sábado, junho 04, 2011
A lealdade de Palocci, segundo o vice-presidente
Comentando a Notícia
Michel Temer, vice presidente da República e o grão-vizir do PMDB, comentando a entrevista de Palocci se saiu com esta:
“Ele [Palocci] veio a público dizer o que tinha de dizer. Acho que ele foi muito convincente e teve muita lealdade profissional com seus clientes e com aqueles que serviu”.
Bem, como Palocci foi ministro de Lula, depois, em 2006, elegeu-se deputado federal para em seguida, comandar a equipe de formação do novo governo, além de ter participado da campanha que elegeu Dilma e, sem nem um breve hiato, logo assumiu a chefia da Casa Civil, isto sem levar em conta o tempo em que foi político destacado em Ribeirão Preto onde até prefeito foi, deveria, pelo tempo que navega na vida pública, ser mais fiel às causas públicas do que privadas, não é assim?
Agora, no meio da crise que vive, sem conseguir explicar de maneira convincente seu súbito enriquecimento, sabendo-se que, profissionalmente sempre esteve mais ligado à vida pública do que privada, é no mínimo estranho esta tal lealdade a seus clientes privados. Sendo assim, é de se imaginar que Palocci resolveu ser leal aos seus clientes privados, para não comprometer sua vida pública. Faz todo sentido...
Palocci recentemente afirmou que “Perco o cargo, saio, mas não quebro o sigilo dos contratos”. Então tá: como não quebrou o sigilo e teve termpo e oportunidades suficientes para tanto, então que saia logo. Aliás, tá demorando demais, ministro, se é por falta de adeus, então...!!!
Já vai tarde
Lucia Hippolito
Apanhado com a boca na botija, desmentido por um simples caseiro.
Foi assim que ficou demonstrado que o poderosíssimo ministro da Fazenda Antonio Palocci ia, sim, constantemente a uma alegre casa de Brasília, frequentada também por amigos de Ribeirão Preto, lobistas e garotas de programa, tudo “regado” pelos recursos “não contabilizados” do mensalão.
Confrontado com os fatos, Palocci primeiro mentiu consistentemente em vários fóruns: comissões do Congresso, entrevistas, sorrisos, encontro com banqueiros e empresários amigos — amicíssimos.
Mas o caseiro insistia.
Saiu do governo demitido por Lula, por pressão da opinião pública, depois de ter comandado a violação do sigilo bancário de um cidadão indefeso, cujo único crime tinha sido o de ter reconhecido a presença de Palocci, não uma, mas inúmeras vezes na “alegre mansão dos prazeres”.
Absolvido no STF num julgamento esquisitíssimo, por cinco votos a quatro, em que o voto que o livrou de um processo foi todo construído para torná-lo réu, e subitamente no último parágrafo o livrou, Palocci se sentiu com o caminho livre para continuar suas estripulias.
Não considerou haver nenhum impedimento ético ou moral ser deputado, pertencer à Comissão de Finanças e Tributação e, ao mesmo tempo, exercer consultorias remuneradas a peso de ouro para empresas ávidas de manter boas relações com o governo petista.
Coordenador da campanha de Dilma Rousseff, alega que interrompeu suas atividades milionárias, mas curiosamente, depois que a candidata foi eleita, recebeu R$ 10 milhões de seus “consultados”.
Comprou um apartamento de mais de R$ 6 milhões e um escritório de R$ 800 mil.
Seria a empresa de Palocci o correspondente à SMP&B de Marcus Valério? Caixa de um novo mensalão?
Teria Palocci retirado uma “pequena comissão” sem avisar os companheiros petistas de São Paulo? Porque não resta dúvida que veio do PT de São Paulo a denúncia de que o ex-médico sanitarista trotskista tinha virado um capitalista sensacional e aumentado mais de 20 vezes seu patrimônio. Alguns dizem que aumentou mais de 50 vezes!
E o que faz Palocci diante da enxurrada de perguntas?
Se deu certo uma vez, por que não tentar a segunda?
Cala-se. Depois mente, mente, mente. Se aparecer um novo problema, o STF está ai mesmo para livrá-lo de mais essa.
E não é que o problema surgiu, na figura de dois “laranjas” que aparecem como donos de uma empresa que aluga o apartamento onde Palocci mora em São Paulo?!
E mais: Gesmo Siqueira dos Santos, tio de Dayvini (laranjas que formalmente aparecem como donos do imóvel), responde a 35 processos, incluindo falsificação de documentos.
Entre a biografia e o prontuário, pelo visto Palocci já escolheu o prontuário.
E não é de hoje.
A ameaça do Dr. Batochio
Sebastião Nery
RIO - 31 de março de 1964, meia-noite. O Palácio das Laranjeiras era um pesadelo. As tropas de Mourão Filho avançavam de Minas e Jango não sabia o que fazer. Chegam o governador Seixas Dória de Sergipe e o ministro Osvaldo Lima Filho, da Agricultura.Jango se tranca com os dois:
- Seixas, preciso de um favor teu. Quero que pegues amanhã bem cedo um avião da FAB e sigas para o Nordeste colhendo assinaturas em um manifesto dos governadores que tu redigirás, em apoio a mim. Acabei de falar com o Lomanto pelo telefone. Ele me leu um manifesto de que gostei muito e já mandou para os jornais de Salvador, que publicarão amanhã. Passa na Bahia, articula-te com ele e vai procurar os outros.
Seixas
Seixas conhecia sua gente. Estava incrédulo:
- O senhor já conhece a posição dos outros?
- Todos me telefonaram hipotecando solidariedade integral.
- E o Virgílio?
- Virgilio não tem problema. É meu compadre duas vezes.
- E o Petrônio?
- Petrônio é firme. É um homem de esquerda, tem me estimulado.
Manhã cedo de 1º de abril, Seixas embarcou no avião da FAB. O governador Lomanto Júnior, da Bahia, que tinha combinado ir recebê-lo no aeroporto, lá não estava. No Palácio da Aclamação, cara de pânico, assombrado, Lomanto chamou Seixas a um canto:
- A situação virou, Seixas. Jango fugiu para Brasília, Arraes está preso, perdemos a parada. Eu tinha feito um manifesto de apoio a Jango ontem à noite, que o “Jornal da Bahia”, que é matutino, chegou a publicar.
Mas já assinei outro hoje de manhã e mandei para “A Tarde”, que é vespertino, divulgar. E a televisão e as rádios também. Este segundo está bom, como eles querem. Vou te dar uma cópia, para você chegar em Sergipe e lançar lá, que é batata. Aliás, foi redigido no comando da Região. Você pode ficar tranqüilo. É só assinar, está seguro”.
Lomanto
Seixas estava perplexo :
- Sim, Lomanto, mas eu não vou fazer uma coisa desta, não. Vou para Aracajú, vou lançar um manifesto, mas dizendo exatamente o que eu pensava até ontem. Quer dizer, o que eu e você pensávamos até ontem.
- Você está dizendo, no meu Palácio, que eu não tenho palavra?
- Não. Não estou dizendo que você não tem palavra. O que eu estou dizendo, Lomanto, é que você agora tem uma palavra diferente da minha.
Seixas foi para Aracajú, leu o manifesto, saiu do Palácio preso, foi mandado para Fernando de Noronha, onde já estava Miguel Arraes e depois chegaram Djalma Maranhão, prefeito de Natal, e Mario Lima, deputado socialista e presidente do sindicato dos Petroleiros da Bahia.
Lomanto foi ao “Jornal da Bahia”, recolheu o resto da edição, mandou queimar o primeiro manifesto e voltou para o Palácio tranqüilo.
Palocci
Há duas semanas o pais espera uma palavra do chefe da Casa Civil, Palocci, sobre o apartamento de R$6,6 milhões e o escritório de R$800 mil que comprou em 2009 e, principalmente, sobre os R$20 milhões que ganhou também no ano passado, dos quais R$10 milhões depois da vitoria de Dilma, cuja campanha comandou e cuja Comissão de Transição chefiou.
O Ministério Publico Federal de Brasília já lhe pediu informações sobre as “operações”, que o ministério da Fazenda e o MP consideraram “atípicas”. E o Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel, pediu “detalhes sobre o preço e a natureza dos serviços de consultoria que prestou”, “para saber se abre investigação”. Palocci pediu 15 dias.
Batochio
E logo surgiu uma situação patética. O chefe da Casa Civil, que tem toda uma estrutura de assessoria política, jurídica e de imprensa, contratou um mestre do Direito, dos maiores advogados do pais, ex-presidente da OAB, para responder por ele. E a resposta foi um desastre, uma calamidade. .
Em artigo na pagina 3 da “Folha”, pagina de editoriais, o doutor Batochio alega que o ministro não pode explicar-se porque “a lei impõe sigilo total a contrato em que se acha estipulada clausula de confidencialidade, definindo sua violação como crime punido com prisão”.
E “insistir que sejam violadas as clausulas de sigilo é incitamento publico à pratica de crime. Pena de detenção de três a seis meses”.
O dr. Batochio nos ameaça a todos da imprensa como Médici nunca fez. E é preciso libertar urgente o Beira-Mar, o Abadia, o Nem, todos os traficantes do pais. Segundo o dr. Batochio, foram condenados ilegalmente. São inimputáveis. Distribuem a droga com cláusula de confidencialidade.
