segunda-feira, dezembro 13, 2010

Para acabar com a pobreza é preciso mudar o Bolsa Família

Adelson Elias Vasconcellos

Parece que Dona Dilma não entendeu ainda o que é programa social.

O jornal O Globo informou que a presidente eleita, Dilma Rousseff, vai criar uma linha oficial de pobreza para ampliar a política social do governo, que terá crianças, regiões metropolitanas e comunidades isoladas como focos, agora que o governo Lula considera cumprida a missão de atender a pobreza "clássica" do Norte/Nordeste.

A linha ajudará a calcular o custo para acabar com a pobreza no país, inicialmente estimado entre R$ 9 bilhões e R$ 21,7 bilhões por ano. Esse é o principal nó para a presidente eleita cumprir sua principal promessa de campanha.

A equipe de transição já começou a fazer os cálculos do custo dessas políticas para os cofres públicos.

Tudo vai depender do critério adotado para definir quem são e quanto ganham essas pessoas. Essa, segundo especialistas, é uma escolha política. Quanto mais alta a linha estipulada pelo governo, mais recursos deverão ser desembolsados para garantir o piso mínimo de renda das famílias para tirá-las da extrema pobreza.

Se a linha de pobreza escolhida fosse de R$ 145 (como a usada pela Fundação Getulio Vargas), o custo seria de R$ 21,7 bilhões. Mas, se for mais generosa para garantir, por exemplo, que todos recebam salário mínimo todo mês, o déficit passaria a R$ 314 bilhões/ano.

Identificar esse número sempre foi um dos maiores problemas para reduzir desigualdades no país.

Somente com essa conta em mãos, o governo poderá buscar fontes para financiar a iniciativa. Integrantes da equipe de transição estimam que, mantidos os 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) que o governo gasta com o Bolsa Família anualmente, o custo do programa deva subir R$ 7 bilhões nos quatro anos de governo Dilma, valor baixo para os seus resultados.

Estima-se em 28,8 milhões o universo de pessoas que poderiam ser consideradas miseráveis no país, segundo os critérios da Fundação Getulio Vargas. Em 2003, eram 49 milhões.

Alagoas é o estado com maior proporção de miseráveis do país em relação à sua população (34,96%), sendo seguido pelo Maranhão (31,49%).

A pergunta que faço é a seguinte: programa social sério é só isso? Distribuir dinheiro para os mais necessitados? Será que o dinheiro não deveria ser apenas uma ajuda temporária, uma complementação à uma série imensa de outras medidas visando não apenas a inserção do cidadão no mercado de consumo, mas também dar-lhe oportunidades de poder andar com suas próprias pernas e fazer suas próprias escolhas?

Está provado que dinheiro só não basta, pela simples constatação, conforme informamos aqui, haver 40% de beneficiários do Bolsa Família situados na condição de miseráveis, e olhe que o programa já existe, na versão lulista, há oito anos praticamente e, nem por isso, permitiu que 40% emergissem para uma posição social um pouco melhor. .

Outras constatações preocupantes e que vem ocorrendo há mais tempo, e que aqui já fizemos referência: muitos beneficiários se negam, simplesmente, quando conseguem empregos, mesmo que temporários, em permitir a assinatura de suas carteiras de trabalho pelo temor de perderem o benefício. Outros, sequer se interessam em buscar colocação no mercado de trabalho por simples acomodação, já que não há prazo de validade para a concessão do benefício, ao contrário, por exemplo, do que acontece com o seguro desemprego.

Se dona Dilma imagina que a pobreza seja apenas uma questão monetária, creio que quebrará a cara e não resolverá o problema. Se não houver programas de saúde pública com acompanhamento obrigatório, orientação psicossocial, programa de qualificação e formação profissional mesmo que em nível primário, programas de complementação educacional para permitir que os beneficiários ao menos consigam ler e entender um simples e executar cálculos matemáticos elementares, inclusive programas em parcerias com prefeituras e estados para melhorias da infraestrutura urbana onde o aproveitamento da mão de obra seja prioritariamente de beneficiários do programa Bolsa Família, além de intenso investimento em saneamento básico nas áreas mais críticas, além de maior presença do Estado na área de serviços como segurança, energia elétrica, ambulatórios, escolas, transporte público, nas áreas mais carentes, podem aumentar o valor do benefício o quanto quiserem, e dentro de alguns anos, as estatísticas mostrarão um quadro semelhante ao atual. Pouca coisa terá mudado.

Não é apenas o Estado quem deve prover as famílias mais necessitadas. Se de uma lado o Estado comparece com a oferta de oportunidades para que os mais carentes ao menos sobrevivam e tenham condições de saírem de suas situações miseráveis, por outro, é imperioso que cada pessoa em particular seja condicionada a buscar sua própria melhoria individual. Do contrário, condicionada-se o cidadão a se acomodar às custas da sociedade, e não buscar por seus próprios meios melhorar sua condição.

Com tais providências e programas complementares, aí sim, se estará diante de uma verdadeira situação favorável a se acabar com a miséria extrema do país. E, antes de tudo, o correto investimento em educação de qualidade é primordial para colocar-se um freio definitivo na perenização da pobreza. Do contrário, ela tende a se tornar crônica e sem solução. E o que é pior: a um custo inútil, já que o benefício unicamente monetário, dá às pessoas apenas condições de não morrerem de fome. E isto, senhores, nãoé programa social, é uma esmola patrimonialista, com propósito exclusivamente eleitoreiro.

Não é a primeira vez que focamos programa social da forma como acima indicamos. Vale repetir que não somos contrários ao Bolsa Família; o que não concordamos é com sua condução, sem metas, sem acompanhamento, sem estatísticas, sem a busca de qualificar o indivíduo para se prover a si mesmo em melhores condições de formação tanto pessoal quanto profissional. Precisamos de mais pessoas produtivas, que também gerem riqueza pelo seu trabalho. Se as oportunidades existentes estão fora do alcance destes cidadãos por terem eles formação adequada às exigências e necessidades do mercado, por que não qualificá-los, orientá-los e encaminhá-los para andar por si mesmos em melhores condições e qualidade de vida ?

Para encerrar, abaixo reproduzimos texto de Johanna Nublat e Lula Marques para a Folha de São Paulo, em que se narra como três famílias de catadores, que moravam em barracos perto do Palácio do Planalto, em Brasília, ascenderam à dita classe média. Detalhe: sem a ajuda do governo. Isto prova que o “vencer” na vida, não é obra apenas de se distribuir bolsa na forma de ajuda pecuniária para os mais necessitados. É preciso que cada um tenha a determinação de, por si mesmo, sair de sua condição de pobreza. Compete ao Estado dar a estes indivíduos oportunidades de conseguirem. Mas a eles compete o principal: o esforço pessoal que os move na direção certa de se tornarem cidadãos úteis à sociedade, e principalmente, úteis a si mesmos.

Segue o texto da Folha para que todos possamos refletir sobre a direção do Bolsa Família que, entendo, precisa ter sua condução corrigida. Sugestões, apresentamos acima algumas, e creio que devam ter outras opções melhores em termos de resultados. Se é, de fato, com a pobreza extrema que se pretende acabar, a hora de avançar é esta. Afinal, a eleição já passou...

A classe C mora ao lado

Geovânia Silva tinha acabado de fazer um ano quando o migrante nordestino e ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência e virou seu vizinho.

Enquanto Lula se instalava no Alvorada, ela vivia com a família num barraco de lona a poucos metros dali.

Desnutrida, pesando o equivalente a um bebê de quatro meses, Geovânia integrava uma das 50 famílias de catadores de lixo que moravam no meio do mato.

Reportagem da Folha de janeiro de 2003 mostrou a situação precária de quatro dessas famílias. Não comiam frutas ou verduras, o feijão era "ralo", a carne se resumia a costela uma vez na semana.

Sete anos e oito meses depois, a Folha voltou a procurá-las. Três deixaram para trás a renda média de R$ 500 e ascenderam à nova classe média ou estão no limiar.

Durante os mandatos de Lula, mas sem ajuda direta do governo, as três famílias fizeram parte do movimento que levou 29 milhões de pessoas a subir à classe C entre 2003 e 2009, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas.

Essa nova classe média abarca agora 50,5% da população e reúne famílias com uma renda domiciliar entre R$ 1.126 e R$ 4.854 mensais, com variações relacionadas ao número de dependentes.

A quarta família recebe há cerca de sete anos o Bolsa Família (que varia de R$ 22 a R$ 200) e deixou há um mês o mato para viver no terreno de um parente com a renda do benefício e de bicos.

"Nós tiramos" X milhões da pobreza (ou miséria) "e elevamos" Y milhões à classe média, repete, desde os tempos de candidata, a presidente eleita, Dilma Rousseff.

A ascensão social não é apresentada como mérito dos indivíduos, mas como feito dos governantes.

X e Y variam conforme o estudo mais recente ou conveniente a ser citado. O debate sobre a pobreza permanece contaminado por escassez de diagnósticos e por sobra de oportunismo político.

A pobreza do debate começa pela inexistência de uma base estatística sólida sobre o tema -elaborada com metodologia transparente, atualizada com regularidade e capaz de abarcar uma série histórica longa.

Restam trabalhos isolados, ainda que meritórios, produzidos por meia dúzia de economistas especializados, com variadas definições do que seria um pobre, um miserável ou um cidadão de classe média.

Falta de respeito

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara 

A exploração estatal do erotismo é característica inconfundível dos regimes totalitários e revolucionários.

