quarta-feira, outubro 27, 2010

Pensar num futuro melhor, é pensar no jovem hoje

Adelson Elias Vasconcellos

Não sei quem vai ganhar a eleição presidencial e digo isto desde muito antes da realização, em 03 de outubro, da eleição em primeiro turno. Mas, claro, tem gente que diz o contrário. É o caso dos institutos pesquisas, devidamente remunerados para dar e oferecer aos seus clientes notícias frescas e boas.

Há, ainda, aquele grupo de analistas que mais fazem torcida do que propriamente a leitura de uma tendência provisória e, ainda assim, empregando metodologias já provadas, no tempo, serem inconclusivas e destoantes da realidade. Às vezes, e só às vezes, a torcida dá certo, e os profetas do povo, se imaginam deuses. Louvam-se a si mesmo. Contudo, quando erram, e quase sempre é isto que ocorre, sempre encontram uma desculpa para justificarem seus erros: não raro, o culpado é o eleitor, que não quis seguir os prognósticos do analista ou das pesquisas.

Meses antes de se colocar o primeiro voto na urna, no primeiro turno, Carlos Montenegro, o profeta do IBOPE, já declarava: o Brasil já tem uma nova presidente, é Dilma. O resultado final é por todos conhecido: TODOS os institutos erraram, e erraram feio, inclusive, claro, o IBOPE do profeta Montenegro .

Mas por que as pesquisas, no Brasil, são consideradas tão decisivas? Ocorre que num país onde a informação qualificada ainda é privilégio de poucos, cerca de 15%, se tanto, onde a maioria dos que não se informam também não tem acesso à cultura e não leem absolutamente nada, a inserção nos noticiários da tevê das “últimas pesquisas” dia e noite, acaba induzindo os menos esclarecidos na base do “se a maioria quer, eu também quero”. Como os métodos que as pesquisas empregam estão ultrapassados, acaba-se plantando uma falsa informação que, por sua vez, se transforma em ondas ou correntes.

Assim, hoje, para a grande maioria, Dilma já estaria eleita, faltando apenas combinar com o eleitor, cujo pronunciamento final se dará apenas no domingo, dia 31. Mas, ainda assim, se tomarmos por base que Dilma tenha lá, hoje, segundo o Datafolha, 56% dos votos válidos, e Serra tenha 44%,  seriam estupendos 60,0 milhões de votos de oposição à Dilma, ou cerca de 1/5 da população total . Ora, esta grandeza não é desprezível, e representa dizer que, a par do índice de popularidade de Lula, sua escolhida foi refugada por grande parte do eleitorado que aprova o demiurgo.

Portanto, se Dilma vencer, terá que governar para estes 60 milhões, também, a menos que o governo “expulse” toda esta população para fora de nossas fronteiras.

Há duas características básicas e determinantes para se identificar a existência ou não da plena democracia num país: a liberdade de imprensa e a existência da oposição. Ambas é que validam a democracia, e não a maioria de uma eleição. Países totalitários não tem oposição. Ou foram mortos ou estão presos. Uma terceira alternativa: ou se exilaram. Assim, quando Lula fala em exterminar a oposição, ou quando se opõem de forma furiosa em relação aos que lhe são contrários, chamando-os de mau caráter ou que são do “contra”, tirando-se a bravata tão natural do "cara", o que sobra é sim um espírito tirânico, ditatorial. Não lhe ocorre, por exemplo, que se oposição ao governo e não ao país. Lula ao se comportar de forma tão destemperada, esquece que nem todos se comportam como ele e seu partido ao tempo em que foram oposição. Lá, o que se viu não foi uma oposição civilizada e responsável: foi uma oposição odiosa e contra o país, já que se negou apoio para o que era certo, e se sabotou todas as iniciativas para se corrigir os erros.

Quando renega de forma cafajeste as gestões que o antecederão na presidência da república, comete dois crimes: um, o histórico, já que o Brasil não nasceu com a sua chegada ao poder. E dois, um crime de calúnia pessoal, por negar ao antecessores o mérito de terem construído o país que somos hoje. Sua constante oposição à FHC é uma daquelas notáveis patologias que só a psicologia pode explicar.

No artigo Programas sociais e desemprego: fantasias, realidades e necessidades, publicado aqui no domingo, dia 24, vimos que cerca de ¼ dos jovens com idade entre 18 e 20 anos nem trabalha nem estuda. Há várias explicações para este fenômeno mas, por certo, as políticas públicas atuais estão em total desarmonia com as necessidades dos nossos jovens. E após 8 anos de governo Lula , este resultado desastroso pertence a Lula e somente a ele. Não se trata de herança de ninguém, como ele poderia querer apregoar. E a maior parte deste contingente nem-nem se deve a constante ideologização da falta de cultura   de Lula, cantada em verso e prosa por ele mesmo, transmitindo uma desinformação que acaba influenciando as escolhas da juventude. Ora, se o presidente é semi-analfabeto e é o "cara", “vou estudar e trabalhar prá quê?”, é o que mais se ouve. Assim, é o próprio Lula, na sua auto-louvação, quem agrega à juventude este pouco caso com sua própria formação. Resultado: dentro de 20 anos, a persistirem neste descaminho, o que se pode esperar desta geração em termos de destinos do país? Senhores, boa coisa é que não é, infelizmente.

Portanto, independente de quem vença domingo próximo, entendo que o primeiro passo a ser dado seria mudar o pensamento destes jovens para que passem a dar maior importância à sua formação e qualificação. O país já vive um apagão de mão de obra qualificada, apesar da quantidade de jovens disponíveis para o trabalho, mas que não conseguem se inserir no mercado de trabalho de forma competitiva por absoluta falta de qualificação, além da má formação intelectual, fruto de um sistema de ensino capenga e superado. Concorrem, ainda, este clima de impunidade e permissividade vinda de cima para baixo. Quando a elite política do país, que deveria servir de modelo e fio condutor, falece em questões e valores morais, a sociedade toda absorve esta cultura disforme e deturpada e adota os desvios como costume em suas relações.

Se de uma lado, louva-se o governo Lula pela manutenção do projeto econômico implementado por Fernando Henrique, que conquistou a estabilidade e tirou o país da estagnação em que se encontrava, além de haver aprofundado as políticas sociais (apesar de Lula haver retirado as pontes para a pessoa se libertar do assistencialismo e se auto determinar), por outro lado, é de se lamentar o retrocesso institucional e a difusão da cultura do menor esforço ou do esforço nenhum. E mudar esta cultura exigirá além de muita paciência, um enorme sacrifício de parte de toda a sociedade no sentido de recuperar estes 24,1 % de jovens desencaminhados. E o caminho de volta se inicia por colocar os mais de 40% de jovens de volta às escolas, na faixa de 15 a 17 anos, e que se encontram fora do ensino médio. É inadmissível, sob qualquer ângulo que se queira olhar, que, num período de apenas 2 anos, de 2007 a 2009, as matrículas no ensino médio tenham recuado de mais de 3,4 milhões para algo em torno de 2,2 milhões.

Sem paixões ideológicas e sentimentalismos debiloides, alguém precisa se debruçar em regime de urgência sobre esta questão para avaliar aonde o bicho tá pegando. Do contrário, estaremos condenando o próprio futuro do país, com uma geração sem formação intelectual básica e sem qualificação profissional adequada para gerir os destinos da nação.

E não há como negar: é preciso que, sendo Dilma ou Serra, se revejam as políticas sociais criadas para a juventude, situada na idade de 15 a 20 anos, porque está faltando o adequado estímulo para que eles passem a se preocuparem consigo próprios. E não se tratam de bolsas isto ou aquilo, ou pro-jovem, prouni ou Enem: está faltando o estímulo que só a premiação pelo mérito é capaz de impulsionar os indivíduos. Está faltando ensiná-los a pescar e competirem entre si. Por enquanto, recebendo tudo de mão beijada como está sendo feito, sem dúvida, jamais se estimularão a se desenvolverem por seus próprios esforços e méritos.

Talvez estes 60 milhões de votos contrários à Dilma, seja o recado necessário para que, se eleita, não insista em dar continuidade às políticas atuais destinadas aos jovens, seja no campo social ou educacional, que, como vimos, estão na contramão das necessidades do país. E a mudança precisa ser feita é agora, não podemos esperar mais. Os percentuais do analfabetismo funcional já atingiram o limite do suportável e pagamos alto preço por isso. Não podemos continuar apostando, portanto, em incentivar que eles continuem, permaneçam e até se elevem ainda mais. Muito embora até gostaria de acreditar ser possível Dilma mudar esta rota, lamento constatar que é justamente esta sistemática política de desinformação e anti-cultura, que seu partido mais aposta para se manter no poder. E por que digo isto? É bastante constatar que a geração nem-nem, em oito anos de Lula, jamais deixou de crescer. E Dilma não tem nem estofo moral quanto mais político para interferir e tentar mudar o rumo do que está sendo feito.

Violência na escola pode custar US$ 943 milhões ao ano no Brasil, diz relatório

BBC Brasil

De acordo com a organização de defesa das crianças,
o bullying atinge países desenvolvidos e em desenvolvimento

Um estudo internacional estima que o custo da violência nas escolas no Brasil pode chegar a US$ 943 milhões por ano.

A pesquisa foi feita pela organização britânica de defesa das crianças Plan International e o Instituto Overseas Development (ODI, na sigla em inglês). Segundo o relatório publicado, o custo da violência nas escolas, apenas levando em conta os benefícios sociais aplicados anteriormente, pode chegar a US$ 60 bilhões se computados todos os 13 países pesquisados.

No cálculo foi considerada a perda de ganhos de uma pessoa que deixa de comparecer à aula ou desiste da escola por causa da violência e mediu também as perdas do investimento público em educação devido às faltas dos alunos nas escolas.

De acordo com o relatório, os Estados Unidos, por exemplo, pagam um alto preço pela violência entre jovens, dentro e fora da escola. A Plan International estima que o custo total de todas as formas de violência juvenil entre os americanos chega a US$ 158 bilhões.

