domingo, abril 26, 2020

Não basta ser irresponsável: precisa ser insano

Comentando a Notícia



Semana passada, quando o Congresso discutia o pacote de ajuda aos estados e municípios, e diante da oposição que o Executivo Federal fazia à sua aprovação nos moldes em que estava desenhado, fiz dois comentários que vale agora repetí0los. 

O primeiro é sobre o projeto não impor praticamente nada de contrapartida aos favorecidos, a não ser congelar salários de servidores, o que não representa nada. Por que só a iniciativa privada precisa sacrificar-se, reduzindo salários e jornada de trabalho enquanto os pilantras do serviço nada renunciam em favor do país, que luta para ter recursos suficientes para suportar a crise?  Isto é de indignar toda a sociedade. Mas esta não uma preocupação central. Temia que, sob a possibilidade do pacote ser aprovado naqueles termos, em que estados e municípios estão desobrigados de apresentarem um programa de redução de gastos não essenciais, o governo federal acenasse com a possibilidade de aprova-lo sob a condição de que as medidas restritivas fossem afrouxadas, o que seria uma absurda extorsão. 

Nem bem passou-se uma semana e o que temos? Nove estados além do Distrito Federal já vão abrindo portas e janelas e, em algumas cidades, a movimentação de pessoas nas ruas. Lojas. Botecos e shopping centers são como se nada fora do normal estivesse acontecendo.

Enquanto isto, as estatísticas não mentem. Mais e mais a curva de infectados e mortos vai crescendo, hospitais vão sendo saturados em suas vagas de enfermarias e leitos de UTI, algumas unidades já atingindo 100% das vagas. Cemitérios vão enterrando os mortos em valas comuns por não darem conta da quantidade de mortos que vão chegando. Hospitais já começam a ter que escolher entre quem vive e quem morre por falta de equipamentos suficientes para atender as tantos doentes.  Nas periferias onde a movimentação está liberada são justamente aqueles que apresentam as estatísticas maiores de infectados e mortos. 

Do inicial combate rigoroso passamos a não ter combate algum. E as consequências é o cenário mórbido que estamos assistindo. É doloroso assistir uma enfermeira, com máscara, ter de ajoelhar-se com mãos postas, diante de uma reportagem de televisão, implorando por uma vaga em UTI para seu pai. É muito triste ver caixões enfileirados, um ao lado do outro, jogados em valas comuns, sem identificação e o pior, sem uma comovedora despedida de seus familiares e amigos. Pessoas já estão sendo retiradas de suas casas diretamente  para o IML. Morrem em suas camas sem a mínima chance de receberem a assistência que precisavam. 

E toda esta abertura estúpida vai acontecendo sem que tenhamos atingido o pico da pandemia. Se a situação atual já é de descalabro, imaginem o caos total que poderemos ter daqui duas ou três semanas! 

Uma coisa é ter pressa em relação à reabertura da economia, outra, danosa e bem  diferente, é em nome da pressa jogar no lixo tudo quanto se produziu no combate à pandemia até aqui. Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Críticas. Na coletiva de ministros  o da Secretaria de Governo, General Ramos, cobrou da mídia a divulgação de "notícias positivas". Acredite, general, bem que a gente até gostaria de divulgar coisas boas e, de certa forma, alguns órgãos o fazem e se esforçam muito neste sentido. Mas como evitar a divulgação de fatos ruins, como os maus exemplos dados pelo Presidente da República? Como evitar alertar as autoridades para o aumento dos casos  de novos doentes e mortos em tal número que já esgotam as capacidades de vários hospitais e até de cemitérios? Como evitar os alertas indispensáveis para que a população saia menos de casa, evitando a aceleração do contágio para gerar a superlotação da rede pública? Claro que o número de curados entre os infectados é positivo, o que não dá é para levar fé nas estatísticas divulgadas pelo novo ministro da Saúde porque, além de números errados, não é possível aceitar a comparação da situação brasileira, que não ainda não viveu o pico da pandemia, com países que já sofreram e passaram por tal situação. Não dá para comparar e querer igualar como iguais fatos tão díspares.  Sugestão ao ministro: que tal se o governo parar de produzir notícias ruins e dedicar-se em produzir apenas as boas?

Pró-Brasil -  Até agora ninguém entendeu os motivos da ausência do ministro Paulo Guedes na coletiva, quando foi anunciado pelo general Breno, chefe da Casa Civil  o programa Pró-Brasil destinado a reaquecer a economia pós pandemia. Tem coisa fora do lugar aí.

Hora do Ministério Público entrar em ação – Por que até o momento, não se viu nenhuma iniciativa por parte do Ministério Público para identificar e, se preciso, abrir processo contra a turma assentada no tal “gabinete de ódio”, de onde partem cem por cento das fake News contra adversários do governo? O que há de absurdos, disparates, calúnias e notícias falsas capazes de desinformar e desorientar a população em tempos de crise, além de difamar e denegrir imagem de pessoas honradas é impressionante. E tanto quanto se saiba, tudo isto é ato criminoso contra  o qual o Ministério Público deveria se posicionar e tomar atitudes. Ou será por que, neste gabinete, participam 01,02 e 03 e os três são intocáveis por ordem de quem o nomeou senhor Aras? Lembrando que Vossa Excelência é Procurador Geral da “REPÚBLICA DO BRASIL”, e não mero empregado do senhor Bolsonaro.

Um aliado prá chamar de seu – Contrariando todos os discursos, alguns recentes, quanto a distribuir cargos em troca de apoio político, Bolsonaro chama o Centrão para o baile e tenta uma reaproximação com o DEM. É o famoso “é dando que se recebe” de volta. Como vemos, a tal “política nova” não é tão nova assim. Aquele berreiro “não negociamos nada”  não passou de bravata. Detalhe: o presidente está chamando de aliados mensaleiros e os implicados na Lava Jato. Política nova uma OVA!

Um governo fora de órbita – A cada projeto ou ideia nova que surge no cenário, com o objetivo de amenizar os efeitos adversos provocados pelo novo coronavírus, o tempo que se perde no governo discutindo se serve ou não, se dá para pagar ou não, que o déficit vai aumentar muito, que a dívida vai crescer além do limite, chega a ser patético. Ora, qual o valor de uma vida, hein? Quanto nos vale um pai, um irmão, um filho ou filha? 

Portanto, não importa quanto iremos gastar em amparar as pessoas que sofrem com a crise, o importante é dar-lhe condições de sobreviverem e, neste ponto, não há limites. 

Voltem à crise financeira de 2008/2009. Os governos europeus e americano praticaram uma expansão monetária jamais vista antes, que ao fim e ao cabo, salvou a economia mundial sem deixar sequelas. Não é hora de discutir bagatelas. 

Seria importante que Bolsonaro e Guedes perdessem, em nome da vida dos brasileiros, o medo que eles tem de gastar. Não é hora para isso.  E fica claro a falta que faz uma liderança, forte e competente, para comandar o país nesta travessia.

O delírio presidencial

Comentando a Notícia


O senhor Jair Bolsonaro protagonizou neste domingo um dos mais patéticos e asquerosos comportamentos em favor do mal. Ao participar de uma manifestação popular em Brasília, em frente ao Quartel-General do Exército, deu apoio às reivindicações do que ali se pedia, como intervenção militar, volta do AI-5, fechamento do Congresso e do STF, demonstrando seu total desprezo pelas instituições democráticas (cujas regras o elegeram), e ao desejo quase incontrolável de uma ruptura institucional e a volta a um passado que, ninguém com o juízo no lugar, deseja assistir.

Em sua coluna no site da “Tribuna da Internet”, José Carlos Werneck “Manifestantes de Brasília expuseram uma justa indignação contra  castas privilegiadas” assim se manifestou;”... mas as pessoas que estavam na manifestação, da tarde deste domingo, eram, em sua esmagadora maioria de classe média e diziam que estavam fartas dos injustificáveis privilégios dos deputados, senadores e ministros do Supremo Tribunal Federal.”

Caro Werneck. Você vai me desculpar, mas esta posição de contrariedade quanto aos privilégios de políticos e ministros do STF não justificam, de modo algum, que alguém, em sã consciência alimente o desejo mórbido de ter a volta do regime  militar. Quem assim se manifesta, ou é porque beneficiou-se com a ditadura (muitos empresários enriqueceram naqueles idos tempos), ou simplesmente nasceu pós-redemocratização. E, assim é, simplesmente porque não precisou viver numa época em que se prendia, se batia e se torturava (quando não se matava), sem dó nem piedade apenas por desconfiar que o sujeito ou era comunista ou subversivo, mesmo que nenhuma evidência comprovasse tais acusações. A censura corria solta, não havia liberdades e garantias individuais como as que desfrutamos hoje, inclusive a liberdade ontem usufruída pelos manifestantes em prol do AI-5 e pedido de intervenção militar. 

