segunda-feira, dezembro 13, 2010

A Câmara começa com a negociata dos bingos

Villas-Bôas Corrêa

Não tenho lembrança, no muito que li e que vivi nos 60 anos como repórter político, de um fim de governo tão salpicado de escândalos, denúncias, acusações, trocas de desaforos do que o melancólico ocaso do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que saboreou a sua temporada com vento a favor como um dos líderes mais populares do mundo e um governo comemorado com foguetório e discursos no lançamento de promessas e planos “como nunca se viu na história deste país”.

Pois nem na ditadura militar das torturas nas prisões, como as que castigaram a então jovem guerrilheira Dilma Rousseff, fomos presenteados com uma bagunça como a destes últimos dias.

O capítulo da novela da baixaria da votação da urgência do projeto que legaliza os bingos – um tema que alvoroça o nosso patriotismo e o respeito pela Câmara dos Deputados – e´ absolutamente incomparável. Desde a urgência e a importância nacional do tema. Legalizar os bingos é hoje um clamor nacional que ecoa pelos últimos dias dos dois mandatos do presidente Lula e da Granja do Torto onde se hospeda a presidente eleita Dilma Rousseff.

Como era previsível, 258 parlamentares votaram a favor da apreciação imediata do projeto de salvação nacional. Um a mais do que o necessário para legalizar o bingo. Mas, com a Câmara num clima de gafieira, o nobre deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) denunciou que durante a sessão fora procurado por um funcionário do Ministério da Justiça que queria barrar a aprovação do projeto porque “muita grana estava correndo para legalizar a jogatina.”

O deputado Fernando Chiarelli (PDT-SP) foi direto ao principal: “A corrupção está rolando solta. Vamos ver ali no placar quem está levando uma “graninha” para botar no bolso”. E aos detalhes: “Traficante, hoje, eu vi pelo menos uns 200 rondando por Brasília. Eles não estão nos morros do Rio de Janeiro. Estão aqui, fazendo lobby para aprovar o bingo. E os molequinhos dos traficantes vão aprovar o bingo.”

O deputado Silvio Costa (PTB-PE) quer aproveitar a boa vontade da Câmara para legalizar os cassinos. Outro atuante na maratona da legalização da jogatina é o presidente da Abrabin, Olavo Salles Oliveira. E seus argumentos são sonantes: “Se aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da Republica, a proposta permitirá a legalização com total transparência da atividade a ser exercida pelas casas de bingo, que passarão a atuar sob normas rígidas de fiscalização”.

Tanto patriotismo, despido de interesses suspeitos, chega a bulir com a emoção. E é só o começo. Falta conferir como pensa a maioria dos senadores, com a experiência dos cabelos brancos.

Para quem muito viveu e acompanhou a atividade do Congresso desde a queda do Estado Novo de Getúlio Vargas, este tipo de provocação não costuma dar certo.

E, mais uma ditadura, francamente…