia 21, intitulada Enel Goiás vence ação bilionária e vai devolver dinheiro na fatura de consumidores. O jornal tratava da restituição do PIS-Cofins sobre o ICMS e Enel é a distribuidora local de eletricidade. Mas como fica o assunto para os consumidores de outros setores?

Outra novidade foi que na segunda-feira passada a Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, publicou a Nota Técnica 48, de autoria de Felipe Salto, seu diretor executivo, na qual estimou o custo total da restituição em R$ 120,1 bilhões, abrangendo a parte relativa ao período 2017-2020, e também a correspondente a 2021. Esse valor é bem inferior a uma estimativa de R$ 280 bilhões que circulou antes da última decisão do STF, mas ainda assim é uma dinheirama, equivalente a cerca de quatro vezes o custo anual total do programa Bolsa Família!

E mais: citando artigo de Feria e Walpole publicado no British Tax Review 67/5 em 2020, a mesma nota técnica da IFI pondera que, dada a redução do PIS-Cofins definida pela decisão do STF, “... as reduções de impostos muitas vezes não são totalmente refletidas nos preços...”. Ou seja, além de a mesma decisão não beneficiar os consumidores, haverá a essa outra questão a esclarecer.

Usualmente os advogados defendem a ideia de que a restituição de impostos cabe a quem os recolheu, até porque isso gerará honorários nas causas em que atuaram com esse propósito. Já os consumidores, que são milhões e dispersos pelo país, até mesmo ignorando os impostos embutidos na tributação indireta, não têm defensores.

É o Brasil muito desigual, até na administração da justiça.


ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR


Fatos que mudam o cenário político

  Míriam Leitão

O Globo

 


Numa pequena amostra da intensidade do tempo presente, em apenas duas semanas um general da ativa foi para um ato político e ficou na estranha situação de ser premiado pelo presidente e ameaçado de punição pelo Exército. Uma grande manifestação contra o governo ocupou as ruas de mais de 200 cidades. O PIB surpreendeu os economistas, o dólar caiu e uma crise hídrica surgiu como uma nova sombra sobre o país. A CPI avançou, mostrando que a mentira é usada como método pelo governo. O ministro do Meio Ambiente e o então presidente do Ibama foram alvos de uma operação que investiga a exportação ilegal de madeira.

A lista poderia crescer, porque os acontecimentos não deram trégua. Nas duas semanas em que fiquei longe deste espaço houve fatos que mudaram o cenário político. O mais importante deles foi a manifestação que tomou as ruas do país no sábado, 29. Quem saiu para protestar contra o governo Bolsonaro teve que vencer o conflito interno entre suas convicções sobre as medidas de proteção e a necessária reação a um presidente que tem provocado mortes pelas suas decisões. Bolsonaro, no domingo anterior, havia feito um desfile de moto, com seus apoiadores, pelas ruas do Rio, exibicionista e intimidatório, à moda Benito Mussolini. Era como se fosse o único capaz de mobilizar. O convincente ato 29M deixou marcado que a força contrária existe e é significativa.

O presidente Bolsonaro tem feito atos de campanha eleitoral, fora de hora, usando recursos públicos em seus deslocamentos e segurança. Leva ministros, como levou o ministro da Defesa a Manaus. O mais ostensivo ocorreu no Rio e instalou no palanque o general Eduardo Pazuello, um oficial da ativa. Pazuello mentiu na CPI, Pazuello mentiu para o Exército. É óbvio que aquele ato no qual ele discursou era político e, portanto, proibido pelo estatuto das Forças Armadas. Bolsonaro fez de propósito. Ele está minando as instituições ou querendo mostrar que as controla. Depois de trocar todos os comandantes das Forças, ele dá um xeque-mate no novo comando ao instalar Pazuello no próprio Palácio. Aliás, um general da ativa vai ficar sob a chefia de um almirante da ativa, Flávio Rocha, da Secretaria de Assuntos Estratégicos. As Forças Armadas precisam escolher de que lado estão. A ambiguidade não é mais tolerável.