E para o Brasil, o caso não parece ser diferente, segundo o levantamento.

"Muitas escolas no Brasil se transformaram em lugares perigosos para crianças, com violência brutal e até homicídio, além de abuso sexual, roubos e danos à propriedade", alerta o documento.

"84% dos estudantes que participaram da pesquisa feita em seis capitais brasileiras acharam suas escolas violentas e 70% disseram que foram vítimas de abusos."

"Isto reflete os altos níveis de violência na sociedade brasileira. A estimativa é de que a violência entre jovens tenha um custo de US$ 19 bilhões por ano, sendo que destes US$ 943 milhões podem ser ligados a violência na escola", informou o relatório.

Poucos dados
Segundo o documento da Plan International, a violência nas escolas é um problema que afeta igualmente países desenvolvidos e em desenvolvimento. No entanto, a organização reconhece que é "impossível calcular a verdadeira extensão (do problema), pois as crianças geralmente têm muita vergonha ou muito medo de falar a qualquer um sobre isso".

O relatório descreve uma "relação próxima" entre o bullying nas escolas e a violência entre jovens.

De acordo com o estudo, entre 20% e 65% das crianças no mundo todo afirmam que sofreram bullying, mas esta proporção pode ser maior, pois a organização afirma que a violência na escola é pouco denunciada.

Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de um quinto dos estudantes do equivalente ao ensino médio afirmaram que foram vítimas de abuso várias vezes, de acordo com dados coletados pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

A prevalência do bullying nas escolas americanas é tão alta que o CDC trata o problema como uma questão de saúde pública.

"Como resultado, você não vai à escola, você está perdendo a oportunidade de aprender", afirma Julie Hertzog, diretora do Centro Nacional Americano para Prevenção do Bullying, dirigido pela organização de defesa das crianças Pacer.

Para o diretor-executivo do grupo de defesa americano CeaseFire, Gary Slutkin, o bullying não está diretamente ligado à violência entre jovens.

"Bullying não é a mesma coisa que violência letal mas pode se agravar progressivamente, e a sociedade americana está gradualmente tomando a decisão de que (o bullying) não é mais aceito como algo normal", disse Slutkin, cuja organização trata a violência entre jovens com o uso de um modelo de saúde pública.

Outros países
O relatório da Plan International diz ainda que em 88 países, incluindo a França e alguns Estados americanos, os professores tem permissão legal para punir fisicamente os alunos.

E cita casos como o do Egito, no qual 80% dos meninos e 67% das meninas já sofreram punição corporal.

O documento menciona ainda a situação na Etiópia, onde a punição corporal é proibida, mas as leis de proteção à criança não são aplicadas e as punições continuam sendo aplicadas. Um estudo naquele país mostra que 80% das crianças foram obrigadas a ajoelhar, receberam pancadas na cabeça, tapas ou pancadas com uma vara.

Outro problema levantado é a violência sexual. Um estudo realizado por estudantes em Serra Leoa mostrou que 59% das meninas tinham sofrido abuso sexual.

No Equador 37% das adolescentes que foram vítimas de violência sexual apontaram professores como os responsáveis. Na África do Sul, professores foram considerados culpados de um terço dos estupros de crianças.

Carta à candidata Dilma

Meu nome foi incluído no manifesto de intelectuais em seu apoio. Eu não a apóio. Incluir meu nome naquele manifesto é um desaforo! Mesmo que a apoiasse, não fui consultada. Seria um desaforo da mesma forma. Os mais distraídos dirão que, na correria de uma campanha... “acontece“. Acontece mas não pode acontecer. Na verdade esse tipo de descuido revela duas coisas: falta de educação e a porção autoritária cada vez mais visível no PT. Um grupo dominante dentro do partido que quer vencer a qualquer custo e por qualquer meio.

Acho que todos sabem do que estou falando.

O PT surgiu com o bom sonho de dar voz aos trabalhadores mas embriagou-se com os vapores do poder. O partido dos princípios tornou-se o partido do pragmatismo total. Essa transformação teve um “abrakadabra” na miserável história do mensalão . Na época o máximo que saiu dos lábios desmoralizados de suas lideranças foi um débil “os outros também fazem...”. De lá pra cá foi um Deus nos acuda!

Pena. O PT ainda não entendeu o seu papel na redemocratização brasileira. Desde a retomada da democracia no meio da década de 80 o Brasil vem melhorando; mesmo governos contestados como os de Sarney e Collor (estes, sim, apóiam a sua candidatura) trouxeram contribuições para a reconstrução nacional após o desastre da ditadura.

Com o Plano Cruzado, Sarney tentou desatar o nó de uma inflação que parecia não ter fim. Não deu certo mas os erros do Plano Cruzado ensinaram os planos posteriores cujos erros ensinaram os formuladores do Plano Real.

É incrível mas até Collor ajudou. A abertura da economia brasileira, mesmo que atabalhoada, colocou na sala de visitas uma questão geralmente (mal) tratada na cozinha.

O enigmático Itamar, vice de Collor, escreveu seu nome na história econômica ao presidir o início do Plano Real. Foi sucedido por FHC, o presidente que preparou o país para a vida democrática. FHC errou aqui e ali. Mas acertou de monte. Implantou o Real, desmontou os escombros dos bancos estaduais falidos, criou formas de controle social como a lei de responsabilidade fiscal, socializou a oferta de escola para as crianças. Queira o presidente Lula ou não, foi com FHC que o mundo começou a perceber uma transformação no Brasil.

E veio Lula. Seu maior acerto contrariou a descrença da academia aos planos populistas. Lula transformou os planos distributivistas do governo FHC no retumbante Bolsa Família. Os resultados foram evidentes. Apesar de seu populismo descarado, o fato é que uma camada enorme da população foi trazida a um patamar mínimo de vida.

Não me cabem considerações próprias a estudiosos em geral, jornalistas, economistas ou cientistas políticos. Meu discurso é outro: é a democracia que permite a transformação do país. A dinâmica democrática favorece a mudança das prioridades. Todos os indicadores sociais melhoraram com a democracia. Não foi o Lula quem fez. Votando, denunciando e cobrando foi a sociedade brasileira, usando as ferramentas da democracia, quem está empurrando o país para a frente. O PT tem a ver com isso. O PSDB também tem assim como todos os cidadãos brasileiros. Mas não foi o PT quem fez, nem Lula, muito menos a Dilma. Foi a democracia. Foram os presidentes desta fase da vida brasileira. Cada um com seus méritos e deméritos. Hoje eu penso como deva ser tratada a nossa democracia. Pensei em três pontos principais.

1) desprezo ao culto à personalidade;

2) promoção da rotação do poder; nossos partidos tendem ao fisiologismo. O PT então...

3) escolher quem entenda ser a educação a maior prioridade nacional.

Por falar em educação. Por favor, risque meu nome de seu caderno. Meu voto não vai para Dilma.

SP, 25/10/2010

Ruth Rocha, escritora

(*) Publicado no Blog do Noblat

Insegurança e baixa educação seguram Brasil em ranking de prosperidade

BBC Brasil

Para instituto de desenvolvimento sustentável, crescimento econômico 'não basta' para gerar felicidade em países emergentes.

Para relatório, Brasil é tolerante, mas tem problemas de segurança

A falta de segurança, a qualidade da educação e a percepção de debilidade institucional impediram que o Brasil melhorasse em um ranking internacional de prosperidade elaborado pelo Instituto Legatum, que promove o desenvolvimento sustentável.

Pela segunda vez consecutiva, o país ficou na posição número 45 entre 110 países e territórios analisados (108 nações mais os territórios de Taiwan e Hong Kong), a mesma colocação do ano passado.

O índice de prosperidade procura medir não apenas o crescimento econômico de um país no sentido material, mas aquele crescimento que se traduz em bem-estar para a população e, no longo prazo, traz a felicidade para os cidadãos.

Para tanto, o cálculo condensa informações em oito subíndices: economia, empreendedorismo, governança, saúde, educação, segurança, liberdade e capital social.

O Brasil aparece como país "mediano" na maioria deles, à exceção do índice de liberdade, onde está no terço superior do grupo de 110 países.

Mas nas áreas de segurança o país fica na posição 76, em educação, 75, e governança, 60.

Apenas dois em cada cinco brasileiros se sentem seguros ao caminhar para casa, colocando o país no número 96 entre os 110 países pesquisados, e mesmo na questão da violência política a colocação brasileira é a 90ª.

Na questão do ensino, o relatório aponta uma "insatisfação com um sistema educacional percebido como baixo em qualidade e escasso em oferta".

Além disso, a percepção de governança no país permanece "medíocre" e a confiança nas instituições democráticas, "baixa", nas palavras do relatório. Os níveis de confiança da sociedade em seus próprios cidadãos é uma das mais baixas entre os países analisados.

Material x subjetivo
Noruega, Dinamarca, Finlândia, Austrália e Nova Zelândia lideram o ranking, no qual Zimbábue, Paquistão, República Centro-Africana, Etiópia e Nigéria aparecem em últimos.

Para o instituto, a questão da prosperidade não é simplesmente material, assim como a felicidade não é apenas subjetiva. "Escolha e oportunidades são mais importantes para a felicidade que ganhar dinheiro rapidamente", exemplifica o relatório.

Um bom exemplo é a parte do documento que analisa os países do chamado grupo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), que têm se destacado como vetores do crescimento econômico internacional.

Para o relatório, "crescimento econômico não é suficiente" para os Bric.

"A China tem se avançado muito nos quesitos de economia, empreendedorismo e oportunidade, governança e capital social. No entanto, a sua melhora tem sido abafada pela perda nas áreas de educação, liberdade pessoal, saúde e segurança", avalia o documento.

"A Índia regrediu mais de dez posições desde 2009, principalmente devido à sua queda no subíndice de liberdade pessoal. Após os ataques de Mumbai em 2008, a percepção de tolerância dos indianos em relação aos imigrantes tem caído substancialmente, contribuindo para uma queda nos níveis de liberdade pessoal."