Por que só agora?
Ruy Fabiano – Blog do Noblat
Escrevo, premido pelos prazos, horas antes do já confirmado pronunciamento do ministro Antonio Palocci ao Jornal Nacional. Seja lá o que venha a revelar, uma coisa é certa: após duas semanas sangrando em público, o ministro perdeu as condições objetivas de cumprir a missão de coordenador político do governo.
Tal missão implica prestígio e autoridade, comprometidos na hemorragia política em curso. Se o ministro disser coisas altamente esclarecedoras, restará a pergunta: por que só agora? Por que a longa espera, depois de tantos danos causados à credibilidade do governo?
Sabe-se que o pronunciamento do ministro foi precedido de longos ensaios com marqueteiros e advogados, em busca da palavra exata e do argumento preciso, o que seria desnecessário se efetivamente não tivesse o que esconder.
Para alguém que foi nomeado exatamente por ser um especialista em evitar e administrar crises, é estranho que tenha permitido que ele próprio se tornasse o fator da crise.
Se tudo não passou de manobra dos inimigos, por que não vir imediatamente a público demonstrá-lo?
Deixar que a crise chegue ao nível que chegou, a ponto de exigir uma entrevista exclusiva no programa jornalístico de maior audiência, fala por si.
O caseiro Francenildo, quando posto diante de situação análoga – a suspeita de ter recebido propina, quando da quebra criminosa de seu sigilo bancário -, não precisou de nenhum prazo ou assessoria para defender-se e demonstrar que a fonte daquele valor era legítima: seu próprio pai.
Tão logo foi abordado, provou a origem do dinheiro. A verdade não dá trabalho e dispensa especialistas para veiculá-las.
Palocci, bem ao contrário, ficou mudo duas semanas. Permitiu que as piores especulações ganhassem curso, a ponto de exigir uma intervenção direta de Lula, que acabou saindo pela culatra.
Ao comentar com alguns senadores que a saída de Palocci faria “o governo Dilma se arrastar até o fim”, expôs a fragilidade política da presidente, mostrando-a carente de tutelas e intermediários.
Não deve ter sido fácil para Dilma engolir esse diagnóstico, que a deixou em condição ainda mais delicada, inclusive para demitir Palocci. Se o fizesse, seria vista como indefesa, uma órfã em busca de um novo tutor. Nada pior em política.
Seja lá o que venha a ser dito por Palocci ao JN, o certo é que fala para uma plateia no mínimo cética. Quanto mais convincentes forem seus argumentos, se é que os terá, mais forte soará a pergunta: por que só agora?
Ainda que tudo que fez seja legal – a consultoria e o sigilo dos clientes -, será difícil apagar os sinais de tráfico de influência, em face dos valores e dos cargos de poder que ocupou no período dos ganhos. E, sobretudo, a demora com que reagiu fragilizará seus argumentos.
Se a entrevista tiver o poder de mantê-lo no cargo, já não será o mesmo – nem ele, nem o governo.
O episódio teve ainda o dom de recolocar a oposição na oposição, depois de um início às avessas.
A denúncia contra Palocci partiu do próprio PT, de sua ala mais radical, fogo amigo que provocou reação de defesa da oposição a Palocci, visto, nas circunstâncias, como dos males o menor.
A exposição sistemática da gravidade do caso na mídia empurrou a oposição a seu papel, pondo em cena a possibilidade de uma CPI. O PT então viu os danos do fogo amigo e assumiu a defesa do ministro. Um caso típico de inversão coreográfica. Coisas da política – da política que temos.
As dez respostas que Palocci se esquiva de fornecer
Josias de Souza, Folha online
Angeli
Dezenove dias depois da revelação de sua fortuna, Antonio Palocci foi aos refletores. Pronunciou “explicações” que, por inconsistentes, borrifaram querosene na crise.
O ministro pede à platéia que o ouça com "boa-fé". Ou providencia um complemento ou se arrisca a perder até o benefício da dúvida. Vão abaixo dez perguntas irrespondidas:
1. Quem foram os clientes da Projeto, empresa de consultoria de Palocci?
O ministro não forneceu a lista nem à Procuradoria-Geral da República. Ao distinto público, nem pensar. “Acho que não tenho o direito de fazer a divulgação de terceiros”. Beleza. Nesse caso, Palocci deveria demitir-se. De um servidor público, exige-se a transparência do cristal, não a opacidade do copo de geléia. A sonegação dos dados estimula a suspeita de que Palocci vendeu acesso ao Estado.
2. Afinal, que tipo de serviços Palocci vendia aos seus clientes?
O ministro soou vago. Disse que trabalhou para indústrias, bancos, fundos de investimento e empresas prestadoras de serviço. Absteve-se de esmiuçar a natureza dos serviços. Incompreensível.
3. Como assegurar que Palocci não vendeu facilidades no governo do PT?
O ministro disse coisas definitivas sem definir muito bem as coisas. Jura que não defendeu interesses privados em repartições públicas. À Globo, afirmou que trabalhou para “um conjunto de empresas que pouco tem a ver com investimentos públicos”. À Folha, afirmou que “trabalhava em projetos de novos investimentos”, que, “uma vez ou outra, poderiam ser aquisição de empresas”. Mas aquisições e fusões não dependem de aprovação de órgãos governamentais? Sim, reconhece Palocci. Mas “essa parte nunca fiz”, ele alegou. Dar-lhe crédito tornou-se uma questão de fé. Coisa aceitável em igrejas, não na Casa Civil.
4. Quanto o Palocci faturou como consultor entre 2006 e 2009?
Ouça-se o ministro: “Os números da empresa são números que eu gostaria de deixar reservados porque não dizem respeito ao interesse público. [...] Respeite o direito de eu não falar em valores”. Errado. Se o que Palocci deseja é privacidade, deveria fugir do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios. Tornou-se milionário no exercício do mandato de deputado. Em quatro anos, multiplicou o patrimônio por vinte. A platéia tem direito à curiosidade.
5. Por que o faturamento de Palocci saltou para R$ 20 milhões em 2010?
O ministro atribui o salto à decisão de fechar a consultoria antes de assumir a Casa Civil. Os pagamentos foram “antecipados”. Soou confuso. À Folha, disse que “a empresa só recebeu pelos serviços efetivamente prestados até 2010”. À Globo, declarou que pingaram no final de 2010 pagamentos relativos a “serviços prestados ao longo de anos”. Inclusive coisas que “estavam previstas para ser pagas um ano depois, seis meses depois”. Faltou explicar o porquê de tamanha generosidade com um personagem que, àquela altura, coordenava a transição em nome de uma presidente eleita. Palocci era um ministro à espera da nomeação.
6. Como se explica que Palocci, consultor solitário, tenha amealhado em 2010 faturamento igual ou superior ao das maiores consultorias do país?
Em representação ao Ministério Público, senadores de oposição compararam a Projeto de Palocci com duas gigantes do ramo da consultoria. Ao atingir a marca dos R$ 20 milhões, a firma de Palocci equiparou-se à LCA, cuja equipe é “formada por mais de cem pessoas”. Superou a Tendências, que dispõe de “70 funcionários”, atende a cerca de “100 clientes” e fatura anualmente “entre R$ 13 milhões e R$ 15 milhões”. Palocci não refuta as cifras. Apenas repisou o lero-lero: seu faturamento foi maior em 2010 porque fechou o balcão. De novo, a crença depende da fé. Muita fé.
7. Por que Palocci não informou a Dilma o nome de seus clientes e o faturamento de sua empresa?
Eis o que disse o ministro: “Não achei que era adequado importunar a presidente com esse tipo de informação, esse tipo de detalhe”. Nem depois da revelação de que virara um milionário? “Não acho adequado levar essas informações à presidente”. Dilma não perguntou? “Não”. Neste caso, tem-se, além de um ministro sob suspeição, uma presidente da República inepta.
8. Como fez Palocci para separar o caixa eleitoral de Dilma da caixa registradora de sua empresa?
O ministro assegurou: “Não existe nenhum centavo que se refira a política ou campanha eleitoral” na escrituração da Projeto. Em seguida, fez declaração que desmerece a anterior. Não participou da coleta que forniu as arcas eleitorais. “Minha atividade na campanha foi política”. Nesse ponto, nem a fé estimula a crença.
9. Por que Palocci não divulga os ofícios que remeteu ao procurador-geral?
“Nenhuma informação da minha empresa é secreta”, afirmou o ministro. Mas os dados só estão disponíveis “para os órgãos de controle”. Por quê? Medo da luz do Sol.
10. Por que Palocci trocou o milionário escritório de consultoria pelo contracheque mixuruca de ministro?
Ninguém perguntou. Mas, decerto, foi por altruísmo, pelo desejo irrefreável de servir à causa pública.
É sólido mas desmancha no ar
Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação
O PMDB, que sabe para onde sopra o vento, já deu o sinal: em seu programa de TV, que foi ao ar na última quinta, falou maravilhas de Lula e pouquíssimo de Dilma. O PMDB gosta de quem tem poder e pode partilhá-lo. A pessoa mais magnífica é esquecida tão logo perde as condições de distribuir bons cargos.