Este blog, caro Werneck, desde 2006 condena os privilégios, as mesmas benesses, os mesmos abusos que se cometem com o dinheiro público, os mesmo dinheiro que deveria ser investido na educação, na saúde, na segurança pública, na infraestrutura, no saneamento é simplesmente desviado para o enriquecimento imoral (quando não ilegal e corrupto) de uma casta a que chamamos de elite estatal, que se beneficia de sua estabilidade para angariar dos políticos a oferta e consagração de mais e mais privilégios, não porque o mereçam por serviços prestados à sociedade, mas porque fazem uso desmedido das greves, como instrumento de chantagem,  para terem seus pleitos aprovados e legalizados.

Sim, este blog, Werneck, é contra tudo aquilo com o qual você tenta justificar que as manifestações são legítimas em pedir AI-5, intervenção militar, fechamento do STF e do Congresso. Somos contra a greves ilegítimas (a maioria o são), somos totalmente contrários a tal maldita estabilidade de servidores públicos e somos contrários ao enriquecimento ilegítimo desta elite estatal na qual se assenta boa parte da nossa desigualdade social e os péssimos serviços que o Estado retorna à população. Ou será que alguém aceita que 50% da população viva literalmente na merda, por falta de esgoto tratado e acesso à água potável? Ou será que alguém está satisfeito com a péssima qualidade de ensino que transforma cerca de 75 % da população em analfabetos funcionais? Ou com a completa falta de segurança pública onde se registram mais de 60 mil homicídios/ano? Ou como veremos nesta pandemia, a total degradação da rede pública de saúde? E por que não sobram recursos para estas áreas tão essenciais? Porque boa parte da arrecadação produzidas pelas riquezas que geramos é desviada para sustentar esta elite estatal apodrecida. 

Pois bem, Werneck, sou contra aquilo que indigna a tal “Classe média” cuja fração menor participou de várias manifestações neste domingo. Mas nestes anos todos em que o blog está presente, com mais de 40 mil textos postados, você não encontrará uma única vírgula em que, em nome da indignação, reivindicamos a volta do AI-5, intervenção militar  ou fechamento do Congresso e do STF. Primeiro, por conta do nosso espírito democrático. Segundo, porque vivenciamos aqueles tempos mórbidos da ditadura militar e sabemos as mortes e padecimentos que ela provocou. 

Sim, Werneck, usamos textos como este no sentido de esclarecer, de informar, de alertar para o perigo que pode representar alimentarmos certos saudosismos, os autoritários principalmente. São poucos manifestantes presentes,  em Brasília e São Paulo, e mais outras cidades, que tem a menor noção do que é e do que foi o AI-5. Sequer sabem o que é tentar viver num regime autoritário, sem liberdades nem garantias.  Naqueles tempos, passeatas como as de ontem, sequer seriam admitidas e ai de quem se dispusesse em convoca-las. Acabava nos porões dos quartéis debaixo de chibata.  

Assim, as vozes de repúdio dirigidas à Bolsonaro pelo país são mais do que merecidas. A atitude do presidente é extremamente irresponsável, além criminosa por ferir dispositivos constitucionais.

Se alguém quer fechar o Congresso é bom lembrar que deputados e senadores não caíram em seus mandatos de paraquedas. Foram eleitos pelo mesmo povo que agora contra eles se rebela. Assim, não é em frente a um quartel do Exército que a manifestação deveria acontecer, e sim em frente ao Congresso, ou mesmo STF.  E, acredite,   o país não acabará com os  privilégios  e regalias  com o retorno da ditadura militar. 

Infelizmente, o ar de liberdade que a sociedade desfruta tem um alto preço. Se este preço é insustentável é porque estamos elegendo e reelegendo representantes ruins, que não merecem nosso voto (mas mesmo assim continuam sendo eleitos por nós, quando não através da venda de votos).

O único caminho para melhorarmos nosso padrão moral é através da educação, além de tentarmos, através das instituições da sociedade civil, conscientizar o povo a elevar eles também, seu padrão moral. Principalmente na hora de votar.

Queres um exemplo? Diariamente, nestes dois últimos meses, outra coisa não se fala e se comenta que não seja a importância do isolamento social, para reduzir ao mínimo o risco de contágio do novo coronavírus. Reveja as reportagens deste final de semana na imprensa, e terás uma ideia do quanto estamos distantes de uma sociedade disciplinada e atenta aos preceitos mais comezinhos do que seja uma civilização.

Assim, sob qualquer ângulo que se analise, o comportamento de Bolsonaro neste caso deve ser condenado. Não pode um presidente da República comportar-se como moleque desaforado, desafiar e confrontar as instituições no volume e na forma como ele vem fazendo, além de incitar uma desobediência civil que coloca em a saúde da população com risco de mortes.  E ainda por cima cometer as barbaridades que tem cometido. Por exemplo, autorizar os filhos a compor um gabinete de ódio a perseguir adversários e todo aquele que ousar divergir de suas falas e atitudes. Ou, ainda, ao tentar justificar sua presença na manifestação em Brasília, mentir descaradamente ao afirmar que as pessoas que ali estavam clamavam por emprego. Canalhice. Havia dezenas de faixas clamando AI-5, fechamento do Congresso e do STF, intervenção militar, mas não se encontrava nenhuma pedindo o fim do isolamento ou clamando por emprego.Com esta mentira grosseira Bolsonaro tenta nos fazer de idiotas. Felizmente, nem todos são fantoches teleguiados por sua irr4esponsabilidade.   

Bolsonaro vem flertando, perigosamente, com um processo de impedimento. E, basta olhar o cenário brasileiro, para ver o quanto de prejuízo e atraso uma ação deste tipo pode acarretar para todo o país. Mas, de uma forma ou de outra, alguém precisa parar este maluco. Está visto que, um diagnóstico sério feito na condição mental do desajustado e desequilibrado, apontará uma paranoia intermitente. E o tratamento não se faz em palácios e sim em clínicas especializadas.

OS.: E eu pensei que, depois de Dilma Rousseff, tão cedo o Brasil não teria um presidente tão medíocre. Acho que me enganei!

Perdemos o caminho de casa

J.P. Cuenca
Deutsche Welle

A quinta semana de confinamento nos leva a revisitar o passado e pensar sobre como chegamos até aqui. Nunca estivemos tão juntos – e tão sozinhos em nossos quartos.
    
 "Wanderer über dem Nebelmeer", de Caspar David Friedrich


1.

Volte para o quarto da sua infância que não existe mais. Antes disso, tente reconstruí-lo intacto, suspenso no ar.

O cômodo era simples, quadrado, uma cela com as dimensões da que você ocupa hoje, décadas depois. Em frente ao catre, uma mesinha com o tesouro mais valioso: uma caixa robusta de metal, um Gradiente MSX, ligado ao televisor de tubo e ao teclado. Ali você se debruçava para datilografar linhas em BASIC reproduzidas de compilações com encadernação colorida. Eram formas geométricas em arranjos cinéticos, objetos craquelados, enigmas, ilusões, livro-jogos que você reinventava – para depois perdê-los num átimo, a cada tomada elétrica.

Não havia conexão telefônica, discos, nem sequer fitas-cassete num datacorder, seu som estridente transformando-se em código. O aparelho não guardava nada, o jovem monge recopiava.

Na cabeceira, um pequeno refletor iluminava sobre os lençóis pilhas de livros, ele próprio equilibrado sobre outra. Junto à janela, uma amendoeira antiga, e às vezes o vento levava uma grande folha cor de cobre – gentileza da amendoeira. Que tinha outras: rolinhas cinzentas que entravam corredor adentro, seguindo riscos de alpiste até a sala.

E, no verão, como as cigarras zuniam. E, toda noite, como os boêmios urravam – vivíamos sobre um bar. Em certas tardes mudas dos finais de semana, você desenterrava um carretel parrudo e traçava teias, amarrando os móveis uns aos outros até que ninguém pudesse passar por ali, o derradeiro laço envolvendo o nó de porcelana da porta, agora fronteira trancada entre você e o mundo.   


2.

Andamos com mania de passado.

Cada dia trancado em casa, um passo montanha acima, de onde tentamos contemplar o caminho que nos trouxe até aqui – sobre um mar de névoa, como naquele óleo de Caspar David Friedrich.

E lembrar, talvez de quartos em que a porta podia ser aberta, o barbante cortado. Onde fomos felizes com amores antigos, que nos vêm de assalto, como um sopro de ar quente no meio de uma dessas tardes tão iguais à ontem. Quartos de onde vimos os fascistas marchando pela janela, enquanto nossa cama convertia-se num porão. Quartos, ainda, onde olimpicamente sozinhos abandonamos toneladas de horas encarando o teto, mas cujas regras e horários de entrada e saída eram definidas pelo nosso desejo – ou equilíbrio dos neurotransmissores, que seja.