Por que devemos consentir em continuar chamando de "Sua Excelência, o Senhor Ministro da Educação" um semianalfabeto que não sabe sequer soletrar a palavra "cabeçalho"? Por que devemos continuar adornando com o título de "Sua Excelência, o Senhor Ministro da Defesa" um civil bocó que se fantasia de general sem nem saber que com isso comete ilegalidade? Por que devemos honrar sob a denominação de "Sua Excelência, o Senhor Ministro da Cultura" um pateta sem cultura nenhuma? Por que devemos curvar-nos ante a magnificência presidencial de um pervertido que se gaba de ter tentado estuprar um companheiro de cela e diz sentir nostalgia do tempo em que os meninos do Nordeste tinham - se é que tinham - relações sexuais com cabritas e jumentas?

Essas criaturas, é certo, têm o direito legal a formas de tratamento que as elevam acima do comum dos mortais, mas até quando nossos nervos suportarão o exercício supremamente antinatural e doentio de fingir respeito a pessoas que não merecem respeito nenhum, que só emporcalham com suas presenças grotescas os cargos que ocupam? Respeito, afinal de contas, é noção hierárquica: sem o senso da distinção entre o melhor e o pior, o alto e o baixo, o excelso e o vulgar, não há respeito possível.

Nietzsche já observava: Quem não sabe desprezar não sabe respeitar. Se um sujeito que só merece desprezo aparece envergando um uniforme, ostentando um título, exibindo um crachá que o diz merecedor de respeito, estamos obviamente sofrendo uma agressão psicológica, um ataque de estimulação contraditória, ou dissonância cognitiva, que esfrangalha o cérebro mais vigoroso e reduz ao estado de cãezinhos de Pavlov as mentes mais lúcidas e equilibradas.

Um povo submetido a esse regime perde todo senso de gradação valorativa, todo discernimento moral. Prolongado o tratamento para além de um certo ponto, a sociedade entra num estado de desmoralização completa, de apatia, de indiferentismo, onde só os mais cínicos e desavergonhados podem sobreviver e prosperar.

Mas não é só nas pessoas que o encarnam que o presente governo é uma usina de estimulações desmoralizantes. Impondo a sodomia como o mais sacrossanto e incriticável dos atos, as invasões de terras como modalidade superior de justiça fundiária, o abortismo como dever de caridade cristã, a distribuição de pornografia às crianças como alta obrigação pedagógica, Suas Excrescências estão fazendo o que podem para sufocar, na alma do povo brasileiro, toda capacidade de distinguir entre o bem e o mal e até a vontade de perceber essa distinção.

Nunca, na história de país nenhum, se viu uma degradação moral tão rápida, tão geral e avassaladora. Os crimes mais hediondos, as traições mais flagrantes, os escândalos mais intoleráveis são aceitos por toda parte não só com indiferença, mas com um risinho de cumplicidade cínica que, nesse ambiente, vale como prova de realismo e maturidade.

Em cima de tudo, posam as personalidades mais feias e disformes, ante as quais mesmo homens sem interesses obscuros em jogo se sentem obrigados a debulhar-se em louvores e rapapés.

Num panorama tão abjeto, destacam-se quase como um ato de heroísmo as manifestações de desrespeito ostensivo com que os estudantes da Universidade de Brasília saudaram, na inauguração do "beijódromo", o presidente da República, seu ministro da Incultura e o reitor José Geraldo Souza Júnior.

Que é um "beijódromo", afinal? Ideia suína concebida na década de 60 por Darci Ribeiro, um dos intelectuais mais festeiros e irresponsáveis que já nasceram neste País, então deslumbrado com a doutrina marcusiana da gandaia geral como arma da revolução comunista, o "beijódromo" é um estímulo à transformação da universidade em espaço lúdico-erótico onde um governo de vigaristas possa obter ganhos publicitários explorando calhordamente os instintos lúbricos da população estudantil, assim desviada dos deveres mais óbvios que tem para consigo mesma e para com o País.

Meu caro amigo Reinaldo Azevedo assim resumiu o caso: "Um estado totalitário reprime o tesão. Um estado demagogo o estatiza." Peço vênia para discordar. Excetuados os países islâmicos, só alguns regimes autoritários, de natureza transitória, ousaram impor a repressão sexual.

A exploração estatal do erotismo é característica inconfundível dos regimes totalitários e revolucionários. Quem tenha dúvida fará bem em percorrer as 650 páginas do estudo magistral de E. Michael Jones, Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control (St. Augustine's Press, 2000). O "beijódromo" é a cristalização mais patente de um totalitarismo em gestação.

Os gritos e insultos com que Lula foi recebido por estudantes que querem algo mais que pão, circo e orgasmo refletem um fundo de sanidade que ainda resta na alma popular: nem todos os cérebros, neste País, estão perfeitamente adestrados na arte de bajular o que não presta.

Esse protesto impremeditado, espontâneo, sem cor ideológica definida, traz a todos os brasileiros a mais urgente das mensagens: no estado de degradação pomposa a que chegamos, só uma vigorosa falta de respeito pode nos salvar.

Uma ajuda à concorrência

J.R. Guzzo, Revista Exame

O Brasil virou um país caro. O Real forte trouxe de volta o medo da desnacionalização – e o governo, com sua ânsia de cobrar mais impostos, joga a favor da competição estrangeira.

Até onde, nas condições cada vez mais ásperas que vigoram neste momento na economia mundial, com os países correndo para a utilização de armamento cambial pesado e se fechando nas trincheiras do protecionismo, o Brasil tem musculatura para competir a sério no comércio internacional? A questão é decisiva e urgente. Com reservas de quase 300 bilhões de dólares e anos seguidos de expansão nas vendas externas, o país se acostumou nesta última década, provavelmente pela primeira vez na sua história econômica, a viver sem problemas no balanço de pagamento. Mas os fatos recentes começam a contar uma outra história. O fortalecimento contínuo do real diante do dólar, e sua teimosa resistência a todas as tentativas feitas até agora para torná-lo mais barato – ou pelo menos para evitar que continue aumentando de preço – levou a moeda nacional a níveis perigosamente caros. Sem a adoção de nenhuma providência, durante este tempo todo, para reduzir custos de produção e compensar a apreciação cambial, o que o Brasil tem para vender lá fora foi ficando com preços cada vez mais altos. O resultado inevitável disso já apareceu, claramente, nos números da balança comercial. Os saldos pujantes do passado foram emagrecendo e hoje têm diante de si a perspectiva de se transformar em déficit. Os problemas não aparecem apenas lá fora, onde as empresas brasileiras encontram dificuldades crescentes para exportar seus produtos, perdem clientes e se veem ejetadas de mercados até recentemente promissores. O câmbio desfavorável também causa perdas e danos aqui dentro, sobretudo na indústria – que vê competidores estrangeiros, cada vez mais, disputar com sucesso o mercado interno de consumo. Não são poucas as empresas brasileiras que já começam a sofrer ferimentos sérios nas vendas ou se veem forçadas a reduzir a margem de lucro para manter-se à tona. Em certos setores, a palavra “desindustrialização”, feia de escrever e mais feia de se sentir, entrou na conversa do dia a dia. Não se trata mais da China apenas – bons tempos, aliás, em que o problema se resumia basicamente à China. O que se tem pela frente, agora, é a concorrência de países ricos, fortes em qualidade de produtos, em tecnologia, em produtividade, em logística – a começar pelos Estados Unidos, onde vai se tornando cada vez mais difícil encontrar alguma coisa mais cara do que no Brasil. (Como observou o ex-Ministro Delfim Neto, num artigo recente para a Folha de São Paulo, com o dólar a 1,60 já vai ser negócio importar etanol dos Estados Unidos). É artigo de fé, no pensamento economicamente correto, que a economia americana não existe mais; seu sistema de produção tornou-se uma ruína, destruído pelas contradições do capitalismo, etc. Eis aqui uma boa oportunidade de verificarmos se é isso mesmo.

O bom desempenho de um país no comércio exterior e na defesa de seu mercado interno não depende só do câmbio, é claro – há outros fatores com peso importante na composição do preço de um produto e, de qualquer forma, não basta ter preço bom para competir com sucesso. Mas, mesmo que dependesse, não existem, infelizmente, ideias geniais à disposição dos ministros de Economia para que possam encontrar a taxa de câmbio ideal. O governo atual não conseguiu achá-la; o próximo também não conseguirá, como não conseguiram os governos anteriores. A saída possível está em ganhar competitividade para os produtos brasileiros agindo sobre os outros elementos, além do câmbio, que encarecem o seu custo – e, no Brasil de hoje, há um mundo de oportunidades a explorar para que se consiga reduzir os preços finais de praticamente tudo que é colocado à venda. Os sinais que temos aí, porém, não animam ninguém. Nada excita tanto os governos brasileiros quanto aumentar impostos, dentro da teoria geral de que, para tornar-se um país rico no futuro, o Brasil tem de ter o máximo de impostos agora. É o que há de melhor para ajudar a competição estrangeira.

O Estado aumenta a desigualdade

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Se oferecer boa educação a todos, o Estado iguala oportunidades mas, no Brasil, a escola pública desiguala os desiguais.

Maílson da Nóbrega nasceu em 1942, no interior na Paraíba, em Cruz do Espírito Santo. Seu pai era alfaiate - e não é difícil perceber como devia ser duro ganhar a vida costurando roupas numa pobre cidade de 2 mil habitantes, sobretudo tendo dez filhos para criar.

