segunda-feira, dezembro 13, 2010

Escrava De Jó

Sebastião Nery

RIO – É um brinquedo ou jogo de senzala, trazido da África pelos escravos. Na minha infância, na Bahia, pegava-se um punhado de pedrinhas, sentava-se na calçada ou, à noite, no chão, embaixo dos postes da rua e jogava-se os “Escravos de Jó”, em varias versões.

1. Primeira versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”.

Zambelê.

2. – Segunda versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o Zambelê ficar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”.

3. – Terceira versão :
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”

Caxangá
Os jogadores pegavam uma pedra cada um. Ao ritmo da música, cantada, entregavam sua pedra ao companheiro da direita. Em determinados momentos da letra, não soltavam a pedra e a traziam de volta, em movimentos repetidos ao som da música.,

Depois em silêncio, apenas mantendo o ritmo. E voltava-se de novo a cantar. Entregava-se a pedra e pegava-se a do jogador à esquerda. E o movimento era repetido ininterruptamente.

Até que, de repente, levava-se a pedra e não a soltava, não a passava, não a entregava, trazia a pedra de volta. E o jogo tomava um ritmo frenético. Quem se atrapalhava e errava saia do jogo.

Há divergências quanto à origem, o significado e a letra do jogo. A letra fazia alusão aos escravos que “juntavam caxangá”, uma espécie de crustáceo, de siri.

Dilma
O drama que Dilma está vivendo na “Granja do Torto” para “escolher” seu Ministério é um jogo de senzala. Ela é uma “Escrava de Jô”. Ou “Escrava de Lula”. E do PT. E era inevitável que acontecesse assim. É só uma questão vernacular: Dilma não “se elegeu”. “Foi eleita”. Tanto disse na campanha que Lula é quem mandava, que agora tem de obedecer.

Mas não precisava chegar a esse nível de submissão, de humilhação. Não sabe quem vai “ficar”, quem vai “entrar”. Em mais de 20 ministros já anunciados, até aqui ela própria só escolheu um: José Eduardo Cardozo, da Justiça.Não por acaso um nome que certamente honrará o governo e o pais.

Também na campanha, Dilma prometeu “continuidade, com um novo governo”, “em novos tempos”. E, até agora, a única novidade que apareceu foi o neto Gabriel. Que não pode ser ministro.

Arzua
Quando historias se repetem, dificilmente não levam ao ridiculo. Está no “DHBB” (Dicionário Historico Biografico Brasileiro”) :

“O paranaense Ivo Arzua candidatou-se à prefeitura de Curitiba, apoiado pelo Partido Democrata Cristão (PDC), União Democrática Nacional (UDN), Partido Trabalhista Nacional (PTN) e Partido Libertador (PL). Eleito em 7 de outubro de 1962, em agosto de 1963 participou do curso de segurança nacional promovido em Curitiba pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Participou com destaque, em âmbito estadual, do movimento político-militar de 31 de março de 1964, tendo sido um dos fundadores da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime militar então instaurado no país. Foi também professor da Escola de Oficiais Especialistas e de Infantaria d Guarda da Aeronáutica (EOEG-M.Aer.)”.

Nomeado presidente da Republica em 1967, Costa e Silva convidou Ivo Arzua para presidir o BNH (Banco Nacional de Habitação). Mas os donos das construtoras queriam que Mario Trindade continuasse no BNH e vetaram Arzua. Costa e Silva chamou-o para o ministério da Agricultura.

Arzua nada sabia de agricultura, nem a diferença entre um maxixe e um quiabo. Trancou-se durante 30 dias na cooperativa Coopavel, em Cascavel, fez um curso intensivo e assumiu o ministério da Agricultura.

Rossi
Agora, nem um curso intensivo vai fazer o Wagner Rossi, há anos vaqueiro de Michel Temer no porto de Santos (Docas de São Paulo) e na Conab, indicado para o ministério da Agricultura. Nunca viu um pé de soja:

“Em 1961, iniciou o curso de Direito na Universidade de São Paulo (USP), bacharelando-se em 1965. Começou a estudar administração de empresas na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), concluindo em 1974. Logo em seguida, prosseguiu com seus estudos superiores, tornando-se mestre em educação, na área de administração educacional pela Universidade de Campinas (Unicamp) em 1977. Em Ohio, nos Estados Unidos, doutorou-se em economia da educação” (“DHBB)”

Dilma sabe de tudo isso. Disse que exigiria “capacidade técnica e ética” dos novos ministros. E agora se revela “Escrava de Jó” não apenas de Lula e do PT, mas até do PMDB. A que abismo Dilma quer chegar?