Adelson Elias Vasconcellos
Nesta edição, vocês tem o quadro que indica que a vida pública no Brasil vai de mal a pior. Não é apenas a questão da CPI do Cachoeira que embrulha todo o meio de campo, mas é toda o clima e o humor das instituições nacionais. A política no país tornou-se algo muito mais uma obrigação ao qual o eleitor é submetido, do que uma consciência individual e coletiva para mudar os rumos do que está aí.
Perguntem a qualquer cidadão comum, nas ruas, sobre o espírito que o anima a ir votar. Ele sabe e confessa que não importam nomes ou partidos, é tudo um saco de gatos, uns mais outros menos, que se atiram nas disputas eleitorais não pelo interesse de prestar um relevante serviço à sociedade, e sim para resolver a sua vida pessoal e familiar. Todos mentem, todos roubam, todos só querem tirar vantagens pessoais.
E, a cada pleito, a cada nova rodada de votações, este sentimento mais e mais vai se solidificando e se enraizando no seio da sociedade.
Hoje, o Brasil vive duas bombas políticas que poderiam mudar os rumos se de fato à elas fosse dado o respeito e atenção devidas. Uma é o mensalão que está aguardando julgamento no STF. Se o que dizem alguns ministros o julgamento sai neste ano de qualquer jeito se concretizar, e se os denunciados, ora réus, forem exemplarmente punidos, terá sinalizado o Judiciário para o restante do país, mas mormente para a classe política que limite prá tudo até para os seus crimes. Não interessa quem será atingido, é importante punir porque fatos que justifiquem a condenação é que não faltam.
O caso Cachoeira, a segunda bomba, até poderia nem ter correlação alguma, afinal trata-se da velha e surrada prática promíscua entre o público e o privado. Trata-se da manjada relação entre quem quer comprar e se dispõe a pagar o que for preciso, e quem quer vender e busca no mercado quem se dispõe a pagar o preço pedido.
Mesmo que, à primeira vista não pareça, há sim alguns elos que ligam um caso ao outro. É o que veremos maias adiante.
No caso do Mensalão o que temos é um partido que chegava ao poder com muita sede, que precisa mostrar serviço à sociedade, que trazia debaixo do braço não um projeto de país, mas um projeto de poder, e que desejasse facilitar seus caminhos. Esta facilidade seria conquistada com a cooptação do que havia de mais retrógrado no cenário político, cuja sede seria saciada com cargos e verbas. Esta era a moeda de troca, e a mercadoria seria projetos que viabilizassem a perpetuação no poder pelo partido.
Lula, cuja inteligência política não se discute, soube costurar estas alianças durante oito anos, a tal ponto que a passagem do bastão se deu de forma muito tranquila para a companheira Dilma. Sem choques, sem golpes, sem armas, com a única ferramenta com a qual se atrai um político: cargos e verbas.
Isto é feito ainda hoje, e se diz que tal relação é perfeitamente legal. Até pode ser, mas não deixa de ser imoral.
Então qual o erro do PT? A precipitação. Tendo pressa de cooptar as forças políticas que, de certa forma, comandam o processo político no Congresso, o PT quis apressar em demasia o passo, e passou a usar além das verbas orçamentárias, sejam as provenientes de emendas parlamentares, sejam as dotações ministeriais, verbas de estatais que foram canalizadas para alimentar uma rede de cooptação fora do âmbito do orçamento.
Além disso, passou a usar políticas públicas na área econômica como forma de atrair a elite empresarial para abastecer suas arcas partidárias. Isto é feito ainda hoje, ou não outra explicação para que as tais desonerações tributárias se façam apenas em determinadas áreas ou atividades, quando o justo e correto seria que elas abraçassem toda a atividade produtiva.
E é justamente aí que vamos encontrar o elo entre mensalão e cachoeira. A propósito: o contraventor não é o único personagem a se alimentar do esquema. O que não faltam ao país são centenas de cachoeiras espalhados pelo país.
Para que se atraíssem aqueles que se dispunha em comprar o que o governo pretendia vender, também foi preciso criar um gancho, uma espécie de mel de atração para as moscas se sentirem atraídas. A partir daí nasce o PAC, o Minha, Minha Vida, e outros tantos programas que nada mais são do que o mel capaz de adocicar os apetites do lucro fácil.