Pois foi de lá mesmo que Maílson saiu para se tornar ministro da Fazenda, em 1987. Como? Começou com educação. Por sorte, seus pais davam importância ao estudo. Por sorte, ainda, havia na cidade uma boa e dedicada professora de primário. Assim, Maílson ia para a escola de manhã e passava as tardes fazendo lição e tomando aulas particulares.

Foi levando nessa toada - estudo! - até passar no concurso para o Banco do Brasil, em 1963. Na época, a prova incluía, além de português, matemática, contabilidade e datilografia, testes de inglês e francês. Daí em diante, foi mais natural. A carreira no Banco levou-o à direção, no Rio, e aos ministérios da área econômica. Já em Brasília, arranjou um tempinho para fazer faculdade de economia.

A história - relatada na sua autobiografia, “Além do feijão com arroz”, editora Civilização Brasileira - é uma demonstração de como a educação tem duas funções: uma, a de igualar as oportunidades outra, de permitir o avanço pessoal.

No regime capitalista, a desigualdade é inevitável, mas ao final das histórias. Como funciona pelo mérito, pela capacidade de empreender, pelo trabalho duro e eficiente, pelas ideias inovadoras, pelo talento, o capitalismo premia os mais bem sucedidos. Alguns vão ganhar mais, outros ficarão pelo caminho.

O Estado pode reparar algumas situações dramáticas - atendendo, por exemplo, os muito pobres - ou ainda oferecer condições básicas de vida, mas não tem como igualar a renda, a riqueza e o bem estar das pessoas.

O melhor que o Estado pode fazer está na partida, no início da vida das pessoas, na preparação para a atividade profissional. Pode igualar as oportunidades ou chegar muito perto nisso. Ou, inversamente, quando falha, pode ser a causa de mais desigualdade.

No Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), testes aplicados a estudantes de 15 anos de 65 países, os brasileiros conseguiram notas melhores na prova de 2009, cujos resultados foram divulgados nesta semana. Mas, olhando mais de perto, levando-se em conta a renda familiar dos alunos, a realidade é triste: melhoram os nossos alunos mais ricos os mais pobres ficaram no mesmo lugar.

Ou seja, os mais pobres já chegam à escola em desvantagem. E o sistema educacional amplia essa desigualdade ao longo dos anos. Considerando que estamos em plena era do conhecimento, o desastre não poderia ser maior.

A escola pública fundamental e média, no conjunto da obra, não cumpre suas funções, senão muito parcialmente. Há unidades boas aqui e ali, e são essas que permitem as sortes como a de Maílson.

A falha é de políticas públicas, para usar expressão tão utilizada por aqui e tão mal utilizada. Oferecer igualdade na partida é uma função essencial do Estado - todos dizem isso. Mas quando se olha para os orçamentos públicos, como nota Ilona Becskeházy, diretora da Fundação Lemann, apenas 3% do gasto total vai para educação e cultura. É claramente insuficiente. Demonstra que a prioridade para a educação é apenas retórica.

Como o governo arrecada um monte de impostos, a conclusão é óbvia: não falta dinheiro, falta gastar de acordo com as reais prioridades.

De uns tempos para cá, ganhou nova força a tese de que o Estado tem mesmo que gastar para acelerar a economia e aplicar programas sociais. Ora, ninguém é contra isso. A questão é: quanto gastar? Onde? E isso considerando-se que o dinheiro não é infinito.

O que faz mais sentido, gastar com escola ou subsidiar frigoríficos? É, sim, o mesmo dinheiro público.

O Brasil passa por um bom momento. O sentimento é positivo nos diversos setores da economia privada. Mas quais são as principais queixas que a gente ouve pelo país todo? Onde estão os obstáculos a uma atividade ainda mais forte?

Nas coisas do governo. Uma empresa atacadista do Nordeste, que distribui remédios pelas cidades do interior, reclama das estradas, da falta de segurança, dos aeroportos e do horror que é lidar com o ICMS de cada estado.

O agronegócio exportador reclama das estradas, dos portos e dos impostos embutidos na cadeia de produção.

Pessoal dos bancos mostra como impostos mal aplicados - como o IOF sobre apólices de seguro, pago adiantadamente - encarece e burocratiza, com custos, as operações financeiras.

Luiz Helena Trajano, do Magazine Luiza, mostra como mesmo ideias boas, como a substituição tributária, que combate a informalidade, acabam se transformando em infernos burocráticos.

Tudo considerado, proponho de novo a tese liberal: que o Estado cumpra a função de igualar as oportunidades - boa escola para todos, saúde básica, segurança para todos - que gaste muito dinheiro nisso, que pague bem os profissionais desses serviços, e deixe o resto, inclusive portos, aeroportos e estradas, para a iniciativa privada. E facilite a vida de quem quer fazer negócios honestamente.

Que pena...

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa -

Nunca tive intenção de votar em Dilma Rousseff para presidente da República. Nem em seu oponente. Pela primeira vez em minha vida, ia anular ou votar em branco. Ou não votar, como a Lei me faculta, pela idade.

O modo como agiu o presidente Lula: a escolha, a imposição, o uso da máquina do governo, o desrespeito com todas as instituições republicanas, o pouco caso com seu próprio partido; o abandono de suas funções para palanquear pelo Brasil, as inaugurações de mentirinha, os gritos, o destempero, a grosseria, o rótulo de bobocas que ele pregou em todos os brasileiros; a quebra de todos os parâmetros de comportamento condizente com o cargo que ocupará até 31 de dezembro deste ano, tudo isso dava muita vontade de ver sua candidata derrotada.

A tal da continuidade apresentada como bênção, prêmio, troféu.

O desespero, a angústia que ele demonstrava à simples possibilidade de não vencer; a tática perversa de jogar brasileiros contra brasileiros, foram a gota d’ água e resolvi votar em José Serra. Mas não votava com o coração, essa é a verdade.

Durante toda a campanha a impressão que mais me marcou foi essa: se Dilma Rousseff não vence, Lula morre.

Por quê? Habituado a perder eleições, com toda a certeza as suas derrotas deveriam doer mais nele do que a derrota de sua candidata. Parecia, no entanto, e continuo a pensar assim, que a derrota de dona Dilma lhe seria fatal, ao passo que as suas não foram...

Mas isso são águas passadas. Ainda movem moinhos, ao contrário do que diz o ditado, mas são passadas e quase que um passado distante, de tão rápido gira o mundo ultimamente.

Daqui a poucos dias ele será ex-presidente e a presidente do Brasil será Dilma Vana Rousseff. Com a caneta na mão.

Esse é o dado concreto. Ciao, Lula.

Agora, a confissão: ao ler um artigo aqui postado em 8 de novembro, escrito por Luiz Cláudio Cunha, Dilma: a tortura julgada, a anistia sangrada, balancei. Sempre soube que Dilma Rousseff fora presa e torturada, aliás, o que é curioso é que ela lutou por motivos que a mim também horrorizavam, a ditadura e todo seu buquê de crimes.

Porém sempre tive mais admiração pelos que lutaram com palavras, pelos que não usaram da mesma violência dos militares, até porque estou convencida que violência gera violência, brutalidade gera brutalidade. Além de não ser do estofo dos que lutaram, é preciso dizer.

Mas nunca tinha lido o que o artigo de Luiz Cláudio Cunha me fez ler: “Levei muita palmatória, me botaram no pau-de-arara, me deram choque, muito choque. Comecei a ter hemorragia, mas eu aguentei. Não disse nem onde morava. Um dia, tive uma hemorragia muito grande, hemorragia mesmo, como menstruação. Tiveram que me levar para o Hospital Central do Exército. Lá encontrei uma menina da ALN (Ação Libertadora Nacional): ‘Pula um pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar pra Oban’, me aconselhou ela”.

(...) Dilma contou na Justiça Militar que perguntou aos emissários da Oban se eles estavam autorizados pelo Poder Judiciário. A resposta do militar resumia o deboche daqueles tempos: “Você vai ver o que é o juiz lá na Oban!...”

Pois li e pensei, ainda emocionada com o que acabara de ler: quem sabe essa mulher forte, sofrida, curtida pela dor, não vai, de modo calmo e paciente, fazer ver ao Lula que de ora em diante tudo vai ser diferente? Que a continuidade é impossível?

Quando ela apareceu muito rapidamente, já sem a máscara da campanha, com a cara de sua idade, os olhos mostrando que ali estava não uma Barbie plastificada, que foi no que a transformaram para vencer, mas uma mulher de 60 anos, vivida e resistente, passei a imaginar o que rapidamente está se transformando em mais uma miragem.

Ela está recolhida para estudar, tomar as melhores decisões, imaginei.

Assim pensei até a semana passada. Qual o que... Além do presidente boquirroto pintar e bordar, mandar e desmandar, não "desencarnar", as duas áreas mais importantes, Saúde e Educação, que eu jurava seriam, depois dos tais ministros da casa, a primeira providência da presidente-eleita, ainda estão no limbo e, pelo jeito, sofrerão o mesmo escrutínio que os outros cargos sofreram: servir ao PMDB do Sarney e ser do sexo feminino.

Já desiludida outra vez, deixo aqui duas perguntas para dona Dilma:

a) quando se viu doente, escolheu o médico pelo sexo ou pela competência?

b) quando seu neto nasceu, ficou desapontada?

Escrava De Jó

Sebastião Nery

RIO – É um brinquedo ou jogo de senzala, trazido da África pelos escravos. Na minha infância, na Bahia, pegava-se um punhado de pedrinhas, sentava-se na calçada ou, à noite, no chão, embaixo dos postes da rua e jogava-se os “Escravos de Jó”, em varias versões.

