Editorial
O Globo
As ligações perigosas do contraventor Carlinhos Cachoeira, que estão vindo a público desde que se descobriu no gabinete do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) uma das pontas da rede de corrupção e cooptação de autoridades montada pelo bicheiro, expõem muito mais que a falência ética e moral de homens públicos que não honram cargos e mandatos supostamente exercidos em nome dos cidadãos que lhes dão votos e lhes pagam pelo exercício da representação.
A aposta de Cachoeira no pressuposto de que o dinheiro sujo da contravenção abre portas e compra consciências é apenas uma das vertentes de uma gravíssima afronta às instituições oriunda do submundo da jogatina, contra a qual o país precisa se precaver.
Cachoeira é uma parte do jogo. Há um movimento coordenado pela contravenção, em nível nacional, para, ante as lacunas de um Código Penal que não tipifica como crime essas atividades, ganhar espaços e se impor à sociedade.
Entre outros recursos, com apelos à legalização da jogatina feitos com argumentos deliberadamente enviesados, falaciosos, para obter o apoio de incautos.
As desenvoltas ações do bicheiro goiano fazem parte do mesmo pacote no qual quadrilhas ligadas ao jogo ilegal se juntam, segundo relatórios da Polícia Federal, para fatiar o país, dividindo entre elas o controle das bilionárias bancas.
No Centro-Oeste, o capo é Cachoeira; no Rio, com ramificações no Norte, Nordeste e outras regiões do Sudeste, mandam os decanos cariocas do jogo do bicho; no Sul, quem bota banca é o paulista Ivo Noal.
A divisão territorial das áreas de ação do jogo ilegal é uma clara demonstração de que a contravenção se sofistica, adverte a PF.
Outra evidência, mais grave, a merecer a urgente revisão do Código Penal, é a associação das quadrilhas brasileiras a máfias internacionais, disso resultando uma conhecida atividade-fim — a exploração das máquinas caça-níqueis — e outras subterrâneas, como assassinatos e atos de violência como método de intimidação de rivais.
O festival de denúncias a que se assiste nas últimas semanas é de estarrecer. Com a força de uma queda d’água, o esquema de Cachoeira arrasta para a vala comum da corrupção agentes públicos dos três Poderes e empresários.
Sobretudo, mostra com preocupante cristalinidade a extensão do poder de cooptação da criminalidade.
Sabia-se, por episódios regionais, que forças montadas à margem da lei já vinham inclusive eliminando intermediários no jogo montado para lhes abrir portas nas instituições. No Rio de Janeiro, por exemplo, contraventores e grupos de milicianos, não necessariamente distintos, escalaram representantes diretos para disputar mandatos eletivos ou ocupar cargos na administração pública.
Os episódios envolvendo Cachoeira e seus acólitos revelam uma rede mais extensa — portanto, potencialmente mais perigosa, porque estende os tentáculos da contravenção a gabinetes poderosos de Brasília, de alguns estados e a balanços na iniciativa privada.
A resposta da sociedade a tais afrontas deve ser à altura: ampla, exemplar e dentro do pressuposto de que afrontas à lei devem ser inquestionavelmente punidas.