Hoje, vivemos em cidades sem cigarras e pássaros, nossos apartamentos da infância já foram demolidos. Trancar-se não é mais uma opção, e as portas apenas sublinham nossa fragilidade. Do alto da montanha, quando as nuvens se dissipam, finalmente enxergamos um labirinto. Como Paul Valéry olhando a lua ao amanhecer, "como se eu não estivesse em meu coração".

Todos perdemos o caminho de casa, todos – e ao mesmo tempo.

3.

Minha amiga em Berlim diz que as pessoas estão experimentando um tipo de depressão forçada. Algo que nós, jedis do claustro, conhecemos bem. Lanna escreve: "Nós compartilhamos esse ciclo desafortunado de notícias, novas mortes, esse e aquele desastre, regras contra o contágio, e a dúvida se isso vai mudar tudo, e se nada for igual de novo, e o que isso significa? Quantas mortes hoje, as pessoas estão exagerando, quais são as regras, como lavo as mãos, e se eu não estiver lavando minhas mãos o suficiente? E daí nós tentamos nos distrair com filmes, ou pornografia, ou lendo, e ficamos cada vez mais tempo com a tela, sozinhos. Parece demais e não o suficiente ao mesmo tempo."

Meu amigo em Paris está visitando hospitais para escrever sobre a pandemia. Mario escreve: "Hoje fui a uma unidade dos pacientes mais críticos. Grande maioria de homens. Muitos usando um pulmão artificial. Não é um respirador. É uma máquina que drena teu sangue, oxigena e injeta de novo no teu corpo. Perguntei pro médico qual era a porcentagem de pacientes curados. Ele me disse que 30%. Até agora não sei se entendi direito, embora faça todo o sentido pelo que se vê. Vários ali já parecem mortos. Todos na faixa dos 35 aos 55 anos, sem patologias prévias."

"Tudo bem?" – minha amiga de São Paulo pede desculpas antes de desabafar: "Você quer mesmo saber? É que hoje 'tudo bem' deixou de ser uma pergunta retórica."


4.

Uma pandemia vivida 24/7 online: talvez não exista outro evento histórico a unir tantos seres humanos sob a mesma circunstância. Mesmo as Guerras Mundiais do século passado desenrolaram-se com lógica mais fragmentada, espalhadas pela cronologia e pelo espaço. Mas hoje parecemos estar sob a mesma ameaça, com os mesmos temores, ao mesmo tempo.

Nunca antes tão juntos – e tão sozinhos em nossos quartos.
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Voltamos a ser mortais

Viriato Soromenho-Marques
Diário de Notícias (Lisboa)

Nunca é de mais repeti-lo. Sobre o futuro não é sensato dizermos muitas coisas. Nem com todo o poder computacional do mundo estaríamos isentos de erro, pois a realidade é infinitamente mais complexa do que a nossa capacidade de a representar. Mas temos o passado. Como o anjo da história, que Walter Benjamin julgou perceber num quadro de Paul Klee (meu artigo DN, 18-1-2020), somos obrigados à procura de um sentido - a partir da leitura das ruínas, sofrimentos, esquecimentos, ilusões e injustiças do passado - que nos ajude a explicar como chegámos até aqui. Sem sentido ficaremos paralisados. Somos criaturas, como nos ensinou Viktor Frankl (1905-1997), sábio sobrevivente do Holocausto, que precisam da semântica tanto como do pão para a boca. Neste confinamento planetário, seguindo a progressão do covid-19 como quem lê o boletim de baixas de uma guerra, aprendemos que a "normalidade" para onde os mais distraídos querem regressar de armas e bagagens foi uma longa embriaguez.

Agora, somos perseguidos em toda a parte por uma "coisa" invisível (o vírus nem sequer é propriamente um organismo vivo), forjada por uma zoonose num miserável e cruel mercado de animais selvagens em Wuhan. Que o mundo pudesse encapsular-se, talvez na antecâmara de um abismo maior, depois de o vírus ter sido propagado à velocidade de cruzeiro das dezenas de milhares de voos comerciais que inundavam os céus, só foi novidade nos detalhes. No essencial, o perigo e a terapia preventiva foram antecipados, não só por cientistas mas por Bill Gates e Obama. Totalmente em vão.

Estamos agora, derrubados pela embriaguez, caídos no chão. A tentar perceber o que nos aconteceu. Nestes quarenta anos em que globalização e neoliberalismo foram sinónimos, em que os Estados se limitaram a aplanar o caminho para a eficiência dos mercados, consentindo em todos os abusos, existia uma promessa de felicidade universal.

A aliança forjada entre o neocapitalismo e a tecnociência - que se transformou no novo "ópio do povo" - encontrou os seus sacerdotes de serviço, transformando ciência em superstição: Bjorn Lomborg, negando o agravamento da crise global do ambiente; Steven Pinker, imitando o Dr. Pangloss, na descrição do melhor dos mundos possíveis; Ray Kurzweil, anunciando uma "singularidade" tecnológica; Nick Bostrom, entre muitos outros profetas do transumanismo, profetizando a hiperconsciência digital, ou a colonização da galáxia pelas nossas máquinas de IA; o irrequieto Elon Mask, loteando Marte para colonização futura...

Da utopia digital, desembarcámos no amargo pesadelo analógico da realidade. Da doença, da angústia, da vulnerabilidade, da economia injusta e entrópica, dos maus governos. Voltámos a ser mortais numa Terra que foi cantada como sendo da "alegria" na última e maravilhosa poesia de Ruy Belo. Agora, o Jardim do Éden está ferido por dentro, pela destruição do ambiente, pelas alterações climáticas, pela estupidez e pela discórdia. É aí que teremos de lutar, juntos, pela sobrevivência. Com olhos bem abertos.

Professor universitário

Caiu a máscara de Bolsonaro

Alexander Busch (av) 
Deutsche Welle  

Após menos de um ano e meio de governo, suposto reformador liberal se revela o que sempre foi: um radical de direita sem qualquer interesse em práticas corretas no Estado ou no combate à corrupção, opina Alexander Busch.    

"O caos decorrente da crise do coronavírus vem a calhar
 para Bolsonaro", escreve Alexander Busch

Em menos de 48 horas, o presidente Jair Bolsonaro deixou cair a máscara que até então mantinha diante do rosto, de reformador liberal do Estado e da economia, e adversário da corrupção. A esses falsos papéis, o populista de direita deve grande parte dos votos da classe média e do empresariado que o elegeram há um ano e meio.

Quem quer que ainda esperasse que – a despeito de todos os sinais em contrário – o gabinete de Bolsonaro fosse tranquilamente continuar se dedicando às reformas e ao combate à corrupção, pode agora desistir de vez. Pois, em apenas dois dias, o presidente cortou as asas, primeiro de seu superministro da Economia, o liberal Paulo Guedes, e depois do agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro.

Ele sempre louvara Paulo Guedes como onisciente e onipotente encarregado de economia e finanças em seu gabinete; seu "Posto Ipiranga", que não se curvava diante de ninguém; que tinha sob seu controle as pastas das finanças, economia e planejamento, assim como as instituições financeiras estatais, do Banco do Brasil e BNDES ao Banco Central.

Porém, agora Bolsonaro fez seu ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, anunciar o Pró-Brasil, seu "plano Marshall brasileiro". Através dele, 30 bilhões de reais deverão fluir para projetos estatais de infraestrutura, sob controle e fiscalização dos militares. Desse modo, fica neutralizada a abordagem liberal de Guedes, que pretendia entregar o financiamento dos projetos de infraestrutura ao maior número possível de investidores privados.

Com isso, o Brasil se encontra exatamente onde estava 50 anos atrás, sob a ditadura militar, quando planejadores estatais militares estipulavam e executavam obras de infraestrutura – da Transamazônica e a usina nuclear de Angra dos Reis até a represa de Itaipu. Como naquela época, o Estado brasileiro não dispõe do capital necessário e terá que se endividar, até as verbas se esgotarem e a falência estatal bater à porta.

A supervisão militar não evitará que, também desta vez, ocorra corrupção em grande estilo. Naquela época, ganharam porte conglomerados de construções como Odebrecht e Andrade Gutierrez, que dominaram por décadas o Estado, a economia e a política do Brasil, como verdadeiras máquinas de corrupção.

Bolsonaro já se encarregou de debilitar os mecanismos de controle de corrupção. Ao exonerar o diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, ele degradou a tal ponto seu ministro da Justiça, o ex-juiz Moro, que este acabou por renunciar.

Por um lado, em suas investigações, a Polícia Federal vinha chegando cada vez mais perto da família Bolsonaro. Por outro, Moro devia estar irritado por o presidente pretender compactuar com políticos sabidamente corruptos, a fim de ganhar pelo menos um pouco de respaldo no Congresso.

Se permanecesse no cargo, Moro se tornaria totalmente desqualificado como garantidor de governança íntegra. Mas com a sua renúncia, não haverá mais controle sobre a panela formada por Bolsonaro, os militares e os serviços de segurança nacional.