1. Primeira versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”.

Zambelê.

2. – Segunda versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o Zambelê ficar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”.

3. – Terceira versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”

Caxangá
Os jogadores pegavam uma pedra cada um. Ao ritmo da música, cantada, entregavam sua pedra ao companheiro da direita. Em determinados momentos da letra, não soltavam a pedra e a traziam de volta, em movimentos repetidos ao som da música.,

Depois em silêncio, apenas mantendo o ritmo. E voltava-se de novo a cantar. Entregava-se a pedra e pegava-se a do jogador à esquerda. E o movimento era repetido ininterruptamente.

Até que, de repente, levava-se a pedra e não a soltava, não a passava, não a entregava, trazia a pedra de volta. E o jogo tomava um ritmo frenético. Quem se atrapalhava e errava saia do jogo.

Há divergências quanto à origem, o significado e a letra do jogo. A letra fazia alusão aos escravos que “juntavam caxangá”, uma espécie de crustáceo, de siri.

Dilma
O drama que Dilma está vivendo na “Granja do Torto” para “escolher” seu Ministério é um jogo de senzala. Ela é uma “Escrava de Jô”. Ou “Escrava de Lula”. E do PT. E era inevitável que acontecesse assim. É só uma questão vernacular: Dilma não “se elegeu”. “Foi eleita”. Tanto disse na campanha que Lula é quem mandava, que agora tem de obedecer.

Mas não precisava chegar a esse nível de submissão, de humilhação. Não sabe quem vai “ficar”, quem vai “entrar”. Em mais de 20 ministros já anunciados, até aqui ela própria só escolheu um: José Eduardo Cardozo, da Justiça.Não por acaso um nome que certamente honrará o governo e o pais.

Também na campanha, Dilma prometeu “continuidade, com um novo governo”, “em novos tempos”. E, até agora, a única novidade que apareceu foi o neto Gabriel. Que não pode ser ministro.

Arzua
Quando historias se repetem, dificilmente não levam ao ridiculo. Está no “DHBB” (Dicionário Historico Biografico Brasileiro”) :

“O paranaense Ivo Arzua candidatou-se à prefeitura de Curitiba, apoiado pelo Partido Democrata Cristão (PDC), União Democrática Nacional (UDN), Partido Trabalhista Nacional (PTN) e Partido Libertador (PL). Eleito em 7 de outubro de 1962, em agosto de 1963 participou do curso de segurança nacional promovido em Curitiba pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Participou com destaque, em âmbito estadual, do movimento político-militar de 31 de março de 1964, tendo sido um dos fundadores da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime militar então instaurado no país. Foi também professor da Escola de Oficiais Especialistas e de Infantaria d Guarda da Aeronáutica (EOEG-M.Aer.)”.

Nomeado presidente da Republica em 1967, Costa e Silva convidou Ivo Arzua para presidir o BNH (Banco Nacional de Habitação). Mas os donos das construtoras queriam que Mario Trindade continuasse no BNH e vetaram Arzua. Costa e Silva chamou-o para o ministério da Agricultura.

Arzua nada sabia de agricultura, nem a diferença entre um maxixe e um quiabo. Trancou-se durante 30 dias na cooperativa Coopavel, em Cascavel, fez um curso intensivo e assumiu o ministério da Agricultura.

Rossi
Agora, nem um curso intensivo vai fazer o Wagner Rossi, há anos vaqueiro de Michel Temer no porto de Santos (Docas de São Paulo) e na Conab, indicado para o ministério da Agricultura. Nunca viu um pé de soja:

“Em 1961, iniciou o curso de Direito na Universidade de São Paulo (USP), bacharelando-se em 1965. Começou a estudar administração de empresas na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), concluindo em 1974. Logo em seguida, prosseguiu com seus estudos superiores, tornando-se mestre em educação, na área de administração educacional pela Universidade de Campinas (Unicamp) em 1977. Em Ohio, nos Estados Unidos, doutorou-se em economia da educação” (“DHBB)”

Dilma sabe de tudo isso. Disse que exigiria “capacidade técnica e ética” dos novos ministros. E agora se revela “Escrava de Jó” não apenas de Lula e do PT, mas até do PMDB. A que abismo Dilma quer chegar?

O QI do Ministério de Dilma

O Estado de São Paulo

Depois de escalar a quatro mãos com o presidente Lula a equipe econômica e o time da casa, a sucessora Dilma Rousseff anunciou na quarta-feira uma batelada de 10 nomes para a Esplanada dos Ministérios, metade dos quais do PMDB.

Naquele primeiro quinteto, que compreende os titulares da Casa Civil (Antonio Palocci), Fazenda (Guido Mantega), Banco Central (Alexandre Tombini), Planejamento (Miriam Belchior) e Secretaria-Geral da Presidência (Gilberto Carvalho), uns são mais expressivos ou mais experientes, mas nenhum caiu ali de paraquedas. O mesmo se aplica aos novos ministros das Comunicações (Paulo Bernardo, transferido do Planejamento) e da Justiça (o deputado e professor de direito José Eduardo Martins Cardozo).

Com exceção do apartidário Tombini, que por sinal trabalhou no primeiro governo Fernando Henrique, os demais fazem parte dos núcleos de elite do PT. Quaisquer que sejam as suas limitações, parecem todos luminares perto de alguns dos futuros colegas recém-anunciados, cuja principal credencial, ou única, é terem um QI - quem indica - adequado à partilha do poder com o principal aliado do governo. Não é propriamente do PMDB em geral que se está falando, mas do presidente do Senado, José Sarney, com quem Lula tem uma dívida que não acaba nunca, tanto que foi herdada e começou a ser honrada por Dilma. Data da primeira eleição de Lula e cresceu exponencialmente com o apoio do oligarca ao presidente acossado pelo mensalão.

É o pior dos mundos: já não bastasse o loteamento de parte do Ministério, que prefigura o que se passará com o preenchimento dos cargos chamados de confiança nos escalões inferiores da administração federal, o que certos indicados ignoram sobre as Pastas com que foram premiados lotaria uma estante. Com a sua presença na Esplanada, pode-se dizer, cada um abre uma lacuna. É, notadamente, o caso do apadrinhado de Sarney para o Ministério do Turismo, uma Pasta que mudou de figura com a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Trata-se do político - maranhense, é claro - Pedro Novais, de 79 anos, obscuro integrante do baixo clero da Câmara dos Deputados.

Além dele e do senador reeleito Edison Lobão, que continuará no Ministério de Minas e Energia, onde chegou em 2008, contribuirá indiretamente para o patrimônio político de Sarney a ida do senador potiguar Garibaldi Alves para a Previdência Social. Isso porque no próximo ano ele poderia se candidatar à presidência da Casa, função que exerceu em 2008, depois da renúncia do titular Renan Calheiros. Embora o incorrigível Sarney faça expressão corporal de desinteresse por um novo mandato, a remoção de um potencial competidor poderá levá-lo, docemente constrangido, a mudar de ideia. Na Previdência, Garibaldi será o proverbial estranho no ninho.

Ele não demonstra ter noção do orçamento da Pasta (cerca de R$ 260 bilhões este ano, 95% destinados a cobrir despesas obrigatórias), muito menos do tamanho do rombo do setor (a caminho de R$ 100 bilhões, somando os déficits do INSS e do regime previdenciário do serviço público). Consumado o convite, Garibaldi só teve a dizer - ou a tartamudear - que a presidente eleita quer manter as reformas de gestão do sistema, para agilizar o pagamento dos benefícios e diminuir as filas no atendimento. "É de esperar", comentou quinta-feira no Estado o jornalista Rui Nogueira, "que ele seja apenas e tão somente um sorridente corta-fitas nas inaugurações de novas delegacias da Previdência."

Há quem afirme que o Ministério em formação será transitório - uma espécie de ponte entre as administrações Lula e Dilma. Por isso, ela não estaria criando caso agora com os patrocínios que, em outras circunstâncias, relutaria a acatar. Dilma daria tempo ao tempo antes de trocar os nomes de terceiro nível do Gabinete com que começará a governar. Mas é altamente improvável que, se tiver que continuar pagando as dívidas políticas de Lula, ela consiga do seu maior credor nomes mais aptos dos que os atuais.

Velhos coronéis como Sarney não se dão bem com quadros competentes e com luz própria.

Dilma tem pouco tempo e muito a fazer em 2011

Paulo Rabello de Castro, Instituto Millenium

A meteorologia política indica nuvens carregadas no horizonte econômico da presidente eleita, Dilma Rousseff. A inflação fecha 2010 em alta, e o déficit fiscal para 2011 ameaça furar as metas. Dilma e sua equipe não podem contemporizar com tais indicadores sem arriscar o descontrole político. O novo time, que é experiente e foi escolhido com critérios técnicos razoáveis, entrará em campo com um desafio de menor magnitude, mas de natureza semelhante ao enfrentado por Lula em 2003.

Em 2002, já eleito, Lula negociou com a equipe do então presidente, FHC, no Banco Central (BC), uma alta preventiva do juro, que então subiu aos píncaros de 25% em dezembro. Armínio Fraga, que se despedia da presidência do BC, pagou o pedágio de elevar o juro básico na saída do cargo. Eram tempos extremamente delicados e difíceis.

A situação de hoje não se compara àquela em gravidade, mas a natureza do processo inflacionário lembra 2002. Temos uma economia muito mais bem defendida na ótica das reservas e do influxo – até excessivo – de moeda estrangeira. Contudo, há uma diferença fundamental para pior: a conta de pagamentos externos é altamente deficitária agora, enquanto Lula recebera de FHC uma taxa cambial extremamente favorável para exportar, inclusive produtos industriais, numa relação bastante competitiva entre custos e preços em dólares.

