Adelson Elias Vasconcellos
Não sei quem vai ganhar a eleição presidencial e digo isto desde muito antes da realização, em 03 de outubro, da eleição em primeiro turno. Mas, claro, tem gente que diz o contrário. É o caso dos institutos pesquisas, devidamente remunerados para dar e oferecer aos seus clientes notícias frescas e boas.
Há, ainda, aquele grupo de analistas que mais fazem torcida do que propriamente a leitura de uma tendência provisória e, ainda assim, empregando metodologias já provadas, no tempo, serem inconclusivas e destoantes da realidade. Às vezes, e só às vezes, a torcida dá certo, e os profetas do povo, se imaginam deuses. Louvam-se a si mesmo. Contudo, quando erram, e quase sempre é isto que ocorre, sempre encontram uma desculpa para justificarem seus erros: não raro, o culpado é o eleitor, que não quis seguir os prognósticos do analista ou das pesquisas.
Meses antes de se colocar o primeiro voto na urna, no primeiro turno, Carlos Montenegro, o profeta do IBOPE, já declarava: o Brasil já tem uma nova presidente, é Dilma. O resultado final é por todos conhecido: TODOS os institutos erraram, e erraram feio, inclusive, claro, o IBOPE do profeta Montenegro .
Mas por que as pesquisas, no Brasil, são consideradas tão decisivas? Ocorre que num país onde a informação qualificada ainda é privilégio de poucos, cerca de 15%, se tanto, onde a maioria dos que não se informam também não tem acesso à cultura e não leem absolutamente nada, a inserção nos noticiários da tevê das “últimas pesquisas” dia e noite, acaba induzindo os menos esclarecidos na base do “se a maioria quer, eu também quero”. Como os métodos que as pesquisas empregam estão ultrapassados, acaba-se plantando uma falsa informação que, por sua vez, se transforma em ondas ou correntes.
Assim, hoje, para a grande maioria, Dilma já estaria eleita, faltando apenas combinar com o eleitor, cujo pronunciamento final se dará apenas no domingo, dia 31. Mas, ainda assim, se tomarmos por base que Dilma tenha lá, hoje, segundo o Datafolha, 56% dos votos válidos, e Serra tenha 44%, seriam estupendos 60,0 milhões de votos de oposição à Dilma, ou cerca de 1/5 da população total . Ora, esta grandeza não é desprezível, e representa dizer que, a par do índice de popularidade de Lula, sua escolhida foi refugada por grande parte do eleitorado que aprova o demiurgo.
Portanto, se Dilma vencer, terá que governar para estes 60 milhões, também, a menos que o governo “expulse” toda esta população para fora de nossas fronteiras.
Há duas características básicas e determinantes para se identificar a existência ou não da plena democracia num país: a liberdade de imprensa e a existência da oposição. Ambas é que validam a democracia, e não a maioria de uma eleição. Países totalitários não tem oposição. Ou foram mortos ou estão presos. Uma terceira alternativa: ou se exilaram. Assim, quando Lula fala em exterminar a oposição, ou quando se opõem de forma furiosa em relação aos que lhe são contrários, chamando-os de mau caráter ou que são do “contra”, tirando-se a bravata tão natural do "cara", o que sobra é sim um espírito tirânico, ditatorial. Não lhe ocorre, por exemplo, que se oposição ao governo e não ao país. Lula ao se comportar de forma tão destemperada, esquece que nem todos se comportam como ele e seu partido ao tempo em que foram oposição. Lá, o que se viu não foi uma oposição civilizada e responsável: foi uma oposição odiosa e contra o país, já que se negou apoio para o que era certo, e se sabotou todas as iniciativas para se corrigir os erros.
Quando renega de forma cafajeste as gestões que o antecederão na presidência da república, comete dois crimes: um, o histórico, já que o Brasil não nasceu com a sua chegada ao poder. E dois, um crime de calúnia pessoal, por negar ao antecessores o mérito de terem construído o país que somos hoje. Sua constante oposição à FHC é uma daquelas notáveis patologias que só a psicologia pode explicar.