Ou seja: caiu definitivamente a máscara do governo. Menos de um ano e meio após tomar posse, o suposto reformador neoliberal e combatente da corrupção se revela o que sempre foi: um político ultradireitista de baixa categoria, sem o menor interesse em reformas estatais nem em práticas limpas no Estado e na economia.

Bolsonaro não está sequer interessado num governo que funcione, como provam a demissão do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e a pressão crescente sobre a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Bolsonaro vai governar nos próximos dois anos e meio para si e seu clã familiar, assim como para seus apoiadores mais próximos. Estes são sobretudo os evangélicos, que o abençoam com preces todas as manhãs, diante do Palácio da Alvorada, enquanto ele distribui tiradas de ódio. Além disso, há os saudosistas da ditadura – e claro, os empresários oportunistas, ávidos de se locupletar com as verbas públicas.

As Forças Armadas apoiarão Bolsonaro na execução de seus planos. Desde já, o governo pouco se distingue de um regime militar clássico – embora a divisão de poderes ainda funcione na democracia brasileira. Entretanto, todas as posições-chave já estão ocupadas por militares – assim como o segundo e o terceiro escalões da burocracia.

Já se pode prever o que o clã Bolsonaro tentará: neutralizar o Congresso, a Justiça e a mídia, pois o atrapalham o governo. As Forças Armadas vão cooperar – como agora, ao não criticar o apoio do presidente a manifestantes pró-ditadura.

Os militares detestam desordem, transparência e separação de poderes. Eles adoram hierarquias e obediência a comandos, assim como seu poder recém-conquistado em Brasília, o livre acesso a orçamentos e privilégios. Além disso, se consideram mais bem organizados do que o resto da sociedade.

O caos decorrente da crise do coronavírus vem a calhar para Bolsonaro. Seria a ocasião perfeita para ele eliminar de vez a divisão de poderes no país.

O poder que Bolsonaro quer

Editorial
O Estado de S.Paulo

O poder que Bolsonaro almeja é aquele exercido sem que tenha de prestar conta às instituições democráticas, como o ditador Hugo Chávez

Em meio ao repúdio unânime das instituições à sua participação num comício de caráter golpista em Brasília no domingo passado, o presidente Jair Bolsonaro defendeu-se dizendo que “falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial”. Segundo Bolsonaro, “o pessoal geralmente conspira para chegar ao poder”, mas “eu já estou no poder, eu já sou presidente”. E concluiu: “Então eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu?”.

De fato, Bolsonaro já está no poder, conferido a ele pelos eleitores no pleito de 2018. A questão é que esse poder Bolsonaro não quer, não só porque, no fundo, sabe que não tem a menor ideia de como exercê-lo, tamanho é seu despreparo, mas principalmente porque é um poder regulado pela Constituição e limitado pelos freios e contrapesos institucionais. Um presidente “pode muito, mas não pode tudo”, como disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, ao criticar a convocação, feita por Bolsonaro, de protestos contra o Congresso, em fevereiro. Ou seja, já naquela ocasião, o presidente deixava explícito que não pretendia se submeter aos controles constitucionais, pois, em sua visão, sua Presidência é “o povo no poder”, como bradou aos seus seguidores no domingo passado. Depreende-se que Bolsonaro almeja presidir um regime plebiscitário, em que a voz do que ele chama de “povo” se impõe como a lei, tendo o presidente como zeloso intérprete, submetendo todos os demais Poderes a seu tacão.

Nesse regime dos sonhos bolsonaristas, nem o tal “povo” nem o presidente da República são responsáveis pelos problemas do País; estes são sempre fruto das tramoias dos demais Poderes, que se recusam a satisfazer a vontade do “povo” e são vistos como inimigos que tramam para usurpar o poder conferido ao presidente nas urnas. Não à toa, Bolsonaro vive a invocar a possibilidade de sofrer impeachment, quase como se estivesse a desejá-lo, para servir como “prova” da tal conspiração.

O poder que Bolsonaro almeja, portanto, é aquele exercido sem que tenha de prestar conta às demais instituições democráticas - que permanecem em funcionamento, mas sem condições objetivas de cumprirem suas funções. Nem é preciso ir muito longe no tempo para encontrar exemplos desse tipo de regime - a Venezuela do ditador Hugo Chávez é o caso mais bem acabado de uma autocracia construída sem a necessidade de um golpe formal. Não deve ser mero acaso que em 1999 o então deputado Bolsonaro tenha rasgado elogios ao caudilho venezuelano, dizendo que Chávez, “uma esperança para a América Latina”, faria “o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”.

Como ensinou Chávez, a construção do poder discricionário demanda uma democracia de fachada, com eleições regulares e Parlamento em funcionamento, enquanto as estruturas democráticas vão sendo carcomidas. A imprensa livre é sufocada e a oposição é constrangida pela máquina de destruição de reputações. Já o Judiciário é tomado por governistas, transformando-se em pesadelo dos dissidentes do regime. Assim, estão dadas as condições para que a Constituição se torne letra morta.
É evidente que tal empreendimento deve ser contido já em seus primórdios. O Congresso faz sua parte quando impede Bolsonaro de aprovar medidas inconstitucionais e quando investiga a militância virtual bolsonarista que atua febrilmente para constranger os opositores do presidente.

Do mesmo modo, é alentador observar que o Supremo Tribunal Federal também está vigilante. Agora mesmo, por meio do ministro Alexandre de Moraes, atendeu ao pedido da Procuradoria-Geral da República e mandou abrir inquérito para saber quem organizou o ato antidemocrático do qual o presidente Bolsonaro participou animadamente no fim de semana. O ministro teve que lembrar que a Constituição “não permite o financiamento e a propagação de ideias contrárias à ordem constitucional e ao Estado democrático, nem tampouco a realização de manifestações visando o rompimento do Estado de Direito”. Essa investigação deve ir até o fim, dando nome e sobrenome aos liberticidas - seja qual for o cargo que ocupem ou o poder que tenham - e estes devem ser punidos de acordo com a lei.

Sem Moro, o governo Bolsonaro desmoronou

Joel Pinheiro da Fonseca
Exame.com

A interferência na PF vem não só durante uma pandemia grave, mas também no momento em que o Presidente se aproxima do Centrão

Adriano Machado/ Reuters (/)
BOLSONARO COM ELEITORES: 
na história brasileira, todos os líderes que apostaram na reação popular dançaram 

Aquilo que fora há muito tempo anunciado finalmente aconteceu: Moro rompeu definitivamente com Bolsonaro. A demissão de Maurício Valeixo como diretor geral da Polícia Federal foi a gota d’água, mas não é a primeira indignidade que o governo joga no ex-Superministro. Desde o início, sua suposta “carta branca” foi pisoteada sempre que conveio ao Presidente. Perdeu o COAF, teve que se desculpar publicamente pela indicação de uma suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, viu seu pacote anticrime esvaziado pelo Congresso sem qualquer esforço do Presidente em acatar as sugestões finais do Ministro. Em um dado momento, correu o risco de ter seu Ministério desmembrado. Naquela ocasião, bateu o pé e venceu. Desta vez, o imperativo de sobrevivência política do Presidente falou mais alto.

Motivos não faltam para o governo querer interferir diretamente na Polícia Federal: investigação contra Flávio Bolsonaro pelo esquema das rachadinhas, investigação contra Carlos Bolsonaro ligada às fake news e ao “gabinete do ódio” e, possivelmente, interesses dos novos aliados de Bolsonaro do Centrão. O sonho de Bolsonaro é tê-la na mão da mesma forma que fez com a PGR, com a diferença de que o Procurador-Geral conta com uma independência que falta ao diretor-geral da Polícia Federal.

A interferência na PF vem não só durante uma pandemia grave, mas também no momento em que o Presidente se aproxima do Centrão. Ver Bolsonaro abrir os braços para PTB e PP não é novidade: ele pertenceu a essas siglas. A novidade é tanta gente ter acreditado que ele era algo diferente dos políticos com que agora negocia cargos. E agora que abriu o balcão de negócios para esses e tantos outros partidos do Centrão, para sobreviver agora e quem sabe emplacar o próximo presidente da Câmara, volta a assumir publicamente o que sempre foi. Algo muito distante daquilo que Sérgio Moro projeta como um ideal de política.

Para Moro, seria impossível compactuar com o governo sem manchar sua imagem. Embora tenha já engolido tantos sapos neste ano e meio de governo, permanecer ao lado de Arthur Lira, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto seria demais. Perdendo Moro, o governo Bolsonaro perde o verniz de anti-corrupção de que se revestira, mostrando-se às claras como aquilo que sempre foi: um governo fisiológico e de defesa de interesses corporativistas.

