Carlos Brickmann
Fim de ano, festas, Ministério, notícia se transforma em artigo raro. É a silly season, estação tola. Que tal, então, imaginar coisas que poderiam ter ocorrido?
Imaginemos que os tumultos no Rio, aqueles dos incêndios nos carros, tenham começado como resposta a alguma coisa - digamos, só para pensar um pouco, que a família dos traficantes presos estivesse sendo extorquida. Como represália, os traficantes teriam dado, de dentro da prisão, a ordem de revidar.
E por que, durante a invasão dos morros, houve policiais que entraram em favelas e destruíram tevês e computadores? Não há justificativa para o vandalismo; e os computadores deveriam ser é preservados, pois poderiam armazenar informações interessantes. Mas, já que a imaginação corre solta, e se foram destruídos exatamente para que eventuais informações interessantes se perdessem? Deslizemos mais um pouco: e tudo transmitido direto pela TV. Os bandidos presos ficaram sabendo que, além da extorsão às famílias, havia também o saque a suas casas, a prova de que, para quem não paga, nem os parentes vivem em paz.
Imaginemos que os garotos da favela tenham sido convidados pelos invasores a nadar na piscina da casa do traficante (aquela que, segundo nos informaram, tinha existência desconhecida, invisível até para os helicópteros). Que recado! É a desmoralização: veja, seu bandido vagabundo que não quer pagar nossa parte, aquela piscina que era só sua virou ponto de diversão de menininhos favelados.
Com a invasão do morro, cessou a guerra no asfalto. O carnê está em ordem.
O povo, o polvo
Nos sonhos, nos pesadelos, as coisas se confundem e fazem sentido até quando não fazem sentido. Se os traficantes tivessem lançado seu desafio antes da eleição, a bagunça poderia influir no resultado. Mas não usaram esta arma. Imaginemos que quisessem poupar alguém, alguém em condições de retribuir a gentileza. Porque há gente gentil, tenha certeza: como um milionário com tentáculos que se espalham por toda a economia, que há tempos pingou farta quantia na conta de um traficante, na boa intenção de recuperá-lo para o convívio social.
Saiba economizar
Entre as explicações chapa-branca para a alta da inflação, há uma primorosa: a de que não é exatamente a inflação que subiu, mas o grupo Bebidas e Alimentação. Dos 0,83% da inflação mensal, mais da metade - 0,51pontos percentuais - cabe à comida. Economize, pois: é só parar de comer que fica tudo em ordem.
Boas Festas!
Mas há um grupo que busca resolver o problema de maneira mais ortodoxa: nossos nobres parlamentares, que estudam um reajuste de 61,8%, de maneira a ganhar o mesmo que os ministros do Supremo. Claro que os ministros do Supremo são onze, e os parlamentares são 594; mas tudo bem, que o bolso do contribuinte, imaginam, é inesgotável. O custo estimado da brincadeira é de R$ 130 milhões por ano - mas a estimativa está errada. O salário dos deputados estaduais e dos vereadores sobe junto com o dos deputados federais. Feliz Natal!
Plenário de atletas
Um problema que o Congresso não consegue resolver: parlamentares com problemas de locomoção não têm acesso ao plenário. Há três deputados que o eleitor enviou ao plenário que lá não conseguem entrar. O problema é antigo: o deputado Thales Ramalho, um dos políticos mais importantes de sua época, personagem-chave na redemocratização do país, passou anos sem entrar no plenário e sem participar de votações, e ninguém se mexeu para resolver o caso. A deputada Mara Gabrilli, do PSDB, apresentou um projeto de reforma do plenário, para torná-lo acessível. A Mesa da Câmara não gostou e estuda a possibilidade de pedir à Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação uma solução arquitetônica.
Lições de sabedoria
Vivendo e aprendendo: este colunista sempre imaginou que hospitais tratassem de saúde, deixando aos arquitetos a solução dos problemas de arquitetura.
Laços de família
O governador eleito do Paraná, Beto Richa, PSDB, é extremamente ligado aos valores tradicionais da família. Nomeou o irmão, José Richa, para a Secretaria de Infraestrutura e Logística; nomeou a esposa, Fernanda Richa, para a Secretaria da Família e Desenvolvimento Social. Beto Richa sempre criticou seu adversário, o ex-governador Roberto Requião, PMDB, por ter dois irmãos no Governo.
Matando os doentes
O médico Nelson Nisenbaum, assíduo leitor desta coluna, conta-nos que uma norma da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atrapalha a compra de remédios por quem deles precisa. Por uma norma, a prescrição do remédio cita sua denominação genérica; e por outra norma, o cliente, quando quer comprar remédio de marca, não é atendido. Só se vende o genérico ou a marca de referência. Outra marca, não - embora, se o produto esteja no mercado, tenha a autorização da Anvisa. É provável que a existência de normas conflitantes seja ilegal; é ridícula. E nem adianta tentar patrulhar este colunista, porque o médico é petista daqueles que fazem o Gilberto Carvalho sentir-se pouco ortodoxo.