No artigo Programas sociais e desemprego: fantasias, realidades e necessidades, publicado aqui no domingo, dia 24, vimos que cerca de ¼ dos jovens com idade entre 18 e 20 anos nem trabalha nem estuda. Há várias explicações para este fenômeno mas, por certo, as políticas públicas atuais estão em total desarmonia com as necessidades dos nossos jovens. E após 8 anos de governo Lula , este resultado desastroso pertence a Lula e somente a ele. Não se trata de herança de ninguém, como ele poderia querer apregoar. E a maior parte deste contingente nem-nem se deve a constante ideologização da falta de cultura de Lula, cantada em verso e prosa por ele mesmo, transmitindo uma desinformação que acaba influenciando as escolhas da juventude. Ora, se o presidente é semi-analfabeto e é o "cara", “vou estudar e trabalhar prá quê?”, é o que mais se ouve. Assim, é o próprio Lula, na sua auto-louvação, quem agrega à juventude este pouco caso com sua própria formação. Resultado: dentro de 20 anos, a persistirem neste descaminho, o que se pode esperar desta geração em termos de destinos do país? Senhores, boa coisa é que não é, infelizmente.
Portanto, independente de quem vença domingo próximo, entendo que o primeiro passo a ser dado seria mudar o pensamento destes jovens para que passem a dar maior importância à sua formação e qualificação. O país já vive um apagão de mão de obra qualificada, apesar da quantidade de jovens disponíveis para o trabalho, mas que não conseguem se inserir no mercado de trabalho de forma competitiva por absoluta falta de qualificação, além da má formação intelectual, fruto de um sistema de ensino capenga e superado. Concorrem, ainda, este clima de impunidade e permissividade vinda de cima para baixo. Quando a elite política do país, que deveria servir de modelo e fio condutor, falece em questões e valores morais, a sociedade toda absorve esta cultura disforme e deturpada e adota os desvios como costume em suas relações.
Se de uma lado, louva-se o governo Lula pela manutenção do projeto econômico implementado por Fernando Henrique, que conquistou a estabilidade e tirou o país da estagnação em que se encontrava, além de haver aprofundado as políticas sociais (apesar de Lula haver retirado as pontes para a pessoa se libertar do assistencialismo e se auto determinar), por outro lado, é de se lamentar o retrocesso institucional e a difusão da cultura do menor esforço ou do esforço nenhum. E mudar esta cultura exigirá além de muita paciência, um enorme sacrifício de parte de toda a sociedade no sentido de recuperar estes 24,1 % de jovens desencaminhados. E o caminho de volta se inicia por colocar os mais de 40% de jovens de volta às escolas, na faixa de 15 a 17 anos, e que se encontram fora do ensino médio. É inadmissível, sob qualquer ângulo que se queira olhar, que, num período de apenas 2 anos, de 2007 a 2009, as matrículas no ensino médio tenham recuado de mais de 3,4 milhões para algo em torno de 2,2 milhões.
Sem paixões ideológicas e sentimentalismos debiloides, alguém precisa se debruçar em regime de urgência sobre esta questão para avaliar aonde o bicho tá pegando. Do contrário, estaremos condenando o próprio futuro do país, com uma geração sem formação intelectual básica e sem qualificação profissional adequada para gerir os destinos da nação.
E não há como negar: é preciso que, sendo Dilma ou Serra, se revejam as políticas sociais criadas para a juventude, situada na idade de 15 a 20 anos, porque está faltando o adequado estímulo para que eles passem a se preocuparem consigo próprios. E não se tratam de bolsas isto ou aquilo, ou pro-jovem, prouni ou Enem: está faltando o estímulo que só a premiação pelo mérito é capaz de impulsionar os indivíduos. Está faltando ensiná-los a pescar e competirem entre si. Por enquanto, recebendo tudo de mão beijada como está sendo feito, sem dúvida, jamais se estimularão a se desenvolverem por seus próprios esforços e méritos.
Talvez estes 60 milhões de votos contrários à Dilma, seja o recado necessário para que, se eleita, não insista em dar continuidade às políticas atuais destinadas aos jovens, seja no campo social ou educacional, que, como vimos, estão na contramão das necessidades do país. E a mudança precisa ser feita é agora, não podemos esperar mais. Os percentuais do analfabetismo funcional já atingiram o limite do suportável e pagamos alto preço por isso. Não podemos continuar apostando, portanto, em incentivar que eles continuem, permaneçam e até se elevem ainda mais. Muito embora até gostaria de acreditar ser possível Dilma mudar esta rota, lamento constatar que é justamente esta sistemática política de desinformação e anti-cultura, que seu partido mais aposta para se manter no poder. E por que digo isto? É bastante constatar que a geração nem-nem, em oito anos de Lula, jamais deixou de crescer. E Dilma não tem nem estofo moral quanto mais político para interferir e tentar mudar o rumo do que está sendo feito.