Sérgio Rodrigues, Veja online
Com a semana chegando ao fim, a notícia do aumento de 61,83% que os parlamentares brasileiros concederão a si mesmos roubou a cena para a palavra “salário”.
É praticamente um saber etimológico de almanaque que salário vem de sal, a ponto de muita gente imaginar saquinhos literais de cloreto de sódio como moeda. Não é bem assim. O latim salarium tinha o sentido original de “remuneração paga aos soldados para a compra de sal”.
Quer dizer que o assalariado de então só podia comprar sal com seu soldo? É claro que não. Sal aí é uma metonímia que simboliza alimentos em geral, numa função parecida com a que “pão” conserva até hoje. O dicionário latino-português de Saraiva registra em textos clássicos expressões como panis cum sale (pão com sal), com o sentido de alimento de pobre, e nunquam delinget salem (nunca terei sequer um grão de sal para comer).
Como se vê, o sal, como o pão, significava o mínimo necessário à subsistência do ser humano. O salário dos políticos, salgadíssimo para o bolso da população, não poderia estar mais distante de suas raízes.