Semana passada, quando o Congresso discutia o pacote de ajuda aos estados e municípios, e diante da oposição que o Executivo Federal fazia à sua aprovação nos moldes em que estava desenhado, fiz dois comentários que vale agora repetí0los.
O primeiro é sobre o projeto não impor praticamente nada de contrapartida aos favorecidos, a não ser congelar salários de servidores, o que não representa nada. Por que só a iniciativa privada precisa sacrificar-se, reduzindo salários e jornada de trabalho enquanto os pilantras do serviço nada renunciam em favor do país, que luta para ter recursos suficientes para suportar a crise? Isto é de indignar toda a sociedade. Mas esta não uma preocupação central. Temia que, sob a possibilidade do pacote ser aprovado naqueles termos, em que estados e municípios estão desobrigados de apresentarem um programa de redução de gastos não essenciais, o governo federal acenasse com a possibilidade de aprova-lo sob a condição de que as medidas restritivas fossem afrouxadas, o que seria uma absurda extorsão.
Nem bem passou-se uma semana e o que temos? Nove estados além do Distrito Federal já vão abrindo portas e janelas e, em algumas cidades, a movimentação de pessoas nas ruas. Lojas. Botecos e shopping centers são como se nada fora do normal estivesse acontecendo.
Enquanto isto, as estatísticas não mentem. Mais e mais a curva de infectados e mortos vai crescendo, hospitais vão sendo saturados em suas vagas de enfermarias e leitos de UTI, algumas unidades já atingindo 100% das vagas. Cemitérios vão enterrando os mortos em valas comuns por não darem conta da quantidade de mortos que vão chegando. Hospitais já começam a ter que escolher entre quem vive e quem morre por falta de equipamentos suficientes para atender as tantos doentes. Nas periferias onde a movimentação está liberada são justamente aqueles que apresentam as estatísticas maiores de infectados e mortos.
Do inicial combate rigoroso passamos a não ter combate algum. E as consequências é o cenário mórbido que estamos assistindo. É doloroso assistir uma enfermeira, com máscara, ter de ajoelhar-se com mãos postas, diante de uma reportagem de televisão, implorando por uma vaga em UTI para seu pai. É muito triste ver caixões enfileirados, um ao lado do outro, jogados em valas comuns, sem identificação e o pior, sem uma comovedora despedida de seus familiares e amigos. Pessoas já estão sendo retiradas de suas casas diretamente para o IML. Morrem em suas camas sem a mínima chance de receberem a assistência que precisavam.
E toda esta abertura estúpida vai acontecendo sem que tenhamos atingido o pico da pandemia. Se a situação atual já é de descalabro, imaginem o caos total que poderemos ter daqui duas ou três semanas!
Uma coisa é ter pressa em relação à reabertura da economia, outra, danosa e bem diferente, é em nome da pressa jogar no lixo tudo quanto se produziu no combate à pandemia até aqui. Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Críticas. Na coletiva de ministros o da Secretaria de Governo, General Ramos, cobrou da mídia a divulgação de "notícias positivas". Acredite, general, bem que a gente até gostaria de divulgar coisas boas e, de certa forma, alguns órgãos o fazem e se esforçam muito neste sentido. Mas como evitar a divulgação de fatos ruins, como os maus exemplos dados pelo Presidente da República? Como evitar alertar as autoridades para o aumento dos casos de novos doentes e mortos em tal número que já esgotam as capacidades de vários hospitais e até de cemitérios? Como evitar os alertas indispensáveis para que a população saia menos de casa, evitando a aceleração do contágio para gerar a superlotação da rede pública? Claro que o número de curados entre os infectados é positivo, o que não dá é para levar fé nas estatísticas divulgadas pelo novo ministro da Saúde porque, além de números errados, não é possível aceitar a comparação da situação brasileira, que não ainda não viveu o pico da pandemia, com países que já sofreram e passaram por tal situação. Não dá para comparar e querer igualar como iguais fatos tão díspares. Sugestão ao ministro: que tal se o governo parar de produzir notícias ruins e dedicar-se em produzir apenas as boas?
Pró-Brasil - Até agora ninguém entendeu os motivos da ausência do ministro Paulo Guedes na coletiva, quando foi anunciado pelo general Breno, chefe da Casa Civil o programa Pró-Brasil destinado a reaquecer a economia pós pandemia. Tem coisa fora do lugar aí.
Hora do Ministério Público entrar em ação – Por que até o momento, não se viu nenhuma iniciativa por parte do Ministério Público para identificar e, se preciso, abrir processo contra a turma assentada no tal “gabinete de ódio”, de onde partem cem por cento das fake News contra adversários do governo? O que há de absurdos, disparates, calúnias e notícias falsas capazes de desinformar e desorientar a população em tempos de crise, além de difamar e denegrir imagem de pessoas honradas é impressionante. E tanto quanto se saiba, tudo isto é ato criminoso contra o qual o Ministério Público deveria se posicionar e tomar atitudes. Ou será por que, neste gabinete, participam 01,02 e 03 e os três são intocáveis por ordem de quem o nomeou senhor Aras? Lembrando que Vossa Excelência é Procurador Geral da “REPÚBLICA DO BRASIL”, e não mero empregado do senhor Bolsonaro.
Um aliado prá chamar de seu – Contrariando todos os discursos, alguns recentes, quanto a distribuir cargos em troca de apoio político, Bolsonaro chama o Centrão para o baile e tenta uma reaproximação com o DEM. É o famoso “é dando que se recebe” de volta. Como vemos, a tal “política nova” não é tão nova assim. Aquele berreiro “não negociamos nada” não passou de bravata. Detalhe: o presidente está chamando de aliados mensaleiros e os implicados na Lava Jato. Política nova uma OVA!
Um governo fora de órbita – A cada projeto ou ideia nova que surge no cenário, com o objetivo de amenizar os efeitos adversos provocados pelo novo coronavírus, o tempo que se perde no governo discutindo se serve ou não, se dá para pagar ou não, que o déficit vai aumentar muito, que a dívida vai crescer além do limite, chega a ser patético. Ora, qual o valor de uma vida, hein? Quanto nos vale um pai, um irmão, um filho ou filha?
Portanto, não importa quanto iremos gastar em amparar as pessoas que sofrem com a crise, o importante é dar-lhe condições de sobreviverem e, neste ponto, não há limites.
Voltem à crise financeira de 2008/2009. Os governos europeus e americano praticaram uma expansão monetária jamais vista antes, que ao fim e ao cabo, salvou a economia mundial sem deixar sequelas. Não é hora de discutir bagatelas.
Seria importante que Bolsonaro e Guedes perdessem, em nome da vida dos brasileiros, o medo que eles tem de gastar. Não é hora para isso. E fica claro a falta que faz uma liderança, forte e competente, para comandar o país nesta travessia.