Dilma enfrentará o quadro externo invertido, de cabeça para baixo. Começará de um ponto muito favorável na balança externa, com os preços das matérias-primas inflados ao máximo; porém, o rumo de seu governo, no plano econômico, poderá vir a se deteriorar de modo surpreendente para os desavisados, bastando apenas que a periclitante situação financeira na Europa e nos Estados Unidos venha a confirmar seu previsível agravamento no ano que começa. Lula, com a estrela que tem, fez o percurso contrário: entrou quando tudo parecia desfavorável, mas isso seria apenas o ponto mais baixo de uma curva sempre ascendente de recuperação do panorama interno e mundial. E Lula sai de cena agora, surfando no alto dessa onda, pronta para quebrar, a qualquer momento, com uma pancada de fragor insuspeitado.

As reformas fiscal e política precisam andar. Não se pode perder tempo em um susto com a inflação lidar com a deterioração do panorama externo será o primeiro desafio da nova presidente. Lula só se preocupou com isso em 2008, no sexto ano de seu mandato. Lidar com as expectativas do público brasileiro será o segundo desafio de Dilma. Sim, porque a curva de expectativas populares foi sempre ascendente no duplo mandato do padrinho. E Lula soube administrar esse otimismo coletivo de modo magistral, com mais crédito para bens duráveis e casa própria, dos gastos públicos e do PAC, e de um aumento real de salários da ordem de 40% (contra quase zero no período FHC). Com sua oratória improvisada de propósito, Lula se apropriou de tudo que emergia de bom a partir da estabilização da moeda, como nunca dantes no discurso político de um presidente brasileiro.

Dilma administrará a expansão do crédito já em curva descendente, a elevação do gasto corrente e os aumentos reais de salários. Enfrentará, portanto, uma inversão de expectativa. Para lidar com isso, não bastará repetir a política do feijão com arroz nem a conversa de Copa do Mundo e Olimpíadas. O rumo da prosa terá de envolver matérias substanciais, que deixem a marca da administração voltada para o novo e para o futuro. A pauta mais importante do país, se ela quiser manter a indústria brasileira viva contra a brutal competição chinesa e asiática, nos remete à aprovação de uma nova estrutura tributária, com menos impostos, mais simples e transparentes na hora de pagar, e mais inteligentes no momento de distribuir receitas fiscais aos entes públicos gastadores da verba pública. Dilma tem a reforma fiscal e uma reforma política para aprovar em 2011. Tempo curto, que não pode ser desperdiçado com o susto de uma inflação em alta. É hora, portanto, de o Banco Central se antecipar e agir de imediato.

Uma oposição de verdade : demanda há, resta saber se haverá oferta

Bolívar Lamounier, Exame.com

A oposição como uma parte legítima e permanente do sistema político é uma idéia recente . Desde seu surgimento, em meados do século 19, ela trouxe benefícios sem conta à convivência política. Não é exagero compará-la a um avanço tecnológico importante – um dos maiores na história dos povos. Muitas violências e não poucas tragédias foram evitadas graças ao seu emprego rotineiro.

Para bem compreender a afirmação acima, é interessante lembrar que Washington, o primeiro presidente americano, não chegou a perceber a importância da nova instituição que mal e mal se delineava em sua época. Tanto não percebeu que usou seu discurso de despedida, em 1800, para alertar o país contra a “divisão em partidos”, na qual enxergava mais riscos que garantias para a liberdade.

Se Washington não anteviu a importância da oposição como um mecanismo permanente e legítimo, muito menos Napoleão, feito imperador naquele mesmo ano. E nem precisamos lembrar que, nesse aspecto, os revolucionários franceses de 1789 não passavam de trogloditas.

Oposição legítima e permanente significa exatamente o que as palavras dizem : uma parte governa, a outra vigia, cobra, fiscaliza, propõe alternativas, pressiona. E se prepara para assumir o poder logo que tiver oportunidade.

Decorrido pouco mais de um mês do segundo turno, a discussão política parece-me estar sintonizando essa idéia de oposição com crescente nitidez. Hoje, em seu blog, Reinaldo Azevedo fez a si mesmo a pergunta : quando deve haver oposição ? E respondeu : sempre. Tem toda razão.

Outro dado importante é a existência de uma demanda. Cadê a oposição ? Dilma Rousseff ainda nem tomou posse, mas muita gente está perguntando : o que anda fazendo a oposição ? Isto também é ótimo.



A questão que se apresenta é portanto esta : se há demanda, por que está (ou parece estar) faltando oferta ?

Nos últimos 8 anos, a resposta invariavelmente resvalava para a popularidade do Lula. Fazer oposição a um presidente tão popular era muito difícil. Eu mesmo me cansei de escrever isso. Mas agora acabou. Prescreveu. A esta altura, Lula está presidente, mas quase já não é mais presidente.

Outro dia eu fiz aqui um apanhado da força dos partidos de oposição nos governos estaduais e no Congresso. Nem precisava, pois ninguém ignora a ampla maioria que o governo vai ter tanto no Senado como na Câmara. Vai ser difícil ? Vai. Não há necessidade de repetir isso.

Mas aqui surgem algumas indagações importantes. Os cidadãos que demandam oposição, devem pensar em termos de partido ou em oposição por outros meios ?

Para mim, a resposta é : ambos. No Brasil de hoje, é altamente improvável que um partido, qualquer partido, expresse de maneira satisfatória todo o leque de preocupações de seus eleitores.

Mesmo tendo em seu interior líderes e correntes com posicionamentos diferentes – este, aliás, é um bom argumento a favor de certa heterogeneidade – , alguma coisa importante esse partido vai ser incapaz de abranger. Foi por isso que os chamados “issue publics” – públicos interessados só em determinadas questões – se tornaram comuns no Primeiro Mundo.

Às vezes, um tema fundamental para milhões de eleitores não tem como ser levado por determinado partido. Isto pode acontecer por muitas razões que não vêm ao caso no momento.

No Brasil, os impostos são um bom exemplo. Em certo momento, o DEM parecia ter agarrado o touro pela unha. Teve papel importante na derrubada da CPMF. Mas não foi muito além. E os outros partidos não se dispõem a segurar essa peteca, talvez por não quererem defender a posição contrária caso cheguem dentro de algum tempo ao governo.

A questão tributária não será então uma típica “issue public” ? Por que não cuidamos dela nós mesmos, um grupo de cidadãos ? Eu faço a pergunta e ofereço um pedaço da resposta : porque falar é mais fácil que fazer. Discursar de longe é bom, dá até certo prazer.

Participar de reuniões, queimar pestanas estudando o assunto, tolerar pessoas com as quais só temos essa “issue” em comum e, não menos importante, comparecer com “algum” para cobrir os gastos da organização…Estas coisas já não são tão prazerosas. Não foi por acaso que, ao longo dos séculos, a política se tornou uma atividade profissional.

Cada um de nós cobra consenso entre os que (supostamente) nos representam, como se eles no íntimo concordassem em tudo, fossem todos igualmente altruístas, que não competissem entre si pelo poder dentro e fora do partido etc etc. Tudo bobagem.

Como instrumentos de ação coletiva, partidos políticos simplesmente não têm a coesão e a qualidade que os eleitores gostariam de ver neles. Por que então precisamos deles ? Em primeiro lugar, no caso brasileiro, porque a lei exige : não existe candidatura avulsa.

Segundo, porque em certos aspectos os partidos são de fato insubstituíveis . Partidos são organizações “multi-purpose”, multi-funcionais. Não são lobbies ou grupos de interesse. Não se confundem com a Fiesp, nem com a Cut.

Alguns (raros) partidos são ideológicos, isto é verdade. Vagamente ideológicos. Se forem muito ideológicos, arranjam mais adversários que adeptos.

No extremo oposto, partidos são em geral ineficazes como portadores de mensagens praticamente consensuais. A defesa do meio ambiente é um assunto importante e até dramático, poucos discordam disso. E esta é talvez a principal razão por que partidos verdes raramente têm sucesso. É mais fácil defender a ecologia como um público “single issue” ou dentro de um partido grande, multi-funcional.

Voltemos ao partido ou aos partidos de oposição. Qual partido, que tipo de partido ?

Até onde a vista alcança, o eixo da oposição será o PSDB. Ou o DEM. No limite, o PPS. De preferência, os três. Não vejo outra alternativa.

O PSDB vai se “refundar”, se repensar, se reorganizar ? Não faço a menor idéia. Minha única certeza é que o modelo de organização do PSDB não será (e não deve ser) o mesmo do PT. Escrevi sobre isto dois dias atrás.

Desçamos então ao concreto, sem “tergiversar”. Se a oposição há de ser fundamentalmente partidária e se ao menos por enquanto o partido mais viável é o PSDB, onde é que o bicho pega ?

Primeiro, na heterogeneidade e nas rivalidades internas. Aécio, Serra, Alckmin, Fernando Henrique e tutti quanti vão ter que resolver isso. O eleitorado,como observei acima, não é homogêneo, mas, no momento, a heterogeneidade que está travando a oferta de uma oposição satisfatória é a das lideranças.

Qual é a natureza da dificuldade : personalidades, região, ideologia (programa, visão de Brasil)… ? Ou tudo isso ao mesmo tempo ? Esta pergunta solta tantas complicações quantos os ventos que escapuliam da caixinha de Pandora.