A bancada governista - sem querer, naturalmente - permitiu que duas Medidas Provisórias deixassem de ser votadas, perdendo assim a validade.
Anthony Garotinho, que até já foi do PT, utiliza o caso Palocci para emparedar a presidente: ou consegue o que quer ou ajuda a complicar a vida do ministro e do Governo. Já conseguiu a retirada do kit gay, a rediscussão da lei anti-homofobia, e continua avançando. É franco: diz que o caso Palocci é um diamante que vale 20 milhões. Agora quer a aprovação da PEC 300, aquela que aumenta os salários da PM, em boa parte com dinheiro federal. Ou Palocci que se cuide.
Os cartunistas tripudiam: já chamaram a presidente até de Dilmanic, uma lembrança ao esplêndido navio que naufragou na viagem inaugural. Uma senadora, esposa de um ministro, dá ordens à presidente: ou tira Palocci agora ou fica difícil para a bancada segurá-lo no posto. Ela também é clara: os mensaleiros agiram em nome de um projeto coletivo, enquanto o de Palocci era um projeto individual. Enfiar a mão, vá lá, mas só se for para o partido.
Dilma, avessa a eventos sociais, é obrigada a receber parlamentares e ainda os acompanha à garagem na saída. Só falta exigirem que manobre os carros.
Toma que o filho é teu
Antônio Palocci foi prefeito de Ribeirão Preto pelo PT, ministro do Governo petista de Lula, deputado federal pelo PT, chefe da Casa Civil do Governo petista de Dilma. Mas, conforme diz o secretário nacional de Assuntos Institucionais do PT, Geraldo Magela, Palocci é assunto do Governo, não do PT. Só seria assunto do PT se estivesse por cima.
Como disse Machado de Assis, "ao vencedor, as batatas". Como não disse Machado de Assis, "ao perdedor, o desprezo".
Opostos, mas iguais
Mas não imagine que os problemas de Dilma dêem fôlego aos oposicionistas. Eles preferem brigar entre si. E não se trata apenas da candidatura presidencial em 2014. Em São Paulo, reduto maior do PSDB, o governador Alckmin faz o possível para liquidar Serra, seu antecessor e, digamos, aliado. Um empresário com acesso à administração diz que o massacre do serrismo não seria mais acirrado nem se o PT tivesse chegado ao Governo. Projetos que Serra engavetou ressuscitaram, projetos que ele apreciava morreram, contratos que ele assinou são examinados com lupa.
A oposição não precisa do PT: derrota-se sozinha.
Eles sujam, você paga
Há policiais militares - agentes públicos pagos por nós - em algumas quadrilhas que explodem caixas eletrônicos. Os bancos, e não é por falta de condições financeiras, não tomam conta dos caixas: comportam-se como se estivéssemos na Europa, onde o equipamento, normalmente embutido em alguma parede, dá direto na calçada. E nós, clientes dos bancos, que deveríamos ser protegidos pela PM? Nós ficamos com a culpa e o custo. A solução oficial foi fazer com que os caixas que explodirem manchem as notas. E se algum cliente pegar uma nota manchada, ele terá de dirigir-se ao gerente do banco, que a enviará para perícia, e um dia, algum dia, devolverá o valor à vítima. Se o banco estiver fechado, a ordem é fazer boletim de ocorrência numa delegacia. Que tal passar a noite esperando? Que tal convencer o plantonista da delegacia de que o BO é essencial?
Aqui, dinheiro de impostos e tarifas só cria sistemas para chatear o cidadão.
Crueldade
Local: um shopping center em Taubaté, SP. Vítima: uma criança com Síndrome de Down. Há um ano, aproximadamente, a mãe da criança levou-a para brincar na piscina de bolinhas. Depois da brincadeira, uma funcionária informou à mãe que não deixariam mais a criança entrar, porque outros clientes tinham preconceito contra portadores de Down. A mãe foi à administração do shopping, que a informou de que a criança estava bloqueada porque não havia brinquedos especiais para ela.
Qual a modificação que precisa haver numa piscina de bolinhas para que crianças com Down nelas possam brincar? A mãe processou o shopping e ganhou em primeira instância: deve receber indenização por danos morais de R$ 40 mil. A administração do shopping disse que vai recorrer. Ou seja, fizeram a besteira, foram cruéis, e agora confirmam a crueldade. A indenização não compensa o trauma da mãe, mas é uma forma de punir quem é mau.
Não tem serviço, não?
O deputado federal André Zacaroy, PMDB do Paraná, já conseguiu 150 assinaturas pedindo plebiscito sobre a união de homossexuais. É curioso: duas pessoas do mesmo sexo podem assinar o contrato que quiserem, mas não o de viver juntas? Se não prejudicarem ninguém, por que não?
O que não pode acontecer é cairmos no ridículo do Irã, onde, segundo o presidente Ahmadinejad, não há homossexuais - que, embora não existam, são enforcados. Que cada um cuide de sua vida e de seus companheiros, sem se meter na vida dos outros. Simples, não?
carlos@brickmann.com.br
www.brickmann.com.br
Por que Palocci insiste em constranger Dilma?
Leonardo Attuch, Jornal 247
A presidente não o quer mais na Casa Civil; o PT idem; e a sociedade brasileira, muito menos; apesar disso, ele demonstra imenso apego ao cargo e sinaliza que só sai demitido; que cartas o ministro tem na manga? Será chantagem?
Foto: UESLEI MARCELINO-REUTERS
Este texto é um exercício de lógica.
Premissa número 1: Dilma Rousseff não quer mais Antonio Palocci como ministro da Casa Civil. Se quisesse, não teria se reunido com todos os líderes do PMDB sem a presença do seu articulador político nem o teria obrigado a prestar esclarecimentos públicos nas entrevistas à Folha de S. Paulo e ao Jornal Nacional.
Premissa número 2: o PT também o não o quer. Se quisesse, teria divulgado uma nota de apoio na reunião da Executiva Nacional desta semana e não incentivaria o fogo amigo. Há parlamentares petistas espalhando aos quatro cantos – em off – que o partido está indignado com a apropriação de recursos de campanha pelo ministro milionário.
Premissa número 3: a sociedade brasileira, que lhe deu uma segunda chance após o escândalo Francenildo, também o rejeita. E para isso não há necessidade de Ibope, Datafolha ou Vox Populi. Basta pegar um táxi e ouvir a chamada “voz rouca das ruas”.
Diante disso, qualquer pessoa equilibrada (o que Palocci parece ser) faria o que se espera de um homem de bem: pediria para sair, evitando maiores danos a um governo que começou navegando de vento em popa, com 70% de aprovação popular, mas que vê seu capital político se esvair rapidamente. Mas, não. Palocci age de outra maneira. No Jornal Nacional, ele deixou claro que só sai demitido. Ou seja: ele insiste em constranger a presidente Dilma Rousseff.
Na entrevista à Globo, o ministro disse que não há uma crise de governo, mas apenas um problema que envolve a sua pessoa. NÃÃÃÃO, Palocci. Você está redondamente enganado e sabe muito bem disso. Se a crise não fosse de governo, um parlamentar como o carioca Anthony Garotinho não diria que Palocci é hoje um “diamante de R$ 20 milhões”, aludindo ao seu patrimônio (talvez subestimado por Garotinho). Político esperto que é, o ex-governador do Rio quer se valer da chantagem em torno do caso Palocci para aprovar a PEC 300, uma proposta de emenda constitucional, que equipara os salários dos policiais de todo o Brasil aos de Brasília, que são os mais altos do País. O tamanho da conta: R$ 40 bilhões. E se a crise não fosse de governo, os líderes do PMDB não estariam esfregando as mãos e “lambendo os beiços” dizendo que ela só acaba quando o governo entregar todos os cargos nos ministérios e no segundo escalão. O fato é que Palocci hoje custa muito caro a Dilma, ao PT, ao governo e à sociedade brasileira. Preservá-lo significa rasgar “o meu, o seu, o nosso dinheiro”, como diria Armínio Fraga – um dos ídolos de Palocci.
Sendo assim, é lícito imaginar que pode haver algo maior por trás disso. Que carta o ministro da Casa Civil tem na manga para causar tanto constrangimento a uma presidente que inspirava bons augúrios? Num texto anterior, este Brasil 247 argumentou que se Palocci não saísse rápido da Casa Civil, tornaria ré uma mulher inocente, parodiando o que Roberto Jefferson havia dito de José Dirceu na crise do Mensalão. Palocci foi o coordenador de campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010. Sabe quanto e como cada um dos doadores pagou durante o processo eleitoral. Será isso? Não parece haver outra explicação.
Mas Dilma não deveria se intimidar. Se, depois da entrevista desta sexta-feira, ela não tomar a decisão de demitir Palocci, seu governo terá jogado no lixo um capital político extraordinário, raras vezes visto na história brasileira. Seria uma pena.
O que ainda falta para a demissão?