Já Rússia e Brasil pouco mudaram do ano passado para cá, as razões da Rússia sendo a conturbada situação das liberdades pessoais e a liberdade de expressão no país.

Na linha com o senso comum, o estudo afirma que "não é fácil ser próspero em países grandes".

"Os dez países do mundo com mais de 125 milhões de pessoas têm de lidar com desafios à prosperidade sustentável que são menos significativos em países menores", diz o relatório.

"Apenas um país neste grupo, os Estados Unidos, estão incluídos entre os dez países com maior índice de prosperidade."

O caminho das pedras

O Estado de São Paulo

A passagem mais comentada do depoimento à Polícia Federal da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra foi a sua admissão de que em fins do ano passado se reuniu com dois representantes da empresa EDRB, interessada em receber um financiamento do BNDES para um projeto de energia solar no Nordeste, da ordem de R$ 9 bilhões. O destaque se explica porque ela mais de uma vez negou o encontro, com o evidente intuito de se distanciar das traficâncias de seu filho, Israel, e do sócio oculto dele numa firma de lobby, Vinícius Castro, então assessor da Pasta.

Mas a presença ou a ausência de Erenice e até mesmo as suas falsidades não são o cerne do escândalo. O passo a passo da história, sim. É prova da força das redes de família, amizade e compadrio político nas relações da administração lulista com agentes privados. É o chamado caminho das pedras, onde interesses em busca de ajuda têm precedência sobre o interesse público, quando convém atendê-los. Para tirar do papel o projeto de energia solar o agenciador de negócios Rubnei Quícoli bateu à porta de um diretor dos Correios, Marco Antonio Oliveira, que obviamente nada teria que ver com o assunto, não fosse ele tio de Vinícius, o parceiro de Israel Guerra.

Vinícius chamou um sócio da EDRB para uma reunião - aquela de que a então secretária executiva da Pasta negaria ter participado. "Eu nunca recebi (um representante da empresa). Ele foi recebido por meu assessor", mentiu Erenice numa entrevista. "Foi lá apenas para fazer a demonstração de um projeto de energia alternativa. É tudo o que sei sobre esse assunto." Agora ela diz que participou durante 20 ou 30 minutos do que teria sido uma reunião de mais de uma hora para tratar de "aspectos técnicos" do projeto. Seja lá o que tenha sido tratado na conversa, o fato é que, passados 10 meses, caiu a gota d"água para a demissão de Erenice.

Foi a denúncia, na Folha de S.Paulo, de que, depois da reunião, a EDRB foi procurada pela Capital, a firma da dupla Israel & Vinícius. Em troca de mexer os pauzinhos para o BNDES emprestar os R$ 9 bilhões, os lobistas pediam R$ 240 mil, a serem pagos em 6 parcelas, mais uma "taxa de sucesso" de 5% sobre o montante do financiamento - além de uma contribuição de R$ 5 milhões para a campanha de Dilma Rousseff, a patronesse de Erenice no governo Lula. Nem a empresa de energia pagou qualquer coisa nem o BNDES acolheu o projeto. A tomar pelo valor de face as suas declarações à Polícia Federal, Erenice não sabia de uma porção de coisas: que o filho procurava empresas para vender facilidades, que Vinícius pretendia "assessorar" a EDRB e que Dilma soubesse do que se falou na tal reunião.

Mas ela se desdisse também em relação ao episódio da contratação da Capital pela empresa MTA para manter os seus contratos com os Correios. Quando a revista Veja informou que Erenice recebera em seu apartamento um representante da MTA, Fábio Baracat, a Casa Civil retrucou que ela só se avistava com empresários "em seu gabinete, com agenda prévia e pública". Agora, a ex-ministra reconhece ter conversado com Baracat não só em casa, mas também numa padaria de Brasília...

Acredite quem quiser, portanto, que a sofrida Erenice - que se desmanchara em lágrimas quando Lula a chamou para ouvir a sua versão dos fatos - não tinha a mais remota ideia dos périplos da parentela e cupinchada amiga pelas alamedas do poder e que nunca, jamais, em tempo algum, trocou duas palavras com a sua madrinha política Dilma sobre qualquer dos negócios filiais que faziam escala no balcão da Casa Civil.

Quando os governantes procuram ser honestos e deixam claro às suas equipes o seu compromisso com a retidão, as inevitáveis maçãs podres calam sobre as roubalheiras próprias ou de figuras próximas porque o risco do castigo é muito alto. Não é o que se passa sob o lulismo. Na cultura de acobertamento e impunidade do atual governo, em que os perpetradores de ilícitos apenas pagam pelo que fizeram quando as evidências contra eles são esmagadoras - e olhe lá -, eles não se preocupam com apagar os próprios rastros. Por isso, vai-se tornando cada vez mais fácil pilhá-los em flagrante delito.

Um balcão de negócios na Casa Civil

O Globo, Editorial

A Casa Civil não é qualquer ministério. A proximidade com o presidente da República, a visão geral da administração e o volume de informações estratégicas que detém fazem da Pasta um posto-chave na República. Não foi sem motivos que o presidente Lula encontrou na Casa Civil sua candidata.

O poder da Pasta amplifica a gravidade dos descalabros verificados por lá no entorno de Erenice Guerra, e que se tornam mais claros com o depoimento prestado pela ex-ministra, segunda-feira, à Polícia Federal, no inquérito aberto para apurar as denúncias de tráfico de influência praticado no ministério, cujo desfecho foi a saída da sucessora de Dilma Rousseff do cargo.

Chega a ser chocante o contraste entre a Casa Civil sob a influência da família Guerra e o ministério dos tempos de Leitão de Abreu, no governo Médici, ou de Golbery do Couto e Silva, artífice, com o presidente Geisel, da abertura política. Não se poderia imaginar que no futuro o ministério abrigaria uma oficina de criação de dificuldades, ao lado de um guichê de venda de facilidades.

Ao mudar a versão oficial de que jamais se encontrara com cliente do escritório de lobby do filho Israel Guerra, Erenice reforçou a veracidade das denúncias contra o clã familiar e ela própria.

No depoimento, a ex-ministra confirmou ter mantido contato com Rubnei Quícoli, representante de uma empresa paulista interessada em obter financiamento no BNDES para um projeto de energia solar no Nordeste. Para isso, Quícoli contratou os serviços da Capital Assessoria, firma de lobby de Israel e Vinícius Castro, assessor da ministra Erenice. E Quícoli, confirma-se agora, foi recebido pela ministra.

É lícito especular que no preço cobrado pela Capital estivesse embutido esse encontro.

Idêntico enredo envolve Fábio Baracat, outro lobista de empresas privadas, cliente da firma do filho e do assessor da ministra, contratada para facilitar a vida da MTA, empresa de transporte aéreo de carga, junto à Anac e aos Correios, estatal sob a área de influência da mãe de Israel. Com Baracat, Erenice teve dois encontros, segundo depôs à PF.

O escândalo, independentemente da eleição de domingo, encerra uma lição ao PT, partido em que política e negócios costumam se misturar de forma perigosa.

No primeiro governo Lula, quando no gabinete que seria ocupado por Dilma e Erenice despachava o todo poderoso José Dirceu, houve o caso do mensalão, outro produto dessa confusão entre empresas e partido.

Algum tempo depois, o deputado federal Dirceu foi defenestrado, cassado e virou “chefe da organização criminosa” do mensalão, no processo em tramitação no STF.

Há, ainda, um amplo campo em que o braço do PT no mundo sindical, a CUT, convive com negócios bilionários, por participar da gestão de grandes fundos de pensão de estatais (Petros, Previ, os dois maiores exemplos).

Novamente, política e cifrões se embaralham, e — como demonstram as histórias de Dirceu e Erenice, cada uma com suas características — não se trata de uma combinação saudável.

Às vésperas da eleição do futuro presidente da República, pensar em como separar o máximo possível esses dois mundos é um dever de casa providencial para autoridades que assumirão em janeiro.

Apequenados

Merval Pereira, O Globo

A campanha eleitoral chega à semana final com um acúmulo de desvios de conduta dos candidatos e do governo que é difícil não chegar à conclusão de que os seus principais personagens, especialmente o próprio presidente da República, se apequenaram no caminho, e o processo democrático brasileiro sofreu um retrocesso que os principais líderes políticos terão que se esforçar para superar.

A incontestável popularidade do presidente Lula por si só já seria um fator de desequilíbrio da disputa, o que é do jogo democrático. Se seu governo fosse impopular, seria um fator negativo para a coligação que o apoia.

Mas ele potencializou essa distorção usando e abusando do poder político e econômico que lhe confere o cargo, e da popularidade, para colocar a máquina governamental a serviço da eleição de sua candidata, o que prejudicou a disputa desde o primeiro momento.

O candidato do PSDB, José Serra, tentou o primeiro truque ainda na pré-campanha como governador de São Paulo, recusando-se a fazer oposição na suposição de que, explicitando sua boa relação com o presidente Lula, o eleitorado acreditaria que poderia continuar a votar nele, que liderava as pesquisas.

Quando viu que a transferência de votos de Lula para Dilma, que acreditava que não ocorreria, era um fator de desequilíbrio contra sua postulação, tentou, já na campanha, fingir-se de amigo de Lula colocando-o na sua propaganda televisiva.

O tiro saiu pela culatra, pois quem estava disposto a votar na oposição não gostou daquela proximidade, e o próprio Lula tratou de rejeitar a insinuação, deixando claro que sua candidata era Dilma.

Para contrabalançar a popularidade do presidente Lula, o candidato Serra, conhecido por sua maestria em controlar as finanças públicas e por ser um gestor eficiente, passou a prometer o céu e mais alguma coisa aos eleitores, na esperança de que não se sentissem inseguros com sua candidatura.

E dá-lhe aumento real do salário mínimo maior do que o do governo federal; 13º salário para o Bolsa Família; aumento real também para os aposentados.

O ambiente eleitoral nunca foi propício para que se discutam reformas estruturais que mexem no bolso dos eleitores, ou retirem privilégios de corporações. Muito menos em um governo populista, que não se peja de sair distribuindo casas e verbas em plena época de eleições.