O público que está demandando uma posição oposicionista mais firme é principalmente o de São Paulo (e de algumas cidades grandes que reproduzem de certa forma o clima político paulista). É pois, teoricamente, um público mais afeiçoado a Serra.

Mas Serra vem de perder sua segunda eleição, e sua alegada falta de “jogo de cintura” é tida como um óbice a uma presença política e eleitoral mais forte no conjunto do país.

Aécio é o caso simétrico. Jogo de cintura não lhe falta. O que se discute é sua capacidade de personificar a oposição que o eleitorado (o de São Paulo, pelo menos) deseja. Para exercer a oposição no plano parlamentar, como um senador destacado, ele tem qualidades de sobra, ninguém discute isso.

Esta é a questão inovadoramente tratada por Simon Schwartzman no livro “São Paulo e o Estado nacional” (Editora Campus, 1982). O eixo Minas-Brasília é uma coisa, São Paulo-Brasília é outra coisa.

Poucos dias atrás um leitor me chamou enfaticamente a atenção para este ponto : a força eleitoral do PSDB parece ter migrado para Minas, mas é só em São Paulo que o partido tem raízes sociais e perfil de oposição genuínos.

Vou morrer na praia sem abordar uma questão não menos essencial : oposição a quê, em nome de quê ? Fico devendo.

Lula 12 anos

Guilherme Fiúza, Revista Época

Seguindo a nova linha de austeridade do governo, o presidente Lula tomou posse para o seu terceiro mandato de maneira discreta.

Nada de grandes celebrações ou convidados internacionais. Nem um centavo gasto com banquetes. A cerimônia foi simples, no formato mais singelo possível.

Dispensando todos os protocolos, Lula tomou posse no grito. Esperou o momento propício, em que seu velho novo ministro da Fazenda anunciava uma medida para o suposto governo Dilma.

Lula entrou em cena, desmentiu o ministro, passou por cima de Dilma e vestiu a faixa presidencial pela terceira vez.

Guido Mantega, o homem forte da economia brasileira que faz jus ao sobrenome, desmanchou-se imediatamente. Avisara que os cortes orçamentários no próximo governo não poupariam as obras do PAC. Lula interveio: não será cortado “nenhum centavo do PAC”.

O ministro Mantega soltou então uma nota em seu estilo direto e inconfundível: custe o que custar, doa a quem doer, o chefe tem razão.

Foi bom Lula antecipar sua posse para o mês de dezembro. Ele estava há mais de seis meses sem trabalhar, passeando de palanque em palanque, e essa pré-temporada vai lhe fazer bem – a exemplo dos jogadores de futebol, curando a ressaca das férias.

E foi oportuno que o terceiro mandato começasse com uma polêmica abstrata. Oportuno e coerente.

Como se sabe, o PAC é uma criação literária de razoável sucesso. Sob seu condão, até dragagem de lodo virou aceleração do crescimento. O PAC é tudo. Conseqüentemente, não é nada. E um centavo de nada também é nada.

Nada mais apropriado do que um ministro abstrato dando uma declaração contundente sobre um programa abstrato, a mando da Mãe do PAC – a abstração em pessoa – e tudo sendo dissolvido em uma frase por Lula, o concreto.

Agora, anunciando que continuará concreto a partir de janeiro.

Lula 12 anos. Se dá certo com uísque, por que ele também não pode envelhecer sem sair da garrafa?

Liberdade de imprensa, porém...

O Estado de São Paulo
A história da obstinação de setores do atual governo pela concretização de um novo marco regulatório das comunicações eletrônicas que permita algum tipo de "controle social" de conteúdos viveu mais um capítulo esta semana. O jornal Folha de S.Paulo teve acesso ao anteprojeto do governo de uma tal Lei Geral da Comunicação Social, destinada a regular o funcionamento do setor por meio da criação de um novo órgão, a Agência Nacional de Comunicação (ANC), que substituiria a Agência Nacional do Cinema. Caberia a essa nova agência, entre outras atribuições, regular o conteúdo veiculado pelas emissoras de rádio e televisão. A notícia provocou reação negativa tanto na área política quanto na empresarial. Com a mesma presteza, o principal responsável pela elaboração do projeto, o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins, tentou minimizar a importância da notícia, alegando que existem várias versões de anteprojeto sobre o assunto. E a presidente da Empresa Brasil de Comunicação, Tereza Cruvinel, subordinada ao ministro, tentou desconversar: "Ouvi dizer que a versão publicada não é a definitiva." Mas não resistiu à oportunidade de reiterar o que pensa sua turma: "Como jornalista, acho que precisamos de alguma regulação. A liberdade de imprensa é sagrada, porém outros direitos precisam ser preservados." Há sempre um "porém".

O anteprojeto, elaborado por um grupo de trabalho criado há seis meses e coordenado pelo ministro Martins, prevê, por exemplo, que a agência a ser criada terá poderes para multar empresas que, a seu critério, veiculem programação ofensiva, preconceituosa ou inadequada ao horário. Não tem nada a ver com censura, garantem fontes do governo, pois a punição resultará sempre de um julgamento a posteriori. Que bom!

Já o líder do PSDB na Câmara, deputado João Almeida, não é tão otimista: "Esse julgamento implicará sempre uma manifestação ideológica em relação ao tema. Isso é uma coisa sempre muito perigosa, pode acabar descambando para a censura pura e simples." Essa é também a opinião do senador José Agripino, líder do DEM: "Qualquer tentativa dessas tem que ser vista sempre com muito cuidado. A liberdade de imprensa é uma conquista da democracia. Esse governo tem o cacoete de flertar com o cerceamento da liberdade."

Até onde se sabe, Dilma Rousseff não pretende manter em sua equipe o ministro Martins, ideólogo do "controle social" da mídia, e sua turma. Coerente com as reiteradas manifestações que tem feito de repúdio ao controle de conteúdo na mídia, a presidente eleita parece disposta a mudar o tom do discurso da Secretaria de Comunicação Social da Presidência. O que implicará contrariar a tendência que predomina nas entidades "de esquerda" que deram o tom, por exemplo, da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada um ano atrás em Brasília por iniciativa do ministro Martins. Essas entidades, na verdade, estão sempre mais à esquerda do que o próprio governo e frequentemente manifestam insatisfação com a "falta de avanços" tanto na regulação da tele e da radiodifusão quanto no controle dos conteúdos da mídia em geral.

Claro exemplo dessa situação é a posição de uma dessas entidades, a Associação Brasileira de Canais Comunitários, manifestada por seu presidente, Paulo Miranda, a propósito da cláusula do anteprojeto da Lei Geral de Comunicação que prevê a criação da ANC. Miranda defende a criação não de uma agência, mas de um Conselho de Comunicação, integrado por representantes da sociedade e das empresas do setor: "Uma agência não nos interessa. Tivemos a promessa do ministro Franklin Martins de que seria prevista a criação de um Conselho de Comunicação." A razão: um conselho permitiria a participação "mais ativa" da sociedade no controle das comunicações, enquanto uma agência reguladora seria apenas "mais um organismo burocrático". O que se almeja, portanto, é algo assim como a "democracia direta". De fato, e não por acaso, a criação de um conselho, e não de uma agência, foi uma das propostas aprovadas por unanimidade na célebre Confecom do ministro Martins.

Censura sem dor

Sandro Vaia – Blog do Noblat

Por que insistem em chamar de “regulação da mídia” , ou “marco regulatório”, ou “controle social da mídia” aquilo que no fundo é uma vontade –com perdão do jogo de palavras- incontrolável de controlar conteúdos?

O pretexto oficial quase sempre é indiscutivelmente saneador e em sâ consciência não há quem se oponha a ele: querem fazer valer a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação, querem proibir que políticos com mandato sejam concessionários de rádios e TVs, querem regulamentar a entrada de empresas de telecomunicação na área de produção e distribuição de conteúdos,e embora já existam várias normas (nunca cumpridas) para tudo isso, sempre sobra um espaço para um pulo do gato final, pobremente disfarçado, por onde querem contrabandear a mercadoria ideológica.

A idéia agora é criar uma Agência Nacional de Comunicação, que, além de cuidar das questões acima, trataria também de avaliar o conteúdo exibido por esses veículos.Não seria censura, dizem, porque a avaliação seria feita “a posteriori”,ou seja, depois que os programas tivessem sido exibidos.

Mas já não existem os códigos civil e penal para dar conta dos abusos? Já não existe o Estatuto da Criança e do Adolescente para preservar os menores da possível influência maléfica dos meios ? Já não existem regras proibindo e/ou disciplinando horários e normas para veiculação de publicidade de álcool, tabaco e outros produtos maléficos à saúde? Já não existe a classificação indicativa de idade para exibição de programas adequados ou inadequados a determinadas faixas etárias ? Já não cercaram suficientemente, com centenas de normas legais, o sexo, a comida, a bebida, a violência,as doenças, o racismo, o preconceito e todas as mazelas da condição humana?

Há instrumentos legais de sobra para regulação dos meios, e as próprias empresas de comunicação já se ofereceram para criar normas de auto-regulamentação, como o Conar faz com o setor de propaganda, com bastante eficiência.

O problema real é que por trás dessa polêmica está a visão de que a indústria da informação é um “aparelho ideológico” a serviço de uma determinada causa e de uma determinada classe.E, dentro dessa visão, os “aparelhos ideológicos” precisam ser controlados para que deixem de ser instrumento de uma classe, e passem a servir a outra.Gramsci básico, para iniciantes.