Assim como na Justiça, na Economia o governo parece ter abandonado todo o programa de campanha. Nem bem Guedes se resignou a passar este mandato como gestor de crise e de política assistencial, Braga Netto, Tarcísio e Rogério Marinho aparecem como um Ministério da Economia alternativo propondo um verdadeiro Plano Marshall para o pós-epidemia. Um dia depois, o Ministro é fustigado abertamente por reportagem na TV Record, aliada de primeira hora de Bolsonaro.

No desespero da sobrevivência, Bolsonaro joga ao fogo as bandeiras que o elegeram: cruzada anti-corrupção, negação da política e liberalismo econômico. Em troca, ganha o Centrão. No mesmo momento que o PT embarcou no impeachment, o Centrão foi para o lado do Presidente. Se a aliança for selada, isso lhe garantes os votos de sobrevivência.

É claro que esse casamento cobrará um preço alto à frente; e esse “a frente” pode chegar muito rápido. A única arma que Bolsonaro tinha para enfrentar o jogo duro da política era seu apoio popular. Bom, depois do fracasso anunciado da saúde pública, do balcão de negócios ao ar livre e das acusações graves de Moro, vamos ver quantos ainda estarão dispostos a ir às ruas lutar pelo Mito.

Na história brasileira, todos os líderes que apostaram na reação popular dançaram – Jânio, Jango, Collor, Lula (nos dias de sua prisão). Restam as Forças Armadas, mas nada indica que estejam dispostos a romper com a institucionalidade para salvar um presidente que causa tantos problemas. Bolsonaro está, portanto, nas mãos do Centrão – voltou para de onde nunca saiu -, da política feita como puro jogo de interesses, que media todos os conflitos na política nacional. É um senhor cruel e impiedoso. Sem Moro, o governo Bolsonaro desmoronou.

Sob o signo de Tânatos

Editorial
O Estado de S.Paulo

Presidente Jair Bolsonaro se inviabiliza no cargo ao se dedicar à destruição de inimigos, de aliados e, por fim, de si mesmo



O governo de Jair Bolsonaro é conduzido sob o signo de Tânatos, o deus da morte na mitologia grega. Dedica-se desde sempre à destruição – primeiro, dos inimigos, reais e imaginários; depois, dos próprios aliados, inclusive ministros que lhe devotavam lealdade; e, afinal, a si mesmo, inviabilizando-se como presidente. É preciso interromper essa escalada antes que Bolsonaro destrua, por fim, o próprio País.

A trajetória da Presidência de Bolsonaro até aqui é impressionante. No início, constituiu um Ministério até razoável, capaz de fazer um bom trabalho em quase todas as áreas, e informou que estabeleceria uma nova forma de relação com o Congresso, sem o velho toma lá dá cá. Um ano e pouco depois, Bolsonaro fez de seu gabinete uma grande barafunda, em que ninguém se entende, e, no Congresso, depois de seguidas derrotas por se negar ao diálogo, resolveu entabular negociação com partidos e políticos envolvidos em escândalos de corrupção, oferecendo-lhes cargos em troca de votos.

Pior: em meio a uma pandemia devastadora, com milhares de doentes e mortos e com o sistema hospitalar público à beira do colapso, Bolsonaro preferiu desdenhar das vítimas e se mostrar mais preocupado com sua popularidade do que com a vida de seus governados.

Com esse espírito destruidor, trata como intocáveis ministros néscios que se dedicam dia e noite a encontrar comunistas embaixo da cama, enquanto inviabiliza o trabalho dos ministros e assessores que, ao contrário, prezam o cargo que ocupam e têm útil e valiosa colaboração a dar. Bolsonaro substituiu o ministro da Saúde porque este não aceitava desrespeitar as orientações da Organização Mundial da Saúde para enfrentar a pandemia de covid-19; desmoralizou sua equipe econômica ao resistir a fazer reformas e ao flertar com a irresponsabilidade fiscal; permitiu a fritura da ministra da Agricultura porque esta se queixou dos ataques bolsonaristas à China, principal cliente do agronegócio brasileiro; e agora tudo fez para provocar a saída do ministro da Justiça porque este se recusou a permitir que ele interferisse politicamente no comando da Polícia Federal (PF).

Para perplexidade dos brasileiros, Sérgio Moro, ao anunciar sua demissão do Ministério da Justiça, informou que Bolsonaro lhe disse que “queria ter (na chefia da PF) uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência”. Para ilustrar a gravidade do caso, Sérgio Moro, com uma pitada de ironia, deu o seguinte exemplo: “Imagine se, durante a Lava Jato, o presidente (Lula), a presidente Dilma ficassem ligando para a superintendência (da PF) em Curitiba para colher informações sobre as operações em andamento”.

Como resposta, o presidente, em pronunciamento espantosamente desconexo, fez várias acusações contra Sérgio Moro – inclusive a de que exigiu uma vaga no Supremo Tribunal Federal e a de que trabalha para vê-lo fora da Presidência – e também colocou em dúvida o trabalho da PF. Em sua glossolalia, contudo, foi incapaz de explicar a essência da denúncia de Moro, a de que tinha interesse em fazer da PF sua polícia particular.

Trata-se de comportamento intolerável, que pode dar as condições para a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro – a Procuradoria-Geral da República já pediu ao Supremo a abertura de investigação sobre a acusação de Sérgio Moro.

Não se pode aceitar como natural que o presidente queira manipular a Polícia Federal, especialmente considerando-se que há investigações em andamento que interessam ao clã Bolsonaro. Se comprovadas as denúncias, o presidente pode ser acusado de crimes de responsabilidade, prevaricação e advocacia administrativa, entre outros.

As vozes responsáveis do País, inclusive de dentro do governo, têm a obrigação de manifestar seu total repúdio ao presidente Bolsonaro, deixando claro que os limites da lei e da decência há muito foram ultrapassados. “É hora de falar”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, resumindo a urgência. “O presidente está cavando sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: saúde e emprego. Menos instabilidade, mais ação pelo Brasil.”


O presidente virou vivandeira

Elio Gaspari
O Globo

Atingido pela pandemia, o capitão meteu-se num negacionismo pueril

Vivandeira é uma palavra bonita que designa coisa feia. A expressão foi usada em agosto de 1964 pelo marechal-presidente Humberto Castello Branco, numa memorável lição:

“Há mesmo críticas tendenciosas e sem fundamento na opinião pública de que o Poder Militar se desmanda em incursões militaristas. Mas quem as faz são sempre os que se amoitaram em meios militares. Felizmente nunca rondaram os portões das organizações do Exército que chefiei. Mas eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar.”

O presidente Jair Bolsonaro amoitou-se diante do Quartel-General do Exército, onde havia uma aglomeração de vivandeiras que pediam extravagâncias do Poder Militar. No dia seguinte, disse que não tinha nada a ver com as faixas que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal e uma volta à ditadura escancarada do Ato Institucional nº 5.

O capitão disse também que “eu sou, realmente, a Constituição”. Não é. Dias antes, falou em “minhas Forças Armadas”. Minhas?

Deve-se voltar ao marechal Castello Branco. Como chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 20 de março de 1964, uma semana depois do comício do João Goulart ao lado do Quartel-General enfeitado por tanques, ele assinou uma circular reservada para os comandos. Disse que “os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de Governo, muito menos a sua propaganda, mas para garantir os poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei.”

Mais: “Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos.”

Castello Branco era um general francês. Já o seu colega Aurélio de Lyra Tavares, sub-chefe do EME, era qualquer outra coisa. No dia seguinte, mandou-lhe uma carta onde dizia que havia lido a circular depois de sua expedição. (Portanto, não tinha nada a ver com aquilo). Informou que percebia um clima de apreensão “pela leitura dos jornais”. (Maldita imprensa.)

Em qualquer corporação há Castellos e há Lyras. O general viria a ser o desastroso ministro do Exército do presidente Costa e Silva e integrante da patética junta militar de 1969. Deu no que deu.

Nem todos os eleitores de Jair Bolsonaro eram golpistas, mas todos os golpistas votaram no capitão. Em janeiro de 2019, quando ele entrou no Planalto com seus 58 milhões de votos, poderia haver o sonho de um emparedamento do Congresso. Passado um ano, o Executivo ficou menor que o Parlamento. Atingido pela pandemia, o capitão meteu-se num negacionismo pueril e viu-se atirado ao olho de uma crise econômica que não provocou e que não mostra competência para administrar. Nas suas palavras: “Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder.” Não é uma luta de poder, nem acaba qualquer governo, e o dele deve continuar até 31 de dezembro de 2022.

Se o presidente nada teve a ver com a vivandagem, torna-se impossível encaixar o Bolsonaro de domingo no Bolsonaro da segunda-feira. Do alto da caçamba de uma camionete ele disse que “não queremos negociar nada. (...) É agora o povo no poder.”

Sem golpe, não haverá como.

Ao apostar na tensão permanente, Bolsonaro comete seu maior erro

J.R. Guzzo
Gazeta do Povo \(Paraná)

Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo
O presidente Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro Sergio Moro. 