Augusto Nunes, Veja online
O rosto pálido, as mãos trêmulas, os lábios secos, a voz gaguejante, os pigarros interrompendo a frase como vírgulas bêbadas, a impossibilidade de consumar o gesto de agarrar o copo d’água ─ os incontáveis sintomas de nervosismo bastariam para transformar a entrevista concedida por Antonio Palocci à TV Globo numa confissão de culpa. Mas o conteúdo foi pior que a forma: o chefe da Casa Civil não explicou nada. Enredou-se em fantasias desconexas, negou-se a revelar os nomes dos clientes, confundiu-se com números e porcentagens, buscou refúgio na amnésia malandra, inventou a única empresa do mundo que ganhou mais dinheiro quando resolveu fechar as portas. Palocci naufragou num palavrório tão raso que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga conseguiria atravessá-lo com água pelas canelas.
Em 17 de julho de 2005, levado às cordas pelo escândalo do mensalão, o presidente Lula fez de conta que aprendera a lição antiga como o mundo: “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentiras para justificar a primeira que você contou”, constatou numa entrevista ao Fantástico. “Trabalhar com a verdade é muito melhor”. O problema é que a verdade é incompatível com mitômanos e megalomaníacos. Portador das duas patologias, Lula seguiu contando um mentira atrás da outra. No momento, jura que o mensalão nem existiu.
Em 2006, no depoimento à Corregedoria do Senado, o caseiro Francenildo Costa repetiu, com sinceridade, a lição que Lula declamou por esperteza: “O lado mais fraco não é o do caseiro, é o da mentira”, ensinou a vítima de Palocci. “Duro é falar mentira que você tem que ficar pensando. A verdade é fácil”. Como Lula, Palocci foi longe demais para reconciliar-se com a verdade. Vai seguir mentindo até a queda, que só falta agora ser formalizada.
Se foram essas as explicações oferecidas à Procuradoria-Geral da República, Roberto Gurgel não pode alegar que ainda não conseguiu enxergar com nitidez um traficante de influência instalado na chefia da Casa Civil. Se o que tem a dizer é o que disse à Globo, a presidente Dilma Rousseff tem o dever de demiti-lo imediatamente. O que não pode ser repetido é o embuste desta sexta-feira.
Os brasileiros honestos não merecem ver pela segunda vez na TV, protagonizando o espetáculo do cinismo mal ensaiado, o homem que não merecia uma segunda chance.
“Sou laranja”, diz 'dono' do apartamento de Palocci. É seu atestado de óbito
Jornal 247
Foto: REPRODUÇÃO
Antonio Palocci morreu politicamente. O surgimento de um rapaz humilde, que aparece como proprietário de um apartamento de luxo onde ele mora em São Paulo (outro, não aquele de R$ 6,6 milhões), representa o seu fim no governo.
Antônio Palocci morreu politicamente. Ele não é mais ministro da Casa Civil e não terá mais espaço na vida pública. Nunca mais, como diria o "Corvo", de Edgar Allan Poe. Seu atestado de óbito é a reportagem desta semana da revista Veja em que o representante comercial Dayvini Costa Nunes, dono do imóvel de luxo onde ele mora em São Paulo (outro, não aquele de R$ 6,6 milhões), diz ser "laranja". A demissão é questão de horas (talvez minutos).
Em seis páginas, repletas de documentos, a reportagem de Veja entrevista Dayvini Nunes, que seria o dono da Lion e, por sua vez, dono do apartamento de luxo em que Palocci vive com a família, no bairro de Moema.
- O senhor é empresário?, pergunta a revista, cuja reportagem é assinada por Leonardo Coutinho.
“Olha ao meu redor (bairro pobre do ABC). Sou pobre. Trabalho como representante comercial e ganho 700 reais por mês.”
- Já ouviu falar na emprea Lion?
“Não. O que é isso?”
- Oficialmente, o senhor é dono da empresa.
“Nunca assinei nada. Nunca me perdiram autorização e jamais emprestei documentos.”
- Como o senhor recebe a notícia de que há uma empresa registrada em seu nome?
“Estou assustado (...)”
- O senhor sabe que é dono de um apartamento de 640 metros quadrados em Moema?
“Como assim? Nunca tive bem algum. Mas você está falando que eu tenho um apartamento ‘da hora’ em Moema?
- Sim (...). Em 2008, o senhor recebeu uma hipoteca desse apartamento, em garantia de um crédito de 233.450 reais.
“Quanto?”
- Precisamente 233.450 reais.
“Nunca tive esse dinheiro”.
- O ministro Palocci mora nesse apartamento. O senhor sabe de quem se trata?
“É o ministro que está sendo investigado(...)? Então (o apartamento) deve ser coisa boa.”
- O senhor conhece o ministro Palocci, já falou ou teve contato com ele(...)?
“Nunca”.
Mas houve uma segunda entrevista de Veja com Dayvini.
- Um homem ligou dizendo ser seu tio. O que ele quer?
“Desde que você falou comigo, não consigo dormir, por causa dessas coisas que envolvem pessoas com quem não tenho como brigar, como o Palocci, entendeu? Eu não tenho como bater de frente com essas pessoas. Sou laranja.
- O seu tio disse que o senhor sabia que era laranja.
“Ontem, quando você chegou na minha casa, estava um pouco nervoso”.
- O senhor mentiu ontem ou está mentindo agora?
“Eu menti ontem”.
Conclusão: O ministro Palocci caiu – e, de novo, porque esteve envolvido com gente humilde!
Época: Dilma tem a chance de recomeçar
Jornal 247
Revista da editora Globo chega à conclusão de que Palocci é insustentável e aposta na sua queda
Foto: REPRODUÇÃO
“Um fardo chamado Palocci.” As Organizações Globo chegaram à conclusão de que Antonio Palocci é insustentável. E esse é o título da reportagem dedicada à crise da Casa Civil na revista Época desta semana. Na reportagem, são apontados argumentos que vêm sendo levantados há vários dias pelo Brasil 247: (1) Palocci não consegue mais atuar como articulador político do governo; (2) o PT está na vanguarda do bombardeio ao ministro; (3) o custo de sua permanência (a peemedebização precoce do governo Dilma) é cada vez maior.
Trocando em miúdos, isso significa que Palocci, amigo de João Roberto Marinho, foi abandonado pelas Organizações Globo. Na segunda reportagem sobre o caso, chamada “O círculo do inferno de Palocci”, descreve-se seu apartamento de luxo. Ele tem oito quartos, meia dúzia de banheiros, piso aquecido e persiana motorizada.
O pepino de Dilma
Ruth De Aquino, Revista Época
O espetáculo de uma presidente acuada por inimigos e aliados é constrangedor
Nunca antes foi tão vertiginosa a queda em desgraça de um político acusado de multiplicar seu patrimônio à base de consultorias. Em bom português, acusado de enriquecimento ilícito por tráfico de influência. Palocci virou o pepino de Dilma. Suspeito de contaminar fatalmente o governo, ele foi abandonado por todos os partidos como se fosse portador da bactéria Escherichia coli. O que leva a crer que o alvo não seja ele, mas a presidente e seu estilo. O espetáculo de uma Dilma acuada por inimigos e aliados é constrangedor.
Não se pretende aqui defender ninguém que, até o fechamento desta coluna, se mantinha mudo. O silêncio costuma ser associado a culpa, arrogância e certeza de impunidade. Não seria nada apropriado defender Palocci com o argumento de que os R$ 20 milhões ao menos foram declarados à Receita – enquanto a multiplicação do patrimônio dos políticos à nossa custa costuma estar oculta em cofres domésticos ou no exterior.
Pior ainda seria imitar Lula. Para defender os mensaleiros, o PT, Sarney & Cia. de todos os processos por desvios de ética e de verba pública, a lenga-lenga de Lula era: “Todo mundo sempre fez assim no Brasil”. No caso de seu braço direito maranhense no Senado, a defesa era mais prosaica: “Sarney não é um homem comum”. Por isso, deveria ser poupado e blindado. Aliados e adversários eram doidos para tascar um naco da popularidade de Lula. Era o presidente teflon. Nada grudava nele.
Dilma é uma daquelas frigideiras em que tudo pega. O que incomoda no affaire Palocci é ver todos irmanados no exercício de jogar pedras – e não convencem ninguém no papel de vestais da ética. Os políticos do PMDB, do PT e do PSDB se esqueceram até de acusar a mídia de tentar derrubar o chefe da Casa Civil. No governo Lula, os jornalistas eram sempre uns irresponsáveis por divulgar verdades incômodas.
Agora, o ex-governador do Rio de Janeiro, Garotinho, do alto de sua reputação ilibada, exige que “o diamante de R$ 20 milhões” explique a origem de sua fortuna. A senadora petista Gleisi Hoffmann, mulher do ministro Paulo Bernardo, um dos nomes cotados para substituir Palocci, recomenda – sem interesse pessoal, é claro – que o chefe da Casa Civil se afaste. O PT lava as mãos e tenta dizer à nação que a crise “é do governo, não do partido”. O PMDB, na figura do vice Michel Temer, se excita por enfim se sentir em condições de negociar os cargos que a presidente adiava. Está na hora de dar o troco por estes seis meses em que a dupla Dilma-Palocci o ignorou.
Faz parte da democracia o embate entre os Três Poderes. Seria ingênuo, porém, imaginar que o Congresso defenda interesses da população ao se escandalizar com o patrimônio de Palocci. A mudança, no Planalto, de um líder populista e carismático para uma técnica de poucos sorrisos foi traumática para um Legislativo acostumado a reverências.