Por isso, se você sai por aí dizendo que por trás do “marco regulatório” há uma emboscada para a instituição, indolor que seja, do controle ideológico de conteúdos, ou para ser mais objetivo, de censura, vão apontar o dedo pra você e dizer que você é paranóico, que está defendendo os interesses das empresas de comunicação, que é contra “a democratização da informação” e outras barbaridades.

Chamar as coisas verdadeiras por um apelido falso é um truque antigo, mas quase sempre eficiente, quando se pretende enganar as pessoas.Democratizar, disciplinar, regular, controlar, normatizar - quem teria coragem de se opor a maneiras tão necessárias, tão suaves e tão gentis de censurar ?

A Câmara começa com a negociata dos bingos

Villas-Bôas Corrêa

Não tenho lembrança, no muito que li e que vivi nos 60 anos como repórter político, de um fim de governo tão salpicado de escândalos, denúncias, acusações, trocas de desaforos do que o melancólico ocaso do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que saboreou a sua temporada com vento a favor como um dos líderes mais populares do mundo e um governo comemorado com foguetório e discursos no lançamento de promessas e planos “como nunca se viu na história deste país”.

Pois nem na ditadura militar das torturas nas prisões, como as que castigaram a então jovem guerrilheira Dilma Rousseff, fomos presenteados com uma bagunça como a destes últimos dias.

O capítulo da novela da baixaria da votação da urgência do projeto que legaliza os bingos – um tema que alvoroça o nosso patriotismo e o respeito pela Câmara dos Deputados – e´ absolutamente incomparável. Desde a urgência e a importância nacional do tema. Legalizar os bingos é hoje um clamor nacional que ecoa pelos últimos dias dos dois mandatos do presidente Lula e da Granja do Torto onde se hospeda a presidente eleita Dilma Rousseff.

Como era previsível, 258 parlamentares votaram a favor da apreciação imediata do projeto de salvação nacional. Um a mais do que o necessário para legalizar o bingo. Mas, com a Câmara num clima de gafieira, o nobre deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) denunciou que durante a sessão fora procurado por um funcionário do Ministério da Justiça que queria barrar a aprovação do projeto porque “muita grana estava correndo para legalizar a jogatina.”

O deputado Fernando Chiarelli (PDT-SP) foi direto ao principal: “A corrupção está rolando solta. Vamos ver ali no placar quem está levando uma “graninha” para botar no bolso”. E aos detalhes: “Traficante, hoje, eu vi pelo menos uns 200 rondando por Brasília. Eles não estão nos morros do Rio de Janeiro. Estão aqui, fazendo lobby para aprovar o bingo. E os molequinhos dos traficantes vão aprovar o bingo.”

O deputado Silvio Costa (PTB-PE) quer aproveitar a boa vontade da Câmara para legalizar os cassinos. Outro atuante na maratona da legalização da jogatina é o presidente da Abrabin, Olavo Salles Oliveira. E seus argumentos são sonantes: “Se aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da Republica, a proposta permitirá a legalização com total transparência da atividade a ser exercida pelas casas de bingo, que passarão a atuar sob normas rígidas de fiscalização”.

Tanto patriotismo, despido de interesses suspeitos, chega a bulir com a emoção. E é só o começo. Falta conferir como pensa a maioria dos senadores, com a experiência dos cabelos brancos.

Para quem muito viveu e acompanhou a atividade do Congresso desde a queda do Estado Novo de Getúlio Vargas, este tipo de provocação não costuma dar certo.

E, mais uma ditadura, francamente…

Militar é militar, polícia é polícia

Alexandre Barros (*) – O Estado de São Paulo

Estamos à beira de uma ladeira descendente. Se tudo correr conforme anunciado, as Forças Armadas virarão polícia e ocuparão mais favelas no Rio. Declarações oficiais dão conta de que a ocupação será "por tempo indeterminado".

Entre 1922 e 1985 as Forças Armadas brasileiras fizeram política. A Escola Militar era na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, a poucos quilômetros dos Palácios do Catete e Guanabara. Volta e meia, os cadetes saíam da escola para "dar um golpe".

Mudaram-na para Realengo, bem mais longe. Não melhorou muito. De 1922 a 1985 os transportes progrediram e a chegada de Realengo e da Vila Militar aos centros de poder foi ficando mais rápida.

Nesse meio tempo, tropas brasileiras participaram da 2.ª Guerra Mundial (se estiver interessado em saber mais sobre o assunto, vale a pena ler As Duas Faces da Glória, do jornalista e cientista político William Waack). Voltaram da Itália, derrubaram Getúlio Vargas. De 1946 a 1964 vivemos uma sucessão de golpes e contragolpes abortados. Em 1964 os militares tomaram o poder e não o entregaram a civis. E lá ficaram até 1985.

Um dos segredos da longevidade do regime militar brasileiro foi o estabelecimento de regras claras e previsíveis de sucessão, desde que um militar sucedesse a outro militar. Oscilamos entre períodos de linha mais e menos dura, mas quase todos os grupos político-militares tiveram sua vez. O regime militar brasileiro saiu melhor na foto histórica graças a essa previsibilidade da sucessão entre as várias facções militares do que foi o caso na Argentina e no Chile, este com Pinochet e aquela com a sucessão de Juntas.

Poucos se lembram, mas nossa atual democracia, inaugurada em 1985, já está durando mais do que a que prevaleceu entre 1946 e 1964.

As sucessivas entradas dos militares na política eram um resquício do período aristocrático (principalmente europeu), em que não havia diferença entre guerreiros e policiais. Os mesmos aristocratas faziam guerras externas e garantiam o poder internamente. O término do ciclo das ditaduras militares do fim do século 20 pretendeu enterrar esse período e mandar os militares para os quartéis.

Isso criou uma crise de identidade para os militares. De repente ficaram sem função, porque perderam suas funções tradicionais, que ainda mesclavam policiais e guerreiros. A experiência não foi boa.

Militares são treinados para matar e policiais, para combater criminosos, de acordo com as leis.

"Vivemos numa democracia. Se os senhores mandarem, assumiremos o controle da ordem interna, mas é bom que fique claro que nossos soldados são treinados para matar, não para ler os direitos constitucionais de suspeitos", disse um general americano em depoimento ao Congresso. Os congressistas desistiram da solução militar interna. Continuaram a fazer guerras em outros países.

No Brasil a crise de identidade permaneceu e os militares sentiam-se desconfortáveis com isso. Para eles, parece uma humilhação, mas, na realidade, não é. A IBM passou por uma bruta crise de identidade na década de 1990. O que ela sabia fazer - computadores - e a maneira como se organizava para fazê-los e vendê-los ficou defasada. Quase foi à falência. Demitiu mais de 100 mil funcionários no mundo, reorganizou-se, redefiniu sua função e vai muito bem, obrigada. Suas ações valem agora na Bolsa de Nova York cerca de US$ 145.

Os militares brasileiros também enfrentam sua crise de identidade. Para superá-la foram redefinidas suas funções como forças pacificadoras em países em crises de paz ou de guerra. Elas são exercidas em territórios de terceiros países e por tempo limitado, até que a ordem se restabeleça.

A participação dos militares na recente "pacificação" da Vila Cruzeiro e das favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, abriu um precedente perigoso. As primeiras notícias eram de que a Marinha cedera alguns carros de combate blindados para transportar policiais na ocupação das favelas. Era só apoio logístico.

Mas, da mesma maneira que o amor próprio rapidamente se pode tornar impróprio, o Exército também entrou em cena. Os soldados desceram dos carros blindados e passaram a ocupar entradas, saídas e território, até que, no sábado 4 de dezembro, anunciaram o governador do Rio de Janeiro e o ministro da Defesa que as Forças Armadas (as que lá estão e outras que venham a ser mobilizadas) ocuparão as favelas já "pacificadas" e as que ainda virão a sê-lo "por tempo indeterminado".

Como gostava de dizer Castelo Branco, foram bulir com os granadeiros e chamá-los a fazer o que não era sua tarefa.

As Forças de Paz que ocupam territórios de terceiros países, mal ou bem, têm um controle civil e/ou de uma organização internacional. Se as Forças Armadas voltarem a se ocupar de ordem interna no Brasil, a possibilidade de que os vícios que caracterizam as chamadas "bandas podres" das polícias contaminem os militares são grandes. Depois que eles estiverem dentro das cidades (favelas ou não), não será fácil desalojá-los. Chamar os militares implica também adiar a tarefa prioritária de reformar e modernizar as forças policiais.

O curioso dessa história é que sumiu da discussão o tráfico de drogas, como se, por milagre, ele tivesse desaparecido só porque os militares entraram em cena. Mas a demanda por drogas está aí, não acabou. Alguém vai cuidar da oferta. Um risco é que os militares também entrem nisso.

Antes que o filme queime, mantenhamos polícias sendo polícias e militares sendo militares. Seria um retrocesso muito grande eliminar essa distinção, pelas consequências de médio prazo que já sabemos que não são boas. Só não sabemos quanto tempo demoram a ocorrer.

(*) Cientista Político, é Diretor-Gerente da Early Warning: Análise de Risco Político (Brasília)

Parlamentares planejam aumentar seus próprios salários em 61,8%

Políbio Braga



Na última semana de trabalho efetivo do Congresso e a menos de dez dias do Natal, os deputados e senadores planejam aprovar um reajuste de 61,83% nos próprios salários e um aumento de 133,96% no valor do vencimento do presidente da República. O projeto já está pronto e fixa a remuneração dos parlamentares e da presidente eleita, Dilma Rousseff, em R$ 26.723, o mesmo pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) - teto do funcionalismo público.