O presidente Jair Bolsonaro, ao que parece cada vez mais, continua decidido a governar dentro de um ambiente de tensão permanente, por achar que o calor da fornalha é o que existe de melhor para ele. Pode pegar fogo? Então vamos lá.

No momento, ele não se mostra satisfeito com as cargas de TNT que rondam o Palácio pelos quatro cantos. Como se já não houvesse dinamite suficiente do lado fora, Bolsonaro faz questão de criar, a cada quinze minutos, focos de tensão dentro do seu próprio governo. Nessa espiral alucinada, acaba de demitir o ministro da Justiça, Sergio Moro — o homem mais popular do governo e do Brasil. A ideia, que vem de longe, andava esquecida com a Covid-19 e, aparentemente, tinha caído em exercício findo. Não tinha.

É coisa de homem-bomba do Exército Islâmico – que vá tudo para o espaço, comigo junto. O presidente, para forçar a saída, demitiu por decreto o diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, ocupante de um cargo que está diretamente subordinado ao Ministério da Justiça — sem dizer o que ele fez de errado, ou dar qualquer motivo razoável. Disse apenas que a exoneração foi a pedido” – o que não foi. Foi, isso sim, um ato de agressão a qualquer proposta de procurar um mínimo de serenidade e equilíbrio para o seu governo. Tomou a opção pelos grupos que querem ir “para o pau”.

A conta é a de sempre: a base de apoio de Bolsonaro, em sua cabeça e segundo rezam os algoritmos das redes sociais, gosta quanto ele diz “aqui quem manda sou eu”, e vai dar-lhe 100% de apoio ao botar no olho da rua um ministro que incomodava parte do entorno presidencial, por um monte de motivos. Era popular demais. “Se achava”. Queria ser independente. Atrapalhava a vida de certas pessoas que detestam a ação permanente de seu Ministério no combate à corrução.

Agora, com o ministro de fora, Bolsonaro e seus estrategistas imaginam que a população vai aplaudir, o “centrão” vai fechar com o governo, por se ver mais longe do camburão da Polícia Federal, e que ele acabará ganhando sabe lá mais que vantagens junto ao mundo político – com o qual está em guerra desde o começo do seu governo.

Para ficar só nos últimos dias, Bolsonaro se viu alvo de acusações indignadas de que estimula um golpe militar, por ter participado de um comício na frente do Quartel General do Exército, em Brasília, na qual faixas e gritos pediam o fechamento do Congresso e do STF. Está sob críticas pesadas, e não só dos inimigos habituais, por causa de suas posições agressivas contra a manutenção da quarentena trazida pelo coronavírus e por ter demitido o ministro da Saúde. O coro pedindo seu “impeachment já” engrossa a cada dia.

Importa cada vez menos, a essa altura, discutir se existem ou não, do ponto de vista técnico e jurídico, os motivos constitucionais para a deposição do presidente da República. O que interessa para os inimigos é insistir todo dia no “impeachment”. Qualquer coisa serve: falta de decoro, defesa da cloroquina, ofensa a mulheres jornalistas, incentivo a mortes em massa com a demissão do ministro da Saúde, apoio ao “golpe militar”.

A isso acaba de se juntar o STF, que mandou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, explicar a dois advogados porque não aceita as denúncias de impeachment apresentadas por ambos – junto com a exigência de que seja feita uma estranhíssima divisão da autoridade legal do Poder Executivo entre o presidente e o seu vice.

Num momento de angústia nacional, como o que se vive hoje no Brasil, por causa da epidemia, da ruína para a produção e o emprego criada pelo confinamento e de toda a desgraceira que há por aí, imagina-se que o mais recomendável, para um presidente pressionado por inimigos de todos os lados, seria a busca da paz. Ele tem certeza que não é.

É possível prever o tamanho da crise ou tudo não passa de chute calculado?

*Renata Amaral
Exame.com

Qualquer previsão sobre a crise é feita sobre base frágil, porque nem nenhum país tem controle sobre o movimento do coronavírus, escreve Renata Amaral

(Christian Hartmann/Reuters)
Paris, França, com ruas vazias em razão das regras de quarentena: 
De acordo com a OCDE, crescimento anual do PIB dependerá de muitos fatores,
 incluindo a magnitude e a duração das medidas de confinamento 

Que o mundo vive um momento sem precedentes em meio a esta pandemia de coronavírus não é novidade. Que as perspectivas econômicas são sombrias também não. E a verdade é que quaisquer previsões são feitas sobre bases frágeis, porque ninguém nem nenhum país tem controle sobre o movimento deste inimigo invisível.

Duas organizações internacionais importantes para o comércio e investimentos globais lançaram relatórios com previsões negativas nos últimos dias. Em 3 de abril a Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) publicou seu Monitoramento de Política de Investimentos (Investiment Policy Monitor), enquanto em 8 de abril a Organização Mundial do Comércio (OMC) publicou as suas previsões para o comércio internacional no biênio 2020/2021.

Ambos os relatórios pintam um quadro bastante sombrio para os próximos meses. Segundo a UNCTAD, os efeitos da pandemia devem resultar em uma queda de 40% dos investimentos diretos externos no mundo, o menor valor das últimas duas décadas. O relatório indica que as respostas a essa queda abrupta dependerá de país a país.

No que se refere ao intercâmbio global de mercadorias, o cenário do comércio internacional de bens já vinha enfrentando desafios pré-pandemia, com a guerra comercial entre EUA e a China. Lembremos que, em 2019, o volume de comércio de mercadorias já caiu 0,1%, pressionado pelas tensões comerciais e pela desaceleração do crescimento econômico. O resultado foi de US$ 18,89 trilhões, indicando uma queda de 3% em valor das exportações mundiais de mercadorias no último ano.

Em relatório publicado na semana passada, a OMC projeta um declínio significativo do intercâmbio comercial global entre 2020 e 2021, bastante superior à retração global registrada pós crise de 2008.

De acordo com as previsões da organização, o comércio mundial de bens deverá cair entre 13% e 32% em 2020 em razão da pandemia da COVID-19. Quase todas as regiões sofrerão quedas de dois dígitos nos volumes comerciais em 2020, sendo que as exportações da América do Norte (com queda projetada entre -17,1% a -40,9%) e Ásia (com queda projetada entre -13,5% a -36,9%) devem ser as mais atingidas. No que diz respeito às importações, prevê-se, em 2020, recuo mais acentuado para América do Sul e Central (-43,8%), seguida da América do Norte (-33,8%) e da Ásia (-31,5%).

O relatório indica, ainda, que o intercâmbio comercial provavelmente cairá mais acentuadamente em setores com cadeias de valor complexas, principalmente produtos eletrônicos e automotivos.

Embora não tenha abordado comércio de serviços, o relatório da OMC indica que serviços deverá ser o componente do comércio mundial mais diretamente afetado pela Covid-19 em razão da imposição de restrições de transporte, viagens e do fechamento do comércio nos países.

No mesmo tom das análises de UNCTAD e OMC desde Genebra, a Organização para Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCDE), sediada em Paris, também fez previsões pouco otimistas. Segundo a Organização, em todas as economias a maior parte do impacto da pandemia vem do impacto da produção no varejo e no atacado, e nos serviços profissionais e imobiliários.

De acordo com a OCDE, o crescimento anual do PIB – projetado em uma queda de 2% do PIB anual para cada mês de confinamento – dependerá de muitos fatores, incluindo a magnitude e a duração das paralisações nacionais, a extensão da demanda reduzida por bens e serviços em outras partes da economia e a velocidade com que um apoio fiscal e monetário entrarem em vigor.

As estimativas dessas três organizações são úteis na medida em que contribuem para dimensionar a amplitude dos eventuais efeitos negativos da pandemia sobre os investimentos, a economia e o comércio global. 

Mas é possível fazer previsões reais ou é só chute calculado?

Ainda que façam estimativas para recuperação da economia em 2021, como indica a OMC, todas as premissas utilizadas nos estudos estão sujeitas a significativa variação já que não há uma previsão real sobre o fim da crise.

Por mais negativa que possa parecer a minha perspectiva neste texto, a verdade é que o coronavirus está exigindo de todos nós uma revisão das relações entre as pessoas, entre as lideranças mundiais, a revisão de premissas na formulação de políticas públicas, atenção para a alocação de insumos estratégicos concentrados em poucos países.

A resposta econômica à pandemia dependerá sobremaneira das políticas adotadas pelos governos, em conjunto e separadamente. No mínimo assistiremos, nos próximos meses e anos, algo muito diferente acontecendo no mundo: políticas comerciais e econômicas trabalhando para a segurança da saúde pública da população. E talvez isso seja bom.