Prometendo esse festival de bondades para contrabalançar a gastança do governo, a plataforma de Serra perdeu consistência, e o candidato transformou-se em outra persona política.

Para piorar a situação, o debate sobre o aborto pegou os dois candidatos no contrapé. Tanto a candidata oficial quanto o adversário oposicionista, dispostos a tudo para não perder votos, mostraram-se capazes de fazer qualquer papel na exploração religiosa da campanha.

Dilma renegou todas as suas convicções a respeito da descriminação do aborto, enquanto Serra despertou um insuspeitado lado religioso, a tal ponto que o efeito esgotou-se pela exaustão.

A começar pela verdadeira geleia geral em que se transformaram as coligações partidárias, o eleitor está perdido, sem parâmetros para se decidir. Quem ontem estava no governo hoje está na oposição com a mesma desenvoltura, explicitando a falta de um programa que cimente as negociações políticas.

As acusações de corrupção de lado a lado pareceram igualar os contendores num triste campeonato. A candidata Dilma Rousseff conseguiu neutralizar o escândalo de sua amiga Erenice Guerra na Casa Civil, levantando o caso de Paulo Preto na Dersa de São Paulo, mesmo que, até simbolicamente, os casos sejam bastante diferentes. Mas nesse tiroteio eleitoral, é difícil para o cidadão comum marcar as diferenças, e a candidata oficial foi bem-sucedida no propósito de nivelar todos por baixo.

O caso das privatizações, que mais uma vez foi utilizado pelo marqueteiro João Santana para mexer com o imaginário do eleitor médio, é sintomático dos descaminhos que a campanha tomou.

Ao dizer que utilizar o sistema de concessão para a exploração do pré-sal é o mesmo que privatizar a riqueza nacional, a candidata Dilma Rousseff está tentando enganar o eleitor.

Mas o candidato oposicionista em nenhum momento conseguiu deixar isso claro, provavelmente com receio de ser confundido com um entreguista.

Cometendo o mesmo erro da campanha de Alckmin em 2006, que “denunciou” o governo pela privatização da exploração da madeira na Amazônia, que havia sido aprovada com o apoio do PSDB, a propaganda eleitoral de Serra passou a incorporar a tese de que o sistema de concessão é uma espécie de privatização, acusando o governo atual de ter entregado nossa riqueza a diversos investidores privados, nacionais e estrangeiros.

Mágicos das contas

Comentando a Notícia

Sob o título acima, há um texto no jornal O Globo que merece ser lido com profunda atenção. Não que ele seja para nós alguma novidade. Em diferentes artigos e comentários já o abordamos, mas vale reinterar a abordagem que nele se faz. Ali, é possível identificar com absoluta clareza um método fascista de governança pública. Além de se praticar um atentado moral à transparência pública das contas governamentais, quando pilhado no delito, o governo Lula joga na base do “outros também fizeram”. Primeiro, a acusação contra o governo tem procedência. A magia com que se maquiou o superávit primário é maquiavélico, e revela o nenhum compromisso do governo não apenas com a ética e moralidade das ações públicas. Mas, sobremodo, para com a manutenção do saudável equilíbrio e sustentabilidade do momento econômico atual.

Trabalha-se apenas e tão somente no curto prazo e, mesmo assim, naquela capaz de produzir efeitos eleitoreiros. Dane-se o país, dane-se quem vier depois, que se virem e paguem o preço político de corrigirem as mazelas cometidas no presente. Isto revela que, de fato, como se diz aqui há muito tempo, que Lula não está nenhum um pouco interessado com um projeto de país. Sua visão se estreita no pleito mais próximo com o único propósito de manutenção de poder. E só.

E, que se note, não tenho a menor preocupação sobre quem sucederá Lula, se Dilma ou Serra. Aqui o que se quer é mostrar para os que acessam este blog o quanto precisamos dar à educação a prioridade máxima para que o povo, ou parte dele, deixem de ser manietados e induzidos a escolhas equivocadas. Educar e informar são ferramentas indispensáveis para que o cidadão não se deixe enganar pela demagogia pobre dos anões morais que vicejam no mundo político brasileiro.

Se, contudo, a escolha recair sobre a “continuidade” do que está aí, que pelo menos se saiba o que nos aguarda. Ninguém poderá alegar “ter sido enganado”. Todos precisam ter consciência plena de que suas escolhas tem um certo preço a pagar. Segue o texto.

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O governo Lula está produzindo o maior retrocesso na História recente do país na transparência das contas públicas. Ontem foi um dia de não se esquecer. Dia em que o governo fez a mágica de transformar dívida

em receita. E assim produziu o maior superávit primário do país em setembro, quando, na verdade, o Tesouro teve um déficit de R$ 5,8 bilhões.

O passo a passo do governo nessa confusão é o seguinte:

1) o Tesouro emitiu dívida no valor de R$ 74,8 bilhões.

2) transferiu uma parte, R$42,9 bilhões, diretamente à Petrobras, para subscrever as ações da

empresa.

3) entregou o resto, R$ 31,9 bilhões, ao BNDES e ao Fundo Soberano.

4) BNDES e FSB repassaram esses títulos à Petrobras para pagar pelas ações que também compraram.

5) a Petrobras pegou todos esses títulos que recebeu e com eles pagou a cessão onerosa dos barris de petróleo do pré-sal.

6) o governo descontou o dinheiro que gastou na subscrição e considerou que o resto, R$ 31,9 bilhões, era receita.

De acordo com o secretário do Tesouro, Arno Augustin, isso é igualzinho à receita de concessão que o governo Fernando Henrique registrou no seu superávit primário quando vendeu a Telebrás. Não é não.

Aquele momento o governo estava vendendo ativos e recebendo em dinheiro. Agora ele está transferindo petróleo, ainda não retirado, e recebendo de volta títulos da dívida que ele mesmo emitiu.

Se fosse igual à receita de privatização, como Augustin fala, por que então o governo precisou que o dinheiro passasse pelo BNDES? É para que na passagem acontecesse a mágica de o título de uma dívida do Tesouro virar receita.

O secretário disse que “essa ideia de que o BNDES participou por causa do superávit é errada.” Segundo ele, se o BNDES não entrasse o Tesouro perderia participação na Petrobras. Conversa. O governo não fez diretamente porque ficaria mais explícito o truque de fazer sopa de pedra.

A luta continua

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Em oito anos uma das marcas do governo Luiz Inácio da Silva foi a total falta de disposição para comprar brigas com este ou aquele setor em prol do bem coletivo. Para não se indispor com áreas que poderiam a vir lhe fazer falta nos momentos que realmente interessam - os eleitorais -, o presidente da República desistiu das reformas sindical, trabalhista, previdenciária, política e tributária.

Defendeu malfeitorias em público e precisou até desistir de seu plano de conquistar um terceiro mandato quando viu que o Senado não aprovaria e, se aprovasse, o Supremo Tribunal Federal não deixaria prosperar. Mudou, então, o plano e decidiu disputar por meio de interposta pessoa.

De um só propósito Lula e o PT não desistiram até hoje: de controlar os meios de comunicação. As tentativas têm a idade dos dois mandatos de Lula, mudam de feição, alteram o figurino, mas não abandonam o ringue.

O mais direto seria propor regras mediante as quais o governo federal exercesse controle sobre o conteúdo do que é divulgado nos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão.

Mas, por aí o caminho está interditado. Há a acusação de censura e reação forte.

Tenta-se, então, montar um disfarce e construir um discurso de defesa da "democratização" dos meios de comunicação. A palavra de ordem é desconcentrar, romper a ação da "mídia monopolista". O objetivo, entretanto, é sempre o mesmo: controlar, fiscalizar, punir, pressionar.

Todas as iniciativas que surgiram até agora tiveram esse mesmo caráter: o conselho lá do início, aquele cuja proposta de criação o próprio Planalto se comprometeu a encaminhar ao Congresso, a Conferência de Comunicação, o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, o programa do PT aprovado em congresso no início deste ano e agora essas iniciativas estaduais de montagem de conselhos controladores.

Claro que a exposição de motivos oficial não é essa assim tão dura. Apresentam-se como defensores da sociedade contra abusos e ilegalidades cometidas por revistas, rádios, jornais e televisões.

E para isso evidentemente o Estado precisa ter instrumentos de fiscalização sobre os conteúdos. Ora, aquela argumentação acima é falsa pelo seguinte: para coibir abusos há a Justiça, para controlar ilegalidades, também; para regular confiabilidade há a avaliação do público e para assegurar a multiplicidade há a concorrência.

Mas, como o que interessa de fato é o controle direto para assegurar o enquadramento na "linha justa" e a disseminação do mesmo tipo de pensamento para que se possa, assim, construir uma hegemonia social em torno de um projeto de poder, torna-se imprescindível criar os conselhos.

E, se não for de um jeito, vai de outro como o Poder Legislativo do Ceará fez e como os Poderes Executivos dos Estados da Bahia, Piauí e Alagoas propõem.

Os dois primeiros governados pelo PT, mas o último pelo PSDB que se diz contrário às ofensivas autoritárias, mas não se pronunciou a respeito da proposta feita pela Casa Civil do governo Teotônio Vilela Filho.

Nenhuma das ofensivas prosperou até hoje. Dificilmente prosperarão as novas, exatamente porque a imprensa está atenta (daí a contrariedade).

Mas convenhamos que é um atraso uma democracia que se pretende madura precisar ficar de vigília para que não lhe roubem a liberdade de pensar e de dizer.

Simplicidade.
Pelo menos um dos políticos de muito destaque que procuraram Marina Silva em busca de apoio eleitoral no segundo turno, ouviu dela com todos os efes e erres que será candidata a presidente em 2014.

Como aposta em ser reconhecida como a alternativa à dicotomia entre PT e PSDB, Marina explicou que não poderia se associar agora a nenhum dos dois candidatos.

O interlocutor não insistiu, mas saiu se perguntando se Marina tem noção de que só nas asas do PV não chegará nem perto de seu intento.