A aprovação do projeto, que entrará na pauta do plenário entre terça e quarta-feira, significará um aumento no salário da presidente eleita de mais de R$ 15 mil em relação ao que é pago hoje ao presidente Lula. Lula ganha R$ 11.420,21 brutos, o menor salário entre os chefes dos três Poderes. Os deputados e os senadores recebem R$ 16.512 - mas embolsam 15 salários por ano -, e o vice-presidente e os ministros ligados ao Executivo ganham R$ 10.748.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Para concederem R$ 20,00 a mais no salário mínimo, que aliás nem são eles que pagam, a discusssão é interminável. Sempre se alega "faltarem recursos" e que as prefeituras e a previdência vão quebrar. Ou seja: sempre se joga para as costas de quem realmente trabalha e paga a conta a culpa pela  falta de recursos. Já eles, os gigolôs da nação, com todos os privilégios imorais de que já são detentores, e com a maior cara de pau que podem ostentar, aplicam para si mesmos um aumento imoral  de 10 vezes o índice de inflação anual. Não é a toa que, dentre todas as instituições do país, o Congresso é o de pior índice de confiança perante a população. Pedirem aumento de 61,83%, num país com as carências que temos, deveria ser motivo não apenas para cassar o mandato destes picaretas: mas para  prisão em flagrante, por formação de quadrilha para a prática de assalto. Cambada de salafrários!!!!!

Verdade ou Mentira?

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Quem disse que a minha verdade é a verdade? E por que cargas d´água a verdade do Lula é a verdade absoluta e plena?

“Não é permitido irritarmo-nos com a verdade” - Platão

Lula que é o homem das pérolas mais raras ataca novamente. Agora ele ataca de filósofo e põe a busca da verdade na berlinda. Não é bonitinho esse “nosso” presidente? Bem eu não acho.

Sempre alguém quer buscar alguma coisa. O senador boa praça Cristovam Buarque está buscando a felicidade, outros buscam um namorado(a), outros o caminho de casa, outros o sucesso e por aí vai. Ah, o Lula busca a verdade.

Mas o que é a verdade? Será a verdade o que não é mentira? Apenas isso? Simples assim? Ou a minha verdade pode ser a sua mentira? Quem disse que a minha verdade é a verdade? E por que cargas d´água a verdade do Lula é a verdade absoluta e plena?

Vã filosofia.

Mas Lula não está nem ai. Ele fala, doa a quem doer. Seja quem for. E talvez seja essa a explicação mais plausível do porque de certas coisas não serem bem assim e acabarem se tornado mentira para ele. Mas se ele não está lá nem aqui, fica difícil ver a verdade com olhos honestos.

Será que Lula usa antolhos?

Verdade ou mentira eu não sei. Só sei que Lula tem uma definição muito peculiar do que seja a verdade. Dele. Por que a verdade universal é aquela que todos estamos vendo, a não ser que a pessoa feche seus olhos e passe a não enxergar. A verdade então seria tangível?

Clarisse Lispector prefere uma verdade inventada, já Jacques Rigaut acha o tédio a verdade em estado puro. E Lula…Bem Lula acha que a verdade dele é “a verdade”. E por conseguinte, o resto é então uma mentira deslavada que a imprensa e seus opositores querem impor que seja verdade.

E Lula no apagar das luzes de seu governo tenta fazer com que toda a verdade podre de seu governo não passe de uma verdade mal contada pelas pessoas que querem derrubá-lo. Para Lula o mensalão não existiu, foi uma tentativa de golpe. Ele acredita piamente nisso. Já Zé Dirceu diz que tudo o que ele fez à frente do PT e da Casa Civil tinha o conhecimento de Lula. Mas Lula nega isso, disse que não sabia de nada. Quem está dizendo então a verdade? Ou será então que nada daquilo existiu? Será então que todos nós sonhamos, ou melhor, todos nós tivemos o mesmo pesadelo e que na verdade vivemos no mundo encantado do Lula onde tudo são flores, não existe fome, pobreza, violência e por aí vai?

Mas como assim? Lula não produz verdade. Muita coisa que Lula falou que sim ele fez que não. E ele se diz verdadeiro. O tempo já disse! O tempo dirá!

Lula disse que não iria interferir nas decisões de escolha do “novo” governo Dilma, mas não é isso que vem acontecendo. Lula disse que não quer voltar em 2014, mas será que está sendo verdadeiro?

Lula disse no deve ser uma de suas últimas entrevistas que o que ele quer é que falem a verdade para ele. Mas de que adianta se ele nunca acredita? Para Lula verdade é o que está de acordo com os fatos ou com a realidade. Complicado isso, né? Mas existe um fato que não seja real?

No mundo dele provavelmente sim, só que é algo inventado pela sua convicção que, de tão forte, acaba tornando tudo isso numa verdade.

E então qual é a sua verdade? Qual é a cara da sua verdade? Vai ser no par ou ímpar?

Enquanto você busca alguma verdade nisso tudo…

Salvem as baleias. Não jogue lixo chão.

A má educação

Daniel Piza, Estadão.com

Quer dizer então que o Brasil avança 4% em quatro anos no exame Pisa de educação e há quem comemore? A pontuação dos alunos brasileiros significa que a grande maioria, aos 15 anos, é incapaz de interpretar um texto que não seja uma redação “Minhas férias”, não domina conceitos fundamentais da ciência e tem dificuldades com contas de multiplicação e divisão…

E não adianta botar toda a culpa na colonização portuguesa, que até 1808 impediu que o Brasil tivesse universidades, editoras e imprensa. Já houve tempo de sobra para corrigir essa defeito de formação. Nos EUA, a independência em 1776 foi equacionada com a fundação de universidades. Hoje o país tem dezenas entre as melhores do mundo. O Brasil não tem nem sequer uma entre as 200 melhores, pois a USP caiu desse ranking.

***** COMENTANDO A NOTICIA:
Vale a pena reproduzir um comentário publicado na coluna do Daniel Piza, de um leitor que se assina "Fey", de cujo texto não se retira uma única vírgula, seja pela realidade que do texto se ressalta, seja pela expressão da verdade que representa. Segue o excelente comentário:

O pior não é o Brasil estar no penúltimo lugar acima apenas da Turquia no exame Pisa ou a USP não entrar nem sequer na lista dos 100 melhores universidades do mundo.

O pior é que quando rankings assim aparecem pra dar um balde de água fria no ego dos nossos educadores, alunos, universitários e pais, surgem mil apologias e argumentações vazias da própria sociedade – e já se tornando muito clichés – como:

“Os países orientais não ensinam os seus alunos a pensar e só diciplinam a virar cegos obedientes. “. Frases de pessoas que geralmente nunca leram uma redação ou arte de um desses alunos orientais.

“Os países escandinavos são uns coitados pois vivem a maior parte no frio e cria uma população educada porém depressiva…”. Sem comentários. Como se o calor tropical do nosso país e a ignorância arraigada a pobreza e violência fosse receita de felicidade.

“Certos países como o Japão, Finlândia, Alemanha, e Coréia, conseguem alcançar qualidade de educação exclusiva porque o país é pequeno.”. Engraçado…estatísticamente então podeíamos esperar que pelo menos um dos nossos estados seja capaz de estar no mesmo patamar de um desses países já que possuem o mesmo tamanho geográfico, no entanto no estado mais rico (São Paulo) a nossa educação está longe de ser considerada do mesmo nível com os melhores do mundo. Mais interessante ainda, estudos indicam que uma melhor educação não se traduz necessáriamente em maiores volumes investimentos apenas mas também na melhor administração dos recursos disponíveis.

“As universidades americanas ganham mais reconhecimento por ter os seus trabalhos mais amplamente divulgados entre outras universidades de alto ranking.”. Ora porque as nossas universidades não divulgam também se temos tanto material de qualidade? Pergunte aliás qual é a orientação dos professores sobre dissertação de teses. Por incrível que pareça muitos alunos e professores de engenharia atualmente preferem escrever as suas teses em Inglês. E se esse tipode ranking não é importante, não deveriamos nos incomodar pra argumentar não é mesmo?

“Os indianos só superam em informática porque eles dominam o idioma inglês.”. Primeira abobrinha: não é preciso ser fluente em inglês pra programar.

Segunda abobrinha: não é só no Inglês que eles dominam, mas também possuem os melhores matemáticos atuais no mundo.

Terceira abobrinha: mesmo que eles tenham apenas informática pra se gabar (oque está longe da verdade), eles tem pelo menos algo pra se orgulhar, enquanto que nós só temos dores de cotovelo.

“É diferença de cultura…aqui é o Brasil.”. Talvez, a pior e mais folclórica de todas as argumentações, pois mostra a nossa indisponibilidade de esforçarmos pra sermos melhores. Aqui é o Brasil e portanto teremos de estar entre os últimos em educação pra sempre então? Existe cultura da vagabundidade? Existe cultura do esforço?

Pois bem, são desculpas assim que procuram tampar o sol com a peneira.

Sim, boa parte da culpa vem do descaso dos nossos líderes com a educação, mas antes de cobrar deles, é preciso enxergar que temos um problema gigantesco de verdade.

É uma lógica muito simples: quando há ignorância do problema, não há urgência de melhoras.

E apesar de toda retórica do brasileiro que se diz preocupado com a educação, a verdade é que ele nem sabe o quão importante ela realmente é para um indivíduo e tão pouco se dá conta do quanto estamos atrasados neste quesito, está mais fácil procurar desculpas.