É preciso ter estômago e jogo de cintura para a política palaciana. Dilma pode ter descoberto que não foi talhada para isso. Imaginou que o cargo em si lhe conferia autoridade. Não basta. Ela não tem ascendência sobre sindicalistas, coronéis, caciques e cobras-corais. Lula sabia disso. Dilma convocou outro pragmático para dividir o poder. Nenhum dos dois é popular entre puxa-sacos. Dilma resistiu ao toma lá dá cá dos aspones que mamam nas tetas públicas. Acabou torpedeada de tudo que é lado. Nem ao anunciar o “Brasil sem miséria”, mais um programa para retirar milhões de brasileiros da pobreza extrema, Dilma sorriu de maneira convincente.
Foi embaraçoso ver Lula irromper de seu pseudodescanso para resgatar Dilma do isolamento. Um carimbo de desconfiança, permitido por ela. Perder seu braço direito em menos de seis meses de governo, ficar refém de Michel Temer e ser obrigada a reinventar seu temperamento para governar sem solavancos não faz bem à saúde. Mas pode tornar Dilma mais hábil. Quem sabe a saída de Palocci leve a mídia a investigar a multiplicação sonegada de patrimônio de vários chefões e chefinhos? O pepino pode não ser a causa do surto que contaminou o Planalto.
Dilma já pode repetir Lula: Ela não sabia, diz Palocci
Josias de Souza, Folha online
Lula Marques/Folha
Em entrevista aos repórteres Sérgio Dávila e Valdo Cruz, Antonio ‘Consultor’ Palocci disse que não informou à chefe os nomes de sua clientela e seu faturamento.
“Não achei adequado importunar a presidente com esse tipo de informação, esse tipo de detalhe”, declarou o mandachuva da Casa Civil.
Mesmo depois da revelação de que seu patrimônio multiplicara-se por vinte, Palocci continuou achando inadequado “levar essas informações à presidente”.
O ministro adicionou ao inacreditável uma dose de inaceitável ao revelar: Dilma não teve a curiosidade de inquiri-lo a respeito do tema que eletrifica Brasília.
Ficou entendido que, ao lado do ministro suspeito, há uma presidente da República desligada. Uma personagem cujo alheamento não condiz com o cargo.
De resto, ficou subentendido que, quando achar conveniente, Dilma pode mimetizar o Lula da fase mensaleira. Está autorizada a dizer: “Eu não sabia”.
Aqui, a íntegra da entrevista, veiculada pela Folha. Abaixo, o pedaço da conversa em que Palocci informa como desinformou Dilma:
***
- O sr. forneceu à presidente a lista dos clientes de sua consultoria antes de assumir o cargo de ministro? Quando fui convidado pela presidente Dilma para assumir o cargo de ministro, comuniquei a ela que era sócio de uma consultoria e que teria que tomar providências a respeito. Antecipei que seguiria as normas e as determinações da Comissão de Ética Pública da Presidência. Não entrei em detalhes sobre nomes dos clientes ou serviços prestados para cada um deles. Antes de minha posse, o objeto social da empresa foi alterado, todos os seus contratos e atividades encerrados e a administração de seus recursos foi repassada a uma instituição financeira.
- O sr. também não informou a presidente sobre o faturamento da empresa? Não. Não achei que era adequado importunar a presidente com esse tipo de informação, esse tipo de detalhe. O que eu disse a ela claramente era sobre a existência da empresa, o que a empresa fazia, o que eu teria de resolver antes de entrar no governo. Se a empresa continuasse funcionando, haveria conflito de interesses.
- E depois que a Folha revelou o faturamento de sua empresa em 2010? Não falo sobre faturamento. O faturamento foi 100% informado aos órgãos de controle tributário e todos os impostos foram recolhidos. A Receita nunca multou a Projeto. Nem a Prefeitura de São Paulo. A empresa teve certidões de regularidade na Receita durante todo esse período. Isso para mim é que é o importante. Não acho adequado levar essas informações à presidente.
- Mas nem depois que foi divulgado? O que ela me sugeriu, o que me orientou, é que eu desse todas as informações necessárias à Procuradoria da República e explicasse os procedimentos da empresa.
- Nem por curiosidade a presidente perguntou quem eram seus clientes e quanto o sr. faturou? Não.
Lições de Agamenon
Sebastião Nery
RIO – Agamenon Magalhães, o mais poderoso pernambucano do século passado, seminarista de Olinda, formado em Direito em 1916, deputado federal de 1924 a 30, constituinte de 1934, ministro do Trabalho de 1934 a 37, ministro da Justiça em 1937, interventor de Pernambuco de 1937 a 45, foi novamente ministro da Justiça em 1945.
“Em 22 de junho, assinou a primeira lei brasileira antitruste, chamada por seus adversários (como Assis Chateaubriand) de Lei Malaia, em alusão ao apelido de O Malaio dada ao ministro em virtude de suas feições asiáticas. O poeta Manoel Bandeira chegara a chamá-lo satiricamente de China Gordo. A lei antitruste criou a Comissão Administrativa da Defesa Econômica, o CADE” (FGV), aí até hoje.
Barbosa Lima
Fundador do PSD em 1945, constituinte de 1946, deputado federal de 1946 a 51, lançou em 1947 a candidatura a governador de Pernambuco de Barbosa Lima Sobrinho, que se elegeu.
Nas vésperas da posse, a especulação em Pernambuco era se o secretariado de Barbosa Lima seria mais indicado por Agamenon ou se por ele mesmo. No dia da posse, Barbosa Lima, através do filho de Agamenon, Paulo Germano (depois deputado de 1955 a 1959 e diretor do “Correio da Manhã”), mandou um cartão a Agamenon, comunicando-lhe o secretariado escolhido. Terminava assim :
- Meu mestre me ensinou : ninguém governa governador.
O discurso
Em 1950, a candidatura de Agamenon a governador era inevitável. O PSD lançou-o contra João Cleofas, da UDN. Agamenon ganhou, mesmo perdendo em Recife, que ele chamou de “cidade cruel”. Os amigos de Agamenon acusaram Barbosa Lima de, como governador, haver feito corpo mole e pouco participado da campanha.
Na cerimônia de posse e transmissão do governo, no salão nobre, esperava-se um grande discurso-manifesto de Agamenon. Barbosa Lima falou primeiro, prestando contas do governo e despedindo-se. Na hora de Agamenon falar, ele apenas estendeu a mão para Barbosa Lima e disse :
- Boa viagem!
E entrou para o gabinete.
Lula
É do mesmo Agamenon esta outra lição, que Palocci devia saber :
- O homem público não compra, não vende nem troca.
Em 24 de agosto de 1952, dois anos antes do suicídio de Vargas, o gigante Agamenon foi fulminado por um enfarte.
Lula não sabe dessas coisas. De poucas coisas Lula sabe, alem de um palanque armado e uma garrafinha estimulante. Mas certamente ele sabe, e sabe bem, das tretas e mutretas da inexplicável fortuna de Palocci. E já é hora de aprender a lição de Agamenon ensinada a Barbosa Lima:
- Ninguém preside presidente.
JK
Juscelino traduzia a lição de Agamenon sobre política e negócios com uma definição que Ulysses Guimarães gostava de repetir :
- O empresário pode ser político. Mas não ao mesmo tempo. Ninguém pode ser político e empresário ao mesmo tempo. Se quiser ser político, o empresário deve deixar imediatamente seus negócios. Se não, perde como político e perde como empresário.
Tudo isso está sintetizado na sabedoria de Clarice Lispector:
- Até acabar com os próprios defeitos é perigoso. A gente não sabe sobre qual deles nós construímos nosso edifício.
Gleisi
O PT está cada dia mais sentindo o estrago que o suspeitoso silencio de Palocci está fazendo ao governo de Dilma e ao próprio partido. Apesar do cerco que Palocci armou para o governo e o PT não falarem nada sobre seus misteriosos milhões multiplicados entre a vitoria e a posse de Dilma, começam a pipocar nos jornais e televisões opiniões independentes.
Senadora Gleisi Hoffman do PT do Paraná, alem de mulher do ministro das Comunicações Paulo Bernardo, dos mais próximos de Dilma:
1. - “Os mensaleiros cometeram erros graves em nome de um projeto coletivo. Esse não é o caso de Palocci” (Folha).
Edinho
2- Edinho Silva, presidente do PT de São Paulo :
- “Palocci tem esclarecimentos a dar para a nação brasileira e para os organismo do governo, e os dará” (Folha).
3 - André Vargas, secretario nacional de Comunicação do PT :
- “O Palocci deve explicações ao pais e vai dar. Tenham certeza de que vai dar, porque ele não tem nada o que esconder”.
(Se não tem nada a esconder, por que não deu até agora?).
Palocci prefere sair a quebrar sigilos de contratos; por isso, entrevista não deve abrandar crise
João Bosco Rabello, Estadão.com
Se confirmar na entrevista ao Jornal Nacional, daqui a poucas horas, o que informou a ministros e parlamentares nos últimos dias, o ministro Antonio Palocci nada acrescentará ao enredo da crise da qual é protagonista.
