O Globo
Para articulista, “Cristina Kirchner protagonizou a transgressão mais importante da Argentina desde o festivo calote de Rodríguez Saá”
BUENOS AIRES — O enérgico discurso da presidente Cristina Kirchner de segunda-feira, quando comunicou a expropriação da Repsol-YPF, trouxe à memória o pronunciamento do ex-presidente Adolfo Rodríguez Saá sobre o calote da dívida pública do país, em dezembro de 2001. Em artigo publicado ontem no “La Nación” , o jornalista Joaquin Morales Solá assegurou que “Cristina Kirchner protagonizou a transgressão mais importante da Argentina desde o festivo calote de Rodríguez Saá”.
Na visão do articulista, “os Kirchner fizeram da infração uma arte e transformaram a segurança jurídica numa noção quase inexistente”. Ele lembrou a euforia que se viveu em setores da sociedade quando se deu o calote. Rodríguez Saá, que durou só uma semana no cargo, foi aplaudido no Congresso, onde estava, entre parlamentares, a presidente argentina. Segunda passada, Cristina foi aplaudida por ministros, governadores e seguidores que acompanharam o discurso transmitido por rede nacional de rádio e TV, no palácio de governo.
A decisão levou à renegociação, em 2005, de US$ 102 bilhões em bônus da dívida pública. A oferta do governo (que previu redução de 65% no valor dos papéis, reconhecendo, pela pressão internacional, juros acumulados) alcançou 76% de adesão. Uma parte dos credores não participou da reestruturação, deixando de fora US$ 20 bilhões em títulos da dívida. Em 2009, a Casa Rosada reabriu a troca de bônus e normalizou a situação de investidores que não aceitaram a oferta de 2005. O país ainda não consegue fechar acordo com o Clube de Paris, com quem tem dívida estimada em US$ 6,7 bilhões.
— É grave prejudicar a Espanha, o único país que nos ajudou na crise econômica de 2001, com um crédito de US$ 1,2 bilhão — disse Raul Ochoa, professor da Universidade Tres de Fevereiro.