Achou bonita, mas um tanto utópica a ideia dela de juntar o melhor do PT e o melhor do PSDB para governar.

“Controle social da mídia” : há males que vêm para mal

Bolívar Lamounier, Portal Exame

Poucos dias após a aprovação do projeto cearense que institui um Conselho Estadual de Comunicação, os estados do Piauí, Alagoas e Bahia manifestaram a intenção de implantar órgãos de controle semelhantes.

O projeto votado pela Assembleia cearense apresentado por uma deputada do PT, mas a questão já parece transcender as fronteiras partidárias, se pudermos julgar pelo caso de Alagoas : segundo a Folha de hoje, o governo alagoano, do PSDB, “estuda transformar um conselho consultivo em deliberativo, com poder semelhante ao cearense”.

De fato, eu não ficarei surpreso se vários outros governos e assembleias estaduais se dispuserem a servir como laboratórios para a tentativa de aprovação de medidas restritivas no âmbito nacional.

Se for mesmo instituído, o denominado “controle” será o que seu nome diz : controle ; daí o que sairá serão restrições à atividade da imprensa, sem excluir a censura em suas diversas formas.

O que por esse caminho se começa a gestar é portanto um grave retrocesso na evolução democrática do país. Quais são as origens desse medonho equívoco? De que raízes tem ele se alimentado ?

Primeiro, do petismo, isto é óbvio. Na novilíngua petista, bem o sabemos, o adjetivo “social” geralmente serve como senha para o público interno e disfarce para o público externo.

Como senha, ele convoca os adeptos do partido a darem apoio a determinada iniciativa, quer a compreendam ou não. Como disfarce, ele dilui a feição partidária da questão em jogo e tenta apresentá-la como resposta a um interesse geral : interesse do povo, da sociedade, da democracia etc.

Na ótica do projeto de poder petista, “controle social da mídia” significa que o czar nacional e os mini-czares estaduais da comunicação irão escolher a dedo e colocar nos mencionados conselhos uns tantos representantes dos “movimentos sociais” ; os sindicatos escolherão outros tantos, e por aí iremos, ressuscitando com pompa e circunstância mecanismos corporativistas que deviam ter morrido junto com Mussolini.

O objetivo será barrar tudo o que não agradar ao governo – salvo, é claro, quando se tratar de um eventual governo “burguês”.

Existem, no entanto, fatores mais amplos, não necessariamente enraizados ou aparentados ao lulo-petismo. Se assim não fosse, propostas tão manifestamente contrárias à democracia não estariam prosperando com tanta rapidez.

Os meios de comunicação não desfrutam de um apoio consensual dos cidadãos, em país nenhum : isto é óbvio. Jornais, rádios e TVs têm perfis específicos, qualidades e defeitos, e alguma ideologia, ou pelo menos um posicionamento particular diante de certas questões espinhosas.

Quero com isso dizer que o funcionamento cotidiano dos meios de comunicação não engendra só aplauso. Engendra também crítica e até hostilidade, ora justificada e realista, ora desfocada ou puramente imaginária.

Não dispondo de pesquisas a respeito, mencionarei a seguir duas atitudes que me parecem levar água ao moinho do autoritarismo embutido na proposta de “controle social” da mídia.

Uma, eivada de certo romantismo, é a busca da “verdadeira opinião pública”, isto é, a fantasia de uma opinião pública intocada, virgem de contatos, que se manifestaria tal como é se não fosse a todo momento distorcida pelas parcialidades, interesses, ideologias, etc., que a mídia supostamente encarna.

A segunda atitude a que me referi – interligada à primeira – é a ideia de que os problemas do país se devem a uma “conspiração das elites”, ou das grandes empresas de mídia, o que dá no mesmo.

Nessa ótica, o cidadão seria como um palimpsesto : para sabermos como ele realmente é e o que pensa, precisaríamos primeiro raspar as sucessivas camadas que a mídia foi com o tempo imprimindo em sua mente.

Como isto não parece prático, a alternativa seria forçar a mídia a comportar-se de maneira rigorosamente imparcial, impedindo-a de veicular determinados conteúdos ou impondo-lhe uma direção multi-setorial – uma espécie de amostra ou miniatura de todos os grupos ou segmentos corporativos da sociedade.

Ora, no Brasil – nunca é demais lembrar – o Estado é todo-poderoso ; dispõe de recursos avassaladores para pressionar, subjugar e chantagear não só a imprensa como qualquer outro setor.

Se os chefes do Executivo federal e estaduais fossem sempre pessoas ponderadas e sinceramente devotadas à democracia, os riscos do “controlismo” seriam menores, mas não há garantia de que elas sempre terão tais qualidades.

Uma imprensa formada por grupos de grande porte e competitivos traz benefícios diretos ao público e indiretos à democracia, na medida em que funciona como um contrapeso ao poder excessivo do Estado.

Resumindo, meu argumento é que o atual frenesi de controle deriva de um projeto de poder partidário, por um lado, e de certos clusters de atitudes que tornam o “controlismo” petista plausível ou palatável, por outro. As assembleias legislativas acima mencionadas não parecem ter percebido o potencial de retrocesso, diria mesmo de risco, inerente à conjunção desses dois fatores.

Caso Erenice: Empresária confirma propina a Israel Guerra

Vannildo Mendes - Agência Estado

Em depoimento de mais de duas horas à Polícia Federal, a empresária Ana Veloso Corsini confirmou hoje que seu irmão, o piloto de Motocross Luís Corsini, pagou propina de R$ 40 mil a Israel Guerra, filho da ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil), pela intermediação de um patrocínio de R$ 200 mil da Eletrobrás, em 2008. Com isso, o delegado Roberval Vivalvi, encarregado do inquérito, deve preparar o indiciamento de Israel.

Segundo relato de Ana Veloso, o patrocínio estava "entravado" e chegou a ser recusado, quando Israel, apresentado ao piloto, ofereceu-se para reverter a situação, alegando que "a mãe e a tia" o ajudariam a remover as dificuldades.

A tia a quem Israel se referia seria a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, substituída por Erenice no cargo em março deste ano, quando ela se desincompatibilizou para disputar a Presidência da República pelo PT. Erenice é braço direito de Dilma desde 2003, quando a candidata tornou-se ministra de Minas e Energia. A Eletrobrás era a área onde as duas exerciam mais influência. A candidata petista nega qualquer envolvimento com os atos atribuídos aos familiares da ex-colaboradora.

Ana contou à polícia que, de fato, após a intermediação de Israel, a Eletrobrás reconsiderou o projeto de patrocínio à equipe Corsini Racing e o dinheiro saiu em duas parcelas - em julho e agosto de 2008. Ela relatou que, atento às datas de liberação, o filho de Erenice fez pressões pelo imediato pagamento da sua "comissão". Como Corsini demorou a efetuar o pagamento, ele intensificou a cobrança e estendeu as pressões a Ana, que trabalha na equipe. Ela disse ter ficado chocada com a situação. "Foi chantagem mesmo e eu vim aqui reafirmar tudo em detalhes", disse ela, ao chegar para depor.

Corsini depôs na última quinta-feira e confirmou que a propina foi paga em duas parcelas, uma em dinheiro, no valor de R$ 24 mil e a outra, de R$ 16 mil, em cheque. A PF já requisitou a cópia do cheque e colheu outras provas de que a propina foi integralmente paga. Além de Israel, deve ser indiciado o irmão, Saulo, em nome do qual está registrada a empresa de consultoria Capital, usada como central de lobby de familiares da ex-ministra. Ouvida anteontem, Erenice negou ter intercedido junto à Eletrobrás pelo patrocínio e disse que jamais autorizou que usassem seu nome para tráfico de influência. A PF ainda não decidiu se vai indiciar a ex-ministra junto com os demais acusados.

De que lado você está?

Roberto da Matta - O Estado de São Paulo

Quando trabalhava num museu cheio de ossos e de artefatos indígenas cheirando a naftalina e mofo, eu - recém-chegado de Harvard e contrariamente ao meu projeto de ser apenas um pesquisador - fui galgado à posição de coordenador de um programa de ensino e pesquisa. A saída de seu fundador promoveu a minha entrada na "burro-cracia" federal da universidade e, de repente, eu me vi na posição de liderar um grupo de pessoas que mal conhecia. Éramos todos contra a ditadura militar que então governava um Brasil administrado pelo arbítrio e sem a regra de lei que entre nós, humanos, sempre instáveis e interessados, ajuda a manter a coerência; e, eventualmente, mas nem sempre, garante o uso de um só peso e medida.

Um dia, graças a circunstâncias que espero contar com mais detalhes em outro lugar, surgiu a oportunidade de contratar o grupo de professores do programa (de fato, a sua esmagadora maioria), integrando-os aos quadros da universidade. Digo integrar porque, àquela época, eles eram pagos por uma fundação americana que, por meio de sua filantropia, dirimia a nobre culpa ianque por ter criado um colar de ditaduras militares que coroavam com seus diversos tipos de despotismo o nosso continente. O tal "Cone Sul" ou "América Latina", que só agora os americanos estão deixando de ver como um bloco instável, único e atrasado. Algo que, sem nenhum exagero, ainda se situa na sua lata de lixo por contraste com uma certa Europa e Ásia que estão na sua sala de visitas.

Pois bem. Quando um todo poderoso burocrata da universidade dignou-se a entrar em contato comigo, solicitando os nomes dos professores a serem finalmente integrados no nosso programa, não tive dúvida ou neutralidade. Eu sabia de que lado estava, muito embora, alguns desses colegas não comungassem comigo das mesmas convicções liberais que - aos 20 anos - eu havia consolidado na minha experiência com a América de Jefferson, Lincoln, Luther King, Thornton Wilder, Capra, John Ford, Kubrick e muitos outros; mais do que com a vivência com os Estados Unidos de Joseph McCarthy, Nixon, da Ku-Klux-Klan e da dinastia Bush. E assim eu confirmei os seus nomes, muito embora na nossa convivência, eu sempre fosse direta ou marginalmente tachado como sendo de "direita" ou de "liberal", com tudo o que essa palavra contém de execrável, de indigno e de desprezível no Brasil (e mais ainda no Brasil daquela época). O mesmo ocorrendo com a minha mal começada obra. Uma vez me disseram que em vez de falar de carnaval ou de renunciantes, como Augusto Matraga, de comida e de Dona Flor como metáfora do Brasil, eu deveria estudar camponeses e operários. Em alguns projetos e publicações produzidos naquele museu eu, apesar de coordenador, era excluído porque certamente não ficava bem mencionar o nome de um semifascista nos resultados de pesquisas de "esquerda" que iriam transformar o Brasil.