*Renata Amaral é doutora em Direito do Comércio Internacional, professora adjunta na American University, em Washington DC e fundadora da rede Women Inside Trade

Sim, voltaremos às ruas

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Haverá menos vagas nas lojas físicas e muito, mas muito mais nos centros de operação on-line e na distribuição

O comércio eletrônico (E-commerce) será o grande vencedor, assinala a revista “Economist”, numa análise do que virá depois da pandemia. Cita números: enquanto shoppings, redes de lojas e restaurantes demitem, a Amazon contratou 100 mil pessoas em março e mais 75 mil neste mês. A um dado momento, teve que limitar o movimento para reforçar e adequar sua infraestrutura.

Há movimentos semelhantes no Brasil, como a decisão de Luiza Trajano de abrir seu site para outras empresas, com o lançamento da enorme Magalu.

Faz sentido. Na verdade, o comércio já estava nesse caminho das vendas on-line. Mais ainda, toda a economia mundial — com alguns países mais à frente, outros atrás —já avançava para a digitalização. A pandemia deu mais urgência a esse movimento. Na indústria, pequenas empresas têm feito coisa extraordinárias com as impressoras 3D. As operadoras de telefonia correm para aperfeiçoar os instrumentos de comunicação on-line, de simples conversas entre pessoas ansiosas com o isolamento, até conferências de chefes de Estado. Nós mesmos, jornalistas, estamos diretos no on-line.

Dia desses, um colega comentou: quando isso tudo voltar ao normal, nunca mais teremos aquelas redações. Aliás, já estavam diminuindo exatamente pelo uso de mais tecnologia. Há estúdios de televisão que funcionam com um único operador comandando câmeras e luzes.

Muita gente acha que algo parecido ocorrerá no varejo físico. Grandes lojas, como grandes redações, estariam condenadas. A loja física funcionaria como um pequeno mostruário, onde o freguês poderia ver, manusear a coisa, sentir – seja lá o que isso signifique.

Sendo verdade, isso muda completamente o quadro de empregos. Haverá menos vagas nas lojas físicas e muito, mas muito mais nos centros de operação on-line e na infraestrutura de distribuição. Estas últimas vagas exigirão trabalhadores mais educados, o que, de sua vez, exigirá escolas mais eficientes. E aqui está um grande problema para o Brasil, com seu sistema de ensino muito atrasado.

As lojas físicas devem ser menores e mais, digamos, amigáveis, simpáticas, um bom lugar para se dar uma olhada. Sem aglomerações, o mesmo valendo para restaurantes.

Companhias aéreas, nessa linha, serão perdedoras. As viagens de negócios serão reduzidas ao extremo, dada a eficiência das reuniões on-line.

De novo, essa já era uma tendência, mas enfrentava muita resistência. Muitas pessoas não confiavam nas compras on-line. Muitos executivos desconfiavam das conferências eletrônicas — temiam hackers, vazamento de segredos.

Se não sumiram, esses temores se reduziram bastante.

Então, continuamos mais em casa do que nas ruas, nos shoppings, nos escritórios?

Sei não.

Digo por mim. Assim que permitirem, volto para a redação, um ambiente animado onde transitam ideias, novidades e as melhores piadas do mundo.

Muita gente chegou a conclusões parecidas: o escritório não é só aquela chatice. A caminhada nos shoppings não é aquele horror. Um cineminha, então, em boa companhia. E uma reunião de negócios em Paris não é um sacrifício.

Vem daí a pressão difusa que se nota no mundo todo pelo relaxamento do confinamento. Governantes estão dizendo a seus cidadãos algo assim: calma, pessoal, daqui a pouco começamos a nos encontrar de novo por aí.

Não digo que vamos jogar no lixo toda a parafernália eletrônica, desligar os sistemas de comunicação. No nosso caso, dos jornalistas, haverá numerosas ocasiões em que será mais eficiente produzir longe das redações. Não raro, inevitável. Mas ao menos uma passadinha para saber das últimas, será um grande prazer.

Enfim, mudaremos, mas a vida dos encontros sociais sobreviverá. Assim como o mundo passará por mais esta, assim como, só para provocar, o modo de produção capitalista. Na crise de 2008/09, sobraram vaticínios desse tipo: o capitalismo morreu.

Agora, dizem que não sobreviverá ao novo coronavírus. Passará. Mas como já ocorreu tantas vezes na história, teremos mais um momento de demanda pelo governo, tão expandido na crise. Mas logo se perceberá, de novo, que falhas de governo podem ser tão ou mais danosas que falhas de mercado.


A seita que ameaça arrastar o Brasil para o abismo

Philipp Lichterbeck
Deutsche Welle 

O típico bolsonarista é como alguém que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: "A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!"
    

Bolsonaro com apoiadores em protesto em contra o Congresso e o STF

A extensão da irracionalidade é aterrorizante e ameaça arrastar o Brasil para o abismo. Para a sua disseminação, há um motivo: o bolsonarismo. Esse nome se deve a um homem cujo livro favorito foi escrito por um torturador. Por conseguinte, o bolsonarismo tem correspondentes ideias para a sociedade: violentas, autoritárias, sem empatia, anti-intelectuais e pseudorreligiosas.

O bolsonarismo assumiu agora todas as características de uma seita cujos membros estão dispostos a seguir seu líder incondicionalmente, até a morte. Esse culto à morte está se tornando cada vez mais evidente nas manifestações dos bolsonaristas. Um caixão é carregado alegremente; no meio de uma pandemia, expõe-se a si mesmo e a outros ao perigo de um contágio e se grita: "A covid-19 pode vir. Estamos prontos para morrer pelo capitão."

Como em todos os cultos religiosos, as contradições são ignoradas. O bolsonarista sempre acha que sabe mais que os outros ‒ mesmo que os outros sejam o mundo inteiro. Ele não segue as estrelas da razão e do conhecimento que fizeram a humanidade avançar ao longo dos séculos (apesar dos inúmeros retrocessos). O norte na bússola do bolsonarista é a satisfação de seu ego insultado.

O bolsonarista odeia o conhecimento quando este contradiz sua visão de mundo. Ele é como um motorista que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: "A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!"

Inicialmente, o bolsonarismo negou a existência da covid-19. Tratava-se de uma "fantasia" e uma "invenção da mídia". Então, a doença se tornou uma "gripezinha" que não poderia afetar "atletas". Quando ficou claro que a covid-19 poderia muito bem fazer isso, seguiu-se o próximo passo na infalível lógica bolsonarista: cloroquina! Existe um remédio para a cura da covid-19, mas os poderes das trevas não permitem que ele seja usado.

Os mesmos bolsonaristas que há cinco minutos haviam negado a existência da covid-19 se tornaram, de repente, especialistas em curar a doença viral altamente complexa. Infelizmente, seus conhecimentos não podem ser aplicados. E por quê? Porque, segundo eles, os governadores e prefeitos do Brasil teriam concordado em implementar medidas de quarentena e introduzir o comunismo.

É típico: no momento que a situação não transcorre segundo a vontade deles, já que o Brasil é um Estado federalista, os bolsonaristas gritam: "Ditadura!" São como crianças que se jogam no chão gritando no supermercado para que suas mães comprem doces. Evidencia-se também a completa falta de princípios desse movimento. As mesmas pessoas que hoje alertam histericamente sobre uma ditadura defendiam ainda ontem uma ditadura, na qual seu herói disse uma vez ter sido um erro apenas torturar e não matar. O que essas pessoas querem agora?

O bolsonarismo segue uma lógica primitiva, criando sempre opostos simplistas. Isso inclui, por exemplo, achar que saúde e economia são contradições. Segundo essa lógica, os brasileiros deveriam preferir se expor ao risco de infecção para não cair na crise econômica. O bolsonarista parece não estar ciente dos custos econômicos (e sociais) de milhões de pessoas doentes e dezenas de milhares de mortes. Cálculos com mais de duas variáveis não são seu ponto forte.

O bolsonarista segue principalmente um impulso adolescente. Ele quer ser do contra e causar problemas. Ele sempre contradiz o que os adultos estão dizendo, neste caso: o resto do mundo. Ele fica satisfeito quando se opõe à maioria, vendo-se como um herói. E isso lhe dá a justificativa para agir como vítima.

Como todos os movimentos fanáticos, o instinto de autodestruição é inerente ao bolsonarismo. Assim como Hitler acreditava que a Alemanha merecia ser devastada se não conseguisse vencer a guerra, o bolsonarista gostaria de destruir tudo. Não há outra explicação para a sabotagem do presidente e de seus apoiadores contra as autoridades do setor de saúde pública.

Os bolsonaristas acusam a mídia e os governadores de torcer pela disseminação da covid-19. Na realidade, são o presidente e seus apoiadores que estão fazendo de tudo para provocar o desastre sanitário.
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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

Problemas grandes, líderes pequenos (ou medíocres)

Moisés Naím
El Pais

É inevitável concluir que, de fato, o atual grupo de líderes é, com algumas exceções, patético e preocupante

  UESLEI MARCELINO / REUTERS
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Henry Kissinger pensa que o mundo não será o mesmo depois do coronavírus. “Estamos passando por uma mudança de época”, diz o famoso diplomata, para depois nos alertar que “o desafio histórico para os líderes de hoje é gerir a crise e ao mesmo tempo construir o futuro. Seu fracasso nessa tarefa pode incendiar o mundo.”