Ele tem se mostrado irredutível na defesa da confidencialidade dos contratos de sua empresa de consultoria, o que significa que não poderá responder aos principais questionamentos que certamente lhe fará o repórter Júlio Mosquéra.
No recente jantar oferecido pela presidente Dilma Rousseff à cúpula do Poder Judiciário, no Palácio da Alvorada, Palocci reiterou que não abrirá a carteira de clientes – e, portanto, qualquer dado mais importante que permita avaliar se ultrapassou a fronteira entre a consultoria e o tráfico de influência.
“Perco o cargo, saio, mas não quebro o sigilo dos contratos”, teria dito numa roda de conversa, segundo a versão de um dos participantes do jantar.
Do que se depreende que o mistério persistirá e o governo não terá condições de conviver com a falta de explicações que virem a página da crise e devolva a capacidade de gestão ao Planalto.
Sem apoio do PT, indisposto (por iniciativa própria) com o PMDB, e orientado juridicamente a preservar a qualquer custo o sigilo dos contratos, resta a Palocci a porta de saída.
A ironia é que deixará o governo pela segunda vez pela razão inversa da primeira: hoje, pela recusa em quebrar sigilo de contratos com empresas; ontem, por quebrar o sigilo de um indefeso caseiro.
A não ser que produza na entrevista uma surpresa na qual ninguém acredita, capaz de provar a legitimidade de sua face de consultor.
Nos meios políticos quase ninguém mais acredita que a novela da crise Palocci – que entra em seu vigésimo dia – faça aniversário de um mês.
A lista de Palocci
Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de São Paulo
Vamos falar francamente: nos meios econômicos e empresariais, o pessoal gosta muito do ministro Antonio Palocci. Entre economistas, consultores e executivos, especialmente do setor financeiro, Palocci é considerado o mentor e fiador da "racionalidade econômica" do primeiro mandato do governo Lula, que tirou o Brasil de uma crise de confiança e garantiu a continuidade da estabilidade macroeconômica.
Quando ele apareceu como "primeiro-ministro" da presidente Dilma Rousseff, esse pessoal respirou aliviado. Palocci seria a garantia contra uma guinada da política econômica na direção do que se chamaria de "desenvolvimentismo nacionalista" - categoria na qual se incluem, por exemplo, Guido Mantega (ministro da Fazenda), Fernando Pimentel (do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e, curiosamente, a economista de formação Dilma Rousseff, sempre alinhada com essa turma ao longo de sua carreira.
Aliás, Palocci, colocado ali no coração do poder, seria um sinal de que Dilma já pensa diferente, ou por convicção intelectual ou por necessidade. Não importa. O ministro da Casa Civil, informalmente anistiado ou perdoado de estripulias pessoais anteriores, aparecia de novo como inspirador da racionalidade (metas de inflação, responsabilidade nas contas públicas, câmbio flutuante e algumas privatizações) e fiador nos meios econômicos e empresariais.
Tudo isso considerado, esse pessoal acha normal que Palocci tenha ficado rico em tão pouco tempo. Como me dizia um consultor muito respeitado: "Se uma grande empresa paga R$ 40 mil para uma palestra de um Zico ou um Bernardinho, por que não pagaria, digamos, R$ 80 mil para ter Palocci conversando com seus executivos?". Que ele fizesse três consultorias dessas por mês, mais umas palestrinhas, já dava para faturar algo como R$ 3,5 milhões ao ano. Vezes quatro anos são R$ 14 milhões, menos uns 25% de impostos e custos restam R$ 10 milhões de receita acumulada. Tudo isso?
É. O ministro é médico de formação e político profissional, mas mesmo os melhores economistas se impressionaram com a experiência, o conhecimento técnico e a capacidade de gestão de política econômica adquiridos por ele. Considerando que, eleito deputado, Palocci continuava mantendo laços estreitos com o governo Lula, seu valor no mercado de palestras e consultoria certamente era bem elevado. Considerem, ainda, que esse é um mercado inteiramente livre, não tem nada tabelado nem regulamentado, vai na oferta e demanda, ou seja, o consultor cobra o que quer e a empresa contratante paga o que acha que vale.
Ou seja, estão aí definidas todas as condições para um enriquecimento legal de Palocci - quer dizer, com palestras e consultorias, sem lobbies ou, pior, tráfico de influência.
Tudo bem?
Nem tanto. Há dois problemas: primeiro, parece que há ganhos bem superiores àqueles R$ 14 milhões em quatro anos, que a nossa hipótese sugere. Segundo, ganhos tão elevados levantam a suspeita de que Palocci possa ter ido além das palestras e consultorias, caindo no pantanoso terreno de uma certa "advocacia empresarial" especializada em, digamos, quebrar galhos com o governo.
Difícil provar uma coisa e outra. Normalmente, empresas e consultores/palestrantes assinam contratos formais. No caso de palestras, é fácil comprovar: elas se realizam em dia e local certos, com público e, geralmente, com publicidade. Ou seja, há documentos e testemunhas.
No caso de consultoria é mais complicado. Pode ser, por exemplo, uma coisa bem formal - um documento escrito, contendo a análise de uma empresa, um setor, um mercado. Mas pode ser também na base da conversa. O consultor vai lá almoçar com a diretoria e submeter-se a uma saraivada de perguntas.
Aqui nascem as suspeitas. A reunião com a diretoria pode ser documentada, mas não o teor da conversa, muitas vezes sigilosa. E a pergunta ao consultor pode ser técnica - o senhor acha que a inflação vai sair de controle? - ou de negócios - como uma empreiteira como a nossa pode entrar nessa obra?
E assim caímos no terreno da credibilidade, da confiança, mas também do bom senso e do razoável. Contratante e contratado podem dizer: conversamos algumas horas sobre política econômica, conforme atas de diretoria, e o preço foi de R$ 80 mil, conforme contrato. Está caro, mas enfim...
E se aparece uma nota fiscal de R$ 2 milhões por "serviços prestados de consultoria" e nada mais?
Claro que toda a desconfiança poderia ser superada se Palocci apresentasse a lista de clientes e respectivos pagamentos. Mas, se a lista mostrasse grandes companhias nacionais e internacionais, todas com interesses diretos ou indiretos em relação ao governo, e valores de consultoria mais elevados do que o mercado conhece, então a publicidade provocaria o resultado oposto: mais suspeita.
Eis, portanto, a variável-chave para o desenrolar dessa história: a lista de clientes e preços de Palocci. Pode ser uma resposta ou a pá de cal. Certo, de qualquer modo, é que a batalha em torno da lista será fonte duradoura de desgaste.
O governo pode até conseguir barrá-la nos órgãos oficiais. Mas sempre pode vazar alguma coisa, não é mesmo?
E se Palocci cair, muda a política econômica? Em qual direção? Eis o debate que já está por aí. Tema próximo.
Apartamento em que Palocci mora pertence a empresa de fachada, em nome de uma laranja, diz revista Veja
O Globo
SÃO PAULO - Depois das suspeitas de enriquecimento irregular, com a compra de um apartamento milionário nos Jardins por R$ 6,6 milhões, agora o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, está envolvido em mais um negócio suspeito. Segundo a revista Veja publica em sua edição desta semana, Palocci reside num apartamento alugado e avaliado em R$ 4 milhões no luxuoso bairro de Moema, zona Sul de São Paulo, ao lado do Parque do Ibirapuera, mas cujos proprietários originais do imóvel confessam ter sido laranjas. O apartamento pertence à Lion Franquia e Participações Ltda, mas está registrado no 14º Ofício de Registro de Imóveis de São Paulo em nome de dois sócios: Dayvini Costa Nunes, com 99,5% das cotas, e Filipe Garcia dos Santos, com 0,5%. O problema é que Filipe tem apenas 17 anos e só foi emancipado no ano passado, enquanto que Dayvini tem 23 anos, é representante comercial, mora nos fundos de um casabre na periferia de Mauá, no ABC paulista, e é ex-funcionário da prefeitura da cidade, administrada pelo petista Oswaldo Dias. Em entrevista à revista, Dayvini se declara um pobre "laranja". Em nota, o ministro nega envolvimento com os proprietários do imóvel.
Palocci paga aluguel desse apartamento onde mora há quatro anos. Com 640 metros quadrados, o apartamento é de alto luxo. É ladeado por varandas, tem quatro suítes, três salas, duas lareiras, churrasqueira e muito luxo. Só o condomínio chega a R$ 4.600,00 e o IPTU é de R$ 2.300 por mês. Imobiliárias da região dizem que um aluguel no local custa em torno de R$ 15 mil mensais.
O problema é que o dono do imóvel, Dayvini Costa Nunes é um coitado. Já ganhou a vida como vendedor de uma loja de roupas e atualmente sobrevive transportando videogames com sua Saveiro, comprada em sessenta prestações. Deve R$ 400 a uma administradora de cartões de crédito e abandonou curso de Administração na faculdade por não conseguir pagar a mensalidade e até está sendo processado pela escola por não ter quitado o débito de R$ 3.200,00. Até seu telefone fixo e celular foram cortados por falta de pagamento. Tem um salário de R$ 700,00 e é sustentado pela mãe, uma professora da rede pública.