Lembro essas passagens não para ativar ressentimentos que já encontraram seu lugar num velho e machucado coração, mas para insistir num ponto: jamais assumi uma posição de neutralidade que - como o limbo - seria mais do que justificado por um coordenador acidental, e marcado por um preconceito político tão distorcido pela inútil, mas sempre ressuscitada, dualidade entre direita e esquerda.

Por causa disso, e mesmo ouvindo com muita mágoa a suspeita de um colega que expressou dúvida se o seu nome constaria da lista que enviei à universidade, não fiquei em cima de um doce muro do qual, como fez dona Marina e os verdes, muita gente pensa que pode descortinar os dois lados.

* * *

Faço essas confidências porque elas têm muito a ver com o clima eleitoral brasileiro. Você fica neutro quando um presidente da República e um partido que recusou assinar a Constituição e foi contra o Plano Real usam de todos os recursos do Estado que não lhes pertencem para ganhar o jogo? Você diz que o jogo não interessa porque você queria que os adversários fossem do mais alto nível e isso não existe em nenhum país e muito menos no Brasil? Será que você não enxerga que o exemplo da neutralidade é fatal quando há uma óbvia ressurgência do velho autoritarismo personalista por meio do lulismo, que diz ser a "opinião pública"? O que você esperava de uma disputa eleitoral no contexto do governo de um partido dito ideológico, mas marcado por escândalos, aloprados e nepotismo? Você deixaria de tomar partido, mesmo quando o magistrado supremo do Estado vira um mero cabo eleitoral de uma candidata por ele inventada? É válido ser neutro quando o presidente vira dono de uma facção, como disse com precisão habitual FHC? Se o time do governo deve sempre vencer porque tem certeza absoluta de que faz o melhor, pra que eleição?

A dúvida, o debate, os momentos de ansiedade e de tédio são parte do fardo grandioso da democracia que tanto queríamos. Só os fascistas e os de má-fé, só os ignorantes deste processo podem achar que tudo é péssimo, inclusive os candidatos. Você pode não gostar de um ou do outro, mas a disputa que o Lula e o PT querem anular, usando o pessimismo burro do brasileiro para com a "política", é crítica para liquidar as convergências liberais que alcançamos. Pense nisso, não enverdeça. Não esconda o seu medo de decidir com argumentos bacharelescos. Diga de que lado você está. Lembre-se de que neste mundo não há deuses ou super-heróis. Há apenas pessoas comuns que são candidatos temporários a cargos que têm uma enorme e decisiva influência no nosso destino!

O manifesto da desonestidade intelectual

Guilherme Fiúza, Revista Época

A elite envergonhada se sente nobre quando bajula o povão, num doce sonho de altruísmo

A burguesia culpada ataca novamente. O manifesto de intelectuais a favor da candidatura Dilma – aquele que incluiu a assinatura do diretor de Tropa de elite contra a vontade dele – resume o Brasil do faz de conta. Faz de conta que o país está dividido entre ricos e pobres, conforme a mitologia criada por Lula desde seu primeiro discurso presidencial. Faz de conta que os avanços sociais vão acabar se a oposição vencer. Faz de conta que a vida do povo melhorou porque Lula é pobre.

A elite envergonhada se sente nobre quando bajula o povão. Não contem para ninguém que os avanços sociais começaram no governo de um sociólogo, porque isso vai estragar todo o heroísmo da esquerda festiva. Ela estava feliz em sua jornada nostálgica no Teatro Casa Grande, onde aconteciam as históricas reuniões de resistência à ditadura. Não perturbem Chico Buarque, Leonardo Boff e demais artífices do manifesto dos intelectuais em seu doce sonho de altruísmo. Deixem-nos curtir seu abraço metafórico ao operariado.

O único problema desse abraço é a metáfora em si. Ela se chama Dilma Rousseff e está prestes a virar abóbora. A fada que a transformou em encarnação da esperança popular deve estar exausta. O encanto começa a se dissipar, e a donzela começa a rosnar mensagens constrangedoras, com o rosto novamente crispado, masculinizado, hostil. A mamãe dos brasileiros está se desmanchando ao vivo. Os intelectuais e artistas de esquerda precisam fazer alguma coisa, porque o estoque de licenças poéticas do plano Dilma está no fim. Talvez pudessem importar um lote novo da Venezuela.

Após sua participação no debate presidencial da TV Bandeirantes, Dilma foi entrevistada ao vivo, ainda no estúdio. O repórter perguntou-lhe o que ela quis dizer com a acusação de que seu adversário pretende privatizar o pré-sal. Dilma mostrou então todo o seu preparo como candidata a Vanusa. Seu raciocínio saltou das profundezas oceânicas para os hospitais públicos, emendando num salto espetacular para as salas de aula do Brasil carente. Com os olhos vagando pelo nada, talvez em busca do sentido da vida, Dilma começava a dissertar sobre segurança pública quando foi salva pelo repórter da Band. Ele livrou-a de seu próprio labirinto mental da única forma possível: encerrou a entrevista.

Como nem tudo na vida é propaganda eleitoral gratuita, a musa dos intelectuais de esquerda logo apareceria de novo sem as fadas do marketing. Dessa vez, cercada por microfones, explicou que o maior acesso da população aos telefones nada tinha a ver com a privatização da telefonia. “O pobre passou a ter telefone porque passou a ter renda. Não por causa da privatização”, afirmou, categórica.

O eleitor não deve se zangar só porque a afirmação contraria a história. O fato de que a abertura da telefonia ao capital privado melhorou a vida do povo precisa mesmo ser esquecido. Para piorar, isso aconteceu no governo do sociólogo, ou seja, destoa completamente da apoteose operária que está levando o Brasil ao paraíso. Não vamos estragar o enredo. Até porque, se o aumento da felicidade per capita não puder ser atribuído à bondade estatal de Lula e Dilma, como os intelectuais progressistas vão fazer para se reunir no Teatro Casa Grande, lançar manifestos e se sentir importantes? Sinceridade tem limite.

Vamos deixar isso tudo combinado, antes que o encanto acabe. Os planos do PT para controlar a informação não existem. É pura invenção da imprensa burguesa, que não quer a ascensão popular, como alerta o manifesto dos intelectuais. O povo está com Dilma, e portanto a verdade também. O resto é despeito dessa elite egoísta que não gosta de pobre.

O diretor José Padilha mandou tirar seu nome do manifesto. No mínimo, deve ser um privatista. Mas aqui é a terra do filho do Brasil. Privatização, só na Casa Civil. Rumo ao Oscar.

Petrobrás, pré-sal e as mentiras que Dilma e Lula contam

Adelson Elias Vasconcellos

Para quem frequenta o blog há algum tempo, não é novidade nossas afirmações sobre a compulsão que Dilma tem para mentir com a maior cara de pau, devidamente orientada e treinada por seu guru e mentor, Lula da Silva, que, neste quesito, tornou-se um mestre.

No debate da Rede Record, dentre outras coisas, José Serra fez acusações e afirmação sobre a atuação do governo atual em relação à Petrobrás, de pronto, rechaçadas pela candidata Dilma.

Nem bem se passaram 24 horas do debate, alguém resolveu confrontar o que Serra dissera: B-I-N-G-O. Não apenas estavam certas as afirmações de Serra como descobriu-se mais outras leviandades cometidas na estatal.

Quem leu a série de artigos que publicamos sobre as privatizações constatou que ali escrevia-se história, devidamente assentada em fatos, estatísticas oficiais e, claro, a realidade do chamado “dia seguinte” que, no fundo é o que realmente importa, desde que o processo se dê de forma clara e transparente.

O PT adora bater nesta tecla das privatizações. Entende e aposta que a desinformação endêmica do grosso da população conjugada com sua pouca memória, é um dispositivo que lhe favorecesse quando mente. E como mente!!!

Já mostramos, aliás, melhor seria dizer, já provamos que a lei que quebrou o monopólio de exploração da Petrobrás, associada às reformas implementadas na companhia no governo FHC, tiraram a Petrobrás do marasmo em que se encontrava para o gigantismo em que se encontra hoje. Poderia estar melhor, é verdade, não fosse a politicagem ter se misturado aos negócios da estatal.

Quando assumiu, FHC encontrou uma companhia descapitalizada, sem capacidade de investimentos, vivendo apenas corporativamente, com uma produção estagnada em 700 mil barris/dia de petróleo, sendo que o grande volume desta produção sequer se prestava ao fornecimento dos combustíveis necessários ao abastecimento da frota nacional. É bom que se diga, e podem pesquisar a vontade, que a conta petróleo sempre foi uma dor de cabeça para as finanças públicas.

Pois bem, em 2002 ao transferir o governo para Lula, a situação da Petrobrás era outra. A estatal voltara a investir, a produção dobrara, passara para 1,4 milhões de barris/dia, foi feita uma bem sucedida capitalização em nível popular, quando se permitiu que as pessoas físicas utilizassem parte do seu saldo no FGTS para a subscrição de ações (coisa que Lula tentou evitar mas teve que recuar), e com a quebra do monopólio, a Petrobrás firmara dezenas de parcerias que lhe permitiram aumentar a área explorada e a descoberta de novos campos em águas profundas, dentre os quais a camada pré-sal, da qual, estudos anteriores à era Lula, já indicavam enorme potencial.

Assim, aquela baboseira toda que o atual presidente, Sérgio Gabrielli conta aos quatro cantos, não passa de lorota, ou mais precisamente, terrorismo eleitoral.