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a relação entre as grandes potências nunca foi tão disfuncional quanto agora, acrescentando que o coronavírus “está revelando dramaticamente que devemos nos unir e trabalhar juntos ou seremos derrotados pela pandemia”. Segundo Martin Wolf, o prestigioso colunista inglês: “Esta é a maior crise que o mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial e também é o desastre econômico mais grave desde a depressão dos anos trinta. O mundo chegou a este momento quando existem enormes divisões entre as grandes potências e quando o nível de incompetência nos mais altos níveis governamentais é espantoso”.

Há muitas coisas que não sabemos. Quando teremos uma vacina? Qual será o impacto do vírus nos países pobres onde a superlotação é a norma e ficar em casa sem trabalhar é impossível? O que acontece se a covid-19 vai e vem em diferentes ondas? Mas a pergunta mais preocupante é se aqueles que nos governam estarão à altura. Martin Wolf conclui: “Não conhecemos o futuro. Mas sabemos como deveríamos tentar moldá-lo. Conseguiremos fazer isso? Essa é a pergunta. Tenho muito medo da resposta”.

Falar mal dos líderes políticos é normal. Assim como criticar sua gestão. Mas é preciso ter cuidado com o desdém pelos Governos. A disputa política faz com que a inaptidão e a corrupção daqueles que nos governam sejam exageradas. Governar, vamos reconhecer, é difícil, e está ficando cada vez mais difícil. O poder se tornou mais fácil de obter, mas também mais difícil de usar e, portanto, mais fácil de perder. Às vezes parece que não há como um líder sair bem depois de dirigir um país. Em vez disso, vemos frequentemente líderes honestos e bem-intencionados cujas reputações foram massacradas por seus críticos. E, como sabemos, neste século os ataques políticos são potencializados pelas redes sociais, os bots, os trolls e outras ervas daninhas cibernéticas. É aconselhável sermos cautelosos e prudentes ao criticar nossos governantes.

Tenho tudo isso em mente ao pensar nos líderes que estão no comando do mundo hoje. Apesar dessa cautela, no entanto, é inevitável concluir que o atual grupo de líderes é, de fato, com algumas exceções, patético e perturbador.

Quando a crise financeira global eclodiu em 2008, quem estava no comando do G20 era Gordon Brown, o então primeiro-ministro britânico. Este ano é a vez do rei da Arábia Saudita, que devido à idade avançada e saúde precária delegou o papel ao filho Mohammad bin Salman. Sim, ele mesmo. O que mandou esquartejar um jornalista que o criticava. Este é o líder que deve convocar, mobilizar e coordenar a comunidade internacional para enfrentar o coronavírus e suas consequências econômicas.
Nos EUA, o Conselho Nacional de Economia é a principal fonte de ideias e políticas econômicas do presidente. Desde a sua criação, em 1993, foi liderado por alguns dos economistas norte-americanos de maior prestígio. Donald Trump nomeou Lawrence Kudlow, cuja credencial mais conhecida para o cargo foi ter sido comentarista de assuntos econômicos na televisão. Este não é um caso isolado. O Governo Trump não se destaca pela capacidade e experiência de seus altos funcionários.

Na Europa o panorama em relação à confiança suscitado pelos que hoje estão no poder tampouco é muito inspirador. Uma das coisas de que precisamos dos governantes nestes tempos é que tenham bom senso. Quanta certeza sobre o futuro dão a você as ações e o bom senso mostrado até agora por Boris Johnson, Viktor Orbán, Pedro Sánchez, Pablo Iglesias e Luigi Di Maio? No mundo em desenvolvimento, Jair Bolsonaro, Andrés Manuel López Obrador e Daniel Ortega estão no noticiário por terem negado a pandemia; o presidente filipino, Rodrigo Duterte, por ter ameaçado matar aqueles que não respeitassem a quarentena, e Narendra Modi por usar a desculpa do vírus para aprofundar a discriminação contra os muçulmanos na Índia.

Não quero romantizar o passado, nem sugerir que os líderes de antes sempre foram melhores. Houve de tudo. Tivemos Hitler e Churchill, Mao e Mandela. Mas não há dúvida de que essa pandemia surpreendeu o mundo em momentos de grande fragilidade institucional. As crises fecham muitas portas, mas também abrem outras. Esta crise terá muitas consequências inesperadas. Talvez uma delas seja uma forte reação contra os governantes pequenos e a chegada de líderes que estejam à altura dos grandes problemas que temos.

Só Freud explica (será que ele consegue?)

Rosângela Bittar,
O Estado de S.Paulo

A cada dia, uma nova insanidade do presidente. E assim se passaram 16 meses

  Foto: Gabriela Biló/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro em manifestação contra o Congresso e a favor 
de intervenção militar em frente ao Quartel General do Exército no último domingo. 

A política brasileira está confinada pela tragédia da pandemia e já não é possível desdenhar da realidade macabra. Portanto, não é política o que pratica o presidente Jair Bolsonaro no segundo ano do seu mandato. Por mais que deboche da vida e invente movimentos para esconder sua incapacidade de liderar e enfrentar os problemas, o placar das mortes e de contaminados não permite distrações.

Espera-se sempre pela próxima atração presidencial que só não é circense porque o circo se dá ao respeito. Uma performance vai superando a outra. Já se sabe que recuará se o seu teatro do absurdo extrapolar a medida. No dia seguinte, nova insanidade. E assim se passaram 16 meses.

De novo: não é política isto que se pratica, hoje, no Brasil, a partir do desempenho do presidente da República.

A negação da existência da pandemia que acha estar enxotando com seu megafone; a insistente, insolente e impune agressão aos poderes Legislativo e Judiciário; a tentativa de aliciar o Centrão na figura-símbolo de Valdemar Costa Neto, para uma pouco convincente vontade tardia de fazer base parlamentar de apoio; o recurso à velha política, condenada no palanque, se lhe serve melhor na ocasião; a escolha, a cada dia, de um inimigo forjado por temores paranoicos; o corte radical das cabeças que lhe devem o contrato, como os ministros Gustavo Bebianno, Santos Cruz, Luiz Henrique Mandetta, e a campanha permanente e irritada contra quem não pode domar, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; a retórica autoritária; o desrespeito à condição humana, mais perfeita expressão de fascismo.

Jair Bolsonaro transcendeu a política e a crônica não pode usá-la como régua para medir a extensão do atual desastre imposto ao País.

Um presidente que funciona aos espasmos. Se o espelho lhe aponta um ministro mais popular que ele, acende o alerta vermelho da traição; se a imagem refletida é de alguém em posição constitucional de interromper sua festa, muda sem pejo a rota da cruzada.

Fura o consenso do combate à pandemia, sai trôpego e de olhos vendados na contramão do mundo todo que se harmoniza para salvar a vida. Jair Bolsonaro é tão artificial que nem quando pede golpe militar dá para crer. A manifestação do último domingo, em frente ao QG do Exército, foi a mais recente provocação de um ex-capitão aos generais da ativa e da reserva que o servem. Um prazer vingativo de demonstrar poder sobre eles.

Se passar a pandemia e Bolsonaro se mantiver vivo e no poder, o Brasil que se prepare para uma página em branco. Um grande vazio, pois ele mostra, hoje, que não faz ideia do que fará, depois. O liberalismo econômico, sustentado em reformas estruturantes, vedete de suas intenções, desmanchou-se no ar em 40 dias.

Muitos intelectuais estão expondo sua perplexidade em estudos que tentam traduzir o impacto da pandemia sobre a humanidade. O ex-deputado, professor e sociólogo Paulo Delgado, em um ensaio por enquanto definido como “psicohistória presidencial”, sobre os nove presidentes que conheceu, desde Tancredo Neves, não foge à conjuntura político-sanitária ao tratar de Jair Bolsonaro.

“Vasculhar o inconsciente ajuda a entender por que ele se identifica tanto com este vírus, a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo.”

Invocando Freud, Delgado lembra que o presidente “coloca libido” nestas manifestações públicas de que participa, provocando “aglomeração, contato, contágio”. Diz, ao argumentar sobre esta hipótese: é “um comportamento psicossocial repetitivo, estimulado pelo prazer contínuo de transgredir”.

Um irônico enquadramento da ação presidencial no ambiente psicanalítico, que “só Freud explica”. Enfatiza a hiperexcitação do presidente brasileiro que poderá, conclui ele, conduzir o País a uma “derrota” de Pirro, uma espécie de fracasso altamente dispendioso. Bem além da competência da política.