Dayvini não passa de um laranja, segundo a Veja, que o entrevistou esta semana em sua casa de 70 metros quadrados em Mauá.
- Estou surpreso com essa história. Nunca tive bem algum - disse Dayvini.
O nome dele começou a aparecer na escritório do imóvel onde Palocci mora em janeiro de 2008. Ele aparece como sendo beneficiário de uma hipoteca de R$ 233.450,00, que foi garantia para a compra do apartamento de Moema onde Palocci mora.
- Eu sou pobre. Como eles poderiam ainda me dever?
Em setembro de 2008, o imóvel de Dayvini foi transferido por doação para a Lion Franquia e Participações Ltda. NO dia 29 de dezembro do ano passado, quando Palocci já era tido como o principal ministro da presidente Dilma Rousseff, Dayvini assumiu 99,5% das cotas da Lion Franquia. Ele disse que jamais recebeu um centavo do aluguel de Palocci.
" Esse problema envolve pessoas com quem eu não tenho como brigar. Não tenho como bater de frente com o Palocci "
Depois dessa entrevista, Dayvini ligou para Veja na última sexta-feira, para mudar sua versão. Não negou que era "laranja" da Lion, mas afirmou que entrou no negócio para ajudar um parente.
- Eu quero tirar essas empresas do meu nome(...) Esse problema envolve pessoas com quem eu não tenho como brigar. Não tenho como bater de frente com o Palocci - disse o laranja à Veja.
Segundo a revista, a Lion usou endereços falsos em suas operações nos últimos três anos. A Lion diz ter recebido o apartamento de Gesmo Siqueira dos Santos, tio de Dayvini. Ele responde a 35 processos por fraudes em documentos, adulteração de combustível e sonegação fiscal.. Um empregada doméstica na casa dele, Rosailde Laranjeira da Silva, também foi usada como laranja em outras quatro empresas abertas por Siqueira Santos.
O outro sócio da Lion, Filipe Garcia dos Santos, forneceu ao cartório um endereço fictício no Paraná. A sede formal da Lion fica na cidade de Salto, a 100 kms da capital.
Ministro nega contato com proprietários do imóvel
A assessoria de Palocci divulgou nota neste domingo que informa que o ministro aluga o apartamento desde setembro de 2007 por meio de uma administradora de imóveis. Segundo a nota, o ministro e a família nunca tiveram contato com os proprietários do apartamento. E afirma que Palocci, como qualquer locatário, não pode ser responsabilizado por atos do seu locador.
Confira a íntegra da nota:
1. O imóvel em que vive a família do ministro Antonio Palocci Filho em São Paulo foi alugado em 1º de setembro de 2007 por indicação da imobiliária Plaza Brasil, contatada para este fim.
2. O contrato foi firmado em bases regulares de mercado entre Antonio Palocci Filho e os proprietários Gesmo Siqueira dos Santos, sua mulher, Elisabeth Costa Garcia, e a Morumbi Administradora de Imóveis.
3. O contrato foi renovado em 1º de fevereiro de 2010 entre Antonio Palocci Filho e a Morumbi Administradoras de Bens, sucessora da Morumbi Administradora de Imóveis.
4. Os alugueis são pagos regularmente através de depósitos bancários, dos quais o ministro dispõe de todos os comprovantes.
5. O ministro e sua família nunca tiveram contato com os proprietários, tendo sempre tratado as questões relativas ao imóvel com a imobiliária responsável indicada pelos proprietários.
6. O ministro, assim como qualquer outro locatário, não pode ser responsabilizado por atos ou antecedentes do seu locador.
7. A revista não informou o teor da reportagem ao ministro ou a sua assessoria, motivo pela qual estes esclarecimentos não constam da reportagem.
Palocci na Globo: o ministro preferiu confiar em órgãos públicos e deixou de lado a opinião pública
Ricardo Setti, Veja online
A entrevista do ministro Antonio Palocci ao Jornal Nacional para tentar explicar seu brutal aumento patrimonial nos últimos 4 anos – quando é que atingiremos o nível de civilização em que políticos do porte do chefe da Casa Civil se expliquem à opinião via todo o conjunto da imprensa, e não apenas à Globo? – deixou claríssima sua estratégia de defesa:
1) Tentar tirar o foco da crise do governo e da presidente Dilma — visivelmente atarantada com o vulto que as coisas tomaram –, e assumir pessoalmente a responsabilidade por ser olho do furacão.
2) Não revelar nada realmente relevante e específico à opinião pública (nomes dos clientes, valores exatos de quanto a empresa faturou em períodos determinados)
3) Prestar contas sobre as atividades de “consultoria” de sua empresa, a Projeto, e disponibilizar os dados que forem requeridos apenas e exclusivamente a órgãos públicos. (Curiosamente, na entrevista, não se mencionou a possibilidade de uma CPI do Congresso, que o governo com certeza tentaria ou tentará barrar).
Comentários sobre os 3 itens:
1) Palocci só vai retirar o foco na presidente e no governo se der passos adicionais. Parece brincadeira dizer que “não há crise nenhuma”, que o governo “trabalha normalmente”, e que a opinião pública vai se satisfazer apenas com a entrevista.
2) Num país civilizado, com políticos civilizados e procedimentos civilizados, ele revelaria, sim, os nomes das empresas.
O ministro citou um caso para mostrar os danos que empresas podem sofrer se vier à tona que foram clientes da Projeto. Mas é absolutamente viável que qualquer empresários dotado de bom senso e algum espírito público, diante do tamanho da crise que Palocci finge não existir no governo, aceitaria ser citado como cliente do ministro, se ele pedisse. Se tudo é legal e legítimo, qual é o problema?
3) O ministro mencionou vários órgãos públicos a quem prestará informações: além da Prefeitura de São Paulo, que recolheu o ISS das atividades de sua empresa, a Projeto, e não investiga nem vai investigar nada, os que interessam são: a Receita Federal (imposto de renda), a Comissão de Ética Pública da Presidência da República e a Procuradoria-Geral da República.
A Comissão de Ética Pública recebeu uma série de dados do ministro quando este tomou posse, e não tomou qualquer atitude. Seria agora que o faria? Além do mais, tudo o que pode fazer são “recomendações”.
A Receita Federal, que já teria sido municiada, não revelou qualquer contrariedade com as informações que já detém. E não custa lembrar que é subordinada ao Ministério da Fazenda, que por sua vez se reporta à presidente da República, Ministério o qual, por coincidência, foi pilotado por Palocci durante um longo período.
Resta a Procuradoria-Geral da República.
Devemos, então, todos supor que o procurador-geral Roberto Gurgel fará uso de toda a independência que, tecnicamente, guarda em relação ao Executivo para, se for o caso, investigar os números de Palocci e, em estando irregulares, tomar alguma iniciativa jurídica.
Palocci deixou claro, claríssimo, que confia em todos os órgãos públicos a quem encaminhou ou encaminhará esclarecimentos.
Agora pergunto eu: e você, confia?
Febeapá revisitado
Ricardo Galuppo (*) - Brasil Econômico
"Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos" - era um dos lemas que o cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, adotou em seu Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País. O "movimento" foi uma forma que Porto encontrou, nos anos iniciais da ditadura militar de 1964, para protestar contra o estado a que as coisas haviam chegado no Brasil.
É com esses olhos, portanto, que deve ser vista a decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal que, por um detalhe técnico que provavelmente será contornado tão logo o plenário da casa volte a se reunir, impediu o político Jader Barbalho de assumir a vaga no Senado para a qual foi eleito pelo povo do Pará. Barbalho era (e, por enquanto, ainda é) o único dos candidatos imputáveis pela Lei da Ficha Limpa impedido de tomar posse pela mais alta corte da Justiça brasileira.
Dentro de alguns dias, ou meses, não importa, a discriminação cometida contra ele será sanada pelo mesmo tribunal que o condenou - e o 1,8 milhão de paraenses que o escolheu para representar o estado no Senado terá finalmente sua vontade respeitada.
Como não foi possível restaurar a moralidade, então que todos se locupletem. Sem problemas: o Brasil já está habituado a esse filme. Só que o filme, desta vez, pode ter um desfecho bem diferente do que se imagina.
Seja como for, a recondução de Barbalho ao posto que já ocupou em mandatos passados encerra um capítulo importante na recente história do Judiciário brasileiro. Importante, sim: em março passado, o ministro Luiz Fux decidiu que a Lei da Ficha Limpa não valia para as eleições de 2010.
Na época, houve uma indignação geral contra a decisão do ministro, como se ele estivesse protegendo os políticos de uma lei que os atingia.
Na verdade, o que Fux fez foi proteger a lei daqueles que, ao defender sua aplicação imediata, colocavam sua própria existência em risco. Está certo: havia um clamor popular em torno da lei. Quanto a isso, não há a menor dúvida.
Também não há dúvida de que o Brasil precisava - e ainda precisa - de uma lei que impeça políticos de usarem a imunidade conferida pelo mandato para encobrir suas malandragens, suas safadezas e - por que não? - seus crimes.