Mas voltemos às acusações de Serra. Foram ao menos três: a entrega de uma das diretorias da estatal para Collor, em troca de apoio político do ex-presidente, maior número de privatizações de áreas para exploração com favorecimento a investidor privado, e privatização de área do pré-sal.

Antes é preciso explicar uma diferença entre privatização e concessão. Na privatização, você leiloa algum bem ou ativo, e o transfere integralmente ao comando de outra empresa ou consórcio, ou grupo. No caso da concessão, o governo leiloa uma determinada área para exploração, sem jamais deixar de ser proprietário, e a empresa que explorar, terá direito de reter parte do que encontrar a título de retorno de investimento. Porém, a parte do leão, fica em posse da União. Para o governo não há riscos neste tipo, ele é todo da concessionária. Assim, quando Dilma, Lula e Gabrielli dizem que FHC privatizou a Petrobrás conta é uma deslavada mentira. A lei que quebrou o monopólio de exploração foi votada no Congresso, e dela a Petrobrás se beneficiou imensamente e, muito mais ainda, o Brasil.

Portanto, jogue-se no lixo as afirmações de privatizações da Petrobrás alardeadas por Lula e Dilma, afora o lacaio Sérgio Gabrielli que às vezes brinca de ser presidente da estatal, porque isto nunca ocorreu.

Fato 1. – O governo Lula, em troca de apoio político, entregou uma das diretorias à influência de Fernando Collor. Verdade ou mentira? VERDADE. O diretor de Operações e Logística da BR Distribuidora, José Zonis, foi indicado para o cargo pelo senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL). A indicação foi feita em setembro do ano passado.

Fato 2.- O governo Lula “privatizou” áreas de exploração do petróleo à iniciativa privada, em número maior do que FHC, inclusive favorecendo uma das empresas privadas em especial, a OGX, do Eike Batista. Verdade ou mentira? VERDADE. A concessão de novas áreas de exploração do petróleo à iniciativa privada ocorreu nos seis primeiros anos do governo Lula. O auge foi registrado em 2007, quando 27 empresas ganharam lotes - destas, 16 estrangeiras e 11 que estrearam no país, como operadoras. No total, 108 empresas ganharam áreas, sendo 53 estrangeiras, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Fato 3.- Favorecimento a grupos privados, inclusive na área do pré-sal. Verdade ou mentira? VERDADE. Ildo Sauer que foi diretor da estatal de 2003 a 2007, conta como Eike Batista foi favorecida por Dilma Rousseff já na área do pré-sal, e também toca num outro ponto delicadíssimo, inclusive correndo uma ação na Justiça contra o processo, de favorecimento à White Martins, na área do gás.

Ou seja, entre a realidade e o discurso, há uma enorme diferença. Acusei antes e acuso de novo: o governo, na sua prática compulsiva de mentir para confundir e ludibriar a opinião pública, e disto tirar proveito político, comete um crime contra o país e seu povo.

Nesta edição, um pouco mais baixo, e antes mesmo que o fato aconteça, já fizemos um alerta contra esta mistificação asquerosa que o governo Lula faz da Petrobrás. Ali, deixamos claro que a tal solenidade armada como palanque descarado para se dar o início da operação comercial do pré-sal é uma daquelas manchas que o tempo não apaga. Ou seja: uma fase experimental, que ainda continuará experimental, apenas mudando-se a rotulagem para comercial. Talvez mais adiante saibamos o custo desta macacada toda. O que se lamenta é se torre dinheiro público de forma tão leviana e irresponsável, o mesmo dinheiro que falta aos hospitais para equipá-los com condições de atender a população mais pobre que morre por falta de atendimento de uma rede sucateada não apenas pela omissão, mas pela falta de prioridade da gestão pública, que prefere “investir” no seu projeto de poder, do que nos serviços básicos a que está obrigada e em nome dos quais retira da sociedade mais de 40% entre impostos e contribuições variadas. Infelizmente, o país é quem está pagando a conta da mentira com a qual estes cafajestes, que me perdoe o leitor mas outra expressão não há para classificar estes desqualificados, pretendem se manter no poder.

Os fatos acima estão expostos nas reportagens do jornal O Globo de hoje, e podem ser conferidos nas postagens abaixo. Acho que a disputa política não pode nem deve escorregar pelo terreno lamacento da impostura e da mistificação. O engodo de todo o governo, com a conivência vexatória da atual presidência da Petrobrás tem feito mal, um grande mal à própria estatal, que já perdeu um terço de seu valor de mercado por conta da politicagem rasteira e de submundo. Dilma, no debate da Record, acusou que os 51 anos de história da estatal foram “carne de pescoço” para ficar na suas próprias palavras. Ignorou todo um histórico de trabalho de milhares de técnicos que fizeram a estatal se tornar uma das maiores do mundo. A Petrobrás não passou a existir a partir de 2003, pelo contrário. O que desta data para cá ela tem obtido de sucesso se deve, fundamentalmente, a tudo o que foi feito antes.

E que se registre: esta perda de valor é um processo que vem se dando não de uns poucos meses para cá. Há pelo menos 2 ou 3 anos, o mercado vem percebendo o uso político vagabundo que atentam contra os interesses da companhia e de seus acionistas. O recente processo de capitalização, e que desmascaramos aqui recentemente, é um das coisas mais sórdidas que já se cometeu contra uma empresa. A reação contrária do mercado foi imediata. Ontem, inclusive, ao comentar o debate da Record, mostramos que o sistema de partilha tão festejado pelo governo Lula associado à forma rombuda de capitalização, vão custar muito caro para o país. Esta riqueza que já demoraria certo tempo para se consumar, vai se espichar ainda mais dado a dívida jogado no colo tanto da companhia quanto do próprio governo.

Quem perde? A sociedade brasileira, sem dúvida. Não apenas pelas mentiras perpetradas, pelo jogo político cretino, mas, sobretudo, porque estamos jogando para o futuro uma dívida da qual poucos sabem que um dia terão que saldar. Sejam acionistas ou não.

Governo Lula: mais de cem concessões de petróleo

O Globo

" Isso foi sim um processo de privatização "

RIO - Ponto de embate entre os candidatos à Presidência, a concessão de novas áreas de exploração do petróleo à iniciativa privada ocorreu nos seis primeiros anos do governo Lula. O auge foi registrado em 2007, quando 27 empresas ganharam lotes - destas, 16 estrangeiras e 11 que estrearam no país como operadoras. No total, 108 empresas ganharam áreas, sendo 53 estrangeiras, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP).

- Isso foi sim um processo de privatização. Este modelo foi utilizado o tempo todo, incluindo trechos onde se descobriu petróleo na camada do pré-sal - afirmou o consultor Adriano Pires.

O presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, rebateu nesta terça-feira as críticas de Serra, que disse que as concessões foram realizadas quando Dilma "mandava" na estatal:

- A Petrobras nunca foi responsável por concessões, é uma responsabilidade da ANP. Dizer que a Petrobras, em seu Conselho de Administração, aprovou concessões é um erro crasso, é básico.

Outro assunto do debate foi o acordo entre a estatal e a White Martins para a criação de uma planta de gás liquefeito. Para o tucano, a Petrobras abriu mão do controle. A diretora de Gás e Energia da estatal, Graça Foster, disse que os estudos começaram no ano 2000 e, em 2004, as empresas formaram a GásLocal, inaugurada em 2006, dado confirmado pela White Martins.

A White Martins detém 60% da planta e foi quem construiu e opera a unidade, com capacidade de liquefazer 380 mil m3/dia de gás natural. A estatal tem 40% da planta.

Obras de refinarias do Nordeste estão atrasadas

Letícia Lins e Isabela Martin, O Globo

As novas refinarias que a Petrobras anunciou com pompa no Nordeste pouco avançaram até o momento.

Citadas pela candidata Dilma Rousseff no debate da noite de segunda-feira, na TV Record , as obras estão atrasadas em Pernambuco e no Ceará.

Orçada inicialmente em R$ 9 bilhões - e atualmente com investimentos previstos de R$ 26 bilhões - a Refinaria Abreu e Lima vem sendo implantada no Complexo Industrial Portuário de Suape, litoral sul de Pernambuco, e pelo cronograma deveria ter sido inaugurada em agosto.

De acordo com o governo de Pernambuco, deverá ficar pronta somente em 2012, embora em seu canteiro de obras trabalhem atualmente cerca de 10 mil pessoas.

A refinaria, projetada para processar 230 mil barris diários de petróleo, é fruto de uma parceria entre o Brasil e a Venezuela - por meio da PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo.

Há um ano a Petrobras chegou a anunciar a conclusão das negociações com a PDVSA, mas a sociedade ainda não foi de fato efetivada. O acordo estaria enfrentando dificuldades em função de exigências feitas pelo BNDES ao governo venezuelano e não aceitas pela PDVSA.

José Zonis, diretor da BR foi indicado por Collor

Gerson Camarotti, O Globo

BRASÍLIA - O diretor de Operações e Logística da BR Distribuidora, José Zonis, foi indicado para o cargo pelo senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL). A indicação foi feita em setembro do ano passado. No debate da TV Record , na noite de segunda-feira, o candidato tucano, José Serra, causou constrangimento à petista Dilma Rousseff ao afirmar que Collor tinha poder na BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras.

Depois que foi para a base governista de Lula, Collor passou a pressionar nos bastidores, segundo integrantes do governo e do Congresso, para fazer uma indicação política para a estatal. Para evitar desgaste com o aliado, o Palácio do Planalto deu sinal verde, mas condicionou que a indicação fosse de um nome dos quadros da Petrobras. O pedido de Collor foi encaminhado pelo líder do PTB, senador Gim Argello (DF). Então ministro de Minas e Energia, o senador Edison Lobão (PMDB-MA) defende a indicação.

- É um nome qualificado. Foi uma nomeação vinda da liderança do PTB no Senado. Mas é um quadro de carreira. Não vejo problema no fato de ele ter sido indicado pelo Collor, se é um bom nome - disse Lobão.