O Caso Cachoeira não foi um evento isolado não. O PT já havia tentado criar uma bomba relógio na operação Satiagraha que, dada as atrapalhadas de Protógenes Queiroz, então delegado encarregado de conduzir as investigações, acabou por invalidar a estratégia. Mas ali já se sintonizava, como em tantas outras operações da PF, que se buscaria articular uma operação que levasse o partido a dar um tiro de misericórdia na oposição e naqueles recalcitrantes em se alojarem nos braços do partido.
Também no campo das comunicações, o projeto de poder buscava abrir caminhos. Para tanto, utilizaram-se verbas de publicidade, cada dia mais elevadas, e com tal verba se atraía a raia miúda da mídia para mudar o tom de seus discursos e adotassem o oficialismo deturpado em favor do partido.
Reparem a reação do PT, Lula, José Dirceu e Rui Falcão, quando, de forma seletiva, a PF deixou vazar as gravações de escutas telefônicas que desnudaram o personagem de falso moralista encenado por Demóstenes Torres. Estava aberta a avenida para a deflagração de uma guerra para a qual o partido vinha armando o circo há muito tempo.
Que a CPI se realize de maneira ampla e TODOS os culpados, independente de partido, sejam exemplarmente punidos é o mínimo que se espera, certo? Porém, vejam como as armações vão se ajustando de modo indecoroso, buscando cercear as investigações a um do minuto núcleo, preferencialmente em torno apenas de oposicionistas, para que as verdades sobre seus próprios atores permaneçam ocultas!
E é aí que me solidarizo com a presidente Dilma Rousseff. Reparem como sua autoridade foi simplesmente ignorada e jogada no lixo! Não houve o menor escrúpulo quando Lula e Dirceu, aproveitando-se da ausência da presidente em viagem ao exterior, reuniram, sem prévio aviso ou autorização, alguns de seus ministros para entabularem estratégias sobre a CPI do esquema Cachoeira!
E quem perde com isso? O Brasil, basicamente. Presidentes e ditadores vão e vem. Políticos, tenham a ideologia que tiverem, também são passageiros, temporários. O que de fato permanece é o país, seu povo e suas instituições.
Quando se olha para um governo afrontado por quem mais lhe deveria apoio e respeito, para um legislativo caindo de podre, para um Judiciário que bate cabeça e que, a exemplo dos políticos, também se refestela em práticas imorais, fica uma tristeza em todos nós, uma profunda decepção, que acabam alimentando uma incontida desesperança.
Não devemos torcer por este ou aquele governo, mas sim pelo Brasil. O que restará lá frente nos diz respeito, porque afinal será o país que entregaremos aos nossos filhos. E como eles nos julgarão diante de um cenário degradado como este que assistimos com profunda melancolia?
Se fosse possível mandar um recado claro a todos os eleitores diria: não reelejam ninguém. Vamos fazer a faxina que nos cabe, mandando todos os políticos que estão aí de volta às suas vidinhas ridículas. Esqueça tradição, currículo, experiência. Ao diabo com eles todos. Vamos votar apenas em quem nunca exerceu mandato eletivo algum. E vamos cobrar-lhes resultados, de forma veemente, sob constante pressão, não lhes dando a menor chance de resvalarem para a avenida da transgressão. Vamos exigir que as promessas sejam registradas em cartório e que haja expresso compromisso de cada um deles em não cumprindo, não mais se candidatarem a coisa alguma. Dentre os compromissos, exigir que cada um renuncie os privilégios de que se fartam depois de empossados. Que vivam com os seus salários unicamente, e que os reajustes sejam de acordo com a inflação, nunca a mais nem a menos. Exigir que abram mão das dezenas de funcionários fantasmas que entopem seus gabinetes de forma inútil e onerosa.
A mesma sociedade que enfiou goela abaixo desta corriola a Lei Ficha Limpa, tem o poder, ela própria, de praticar sua faxina ética. É só querer. Nunca o país precisou tanto desta depuração, nunca o Brasil esteve tão dependente dos seus eleitores. Vamos estatizar o país para o seu povoe em beneficio apenas dele. Chega de gigolôs.

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