Na CPI, acumulam-se as evidências dos erros do governo Bolsonaro. Um dos mais eloquentes depoimentos foi o de ontem, em que a médica Luana Araújo, com clareza e objetividade, mostrou o quanto o Brasil perde tempo, dinheiro, esforço e vidas por um caminho totalmente sem sentido no combate à pandemia. Explicou que a tese da imunidade de rebanho, através da contaminação pelo vírus, é “impossível”. O vírus passa por mutações constantes, a estratégia não é inteligente e tem um custo alto em vidas humanas. Ela demoliu uma por uma as teses que o governo vem insistindo em impor ao país. Com coerência científica, e uma firmeza notável para a sua juventude, a médica, que quase coordenou o enfrentamento à Covid, mostrou tecnicamente como o governo tem errado. Foi um dia de ouvir a racionalidade. E como fez bem.

A economia teve um número bom na última terça-feira. O crescimento do PIB do primeiro trimestre foi além da maioria absoluta das previsões. Há outros dados positivos como o forte saldo da balança comercial e a queda do dólar. Contudo, há diversas sombras: a inflação, o risco de uma crise hídrica, o desemprego. O principal fator de incerteza é a lentidão da vacinação. As hesitações, os atrasos, a negligência na busca da vacina que a CPI tem revelado a cada depoimento aumentaram o número de vítimas no Brasil, mas também comprometeram a recuperação econômica.

Quem vê a economia com olho nas tendências se depara com uma aberração no Brasil. No tempo em que todos os grandes fundos de investimento, maiores bancos e empresas globais assumem compromissos ambientais, o Brasil tem um ministro do Meio Ambiente como Ricardo Salles que é investigado por suspeita de facilitar exportação ilegal de madeira. É tão absurdo que parece inverossímil. Só é crível porque acontece no governo Bolsonaro. O cenário na área ambiental começou a mudar a partir dessa operação contra Salles e agora o inquérito foi autorizado pela ministra Cármen Lúcia.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

 


Brasil cai para 19º lugar em ranking do PIB; países que combateram pandemia com vigor estão no topo

 Denise Luna, 

O Estado de S.Paulo

Mesmo com a alta de 1,2% no primeiro trimestre, o País perdeu sete posições entre as maiores economias, segundo levantamento da Austin Rating

RIO - Países que combateram a pandemia de covid-19 com vigor e concederam incentivos fiscais significativos ocupam as primeiras posições do ranking do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre do ano de 50 países divulgado nesta terça-feira, 1.º, pela Austin Rating, avaliou o economista-chefe da agência de classificação de risco, Alex Agostini.

O Brasil perdeu sete posições no ranking da Austin entre o último trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, caindo para o 19.º lugar, informou Agostini, observando que o País só conseguiu se manter nessa posição por causa do alto do preço das commodities.

Lideram a lista Croácia (5,8%), Hong Kong (5,4%), Estônia (4,8%), Chile (3,2%) e Cingapura (3,1%). Na América do Sul, a Colômbia também ficou à frente do Brasil, com avanço do PIB de 2,9% no período. 

"O PIB do Brasil só foi bom, apesar de ter ficado abaixo das nossas projeções, porque o preço das commodities está no maior nível desde 2009", disse Agostini ao Estadão/Broadcast.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta terça alta de 1,2% no PIB do primeiro trimestre em relação ao último trimestre do ano passado. Agostini destacou que enquanto a indústria extrativa ficou positiva, a indústria de transformação, que está relacionada à atividade econômica interna, teve queda.

"O resultado do PIB no primeiro trimestre não reflete a nossa realidade doméstica, que é uma recuperação ainda descompassada, muito do lado da produção para o exterior e menos para o consumo doméstico, que está acontecendo ainda em passos lentos", ressaltou.

Ele observou que o crescimento se deu mais pelo lado de demanda, portanto das exportações, mas as importações também cresceram por setores internos, que importam para poder exportar, como fertilizantes, que são usados na produção agrícola.

A Austin manteve inalterada a projeção para o PIB do Brasil em 2021, de 3,3%, e de 3% para 2022, justificando que, apesar de haver indicações de um potencial maior crescimento, algumas incertezas ainda estão na mesa, como possíveis novas altas da taxa Selic nas próximas reuniões; acirramento da crise hídrica; processo lento de imunização contra o covid-19; forte elevação dos custos de produção, com destaque para as altas recordes dos preços das commodities; cenário fiscal ainda fragilizado; e redução dos estímulos monetários nas economias desenvolvidas.