O ex-ministro ressaltou que não há problema quando um nome técnico recebe apoio político. Formado em Engenharia de Produção pela UFRJ e com mestrado em Finanças pela PUC do Rio, ele está na Petrobras desde 1983, onde já passou pelos cargos de diretor superintendente da TBG (Gasoduto Bolívia Brasil), diretor da Gaspetro, gerente de Marketing e Comercialização de Gás da Petrobras, além de gerente executivo de Negócios de Energia da estatal.

PTB indicou outro nome no ano passado
Nesta terça-feira, Argello elogiou a indicação, ignorando a possibilidade de Collor tentar, eventualmente, tirar proveito:

- O presidente Collor tem experiência. Portanto, se é uma indicação dele, significa que é um bom quadro.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), confirmou que Serra se referiu a Zonis quando citou no debate que Collor tinha afilhados na BR Distribuidora. A estratégia foi associar o nome de Dilma ao do ex-presidente, que tem imagem negativa junto a população desde o impeachment, em 1992.

- O Zonis foi uma indicação do Collor. Esse é um fato que não foi respondido por Dilma - cobrou Guerra.

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, ex-presidente da BR Distribuidora, disse que Zonis foi uma indicação que seguiu critérios técnicos.

- A indicação do Zonis é uma barriga de aluguel. Ele é um quadro de carreira da Petrobras.

Essa não foi a única nomeação do PTB para a BR Distribuidora no ano passado. No mesmo período, o partido emplacou Luiz Claudio Caseira Sanches para a Diretoria da Rede de Postos de Serviço. Ele também é técnico de carreira do Sistema Petrobras desde 1980 e ocupava o cargo de gerente geral de Abastecimento da área Internacional de Suporte Técnico aos Negócios da estatal.

Integrantes do PTB ressaltam que desde que Collor indicou um afilhado para a estatal, se aproximou muito do comando da BR Distribuidora. Ele já recebeu na Comissão de Infraestrutura do Senado, que preside, o presidente da subsidiária, José Lima de Andrade Neto, para um debate. No início do ano, também recebeu Lima Neto num seminário em Maceió, que contou com o apoio de sua empresa de comunicação. Procurado pelo GLOBO, Collor não retornou.

Ex-diretor da Petrobras afirma que Dilma permitiu privatização da 'franja' do pré-sal

Leila Suwwan, O Globo

SÃO PAULO - Alçada ao centro do debate eleitoral, a ameaça de "privatização" do petroléo já é uma realidade, na opinião de Ildo Sauer, ex-diretor da estatal (2003-2007). Segundo ele, o modelo de concessões criado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi ampliado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E mais grave: os leilões ocorreram mesmo depois da descoberta do pré-sal - o chamado "filé mignon" das reservas brasileiras - e abrangeram blocos conhecidamente promissores, como o arco do Cabo Frio.

Sauer sustenta que a candidata Dilma Rousseff, ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras, tinha conhecimento do que ocorria e foi conivente com o favorecimento de pelo menos uma empresa privada, a OGX, do empresário Eike Batista, que recrutou executivos estratégicos da Petrobras meses antes do leilão de 2007 (9ª rodada).

Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

O GLOBO: Por que o sr. afirma que foi feita uma privatização do petróleo, inclusive do pré-sal?

ILDO SAUER - Em 2006, a ANP e o governo - o presidente da República e a chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobras - foram avisados de que a Petrobras, depois de muitos anos de estudo, resolveu furar o sal. Tínhamos feito um poço em Tupi que não encontrou petróleo até o sal, um fracasso. Mas era o lugar ideal para fazer o teste e saber se o pré-sal existe ou não existe. Em julho, furaram e encontraram o petróleo. Portanto, em julho, a especulação de mais de duas décadas estava confirmada. O governo foi avisado. E a ANP foi avisada, conforme manda a lei. O que faltava era dimensionar a reserva. O conselho de todos os técnicos da Petrobras e dirigentes que tinham acesso ao governo, sindicalistas e o grupo de engenharia do Rio de Janeiro pediram para suspender todos os leilões. No entanto, em 2006 o leilão não só foi mantido como limitava, na oitava rodada, a quantidade de blocos que a Petrobras poderia comprar. Dos 280 blocos que iam a leilão, a Petrobras poderia comprar menos de 60.

O GLOBO: Por que limitar?

SAUER - A ANP arbitrariamente resolveu fazer isso. com apoio do governo porque dizia que era contra o retorno do monopólio da Petrobras. Como era discriminatório contra a Petrobras, houve ação judicial e teve ganho de causa, uma liminar de suspensão do leilão. O leilão já tinha vendido alguns blocos sobre o pré-sal, um deles para a empresa estatal italiana, quando foi bloqueado. Até hoje não terminou. Isso foi em 2006. O ministro Lobão volta e meia ameaçava retomar o leilão, mesmo sabendo que a maior parte dos blocos dessa oitava rodada estavam sobre o pré-sal.

O GLOBO: Por quê?

SAUER - Ele que tem que explicar. Porque tudo isso contradiz o discurso que faz agora a então ministra da Casa Civil e então presidente do conselho da Petrobras. Naquele tempo ela agia na outra direção, de acelerar a entrega do petróleo, fazer leilão e concordava com a redução da participação da Petrobras. Parecem duas pessoas completamente distintas. Eu fazia duas perguntas naquele momento: ou eles não entendiam a dimensão do que estava em jogo ou a ANP e a Casa Civil - o que é grave - entenderam e mesmo assim insistiram em entregar o petróleo.

O GLOBO: E o que aconteceu na nona rodada, em 2007?

SAUER - Entramos com força, imploramos para suspender o leilão. Mantiveram. Tudo que fizeram foi retirar 41 blocos premiados. Novamente, o que me deixa perplexo é que, sabendo que o pré-sal era verdadeiro, já confirmados os campos de Tupi, Cacharel e Pirambu, mesmo assim fizeram o leilão de 2007. Diziam que iriam leiloar fora do pré-sal. Mas leiloaram a franja do pré-sal, em 10 blocos. Uma empresa, que foi criada em 2007, que arrancou de dentro da Petrobras o dirigente máximo da área de exploração, que era o gerente-executivo Paulo Mendonça, com toda sua equipe. Ele saiu de lá a peso de ouro e foi trabalhar para investidor privado que, por sua vez, foi assessorado por ex-integrantes do governo anterior e do atual, pagos a título de "consultoria".

O GLOBO: Mas não houve quarentena?

SAUER - Nos negócios normais do capitalismo, quando uma empresa subtrai de outra núcleos estratégicos do conhecimento, as pessoas ficam impedidas de trabalhar, em quarentena técnica ou legal. Neste caso, a presidenta do Conselho de Administração da Petrobras, sabendo que o núcleo estratégico foi retirado, não fez nada e ainda manteve o leilão. Recrutaram a equipe em meados de 2007 e, em novembro, compraram os blocos. Em julho do ano seguinte, venderam 38% de seu capital por R$ 6,7 bilhões. E, desde ano passado, vem anunciando descobertas, confirmando tudo aquilo que nós já dizíamos sobre aquelas áreas, que eram promissoras. Já anunciaram de 2,6 a 5,5 bilhões de barris. Em valor de mercado, em torno de R$ 50 a R$ 80 bilhões, valor maior que a capitalização da Petrobras. Fora esses barris entregues ao Eike Batista, há tantos outros entregues durante os anos. O governo Lula leiloou mais blocos sobre o pré-sal e verteu por mais tempo o modelo inventado pelo FH do que o FH. FH começou a leiloar em 2000, fez 4 rodadas. Lula leiloou 6, dos quais cinco tinham blocos sobre o pré-sal.

O GLOBO: Ou seja, eram blocos que abrangiam áreas onde depois foi confirmado o pré-sal?

SAUER - Em 2006 e 2007 eles continuaram fazendo de conta que era pós-sal, mas já sabiam que o pré-sal estava lá. E o governo sabia sim. Em 10 de julho de 2007 é a comunicação formal, carimbada e juramentada de que o sal foi furado e o petróleo foi encontrado. Mas, politicamente, eu sei que o presidente da Petrobras, meu colega, porque fui diretor também, comunicou tanto a presidenta do conselho quanto o presidente da República. Minha perplexidade desde então está baseada na entrega do petróleo do Arco do Cabo Frio. Foi um dos maiores enriquecimentos individuais da história do capitalismo. Agora, o detentor desse patrimônio ainda é visto como figura benemérita ao fazer filantropia, por exemplo, comprando em leilão o terno de posse do presidente da República. Para quem ganhou tantos bilhões tão facilmente, é uma migalha. Por isso eu tomei a peito, mesmo correndo todos os riscos, de contar essa história publicamente, para que isso seja debatido antes das eleições.

O GLOBO: O que Dilma argumentava para manter esses leilões?

SAUER - Ela não dizia nada porque não dava explicação, apenas mandava. Em algumas reuniões, ela costumava dizer que a Petrobras tentava enganar o presidente. Era frase costumeira dela: "Presidente, a Petrobras está te enganando, não acredite na Petrobras. A Petrobras pensa primeiro nela e depois no povo brasileiro". Agora, eu espero que ela tenha se convertido para sempre e, se for eleita, não tenha uma recaída.

O GLOBO: O sr. teme ser acusado de estar participando de uma manobra eleitoral?

SAUER - Eu não estou fazendo campanha, estou relatando fatos e quero explicações. Minha contribuição é para cobrar dos dois candidatos uma explicação sobre o que fizeram no passado e um compromisso de transparência e ética. Durante a transição, entre FH e Lula, houve a promessa de que os leilões seriam suspensos e o modelo seria revisto. Não foi até agora e o governo exerceu muito mais o modelo. O modelo novo proposto também não serve porque apenas obriga a Petrobras a ser operadora, o que reduz o risco para os outros e a coloca a serviço do capital estrangeiro. No projeto proposto, quem decide quanto petróleo vai ser leiloado e quando, além da participação da Petrobras, é o Conselho Nacional de Política Energética, inteiramente nomeado pelo presidente. Ou seja, em última instância, a decisão é do presidente.