Que a Lei da Ficha Limpa deve ser aplicada com rigor, não há dúvida. Acontece, no entanto, que o Brasil precisa se acostumar à ideia de que o Estado Democrático de Direito de que fala a Constituição tem preceitos que não podem ser alterados pela pressão nem pelo imediatismo. Entre esses preceitos, está o de que os efeitos da lei não podem retroagir.
A sabedoria da sentença de Fux, que é extremamente clara quanto à aplicabilidade da Ficha Limpa, está em evitar que o desrespeito a esse preceito servisse de base para dezenas e dezenas de ações com as quais os políticos alcançados pela lei entulhariam a Justiça nos próximos anos.
De agora em diante, não haverá recursos que lhes garantam o direito de disputar as eleições. Portanto, que o plenário do Supremo se reúna rapidamente e entregue logo o mandato a Jader Barbalho. Viremos esta página e passemos à seguinte.
(*) Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico
Dinheiro do além na eleição
Andrei Meireles e Murilo Ramos Com Marcelo Rocha, Revista Época
A saga da empresa que saiu da falência, captou R$ 67 milhões em fundos de pensão de estatais e depois bancou a campanha de quatro candidatos do PT
Os fundos de pensão envolvidos afirmam que acumulam prejuízos com a operação
A empresa doou R$ 650 mil a quatro candidatos do PT e à direção nacional do partido
O início
A sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em Brasília.
Em 2009, o então diretor, Agnelo Queiroz, renovou a autorização da Barenboim.
Meses depois, recebeu a contribuição dela para sua campanha eleitoral
Esqueça as tradicionais doações por fora de empresas em busca de favores políticos, os inesquecíveis “recursos não contabilizados” ou, ainda, os toscos pagamentos de caixa dois em sacolas com dinheiro vivo. Nas eleições de 2010, apareceu uma nova “tecnologia” no conspurcado mundo do financiamento de campanhas políticas: o doador que tem cadastro comercial, doa oficialmente, assina recibo – mas ninguém sabe quem ele é. Nem quem recebe e – só mesmo no mal-assombrado reino da política brasileira – nem sequer quem paga. A única coisa palpável é o dinheiro que chega, limpinho, aos comitês financeiros das campanhas. É como se eles fossem doadores-fantasmas.
Só que eles acabam deixando vestígios. ÉPOCA conseguiu capturar um deles. Seu nome é M Brasil Empreendimentos, Marketing e Negócios, empresa com sede no Rio de Janeiro, registrada em nome de um motoboy e de um sargento do Corpo de Bombeiros da Bahia. Ambos moram na periferia de Salvador. Nas últimas eleições, porém, a empresa distribuiu R$ 650 mil em doações a candidatos do PT.
A M Brasil deu R$ 100 mil ao Diretório Nacional do partido, R$ 300 mil ao comitê do governador eleito de Brasília, Agnelo Queiroz, e R$ 50 mil ao deputado paulista Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT. Receberam R$ 100 mil também outros dois importantes quadros petistas: o deputado distrital Chico Vigilante, de Brasília, e o candidato derrotado a deputado federal pelo Espírito Santo Guilherme Lacerda, ex-presidente do fundo de pensão dos empregados da Caixa Econômica Federal, o Funcef.
Há recibos e há transações bancárias. Mas ninguém se recorda dessas doações ou da M Brasil. O deputado Ricardo Berzoini diz que não conhece a empresa nem seus donos. Guilherme Lacerda não se lembra deles. Chico Vigilante não lembra. E os responsáveis pela campanha de Dilma não quiseram explicar se lembram. “O importante é que foi uma doação legal, não pedi e não sei quem fez. Essa situação só vai mudar quando for aprovado o financiamento público de campanha”, afirma Vigilante.
O motoboy e o sargento também não confirmam se lembram ou não. ÉPOCA descobriu que quem assina as contribuições em nome da empresa é outro sócio: o radialista Jair Marchesini, um apresentador de televisão com atuação política no Rio de Janeiro. Em 2006, ele concorreu pelo PDT a um mandato de deputado federal, mas não se elegeu. Marchesini foi responsável pelo recrutamento do bombeiro e do motoboy para a criação da M Brasil e de outras quatro empresas. Marchesini nega que eles sejam, bem, laranjas: “Não é nada disso. Eles seriam meus sócios, me ajudariam a dirigir as empresas aqui no Rio”. A acreditar nas palavras de Marchesini, o motoboy e o sargento comungariam de dons sobrenaturais. E não seria o único traço fantástico na história.
Uma história de sucesso
Como uma empresa de papel captou R$ 67 milhões de fundos de pensão e irrigou campanhas leitorais do PT
Marchesini, o homem que colheu seus dois parceiros na Bahia, também é sócio do empresário carioca Pedro Barenboim, dono de uma distribuidora de medicamentos e de uma rede de farmácias no Estado. Há três anos, as empresas de Barenboim estavam perto da falência. Para contornar o problema, ele comprou, por R$ 1.000, o controle da M Brasil. Menos de um mês depois, ela fechou o primeiro de sete contratos com diferentes fundos de pensão. Pelos contratos, os fundos compraram títulos imobiliários da M Brasil. Esses contratos renderam, entre 2008 e as eleições do ano passado, R$ 67 milhões à empresa.
Aos fundos, renderam apenas prejuízo. Entre aqueles que deram dinheiro à M Brasil constam o Cibrius, dos servidores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão subordinado ao Ministério da Agricultura, e o Faceb, mantido pelos funcionários da Companhia Energética de Brasília. Em duas operações, o Cibrius despejou R$ 13 milhões na M Brasil. De acordo com o diretor superintendente do Cibrius, Fabrício Garcia, não houve interferência política na decisão de realizar os investimentos. “Atendemos a todas as exigências técnicas necessárias”, diz. Até agora, o prejuízo do fundo com esse investimento é calculado em pouco mais de R$ 200 mil. “Vamos executar as garantias oferecidas pela M Brasil para recuperar nosso dinheiro”, afirma Garcia.
As perdas do Faceb somam cerca de R$ 130 mil, devido a atrasos no pagamento dos rendimentos por parte da M Brasil – o Faceb investira R$ 4,4 milhões nos títulos imobiliários da empresa, adquiridos em junho de 2009. O fundo dos servidores da Terracap, a empresa estatal que administra os imóveis públicos no Distrito Federal, estima prejuízos na ordem de R$ 230 mil. Permanece duvidoso o motivo por que os sete fundos investiram nos papéis da M Brasil. E todos os responsáveis dos fundos ouvidos por ÉPOCA negam que esses investimentos tenham relação com uma possível ingerência política nos fundos.
Apesar do dinheiro recebido dos fundos de pensão por meio da M Brasil, o grupo Barenboim manteve-se endividado. Os bancos credores executaram as dívidas. Agora, os fundos tentam tomar de Barenboim os imóveis dados como garantia na venda dos títulos. ÉPOCA localizou o empresário Barenboim. Ele reconheceu estar por trás da M Brasil. Mas não explicou a barafunda envolvendo a M Brasil e as doações. Disse apenas que ajudou o PT por ter se tornado um fã do ex-presidente Lula. “Também doei para a campanha do Agnelo porque acho que ele fez um bom trabalho no governo”, afirmou Barenboim.
Agnelo Queiroz foi ministro do Esporte no primeiro governo Lula e diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no segundo mandato do petista. Na Anvisa, assinou ato que beneficiou a empresa de Barenboim, contrariando regras da própria agência. Em dezembro de 2009, Agnelo renovou a autorização de funcionamento da M Brasil. No ano passado, com Agnelo fora da agência, a Anvisa indeferiu um novo pedido de renovação – há uma norma da agência que proíbe que uma mesma empresa atue como distribuidora de medicamentos e farmácia. “Vamos tentar reverter essa proibição na Justiça”, afirma Jair Marchesini, o sócio de Pedro Barenboim.
Por meio de seu advogado, Luis Alcoforado, o governador Agnelo Queiroz afirmou que os atos assinados quando estava à frente da Anvisa são legais e legítimos. “É um tempo considerável para querer identificar conexão entre o ato e a doação. Ninguém sabia, em dezembro de 2009, que Agnelo seria candidato a governador”, diz Alcoforado. Segundo ele, o governador também não conhece os donos da Barenboim. Barenboim afirma que não houve qualquer relação entre a medida de Agnelo quando estava na Anvisa e sua doação à campanha dele. “Nem sabia que ele foi diretor da Anvisa”, disse Barenboim.
O único não petista a receber dinheiro da M Brasil foi o deputado federal Fábio Faria, do PMN do Rio Grande do Norte. É um parlamentar conhecido por flanar em festas do circuito Rio-São Paulo ao lado de estrelas da televisão, como Adriane Galisteu ou Sabrina Sato. Ele recebeu R$ 50 mil. Segundo Faria, um grupo econômico interessado em investir no Rio Grande do Norte ofereceu uma doação legal a seus arrecadadores de campanha. Ele não sabe por que o recibo foi emitido em nome da M Brasil, uma empresa que ele diz nunca ter ouvido falar. “Resolvi ajudar o Fábio porque ele é meu amigo, meu amigão”, afirma Barenboim. “Não sei quem é, nunca vi esse sujeito”, diz Faria.
Alguém, na certa, está vendo fantasmas.
Assinar:
Comentários (Atom)









